Jodhpur. Onde foi parar o azul?

No centro velho da cidade, a Torre do Relógio da Praça Sardar é um marco. Além de mostrar as horas com precisão britânica, espia do alto um labirinto de ruas estreitas, calmas e surpreendentemente alheias à efervescência vulcânica ao redor da torre. A cidade se espalha para além dali, mas todo mundo parece morar no quadrado. Porque é extraordinária, todos querem ficar por ali, então a agitação nunca termina.

A Praça Sardar

Protéticos, barbeiros, costureiros e vendedores instalados na praça aguardam com paciência indiana por clientes. Mulheres também, talvez em maior número, mas sentadas no chão, vendem roupas coloridas amontoadas em pequenas pilhas sobre lonas encardidas, enquanto bancas de frutas e frituras nos convidam a saborosas, mas imprudentes experiências gustativas. Ela – a torre -, além das ruas e das pessoas que a circundam, é vigiada pela imponente, altiva fortaleza de Mehrangarh, que soberba no alto da colina, a tudo regula.

A fortaleza de Mehrangarh, soberba, no alto da colina

Enquanto circulo e observo, cruzo com olhares bons e curiosos, interesseiros ou interessantes, mulheres que cintilam em saris coloridos, emprestando graça e leveza ao energético espaço, compartilhando com homens que buzinam motonetas que parecem se desfazer. Vacas – animais-divindade que embora não frequentem cultos ou templos, têm-se como sagradas – ficam ali deitadas ou caminhando sem destino, sem que ninguém as importunem, tal como é próprio aos seres sagrados.

Olhares bons e curiosos, interesseiros ou interessantes

Cães maduros e filhotes serelepes andam entre tuk-tuks, ambulantes, pedestres, desocupados, carregadores, pedintes e mendigos. Se não me escapa nada ou ninguém, é o grupo de coisas e seres que passam ou ficam na praça, aperfeiçoando o que na Índia chamamos “bagunça”, mas que o tempo de uma boa observação faz perceber lógica, fundamento, princípio e ordem.

A cacofonia de sons – decifráveis ou não – e a inquietação da Praça Sardar de Jodhpur podem até consumir a estabilidade mental dos visitantes, mas tudo o que se vê, ouve, cheira, toca e experimenta é precisamente o que faz valer as viagens ao país, experiências de contemplação e participação que tornam a Índia este destino tão fabuloso, para além do que já encanta seu patrimônio cultural e arquitetônico. Se ainda não o tiver percebido em sua estada, será ali que o visitante verá consumadas as verdades e clichês que ouviu do país, aquilo que lhe pareça tão verdadeiro quanto seu oposto, tão confirmável quanto enganoso.

Misturam cores, do rosa ao verde, do verde ao vermelho, do laranja ao amarelo

Aquela vida não nos pertence, mas quase chegamos a senti-la como nossa, como se houvesse um princípio ativo oculto no ar que entra pelas narinas, chega aos pulmões e depois pela corrente sanguínea termina por assolar o cérebro. Como num estado alterado de consciência, dura pouco e, ao final, consagra-se num êxtase especial que marca como cicatriz a passagem por Johdpur, cidade que merece ser vista e ter contadas as experiências vividas, como agora me apraz fazer.

Quanto melhor o envolvimento, maior o desgaste. Contudo, o cansaço (às vezes exaustão) mental, sempre, de alguma maneira, é compensado. Os contrastes entre beleza e pobreza são invasivos, ferem a dignidade humana, magoam, entristecem e findam por marcar o observador, mas são efeitos que sempre passam, ainda que não se esqueçam. Como ferimentos que um dia doeram, viram cicatrizes que não doem mais, mas lembram ter doído. E quando o coração parece cansado, os olhos o despertam novamente. E se chorar é natural para os mais sensíveis, sentir lágrimas discretas e silenciosas correndo deve fazer parte da experiência e, ao final, entre mortos e feridos, salvam-se todos. Para estes, a Índia torna-se uma droga que depois da abstinência apela ao regresso.

Fotografo tudo com intensidade fora do comum, o que faz sentir o processador da câmera esquentar na palma da mão. Desligo-a esperando que ela e meu cérebro esfriem. Entramos no modo “repouso”, ela apoiada em meu braço enquanto meus olhos observam pombos em bando eagitados. Desvio meu olhar para o céu e acompanho suas evoluções como se buscasse na observação uma tranquilidade reparadora. Quando voltam à terra, percebo que não teria sido tão perfeita a visita à cidade sem ter vivido aqueles momentos tortuosos na Praça Sardar, a parte mais exuberante e cheia de vida de Jodhpur.

Preciso trocar dólares, digo a Gajraj, nosso guia .

Ele nos leva a uma pequena loja de chás, massalas e insensos com a melhor variedade da cidade, especialmente o pimentão vermelho de Mathaniya e darjeelings embalados a vácuo.

O proprietário é um dos melhores cambistas da cidade, nos diz o guia.  

O sol já anuncia sua ida para o Japão quando peço para retornarmos à torre. Subimos os degraus que levam ao seu embasamento. Depois iremos ao topo, onde chega-se ao relógio e seu mecanismo. Deste plano inicial, ligeiramente elevado, assisto à vida indiana passar e passo a compreender a lógica de seu movimento. Escuto sons que misturam vozes com ruídos da rua e sou novamente absorvido pela vida da Praça Sardar.

A Torre do Relógio, ou Ghanta Ghar

Foi construída pelo marajá Sardar Singh, ma isso não é o mais importante, senão parte da história da cidade. O que atrai é a beleza do desenho, a arquitetura distinta que merece um olhar cuidadoso, e para além de um marco no centro da cidade, é um ponto turístico que não atrai turistas. Quero dizer, poucos pagam algumas rúpias que permitem a qualquer mortal subir por suas escadas estreitas até o topo e conhecer o Sr. Mohammad, homem que cuida do mecanismo e mostra como as coisas funcionam por ali.  O espaço é apertado, mas a experiência e o mecanismo do relógio valem a pena, muito embora a melhor atração seja mesmo o Sr. Mohammad. Ele e seu filho são atualmente as duas únicas pessoas que sabem como fazer o relógio funcionar.

Um passeio pelo Summer Market e pelo Sadar Market de Johdpur

O enigma clássico indiano que emana das ruas das cidades do Rajastão confunde e enfeitiça quanto mais a gente se aprofunda no cenário. Da praça para as vias escondidas atrás dela, os caminhos são uma sucessão de surpresas, encontros e experiências com a arquitetura, arte, cultura, comida e gente, tudo com um carisma especial que só há na Índia.

Uma série de bazares especializados por tipos de mercadorias, que vão de salwar kameez a móveis, roupas de casamento, artesanato, calçados, bordados, tecidos, marionetes, especiarias, alimentos, joias, brocados, pashminas, leite e queijo, chá, tâmaras, implementos agrícolas, frutas, verduras, legumes, produtos de beleza, flores, óleos e perfumes, especiarias, jelabi, comida e chai, chamam-se Sojati Gate Market, Nai Sarak, Mochi Bazaar, Kapraa Bazaar, Summer Market, Sarafa Bazaar. Eles requerem algum preparo para explorá-los, especialmente a companhia de um guia. São um emaranhado de becos antigos com lojas que vendem de tudo.

Uma loja de fantoches rajastanis me atrai especialmente. Os bonecos têm com grandes olhos e roupas brilhantes, que ficam pendurados por cordinhas à espera de alguém que lhes embale e dê vida. Me recordo dos que já assisti e lembro de seus movimentos que contam histórias dos tempos mogóis, batalhas, romances, bravura e baladas. Ao final da experiência sensorial completa, amenizada por uma parada para beber um fabuloso lassi de manga com gengibre, cremoso e gelado, considerado por nós o melhor que provamos na Índia, e depois de uma hora numa loja de pashminas, encerramos a exploração dos bazares de Jodhpur.

No “caos feliz”, o Toorji Ka Jhalra, um suntuoso baoli

Ainda que pareça de outro planeta, quase uma insanidade coletiva, desorganizado na aparência, o caos que faz sentido e tem funcionalidade se dissipa assim que nos afastamos da praça. Caminhamos pela rua Tunwar ji ka Jhalra e por becos até um grande largo, onde fica Toorji Ka Jhalra, suntuoso baoli, escondido neste canto da cidade. Poucos turistas vão até ali. Seus setecentos anos de idade e intermináveis degraus feitos da mesma pedra dos palácios conduzem a um abismo profundo e fascinante, com pavilhões e colunas. O desenho do baoli tem padrão repetitivo e harmonioso em três paredes da estrutura. Não resisto à vontade de descer e vou quase à profundeza, onde fica a água verde acumulada. No Verão e nas monções, jovens mergulham do alto dos degraus e mulheres pegam água em cacimbas. Fico ali como um turista fotógrafo deslumbrado observando e tentando o melhor ângulo para registrá-lo.

Baoli Toorji Ka Jhalra

Tornei-me grande fã dos baolis desde a primeira vez que vi um destes. São construções inigualáveis que acredito só existirem na Índia. Quando programamos a viagem, selecionamos três que desejávamos visitar, entre eles o Tooriji ka Jhalra de Jodhpur, cuja lenda diz ter sido construído por uma rainha, embora a história registre que foi pelo Marajá Abhaya Singh, em 1740. Se eu tivesse dom artístico, reproduziria a imagem em rabiscos a lápis e pinceladas molhadas numa aquarela em tons pastel. Registro como sei e posso, exercendo o ato criativo que dura apenas um breve momento, o instante relâmpago, o dar e receber durante o tempo suficiente para nivelar a câmera e prender a presa fugaz em numa caixinha[1].

Baoli Toorji Ka Jhalra

Índigo blue, anil, azul. Para onde foi o azul?

Blue city?

Perto do baoli ficam as casas azuis. Eram tantas há alguns anos que deram o apelido à cidade. Diferentes explicações definem o uso da cor, embora pouco importe. Entre elas, a religiosa, pois seus residentes pertenciam à classe brâmane – a mais alta da sociedade hindu – e pintavam suas casas assim para distingui-las das demais.

Shiva também seria um motivo do azul. Afinal, o deus com corpo de homem e cabeça de elefante tem a cara dessa cor. Outra explicação mítica afirma que o fundador da cidade – Rao Jodha – mandou pintar as casas ao redor do forte para que a vista se parecesse com o mar. E por último, mas não menos importante, porque a cor azul protegeria as casas contra mosquitos, além de repelir a insolação, mantendo-as frescas.

Contudo, hoje, o apelido “Cidade Azul” parece inapropriado, pois o “mar” de casas da cor índigo que se estendia por uns dez quilômetros ao longo das muralhas da histórica cidade velha, hoje parece uma poça. O “bairro azul” já não passa de algumas ruas, mas ainda vale procurar por aquelas que insistem em manter o tom quase violeta, de anil, a cor de um dos mais antigos corantes usados pelo homem, cuja história começa exatamente na Índia.




[1] Henri Cartier-Bresson

De volta à Índia – Jaisalmer

  NIK_0815Os  cenotáfios de Bada Bagh, periferia de Jaisalmer

                           ACORDO ao som de pássaros e abro bem os olhos com o sol do deserto. Sua luz entra pela cortina e ilumina o chão do quarto, como se me dissesse “é hora de levantar”. O precursor de todo bom despertar é sempre uma noite bem dormida, então, levanto-me bem disposto e vou à janela de ferro e vidro. Avisto as aves em algazarra disputando algo, talvez sementes, quem sabe, insetos. O arbusto sem frutos encostado no muro de pedra da propriedade é o único tom a contrastar com o monocromatismo do deserto e da cidade. Sinto um cheiro agradável e o nariz não me engana: estou no deserto.

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O Lago Gadisar, Jaisalmer 

                         O calendário acaba de mudar para Janeiro. A viagem começara 4 dias antes em Delhi, mas era em Jaisalmer que eu me sentia em férias, naA última cidade da Índia antes do Paquistão, de uma terra nua e seca do deserto Thar, nosso primeiro destino depois da capital, a adorável urbe consumidora da sanidade dos turistas, das buzinas, do trânsito alucinante, das experiências iguais, dos tuk tuks, do patrimônio fenomenal, das imparáveis multidões e da comida de rua sendo um contraponto notável à silenciosa Jaisalmer.

                         Embora eu já à altura fosse um viajante com alguma experiência, e mesmo tendo estado na Índia duas vezes, não escapei das marcas daqueles dias intensos na frenética capital e das interferências em minha sensibilidade. Contudo, agora, com a areia beirando a janela do quarto do hotel de um só andar, eu me sentia um “descobridor” da Índia.

                         O ar está “limpo” e imóvel, não levanta poeira nem mexe com a copa das árvores. Faz frio e está seco, e a pouca umidade sinto na aspereza da pele das mãos.

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O forte de Jaisalmer

                          Concluo o adorável e fugaz conforto que a janela me proporciona,  ainda que me reserve apenas uma nesga da cidade. Ainda assim, é um convite à exploração e um incentivo às expectativas. A segunda etapa da viagem ganhava novo ritmo a partir dali, com novos horizontes e descobertas por virem. Sabíamos que e mesmo que aparentemente Jaisalmer não se compare à extensão patrimonial de suas concorrentes Jaipur, Johdpur e Udaipur, é cidade de grande personalidade, irrepetível em todo o Rajastão e com boas atrações. Do forte Jaisalmer aos havelis, das fachadas de pedra primorosamente esculpidas, dos cenotáfios de Bada Bagh ao Lago Gadisar, da exploração das ruas e seus mercados e templos jainistas.

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Os templos jainistas

                         Sou então tomado pela vontade de deixar a janela para ver e sentir o que é bom, mau, belo e feio da “Cidade Dourada de Jaisalmer”, clichê com o qual não resisti brincar , o mais usados em blogs, revistas, jornais, livros e afins. Há outros, como “Cidade das Mil e Uma Noites”, “Joia dourada do Rajastão”, contudo, o mais popular é este. Uma pesquisa no Google (“Jaisalmer, a Cidade Dourada”) resulta em 28 primeiros que usam o apelido intitulando suas postagens.[1]

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O bom e o belo: a cidade e seus habitantes

                            Jaisalmer é pequena e acolhedora, tem passado histórico, como todo o país, e em especial o Rajastão, mas particularidades. Desenvolvida em torno do forte, que domina a paisagem do alto da colina, ao entrarmos em suas vias estreitas ela sobressai. Pequena, mas com algo mais a conhecer para além do óbvio. A atração maior, depois do forte, são os havelis Patwon Ki e Nathmal Ki, antigas mansões com fachadas lindamente esculpidas, dois entre os cinco outros construídos num cânion de havelis adoráveis e atmosféricos, um dos lugares mais atraentes e desafiadores para cliques fotográficos.

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No haveli, janela com vista para o forte

Os havelis Patwon Ki e Nathmal Ki

                          O Nathmal Ji Ki Haveli foi residência oficial de um ministro-chefe do rei. Tem uma história interessante, pois foi projetado por dois arquitetos. Para olhares ingênuos, a mansão de vários andares parece uma só, mas quando o guia nos aponta as diferenças, a casa parece assimétrica, ainda que única, com metades singularmente diferentes, todavia sem qualquer linha que limite a partição, com os dois lados carregando diferenças sutis. Diferentemente do Patwon Ki, o Nathmal Ji Ki não é um museu aberto ao público, então, visitantes só podem chegar até o pátio de entrada.

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                         Os dois elefantes de arenito do Nathmal Ji Ki Haveli são representações icônicas das esplêndidas esculturas arquitetônicas de Jaisalmer e do Rajastão. Os havelis, também, dos mais importantes do Rajastão, chegam ao topo da qualidade do desenho e da ornamentação arquitetônica civil, constituindo-se numa forma extraordinária de expressão artística, cujas jharokhas, ou varandas, são obras-primas do trabalho construtivo em arenito amarelo, verdadeiras esculturas em filigranas, perfeitos exemplos da riqueza do artesanato, que apesar de ser em pedra, é fino, elegante e detalhado.

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                         O Patwon Ki Haveli é outro exemplo convincente da  riqueza dos que ali moravam. Construído na primeira metade do século XIX, foi  o maior de Jaisalmer. Guman Chand Patwa, seu proprietário, foi um abastado comerciante à época que encomendou a construção de cinco moradias nos andares do prédio para residirem seus cinco filhos. No interior, pinturas de parede esplêndidas e mosaicos espelhados. Contudo, sua fachada, uma escultura artística em arenito, tornou o haveli um ícone na cidade. Operado pelo governo, é hoje um museu com loja de antiguidades e artesanato.

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Um cânion de havelis

                         Aproximando-nos do haveli, vimos detalhes de suas varandas e fachada. Subimos o haveli por sua escada e outros detalhes intrigantes a ornamentação interior, decorado com pinturas e esculturas. Num nível acima, algumas salas vazias e pequenas janelas e nichos davam vistas para a rua. Apesar de não haver mobiliário e o estado geral não ser dos melhores, foi uma sensação de volta no tempo conhecer a antiga, autêntica mansão desde o interior. No nível mais alto, provavelmente o cômodo principal da residência, grandes janelas dão vistas para o Forte Jaisalmer. Depois, um terraço com uma vista ainda melhor e mais ampla. Descemos as escadas e voltamos ao vestíbulo de entrada, onde um belo pavão dava as boas-vindas aos visitantes.

Pelas ruas de Jaisalmer antiga

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A vaca e o tuk tuk

                        Voltamos à rua e vagamos pela labiríntica rede de vias pequenas da cidade antiga, desde os havelis  Patwon ki Haveli e Nathmal ji k Haveli até a região do Sadar Bazaar, passando por residências, comércio e ruas onde os moradores conversando, por pequenos templos e lojas, vendas e mercados de rua, por vacas passeando e às vezes até entrando nas casas. Apesar de estarmos numa região remota e desértica, a qualidade dos legumes e verduras era boa e surpreendentemente frescos e abundantes. Assim como em todo o Rajastão, vimos muitas lojas com roupas e artigos de casa e artesanais coloridos, de lanches, bolos doces e bebidas indianas, produtos de couro de camelo, antiguidades, bordados, cobertores, xales, tapeçaria, bonecos, caixas de madeira esculpida, lâmpadas de óleo e tecidos de seda e algodão.

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Convite de casamento

                        Os moradores locais acreditam que sendo Jaisalmer uma cidade pequena, onde todos se conhecem, a maneira mais eficiente de divulgar um casamento por acontecer é fazer um grafite diante de sua casa. Muitos comparecerão? Sim. E esta é uma peculiaridade de um casamento à moda indiana, convidar um a todos. Por gerações a tradição vem sendo mantida e preservada, inclusive pelas atuais. Independentemente, há beleza e charme na forma como eles são pintados nas paredes, de modo a terem se consagrado numa forma de arte popular e parte integrante da cultura local.

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Antigas moradias de abastados de Jaisalmer

A serendipitia e a fotografia

                        Entre esses caminhos serpenteantes, com velhas mansões, lojas de doces, de artesanato, mercadinhos, sujeira, vacas, muitas vacas, cães, restos, lixos e pedras no caminho, ruas com raras pessoas, cruzamos com Richard i’Anson[2], um dos maiores fotógrafos de viagens do mundo, do qual sou fã e seguidor no Instagram. Representante da Canon Australia, Canon Master Photographer, Embaixador da Fundação Australiana do Himalaia, membro da World Nomads, Mentor de Bolsa de Fotografia de Viagem da Austrália, um dos fotógrafos dos episódios Tales by Light, da National Geographic Channel no Netflix, diz ele, numa entrevista, que “a Índia está entre os cinco lugares que me fizeram”. Então, ali em Jaisalmer, na “esquina” com o Paquistão, rodeados pelo Deserto Thar, naquela manhã e naquele beco vinha ele em sentido contrário com sua câmera apoiada no ante-braço direito. Demo-nos conta disso segundos depois, e confirmamos a suspeita de que era ele que havíamos visto recolher a bagagem no mesmo voo que o nosso, um dia antes. Corri ao seu encontro e dobrei o mesmo beco em que ele entrara segundos antes.

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Com Mr. Richard i’Anson em Jaisalmer

                       Chamei-o:

Mr. Richard!, Mr. Richard!

                       Ele virou-se, e com a calma e uma simpatia que depois soube lhe ser habitual, ouviu minha apresentação, também com minha câmera à mão:

Sr. Richard, sou brasileiro do Rio de Janeiro, um grande fã e seu seguidor no Instagram, no Facebook, em seu site oficial. Assisti encantado algumas vezes ao seus episódios em Tales by Light. Estamos eu e mais três familiares viajando pela Índia, somos todos apaixonados por fotografia e quero dizer-lhe que é uma honra conhecê-lo.

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O falso sadhu mais famoso da Índia. Uma foto, uns algumas rúpias…

                       Surpreso, disse-me que esteve no Rio de Janeiro fazendo uma matéria sobre o Carnaval e que rodava o mundo fotografando festivais. Perguntei se podíamos fotografá-lo e ele respondeu com um sorriso. Foto feita, tietagem explícita consumada, saímos marcados pela serendiptia. Afinal, não é todo dia que se esbarra com uma personalidade de quem somos fãs, especialmente tão receptiva e simpática. Dali em diante ainda o encontramos acompanhado de sua esposa em duas outras oportunidades. Decidimos não mais abordá-lo nem o olharmos, a fim de evitarmos incômodo.

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Pelas ruas de Jaisalmer

NOTAS:

[1] Desisti de contar os que assim o faziam no corpo do texto, não no título. Que fique claro para o leitor que a cidade tem a mesma a cor do forte do deserto e das pedras de arenito, que “douram” tudo. Tirando, claro, as árvores, o céu, os carros, motos, as pessoas, as vacas e o artesanato, bem como os multicoloridos Ganeshas pintados nas paredes das casas

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[2]Página:https://richardianson.com/about-2/

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De Agra a Jhansi, de trem, pelo Shatabdi Express

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                PARA quem já foi à Índia, e lá tenha sentido despertar uma espiritualidade inquietante, daquelas mesmo, carregadas de todos os estereótipos possíveis de caber numa cabeça, com direito à crença em todos os deuses hindus, tão poderosa que o fez jurar que sua outra vida foi na beira do Ganges, duvido que seja um indivíduo que tenha “visitado” o banheiro público da estação de Agra. Não há espiritualidade ou crença capaz de resistir àquele lugar. Mesmo a indiana. Os contrastes da imensa espiritualidade com a realidade (o sistema de castas e de culpar sempre a mulher no caso de estupros) em parte deve ter nascido ali, no banheiro da estação de Agra.

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              Um turista brasileiro, por exemplo, mesmo o mais crente, desses que acreditam até no PT, em homeopatia, em medicina alternativa, em guru indiano, em ervas curadoras milagrosas, no poder curativo do pensamento positivo, em tarô, búzios, chupa-cabra, numerologia, na previsão de futuro, em quem diz “trago seu amor em três dias” e naquelas “consultas” com astrólogos que acertam tudo de sua vida,  ali reavaliaria suas convicções.

               No país dos sem privada, o banheiro daquela estação é o túmulo de qualquer crença. Nesta e nas vidas passadas. A experiência de visitar o lugar é a mais escatológica que alguém possa ter a “oportunidade” de vivenciar. Depois daquilo, não é de se estranhar que na Índia muitos prefiram “fazer” ao ar livre, que mais de 500 milhões de pessoas naquele país evacuem a céu aberto. Parte delas nos trilhos das ferrovias, especialmente no início da manhã, antes que as multidões circulem.

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                    A Estação Agra Cantt é movimentada, mesmo nas primeiras horas da manhã. Nem tanto naquele domingo, pois não havia multidões nas amplas plataformas, contudo, nunca se está só nestas paragens. Gente sempre tem. E ali, sentada nos bancos e no chão, com ou sem bagagem, ouvindo anúncios de chegadas e partidas, não era a estação exceção à regra. Fazia muito frio. E nós estávamos ali de pé junto aos trilhos, encostados no carrinho com nossas malas quando nos deu vontade de “visitar” o banheiro. Mesmo para nós, que já estávamos em peregrinação turística pela Índia há quinze dias, teoricamente enrijecidos pelas visões de pobreza e sujeira, de toda a sorte de heróis humanos e animais tentando sobreviver, lembro de cada minuto da espera do trem. Íamos para Jhansi, esperando que o banheiro da composição fosse frequentável.

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                    Nós quatro já estávamos um pouco debilitados pela ingestão de algum veneno alimentar intestinal. Dois de nós já tivéramos as tripas reviradas, noites “dormidas” no trono, algo que nem mesmo nossas farmácias de viagem bem abastecidas e as consultas à nossa irmã médica no Brasil deram conta. Os banheiros, nestes casos de indisposição, eram o último lugar onde imaginávamos ir em busca de alívio imediato. Não há novidade nisso, muitos já se falou e não pretendo alongar-me no terma, pois quem já leu qualquer relato de viagem à Índia, sabe que banheiros públicos são o pior lugar para o alívio de diarréias. Que dirá o daquela estação. Fosse descritível seu estado, embora verdadeiramente trágico, eu preferiria “fazer” ao ar livre. Então, é um inconveniente impublicável contar-lhe sobre ele. Gosto de desafios, mas este é inconfrontável.

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                  Minutos depois, já acomodados em nossos poltronas no vagão, fui “visitar” o toalete da composição. Para os padrões indianos, sobretudo para o que havíamos visto na estação, era um paraíso para turistas indispostos em seus tortuosos, mas maravilhosos dias de viagem pela Índia. Limpo e fresco, com duchinha e papel. E não era daqueles com buraco no chão, que alguns chamam de “bacia turca”, o vaso sanitário “embutido” no chão, você tendo que fazer suas necessidades agachado, muito embora seja bastante mais conveniente porque não se precisa ter contato com o local onde outra pessoa sentou antes. Este era com vaso “normal” e perfeitamente frequentável, apesar dos pesares.

                A viagem foi ótima. Chegamos bem em Jhansi, de onde fomos de carro à incrível Orcha e depois à adorável Khajuraho.

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De volta à Índia – De Jaisalmer a Jodhpur, de carro

O Outono da minha Primavera

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                          MUITAS vezes sinto que sou o lugar onde estou. Hoje,  aqui em Jaisalmer, sou Jaisalmer.  É dia de meu aniversário,  o quinto de nossa viagem pela Índia e meu despertar foi brilhante. Descansado,  a cama já não parece cativeiro. Mas este não sou eu; acordo e me levanto, muito embora o frio hoje convide à preguiça das cobertas.  O ar também contribui para o bem-estar: já não é mais tão carregado quanto o da capital, dá-me a energia com que saio da cama, louco pela janela, não pelo banheiro. Vislumbro a cidade e sinto-me bem, afastado da rotina doméstica, bem integrado à indiana, apesar da não tão boa experiência no deserto, ontem. Observo-o agora da janela. A cidade está ao fundo e ambos têm a mesma cor.

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                           Desertos sempre me inspiram. mesmo aquele. Se alguém duvida que desertos motivem poetas, escritores,  seresteiros, namorados e fotógrafos, deveriam conhecer qualquer um.  Mesmo o de Jaisalmer, que o turismo predatório subtraiu suas melhores oportunidades de experimentarmos o romantismo que consigo encontrar neles.  Mesmo ali, em que a mente não consegue mais perambular pelas fantasias, ainda é um deserto. Sem a mais remota possibilidade de lembrarmos dos contos de Sherazade, história ali morta e enterrada pelas rodovias barulhentas às suas portas,  por montanhas de camelos com turistas em cima, acampamentos luxuosos e outros nem tanto,  shows turísticos e barraquinhas com sonoridade bombando, jipes cruzando e evoluindo nas dunas discretas e músicos à caça de turistas, aproveitadores e vendedores, areias sujas de lixo, sobretudo restos mortais daquilo que alguém um dia comeu ou bebeu.

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                       A paisagem me aquieta a mente, leva a um breve balanço dos meus anos de existência. Hoje completo mais um, estou no Outono de minha vida,  de minha pequena eternidade,  embora me sinta na Primavera. A Estação já passou, e eu nem precisava saber, pois o corpo e a pele demostram, mas sobra-me entusiasmo, ainda que eu reconheça que o “caminho” é para o Inverno, derradeira Estação da minha vida. Às vezes aparento andar meio cansado da lida, mas o vigor natural e umas vitaminas me empurram. Estou feliz., especialmente neste dia dois de Janeiro. Por estar vivo, na Índia e na companhia de três pessoas queridas. Espero – como é natural para os que passaram dos 60 e se aproximam dos 70 – com menor ansiedade, maior serenidade, o que me aguarda esta quarta-feira.

                        Vou ao desjejum e no caminho escapo ao jardim do hotel. A hora favorece o monocromatismo. Tudo se colore do tom sépia. Temos uma hora para o desjejum, quando ao final sairemos para nosso longo dia de jornada a caminho de Jodhpur. Inauguraremos nossas incursões rodoviárias pela Índia, algo estimulante e novo até aquele momento. Tenho tempo. E o café no hotel é espartano. Quinze minutos são mais do que preciso para alimentar-me.

                     Estamos num hotel em trecho aparentemente interminável de um campo seco, na beira da estrada de Jaisalmer a Jodhpur, no topo de um declive rochoso, periferia da cidade, esbarrando na fronteira com o Paquistão. Parece o último lugar da Índia antes da “terra de ninguém”. Dunas comem o asfalto e nada parece poder viver por ali. Ainda assim, encontro beleza na aridez,  mesmo subtraído – no dia anterior – de todo romantismo de meu olhar.

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                      A partida para o próximo destino é esperada com intensa expectativa, porque estradas são parte das intensas experiências que se vivem na Índia. As distâncias ali são medidas não por horas ou quilômetros, mas por experiências vividas. Ali, como nas cidades maiores, o trânsito é caótico, mas tem uma harmonia sem conflitos com a desordem. Depois de uns dias na Índia a gente continua sem compreender, mas percebe que sabe-se lá como, os envolvidos alcançam serenidade em meio ao estado geral de desordem.  Enquanto espero, delicio-me com o contraste da luz do entardecer de ontem com o desta dramaticamente brilhante manhã.  A cidade aparece inteira, enche meus olhos de sua cor e colore do mesmo tom as casas que nos rodeiam. Surpreende-me a importância daquele momento, embora pequeno. Atribuo esta marca aos mistérios que só as viagens me reservam, seus delírios perenes e fugazes que tornam-se prazeres, grudam na mente feito papel em bala Halls.

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                       Começaremos em breve nosso primeiro trecho rodoviário da viagem, uma nova experiência a vivermos na Índia. Palak, nosso amigo indiano, dirige a Van e nos protege. Nos acompanha desde o primeiro dia em Delhi e assim o fará por todo o destino. Está a postos com o sorriso discreto e genuíno recostado orgulhosamente na confortável Van Tempo[1] de 8 lugares, veículo que só se encontra na Índia. A vencer, teremos 5 horas e estimulantes 283 quilômetros, tempo e espaço que separam Jaisalmer de Jodhpur, a “cidade dourada” da “cidade azul”, os cafundós da Índia do próximo destino. A direção a seguir é noroeste, via Pokharan, pelas rodovias NH11 e NH125. Outras aventuras rodoviárias teremos depois nesta viagem, mas a primeira tem o sabor do ineditismo. A primeira vez numa estrada na Índia a gente nunca esquece, tal qual o sutiã a mocinha do anúncio da Valisére nos anos 80.

                    Palak arruma nossa bagagem no espaçoso compartimento de bagagem do carro e nos pede para conferirmos. Depois, abre a porta para que entremos, estende a mão para alcançarmos os degraus e já ao volante, pergunta:

                   – Passaportes, óculos, celulares? Não esqueceram nada?

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Pela janela do carro 

                   Partimos. A maioria dos carros estacionados no hotel também. Alguns tomaram o caminho da cidade, outros o da estrada. Eu tinha muitas razões para acreditar que seria uma viagem com boas paisagens e emoções até Jodhpur. Nos afastamos do hotel e logo passamos a fazer parte do deserto. Viagens por estrada na Índia presupõem cada parada uma atração, uma jornada quase tão boa quanto o destino. Teremos tempo para rever e organizar as fotos no computador, trocar algumas entre nós, ler, conversar, comer, apreciar a paisagem e fotografar e, quem sabe, uns bons cochilos.

                   A viagem para Jodhpur corre bem, os companheiros já aparentemente integrados ao país, um alívio pessoal, pois livrara-me do peso da culpa por tê-los influenciado. Vê-los assim é um prazer adicional, já que viajar é algo muito pessoal, intransferível, e cada destino visto pelo indivíduo segundo sua própria maneira de enxergar o mundo.

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                    Arrumo um bom lugar para pôr minha caixinha de som bluethooth e aciono o celular para tocar minha play list no Spotify com a concordância de todos. Uma das canções mais lindas entre as que tenho é dos anos 1980, composta pelo talento incomparável de Pat Matheny, cantada por Pedro Aznar e chama-se Dream of the Return[2]. Enquanto toca, sigo seus versos:

                      …Viajar la vida entera, Por la calma azul o en tormentas, zozobrar, Poco importa el modo, si algún puerto me espera…

                  Minha imaginação progride quanto mais mergulho na canção e na paisagem. São dez e meia da manhã e suponho que umas cinco horas ainda nos esperem até o destino. Às vezes, não é tanto a duração da jornada que traz sentido às viagens na Índia, mas os marcos no caminho, um álbum cultural de experiências e imagens vibrantes, neste pedaço do subcontinente, um retrato do Rajastão.

                       “…Viajar a vida inteira, Pela calma azul ou em tempestades emborcar, Pouco importa o modo, se algum porto me espera…”

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                     Volto à estrada e me lembro da máxima indiana: To drive in India you need three things; good breaks, good horn and good luck[3].  A rodovia é boa, surpreende quem espera o caos no asfalto. É bem pavimentada, tem boa sinalização e longas retas. Contudo, nem sempre a mão de direção é respeitada, motivo de alguns sustos e surpresas que nos fazem colocar as mãos no encosto da frente. Às vezes nem parece rodovia, porque trafega bem mais do que se espera numa rodovia, além de carros, motos e caminhões, camelos, macacos, vacas, bicicletas, tuc-tucs, tratores, carroças e gente, muita gente. Nos congestionamentos ocasionais, acidentes, pedágios e a trilha sonora das buzinas que nos lembram o trânsito de Delhi. Aqui e ali, brilham as mulheres rajastanis com seus trajes – ghagras, cholis e odhnis[4] – como se a estrada fosse um passeio, o acostamento fosse a “calçada”. Caminhões sobrecarregados de pellets para indústria de plásticos trafegam como podem, invariavelmente com a inscrição Horn please[5] no para-choque e exercendo o buzinaço como lhes é natural. Ônibus apinhados fazem recordar latas de sardinhas, homens carregam feixes de lenha na cabeça, bancas de legumes e verduras ficam nas margens da estrada defronte a vilarejos, carroças puxam-se por búfalos e carregam gente e mercadoria. Na Índia, a estrada pertence a todos.

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                   O trânsito do qual tanto se fala, sobretudo nas grandes cidades, para o desavisado visitante parece não obedecer aos sentidos lógicos de organização. Mão e contramão são regras subjetivas. É surpreendente, mas alguns dias no país e o curioso espectador consegue notar seus códigos, as convenções informais, a funcionalidade da bagunça. Se não fosse assim, não funcionaria, travaria. E ainda que do jeito peculiar indiano, lento e cheio de perigos, não é impossível perceber que regras existem, ainda que informais, algo bem definido no livro de Andrew Solomon[6], ”Lugares distantes: Como viajar pode mudar o mundo – que em alguns lugares do planeta”: Os únicos que dirigem em linha reta parecem ser os motoristas bêbados.

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                  Até então não encontrei guardas organizando a loucura. Nem mesmo nas cidades, o que é surpreendente para quem vem de uma megalópole como Delhi. Tampouco radares aplicando multas ou agentes de trânsito. Se existem, não os vi. Assim como nenhuma briga de trânsito. Se há governo na Índia, ele não aparece nas ruas controlando o trânsito, porque ele parece tocado por cada indivíduo, seguindo regras populares. A maneira mais fácil de compreendê-las é com a observação. Por exemplo, as buzinas. São irritantes, ensurdecedoras, infernais, extenuantes. Mas não são “loucura”, fúria levada a cabo por condutores desesperados. Não. Buzinaços ensandecidos ocorrem sim, quando por exemplo alguém atravanca o trânsito, mas, em verdade, regularmente há um código complexo o bastante para ser plenamente compreendido e praticado apenas indianos ou expatriados. Os toques nas buzinas têm múltiplas funções. Das mais óbvias – pedir passagem, avisar de algum risco (algo como “estou aqui”) – às mais informais: cumprimentar (“olá!”). E parecem existir hierarquias, tais como os mais fortes, os médios, os mais fracos. Em linhas gerais, quando dá, os mais lentos usam a pista esquerda e os mais rápidos a direita. Mas, não sei porque motivo, os tuk-tuks trafegam pela faixa central. Sempre que precisarem, por qualquer motivo, passam para outras pistas, mas retornam à sua assim que der.

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NOTAS:

[1] Force Motors Limited, montadora indiana de automóveis, conhecida como Bajaj Tempo Motors, joint venture com a Bachraj Trading Ltd. e a alemã Tempo e parcerias com as alemães como a Daimler, ZF, Bosch e a MAN.

[2] Dream of the Return – Álbum “Letter from Home” (1989) – Pat Metheny Group – Pat Metheny: Acoustic and Electric Guitars, 12 String Guitar, Soprano Guitars, Tiple Guitar. Pedro Aznar: voz

[3] Ditado popular indiano: “Para dirigir na Índia, você precisa de três coisas: bons freios, boa buzina e boa sorte”

[4] Ghagra, saia longa bordada e plissada, colorida, estampada, de seda, algodão ou crepe. Kanchli (ou choli ou kurti), vestimenta da parte superior do corpo, colorida e lisa, coladas no corpo. O toque étnico é dado por enfeites como espelhos, miçangas, lantejoulas, corais, conchas e bordados. Odhni, ou chunar, é um pedaço longo de tecido, com 2,5 metros de comprimento e 1,5 de largura, usado como véu, feito em tecido leve e transparente, bordados com contas ou outros enfeites.

[5] Buzine, por favor

[6] Andrew Solomon, um dos pensadores mais originais de nossa época, reúne neste livro escritos sobre lugares que passaram por abalos sísmicos culturais, políticos ou espirituais, um escritor de política, cultura e psicologia que vive em Nova Iorque e Londres e colabora com The New York Times, The New Yorker, Artforum, Travel and Leisure, e outras publicações.

De volta à Índia – A Velha Delhi

               Acordo mais cedo do que preciso. Desperto sentindo-me como pilha precisando de recarga. O relógio biológico não acompanha meu desejo de entrar no compasso dos 17 milhões de habitantes de Delhi, apesar dos cuidados que tive, o preparo do terreno na noite anterior, quando cerrei as cortinas, eliminei frestas, apaguei vestígios de luz que atrapalhassem a produção de hormônios. Levanto-me como se a cama fosse cativeiro. Vou à janela ver o pedaço de paisagem que me reserva da cidade. Estão acesas as luzes, e assim a poluição atmosférica torna-se ainda mais notável. Vejo-a bem marcada nos rastros alongados e nos halos que se formam ao redor das lâmpadas. A embaçada iluminação multicolorida do Rashtrapati Bhavan – residência oficial do Presidente da Índia – parece borrada. A degradação da qualidade do ar parece ainda mais evidente, contudo, não há jeito senão enfrentá-la, pois o dia será cheio e bem esperado de tarefas turísticas.

               Amanhece frio, suponho como o anterior, que foi aquecendo com o sol amável da manhã até eu não mais precisar do agasalho. O frescor do inverno indiano em dezembro é um alento adorável, um incentivo extra à exploração da cidade, especialmente ao me lembrar do quão quente é o verão na Índia. Tomo um banho e tudo fica melhor. Estou quase pronto para Delhi.

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            Se o que define uma cidade são arquitetura, arte, tradições, geografia, história, gente e comida, na Velha Delhi há uma interminável possibilidade de experiências em todas estas manifestações. Quando chegarmos à cidade mogol de Sha Jahan, mesmo embora aqui e ali possamos verificar que muito perdeu-se no tempo, ainda encontraremos uma miscelânea fenomenal de coisas e patrimônio da época. O que sobrou é único, e tem distinção excepcional, para além de caráter notável que consagra este pedação da cidade como um patrimônio vivo dos mais preciosos da humanidade. Há mesmo muitos lugares, cantos, monumentos e templos que contam detalhes de uma história rica, por vezes obscura e escondida, é verdade, mas noutras bem iluminada e clara. Um conjunto às vezes confuso de coisas diferentes, de experiências com muitas feições acontecendo intensa e simultaneamente, uma sobrecarga de informação e para os sentidos dos visitantes, que por si já fazem valer toda a viagem.

               Começamos pela tranquilidade de Purana Qila – ou Old Fort, onde a história é ainda mais antiga que Shajahanabad, lugar cuja serenidade nos prepara para o enfrentamento do “olho do furacão” que é Chandni Chowk.

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Purana Qila

           Apesar de ser um dos locais turísticos mais cativantes de Delhi, é pouquíssimo visitado, o que em se tratando de Índia, tem suas vantagens. Construído entre 1538 e 1545 por Humayun, é mais uma evidência da glória da arte mogol aplicada à arquitetura, em cuja área se destacam três portões majestosos: o Humayun Darwaza, o Bara Darwaza e o Darwaza Talaqi, todos em arenito vermelho e, dentro do forte, a belíssima mesquita Qila-I-Kuhna e o pavilhão Sher Mandal, construído para fins de entretenimento do xá. A mesquita é a mais bonita da cidade, e ainda que não tenha a imponência e a grandiosidade da Mesquita Jama, na cidade velha, é bem mais ornamentada e absolutamente vazia de gente.

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       Deixndo para trás os motoristas buzinando loucamente, aparentemente sem sentido, ao entrarmos na quietude do parque de Purana Qila, ou Old Fort, percebemos que além de um lugar magnífico, é um oásis bom para se fugir quando Delhi já estiver saturando com toda sua intensidade penetrante. Apesar das dimensões da área,  vimos apenas um jovem casal ocupado com o namoro e dois funcionários.

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A mesquita Qila-i-Kuhna, Purana Qila

              Da bela fortaleza pouco resta além de ruínas, embora o portal Talaqi Darwaza, que leva ao imenso parque interno, nos faça pensar o contrário, devido à sua perfeita integridade, a despeito da idade. O Sher Mandal, observatório e bibliotecade Humayun, de onde ele caiu do segundo andar e morreu, e Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho com incrustações de mármore branco e preto, apesar de únicas construções remanescentes, são singelos mas ótimos exemplos de arquitetura. O primeiro é um edifício octogonal de arenito vermelho com dois andares, cuja escadaria íngreme leva ao telhado, encimado por um chatri octogonal apoiado por oito pilares. Ainda se podem ver de fora os restos do trabalho de gesso decorativo e vestígios de prateleiras de pedra onde, presumivelmente, os livros do imperador eram guardados.

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           O segundo foi construído por Sher Shah, é uma grande mesquita de um único corredor, um dos primeiros exemplos do uso extensivo do arco aguçado, que lembra o gótico, na região. O interior é ricamente decorado com elementos islâmicos e o prédio figura entre os experts como um marco de transição do estilo Lhodi – mais discreto e contido – para o mogol, mais grandioso e imponente. A fachada frontal tem desenho e decoração notáveis e o interior é surpreendente, com um iwan marmorizado, arcos, saliências no teto, abóbodas, colunas e arcos.

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A Mesquita e Tumba de Jamali-Kamali  e o Baoli Rajon

De homens, gênios, história e lendas. De sol, pedra e água

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                Há muitos sítios ditos assombrados em Delhi, a “cidade dos gênios”, de criaturas sobrenaturais da mitologia islâmica[1]. Nos folclores persa e árabe, os djinns são indivíduos com poderes de conceder desejos aos humanos, mas também há seus opostos, os tipos maliciosos e intrometidos, que muito embora sejam de crença islâmica, os hindus e sikhs também costumam procurar “ajuda” destas criaturas mágicas, que dizem escolhem as ruínas mais escuras e desoladas do parque para residirem.

               Em Delhi, todavia, a maior parte dos lugares que encantam os turistas são aqueles cercados de burburinho, sob atmosferas eletrizantes, dos sons pulsantes, dos ares aromáticos, tons coloridos e experiências impactantes. Aqueles em que toda a Índia parece caber em Delhi. Contudo, há na cidade lugares que encantam por uma virtude, tão oposta e tão maior quanto o que caracteriza o vulcão ativo que é a capital indiana. São o silêncio e a quietude, em que em alguns dos quais, lendas, fábulas, mitos e mistérios permeiam cada pedra. O Parque Arqueológico de Mehrauli é um destes e, ali, ainda um mais especial que o distingue dos demais: dois monumentos adjacentes – uma mesquita e um túmulo – construídos entre 1528 e 1529, que não apenas são notáveis por serem os primeiros exemplares da arquitetura mogol na Índia, mas por sua história. Tão atraente que desde que começamos o planejamento desta viagem o selecionamos como lugar de indispensável visitação: a mesquita e túmulos de Jamali e Kamali.

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               Situadas num parque bonito e atmosférico, entre um jardim protegido por muro de pedras, a mesquita e o túmulo, ainda que compartilhem seus limites com o Qutub Minar, a não mais que 500 metros de distância dali, é lugar que quase ninguém as percebe. Outras construções espalham-se pelo complexo e em todas vivem-se bons momentos. São muitas, entre elas, o túmulo de Balban, o dossel de Metcalfe, o túmulo de Quli Khan, o Rajon Ki Baoli e o túmulo de Khan Shahid. Entre estes, a mesquita e o túmulo Jamali-Kamali e o belíssimo baoli Rajon Ki.

                Entre um verde exuberante, num canto quase isolado do parque, o incauto turista que por ali passar poderá pensar tratar-se de “mais-um-túmulo-da-era-mogol” quando deparar-se com a placa indicativa do monumento. Deixará de conhecer sua história curiosa, se decidir não visitá-lo. Quase tão atraente quanto a engenharia. Para os amantes da arquitetura não será preciso mais que um olhar para se sentirem atraídos.  Contudo, é a curiosa história e o fato de ser um “lugar assombrado”, com relatos de experiências assustadoras, que marcam a mesquita e o túmulo Jamali-Kamali.

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                A história é de poetas, de poesia e romance. Jamali teria sido o pseudônimo de Shaikh Jamali Kamboh, um renomado santo sufi que viveu durante o governo da dinastia pré-mogol dos Lodhi, cujo governante à altura descendia da dinastia mogol de Babur e Humayun. O poeta, cujas rimas suaves impressionaram o imperador no final do século XV, tornou-se popular e famoso, tendo escrito obras importantes como “O Espelho dos Significados”, “O Sol e a Lua” e “A Jornada Espiritual dos Místicos”. Sua habilidade poética fez dele um imortal. Babur e Humayun gostavam tanto do que escrevia que tornaram-se seus patronos. Kamali, por sua vez, era o oposto de Jamali, um ilustre desconhecido, que dizem no máximo ter sido seu discípulo, cujos antecedentes não são plenamente conhecidos. Os nomes estão marcados juntos, com hífen – Jamali-Kamali – não só porque foram sepultados lado a lado. Especula-se que eram amantes e teriam sido profundamente apaixonados. Esta é a breve história do túmulo, mas quem quiser se aprofundar, deve ler o livro “Jamali-Kamali, Um Conto de Paixão na Índia Mogol”, de Karen Chase, que descreveu a história sobre o amor gay que não conheceu a vergonha, que ninguém ridiculariza nem julga, corre solta e poética, sem guardar preconceitos.

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                   Construídos em 1528, foram a primeira obra em arenito vermelho e mármore branco, que tornou-se tendência popular da arquitetura mogol. Tem cinco arcos esculpidos na sala de oração, onde uma cúpula se eleva acima do arco central.

                        Um guarda escondido surge do nada, parece entediado, talvez porque raramente alguém passa por ali. Ele “cuida” do prédio, fechado por um portão de ferro. Niraj, nosso guia, conversa com ele e lhe pede para abrí-lo para nós. Entramos no espaço vazio através do pequeno portão de ferro da muralha que separa a mesquita  e a tumba. Entre quatro paredes altas, o cenário é perfeito para a criação de histórias de gênios e fantasmas que dizem haver por ali à noite. No prédio, duas sepulturas de mármore abrigam os restos mortais de Jamali e Kamali. Nada empolgante do ponto de vista do desenho, talvez porque nele não se possa entrar, mas um vislumbre pela janela gradeada é o bastante para nos surpreender com o estampado da pintura do teto, em vermelho e azul, com inscrições do Alcorão e de poemas de Jamali quase apagados pelo tempo. A falta de luz protege o que resta.

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E os gênios?

                    Gênios remetem aos contos de Aladin e sua lâmpada mágica, da série Arabian Nights, história cuja versão infantil foi adaptada num filme de animação que marcou a juventude de muita gente. Já em Delhi, os gênios, ou djinns, são mais, digamos, adultos, não tão românticos. Conhecidos por suas travessuras e sons assustadores, invadem casas sem aviso prévio e costumam habitar ruínas da cidade, muitas delas no complexo arqueológico de Mehrauli.

                       Para os que acreditam em mitos e lendas, os djinns de Delhi concedem desejos. Fiéis rezam, acendem velas e escrevem cartas para eles. Dizem que as leem e escutam pacientemente os pedidos. E que podem resolver qualquer problema. Não acredito em gênios, mas, por conveniência, jamais passaria por ali à noite. Dizem que na mesquita e túmulo Jamali-Kamali, alguns se refugiam e, por estas histórias, Jamali-Kamali tornou-se conhecido como a “casa dos Djinns”, onde ainda hoje reúnem-se epssoas ali para se conectarem com eles.

Rajon Ki Baoli. Sol, pedra e água

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                        Quase um tesouro escondido numa parte do quase deserto Parque Arqueológico de Mehrauli, este baoli de pedra é um lugar especialmente calmo, fresco e bonito. O pitoresco baoli remonta ao ano 1506, tem três andares abaixo do nível do solo e surge repentinamente à medida que nos aproximamos dele. A estrutura de pedra acredita-se ter sido construída na era Lodhi. por Daulat Khan. A construção é retangular, consiste num poço profundo que pode ser acessado através da grande escada. Um nicho aberto na parede sul atua como uma passagem que une o poço ao tanque de água. Seus degraus podem ser descidos e levam até ao fundo. Os lados são cercados por muros altos e incluem uma plataforma para caminhar, doze pilares de cada lado e nichos arqueados. Em certos lugares, há nichos nas paredes, usados para abrigar lamparinas a óleo, o que sugere ter sido além de poço reservatório de água, um lugar para encontros sociais e culturais, espaço público frequentado também durante a noite.

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[1] Djinns não são fantasmas nem são anjos, mas “entidades” criada por Allah para agirem junto aos humanos, fitos de fogo mas sem fumaça. De acordo com a mitologia islâmica, Iblis era um Djinn que se recusou a se ajoelhar diante de Deus e foi expulso do céu, passando então a ser um diabo, ou Shaitan. Eles têm o poder de manipular mentes humanas fracas e possuir pessoas se elas se apaixonarem por eles. “Vivem” por milhares de anos e podem ter uma família. Cabelos longos e perfumes são uma fraqueza para eles, então tenha isso em mente antes de entrar em um prédio antigo e desolado!

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No Haveli Dharampura, um lassi de manga, por favor!

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           Nas ruas mais “tranquilas” da velha cidade, enquanto caminhávamos desviando de triciclos, tuk tuks, motonetas, carrocinhas e gente, deixávamos para trás a ruidosa Chandni Chowk e mergulhávamos nos becos estreitos e silenciosos de Velha Delhi. Antes passamos pelos concorridos bazares Dariba e Kinari, especializados em jóias e roupas para casamentos e festas, e logo, a certa altura, entramos numa pequena via com toda a cadência, atmosfera e personalidade peculiares a Chandni Chowk, muitas fachadas desgastadas, preciosidades escondidas por toda sorte de descasos, belezas arquitetônicas roubadas em sua originalidade,  palacetes que a despeito de tudo, mantinham uma nobreza admirável.

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                     Por ali havia uma esquina. Hoje eu não conseguiria localizar seu ponto exato no mapa. Nela,  uma portinha que vendia apetitosas (e perigosas!) samosas. Não resistimos. Fritinhas na hora em óleo centenário, servidas embrulhadas em pedaços de jornal rasgado. Ainda hoje não sabemos se foi este nosso atrevimento culinário que nos atacou severamente as entranhas, mas estavam saborosas. Tanto que as repetimos, a despeito de apimentadas. Não experimentamos, mas eram também atraentes o que vendiam noutras iguais lojinhas: naan khatai, puri choley, pakora e lassis, o que faz do bairro um dos mais antigos e deliciosos centros de prazeres gastronômicos populares da cidade.

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                   Depois de incontáveis novos esbarrões, do vai e vem de pessoas cuidando de seus negócios diários e compras, de sarees de lantejoulas nas vitrines, de tudo o que pode se encontrar de mais lindo ou kitsch por ali,  a história, muitas vezes perdida em becos escondidos, com ou sem saída, pode surpreender e atrair o turista mais atento aos detalhes, verdadeiros fios perdidos, expostos em fachadas, janelas e portas que abrigam parte de um passado nobre de riquezas expressos sobretudo nos havelis, alguns dos últimos remanescentes do ilustre e glorioso passado de Chandni Chowk, onde dói testemunhar a força com que a modernidade invade a história e a vai apagando,  deixando que os sinais do tempo desgastem tanto as fachadas que elas parecem prestes a entrar em colapso, como se apelassem aos olhares mais atentos para que não as deixem definitivamente entrarem para a memória depois de destruídas.

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                   Seguimos, após a parada culinária observados por macacos sorrateiros, entre um cânion de edifícios em mau estado, de fachadas novas e antigas escondidas por emaranhados de cabos de energia, naquele estilo indiano que só eletricistas insanos metem a mão. Havelis e pequenos templos jainistas antigos escondem-se por trás de uma teia de fios, cobertos de sujeira acumulada, por telhadinhos plásticos e puxadinhos, entre outras peças da parafernália que oculta algumas das preciosidades arquitetônicas e patrimoniais da área.

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O Haveli Dharampuraum belo edifício restaurado, convertido em hotel-boutique

                    Não era o lugar onde eu esperava encontrar um meio de hospedagem com aquele padrão, mas a novidade não apenas revigorou o prédio como pode trazer à área outras iniciativas que recolocariam em uso antigos palacetes abandonados. A mansão do século 19 tem bons quartos, um simpático restaurante – o Lakhori – e um pequeno terraço junto ao telhado com vistas muito interessantes para aquele trecho de rua, para os telhados e fachadas de prédios próximos, como também para as cúpulas em forma de cebolas, com os minaretes da Jama Masjid.

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              Nos sentamos para um café e um mango lassi, a bebida cremosa feita com iogurte e fruta, uma pitada de gengibre, extremamente agradável no sabor e refrescante, dizem também que adequada para amenizar os efeitos das comidas apimentadas, devido à propriedade que dizem ter o iogurte.

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             Um funcionário nos leva a conhecer a pousada e o terraço. Orgulhoso, termina o passeio nos contando um pouco da história do edifício. No terraço, aponta lugares para boas fotos, demonstrando o que aprendeu com outros amantes da fotografia que por certo ali estiveram antes de nós, entre eles a estreita rua abaixo, visão vertiginosa a partir do parapeito, e parte das cúpulas em forma de cebola e minaretes da fabulosa Jama Masjid, visão encoberta  parcialmente por telhados e terraços, antenas e caixas d’água vizinhas.

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                   A breve parada foi além de descanso, inesperada oportunidade de conhecermos os pormenores de um haveli, sobretudo de seu interior, antes de seguirmos pelas ora sombrias, ora luminosas ruas estreitas de Shajahanabad e Chandni Chowk.

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Kucha Pati Ram – Um lado escondido da história

                 Continuamos nossa caminhada até outra antiga glória: Kucha Pati Ram, uma rua sem saída com havelis e história quase esquecida pelo tempo, fora do roteiro comum do turismo. Um beco com mansões da época de Sha Jahan, quase a totalidade em estado negligente de manutenção, hoje com aparência de casas populares. Portões e janelas arqueadas escondem o que há por dentro, quase bastam para encantar o observador com desejo de conhecer os interiores, inacessíveis, a  não ser a seus moradores. Minuciosos detalhes ornamentais cobertos por poeira, teias de aranha, fios elétricos e letreiros.

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              Kucha Pati Ram é um beco com antigos palacetes, alguns ruinosos, outros apenas desbotados, todos gastos e cansados, cujas chabutras (portais) quase não se percebem. Elaborados, ornados, esculpidos, adornam as portas que dão acesso aos pátios centrais, proporcionam uma ideia de como se vivia na época dos tempos dourados de Chandni Chowk, sob as regras do Islã: casas com intensa vida interna, convenientemente escondidas pela vida das ruas.

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             Cada haveli tem sua obra de arte distinta, uma mistura de temas religiosos, mitológicos, sociais, familiares e históricos, tendo também Krishna e sua vida,  assim como cenas do Mahabharata e do Ramayana como tema recorrente nas pinturas, revelando que naquela residência morava uma família com tradições hinduístas, entre as cenas da corte real islâmica, pois havia liberdade para improvisações nos temas ornamentais, o que fica evidente na inclusão de recursos visuais da tecnologia moderna, como ferrovias e carros, para além dos religiosos, compartilhando o mesmo espaço. Pinturas de retratos também se tornaram populares, um meio de registrar a história da família proprietária e sua genealogia.

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