Capítulo 2 – Voando de balão sobre os templos de Bagan

Bagan 1

Pro dia nascer feliz

Passa um pouco das cinco da manhã. Pulo da cama ao som  do despertador e corro para a sacada ansioso para ver o céu em busca de notícias do tempo. Ainda havia um resto de luar. Não era cheia a Lua, até começava a perder seu brilho frio, mas ainda cintilava nas águas do grande rio Irrawaddy. Do lado de cá vejo as águas calmas e uma embarcação encalhada em razão da estação da  seca. Parece parado o preguiçoso rio, tão diferente do que é na época das monções, quando ganha vida, corre caudaloso, inunda campos, reabastece de água as cidades e de sedimentos o solo e transforma o barro em terra fértil. Contemplo o cenário com esperança e percebo um céu limpo anunciando o Sol pleno, condição para tornar possível o voo de balão sobre os templos de Bagan.

Vou ao banho e me recordo de uma foto do fotógrafo James Stanfield[1] publicada anos antes na National Geographic. A paisagem magnífica, tomada com arte e talento, revelava uma beleza quase inacreditável da planície semi-árida e misteriosa, com dezenas de estupas de tijolos vermelhos brotando da terra entre árvores e a bruma da manhã, a mesma que em breve eu esperava ver sobrevoando o mar de templos ruinosos.

Sobrevoando Bagan de balão

Às 05:30 da manhã, um curioso ônibus adaptado ao chassis de um caminhão da Segunda Guerra Mundial busca os passageiros em seus hotéis. Chega minha vez. Subo e tomo acento. Dentro dele já outros oito turistas. A mente vagueia, ainda sonolenta, enquanto o velho ônibus de motor barulhento se arrasta,segue devagar pela estrada de areia, vai colhendo aqui e ali outros turistas também insones, todos a caminho do mesmo campo de decolagem. Observo pela janela uma terra que o tempo não mudou, desde a imperial Birmânia, séculos passados. Muitos budas e templos depois, chego ao campo. Desço devagar, mas não relutante, senão ansioso. Seriam os balões da mesma geração do ônibus?

Surgem os primeiros raios da manhã. Raios quentes, mas não cor, não ardentes. O cenário parece ilusão, uma venturosa manhã com neblina rasteira à terra, um descampado de terra com  os gigantescos balões deitados e esticados, esperando a hora de serem cheios. É muito excitante vê-los trabalhar. Só menor que a experiência de voar.

Os incríveis artefatos voadores – os balões da Baloons over Bagan – são propriedade de um australiano e um birmanês, empresa com cerca de 100 funcionários birmaneses, 10 balões para até 10 passageiros cada, além do piloto, que realiza um voo diário de cerca de 45 minutos. Os pilotos, australianos e ingleses, quando chegaram os passageiros, já estão a postos diante de seu balão e grupo, assim como cada equipe que om inflará. Recebemos instruções de voo. São poucas. Seis homens começam a inflá-los com ventiladores e depois com ar quente. Puxam cordas para segurar o balão que se enche e começa a querer subir. O cesto ameaça se arrastar, se levanta e fica na posição horizontal, pronto para receber piloto e passageiros. Sou o último a tomar um lugar no cesto.

O clima se parecia com o de um safari colonial britânico, de uma elegância discreta e aventureira. Quando soltas as amarras, o balão sobe levemente. Guiado pela suave força do vento e pelo comando da piloto, quase não senti a decolagem. O fogo azul do gás propano, que mantém o balão cheio e quente, faz o único ruído audível. Todos estão calados. Quando já atingimos boa altitude, não tenho tempo de sentir vertigem, pois a “amurada” do cesto chega à altura de meu peito.

Vejo a névoa baixa, leitosa e rasteira junto à terra, agora já de cima e entregue ao silêncio. Com o Sol nascendo, o balão ia “raspando” o topo dos templos, crianças correndo embaixo, acenando e gritando para nós. Homens tocam seus rebanhos e carroças. Um mar de estupas se abre, tal qual a foto de James Stanfield.

Decolando e voando

Mais quente, mais alto; mais frio, mais baixo. Balão dominado, voo tranquilo, ao nos aproximarmos do templo Sulamani, a piloto pergunta: “Querem ver o brilho das pedras preciosas do hti?” Ela baixa suavemente e o cesto passa quase roçando o topo. Vimos de fato o enfeite brilhar.

“Vamos descer ali”, aponta para um descampado. Um caminhão e nosso ônibus também vão para o lugar. Descemos lentamente até o cesto tocar o solo, com precisão e suavidade. A equipe de terra montara uma mesa com champanhe e petiscos. Co todos já em terra, a piloto discursa, agradece, brinda e distribui um certificado de voo para cada passageiro. Pouco depois somos levados de volta aos respectivos hotéis.

Havia tempo para o café da manhã, um conforto para quem acordou às cinco e estava em jejum. Tiro um cochilei até onze da manhã. Renovado sigo com Patrício para um longo dia de visita aos templos, até o pôr do sol. Depois do voo seria óbvio não esperar novas emoções, mas injusto dizer que não as tive.

(*) Fotos feitas a partir do nascer do sol do dia 13 de fevereiro de 2013, com uma NIKON D800 e uma lente Nikon 28-200mm F3.5-5.6 durante um vôo de balão sobre Bagan.

[1] James Stanfield viveu aventuras invejáveis em mais de 120 países, fotografando para reportagens que já lhe renderam inúmeros prêmios de fotografia.