Assuã – O Templo de Ísis na Ilha de Philae

Não há mais mistérios, não há mais segredos nem pistas a seguir. Mas ainda magia e beleza. Hoje não se vai mais à procura de um mundo perdido, de peças que faltam para completar o mundo, templos submersos ou tumbas soterradas, senão para navegar o Nilo turisticamente. Mas isso quase basta, porque silenciosamente numa felucca[1] assistem-se passar os mesmos pedaços de Egito antigo às suas margens, tal qual experimentavam os exploradores pioneiros que pela primeira vez avistaram obras de um estranho, admirável mundo antigo. O rio ainda fascina do mesmo jeito e motiva tantos a sairem de casa em busca de seus tesouros faraônicos.

Somos agora apenas viajantes turísticos comuns, não mais pioneiros, e no exercício de deliciosas explorações mundanas. Seguimos o rio num entardecer encantador, em busca do Templo de Ísis na ilha de Philae, e não era nada difícil nos sentirmos na pele de exploradores de séculos passados.

A caminho do templo de Philae

O rio é eterno em sua beleza brilhante, no azul profundo que rasga o ocre e alimenta de fertilidade as terras às suas margens, preservando a integridade de sua gente e a identidade do país. Navegamos as mesmas águas cruzadas por embarcações cinco mil anos atrás, subindo o Nilo juntos às suas costas observando o desfilar de templos faraônicos. A atmosfera é soberba, e até possível descrevê-la, mas permanece coisa melhor de sentir do que contar. Naquela tarde, a felicidade parecia não vir de cada um de nós, senão do rio, e enquanto o barco seguia Nilo acima em direção à adorável ilha do templo, o entardecer na Núbia caía divino sobre nós, ajudando o protagonismo do rio, convertendo-se no pôr do sol mais estonteante, que embora sempre adorável em qualquer buraco do planeta, quando calha de ser daquele jeito torna-se arrasador.

A abordagem pela água é a coisa mais bonita

Os únicos sons vêm do bater suave do Nilo contra o casco do barco, do motor também e dos suspiros de não mais que oito passageiros. Não se sentem cheiros, a não ser de ar limpo, pois os perfumes, especiarias e incensos egípcios que carregam as narinas nos mercados não chegam a esta altura do rio. Não navegamos numa romântica dahabiya[2] movida pelo vento, senão numa embarcação anônima e ordinária, sem um convés repleto de sofás, futons e poltronas estofadas, mas a navegação me parece tão sedutora e mística quanto dos relatos de antigos viajantes. Sei que será breve, razão porque entregar-me a ela é o que melhor posso fazer. As vezes me ocorre não bastar olhar, precisar tocar para desfrutar plenamente o momento, então, inclino-me para fora do barco de madeira desgastada, ponho a mão na água e metade dos dedos arrastam no Nilo. Ele sobe pela palma até o pulso, com força, mas como carícia. Concentro-me no enorme prazer temendo os exageros, parecer tolo ou, pior, deslumbrado, ainda que intimamente justifique-se o tamanho do pazer de tocar as águas do Nilo. Sorrio, discretamente, um sorriso de “canto de boca”, mas deixo livre o curso dos meus pensamentos: “Que mundo maravilhoso! Que momento!”. A mão volta ao barco, os olho observam meu redor e reparo outros sorrisos francos e mãos medrosas tocarem o rio. Nem preciso ler pensamentos. 

Colunatas e pilares parece surgir do rio como miragem

Para mais, de nada eu preciso, nem mesmo desejar paz e sossego, pois ela já nos chega com a brisa confortável que sopra nossos rostos desde Assuã. Até a ilha de Agilika – pedaço de terra onde hoje mora o Templo de Ísis – são oito agradáveis quilômetros que vejo e sinto do mesmo jeito que disse Amelia Blandford Edwards[3], que em 1877 descreveu a abordagem pela água como a mais bonita. E vista assim, do nível de um pequeno barco – a ilha com palmeiras, colunatas e pilares parece surgir do rio como miragem. Falta pouco para encontrarmos a joia do Nilo, que já avisto aproximar-se. 

 Minha razão ainda não consegue aplacar a fantasia, então, mesmo com a aproximação encantadora – água, rio e impressões iguais às do relato de Amelia – faltam-me contudo as flores de lótus, os crocodilos, os papiros e nenúfares de flores roxas aglomerados num mesmo canto da margem. As imagens que eu trouxera na imaginação vinham agora, provando que um viajante deve cuidar para que o Egito antigo não se perca entre a luz da realidade e a escuridão de suas divagações. Volto aos trilhos e vejo que não há mesmo sombra de dúvida: a chegada honrando o valor do templo e as palavras da autora, convertendo-se num grande momento, a paisagem sendo tudo, maior que tudo, tão grande e bela que por pouco quase perco o interesse pela câmera. Registro rapidamente o momento para que não volte sem imagens fotográficas, mas não revelam o que descreveu a exploradora. Então, chego ao porto e o templo já não cabe mais no rio. Deixa de ser reflexo, de tremular na água para tomar sua forma concreta, protagonizar, me fazendo prever que apesar de encantadora a abordagem, haveria de ser visita ao templo outro espetáculo, ter peso igual em toda a diversão. O rio tornava-se agora coadjuvante e o templo tomava o papel principal.

A “avenida” dos vendedores do templo

Um plano ocre brilhando sob a luz mágica do entardecer que incidia diagonalmente sobre as paredes de pedras. Rochas empilhadas com maestria, talhadas com fineza e a delicadeza de divinos desenhos formando um cenário perfeito com o rio ao redor. Em terra, uma outra personalidade, a mesma intensa beleza, um templo entre os mais luminosos do Egito antigo, que em nada lembra a obscuridade dos muitos mausoléus que abrigam tumbas e sarcófagos faraônicos que visitaríamos nos dias seguintes.

Vejo aproximar-se o ancoradouro da ilha com outros barcos ancorados. Contemplo mais uma vez o reflexo do templo na água, despedindo-me dele, porque eu sabia que a chegada era para se aproveitar sem hesitações, que em breve a atracação mataria a perspectiva, acabaria com a atmosfera do encontro. Com um último suspiro saio do barco.

Um templo com luxuosas vistas para o rio

Uma pequena colina servida por uma escada de cimento leva-nos até o nível do chão, uma larga “avenida” com bom calçamento, que embora ladeada por um “corredor polonês” de vendedores, é caminho tranquilo às bilheterias e ao portão do complexo. Logo pegamos nossos ingressos, cruzamos o portão e, voilà!, um ângulo surpreendente e amplo se abre para um pátio delimitado por duas grandes fileiras de colunas.

O primeiro pilone

Trinta e uma delas dispostas ao longo de 100 metros margeiam o pátio diante do grande pórtico – ou pilone – obra em forma de pirâmide truncada com belíssimas e enormes representações de Ísis, Hórus e Ptolomeu III em baixo relevo, guardadas por dois leões de pedra ao nível do chão. O conjunto é tão belo que por si já teria valido a visita. Mas há um novo pátio fronteiro ao templo, cuja fachada tem representações da deusa e de seu esposo, Osíris, e assim que o cruzamos, uma aparição “surge”: a Sala Hipostila, uma coisa linda, adorável, com paredes, umbrais e colunas profusamente ornados.

O Templo de Ísis

Filas é nome da ilha que o templo de Ísis tomou para si. Era o antigo lugar onde fora construído há “apenas” 2.000 anos. Após 1902, com a construção da primeira represa de Assuã, permanecia inundado durante seis meses, quando então os viajantes remavam entre as colunas parcialmente submersas e espiavam tudo mais o que ficava à vista, rodeados por água e pedras do santuário dedicado à poderosa deusa. Ficou assim sob as águas do poderoso Nilo por 70 anos. Pobre Isis. Mais tarde, com a conclusão da Barragem Alta, o templo seria totalmente submerso, razão porque o deslocaram, graças a Isis, caso contrário o teríamos perdido. Remontado pedra por pedra na nova ilha, entre 1972 e 1980, mantiveram-se suas características originais, sua atmosfera incomparável, a aparência, o layout, paisagismo e até mesmo as marcas das inundações que ainda hoje podemos conferir.

Estilo e padrões faraônicos

Parece antigo – e para nós do novo mundo verdadeiramente é -, contudo, trata-se de um dos templos mais recentes, além do mais bem preservado. Considerados os padrões faraônicos, trata-se de um jovem dentro de uma história que remonta a 5000 anos[4]. A obra é “nova”, mas de uma época em que o resto do planeta vivia na obscuridade cultural e intelectual, que do primeiro ao último vislumbre, suas torres e paredes prendem olhares e faz soltarem-se suspiros.

Na ilha, outras edificações construídas pelos ptolomeus – Cleópatra a última – foram adicionadas a Philae nos últimos dois séculos a.C, assim como depois por imperadores romanos. Nas inscrições e desenhos contam-se histórias de deuses e da realeza, que embora comuns a todos os templos faraônicos, em Filas têm vista para o rio. Talvez eu devesse dizer algo mais, mencionar outros méritos do templo, discorrer sobre datas e deuses, não passageiras, mas deixarei de lado, pois não me qualifico e temo a simplicidade, abordagem superficial de um assunto cercado por obstáculos. Sinto-me, contudo, mais à vontade para apontar seus valores visuais, construtivos e arquitetônicos, as principais particularidades do templo, além de suas luxuosas vistas para o rio. E para o benefício de quem deseja informações técnicas precisas e afiadas, há um universo em egiptologia à disposição na Internet que eu teria prazer em recomendar.

Ísis era uma das principais divindades da mitologia egípcia e transcendia as fronteiras do Egito, chegando até o universo greco-romano e zelando por todos, de escravos e nobres a pecadores, santos, governantes e governados, dominando o cosmos com chifres, asas e um disco solar na cabeça.

Ao redor do Templo de Isis, pequenos outras obras com menor brilho, como os templos de Hathor e o de Trajano, o pavilhão de Nectanebo – rei da 30ª dinastia -, a Porta de Adriano, além de um nilômetro – cujos degraus de pedra mediam o nível do rio. O quiosque de Trajano, dedicado ao imperador romano, construído no início da era cristã, tem estrutura que pode sugerir ter sido adaptado e ornamentado mais tarde com elementos característicos do império. A edificação tem planta retangular e quatorze colunas com capitéis entalhados com motivos florais e paredes com imagens do imperador queimando incensos em honra de Isis e Osíris e ofertando vinho a Isis e Horus.

Dias mais tarde visitamos Luxor e Karnak, templos que poderiam tornar o de Ísis “pequeno”, contudo, sua beleza e delicadas proporções, a cuja “leveza grega aliada à forma egípcia” se referiu Amelia Edwards – trarei para sempre comigo no setor egípcio de meu cérebro viajante. 

Aproveitamos cada minuto na ilha da deusa, e aproximando-se a hora de um dos mais belos poentes da viagem, fomos orientados a apreciá-lo de cima, antes da descida ao ancoradouro para retorno ao barco. Foi mesmo tão belo que parecia exclusivo, como se a deusa celebrasse nossa visita ao templo. Descemos para a felluca que nos levaria de volta. Entramos num barco qualquer, o primeiro da fila, com um núbio no comando.

Seria mesmo núbio o nosso capitão? O Egito teve a Núbia como país vizinho em sua divisa do sul, que agora fica a 250 quilômetros dali, com o Sudão. Embora com óculos de sol “rayban” e um casaco contemporâneo, a fisionomia não aparentava ser a de um egípcio, pois tinha traços incomuns aos que víramos desde o Cairo, dando razão à minha curiosidade. O fim da visita foi sob um pôr do sol incrivelmente bonito enquanto nos afastávamos da ilha, navegando de volta os oito quilômetros que nos separam de Assuã.

A silhueta negra do templo foi ficando para trás, enquanto à frente, casas núbias desfilavam à beira d’água. Pintadas em azul turquesa e iluminadas pela cor quente do poente, ornavam-se com pinturas em rosa, amarelo e verde.

O Obelisco Inacabado

Nas proximidades da cidade há pedreiras antigas, fontes do melhor granito do Egito Antigo, de onde saía matéria prima para grandes esculturas, monolitos e obeliscos. Numa delas talhava-se o que pretendiam ser o maior obelisco da antiguidade – o Obelisco Inacabado – cujos 42 metros de altura e 1168 toneladas seria também o mais pesado bloco de pedra já produzido por egípcios na antiguidade.

Abandonado devido a fendas e rachaduras surgidas na peça ainda deitada, permanece conectado à rocha, tornando-se uma das atrações mais conhecidas da cidade, ainda que quase nada mais se saiba sobre a obra ou para onde seria transportado.

Embora muitos outros sítios arqueológicos fascinantes haveríamos de visitar nos próximos dias, aquele primeiro dia de cruzeiro no Nilo terminou como o mais notável de nossa estada no Egito.

Próximo capítulo

Edfu e Kom Ombo – De Assuã a Tebas (Luxor)

[1] Felucca é um barco à vela tradicional de madeira, usado em águas resguardadas do mar Vermelho e do Mediterrâneo Oriental, como em Malta e, particularmente, no rio Nilo no Egito e no Sudão, e também no Iraque e na Sicília.

[2] Dahabya é uma barcaça de passageiros, de madeira e com duas ou mais velas, usada no rio Nilo, relevos gravados na pedra de templos e tumbas do Egito testemunham que essas embarcações já existiam há milhares de anos, embora originalmente fossem usadas para transportar a realeza.

[3] Amelia Blandford Edwards, escritora, contista, jornalista e egiptóloga britânica da Era vitoriana, produziu romances, diários de viagens, contos e ensaios sobre o Egito Antigo e co-fundadora da Egypt Exploration Society, emA mil milhas acima do Nilo”, publicado em 1877 com o título A Thousand Miles Up the Nile(p. 207).

[4] O templo foi construído entre os anos 380 e 362 a.C., durante a última dinastia egípcia, dos Ptolomeus, que na verdade eram gregos e descendentes de um dos generais de Alexandre, pouco antes da invasão de Alexandre, o Grande, em 323 a.C.  

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