EGITO – Luxor – O Vale dos Reis

Os faraós e a eternidade

A Map of The World, de Pat Metheny

Lá longe, uma escadaria. Tão distante de mim quanto seu passado. Situada ao pé de uma falésia, ao fim de um vazio desértico lunar, a arquitetura do templo tornava o conjunto uma paisagem estranha mas admirável, cujo ar misterioso fazia meu olhar se render. A mente, até então imperturbável, afobava-se com a proximidade da ação, do contato e do prazer do toque.

Os ventos gelados que há pouco sopravam no deck do navio já não se sentiam, mesmo às onze da manhã, sol quase a pino, ainda que naquele vale seco e descampado. Nos dias de inverno, o sol nasce forte no Egito, contudo seus raios chegam ao chão já resfriados e os sentimos agradáveis à pele. Com o ar deliciosamente fresco e puro, eu me sentia num clima suíço, embora sem meus lábios ressecados e feridos.  O céu tinha um azul tão intenso que nem precisava dos contrastes para sobressair, mas quando chocava-se com a terra ocre e febril, ultrapassava as medidas. O cenário, embora simples, tornava o conjunto curioso, cuja oposição entre duas coisas da natureza – terra e ar – com um templo no meio, era suscetível às mais agradáveis admirações e adjetivos. Acima da linha do horizonte, tudo era azul, azul, azul. Abaixo, da cor do deserto.

O clima! Aprendi com o tempo que não há quase nada tão potencialmente agradável ou destruidor numa viagem. Falo dos dias em que a gente acorda e o mundo parece tão azul quanto os de um sonho nos Alpes, num cantão germânico qualquer na Suíça ou nas terras da Noviça Rebelde. Dias desses que nascem para serem explorados assoviando The Sounds of Music. Noutros, tão melancolicamente cinza, escuro, frio, ventoso e chuvoso que a ausência quase completa de luz faz as janelas embaçarem-se, implorando por raiozinhos pálidos para termos aceso nosso desejo de exploração e deixarmos o aconchego.

E então, a breve mas intensa chuva de lembranças quebrou-se com o barulho do “trem” amarelo. Os dois vagões puxados por um trator fumacento nos levariam ao templo. O estardalhaço de seu motor me trouxe de Zurique de volta ao Egito, e minha cabeça – onde tudo cabe – tornara-se livre, pronta e aberta para “receber” o belo mausoléu da rainha, através de gargantas sinuosas até a proximidade com a morada definitiva de Hatshepsut.

O Vale dos Reis

Às vezes olho para uma paisagem e enxergo mais do que ela, uma versão do que a mente pensa ser, de tal modo que ali minha pura fantasia abstrata fazia-me avistar um “palácio”, embora eu soubesse tratar-se do templo mortuário da Rainha Hatshepsut. E aparentava mesmo ser tão raro quanto eu pensava: dedicado a uma mulher, único a céu aberto no vale, as areias do deserto não o mantiveram em segredo por milênios, como todas as demais 63 tumbas descobertas ali. Mais do que ruínas de uma gloriosa civilização, um mausoléu faraônico era a casa da eternidade de reis e rainhas, e mesmo não sendo palácios em vida, edifícios suntuosos post mortem. Lugar de quietude e repouso, por certo, mas aparentemente tão vivo e pulsante de história que me inspirava, tanto pela beleza e exclusividade, quanto pela alegria e curiosidade que despertava, de tal modo que em nenhum breve momento me aparentou ser um lugar de luto e melancolia.

Obra das mais exclusivas e diferentes de todas as que visitáramos, sobretudo as tumbas subterrâneas do Vale dos Reis, onde estivéramos pouco antes, integra o conjunto de túmulos enterrados que arqueólogos precisaram de uma vida para descobrir. Impossível não inquietar-me, pois o de Hatshepsut, além de único exposto a céu aberto, tinha três terraços sobrepostos acessados através de rampas e escadas, cujo desenho, arte e arquitetura eu já podia identificar como típicas das moradas eternas faraônicas, ainda que aquela fosse tão inigualável.

Nem todos os faraós eram homens. Hatshepsut, por exemplo, ainda que não tão conhecida quanto Cleópatra, foi uma das mais importantes do Egito Antigo. Filha do Faraó Tutmés I, nasceu em 1490 a.C., morreu aos 50 anos de idade depois de comandar seu mundo. O mausoléu, localizado ao pé de um dos morros do vale, teve muito do que havia nele, destruído e vandalizado, motivo porquê sua reconstrução lhe dá a aparência de bem mais novo. Várias esculturas em pedra e pinturas representam a história da rainha, mas são as colunas e espaços abertos, que seguem uma geometria interessante e atraente, o que impõe ao templo sua característica tão expressiva e inigualável.

As tumbas escondidas

Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu uma tumba cheia de tesouros no Vale dos Reis. Desde então, diversas outras expedições e especialistas encontraram no mesmo espaço dezenas de outras, todas consistindo de um longo corredor inclinado que desce ao subsolo das montanhas até através chegarem a uma ou mais salas e, finalmente, à uma câmara funerária, entre elas a tumba de número 62, de Tutankamon e a de Ramsés IX, as grandes estrelas do vale. Descoberta em 1922, tudo o que foi encontrado está no Museu Egípcio, no Cairo. Escavações estão em andamento para a descoberta de novas tumbas, mas muitas das encontradas estão abertas à visitação, entre elas as mais populares aquelas ornamentadas nas paredes e tetos.

Dali seguimos para os Colossos de Mêmnon, duas estátuas gigantescas do faraó Amenófis III, situadas na necrópole da antiga cidade de Tebas, tidas como guardiãs do templo funerário do faraó. Depois, voltamos ao navio, carregados de boas lembranças e imagens que víramos no dia.

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A seguir:

Karnak, Luxor e eu

Uma data para não ser esquecida

A sonorizar este capítulo, A Map of The World, linda e inspiradora melodia de Pat Metheny tocada por ele mesmo, parte da trilha sonora de minha vida, que junto a outras tantas canções felizmente me seguem desde a infância sem que delas eu me esqueça e novas outras vão aderindo.