Merhaba,Istambul! [1]

Mesquita Firuz Ağa

Allāhu Akbar, Allāhu Akbar, Allāhu Akbar… A madrugada mal se torna manhã, mas já ouço o som do almuadem[2] entoando o azan[3]. O pregão monocórdico desce do minarete da mesquita Firuz Ağa, do outro lado da rua. Apesar de pequena, é de 1491, um belo pequeno edifício elegante, que apesar de rodeado de espetaculares atrações bem mais notáveis, é dos poucos exemplos de mesquita do período “pré-clássico” otomano em Istambul. Sem cerimônia, o canto me desperta e faz virar na cama com um suspiro. Consulto o relógio: são 4:45 da manhã.

Embora não mais me surpreenda, pelo menos não como o fez na primeira vez, quando o ouví em Damasco, na Síria, e quase perdi a respiração, ainda me inspira. Seu soar num ponto entre a melancolia e o exotismo, carente de humor, ainda me agrada muitíssimo, contudo. Não imagino mais um homem gritando lá do alto do minarete o “vinde à oração”, pois sei que o chamado agora já não tem mais esta extravagância, que tornou-se elétrico, feito de dentro da mesquita, por um microfone e fios que levam a voz do muezzin até os alto-falantes instalados nas varandas das torres.

Meu sono durou o tempo que dura uma noite, e muito embora o sol ainda seja uma promessa que vem do Japão, que o quarto esteja escuro, penso em levantar-me. Reflito se fui feliz na escolha do lugar, se ele não me levará ao arrependimento, ainda que toda a cidade acorde com o eco de centenas de outros chamados antes da metrópole entrar em ação, de tornar-se a Istambul inquieta, nervosa, espetacular e atraente.

Oficialmente, a tênue luz que começa a tirar Istambul das sombras promete chegar plena daqui a uma hora, às 5:39, segundo informa o aplicativo do celular. Levanto-me com alguma disposição e vou à janela. Abro as cortinas que ainda vedam ao quarto a luz do Verão, embora nessas horas costume ser o estômago quem me ordena aprontar-me sem delongas. O desjejum é quem me chama, contudo, a mente e os olhos comandam o corpo como se atendessem ao chamado, não das orações, senão ao das ruas.

A incrível vista do quarto

O muezzin encerra o canto e o que avisto pela janela é um mero quadrado de janelas a três metros de distância, do espaço livre encaixotado dentro da edificação em toda a sua altura, destinado a garantir iluminação e ventilação aos quartos, já que não dão para a rua Vejo paredes mal acabadas, tubos, fios, chaminés, parabólicas desgastadas, parapeitos sujos e mal cuidados por onde cômodos mal peneirados por suas cortinas, outros sem elas, me permitem vislumbrar seus interiores sem vida. Alguns parecem escritórios, outros residências. Não curto este voyerismo inadequado e quase me envergonho dele, mas a curiosidade naqueles cômodos é mais forte. Recolho-me, contudo, temendo que um vizinho apareça e perceba minha afronta invasiva, e ele não estaria errado. Prefiro aprofundar-me na preparação do dia em vez de deter-me naquele espaço sem história e sem vida, janelas que sequer uma nesga de rua permitem. Mesmo sendo tão desconcertante o cenário, eu o fotografo com mera intenção de reportagem, de mostrá-lo aqui ao leitor. Enquanto penso nas palavras para descrevê-lo, imagino o que diria um versado em arte arquitetônica diante daquele prisma, mas o estômago se manifesta e demonstra saber que existe algo melhor a aproveitar do que aquela vista.

Ela ainda dorme e o quarto é tão pequeno que não há clima nem espaço para escrever, senão apenas para evoluir entre a cama e o banheiro. Resolvo deitar-me novamente e penso no que escreveria, se pudesse, mas a mente parece um túmulo. Olho fixamente para o teto e dispendo algum esforço derradeiro, antes da desistência, na tentativa de arrancar do cérebro alguma inspiração, mas a janela afetou-me a criatividade e minhas fontes de inspiração, além do que, a hora, convenhamos, não é favorável. O tema não é banal, contudo não consigo evoluir para nada mais que “Depois de doze horas e meia de excitação e de uma noite mal dormida no avião, chegamos bem no recém-inaugurado, espetacular maior aeroporto do mundo”. Envergonho-me da pincelada de primeira mão no que pretendo dizer nesta introdução e decido abandonar o tema. Começo então a pensar em Istambul, na bela cidade, no que viveremos aqui durante cindo dias nesta minha quinta visita. E, que, muito embora bastante familiar, será sempre maior sua capacidade de encantar-me, mais ainda que a minha de expressar-me sobre ela. É tão sedutora quanto fa primeira vez que cheguei aqui e descobri esta periferia do Oriente, esquina da Europa com a Ásia. É lugar que temo descrever como não merece, com superficialidades e desperdício de palavras. Istambul, esta eterna em sua irredutível potência histórica e patrimonial, precisa de que muito mais seja dito do que os velhos e cansados clichês como “Onde o Oriente encontra o Ocidente”, ou “Onde a Ásia encontra a Europa”.

Continuo a “anotar” na memória o que consigo arrancar do meu vazio de ideias, embora a vontade seja que uma vastidão de pensamentos jorre descontroladamente do cérebro. Registro o que é elegível para um futuro texto, mais para não me esquecer da chegada e de outras coisas que temo perder quando me dedicar a escrever. Sinto o cérebro faiscando e “escrevo” nele como se preenchesse cartões postais no balcão de uma agência dos correios. Era assim que eu fazia no século passado, antes da invenção da Internet e dos e mails, durante minha versão mais jovem de viajante, mesmo sabendo que chegariam ao destino depois de mim. Era um prazer, contudo, e eu não deixava de experimentá-lo. O tempo passou um bocado, mas permanece minha urgência de escrever e de fotografar, parceria que evoluiu desde os postais para este blog.

Saio da cama e começo o preparo para o dia. Sinto-me bem, vivo um dos melhores momentos de minha vida e estou em Istambul, o que me parece bastar. “Estamos juntos, em Istambul, é o que importa.”, penso em dizer-lhe, mas ela ainda não despertou.

Começa a esquentar a manhã e lembro-me de minha primeira vez na cidade. Foi no século passado, bem antes de Erdoğan, dos atentados com morte, das bombas, dos golpes fracassados, das oposições reprimidas, de jornalistas assassinados e das contra-pressões ao islamismo. O frio me açoitava a pele, a paisagem era sombria, o dia parecia noite, se bem me recordo, uma chocante contraposição aos dias luminosos que nos esperam. A neve cobria de branco a cidade e tornava-a quase da mesma cor do céu, de um cinza tenebroso. Dizem que raramente neva em Istambul, mas era assim que ela estava, o que hoje encaro como um privilégio, ainda que o Inverno não seja minha estação predileta para as viagens, mesmo que em muitos sítios ela proporcione um charme especial. Mas se eu pudesse escolher, se não fossem as possibilidades determinando as épocas em que viajo, viajaria apenas na Primavera, ainda mais a Istambul, quando ela se cobre de tulipas, a temperatura é um doce e tudo mais é ameno. Também já estive no Ramadã, período sagrado para os muçulmanos, quando entram em jejum de alimentos e líquidos entre o nascer e o pôr do sol de um dia. Foi bom ter passado por diferentes experiências na cidade, das nevascas ao Kurban Bayrami – a Festa do Sacrifício – um dos feriados islâmicos mais antigos na Turquia, celebrado durante os 4 dias de minha segunda visita à cidade. Neste evento, no primeiro dia os homens vão à mesquita para uma oração especial, logo de manhã cedo, e oferecem o sacrifício de um carneiro. A matança dos animais, generalizada, espalhada pela cidade, era chocante de assistir, e estava presente nas ruas, terraços de prédios e praças públicas. Não havia como ignorá-las, exceto fechando os olhos. Hoje, contudo, os turcos preferem fazer doações para a caridade ao invés de sacrificarem os animais. Deixo as memórias de lado com o som da cidade começando a encher as ruas e entrando no pequeno quarto.

Sultanahmet Meydane, a praça

Ouço o esganiçado pio das gaivotas e os primeiros sons da cidade, vozes e ruídos do bonde da rua defronte. Doze milhões habitam a urbe, em números oficiais, mas que suspeito não terem sido bem contados. É a humanidade preenchendo os espaços terrestres e, neste pedaço, começando a circular até tornarem uma das mais febris cidades que conheço. Estamos às portas da Sultanahmet Meydane, a praça que dá nome ao bairro, e a cerca de 200 metros a pé do que há de melhor do patrimônio histórico de Istambul. Quantos tesouros à vista e subterrâneos nos esperam! Penso nisso com entusiasmo e que não estamos ali para outra coisa senão sair às ruas já então começando a ficar meio pervertidas por nós, turistas e seus mesmos desejos de corromperem-se pelo mesmo ato devasso: “turistar”.

Enquanto me arrumo para o primeiro dia desta viagem, a namorada também. Ela é cúmplice de Istambul, embora não a conheça, mas traz de suas raízes o desejo de tomar Istambul para si, tal qual eu o fiz: “Istambul, a minha cidade!”. Sua vontade foi compartilhada comigo a certa altura. Disse-me ela: Tenho paixão por conhecer Istambul. Eu lhe respondi prontamente: Ora, só se for comigo!, e ali mesmo comecei a planejar a viagem à Turquia. Ela, surpresa, fez-me um olhar e explicou: Não é de hoje que desejo conhecer Istambul. É sonho que custou a se realizar, mas foi bom esperar para conhecê-la contigo. Contei-lhe (provavelmente pela terceira vez), minha história com Istambul e admiração que tenho por ela. Disse-lhe que embora a conhecesse até pelos cheiros, ainda me emocionava como a primeira vez. Os pensamentos me tomaram, tal qual ...um rio subterrâneo…, segundo Fernando Pessoa. Percebi novamente que viajar é bom, mas antes bem acompanhado do que só. E que nada se compara a viver, a ser feliz e a celebrar a vida. Preferivelmente em Istambul.

Prontos, subimos ao terraço. Diferentemente da vista do apartamento, é um verdadeiro camarote situado no último andar do hotelzinho. O céu já é azul, embora num tom ainda vago, mas parece prometer aumentar na intensidade. Vejo a rua, a praça e os bondes, árvores e minaretes. Os sons já são plenos, a urbe está acordada e penso (apenas penso) já sentir seus odores e que, a despeito de minha insignificância diante de sua tamanha grandiosidade, de meu enorme afeto e admiração por Istambul, ela parece me retribuir com generosidade especial, como se a mim ela observasse, não o contrário, como se eu e a cidade das sete colinas consolidássemos uma relação madura. A capital de impérios quase tão antiga quanto a civilização, esse esplendor que guarda patrimônios das velhas Bizâncio e de Constantinopla.

Avisto, rendido, a imagem dos telhados de Sultanahmet e os minaretes quase roçarem o parapeito do lado esquerdo do terraço. Fixo os olhos nos maiores e mais distantes, da Mesquita Azul e da Santa Sofia, incrivelmente altos, esguios, assim como suas cúpulas, todos desafiando a gravidade. Não são mais tão escuros quanto à noite, e parecem agora de prata, mas sempre pontiagudos, espetando o céu como lápis bem apontados. Parecem me indicar direções, não as do Paraíso, pois ainda é cedo para mim, mas os caminhos de um mosaico de paisagens, de histórias de conquistadores e conquistados, de impérios erguidos e desfeitos.

Avisto o mar Negro e o de Mármara também, e de como ligam-se por um estreito braço de mar a que chamam Bósforo, mas largo o suficiente para separar dois continentes, o europeu e o asiático, embora sem diferenças entre si. Agrada-me vê-la começar o dia assim, tão bem e tão cedo, quente e acolhedora, íntima e amiga, e apreciar a gentileza da cidade que agora surge suavemente, colorida, luminosa, cromática, tão diferente da Istambul que Orhan Pamuk – o romancista turco, prêmio Nobel – descreveu como sendo a de sua infância, da cor do chumbo, semiobscura, no estilo das fotografias em preto e branco. O céu vai se azulando nos tons dos azulejos de Ysnik, e neste Verão turco que vai em meio, assim permanecerá nos próximos dias, como uma ode aos seus visitantes.

Istambul. Aqui estamos para a vida real desta cidade, não mais para o sonho de uma viagem planejada e não vivida. Para ouvir cores e cheirar sons, para sentir a sinestesia que ela provoca, a combinatória entre visão, audição, olfato, paladar e tato. E, depois, Capadócia, com Istambul, os dois pilares do turismo na Turquia. E já que a Geórgia fica logo ali, por que não? Afinal, Tbilisi, sua encantadora, pequena capital, dizem ser uma surpresa que não deve deixar de ter um viajante. E, uma vez lá, com a Armênia tão próxima, uma escapada nos chama. Ai, o mundo…

A vista do terraço

Uma brisa delicada sopra do Bósforo. Desejo mais, ir além daquele instante, pôr os pés na rua, ouvir seus sons e misturar-me aos milhares de pessoas, mulheres de véus às cabeças. O vento refresca e carrega o cheiro de maresia. Vem das águas negras do estreito, que fluem do Mar Negro em direção ao de Mármara e, por fim, ao Egeu. Em breve estaremos diante de velhos homens sentados às mesas de casas de chá e narguilé, com um masbaha à mão, o “terço” muçulmano, jogando baralho, comendo, fumando e petiscando meze, o fast food turco. Aliás, come-se a sério nesta cidade. E bebe-se chá. E fuma-se cigarro também. Alguns tomam raki – a bebida alcoólica com sabor de anis, parecida com o ouzo grego, o arak árabe ou o pastis francês -, forte e servida com água misturada, quando fica turva e leitosa, degustada em copos altos e finos e acompanhada de melão e queijo feta. Enquanto fumam, alisam um gato de rua, o bicho nacional da cidade. Não é difícil para um turista procurar qualquer desculpa para trocar um punhado de palavras com alguém assim. Se o tentar, terá sucesso.

Não estamos muito cheios de tarefas, senão eu, carregado do empenho em mostrar o melhor de Istambul à namorada, submetê-la às suas tentações reais, depois da série antecipada de conversas e vídeos preparatórios. Com calma, porque temos cinco dias, que é tempo quase de sobra, e também sem que eu lhe pareça um guia turístico, senão com o desejo pretensioso de parecer-lhe um local. É tempo suficiente para percorrer lugares essenciais, mas escasso para viver a cidade em toda sua potencialidade. A isto chamo “estar” numa cidade, onde embora três dias lhe fariam boa justiça, teriam sido corridos demais. Menos, todavia, um aperitivo, que a cidade não merece e durante o qual poderíamos enjeitar ícones, e mesmo que não, deixar de ver mais do que eles. Nossa estada será em slow motion, mas eu acelerado pelo desejo de não vacilar na intenção de tornar Istambul também a sua cidade. Entregue à missão, poremos os pés descansados a percorrê-la, a senti-la e vê-la, já que por palavras gastei todas as que tinha para lhe impressionar.

A SEGUIR:
Bom dia,Istambul! A primeira manhã


[1] Alô, Istambul!

[2] Almuadem ou muezim é, no islã, o encarregado de anunciar em voz alta, do alto das almádenas (ou minaretes), o momento das cinco preces diárias. O chamamento consiste em proferir a frase Allah hu Akbar (Alá é grande), seguida da chahada, a “profissão de fé” islâmica, através da qual se atesta que “não há outro Deus para além de Alá e Muhammad é o seu profeta”. Esse chamamento (adhan) é entoado de forma melodiosa, sendo necessário que as palavras sejam bem pronunciadas.

[3]azan é a chamada para o salá (oração), feita aos muçulmanos, pelo muezim, a partir do minarete ou do exterior da mesquita, caso esta não possua minarete. Há uma segunda chamada (iqama) que convoca os fiéis a se enfileirarem para o início das orações. Por obrigação (fard), os muçulmanos fazem suas orações cinco vezes por dia. Segundo a tradição, o azan consistia originalmente numa frase simples (“Vinde à oração!”), mas o profeta Muhammad (Maomé) pediu aos seus crentes uma forma de tornar o apelo mais sofisticado. Num sonho, o companheiro Abd Allah ibn Zayd teve a visão de que os crentes deveriam ser chamados de uma forma melodiosa, que é a forma que se impôs. Os muçulmanos oram cinco vezes por dia;isso se aplica ao islamismo sunita, que é praticado na maioria dos países.Por outro lado, no Irã eles praticam o islamismo xiita e, nesse caso, oram três vezes ao dia. O horário de cada um varia de acordo com a época do ano, porque eles têm a ver com o nascer e o pôr do sol.

Os nomes de cada reza (em turco) e horários são definidos conforme a seguir: İmsak, duas horas antes do amanhecer; Güneş, pouco antes do nascer do sol; Öğle, próximo ao meio-dia, no zênite solar; İkindi, à tarde, quando as sombras dos objetos estão do tamanho exato dos objetos; Akşam, no pôr do sol, quando um novo dia se inicia, segundo o calendário Islâmico, e Yatsı à noite, quando a última luz do dia desapareceu.

Allahu Akbar (x 4) “Alá é grande, Alá é grande”; Ashhadu um la ilaha illa Allah (x 2) “Eu declaro que não há nenhum deus além de Allah”; Ashadu anna Muhammadan Rasool Allah (x 2) “Eu testemunho que Muhammad é o mensageiro de Allah”; ‘ala-s-Salah (x 2) Hayya “Vinde à oração”; Hayya’ ala-l-Falah (x 2) “Vinde à salvação”; As-salatu Khayrun Minan-nawm (x 2) “Oração é melhor que dormir”; Allahu Akbar (x 2) “Deus é o maior”; La ilaha illa Allah Não há deus senão Alá”. Obs: A parte que diz “A oração é melhor do que o sono” aplica-se apenas à primeira chamada à oração do dia, antes do amanhecer.

Turquia, Geórgia e Armênia

IntroduçãoA chuva no Rio e o Sol da Turquia

Ouça TRAVELS (de Pat Metheny), enquanto lê

São nove da manhã.  Abril já vai em meio, mas chove como em fevereiro. As águas que deveriam fechar o Verão em março varam o Outono e arrasam a cidade. Tudo com tal força que parecem querer alargar seu período. Eu deveria estar no trabalho, não em casa, mas estou involuntariamente ilhado e preocupado com o aguaceiro e suas consequências. Contudo, a despeito deste Abril de águas a mil, da cidade encharcada e das tragédias previstas, penso no contraponto aos dias ensolarados que nos esperam na Turquia. Em julho, o sol estará a pleno, o céu azul, árido de nuvens naquele lugar onde a Europa encontra a Ásia.

Com naturalidade olho para o mapa-múndi e encontro o ponto onde em breve estaremos.  O cérebro – com força quase física – faz grudar os olhos no planisfério por mais tempo de que preciso.  Observo-o, enquanto tamborilo os dedos na escrivaninha, e renovo o prazer de viajar no mapa sem saber se a mente é quem me usa ou se sou eu quem me satisfaço dela.

Sorrio, feliz, quando noto que o cérebro ainda é uma fortaleza saudável, a despeito da idade. E que guarda as recordações da vida, entre elas as da infância, que recupero agora com emoção. Lembro-me bem de que costumava viajar assim quando moleque, com a imaginação me levando a visitar países deslizando os dedos sobre eles no mapa, e me recordando dos que já “conhecia” – através dos livros e revistas, até em músicas – e dos que sonhava um dia conhecer, percorrendo desse jeito mil caminhos, mundos sem limites ou fronteiras. Então, se sou hoje um pouco do que fui, viajar parece algo unido a mim umbilicalmente e, provavelmente, também escrever e fotografar, se bem me lembro do quanto gostava de fazê-los ainda tão jovem, daqueles prazeres naturais que nasceram comigo, porque nunca alguém me disse que eu tinha que escrever, viajar e fotografar.

Penso agora em Istambul, nesta senhora cidade com muitos séculos de idade, assim como nas vezes em que nela estive. Fazem sete anos desde a última, contudo a cidade ainda vive em mim como se não houvesse o tempo. A sensação de retornar à urbe – que amei logo na primeira visita – tem o mesmo sabor do entusiasmo inaugural, embora pela quinta vez.


A preliminar foi no século passado durante um inverno tenebroso e sob um feriado religioso em que tudo se encerrava. Lúgubre, cinzenta e nada turística. Mesmo assim, quando nos “encontramos”, foi como se ela me dissesse: “quero ficar no seu corpo feito tatuagem…”. Espero jamais esquecer, morrer comigo a lembrança da sucessão de impactos formidáveis que experimentei.

Desta vez, embora já tão familiar, minha volta a Istambul, esta diáspora feliz e desejada à “minha” cidade não de origem, mas como se fosse natal, me revolve a forte correlação emocional entre mim e Istambul. Desta vez, contudo, há motivação muito especial e em prazer encantador: apresentá-la à namorada, guiá-la não mais por seu sonho de conhecer, mas de explorar a cidade pela qual que vim a saber tem forte atração.

Por que sou tão feliz em Istambul? Por que ela me parece tatuada na mente? Às vezes me pergunto se eu seria feliz assim sem tê-la conhecido? Sou outro, tantos anos depois, e não a vejo com o olhar poético de outrora, mas ela ainda é um fermento intelectual e me faz sentir saudades, como as que sinto de Damasco, hoje impossível, contudo, a mais encantadora capital do mundo árabe.

Espero logo o dia chegar para revisitar Istambul, mas que só até ali o tempo passe corrido, e de então em diante, seja lentíssimo, porque tenho apenas uma vida e quero ainda muitas oportunidades de voltar e voltar a Istambul para passear e celebrar a vida. Me apraz pensar que será sempre assim, que verei Istambul com familiaridade, embora sem negligência, e ela não deixando de seduzir, embora eu, ali, seja uma vaga presença.

 Abro as portas da imaginação e despencam da mente as imagens de romãs abertas à metade esperando serem espremidas; de senhores com testas franzidas e copos de raki à mão, concentrados em seus tabuleiros de gamão; de pombos frenéticos incentivados por vendedores de milho; do enorme espaço público defronte à entrada da Mesquita Nova, à beira-mar de Eminönü; das barracas e carrinhos de comida com vendedores à espera de compradores; de copos de chá, folhas de uva recheadas, doces de nozes, kebabs de cordeiro e frango girando no espeto, castanhas defumadas e assadas, sanduíches de peixe laminado; de pequenas ondas salpicando de água salgada as paredes do mar e as balsas o Corno de Ouro; da ponte de Galata e dos pescadores cuidando de suas varas de pesca, olhando por cima o Bósforo correndo em direção à Ásia; de mil minaretes espetando o céu, das meias cúpulas das mesquitas e madraças desenhadas há séculos por Mimar Sinann e, depois,  já na Capadócia, onde nunca estive além do desejo, passar por formações rochosas e cânions surreais, rochas contorcidas, falos rochosos apelidados de “chaminés de fada”, cogumelos gigantes de pedra em vales erodidos, cavernas artificiais com habitações trogloditas e igrejas primitivas em Göreme.

Decido, então, entregar-me ao prazer da escrita. Antes, espio pela janela e enxergo a chuva torrencial intensificar-se. A ventania é de se ouvir e as árvores de se ver tombarem. Nada inspirador. O aguaceiro, contudo, me traz lembranças de viagens chuvosas: doze dias inteiros em Portugal e outros tantos na Andaluzia sob uma chuva renitente. Aparentemente, para muitos, não há diferença entre jornadas ensolaradas ou chuvosas, já que ambas nascem e se desenrolam inspiradas no mesmo propósito, e prosseguem assim, independentemente do clima. Mas como são diferentes! Já eu assim não vejo a mesma beleza nas paisagens sem os raios de sol.

O relógio corre lento e estou longe de fazer as malas, embora pense compulsivamente em escrever o relato desta viagem. Os olhos estão aqui, mas a mente perambula por Istambul enquanto, na impossibilidade de seguir ao trabalho, aceito o ócio como oportunidade. Ponho-me a exercitar o prazer da escrita, já que é dia de não fazer nada e de curtir a falta de tarefas e preocupações. Então, para mim, que aprecio a leitura de relatos de viagens e a escrita, estes foram os motivos acidentais para tornar-me um escritor.

Claro que já tive problemas com minhas veleidades criativas e meus bloqueios intelectuais. Ao escrever hoje, sou mais resiliente, percebo que “Lutar com palavras é a luta mais vã…”, como disse Drumond de Andrade. Mas tenho paixão por elas, e sei que meu problema não se encontra nelas, senão em meus limites intelectuais e culturais. O esforço, já deve ter notado o leitor que me acompanha há mais de uma década, vem com a colheita de benefícios do exercício: ter escrito quatro livros, os quais espero publicar um dia, algumas crônicas e artigos para meu blog e noutros sítios na Internet, além de duas matérias para uma revista de viagens, com a busca do prazer, que cresce na medida em que o aprendizado avança. Foi assim comigo, razão porque reescrevi cinco vezes meu primeiro livro – “Bom dia, Addis. Adeus, Etiópia” – até o ponto em que especialistas o considerassem publicável. Mas continuo tendo inveja – saudável, é claro – dos escritores de verdade. Ela é quem aumenta o apetite pela leitura de relatos de viagens.

Estou no escritório de minha morada sentado diante do notebook. Cercado de livros, estantes, guias de viagens e recordações. Arrumo-os com capricho, fazendo cenários com os livros e objetos a eles e aos destinos relacionados. É meu espaço, minha mala de sonhos de viagens, de todas que um dia foram imaginadas e muitas que tornaram-se realidade. Há muito por trás dessas coisas. São uma ponte para o passado, tanto quanto um impulso para o futuro.

Me rodeiam dois pequenos globos terrestres, blocos de anotações, uma caneca com lápis e canetas que apanhei de hotéis no mundo, um abajur réplica de um Tiffany e um relógio bem moderno com termômetro. Estes dois últimos são os únicos bens que não se relacionam com as viagens. Decoram e servem. No mapa-múndi, acima dos olhos, pinos marcam 65 países. Olho para alguns mais detidamente e me lembro das experiências vividas em cada qual. Não coleciono países, contudo, muito me apraz contar os que já estive e revisitei. A câmera fotográfica também fica por aqui. Vejo-a desgastada por anos de uso, com cicatrizes dos maus tratos por que passou e com marcas de fricção e atrito. Com ela, eu trouxe para casa milhares de pedaços de muitos destinos, souvenirs fotográficos que revelam tanto a minha curiosidade quanto meu jeito de olhar, e hoje ilustram meus livros, este blog e minhas redes sociais. Entregam-me boas lembranças todas estas coisas e, já que ilhado estou, sento-me sabendo que escreverei.

Há tempos eu não passava uma manhã de segunda em casa. Uma segunda só minha, contemplando com olhar ora vago, ora penetrante, todos os objetos com os quais estou familiarizado. Viajando nas minhas memórias e nessas coisas carregadas de significados e lembranças, vão elas praticando suas verdades. Já não sou mais aquele moleque sentado à janela de minha casa, por onde eu imaginava o mundo e assistia a vida passar, no entanto, olho para trás e sinto o mesmo prazer quando imagino uma viagem e posso ir além, viajar sem estar na jornada. Contudo, pensar no passado é bom, mas tem muito mais charme olhar a vida à frente.

Começo a ler e a escrever sobre uma jornada sempre antes de iniciá-la, e quase sempre o faço no mesmo ambiente de casa, neste meu museu pessoal de viagens, onde cada coisa ou peça exposta funciona como nota de um lugar, inspira-me e torna o ambiente perfeito ao propósito de descrevê-las e planejá-las. Escrevo agora a introdução a este relato de viagem, cujo estilo – já conhece o leitor frequente, mas não o que aqui vem ler-me pela primeira vez – não é o de contar como foram os hotéis, quanto custaram os preços de ingressos, mostrar meu look do dia, fazer-me parecer mais importante que o destino, nem horários de funcionamento das atrações, a menos que estejam inseridos no contexto de relato. Claro que fico ao dispor de eventuais consultas neste sentido, e com prazer, mas guias turísticos já há de montão e espetaculares. Relatos de viagens é que são poucos.

Ouço Travels, obra-prima composta e tocada por Pat Metheny usando uma guitarra elétrica semi-acústica. Dá-me inspiração, ao contrário de sempre, quando a obstinação e a paciência têm predominado no meu ato de escrever. Talvez depois eu ouça Rapsódia Húngara, de Franz Liszt, como costumava fazer com meu pai, enquanto lia na sala de casa e ficávamos os dois sequestrados, ele pela leitura, eu pela música. E assim, nesta toada sentimental de boas lembranças, nesta área íntima de minha casa, lugar onde melhor se desnuda minha mente e sem qualquer vergonha que a intimidade permite, onde transito no tempo e sinto brotar do território físico as primeiras imagens e lembranças imateriais dos lugares onde estive, as paisagens e experiências que a memória descarrega adquirem outra perspectiva, findam por dar origem às palavras com que conto minhas micro-histórias de viagens.

Agora – sobre esta à Turquia e ao Cáucaso – Istambul é só um pretexto para o texto introdutório, porque minha vontade é de fazer um livro inteiro, do prefácio ao epílogo. E se há tantos lugares no mundo entre os que me apraz descrever, Istambul, cidade à qual regresso sempre como se fosse a primeira vez, está entre as primeiras. E se eu não fosse o que sou, teria me tornado escritor, passaria aqui todos os dias a fazer o que faço com tal prazer: planejar uma viagem e escrever sobre ela.

 Julho chegará e seis meses de planejamento, economia e preparação para a viagem terão se passado. As malas estarão prontas e também a cabeça. Este relato, que resulta desta viagem a Istambul, é uma revisão da cidade, onde estive a primeira vez em Março de 2000. Nada mais pretendo que refletir sua atmosfera incomparável, embora saiba que mal conseguirei arranhar a superfície do intento, senão mostrar um vislumbre de séculos de culturas e história, rabiscar sua  silhueta majestosa. Sinto nova emoção, não apenas a de revê-la, mas mostrá-la à namorada, com a qual, juntos, passaremos muitas horas em cinco dias vagando pela cidade, explorando seus bairros históricos e capturando seus traços mais notáveis e particulares. Com este relato, presto meu singelo tributo a Istambul.

A seguirCapítulo 1 – Merhaba, Istambul! [1]

[1] Alô, Istambul!

Jodhpur. Onde foi parar o azul?

No centro velho da cidade, a Torre do Relógio da Praça Sardar é um marco, e além de mostrar as horas com precisão britânica, o belo relógio espia do alto um labirinto de ruas estreitas, calmas e surpreendentemente alheias à efervescência vulcânica ao redor da torre que o abriga. A cidade se espalha para além dali, mas todo mundo parece morar naquele quadrado, porque é mesmo extraordinário, porque todos querem ficar por ali numa agitação que nunca termina.

A Praça Sardar

Protéticos, barbeiros, costureiros e vendedores instalados na praça aguardam com paciência indiana por seus clientes. Mulheres também, talvez em maior número, a maioria sentada no chão, vendendo roupas coloridas amontoadas em pequenas pilhas sobre lonas encardidas. Bancas de frutas e frituras nos convidam a saborosas, mas imprudentes experiências gustativas. Ela – a torre e seu relógio inglês -, além das ruas e das pessoas que a circundam, é vigiada mais distante pela imponente, altiva fortaleza de Mehrangarh, que soberba no alto da colina, a tudo regula.

A fortaleza de Mehrangarh, soberba, no alto da colina

Enquanto circulo e observo, cruzo com olhares bons e curiosos, interesseiros ou interessantes. Mulheres cintilam em saris coloridos, emprestam a graça e leveza que falta ao energético espaço. Homens conduzem e buzinam motonetas que parecem prestes a se desfazerem. As vacas – aqueles animais-divindade que na India, muito embora não frequentem cultos ou templos, têm-se como sagradas – ficam ali, ao Shiva dará, deitadas ou caminhando sem destino e sem que ninguém as importunem, tal como é próprio aos seres sagrados.

Olhares bons e curiosos, interesseiros ou interessantes

Cães maduros e filhotes serelepes andam entre tuk-tuks, ambulantes, pedestres, desocupados, carregadores, pedintes e mendigos. Se não me escapa nada ou ninguém, é o grupo de coisas e seres que passam ou ficam na praça, aperfeiçoando o que na Índia chamamos “bagunça”, mas que o tempo e a boa observação nos faz perceber lógica, fundamento, princípio e ordem.

A cacofonia de sons – alguns decifráveis, outros não – e a inquietação da Praça Sardar de Jodhpur podem até consumir a estabilidade mental dos visitantes, mas tudo o que se vê, se ouve, cheira, toca e experimenta é precisamente o que faz valer uma viagem ao país. Estas experiências – de contemplação ou participação – tornam a Índia este destino tão fabuloso, para além do que já encanta seu patrimônio cultural e arquitetônico. Se ainda não o tiver percebido até então, será ali, na Praça Sardar de Jodhpur, que o visitante verá consumadas todas as verdades e clichês que ouviu do país, tudo aquilo que lhe pareça tão verdadeiro quanto seu oposto, e tão confirmável quanto enganoso.

Misturam cores, do rosa ao verde, do verde ao vermelho, do laranja ao amarelo

Aquela, decididamente, é uma vida não nos pertence, mas quase podemos a senti-la como nossa. É como se houvesse um princípio ativo oculto no ar. Ele entra pelas narinas, chega aos pulmões e, depois, pela corrente sanguínea, termina no cérebro. Então, como num estado alterado de consciência, dura pouco mas consagra-se num êxtase e nos marca como cicatriz. Johdpur é mais que uma cidade que merece ser vista e terem contadas as experiências nela vividas; é para jamais esquecer. Então, como me apraz agora escrever!

Quanto melhor o envolvimento, maior o desgaste. Mas o cansaço mental, às vezes até exaustão, de alguma maneira é compensado. Os contrastes entre beleza e pobreza são invasivos, e por certo hão de ferir a sensibilidade do observador, já que antes atingem a dignidade humana. Chegam mesmo a magoar, entristecer e marcar o observador, mas são efeitos que passam, ainda que não se esqueçam. São como ferimentos que um dia doeram, mas viraram cicatrizes: não doem mais, mas lembram ter doído. E quando o coração parece cansado, o que os olhos enxergam desperta o ânimo novamente. E se chorar é natural para os mais sensíveis, sentir as lágrimas discretas e silenciosas correndo sob os olhos é parte da experiência. Ao final, entre mortos e feridos, salvamo-nos todos e, então, a Índia torna-se uma droga que depois da abstinência apela ao regresso.

Fotografo tudo com intensidade fora do comum e sinto o calor do processador da câmera esquentar a palma de minha mão. Desligo-a. Enquanto ela e meu cérebro esfriam, entramos no modo “repouso”. Deixo-me à contemplação dos pombos, que em bando agitados tiram rasantes de minha cabeça. Acompanho suas evoluções como se buscasse nelas uma tranquilidade reparadora. Volto à Terra e percebo que não teria sido tão perfeita a visita à cidade sem que tivesse vivido aqueles exaustivos, tortuosos momentos na Praça Sardar, a o lugar mais exuberante de vida em Jodhpur.

Preciso trocar dólares, digo a Gajraj, nosso guia .

Ele nos leva a uma pequena loja de chás, massalas e incensos, com a melhor variedade da cidade, especialmente o pimentão vermelho de Mathaniya e darjeelings embalados a vácuo.

O proprietário é um dos melhores cambistas da cidade, nos diz o guia.  

O sol já anuncia sua ida para o Japão quando peço para retornar à torre. Subimos quatro ou cinco degraus que levam ao seu embasamento e depois ao topo, onde chegamos ao relógio para ver seu mecanismo. Desde este plano inicial, ligeiramente elevado em relação ao da praça, assisto à vida indiana passar e compreendo ainda melhor a lógica de seu movimento enquanto os sons que misturam vozes com ruídos da rua enchem os ouvidos.

A Torre do Relógio, ou Ghanta Ghar

Construída pelo marajá Sardar Singh, é uma parte importante da história da cidade. Tem alguma beleza e atrai seu desenho, a arquitetura distinta. Cabe um olhar cuidadoso neste marco da cidade, ponto turístico que não atrai turistas, já que nenhum estava por ali disposto a pagar algumas rúpias para subir suas estreitas escadas, talvez desconfiados de sua estabilidade. No topo, conhecemos o Sr. Mohammad, homem que cuida do mecanismo e mostra como as coisas funcionam por ali.  O espaço é apertado, mas a experiência e o mecanismo do relógio valem a pena, muito embora a melhor atração seja mesmo o Sr. Mohammad. Ele e seu filho são, atualmente, as duas únicas pessoas que sabem fazer o relógio funcionar.

Um passeio pelo Summer Market e pelo Sadar Market de Johdpur

O enigma clássico indiano que emana das ruas das cidades do Rajastão confunde e enfeitiça quanto mais nos aprofundamos em seus cenários. Da praça para as vias escondidas por trás dela, os caminhos são uma sucessão de surpresas, de encontros e experiências. Arquitetura, arte, cultura, comida e gente, tudo tem o carisma especial que só se encontra na Índia.

Uma série de bazares especializados por tipos de mercadorias vendem de salwar kameez a móveis, de roupas de casamento e artesanato a calçados, de bordados, tecidos, marionetes e especiarias a alimentos, joias, brocados e pashminas, mais leite e queijo, chá, tâmaras, implementos agrícolas, frutas, verduras, legumes, produtos de beleza, flores, óleos e perfumes, especiarias, jelabi, comida e chai. cada qual tem seu nome: Sojati Gate Market, Nai Sarak, Mochi Bazaar, Kapraa Bazaar, Summer Market, Sarafa Bazaar. É preciso algum preparo para explorá-los, especialmente a companhia de um guia, pois são um emaranhado de becos antigos e movimento que confunde.

Uma loja de fantoches rajastanis me atrai especialmente. Os bonecos têm grandes olhos e roupas brilhantes, ficam pendurados por cordinhas à espera de alguém para lhes embalar e dar-lhes vida. Recordo-me das apresentações que já assisti e lembro de seus movimentos. Contam histórias dos tempos mogóis, de batalhas, romances, bravura e baladas. Ao fim da caminhada, paramos para beber um fabuloso lassi de manga com gengibre, cremoso e gelado no ponto certo, o melhor que provamos na Índia. Depois de uma hora numa loja de pashminas, encerramos a exploração dos bazares de Jodhpur.

No “caos feliz”, o Toorji Ka Jhalra, um suntuoso baoli

Ainda que pareça de outro planeta, quase uma insanidade coletiva, desorganizado na aparência, o caos que faz sentido e tem funcionalidade se dissipa assim que nos afastamos da praça e saímos dos mercados. Entramos na rua Tunwar ji ka Jhalra e continuamos por becos, até chegarmos a um grande largo onde fica Toorji Ka Jhalra, um suntuoso baoli escondido num canto da cidade velha. Poucos turistas vão até ali, apesar de seus setecentos anos de idade, intermináveis degraus feitos da mesma pedra dos palácios que conduzem a um abismo, profundo e fascinante, com pavilhões e colunas, que o torna uma preciosidade imperdível, cujo desenho intrigante tem padrão repetitivo e harmonioso. Não resisto à vontade e desço alguns degraus. Não chego à profundeza, onde fica a água verde acumulada, mas sinto o frescor. No Verão e nas monções, jovens mergulham dos degraus mais próximos à água e mulheres recolhem água em cacimbas. Observo e fotógrafo, deslumbrado, satisfeito, verdadeiramente realizado por vê-lo e registrá-lo na câmera.

Baoli Toorji Ka Jhalra

Tornei-me grande fã dos baolis desde a primeira vez que vi um destes. São construções inigualáveis que acredito só existirem na Índia. Quando programamos a viagem, selecionamos três que desejávamos visitar, entre eles o Tooriji ka Jhalra de Jodhpur, cuja lenda diz ter sido construído por uma rainha, embora a história registre que foi pelo Marajá Abhaya Singh, em 1740. Se eu tivesse dom artístico, reproduziria a imagem em rabiscos, a lápis ou em pinceladas molhadas numa aquarela em tons pastel. Registro como sei e posso, com fotos, exercendo o ato criativo que dura apenas um breve momento, o instante relâmpago, o dar e receber durante o tempo suficiente para nivelar a câmera e prender a presa fugaz em numa caixinha[1].

Baoli Toorji Ka Jhalra

Índigo blue, anil, azul. Para onde foi o azul?

Blue city?

Perto do baoli ficam as casas azuis. Eram tantas há alguns anos que deram o apelido à cidade. Diferentes explicações definem o uso da cor, embora pouco importe. Entre elas, a religiosa, pois seus residentes pertenciam à classe brâmane – a mais alta da sociedade hindu – e pintavam suas casas assim para distingui-las das demais.

Shiva também seria um motivo do azul. Afinal, o deus com corpo de homem e cabeça de elefante tem a cara dessa cor. Outra explicação mítica afirma que o fundador da cidade – Rao Jodha – mandou pintar as casas ao redor do forte para que a vista se parecesse com o mar. E por último, mas não menos importante, porque a cor azul protegeria as casas contra mosquitos, além de repelir a insolação, mantendo-as frescas.

Contudo, hoje, o apelido “Cidade Azul” parece inapropriado, pois o “mar” de casas da cor índigo que se estendia por uns dez quilômetros ao longo das muralhas da histórica cidade velha, hoje parece uma poça. O “bairro azul” já não passa de algumas ruas, mas ainda vale procurar por aquelas que insistem em manter o tom quase violeta, de anil, a cor de um dos mais antigos corantes usados pelo homem, cuja história começa exatamente na Índia.




[1] Henri Cartier-Bresson

De Agra a Jhansi, de trem, pelo Shatabdi Express

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                PARA quem já foi à Índia, e lá tenha sentido despertar uma espiritualidade inquietante, daquelas mesmo, carregadas de todos os estereótipos possíveis de caber numa cabeça, com direito à crença em todos os deuses hindus, tão poderosa que o fez jurar que sua outra vida foi na beira do Ganges, duvido que seja um indivíduo que tenha “visitado” o banheiro público da estação de Agra. Não há espiritualidade ou crença capaz de resistir àquele lugar. Mesmo a indiana. Os contrastes da imensa espiritualidade com a realidade (o sistema de castas e de culpar sempre a mulher no caso de estupros) em parte deve ter nascido ali, no banheiro da estação de Agra.

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              Um turista brasileiro, por exemplo, mesmo o mais crente, desses que acreditam até no PT, em homeopatia, em medicina alternativa, em guru indiano, em ervas curadoras milagrosas, no poder curativo do pensamento positivo, em tarô, búzios, chupa-cabra, numerologia, na previsão de futuro, em quem diz “trago seu amor em três dias” e naquelas “consultas” com astrólogos que acertam tudo de sua vida,  ali reavaliaria suas convicções.

               No país dos sem privada, o banheiro daquela estação é o túmulo de qualquer crença. Nesta e nas vidas passadas. A experiência de visitar o lugar é a mais escatológica que alguém possa ter a “oportunidade” de vivenciar. Depois daquilo, não é de se estranhar que na Índia muitos prefiram “fazer” ao ar livre, que mais de 500 milhões de pessoas naquele país evacuem a céu aberto. Parte delas nos trilhos das ferrovias, especialmente no início da manhã, antes que as multidões circulem.

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                    A Estação Agra Cantt é movimentada, mesmo nas primeiras horas da manhã. Nem tanto naquele domingo, pois não havia multidões nas amplas plataformas, contudo, nunca se está só nestas paragens. Gente sempre tem. E ali, sentada nos bancos e no chão, com ou sem bagagem, ouvindo anúncios de chegadas e partidas, não era a estação exceção à regra. Fazia muito frio. E nós estávamos ali de pé junto aos trilhos, encostados no carrinho com nossas malas quando nos deu vontade de “visitar” o banheiro. Mesmo para nós, que já estávamos em peregrinação turística pela Índia há quinze dias, teoricamente enrijecidos pelas visões de pobreza e sujeira, de toda a sorte de heróis humanos e animais tentando sobreviver, lembro de cada minuto da espera do trem. Íamos para Jhansi, esperando que o banheiro da composição fosse frequentável.

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                    Nós quatro já estávamos um pouco debilitados pela ingestão de algum veneno alimentar intestinal. Dois de nós já tivéramos as tripas reviradas, noites “dormidas” no trono, algo que nem mesmo nossas farmácias de viagem bem abastecidas e as consultas à nossa irmã médica no Brasil deram conta. Os banheiros, nestes casos de indisposição, eram o último lugar onde imaginávamos ir em busca de alívio imediato. Não há novidade nisso, muitos já se falou e não pretendo alongar-me no terma, pois quem já leu qualquer relato de viagem à Índia, sabe que banheiros públicos são o pior lugar para o alívio de diarréias. Que dirá o daquela estação. Fosse descritível seu estado, embora verdadeiramente trágico, eu preferiria “fazer” ao ar livre. Então, é um inconveniente impublicável contar-lhe sobre ele. Gosto de desafios, mas este é inconfrontável.

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                  Minutos depois, já acomodados em nossos poltronas no vagão, fui “visitar” o toalete da composição. Para os padrões indianos, sobretudo para o que havíamos visto na estação, era um paraíso para turistas indispostos em seus tortuosos, mas maravilhosos dias de viagem pela Índia. Limpo e fresco, com duchinha e papel. E não era daqueles com buraco no chão, que alguns chamam de “bacia turca”, o vaso sanitário “embutido” no chão, você tendo que fazer suas necessidades agachado, muito embora seja bastante mais conveniente porque não se precisa ter contato com o local onde outra pessoa sentou antes. Este era com vaso “normal” e perfeitamente frequentável, apesar dos pesares.

                A viagem foi ótima. Chegamos bem em Jhansi, de onde fomos de carro à incrível Orcha e depois à adorável Khajuraho.

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De volta à Índia – De Jaisalmer a Jodhpur, de carro

O Outono da minha Primavera

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                          MUITAS vezes sinto que sou o lugar onde estou. Hoje,  aqui em Jaisalmer, sou Jaisalmer.  É dia de meu aniversário,  o quinto de nossa viagem pela Índia e meu despertar foi brilhante. Descansado,  a cama já não parece cativeiro. Mas este não sou eu; acordo e me levanto, muito embora o frio hoje convide à preguiça das cobertas.  O ar também contribui para o bem-estar: já não é mais tão carregado quanto o da capital, dá-me a energia com que saio da cama, louco pela janela, não pelo banheiro. Vislumbro a cidade e sinto-me bem, afastado da rotina doméstica, bem integrado à indiana, apesar da não tão boa experiência no deserto, ontem. Observo-o agora da janela. A cidade está ao fundo e ambos têm a mesma cor.

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                           Desertos sempre me inspiram. mesmo aquele. Se alguém duvida que desertos motivem poetas, escritores,  seresteiros, namorados e fotógrafos, deveriam conhecer qualquer um.  Mesmo o de Jaisalmer, que o turismo predatório subtraiu suas melhores oportunidades de experimentarmos o romantismo que consigo encontrar neles.  Mesmo ali, em que a mente não consegue mais perambular pelas fantasias, ainda é um deserto. Sem a mais remota possibilidade de lembrarmos dos contos de Sherazade, história ali morta e enterrada pelas rodovias barulhentas às suas portas,  por montanhas de camelos com turistas em cima, acampamentos luxuosos e outros nem tanto,  shows turísticos e barraquinhas com sonoridade bombando, jipes cruzando e evoluindo nas dunas discretas e músicos à caça de turistas, aproveitadores e vendedores, areias sujas de lixo, sobretudo restos mortais daquilo que alguém um dia comeu ou bebeu.

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                       A paisagem me aquieta a mente, leva a um breve balanço dos meus anos de existência. Hoje completo mais um, estou no Outono de minha vida,  de minha pequena eternidade,  embora me sinta na Primavera. A Estação já passou, e eu nem precisava saber, pois o corpo e a pele demostram, mas sobra-me entusiasmo, ainda que eu reconheça que o “caminho” é para o Inverno, derradeira Estação da minha vida. Às vezes aparento andar meio cansado da lida, mas o vigor natural e umas vitaminas me empurram. Estou feliz., especialmente neste dia dois de Janeiro. Por estar vivo, na Índia e na companhia de três pessoas queridas. Espero – como é natural para os que passaram dos 60 e se aproximam dos 70 – com menor ansiedade, maior serenidade, o que me aguarda esta quarta-feira.

                        Vou ao desjejum e no caminho escapo ao jardim do hotel. A hora favorece o monocromatismo. Tudo se colore do tom sépia. Temos uma hora para o desjejum, quando ao final sairemos para nosso longo dia de jornada a caminho de Jodhpur. Inauguraremos nossas incursões rodoviárias pela Índia, algo estimulante e novo até aquele momento. Tenho tempo. E o café no hotel é espartano. Quinze minutos são mais do que preciso para alimentar-me.

                     Estamos num hotel em trecho aparentemente interminável de um campo seco, na beira da estrada de Jaisalmer a Jodhpur, no topo de um declive rochoso, periferia da cidade, esbarrando na fronteira com o Paquistão. Parece o último lugar da Índia antes da “terra de ninguém”. Dunas comem o asfalto e nada parece poder viver por ali. Ainda assim, encontro beleza na aridez,  mesmo subtraído – no dia anterior – de todo romantismo de meu olhar.

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                      A partida para o próximo destino é esperada com intensa expectativa, porque estradas são parte das intensas experiências que se vivem na Índia. As distâncias ali são medidas não por horas ou quilômetros, mas por experiências vividas. Ali, como nas cidades maiores, o trânsito é caótico, mas tem uma harmonia sem conflitos com a desordem. Depois de uns dias na Índia a gente continua sem compreender, mas percebe que sabe-se lá como, os envolvidos alcançam serenidade em meio ao estado geral de desordem.  Enquanto espero, delicio-me com o contraste da luz do entardecer de ontem com o desta dramaticamente brilhante manhã.  A cidade aparece inteira, enche meus olhos de sua cor e colore do mesmo tom as casas que nos rodeiam. Surpreende-me a importância daquele momento, embora pequeno. Atribuo esta marca aos mistérios que só as viagens me reservam, seus delírios perenes e fugazes que tornam-se prazeres, grudam na mente feito papel em bala Halls.

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                       Começaremos em breve nosso primeiro trecho rodoviário da viagem, uma nova experiência a vivermos na Índia. Palak, nosso amigo indiano, dirige a Van e nos protege. Nos acompanha desde o primeiro dia em Delhi e assim o fará por todo o destino. Está a postos com o sorriso discreto e genuíno recostado orgulhosamente na confortável Van Tempo[1] de 8 lugares, veículo que só se encontra na Índia. A vencer, teremos 5 horas e estimulantes 283 quilômetros, tempo e espaço que separam Jaisalmer de Jodhpur, a “cidade dourada” da “cidade azul”, os cafundós da Índia do próximo destino. A direção a seguir é noroeste, via Pokharan, pelas rodovias NH11 e NH125. Outras aventuras rodoviárias teremos depois nesta viagem, mas a primeira tem o sabor do ineditismo. A primeira vez numa estrada na Índia a gente nunca esquece, tal qual o sutiã a mocinha do anúncio da Valisére nos anos 80.

                    Palak arruma nossa bagagem no espaçoso compartimento de bagagem do carro e nos pede para conferirmos. Depois, abre a porta para que entremos, estende a mão para alcançarmos os degraus e já ao volante, pergunta:

                   – Passaportes, óculos, celulares? Não esqueceram nada?

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Pela janela do carro 

                   Partimos. A maioria dos carros estacionados no hotel também. Alguns tomaram o caminho da cidade, outros o da estrada. Eu tinha muitas razões para acreditar que seria uma viagem com boas paisagens e emoções até Jodhpur. Nos afastamos do hotel e logo passamos a fazer parte do deserto. Viagens por estrada na Índia presupõem cada parada uma atração, uma jornada quase tão boa quanto o destino. Teremos tempo para rever e organizar as fotos no computador, trocar algumas entre nós, ler, conversar, comer, apreciar a paisagem e fotografar e, quem sabe, uns bons cochilos.

                   A viagem para Jodhpur corre bem, os companheiros já aparentemente integrados ao país, um alívio pessoal, pois livrara-me do peso da culpa por tê-los influenciado. Vê-los assim é um prazer adicional, já que viajar é algo muito pessoal, intransferível, e cada destino visto pelo indivíduo segundo sua própria maneira de enxergar o mundo.

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                    Arrumo um bom lugar para pôr minha caixinha de som bluethooth e aciono o celular para tocar minha play list no Spotify com a concordância de todos. Uma das canções mais lindas entre as que tenho é dos anos 1980, composta pelo talento incomparável de Pat Matheny, cantada por Pedro Aznar e chama-se Dream of the Return[2]. Enquanto toca, sigo seus versos:

                      …Viajar la vida entera, Por la calma azul o en tormentas, zozobrar, Poco importa el modo, si algún puerto me espera…

                  Minha imaginação progride quanto mais mergulho na canção e na paisagem. São dez e meia da manhã e suponho que umas cinco horas ainda nos esperem até o destino. Às vezes, não é tanto a duração da jornada que traz sentido às viagens na Índia, mas os marcos no caminho, um álbum cultural de experiências e imagens vibrantes, neste pedaço do subcontinente, um retrato do Rajastão.

                       “…Viajar a vida inteira, Pela calma azul ou em tempestades emborcar, Pouco importa o modo, se algum porto me espera…”

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                     Volto à estrada e me lembro da máxima indiana: To drive in India you need three things; good breaks, good horn and good luck[3].  A rodovia é boa, surpreende quem espera o caos no asfalto. É bem pavimentada, tem boa sinalização e longas retas. Contudo, nem sempre a mão de direção é respeitada, motivo de alguns sustos e surpresas que nos fazem colocar as mãos no encosto da frente. Às vezes nem parece rodovia, porque trafega bem mais do que se espera numa rodovia, além de carros, motos e caminhões, camelos, macacos, vacas, bicicletas, tuc-tucs, tratores, carroças e gente, muita gente. Nos congestionamentos ocasionais, acidentes, pedágios e a trilha sonora das buzinas que nos lembram o trânsito de Delhi. Aqui e ali, brilham as mulheres rajastanis com seus trajes – ghagras, cholis e odhnis[4] – como se a estrada fosse um passeio, o acostamento fosse a “calçada”. Caminhões sobrecarregados de pellets para indústria de plásticos trafegam como podem, invariavelmente com a inscrição Horn please[5] no para-choque e exercendo o buzinaço como lhes é natural. Ônibus apinhados fazem recordar latas de sardinhas, homens carregam feixes de lenha na cabeça, bancas de legumes e verduras ficam nas margens da estrada defronte a vilarejos, carroças puxam-se por búfalos e carregam gente e mercadoria. Na Índia, a estrada pertence a todos.

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                   O trânsito do qual tanto se fala, sobretudo nas grandes cidades, para o desavisado visitante parece não obedecer aos sentidos lógicos de organização. Mão e contramão são regras subjetivas. É surpreendente, mas alguns dias no país e o curioso espectador consegue notar seus códigos, as convenções informais, a funcionalidade da bagunça. Se não fosse assim, não funcionaria, travaria. E ainda que do jeito peculiar indiano, lento e cheio de perigos, não é impossível perceber que regras existem, ainda que informais, algo bem definido no livro de Andrew Solomon[6], ”Lugares distantes: Como viajar pode mudar o mundo – que em alguns lugares do planeta”: Os únicos que dirigem em linha reta parecem ser os motoristas bêbados.

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                  Até então não encontrei guardas organizando a loucura. Nem mesmo nas cidades, o que é surpreendente para quem vem de uma megalópole como Delhi. Tampouco radares aplicando multas ou agentes de trânsito. Se existem, não os vi. Assim como nenhuma briga de trânsito. Se há governo na Índia, ele não aparece nas ruas controlando o trânsito, porque ele parece tocado por cada indivíduo, seguindo regras populares. A maneira mais fácil de compreendê-las é com a observação. Por exemplo, as buzinas. São irritantes, ensurdecedoras, infernais, extenuantes. Mas não são “loucura”, fúria levada a cabo por condutores desesperados. Não. Buzinaços ensandecidos ocorrem sim, quando por exemplo alguém atravanca o trânsito, mas, em verdade, regularmente há um código complexo o bastante para ser plenamente compreendido e praticado apenas indianos ou expatriados. Os toques nas buzinas têm múltiplas funções. Das mais óbvias – pedir passagem, avisar de algum risco (algo como “estou aqui”) – às mais informais: cumprimentar (“olá!”). E parecem existir hierarquias, tais como os mais fortes, os médios, os mais fracos. Em linhas gerais, quando dá, os mais lentos usam a pista esquerda e os mais rápidos a direita. Mas, não sei porque motivo, os tuk-tuks trafegam pela faixa central. Sempre que precisarem, por qualquer motivo, passam para outras pistas, mas retornam à sua assim que der.

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NOTAS:

[1] Force Motors Limited, montadora indiana de automóveis, conhecida como Bajaj Tempo Motors, joint venture com a Bachraj Trading Ltd. e a alemã Tempo e parcerias com as alemães como a Daimler, ZF, Bosch e a MAN.

[2] Dream of the Return – Álbum “Letter from Home” (1989) – Pat Metheny Group – Pat Metheny: Acoustic and Electric Guitars, 12 String Guitar, Soprano Guitars, Tiple Guitar. Pedro Aznar: voz

[3] Ditado popular indiano: “Para dirigir na Índia, você precisa de três coisas: bons freios, boa buzina e boa sorte”

[4] Ghagra, saia longa bordada e plissada, colorida, estampada, de seda, algodão ou crepe. Kanchli (ou choli ou kurti), vestimenta da parte superior do corpo, colorida e lisa, coladas no corpo. O toque étnico é dado por enfeites como espelhos, miçangas, lantejoulas, corais, conchas e bordados. Odhni, ou chunar, é um pedaço longo de tecido, com 2,5 metros de comprimento e 1,5 de largura, usado como véu, feito em tecido leve e transparente, bordados com contas ou outros enfeites.

[5] Buzine, por favor

[6] Andrew Solomon, um dos pensadores mais originais de nossa época, reúne neste livro escritos sobre lugares que passaram por abalos sísmicos culturais, políticos ou espirituais, um escritor de política, cultura e psicologia que vive em Nova Iorque e Londres e colabora com The New York Times, The New Yorker, Artforum, Travel and Leisure, e outras publicações.