De volta à Índia. O Túmulo de Humayun. Para o marido, com amor

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               O estilo mogol, na arte e na arquitetura, não tem autor em particular ou grupo de artistas criadores, resulta de uma consciente atuação de alguns imperadores – desde Babur, o fundador do império mogol – até Humayun, Akbar, Jahangir, Sha Jahan, Dara Shikoh e Aurangzeb, que compartilhavam grande interesse pelas artes, além de líderes de um império que cobriu grande parte da Índia em seu auge. Eram homens cruéis, guerreiros conquistadores e senhores das guerras, é verdade. Comandavam bravamente invasões e o domínio de povos mas, ao mesmo tempo, apreciadores das artes, da ciência, astronomia, filosofia, literatura e religião.

                      A dinastia muçulmana – de origem mongol-turca – que governou a maior parte do norte da Índia desde o início do século XVI até meados do século XVIII, foi notável pela habilidade de seus governantes, que através de sete gerações demonstraram talentos incomuns, da organização administrativa ao comando, sendo a mais estranha aos dominadores, a dedicação, ainda que muçulmanos, de integrarem-se com os hindus para formarem estado indiano unido.

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                      Incentivando e promovendo diversas expressões artísticas, não apenas na arquitetura e na ornamentação, também na pintura e literatura, todavia principalmente naquelas, por 250 anos financiaram gerações de arquitetos, artesãos, calígrafos, artistas, pintores, escultores, metalúrgicos, tecelões, o que resultou num estilo esteticamente sutil, delicado e elegante, ainda que robusto e grandioso, às vezes monumental, massivo o bastante para expressar poder e glória. Era a grandiosidade artística como instrumento de demonstração de poder.

                       Sempre que possível, respeitavam os padrões islâmicos cujas bases estavam na Pérsia, mas inspiradas e consumadas por Tamerlão durante o império mogol de Samarkanda, Uzbequistão, de tal maneira que as primeiras construções mogóis na Índia sejam interpretadas estilisticamente como meras recriações do estilo timúrida de Tamerlão, embora da arte persa, da corte safávida de Isfahan, tenha-se originado, contudo, mais tarde, tendo adquirido na Índia sua personalidade e desenhos muito próprios. Talvez por isso os persas desprezassem as cortes islâmicas da Índia, que definiam os mogóis como gente de um senso estético que não lhes agradava, tendo sua arte sido influenciada demais pela hindu, se “arredondado” demais e tornado menos brilhante e colorida que a expressa nos mosaicos cerâmicos persas e timúridas.

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                 Carecia, diziam aqueles, de classicismo, de contenção, estavam longe da perfeição geométrica da safávida, ainda que inconfundível, de notável individualidade e de um bom gosto irretocável aos olhos do resto do mundo. Mesmo um não conhecedor, depois de uns dias na Índia, dificilmente deixará de reconhecer que aquele monumento ou trabalho pertence ao período mogol, sejam os expressos nas fachadas e ornamentações internas, sejam os demonstrados em minuciosas pinturas de cenas do império e nas artes decorativas, tal sua distintiva personalidade.

                 Uma obra prima arquitetônica que quase consagra toda a perfeição e beleza do estilo mogol, o imenso mausoléu de Humayun, ainda que este seja apenas um dos exemplos da fabulosa arte voltada à arquitetura, mesmo em Delhi, onde, por exemplo, a mesquita Qila-I-Kuhna, dentro da cidadela de Purana Qila – ou Old Fort, chega à perfeição. Este túmulo, declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO, em 1993, foi obra desenhada por arquitetos de Bukhara, no Uzbequistão, a pátria timúrida, dinastia da qual os mogóis são extensão. É comum apelidarem o túmulo de Humayun como “Taj Mahal de Delhi”, embora haja enormes diferênças entre ambas, todavia, a magnífica necrópole – em cujo silêncio sereno de suas pedras cor-de-rosa Humayun repousa em paz – também pode ser uma prova de amor.

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                  O quinto imperador mogol – Shah Jahan – talvez seja o personagem mais romântico da Índia, pois construiu o Taj Mahal, o mais espetacular túmulo do planeta, monumento em memória de sua esposa, Mumtaz Mahal,. Merece o título, não há dúvidas, mas poucos sabem que sua inspiração veio de sua bisavó, Hamida Banu Begum, esposa do segundo imperador mogol, Humayun que, dizem, construiu a Tumba de Humayun, o primeiro do subcontinente indiano cercado por um jardim – o Char Bagh –  que também impressiona pela megalomania, pela demonstração de poder e pelo que deve ter sido a vultosa soma de dinheiro empregada ali, onde não se encontra ângulo imperfeito ou canto que não impressione.

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A seguir:

Capítulo 5 – O Complexo Arqueológico Mehrauli

De volta à Índia – A primeira manhã. Duas Delhis, dois mundos

          O clima age a nosso favor, com um quase frio nos fazendo imaginar o quanto deve ser difícil Delhi acima dos 40 graus. Sob um céu azul, mesmo sendo cinza, começamos o dia na vasta expansão urbana da capital, onde duas “cidades” me atraem: a “nova” – de arquitetura colonial modernista, com amplas avenidas e vistas grandiosas, arborizada por tamarindeiros, rodeada por mansões coloniais e prédios do governo em estilo inglês…

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A Nova Delhi, ou Lutyens Delhi

… – e a velha, de essência mogol, carregada de “indianidades”, a antiga Shajahanabad, a que o economista John Kenneth Galbraith, embaixador americano na Índia, nos anos 1960 chamou de “anarquia funcional”. Ali fica Chandni Chowk, nome da principal avenida de comércio da capital do império mogol, o olho do furacão, hoje quase um bairro dentro de outro. A anarquia permanece, assim como a pressão das pessoas, as vielas e os becos com ou sem saída, a fumaça, os cheiros, os mitos e as lendas, as verdades e a história entre uma cacofonia inconfundível e uma multidão imparável.

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Detalhe da intrincada, belíssima ornamentação do Minarete Qutub

          Para além de ambas, junto à Nova Delhi ficam fenomenais ruínas do século XII, de cidadelas construídas pelos primeiros governantes islâmicos, num parque chamado Mehrauli, entre cujas diversas construções antigas – de mausoléus a mesquitas, de baolis a templos hindus – fica o Complexo Qutub. Ali, o ícone do parque é o Qutub Minar – o minarete de tijolos mais alto do mundo – um fenomenal exemplo de arquitetura indo-islâmica que faz jus integrar o Patrimônio Mundial da Unesco, eterno, ícone do poder mogol, projetado nas linhas do Minarete de Jam, no Afeganistão. São 72,5 metros de altura sobre uma base sólida, belíssima, massiva, com 14,3 metros de diâmetro.

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Complexo Qutub

          Histórias sugerem que Qutub Minar teria sido construído num local em que havia um conjunto de 27 templos hindus e jainistas, parcialmente destruídos pelos invasores muçulmanos, mantidas algumas preciosidades e usadas suas pedras em mesquitas e outros lugares. Mas não é só este impressionante monumento que capta a atenção de quem está ali. Outras antiguidades também, como a Mesquita Quwwat-ul-Islam, o Alai Darwaza, o Alai Minar, a Madrasa e Tumba de Ala-ud-din, o Pilar de Ferro – com sete metros de altura, do séc. IV, erguido em homenagem ao deus hindu Vishnu, o vestígio metálico melhor preservado da história da humanidade – a Tumba do Imam Zamin.

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Túmulo de Isa Khan Niyazi

          Chegamos até lá pelas ruas largas do bairro novo e, na área em que se fundem a nova e a antiga Delhi, paramos no Baoli do Marajá Agrasen ki – ou Ugrasen ki Baoli – um reservatório de água que servia à população para a coleta de água e lazer. Em Delhi e no Rajastão há outros poços semelhantes, belos e antigos, sendo este o mais conhecido e próximo.

Baoli do Marajá Agrasen ki

          Apesar da presença do rio Yamuna, Delhi sempre teve deficiência de água devido aos longos períodos de estiagem. A população medieval recorria, então, a esses poços, além de represas e lagos artificiais que havia para reter a água de chuva durante o período das monções. De todas as estruturas de conservação de água construídas desde então, as mais esteticamente interessantes e incomuns foram os baolis, que ainda hoje consideram-se uma fusão brilhante de sensibilidades arquitetônica e artística, concebida como uma enorme evolução dos poços subterrâneos, pois eram abertos e equipados com escadarias que desciam até o nível da água, tinham uma face equipada com câmaras e passagens destinadas ao lazer num ambiente mais fresco, com câmaras e “passeios” que se interligavam, alguns até com pranchas para mergulhos. Um misto de reservatório de água potável e piscina.

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Baoli do Marajá Agrasen ki

Sunder Nursery

         Pouco depois de sairmos do baoli, Niraj pede ao motorista que pare num local que não estava no roteiro. E nos diz com orgulho que nos mostrará uma atração muito nova em Delhi, o Sunder Nursery (Viveiro Sunder). Ao descermos da van avisto duas placas anunciando o que disseram as revista Times –  “Um dos grandes lugares para se visitar em Delhi” – e a Outdoor Magazine – “O mais novo sítio turístico da cidade. Abandonado por anos, foi reaberto em março de 2018 depois de minuciosa reforma.

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Sunder Nursery

          Inesperado e surpreendente, o Sunder Nursery é mais que um horto ou parque, senão um complexo de jardins históricos do século XVI, com canteiros de flores coloridas e um jardim de rosas com 30 diferentes variedades, 300 espécies de árvores e 80 de aves permanentes e 90 hectares que serão expandidos até juntar-se ao Purana Qila, quando se tornará o maior parque urbano da Índia.  A vista central tem jardins inspirados nos jardins mogóis, com fontes de pedra e mármore com adornos em forma de lótus. O lugar é de uma beleza natural e arquitetônica especial, porque entre a natureza de um jardim bem cuidado ficam 15 monumentos mogóis, seis deles do século XVI e nomeados Patrimônio Mundial da Unesco.

          Dali fomos ao espetacular Túmulo de Humayun.

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A seguir
O Túmulo de Humayun. Para o marido, com amor
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O Túmulo de Humayun

DE VOLTA À ÍNDIA – Delhi. A chegada

                      UM sol preguiçoso e poucos metros de visão. A impressão de um intenso nevoeiro nada mais é que o ar leitoso de Delhi, a cidade com a atmosfera mais suja do mundo. Às nove da manhã – cinco minutos antes de aterrissar – o avião sacode vencendo a poluição incrivelmente espessa que me impede de ver o solo. Ao passar pelas nuvens, um solavanco repentino indica o pouso, surpreendendo-me. Só então é possível ver os edifícios do aeroporto, embaçados e dispersos pelo ar espesso enquanto o avião segue o caminho do terminal. Poucos metros de visão e um gosto ruim no ar nos esperam. Ainda assim, é bom rever Delhi já por seu belo Aeroporto Internacional Indira Gandhi.

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              Nada mais desejado que um desembarque rápido, a recuperação da bagagem em bom tempo e um processo de imigração sem delongas. Apresso os passos. Nosso grupo tinha boa distância a caminhar da saída do avião até a imigração e ao recolhimento de bagagem, ainda que bem auxiliados por longas esteiras rolantes encurtando o caminho. Tomamos a direção dos estrangeiros com eVisa e não esperamos muito pela entrevista. Simpático e receptivo, o oficial nos devolve os passaportes carimbados e caminhamos em direção às malas. Dali ao saguão do aeroporto foi um pulo. Devesh, nosso receptivo, nos espera com uma placa com nossos nomes. Foi bom vê-lo, assim como a Pawan Sharma, antigo conhecido, com quem tratamos toda a viagem. Não posso afirmar que ela teria sido tão proveitosa sem a ajuda da Lotus Premiun Voyages e sua equipe, com quem trocamos centenas de e-mails até a finalização do programa, todos prontamente respondidos e profissionalmente bem resolvidos. Para mim, contudo, já não era surpresa, senão a terceira vez que viajava com a operadora.

                Uma breve parada para um espresso italiano, compra de chips para os celulares e troca de alguns dólares por rúpias indianas e logo saímos para o famoso caos indiano, já se manifestando no caminho do estacionamento do aeroporto ao hotel.

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              O tráfego já congestionado mostra que Delhi está tão desperta quanto nós, provavelmente nós por causa do estimulante café, a despeito de uma madrugada passada dentro do avião desde Addis Abeba. O sol me energiza e a cidade me ajuda com sua personalidade inconfundível, marca o que vemos pela janela da van conduzida por Palak, o motorista, figura notável que já ali demonstrava ser um grande condutor. Em breve também, um ótimo companheiro de viagem, ainda que não imaginássemos o quanto deixaríamos o país tão saudosos do camarada. Palak conduz a confortável Van Tempo[1] de 8 lugares com calma e atenção, nos proporciona desde já a confiança de que seria também assim quando pegássemos a estrada.

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                 Devesh prossegue em seu trabalho receptivo, nos distribui brindes, mapas, canetas, um livro com o programa detalhado e colares de flores de boas-vindas, além de um celular para chamadas a ele, seu diretor, os guias de cada cidade e o motorista, cujos nomes estavam devidamente registrados na agenda do aparelho. Iniciávamos ali um roteiro detalhado e intensamente planejado por Delhi, Jaisalmer, Johdpur, Udaipur, Nagda, Eklingji, Jaipur, Amber, Ranakpur, Abhaneri, Agra, Fatehpur Sikri, Jhansi, Orchha, Khajuraho, Sikandra e Varanasi.  

                Ao chegarmos ao hotel, não muito longe do Parliament House – na área de Windsor Place, próximo à rotatória entre a Janpath, a Firozshah e a Ashoka Road, a cinco minutos de Connaught Place – meu pensamento e desejo estavam em tomar um banho, repousar por duas ou três horas até darmos início à exploração da cidade no início da tarde. Um mundo dinâmico de acontecimentos começaria para nós, assim como já se mostravam as contradições das mentes fatigadas pelo jet lag. Sentíamos os efeitos da descompensação horária a corromper o ânimo e a vivacidade dos viajantes, as mentes e corpos, que fora de sintonia com o nascer e o pôr do sol, sentem desânimo e cansaço, ainda que em todos houvesse um entusiasmo notável. Importa salientar que nossa noite fora mal dormida, como de sempre as passadas dentro de um avião. Vínhamos de Addis Abeba, num voo madrugador de seis horas e meia. Viagens intensas como aquela e a distância da vida cotidiana exigem concentração, mente atenta, não-dispersão, não-negligência, senão olhares observadores e atentos. Contudo, estávamos em Delhi, o que nos impulsionava vivê-la o quanto antes, já não mais a imaginação e o desejo que nos seguiram por seis meses antes da viagem.

               Uma agradável sensação de reciprocidade: eu a desejo e ela me seduz, mesmo cada qual conhecendo seus defeitos. Como se a mim pertencesse seu cenário e eu fosse ali um de seus personagens. Delhi apela por mim – com a mesma audácia e agressividade de sempre – e eu a atendo, com o respeito e admiração costumeiros. Vejo nela um charme que muitos não enxergam, talvez porque seja tão mais indiscreta noutras de suas qualidades. Admiro o que ela tem de mais consistente e marcante: o peso de seu passado e um potente patrimônio material, uma história complexa, cultura e beleza arquitetônica que me manteria ocupado por dias intensos perambulando entre suas tumbas e templos históricos, ruas medievais e bazares lotados.

               Subo ao apartamento e espio a cidade “nova”, dos anos 1930, pela janela do “ícone de vidro de Lutyens Delhi”, apelido voluptuoso da torre onde me hospedo. O arquiteto inglês que a projetou dá nome ao bairro. Ainda que cercado de Delhi por todos os lados, apenas rastros de seus ruídos passam pela boa vedação de vidro da janela. O simples vislumbre torna a cidade mais real e me acende o fato de que em breve eu poderei vê-la, tocá-la e sentí-la. Já não me assusta a névoa suja, porque é familiar. E não me ameaça sua grandeza como na primeira vez. Conheço bem seus lados doces e amargos. Estou feliz. O dia promete visto daquela janela, onde Delhi é verdejante e tem horizontes os mais amplos.

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              Enxergo pombos voando alto e tuk-tuks voando baixo. E gente. Que caminha ou trafega em carros que buzinam sem sentido. Toco o vidro. Está frio. Não faço ideia da temperatura, mas a imagino. Estendo a mão para a escrivaninha e busco o celular. Consulto o aplicativo do clima: 12 graus. Fará sol todo o dia. Olho de novo para o céu e percebo o esforço da luz tentando passar pelo manto de poluição. Enquanto me preparo para aproveitar o fim do café da manhã e espero o grupo de viagem fazer o mesmo, sigo observando e refletindo, me preparando para enfrentar suas ruas, ver suas coisas boas e ruins: agenciadores e golpistas, pobres mendigos e desvalidos, gente tentando ganhar algum dinheiro, taxistas e tuk-tuks cobrando 10 vezes a tarifa dos não locais, pedintes que não aceitam não como resposta, vendedores que incomodam até perdermos a razão ou lhes compremos algo para nos livrarmos deles.

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               Avisto o primeiro Hindustan Ambassador estacionado numa das ruas próximas. Gosto de vê-lo. O veículo que hoje não vive mais seus templos de glória, tem desenho de 1958 que permanece atraente. Transformados em táxis, já foram símbolo de status, os preferidos de políticos e embaixadores, contudo começam a desaparecer em razão da idade. 

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             Entre jardins arborizados e avenidas largas projetadas pelos ingleses, vejo moradias no estilo Lutyens, do início do século XX, onde vivem os velhos e novos-ricos de Delhi. Olho de cima aquele pedaço da capital do British Raj[1], de onde estou próximo aos centros comerciais Connaught Place e Janpath Market, distante, mas não tão longe, da Velha Delhi, muitíssimo mais densa, barulhenta e energética. O hotel fica nas proximidades do Civil Lines, o setor administrativo, e também da Raj Path, a enorme e larga avenida. Vejo seu início, no Rashtrapati Bhavan – prédio espetaculoso que serve de residência oficial do Presidente da Índia – mas não onde termina, no India Gate, ícone do bairro, um arco do triunfo inspirado no parisiense e marco do orgulho indiano, grande e concreto o bastante quanto o sonho britânico ao colonizar a Índia. Reconheço em Delhi sua falta de unidade entre a nova e velha cidades, exatamente o que a torna sedutora, para além de outras tantas razões. Estou na área dos hotéis de luxo, dos shoppings, boates, bares e restaurantes espetaculares, mas é a  mogol que me atrai, a antiga, a capital islâmica de Sha Jahan, da desordem urbana e da sujeira, da velhice e da pobreza, de um patrimônio histórico de outro planeta.  

           Se eu soubesse desenhar faria um sketchbook no moleskine, registraria as cenas da janela como o fazem sem esforço os viajantes com talento artístico. Desenhos, pinturas e colagens, textos condensados do que se vê, com a poesia e capricho dos que viram e sentiram, decidindo registrar com arte. Como não, contento-me em fotografar, ainda que a imagem não seja das melhores. O pequeno caderno de notas deixo na mochila, onde faço anotações esparsas da viagem. Fotografo, mas gostaria de desenhar. Não sei, embora um projeto de artista habite em mim. Vejo a cidade já sem um olhar estrangeiro tão acentuado quanto da primeira vez. Mais evoluído, não-crítico, menos ainda preconceituoso, mais curioso, ainda tão respeitoso, embora sem fantasias, sem enxergar como Poliana, tudo azul e fugindo da realidade. Meus olhos erram pelos lugares e procuram o que quero, concentram-se na qualidade da atenção, no sentido positivo da curiosidade, assim como no poema de Ferreira Gullar, “são uma parte de mim que é todo mundo, outra que é ninguém, uma que é um fundo sem fundo e a última que é estranheza e solidão, que pesa e pondera, e outra que delira”.

              Todavia linda Delhi que vejo dali, a que me atrai é a esfarrapada, a loucura de Shajahanabad, capital do império mogol[1], com toda a sua “indianidade”, sujeira e poluição, mal-cheiro de esterco e lixo, bom de perfume de sândalo e especiarias. Saio da janela e volto a olhar para o quarto. Parece bom, bonito, confortável e elegante, sem excessos, fazer jus às boas avaliações, sobretudo pela ótima relação custo-benefício. Um hotel com mais do que preciso e menos do que mereço.  Enquanto abro a mala e preparo as coisas e roupas para o dia o intelecto vai-se ajustando à realidade do lugar. Sinto-me bem e confortável, apesar da falta que me fazem as horas não dormidas. Um garotão, mentalmente falando, apesar de encontrar-me a dois dias de completar 67 anos. E com a nova idade, ainda mais carregado do verdadeiro senso de propósito, de significado e sentido que encontro nas viagens, com a mesma paixão pelo mundo e pelo que ele tem a oferecer aos seus visitadores. Estou feliz, sobretudo porque reconheço que a felicidade é merecida, porque sou digno da vida, mais certo ainda de que ela, assim como o tempo, passa rápida demais, como dizia Sêneca.

            Volto a ocupar-me das minhas coisas. Procuro por música no playlist do Spotfy e ponho a tocar Indian Chill na caixinha bluetooth. Ouço Guru Bandana, oração musical de Ali Akbar Khan e me emociono. Abro o notebook e deixo-o conectado à Internet. Tenho pouco tempo, então deixo para mais tarde começar a escrever estas mal traçadas linhas. Arrumo a câmera e a mochila e depois descemos para o café, para depois retornarmos ao quarto para o repouso que o corpo pedia, até uma da tarde, quando começaríamos a primeira incursão pela cidade. Sinto-me mais sereno e sem o deslumbramento de minha primeira vez na Índia, mais maduro com a experiência da segunda e com o forte desejo de que esta terceira seja fenomenal também para quem viaja comigo.

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A seguir:  De volta à Índia – Capítulo 2: O Gurduwara Bangla Sahib

[1] Force Motors Limited, montadora indiana de automóveis, conhecida como Bajaj Tempo Motors, joint venture com a Bachraj Trading Ltd. e a alemã Tempo e parcerias com as alemães como a Daimler, ZF, Bosch e a MAN.

[2] “British Raj” (raj=império)

[3] Os mogóis (ou mugals) eram o povo cujo império dominava toda a região do subcontinente Indiano. Seu fundador foi Babur, imperador muçulmano descendente de Gengis Khan, um mongol (não confundir com mogol) pelo lado materno. Grandes nomes do império mogol sempre se ouvem quando se lê ou viaja à Índia: são Akbar, Humayum e Sha Jahan. Os impérios mogol e mongol  estão relacionados, mas não existiram ao mesmo tempo. O mogol surgiu quase 150 anos depois do fim do império mongol, cujo lugar de origem foi o atual Uzbequistão.

DE VOLTA À ÍNDIA – INTRODUÇÃO

O bom, o mau, o bonito e o feio

Dezembro estará terminando e nove anos terão se passado desde o primeiro encontro. Perto da meia noite, quando pousarmos no aeroporto Indira Gandhi, na imensa, pavorosamente caótica e arrebatadoramente sedutora megalópole, verei aquelas luzes compridas, suas auras esticadas ao redor das lâmpadas de um céu leitoso, riscos cintilantes de luz refletidos na atmosfera mais suja do mundo. O efeito é mágico, mas sinistro. Gosto dela mesmo assim. E se não fosse Delhi, não seria Índia.

Chegarei sem os medos da primeira vez, a Índia já não será mais “complicada, desafiadora e arrasadora”, mas carregarei outra responsabilidade: ter influenciado meus três companheiros para esta viagem. Haverão de achar a Índia tão fascinante, arrebatadora e inspiradora? Cairão de amores minha namorada, irmão e cunhada? Enxergarão a mesma beleza e grandeza? Reconhecerão perfeição mesmo com toda a aparente imperfeição indiana?  

Não sei se estava escrito nas estrelas ou se foi coisa dos gênios bonachões da tradição islâmica indiana, mas a paixão foi na primeira hora da primeira manhã. E em dezembro, quando a reencontrar, tudo o que é seu me completará, tornará melhor e maior. Das suas cores, seus sons e cheiros às coisas de Shiva, de Krishna, de Buda e Mahatma Gandhi. O meu país, a minha história de amor com um destino, o meu prazer em revisitá-lo e a minha crença de que será assim até o fim da vida.

Deixarei meus pensamentospara quando o avião tocar o solo e sentir de novo a dinâmica e a força do país,com a esperança de que conquiste, em vez de arrasar, seus novos visitantes. Esta viagem, minha terceira à Índia, foi moldada nas duas anteriores,condensada numa só, ampliada e revisitada para contemplar lugares em que nãoestive. Depois de carinhosamente desejada, intensamente pesquisada eexaustivamente programada, concluímos que a melhor e mais econômica maneira dechegar a Delhi seria voando pela EthiopianAirlines, com uma noite em Addis Abeba e, no dia seguinte, um voo noturno de6 horas a Delhi. Uma estada de trêsdias na capital, onde passaremos o Reveillone exploraremos o que for possível de seu fabuloso patrimônio e, depois então,por via aérea, terrestre e ferroviária, outras 15 cidades: Jaisalmer, Johdpur, Udaipur, Nagda, Jaipur, Amber, Ranakpur, Abhaneri, Agra,Fatehpur Sikri, Jhansi, Orchha, Khajuraho, Sikandra e Varanasi. Ao finaldo itinerário, possivelmente já entregues e gastos pelos prazeres intensos daviagem, voltaremos ao Brasil depois de 19 dias na Índia, de uma longa viagem de prazeres.

Começo agora a escrever e fecho os olhos. Penso e sinto bater outravez meu coração pela Índia. Dizem que é assim com as boas viagens, que nãoterminam jamais, que grudam na mente e vivem a nos rondar feito almas penadas. Paraos mais românticos, viram um caso de amor, e tal qual as paixões, sentem-se as mesmasemoções intangíveis, voltam a tocar o coração ao serem revividas. E quando terminam, começa o desejo insaciável de voltar.

Sinto-me assim ao voltar a escrever esta nova série sobre a Índia e revolvo a mente trazendo experiências encantadoras que se expressam em meus sentidos. Gostaria de saber contar tudo. E com o mesmo poder de transmitir ao leitor a intensidade com que me afetaram quando as vivi.  Será tão difícil descrevê-las que temo não passar da superfície. Ainda assim, caro leitor, tentarei. Afinal, esse é o fascínio de escrever. Então, deixe-me guiá-lo por esta jornada visual através desta série de posts fartamente ilustrados. Com “De volta à Índia”, tentarei descrever cada momento e compartilhar com você o privilégio de tê-los vivido.

Contarei tudo aqui. Estou com pressa de chegar! Namastê, Índia!

A seguir

Devolta à Índia – Capítulo 1 – Chegamos em Delhi


DE VOLTA À ÍNDIA – A viagem se aproxima e enquanto espero, reflito

Que o leitor me perdoe a ousadia da confidência, mas viajo como turista. E tenho aversão às pretensiosas diferenciações entre turistas e viajantes. Sou turista clichê, um clichê ambulante, que não procura disfarçar tal condição. Estou ainda mais feliz com esta viagem, por que desta vez será na companhia de três pessoas especiais e queridas – namorada, irmão e cunhada -, experientes viajantes que sabem viajar, agem como turistas e se adaptam bem aos desafios. São turistas, sim, mas de olhos compreensivos, ponderados e receptivos, condições ideais para alguém gostar da Índia. Eu mesmo viajo mais sereno, sem o deslumbramento da primeira vez, com a maturidade conferida pela segunda e o forte desejo de que seja fenomenal esta terceira também para eles, que a Índia os penetre sem pedir licença, e como a mim, os torne quase doutores indianistas.

Todos sabem, não sou religioso, místico, peregrino nem viajo em busca de qualquer coisa que se relacione com espiritualidade. Não tenho espírito. E se tenho, não o sinto, porque ele insiste em não se manifestar. Felizmente, graças a Deus. Tampouco viajo para encontrar sentido na vida, pois já conheço o meu e ele me satisfaz. Também não para encontrar qualquer coisa no além. Não acredito nele e sou feliz por não ter avida mediada por crenças. Tenho mesmo alguma aversão a muitas delas. Talvez porque aceite a finitude da vida sem desespero, como algo inexorável, embora eu vá a contragosto. E por não acreditar em vida depois da morte. Convenhamos, é muito mais duro viver a vida quem reconhece que ela termina aqui, que não terá bônus ao seu fim.

Não vou à Índia atrás do “interior de mim mesmo”, para “encontrar o sagrado”, para meditar, senão para por vezes refletir. Muito menos para dedicar-me aos estudos do hinduísmo védico e de coisas afins. Ao contrário, na Índia sou menos eu do que em qualquer outro lugar do planeta, embora em nenhum outro eu seja levado às reflexões sobre a vida, nem reavalie certas questões como a necessidade de maior frugalidade nela. Cresço muito intelectualmente e torno-me ainda menos compreensivo com tudo o que seja místico. São temas que não me interessam em particular.

Não me atraio a viajar à Índia a fim de me enfurnar num ashram-boutique, participar de workshops diários e papos-cabeça com gurus estrelados, tentando inutilmente – a despeito de sua sabedoria- apontar-me o caminho da “salvação”. Isso é coisa que começou no final dos anos 60, quando grande quantidade de ocidentais chegavam carregados de uma revolução cultural que valorizava a magia, o exotismo e os mistérios orientais. Entre eles, John Lennon e os Beatles. Foram à procura da salvação,mas também de uma temporada fumando seus baseados com alguma liberdade. Sairam de lá sem saber se se libertaram, como provavelmente todos os novos nômades que praticaram seu escapismo disfarçado de fome espiritual,exercendo um novo tipo de atividade turística – o “turismo espiritual” – lá explorado por gurus e levado a cabo em ashrams pelo país afora. Evoluiu tanto que hoje é quase uma commoditie indiana do ramo turístico, a espiritualidade tornada mercadoria. Para quem não curte alimentação natureba, alinhamento de chacras, medicinas alternativas, coisas místicas para a cura de enfermidades físicas e mentais ou em qualquer coisa que não se comprove cientificamente,praticar turismo assim é desastroso. Gosto de estar na Índia para ver indianos,não ocidentais místicos deslumbrados.

Então, temas como autoajuda e misticismo não me chamam à Índia, penso como Catherine Clément, autora de “A Viagem de Théo”, que nos recorda acerca da banalização dessas coisas indianas: Quando se sentem perdidos, os ocidentais adoram mascarar a alma: então, vêm a correr para a Índia, para locais de retiro concebidos para eles, com êxtases coletivos e devoção desenfreada, e os indianos fazem com isso bom dinheiro. São excelentes comerciantes. Até inventaram uma palavra bem divertida para definir esse comércio particular: Karma Cola[1].

Desde moleque desconfio desses “poderes” cujos “resultados” são meros “efeitos placebo”, a fé subtraindo razão. Não critico ou julgo quem viaja com tais objetivos, mas me estranha que se emocionem tanto. É um espanto. Também não na “bondade” e “proteção” divinas – especialmente na Índia – quanto me  deparo com seres humanos sofredores, sem pedaços do corpo, pontas dos dedos, pernas ou olhos, rostos imundos, deformados, famintos, miseráveis, sem qualquer conforto físico, doentes dormindo nas ruas entre lixo, baratas e ratos, com hanseníase e outras enfermidades já há muito erradicadas pela ciência. Na verdade, toda vez que vou à Índia, volto ainda menos espiritualizado pelos casos de estupro e por tal desvalorização da mulher. Sou da ciência. Tanto que não me aproximo sequer da pseudociência. Mas admiro a yoga e a meditação, dois dos muitos patrimônios que a Índia passou para a humanidade, mas daí ver misticismo em ambas é um devaneio.

Vou como turista mesmo. E sem vergonha ou culpa de sê-lo. Não tão alienado quanto da primeira vez, mas ainda com meu olhar estrangeiro e unilateral sobre uma cultura alheia e “exótica”, embora sem preconceitos. Sou zero místico. E abaixo de zero, crente. Mas a Índia é tão magnífica, tem tanto potencial de atrair turistas místicos que um destes que for lá procurar, seja lá o que for, encontrará. Coisas da mente humana. Felizmente, em outros âmbitos também: cultural, material, folclórico, arquitetônico, turístico, culinário…

Não creio sequer num Deus, que dirá nos 300 milhões de divindades hindus[2], embora eu me esforce para compreender seus significados e simbolismos. Da assustadora Kali – a deusa negra, dançarina dos crematórios, de cuja boca pende uma protuberante língua vermelha sedenta de sangue, com sua guirlanda de crânios ao redor do pescoço e um cinto feito de mãos decepadas – que para complicar ainda mais minha “compreensão”, é a personificação de outras deusas cujos nomes são Devi, Durga, Parvati, Uma, Sati e Padma. E tal do Ganesha? Que dizer da “história” desta deidade – corpo de menino, cabeça de elefante – um dos mais comuns e populares do hinduísmo, filho de outros dois deuses – Shiva e Parvati? De Shiva, deus de destruição, o que prefere a morte à vida, algo que me soa estranho, ao mesmo templo sublime. Mas o que há de certo ou de errado nisso tudo? Especialmente acerca desse povo tão estranho e sublime com quem em poucos dias estaremos convivendo? Só consigo ver tudo como uma bela manifestação cultural, rico folclore de um povo de imaginação fértil, cultura de cinco milênios, além de algo que me ajuda a compreender a resiliência do indiano e sua altíssima capacidade de resignação.

O prazer da frugalidade

Não quero dizer que a recessão recente e duradoura não tenha me afetado, mas continuo reconhecendo-me um privilegiado que pode viajar, a quem nada falta e que vive muito bem. Havia tempo eu não tinha necessidade de orçar e rastrear gastos, e não sabia o que era não dormir porque não teria no mês seguinte recursos bastantes para pagar todas as contas. Quero exprimir que nossa abordagem mais “frugal” desta viagem – tanto no planejamento quanto no andamento – tem sido extremamente positiva nesta fase da minha vida. E me traz novos valores e sabores. Havia muito tempo que eu não tinha que poupar para viajar, racionalizar, deixar de comer fora e comprar coisas para concretizar uma viagem. Dormir em lugares mais baratos (ainda que longe de inconfortáveis ou espartanos), comer nos mais simples, reduzir o peso da bagagem, racionalizar o uso das roupas e de produtos, comprar quase nada, concentrar-me no que é realmente importante (como ter experiências mais marcantes), faz a Índia parecer ainda mais notável. Especialmente numa viagem para o país mais frugal que conheço. Ainda que a “frugalidade” a que me refiro seja discreta, apenas uma redução dos excessos, a eliminação do que não importa, o desprezo pelo desperdício, que concentre foco em novos valores, mesmo assim, discreta, é uma frugalidade boa, que evoca o suficiente, escancara o fato de que posso ter perdido a medida dos valores entre ter e ser, ter mais respeito pelas coisas fundamentais, como uso de água, luz, gás, comida, entre outros.

Pessoalmente, acho muito gratificante tudo isso, estar contente com as coisas do jeito que estão no momento, ter ainda melhor consciência de que sou um privilegiado que olha mais para os outros que para dentro de mim mesmo!


[1] Na segunda metade da década de 60, o Ocidente adotou a Índia como seu mais novo balneário espiritual. Os Beatles se lançaram aos pés do Maharishi Mahesh Yogi e hordas de jovens americanos, ingleses, franceses e de outros países ocidentais seguiram o exemplo de seus ídolos, invadindo a Índia em busca da libertação do tédio e do desespero de um mundo cada vez mais materialista. Karma Cola é o título de um livro hilariante e ao mesmo tempo deprimente apresenta flashes dessa invasão, revelando a profunda incompreensão do Oriente pelos ocidentais que lá buscam a salvação da alma.

[2] 330 milhões de deuses na Índia! Sim, deuses e deusas com múltiplas cabeças e braços. Que tipo de religião maluca é o hinduísmo? Na verdade, não é o que parece. Enquanto os hindus acreditam que Deus está em tudo, tudo é manifestação da única fonte e criadora da realidade – Brahman. Portanto, toda coisa viva e não viva é vista como sagrada. Cada um dos muitos deuses e deusas do hinduísmo também representa aspectos individuais de Brahman. Por exemplo, Ganesh é adorado por dar boa sorte e remover obstáculos. O hinduísmo não prescreve nenhum caminho definido, em vez disso, os seguidores podem adorar a qual divindade que a cada vez sentirem necessidade.

Myanmar – Voando de balão sobre os templos de Bagan

Bagan 1

Pro dia nascer feliz

Passa um pouco das cinco da manhã. Pulo da cama ao som  do despertador e corro para a sacada ansioso para ver o céu em busca de notícias do tempo. Ainda havia um resto de luar. Não era cheia a Lua, até começava a perder seu brilho frio, mas ainda cintilava nas águas do grande rio Irrawaddy. Do lado de cá vejo as águas calmas e uma embarcação encalhada em razão da estação da  seca. Parece parado o preguiçoso rio, tão diferente do que é na época das monções, quando ganha vida, corre caudaloso, inunda campos, reabastece de água as cidades e de sedimentos o solo e transforma o barro em terra fértil. Contemplo o cenário com esperança e percebo um céu limpo anunciando o Sol pleno, condição para tornar possível o voo de balão sobre os templos de Bagan.

Vou ao banho e me recordo de uma foto do fotógrafo James Stanfield[1] publicada anos antes na National Geographic. A paisagem magnífica, tomada com arte e talento, revelava uma beleza quase inacreditável da planície semi-árida e misteriosa, com dezenas de estupas de tijolos vermelhos brotando da terra entre árvores e a bruma da manhã, a mesma que em breve eu esperava ver sobrevoando o mar de templos ruinosos.

Sobrevoando Bagan de balão

Às 05:30 da manhã, um curioso ônibus adaptado ao chassis de um caminhão da Segunda Guerra Mundial busca os passageiros em seus hotéis. Chega minha vez. Subo e tomo acento. Dentro dele já outros oito turistas. A mente vagueia, ainda sonolenta, enquanto o velho ônibus de motor barulhento se arrasta,segue devagar pela estrada de areia, vai colhendo aqui e ali outros turistas também insones, todos a caminho do mesmo campo de decolagem. Observo pela janela uma terra que o tempo não mudou, desde a imperial Birmânia, séculos passados. Muitos budas e templos depois, chego ao campo. Desço devagar, mas não relutante, senão ansioso. Seriam os balões da mesma geração do ônibus?

Surgem os primeiros raios da manhã. Raios quentes, mas não cor, não ardentes. O cenário parece ilusão, uma venturosa manhã com neblina rasteira à terra, um descampado de terra com  os gigantescos balões deitados e esticados, esperando a hora de serem cheios. É muito excitante vê-los trabalhar. Só menor que a experiência de voar.

Os incríveis artefatos voadores – os balões da Baloons over Bagan – são propriedade de um australiano e um birmanês, empresa com cerca de 100 funcionários birmaneses, 10 balões para até 10 passageiros cada, além do piloto, que realiza um voo diário de cerca de 45 minutos. Os pilotos, australianos e ingleses, quando chegaram os passageiros, já estão a postos diante de seu balão e grupo, assim como cada equipe que om inflará. Recebemos instruções de voo. São poucas. Seis homens começam a inflá-los com ventiladores e depois com ar quente. Puxam cordas para segurar o balão que se enche e começa a querer subir. O cesto ameaça se arrastar, se levanta e fica na posição horizontal, pronto para receber piloto e passageiros. Sou o último a tomar um lugar no cesto.

O clima se parecia com o de um safari colonial britânico, de uma elegância discreta e aventureira. Quando soltas as amarras, o balão sobe levemente. Guiado pela suave força do vento e pelo comando da piloto, quase não senti a decolagem. O fogo azul do gás propano, que mantém o balão cheio e quente, faz o único ruído audível. Todos estão calados. Quando já atingimos boa altitude, não tenho tempo de sentir vertigem, pois a “amurada” do cesto chega à altura de meu peito.

Vejo a névoa baixa, leitosa e rasteira junto à terra, agora já de cima e entregue ao silêncio. Com o Sol nascendo, o balão ia “raspando” o topo dos templos, crianças correndo embaixo, acenando e gritando para nós. Homens tocam seus rebanhos e carroças. Um mar de estupas se abre, tal qual a foto de James Stanfield.

Decolando e voando

Mais quente, mais alto; mais frio, mais baixo. Balão dominado, voo tranquilo, ao nos aproximarmos do templo Sulamani, a piloto pergunta: “Querem ver o brilho das pedras preciosas do hti?” Ela baixa suavemente e o cesto passa quase roçando o topo. Vimos de fato o enfeite brilhar.

“Vamos descer ali”, aponta para um descampado. Um caminhão e nosso ônibus também vão para o lugar. Descemos lentamente até o cesto tocar o solo, com precisão e suavidade. A equipe de terra montara uma mesa com champanhe e petiscos. Co todos já em terra, a piloto discursa, agradece, brinda e distribui um certificado de voo para cada passageiro. Pouco depois somos levados de volta aos respectivos hotéis.

Havia tempo para o café da manhã, um conforto para quem acordou às cinco e estava em jejum. Tiro um cochilei até onze da manhã. Renovado sigo com Patrício para um longo dia de visita aos templos, até o pôr do sol. Depois do voo seria óbvio não esperar novas emoções, mas injusto dizer que não as tive.

(*) Fotos feitas a partir do nascer do sol do dia 13 de fevereiro de 2013, com uma NIKON D800 e uma lente Nikon 28-200mm F3.5-5.6 durante um vôo de balão sobre Bagan.

[1] James Stanfield viveu aventuras invejáveis em mais de 120 países, fotografando para reportagens que já lhe renderam inúmeros prêmios de fotografia.

Myanmar – As lagartas de Kyaing Tong

Myanmar

Você quer comer lagartas?

– Como assim? Você quer dizer “lagartas”, insetos?

– Sim, de bambu.

-Vivas ou mortas, Patrício?

– Fritas!

– Vou tentar.

O homem tira de sua bolsa um saquinho plástico com as lagartinhas de bambu  fritas, compradas na manhã anterior numa banca do mercado de Kyaing Tong, que assim como as frutas desidratadas, são  um petisco popular na região. A embalagem – fechada com fita adesiva, – não tinha rótulo ou qualquer inscrição. Eu não contava com algo como “Não contém glúten”, uma tabela nutricional ou coisas afins, mas não havia sequer o nome do produto, embora fosse evidente tratarem-se de legítimas lagartinhas, perfeitamente identificáveis. Estavam ali íntegras suas cabeças, tronco rechonchudos brancos e perninhas. Aquelas que um dia foram serelepes habitantes dos bambús das florestas do montanhoso estado de Shan, estavam prontas para serem degustadas.

Myanmar Cap 1
Vivas ou mortas? Fritas!

– Do que são feitas, Patrício? São só lagartas? Têm algum tempero?

Estávamos sentados numa mesa de plástico sobre o chão de terra diante da pequenina venda defronte ao aeroporto. Mesa, venda e rua eram as únicas por ali. De sorte que éramos privilegiados por termos encontrado vago o lugar. Eu, Patrício – meu guia por toda a viagem – e Sing – o camarada birmanês natural de Kyaing Tong que nos guiou pelas colinas até as aldeias – nos sentamos para esperar a hora do embarque.

Patrício coloca a embalagem estufada de lagartinhas sobre a mesa e pede uma cerveja. Examino as lagartas mais de perto, sabendo que terei que encarar o desafio. Então, já que “Inês era morta”, tanto melhor ele seria se eu estivesse bem informado. Recoloco a embalagem no centro da mesa e espero alguém tomar a iniciativa. Sing abre, despeja um punhado na palma da mão e com a naturalidade com que eu como amendoim salgadinho, leva à boca e saboreia. Não mastiga, apenas remexe e pressiona o conteúdo com a língua contra o céu da boca. E não demonstra reação. Me agrada observar o comportamento das pessoas, tentar decifrar o que sentem, e todo momento elas dão pistas do que são, às vezes mais do que suas palavras. Não identifico nada, apenas naturalidade. O que eu queria era imitá-lo, de modo que quando chegasse minha vez, eu também parecesse natural. Pego a embalagem e pergunto:

– Como se chamam?

– Non mai phai. São muito comuns nos bosques de bambu do norte da Tailândia, do Laos e desta região de Myanmar. Dizem que também na província de Yunnan, na China, mas nunca estive lá.  Quando estão maduras, com uns 3,5 a 4 cm de comprimento, eles as retiram da parte ôca entre os nós dos bambús e depois as fritam. Os pa-yit kyaw (grilos) e os bi-laar (besouros) também são populares aqui.

Sing passa para Patrício, que despeja igual punhado na mão. Também o observo atentamente e sua reação foi discreta, não como a do colega, porque olhava para mim, dava uma luz sobre o que pretendia: me provocar, desafiar. Chega a minha vez. Eu estava confiante. Tomo um gole de Myanmar – a única cerveja do país – ele estende sua mão com o saquinho do petisco, olha em meus olhos e diz:

– Prove!

Soava como desafio, não uma ordem. E, ainda que eu não seja um viajante destemido, aventureiro intrépido, audaz desbravador, tenho lá meus medos, sou bom turista e não corro de desafios, mas também não tenho inveja dos que comem cérebro de macaco vivo. Me comporto como quero; sei que viajar é isso, mas também infinitamente mais que isso. Quero dizer, na medida do possível (e de minha coragem), provo de tudo, mesmo nunca tendo me atrevido a comer insetos nem achar que precise. Além de repulsivos, penso conterem parasitas. Ademais, sempre que os vejo imagino aquelas patinhas cheias de farpas agarrando na minha garganta e que não haverá jeito de desgarrá-los. Contudo, aquelas lagartinhas não eram insetos, e bem me  lembravam as do Brasil, maiores e mais gordas, chamadas gongo, tapuru, coró, morotó, fofó, boró ou bicho-do-coco, com a diferença de que aqui comem-nas vivas na floresta amazônica. Mas, como todo instante deve ser vivido intensamente, porque é irrepetível, resolvo fazê-lo.

Sem mais delongas, despejo um pouco na mão, a quantidade certa, medida antes com o olhar decifrador para Sing e Patrício. Aproximo o punhado do nariz e tento sentir o cheiro. Me preparo para engolir e olho para Patrício. Seguro o copo de cerveja com a mão esquerda e com a direita jogo as lagartinhas para dentro da boca como se fossem farinha. No primeiro instante não sinto sabor, logo depois, do óleo em que foram fritas. A textura era boa, seca e crocante, mas não o gosto, quase insípido, não fosse o óleo. Percebo olhares e expressões curiosos, então faço da espera algo positivo para mim, já que em minha boca iam bem as bichinhas. Com certa surpresa, depois regozijo, percebo sorrisos no partido que tiro.

Myanmar Cap 1 02
Os buracos entre os nós do bambu  para retirada das larvas

Não têm muito sabor. Devem ser melhor de comer cruas e vivas, talvez temperadas com sal e umas gotinhas de limão, como saboreamos ostras frescas e vivas no Brasil ou as lagartas do coco. Fritas elas perdem o gosto.

Sing sorriu e disse:

– Quer levar pra comer no avião?

A manhã ensolarada ainda tinha frescor. Eu estava na segunda cidade de um roteiro que começara dois dias antes na Capital, Yangon, e as aventuras ali consistiram em dois dias de trekkings de seis horas cada, através das encostas rurais, por lindos campos de arroz cintilantes e plantações de chá, a fim de visitar aldeias de diferentes etnias, de povos animistas[1], a residência de um xamã [2] de uma importante aldeia e como vivem. Eu estava comendo lagarta, tomando cerveja quente enquanto esperava o pouso do turbo hélice da Air KBZ pousar no terminal muito simples, quase um casebre de paredes caiadas, para irmos até a cidade de Heho,  porta de entrada para o lago Inle

Eu sentia saudades das experiências vividas, da comida deliciosa no mesmo lugar por duas noites, única opção de restaurante “chinês” que ficava numa rua residencial escuríssima, iluminada por postes de luz a cada cinquenta metros. A cozinha improvisada na garagem da casa era comandada por duas senhoras. O “salão” de refeições ficava do outro lado da rua: a calçada. Com o lago às costas e o pagode Wat Jong Kham na colina à frente. Duas mesas com quatro cadeiras sob uma árvore, de noite sob um breu iluminado por uma gambiarra de lâmpadas de 15 velas. O cardápio tinha pratos de comida chinesa com influências birmanesas, tudo a convenientes quinhentos metros da espelunca em que eu dormia.

O cardápio, sobre as opções e perguntando à moça que servia do que se tratavam. As respostas eram curtas, mas tinham um poder tão encantador quanto o da decifração dos textos egípcios por Jean-François Champollion: pork, chicken, noodle, vegetables, eggs.

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O pagode Wat Jong Kham e o lago de Kyaing Tong

Eu olhava para trás, no tempo, uma ocorrência psicológica que naquele momento me afastava do espaço que dividia com Sing e Patrício. Meu pensamentos me levaram a recordar o que me trouxera a Myanmar, escolha antiga, mas decisão tomada um ano antes. Eu estava tranquilo esperando o avião enquanto andava pelos pensamentos, mas começava a me tomar a impaciência, porque dali em diante o tempo gasto na espera me parecia perdido. Insisto no relógio, ansioso com a chegada do avião e a partida, ainda que não houvesse chance de perdê-lo, pois ainda estávamos a 30 minutos da hora da partida e o avião ainda em voo.

– Não é hora de irmos?, pergunto a Patrício.

– Ainda não. Quando ouvirmos o avião se aproximando, pediremos a conta. Estamos a quarenta metros do portão e já providenciei os cartões de embarque e o despacho da bagagem.

Aproveito a proximidade da hora do embarque e me despeço agradecendo a Sing, o guia especializado e indispensável para as visitas às tribos das colinas de Kyaing Tong. Era um camarada pacato, inteligente, educado e atencioso, que tornou a experiência nas tribos ainda mais rica, o que eu não compreenderia se estivesse só.

– Obrigado. Jamais esquecerei desses dois dias aqui. E além da memória, levarei tudo no coração.

Um abraço sela a despedida. Ouço o ruído do avião se aproximando do pouso e o impacto é instantâneo. Fico perplexo com a reação, a ansiedade acelerando o coração. É gênese do meu cérebro, nada além, e mas sempre que posso, tento escapar dela. Às vezes consigo. Me desola a convicção da inutilidade de uma situaçãomtão previsível, ao mesmo tempo condenável por minha autocrítica. Reflito, então, que se estou na terra do budismo, deveria pensar na prática zen, deixar passarem os pensamentos e buscar no enigma da consciência a paz, a fim de enfrentar agitações desnecessárias, permitir – na intimidade da consciência privada, quando um lado do cérebro discute com o outro a relação – o autocontrole.

Dou o último gole, pago a conta, levanto-me e caminho à frente de Patrício enquanto ele abraça o amigo. Entro no terminal desviando das mesmas galinhas que por ali circulavam na chegada. Espero Patrício, que logo atrás caminha ao meu encontro sorrindo. Num ritmo zen.

– Quer ir na frente, Affonso?, me pergunta sorrindo. “Quer seu cartão de embarque”, conclui.

– Você está certo. Obrigado por me trazer a tranquilidade. Rimos juntos e partilho com ele meu encantamento com os três primeiros dias em Myanmar.

A espera foi nada. Estamos entre os primeiros a entrar no avião. Tomo assento e com a porta ainda aberta sinto o último ar de Kyaing Tong. O embarque foi expresso e assim logo partimos, cinco minutos antes do previsto. “Tempo a mais para estar no lago”, penso.

Momentos depois, olho pela janela e vejo a cidade ficar pequena e para trás. Minha íris se enche de azul, de verde e de nuvens esparsas. Sinto prazer. De estar vivo, ter estado ali, escolhido aquela viagem e por reconhecer a magia que só elas me proporcionam.  Deixo um bom pedaço de mim por ali…

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[1] Animismo: termo usado na antropologia da religião, é uma visão de mundo em que entidades não-humanas (animais, plantas, objetos inanimados ou fenômenos) têm essência espiritual. A crença de alguns povos tribais indígenas surgida antes das religiões mais organizadas. Animismo não é uma designação dada pelos povos que o praticam. Fonte: Wikipédia

[2] Xamã: portador das funções religiosas no animismo, pessoa que “entra” em outros mundos e tem contato com seus aliados (animais, vegetais, minerais), ou seres de outras dimensões, espíritos ancestrais. Um sacerdote ou sacerdotisa que, em transe nos rituais xamânicos, manifesta seus poderes invocando espíritos da natureza e incorporando-os a fim de receber orientações e ajuda para resolver as situações que desafiam as pessoas de seus grupos sociais. Fonte: Wikipédia

A seguir

MYANMAR Capítulo 2 – Yangon, o primeiro sabor birmanês

Myanmar (encerramento capítulo)