De volta À Índia. Capítulo 4: O Túmulo de Humayun. Para o marido, com amor

TUMBA de HUMAYUN 01

               O estilo mogol, na arte e na arquitetura, não tem autor em particular ou grupo de artistas criadores, resulta de uma consciente atuação de alguns imperadores – desde Babur, o fundador do império mogol – até Humayun, Akbar, Jahangir, Sha Jahan, Dara Shikoh e Aurangzeb, que compartilhavam grande interesse pelas artes, além de líderes de um império que cobriu grande parte da Índia em seu auge. Eram homens cruéis, guerreiros conquistadores e senhores das guerras, é verdade. Comandavam bravamente invasões e o domínio de povos mas, ao mesmo tempo, apreciadores das artes, da ciência, astronomia, filosofia, literatura e religião.

                      A dinastia muçulmana – de origem mongol-turca – que governou a maior parte do norte da Índia desde o início do século XVI até meados do século XVIII, foi notável pela habilidade de seus governantes, que através de sete gerações demonstraram talentos incomuns, da organização administrativa ao comando, sendo a mais estranha aos dominadores, a dedicação, ainda que muçulmanos, de integrarem-se com os hindus para formarem estado indiano unido.

TUMBA de HUMAYUN 02

                      Incentivando e promovendo diversas expressões artísticas, não apenas na arquitetura e na ornamentação, também na pintura e literatura, todavia principalmente naquelas, por 250 anos financiaram gerações de arquitetos, artesãos, calígrafos, artistas, pintores, escultores, metalúrgicos, tecelões, o que resultou num estilo esteticamente sutil, delicado e elegante, ainda que robusto e grandioso, às vezes monumental, massivo o bastante para expressar poder e glória. Era a grandiosidade artística como instrumento de demonstração de poder.

                       Sempre que possível, respeitavam os padrões islâmicos cujas bases estavam na Pérsia, mas inspiradas e consumadas por Tamerlão durante o império mogol de Samarkanda, Uzbequistão, de tal maneira que as primeiras construções mogóis na Índia sejam interpretadas estilisticamente como meras recriações do estilo timúrida de Tamerlão, embora da arte persa, da corte safávida de Isfahan, tenha-se originado, contudo, mais tarde, tendo adquirido na Índia sua personalidade e desenhos muito próprios. Talvez por isso os persas desprezassem as cortes islâmicas da Índia, que definiam os mogóis como gente de um senso estético que não lhes agradava, tendo sua arte sido influenciada demais pela hindu, se “arredondado” demais e tornado menos brilhante e colorida que a expressa nos mosaicos cerâmicos persas e timúridas.

TUMBA de HUMAYUN 03

                 Carecia, diziam aqueles, de classicismo, de contenção, estavam longe da perfeição geométrica da safávida, ainda que inconfundível, de notável individualidade e de um bom gosto irretocável aos olhos do resto do mundo. Mesmo um não conhecedor, depois de uns dias na Índia, dificilmente deixará de reconhecer que aquele monumento ou trabalho pertence ao período mogol, sejam os expressos nas fachadas e ornamentações internas, sejam os demonstrados em minuciosas pinturas de cenas do império e nas artes decorativas, tal sua distintiva personalidade.

                 Uma obra prima arquitetônica que quase consagra toda a perfeição e beleza do estilo mogol, o imenso mausoléu de Humayun, ainda que este seja apenas um dos exemplos da fabulosa arte voltada à arquitetura, mesmo em Delhi, onde, por exemplo, a mesquita Qila-I-Kuhna, dentro da cidadela de Purana Qila – ou Old Fort, chega à perfeição. Este túmulo, declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO, em 1993, foi obra desenhada por arquitetos de Bukhara, no Uzbequistão, a pátria timúrida, dinastia da qual os mogóis são extensão. É comum apelidarem o túmulo de Humayun como “Taj Mahal de Delhi”, embora haja enormes diferênças entre ambas, todavia, a magnífica necrópole – em cujo silêncio sereno de suas pedras cor-de-rosa Humayun repousa em paz – também pode ser uma prova de amor.

TUMBA de HUMAYUN 04

                  O quinto imperador mogol – Shah Jahan – talvez seja o personagem mais romântico da Índia, pois construiu o Taj Mahal, o mais espetacular túmulo do planeta, monumento em memória de sua esposa, Mumtaz Mahal,. Merece o título, não há dúvidas, mas poucos sabem que sua inspiração veio de sua bisavó, Hamida Banu Begum, esposa do segundo imperador mogol, Humayun que, dizem, construiu a Tumba de Humayun, o primeiro do subcontinente indiano cercado por um jardim – o Char Bagh –  que também impressiona pela megalomania, pela demonstração de poder e pelo que deve ter sido a vultosa soma de dinheiro empregada ali, onde não se encontra ângulo imperfeito ou canto que não impressione.

TUMBA de HUMAYUN 05

A seguir:

Capítulo 5 – O Complexo Arqueológico Mehrauli

De volta à Índia – Capítulo 3: A primeira manhã. Duas Delhis, dois mundos

          O clima age a nosso favor, com um quase frio nos fazendo imaginar o quanto deve ser difícil Delhi acima dos 40 graus. Sob um céu azul, mesmo sendo cinza, começamos o dia na vasta expansão urbana da capital, onde duas “cidades” me atraem: a “nova” – de arquitetura colonial modernista, com amplas avenidas e vistas grandiosas, arborizada por tamarindeiros, rodeada por mansões coloniais e prédios do governo em estilo inglês…

NIK_6484
A Nova Delhi, ou Lutyens Delhi

… – e a velha, de essência mogol, carregada de “indianidades”, a antiga Shajahanabad, a que o economista John Kenneth Galbraith, embaixador americano na Índia, nos anos 1960 chamou de “anarquia funcional”. Ali fica Chandni Chowk, nome da principal avenida de comércio da capital do império mogol, o olho do furacão, hoje quase um bairro dentro de outro. A anarquia permanece, assim como a pressão das pessoas, as vielas e os becos com ou sem saída, a fumaça, os cheiros, os mitos e as lendas, as verdades e a história entre uma cacofonia inconfundível e uma multidão imparável.

NIK_7186
Detalhe da intrincada, belíssima ornamentação do Minarete Qutub

          Para além de ambas, junto à Nova Delhi ficam fenomenais ruínas do século XII, de cidadelas construídas pelos primeiros governantes islâmicos, num parque chamado Mehrauli, entre cujas diversas construções antigas – de mausoléus a mesquitas, de baolis a templos hindus – fica o Complexo Qutub. Ali, o ícone do parque é o Qutub Minar – o minarete de tijolos mais alto do mundo – um fenomenal exemplo de arquitetura indo-islâmica que faz jus integrar o Patrimônio Mundial da Unesco, eterno, ícone do poder mogol, projetado nas linhas do Minarete de Jam, no Afeganistão. São 72,5 metros de altura sobre uma base sólida, belíssima, massiva, com 14,3 metros de diâmetro.

NIK_7451
Complexo Qutub

          Histórias sugerem que Qutub Minar teria sido construído num local em que havia um conjunto de 27 templos hindus e jainistas, parcialmente destruídos pelos invasores muçulmanos, mantidas algumas preciosidades e usadas suas pedras em mesquitas e outros lugares. Mas não é só este impressionante monumento que capta a atenção de quem está ali. Outras antiguidades também, como a Mesquita Quwwat-ul-Islam, o Alai Darwaza, o Alai Minar, a Madrasa e Tumba de Ala-ud-din, o Pilar de Ferro – com sete metros de altura, do séc. IV, erguido em homenagem ao deus hindu Vishnu, o vestígio metálico melhor preservado da história da humanidade – a Tumba do Imam Zamin.

NIK_7089
Túmulo de Isa Khan Niyazi

          Chegamos até lá pelas ruas largas do bairro novo e, na área em que se fundem a nova e a antiga Delhi, paramos no Baoli do Marajá Agrasen ki – ou Ugrasen ki Baoli – um reservatório de água que servia à população para a coleta de água e lazer. Em Delhi e no Rajastão há outros poços semelhantes, belos e antigos, sendo este o mais conhecido e próximo.

Baoli do Marajá Agrasen ki

          Apesar da presença do rio Yamuna, Delhi sempre teve deficiência de água devido aos longos períodos de estiagem. A população medieval recorria, então, a esses poços, além de represas e lagos artificiais que havia para reter a água de chuva durante o período das monções. De todas as estruturas de conservação de água construídas desde então, as mais esteticamente interessantes e incomuns foram os baolis, que ainda hoje consideram-se uma fusão brilhante de sensibilidades arquitetônica e artística, concebida como uma enorme evolução dos poços subterrâneos, pois eram abertos e equipados com escadarias que desciam até o nível da água, tinham uma face equipada com câmaras e passagens destinadas ao lazer num ambiente mais fresco, com câmaras e “passeios” que se interligavam, alguns até com pranchas para mergulhos. Um misto de reservatório de água potável e piscina.

NIK_6517
Baoli do Marajá Agrasen ki

Sunder Nursery

         Pouco depois de sairmos do baoli, Niraj pede ao motorista que pare num local que não estava no roteiro. E nos diz com orgulho que nos mostrará uma atração muito nova em Delhi, o Sunder Nursery (Viveiro Sunder). Ao descermos da van avisto duas placas anunciando o que disseram as revista Times –  “Um dos grandes lugares para se visitar em Delhi” – e a Outdoor Magazine – “O mais novo sítio turístico da cidade. Abandonado por anos, foi reaberto em março de 2018 depois de minuciosa reforma.

NIK_6591a
Sunder Nursery

          Inesperado e surpreendente, o Sunder Nursery é mais que um horto ou parque, senão um complexo de jardins históricos do século XVI, com canteiros de flores coloridas e um jardim de rosas com 30 diferentes variedades, 300 espécies de árvores e 80 de aves permanentes e 90 hectares que serão expandidos até juntar-se ao Purana Qila, quando se tornará o maior parque urbano da Índia.  A vista central tem jardins inspirados nos jardins mogóis, com fontes de pedra e mármore com adornos em forma de lótus. O lugar é de uma beleza natural e arquitetônica especial, porque entre a natureza de um jardim bem cuidado ficam 15 monumentos mogóis, seis deles do século XVI e nomeados Patrimônio Mundial da Unesco.

          Dali fomos ao espetacular Túmulo de Humayun.

India-01-1

A seguir
O Túmulo de Humayun. Para o marido, com amor
NIK_6739
O Túmulo de Humayun