Quem não viu o Nilo, não viu o Egito


“The Moon Is a Harsh Mistress” (Jimmy Webb)
do disco Beyond The Missouri Sky.
Pat Metheny (violão eletro-acústico) e Charlie Haden (contra-baixo acústico)

O ano terminava e a manhã ia em meio quando o avião tocou o solo de Assuã. O terceiro dia de nossa jornada no Egito amanheceu adorável, luminoso e começou bem cedo, de madrugada na cidade do Cairo. Embora estivéssemos em terra, eu ainda voava em divagações por um cruzeiro imaginário no Rio Nilo, a viagem fluvial mais desejada do mundo a partir do século 19 e, para nós, a parte mais ansiada da peregrinação pelo Egito e Marrocos. Logo embarcaríamos em três dias de navegação, desceríamos o Nilo, parando às suas margens para visitas aos templos de Luxor e Karnak, às tumbas do Vale dos Reis e ao Templo da Rainha Hatshepsut, aos Colossos de Memnon, aos templos de Horus – em Edfu – e de Kom Ombo e, naquela tarde, à grande represa de Assuã, aos Templos de Philae e ao Obelisco Inacabado.

Sob o sol do meio dia chegamos ao centro da cidade, no local onde aportam as embarcações, próximo à ilha Elephantina, uma cidade-bairro com pouco mais de um quilômetro de comprimento que divide o Nilo em dois canais, ilha de rochas de granito e encostas escarpadas. No topo, casas pequenas, palmeiras agitadas, exemplos de arquitetura mourisca, ruínas monumentais e um minarete apontado para o céu que parece obra natural, nascida na terra.

Crédito: http://www.megatimes.com.br/2013/11/rio-nilo.html
Enciclopédia Global

Quatro meses depois daquela luminosa manhã, começo a escrever sobre este encantador momento de nossa viagem ao Egito. Isolado socialmente, exerço meu “fique em casa”, pratico um “sacrifício” necessário a contragosto, “preso” no meu cárcere privado e sentindo imensa falta dos toques, beijos e abraços cotidianos. Ao mesmo tempo assisto o mundo inteiro fechar-se, viver um estado de pré-apocalipse, absorver à força a sombria realidade das mortes crescentes se aproximando de todos, não importam a raça, o lugar, aqui ou em terra estrangeira, qualquer buraco na terra onde a gente possa se enfiar, que esta vida invisível – o vírus – continuará sua caça, a missão de infectar a humanidade, vidas anônimas ou não, às vezes famílias inteiras, e despedaçar boa parte delas. Enquanto recebo notícias, procuro em vão por prognósticos confiáveis e me pergunto: Quando tudo isso passará?

Meus cenários de “viagens” agora não são os daquela jornada ao teto da África, senão a portas fechadas, janelas abertas, estendendo-se ocasionalmente pouco além das fronteiras de onde moro. Com todo esse tempo sombrio que me sobra, boa parte dedico aos meus corriqueiros prazeres, entre eles escrever. E o faço agora com produtividade incomum, mesmo com sérias preocupações me ocupando a mente, cercando de incertezas meu futuro.

São tantas a lembranças que me ocorrem que dariam um livro, além daqueles que já escrevi e espero um dia publicar. Parece não haver limite para a mente trazer de volta sabores e prazeres vividos em muitas outras viagens, algumas das quais eu pensava já terem sido apagadas da memória. Mas algumas parecem se regenerar, me pregando peças. São, por vezes, recordações tão escondidas quanto incomuns e inusitadas, que surgindo do nada, até do simples olhar para um objeto.

Neste meu escritório doméstico, lugar onde escrevo, sou rodeado de lembranças físicas de minhas viagens. Boa parte encontra-se numa estante, junto a guias turísticos, souvenirs e livros de relatos, cuidadosamente arranjados como se fossem um cenário. Dois pequenos globos terrestres, fotografias, um mapa-múndi e objetos decorativos de lugares onde estive completam este ambiente inteiramente voltado ao tema. Até mesmo um vidro de álcool gel, que embora não sendo um artigo trazido de fora, tampouco necessariamente relacionado a viagens, acaba de me trazer da mente uma passagem de uma grande viagem à Índia, encerrada um ano antes desta que agora relato. Repousa o frasco ao lado de meu notebook, e evoca tal qual um fantasma a sua vida passada, o trecho que a seguir relatarei.

É claro que pode parecer estranho um pequeno frasco de álcool 70 fazer alguém recordar-se da Índia, mas não a mim, ainda que seja curiosa e divertida. Ora, direis, que bobagem! Mas ocorrências iguais costumam acometer outros escritores que revelam agirem da mesma maneira, alguns com a compreensão de seus leitores.

Corria uma jornada encantadora na mesma data desta que agora relato, doze meses antes. Estávamos na Índia, na minha adorável Índia, e vivíamos passando o mesmo álcool gel nas mãos, o que hoje compulsiva e compulsoriamente faço, embora por motivos diferentes. A finalidade era a prevenção, não de um vírus, senão de bactérias com grande poder de contaminação, causadoras de severas complicações gastrointestinais que nós mesmos não escapamos de ter.

Estávamos na Chandni Chowk, avenida principal de Old Delhi, diante de um curioso “Caixa Automático de Água Mineral” – uma carrocinha como as nossas de pipoca, com as mesmas três rodas e impulsionada por força humana. Estacionada numa calçada, servia o precioso líquido em copos que não cheguei a avistar. Bastava o consumidor inserir moedas no local apropriado para ter liberado o líquido. E não fornecia apenas água, também uma nebulosa mistura de sumos de laranja e limão, frutas que depois de espremidas – aparentemente na hora – eram adicionadas de gelo e servidas em garrafinhas reutilizadas de Crush guardadas em dois engradados sobre o chão sujo debaixo da carrocinha.

Na minha adorável Índia, contudo, um cartaz que anuncie “água mineral” não deve necessariamente ser levado a sério, pois informação e verdade não andam escrupulosamente juntas naquela parte do subcontinente. Nem mesmo num estabelecimento que ostente orgulhosamente a chancela da prefeitura: Aproved by North Delhi Municipal Corporation, “garantia” de segurança complementada pela sigla R.O. Mineral Water ATM, do inglês Automatic Teller Machine, e R.O. – literalmente “Osmose Reversa” -, sistema de ultrafiltração que nem mesmo um indiano acreditaria funcionar naquelas instalações.

A bebida aparentava ser refrescante, e de fato era possível imaginar vidas salvas durante o tórrido Verão indiano, contudo nada convidativa naquele frio Inverno em Delhi, nem mesmo com o preço extremamente atraente de 6 centavos per glass, segundo informava o cartaz. As garrafas, frutas, água e toda a carrocinha aparentavam padrões de higiene tão duvidosos quanto perigosos, até mesmo para indianos. E ainda que sejamos viajantes experientes tentados a provar comida de rua, também somos cuidadosos para evitarmos contratempos inexoráveis, a fim de não corrompermos nossa saúde em viagens. Já perdemos coisas incríveis por causa disso, mas em se tratando alimentos, na Índia usam-se as mãos para comer, e elas são o hall de entrada para nosso desengonçado e tortuoso intestino. Já havíamos antes provado deliciosos samosas na rua, ali mesmo em Sajahanabad, distrito de Old Delhi, servidos embrulhados em folhas rasgadas do Hindustan Times, razão porque não devíamos nos exceder.

Samosas deliciosas e perigosas em Chandni Chowk

Instintivamente levei as mãos a um novo coma alcoólico, sanitizando-as com álcool gel de bolso, mesmo sabendo que meu mundo intestinal é perfeito e resistente, o que me favorece em viagens, mas o respeito e não o testo além de seus limites, o que tem me protegido de consequências desagradáveis, muito embora de ter boas experiências.

Diante daquela carrocinha eu podia ver até mais do que o visível: bactérias “caminhando” livres, leves e soltas pelos domínios do carrinho, saindo de dentro das garrafas vazias, onde os micróbios se abrigavam à espera da entrada em ação.

Mas, voltemos ao Egito.

Assuã

Havia qualquer coisa de especial naquela manhã. E adianto que mesmo forte o que eu sentia, não seria fácil definir. Os pensamentos eram todos para o cruzeiro de 3 dias[1] e para o rio Nilo, de modo que nada mais me cabia na mente. Curioso, eu procurava seus sinais durante o percurso do aeroporto à embarcação, mas não havia resquício de água. O Saara dominava, já não estávamos mais às “portas do deserto” – como no Cairo – senão dentro dele, sem as pirâmides, o escarcéu da capital, o trânsito e barulho, todas aquelas deliciosas referências que deixamos para trás, enquanto agora contemplávamos a areia, a vastidão e a quietude do deserto, apagando de vez dos ouvidos o ritmo do Cairo. Assuã prometia uma experiência mais relaxada, mesmo que numa cidade turística, cuja marca cultural é a distintiva sociedade núbia.

[1]Cruzeiro de três dias” é um pouco impróprio, porque na verdade são apenas dois dias de navegação com uma parada de uma noite em Edfu, sendo as outras duas a bordo, em Aswan e Luxor.

Nas ruas, se parece com qualquer outra cidade do Egito. E os turistas não escapam às regras: egípcios entrincheirados estão sempre preparados para o ataque. Às vezes pessoas legais, comerciantes simpáticos, bem-humorados, com abordagens divertidas. Nos bazares, lojas bacanas e outras tão corrompidas pelo turismo que só vendem badulaques produzidos na China. Boas são aquelas que sobreviveram ao turismo de massa e conservaram a originalidade, entre elas, as de artigos de fabricação ou tradição núbia, como a cestaria bonita que parece não ter mudado desde os dias de Ramsés, que não fosse o tamanho, teria gasto uns trocados com elas. Também há cafés, mesquitas, charretes e tuk-tuks, vida e barulho.

Quase tudo é coberto do chão às paredes pela fina camada de poeira egípcia, que às vezes também se aloja seca em nossas gargantas. Parte da gente tem fisionomia árabe, outra etíope, sudanesa e núbia. Também vimos cães vadios, animais que amamos, embora não aparentassem ser tão sofridos quanto os indianos, acampados junto aos vendedores ao lado de mercadorias e diante do local de ancoragem dos navios. Alguns tinham até os olhos brilhantes, expressivos, pelos lustrosos, traços robustos, mas corpo sujo de poeira.

Os barcos e os cruzeiros

Às centenas, embarcações de cruzeiro sobeme descem o Nilo – de Luxor a Assuã ou no sentido inverso – todas parecidas no estilo, embora não nos padrões de luxo. Algumas carregam-se de excessos, tentam sobressair à beleza natural, aos templos faraônicos, mas nenhuma me pareceu sequer evocando as imagens românticas dos dias idílicos que se passava ​​à deriva no luxo e conforto, sob a atmosfera romântica e charmosa dos vapores do século 19, origem dos cruzeiros pelo Nilo, quando era a única maneira de conhecer os mais destacados templos antigos do Egito. Embora digam existir um ou dois destes barcos a vapor tradicionais, não avistei nenhum, senão navios padronizados, contemporâneos, além de dahabyas. E como nem sempre é possível conciliar tradição com praticidade, apesar da originalidade ter-se perdido com as mudanças do tempo, um cruzeiro pelo Nilo permanece agradável, confortável e uma prática maneiras de conhecer as principais atrações do Egito antigo.

Já a paisagem não. Ela é igual para todos, embarcados em navios comerciais, padronizados ou não, simples ou luxuosos, românticos ou indiferentes. Avista-se de qualquer barco a mesma faixa de “terra” verde entre a água e a areia, a linha de costa variada e cheia de vida, com cenas rurais e bucólicas, apesar de deserto: vacas ociosas, burros nem tanto, latidos de cachorros, crianças mergulhando ou correndo às margens de pequenas praias, praticando as mais variadas brincadeiras e algazarras infantis. Do navio,  ouvem-se murmúrios, vozes, o vento, cantos de pássaros e latidos e avista-se uma robusta coleção de ruínas milenares. E entre a quietude da beleza natural, das colinas, vales e plantações, percebe-se o movimento de vilas e de grandes cidades, tudo sob o abrigo da vastidão do céu africano, cujo azul ali abraça a Terra, tem ar puro e dócil no frescor do Inverno. Durante a navegação, o agradável silêncio às vezes é quebrado por vozes dos condutores de feluccas e dahabiyas deslizando placidamente e desviando das marolas e rastros dos navios. Ao anoitecer, ouvem-se os chamados à oração. Chegam de minaretes nem sempre avistáveis, pela distância, ou pelas sombras na noite.

Próximo às cidades, barcos de madeira com dois homens encostam no casco dos navios e os amarram, para em inglês, espanhol e italiano, oferecerem mercadorias, tecidos estampados em diferentes cores e padronagens que depois de embrulhados são jogados para as mãos dos passageiros navio acima, implorando para embarcá-las definitivamente. Ao que parece, por suas certeiras tentativas, os egípcios devem praticar arremesso de mercadorias à distância desde os tempos de Tutankamon. Nada de escaravelhos, estatuetas, obeliscos, papiros, deuses de bronze ou relíquias de dinastias faraônicas passadas, pesados demais para o arremesso com segurança, correm o risco de quebrarem uma vidraça ou permanecerem num jazigo eterno no fundo do rio.

O frio do Inverno não animava à apreciação da paisagem, mesmo sendo tão aberta quanto a que se avista do deck superior do navio. Era o motivo por que se encontrava quase sempre vazio, ainda que devesse ser muito agradável alguns momentos passados ali sob temperaturas mais amenas. A maior parte dos passageiros dedicava-se a uma soneca após o almoço e antes da saída para a sessão vespertina de atrações faraônicas. Arrisquei-me três ou quatro vezes a explorá-lo, subindo o lance de escadas para o exterior, depois de enrolar um lenço palestino em volta do pescoço. Contudo, ao abrir a porta, a brisa congelante só me dava ímpetos de voltar pro meu aconchego.

Certa vez encontrei um passageiro encolhido numa espreguiçadeira. Imóvel, tinha a cabeça pendida para o lado e aparentava estar adormecido. Ou, Deus me livre, morto, tal qual um personagem de “Morte sobre o Nilo”. Quase me aproximei para lhe perguntar como suportava a sensação térmica, mas Rá – o deus egípcio do sol – que além de lhe destinar raios exclusivos, segurou-me. Encostei-me no guarda-corpo disfarçando a intenção de apreciar a vista e percebi seus olhos abertos, embora imóveis, congelados na paisagem. Poderia ser um daqueles falecimentos com olhos arregalados, e só pensaria assim quem já houvesse lido Agatha Christie, mas, felizmente, não, o sujeito estava vivo da silva e provou-o me acenando com a cabeça num cumprimento que compartilhei do mesmo modo. Em silêncio, seguimos navegando o Nilo, cada qual com suas contemplações, embora observando a mesma paisagem, mas cada qual vagando em pensamentos distintos. Não sei por onde iam os dele, mas eu fantasiava o tráfego fluvial da época faraônica, iates reais feitos de junco, com nobres da corte conduzidos por escravos remando, uns barcos de serviço e de pesca, outros a vela transportando gente, animais, gêneros ou materiais para algum templo. Meu bom senso recomendou não importunar o mágico momento de solidão do passageiro, mas por muito pouco não iniciei uma conversa. Resolvi em boa hora afastar-me e explorar o restante do deck.

O lugar era acolhedor, tinha uma bem ambientada piscina com espreguiçadeiras ao redor e a céu aberto, toalhas listradas enroladas caprichosamente aguardando eventuais passageiros banhistas, provavelmente cidadãos do Alasca, e também um conjunto de mesas e sofás formando um confortável lounge. Um lugar para ser lotado de gente nas noites mais quentes. Por fim, havia um bar com bancos simetricamente afastados ao redor do balcão quadrado e protegidos do sol pela cobertura de lona. Sobre o balcão, xícaras de porcelana branca emborcadas em pires esperavam por infusões de chá de hibisco. Imaginava o quanto seria apreciável o tea time por ali e, à noite, num dos sofás, apreciando uma taça de vinho e conversando com recém conhecidos sobre as descobertas do dia. Curiosidade havia no vinho produzido na terra de Tutankamon, e não havia outra opção além das que viessem de algum terroir local, já então apreciadas por Ramsés III e Cleópatra. Assim o fizemos todas as noites, mas à mesa do restaurante.

A navegação

Navegar é preciso, mas o que menos se faz. A maior parte do tempo fica-se atracado para a exploração – guiada ou não – do que há em terra. Quero dizer, areia. Nosso navio era um pequeno hotel flutuante, padrão 3 estrelas tentando alcançar a quarta, cujas 60 cabines tinham 22 metros quadrados cada, limpas e razoavelmente bem equipadas, com banheiros espaçosos e bons chuveiros, água fervente e bancada de pia bastante para suportar as coisas de um casal. O restaurante era amplo e servia refeições em estilo buffet, generosos, razoavelmente variados, com opções para satisfazer a maioria dos paladares e restrições. Havia saladas, legumes cozidos, pratos quentes e frios, vegetarianos e não, um destaque de carne em cada refeição, dos quais recordo-me de um tagine de carne e de um delicioso assado de pernil fatiado na hora. Para sobremesas, frutas e doces confeitados variados, cujas pretensões de sabor ficavam devendo às visuais. Nossa mesa foi a mesma durante toda a estada e compartilhada com um agradável casal de médicos de São Paulo, além de seus dois filhos adolescentes, também extremamente simpáticos, o que tornou nossos momentos de refeição ainda melhores, para além de divertidas companhias durante os passeios.

Com eles compartilhamos algumas garrafas de vinho egípcio e ótimas conversas. Éramos os oito únicos brasileiros a bordo, e à mesa mais numerosa sentava-se uma família indiana, também a mais efusiva, em cuja noite que comemorei meu aniversário foram os mais calorosos. Tive direito a bolo, velas efervescentes, cantorias em árabe, danças e toda a equipe do restaurante fazendo seu melhor para que meu momento fosse inesquecível. E foi. Com alguma timidez, entrei na dança e posei para fotos e filmagens celulares.

Naquele primeiro dia de cruzeiro, após o almoço, com a energia restaurada, depois de apresentados ao guia que Allah e a operadora nos confiaram, chatíssimo por sinal, de modo algum lembrava seu colega do Cairo, o saudoso Mohamed. Foi difícil aturá-lo nos três dias, embora o conhecimento de um guia especializado seja sempre extremamente útil e revelador, mas com aquele, descobrimos logo na primeira atração de Assuã que faríamos tudo para termos meia hora felizes e silenciosas sem aquele guia tagarela e afetado nos impedindo de fazer o que quiséssemos, circulássemos e fotografássemos. Ele não se conformava com menos de 15 minutos de atenção, então discorria por toda a história antiga do Egito, da primeira à última dinastia faraônica, como se fosse o professor em sala de aula e nós seus alunos na véspera de exame final.

Colunas na Ilha Philae

Fomos à grande barragem, um ícone no Egito, obra importantíssima que mudou a face do país, mas, para nós que temos Itaipú ou quem já esteve na Hoover Dam, não é coisa de surpreender, mesmo que interessante seja saber como mudou o país, a vida dos egípcios, aumentou a área de terras cultiváveis ​​por meio de irrigação e controlou suas terríveis e históricas inundações.

Lago Nasser

Entramos depois numa pequena embarcação que nos levou ao belo e atmosférico Templo de Philae. Dedicado à deusa Ísis, fica numa ilha para onde foi movido depois de seu sítio original ter sido parcialmente inundado pelas águas da barragem. Ali assistimos ao sol se pôr, que antes de finalmente ir para o Japão tingiu a ilha de laranja. Aproveitamos a luz quente e bonita, saturada nas superfícies do templo, acentuando os dourados e contrastando com o céu de azul ainda intenso.

Templo de Ísis, na Ilha Philae

Visitamos também o Obelisco inacabado – atração curiosa, ainda que a menos atraente de todo o roteiro – obra encomendada pela faraó Hatshepsut, que se concluída teria sido o maior obelisco do mundo antigo, com 42 metros de altura. Mas uma rachadura no meio encerrou o sonho, deixando-o deitado e inacabado, atrações que terão um merecido relato no próximo capítulo.

O navio zarparia à noite, então havia tempo para uma visita à tradicional (e turística) loja de perfumes e essências naturais aromáticas. A visita converteu-se numa agradável experiência sensorial, levada a cabo numa sala cercada de estantes com toda a sorte de óleos essenciais e comandada por um profissional, numa cerimônia de apresentação dos deliciosos aromas, entre eles os que afirmam terem propriedades medicinais e os que se usam no corpo e no ambiente. Voltamos a bordo já com o sol posto, cansados de um dia que começara de madrugada no Cairo, mas felizes com o primeiro intenso dia do tão esperado cruzeiro.

O rio Nilo

Muito mais que apreciar sua grandeza, me apetece falar dele. É tentação, não só porque escrevo relatos de viagens, mas por tratar-se do que dá vida ao deserto, cria oásis e incentiva o nascimento de aldeias, vilas e cidades, ter promovido o surgimento das civilizações faraônicas, que a despeito de dos 4000 anos que se passaram, permanecem “vivas” às suas margens. Um rio que torna o Egito atemporal e imutável.

Naquela nossa primeira noite no Nilo, observei pela ampla janela da cabine suas águas correndo, seus ruídos no casco do navio e o rio exibindo um brilho diferente, refletido das luzes de nossa embarcação. Logo adiante, a outra margem era escuridão, o Saara continuando a marcar sua presença implacável, mesmo no escuro, e evocando ora pensamentos românticos, ora históricos. Eu não me recordava de nenhum país que dependesse tão completamente de um rio, nem de outro lugar cujas águas trouxessem tantas consequências à existência humana.

O cansaço me fez adormecer mais cedo do que o costume, embora o momento fosse mais propício a mentes porem-se em ação. Eu tentava mover-me pelas relembranças do que vimos no dia, mas o sono me venceu, deixando a cabeça repleta de temas para sonhos efusivos. Dormimos em lençóis confortáveis e limpos, imagino que de algodão egípcio, e com as cortinas propositalmente semicerradas, a fim de que acordássemos com o nascer do Sol. Pouco antes de fechar os olhos lembrei-me de Heródoto – o filósofo-viajante grego, que disse “Quem não viu o Egito não viu o mundo”. Sua máxima levou-me a pensar que quem não viu o Nilo, não viu o Egito.

Subimos âncora e partimos rio abaixo.

Nota do editor:

Não foi erro a mera menção, sem delongas, de Agatha Christie neste relato de cruzeiro pelo Nilo. Mas este é um fato tão corriqueiro, linearmente usado na blogosfera de viagem, que resolvi privar o leitor de mais um lugar-comum. Além do que a escritora não representa a totalidade de personalidades do universo literário inspiradas pelo Egito ou pelo Nilo. Quer na ficção, quer nos romances, outros escritores, igualmente proeminentes, produziram novelas, contos e artigos, entre os quais destaco o romancista francês Gustave Flaubert, a enfermeira inglesa e editora de jornais Florence Nightingale, Mark Twain, Pierre Loti, Rudyard Kipling, Arthur Conan Doyle – criador de Sherlock Holmes – e George Bernard Shaw.

CAIRO – A Cidadela de Saladino. Ah, que vista!

Para ler ouvindo Something left unsaid – Por Lyle Mays

Chegamos cedo. Tão antes do tempo que mesmo depois dos ingressos comprados tivemos que aguardar a abertura dos portões da Cidadela de Saladino. Estávamos numa grande praça à entrada do complexo e diante de um improvisado café onde aqueciam-se com a bebida os motoristas das vans e ônibus turísticos. E embora houvesse sol, seus raios fossem para todos, os sentíamos nos olhos, mais do que na pele.

Olhando para a muralha da cidadela, aquelas suas enormes torres de vigilância, os minaretes e o grande portão de acesso, o típico palácio árabe aparentava ser mais que obra concreta, senão uma ilustração do livro de histórias das “Mil e uma noites de Sherazade”[1].

O céu estava surpreendentemente claro e limpo, quase sem nuvens, azul e transparente, então um agradável convite às caminhadas ao ar livre, contudo sob a confortável temperatura do inverno. Nada mais atraente e apropriado para uma visita ao legado de Saladino: a Mesquita de Alabastro, os pequenos palácios convertidos em museus nada assombrosos (quase sempre fechados) e os terraços com vistas soberbas sobre o Cairo. De longe, aquele com a melhor vista aérea da cidade, seu um grandioso conjunto arquitetônico, para as tantas outras cidades que parecem haver dentro do Cairo.

O Mirante da Cidadela de Saladino

A paisagem permitia aos olhos enxergarem muito além do que vista alcança, e a mim, olhar como nunca houvera feito antes. Eu me concentrava nas minúcias, embora o monumental fosse o que dominasse o panorama. Surpreso, eu contemplava o Cairo Islâmico e seu mar de construções monocromáticas, o horizonte, as pirâmides e as areias infinitas do deserto. E já que a imaginação me permitia, embora não o céu leitoso, enxergava até mesmo a indecifrável esfinge. E não era mal com a segurança da distância, protegendo-me de seu jeito Monalisa, seu olhar perdido, mas traiçoeiro, fingidora ao desdenhar do observador, mas pronta a devorá-lo. E com o que a imaginação me concedia, avistava também o Alto e o Baixo Egito, todo o Magrebe, o Oriente sendo inteiro.

Embora tudo ao alcance da vista fosse apenas um vislumbre, a mera sombra da vastidão da cidade onde vivem 45 mil pessoas por quilômetro quadrado, sua grandeza era avassaladora, tão estimulante da curiosidade que, mesmo indescritível, não era imencionável. Ia, assim, muito além de sua concretude, estimulava-me, sem barreiras, as especulações.

Depois daquele fabuloso estímulo ao olhar, o silêncio era o que mais eu sentia. Afinal, no Cairo, silêncio e solitude, caem tão bem quanto podem surpreender. Lá se iam 3 dias na capital, tempo bastante para percebermos o prazer da calmaria, pois de tão rara que, o visitante que não esteve no mirante de Saladino haverá de acreditar que a quietude no Cairo é como as bruxas: não se creem nelas, mas que existem, existem. E já que é tão rara, talvez só ali se perceba, estimula tanto os olhares curiosos, a fim de que devorem a grandeza das minúcias da insana cidade, sem contudo ouvirem-se seus ruídos, sob o reconfortante prazer da quietude.

Seria ridículo supor que éramos os únicos turistas por ali naquela fria manhã de dezembro, mas era surpreendente não estarmos no formigueiro humano, ao contrário, entre tão poucos visitantes numa das atrações mais fundamentais da cidade, exclusividade consagrava o momento num privilégio.

Dali o observador, enquanto avançava o olhar pela urbe, sente-se como um pássaro em voo livre, planando nas alturas, tocado pela brisa, escaneando a paisagem como um predador, com largos e atentos olhares, assistindo à sua balbúrdia quase incivilizada sem que precise mergulhar na “lama” de seu escarcéu.

No primeiro plano, encontram-se a cidade árabe e a turca otomana, mais distante a modernista de 1920 – com suas boas influências francesa e inglesa – e ao fundo, a contemporânea Cairo, cada qual com suas pequenas grandezas, desenhos complexos ora sofisticados, ora rústicos, arquitetura nas miudezas, pormenores, pequenos elementos de uma fachada, residência, um telhado, minaretes, uma pousada, das ruas estreitas que somem por trás de prédios e reaparecem adiante defronte de casas baixas, uma diversidade tão numerosa de pormenores quanto o número de peças do Museu Egípcio. Ao observar o panorama do mirante de Saladino, desvenda-se a História da cidade em todos os seus tempos.

Ah, que vista!

Daquela paisagem, mesmo depois de tudo o que for dito, alguma coisa ficará por dizer, como nesta música de Lyle Mays.

Segurei a câmera como se fosse de cristal, com tal cuidado, mas a firmeza que seu peso exige. Apontei a lente para o panorama que mal cabia na grande angular. Não me cabia um registro apressado ou descuidado, então, fiz meu melhor, sem, contudo, captar a mínima parte do que enxergara, do que me revelara.

O grandioso cenário, todavia, não impressionava apenas a todos, ao menos não àquelas duas jovens que lhe dispensaram uma olhadela, deram-lhe as costas e dedicaram-se às selfies de caras, bocas e gestos “instagramáveis”. Por fim, já com algumas dezenas de imagens guardadas no cérebro e na Nikon, seguimos para conhecer o restante do lugar, caminhando por um jardim em direção à mesquita, enquanto nosso guia nos conduzia também ao passado, a 1183, ano em que as obras da fortaleza concluíram-se, depois de imaginadas pelo líder muçulmano Saladino.

A Mesquita de Alabastro

No interior, uma calçada coberta por arcos belíssimos se estende pela maior fachada da mesquita. Era enorme, simétrica, com lindas colunas de pedra, abriga várias entradas falsas, embora apenas uma leve ao seu interior. Entramos num oásis de calma, respeitando o código de vestuário e etiqueta islâmicos: sem sapatos, em silêncio e com nossas esposas cobrindo os cabelos, embelezadas por pashminas compradas na noite anterior no mercado Khan el Khalili.

Enorme, a Mesquita de Mohamed Ali, – ou Mesquita de Alabastro – é um soberbo templo. Revestido internamente da mesma pedra de quem toma o apelido, avista-se de muitos pontos da cidade. Pela porta chega-se ao pátio de abluções, como é comum nos templos islâmicos, que antecede a entrada ao salão de orações.

Rodeado por colunas e arcos de alabastro, a fonte de abluções tem desenho e ornamentação otomanos admiráveis. Contudo, uma curiosidade destoa naquele lindo pátio: um relógio de bronze instalado no telhado e sobre uma torre com aparência arquitetônica medieval, presente do Rei Luis Felipe da França em retribuição ao obelisco do Templo de Luxor, doado pelo soberano Mohamed Ali, que se encontra hoje no centro da Place de La Concorde, em Paris.

O interior do templo faz juz em tamanho à sua grandiosidade exterior. Por dentro, o silêncio é ainda mais notável, solene, quase de um mundo paralelo. Um candelabro pende do domo central e chega a poucos metros do piso, inteiramente coberto por tapetes originais. E tudo conveniente e discretamente iluminado por luz natural vinda da porta e de algumas janelas primorosamente calculadas, a fim de que os raios solares não descoloram os intensos vermelhos do carpete oriental. O minbar e o túmulo de Mohamed Ali – em mármore branco esculpido e ornamentado com pedras preciosas – são dois dos mais preciosos tesouros da mesquita.

Absolutamente tudo revela o tradicional bom-gosto do desenho islâmico, sua qualidade nos padrões geométricos. O tapete é um convite a nos sentarmos para apreciarmos detidamente o conjunto da obra. Depois de satisfeitos, a caminharmos sobre ele, a fim de conferirmos o conforto e o prazer de passear sobre ele para conferirmos de perto os detalhes ornamentais do templo, dezenas deles, tantos que exigiriam toda uma manhã de observação e fotos. E já que eram permitidas, nos fartarmos delas.

Quem já esteve em Istambul e visitou a Mesquita Azul, sua memória não o poupará de lembrar-se da Mesquita de Alabtastro, não sem motivo: a do Cairo foi inspirada naquela.

Que manhã passamos na Cidadela de Saladino. Ah, que visita!

Veja em 360 graus o panorama do Mirante de Saladino:

https://www.360cities.net/image/the-saladin-citadel-of-cairo-egypt

Próximo capítulo

A Mesquita e Madrassa do sultão Hassan e a Mesquita de ar-Rifa’i


[1] http://www.miniweb.com.br/cantinho/infantil/38/estorias_miniweb/1001_noites.html

EGITO – Cairo. Um cartão postal visto à janela

Ouço seus ruídos e concluo que a cidade despertou antes de mim. Alguma luminosidade atravessa as cortinas, mas não o bastante para me tirar da cama. Alguma preguiça me resta, afinal, foram poucas horas de sono, embora uma bem dormida madrugada. Observo o quarto e detenho o olhar nos detalhes. Não são nada atraentes e evidenciam marcas do tempo, um hotel que já teve seus dias de glória, embora ainda seja um ícone do Cairo. É um dos mais altos edifícios da cidade, com mais de 30 pavimentos, o que me leva a imaginar a vista está além da janela. Estar às margens do Nilo parece hoje ser sua maior qualidade. Embora não se possa afirmar que estamos de ponto turístico, os dois quilômetros da praça Tahrir[1] e do Museu do Cairo nos deixa bem mais próximos de todas as demais atrações da cidade. Comparado a um hotel defronte as Pirâmides de Gizé, opção que a operadora nos ofereceu, escolhida por nove entre dez turistas, os mais de 20 km de distância nos sujeitaria ao tráfego e retenções naquele que considera-se entre os mais engarrafados do planeta.

Apanho os óculos, levanto-me e vou à janela. Pelo vidro da floor-to-ceiling window – como chamam o janelão do chão ao teto – a porção que avisto da cidade é quase toda do eterno Rio Nilo e em pequena parte de um medianamente largo horizonte, contudo comprometido pelo céu embaçado. Abro a janela e vou à varanda. Sim, os quartos têm uma varanda e eu preciso de óculos. Apesar de supor o frio, a vista é um convite, então saio como se testasse o quão glacial é o Inverno no teto da África. Qual nada. É Inverno, mas é África. Não demora muito e já sinto seus efeitos na pele.

A parte da urbe e do grande rio que avisto são, embora grandiosas, pequenas amostras de suas amplitudes. Neste Rio Nilo – o Nilo Azul, que começa no lago Tana, na Etiópia, que tive o privilégio de conhecer, e se junta ao Nilo Branco, ao sul do Egito, em Cartum, no Sudão, e juntos formam o rio mais longo do mundo – que em dois dias percorreremos em seu trecho mais turístico – entre Assuã a Luxor – e de volta ao Cairo, seguindo seu curso natural até o mar Mediterrâneo.

O guarda-corpo da varanda não é suficiente para que eu não sinta uma forte vertigem, mas também muito especial, com um panorama só visto pelos pássaros. Me ocorre uma ilusão na, um dejá vu que me leva a faz pensar já ter estado aqui, embora jamais, mesmo parecendo tão familiar. O efeito é breve como uma faísca, mas a sensação é de uma eternidade. Por certo um estado confusional da mente que mistura as centenas de imagens vistas antes e o leve torpor de um despertar recente.

O céu é embaçado, leitoso, mas diferente de atmosfera de Delhi, onde se constitui de duas partes de fumaça e uma de ar. Aqui não, ela é salpicada de minúsculos grãos de areia que chegam do deserto e, juntos à fumaça dos carros, dá ao céu do Cairo o personalíssimo “tom celeste egípcio”, um eufemismo carinhoso que tenta amenizar a expressão “poluição atmosférica”. Dizem que nesta cidade à beira do deserto, quando a brisa converte-se em ventania, acossa a cidade trazendo uma poeira que embaça a visibilidade em 70%. Depois, com a calmaria, a poeira deposita-se nas janelas, fachadas e letreiros, onde então passa a aparentar estar ali desde a eternidade ou, então, desde que Cleópatra era menina.

Observo a grande torre do Cairo, a ponte Qasr el-Nil, uma enorme bandeira do Egito e o absorvente rio Nilo dividido pela ilha Gezira e o bairro Zamalek. Embarcações pequenas e médias navegam por este trecho da cidade que chamam de Garden City, um pedacinho bonito e amplo da urbe, onde mora a parte privilegiada dos 20 milhões de habitantes cairotas, número que parece inverossímil, sobretudo quando nos damos conta de que toda a população de Damasco, de Beirute, Bagdá e Riad não dariam conta de completar a do Cairo.

Os prédios aqui parecem mais artísticos, têm desenhos mais bem cuidados, são mais atraentes do que as unidades de armazenamento do proletariado que vimos ontem de madrugada, quando pousamos. Dizem que os miseráveis no Cairo não moram nas ruas, que há décadas os sem-teto uniram-se aos sem-vida indo morar num gigantesco cemitério, transformando mausoléus em residências com direito a puxadinhos, posses de túmulos, locações, sublocações, comércio e parabólicas. O governo levou água e eletricidade, transformando a versão de moradia dos mortos em algo mais, digamos, vivo. Chamam-na “Cidade dos Mortos” e existe desde o século XIV. Dias depois perguntei ao nosso guia se era um lugar visitável. Ele respondeu que não, porque é perigoso. Uma pena.

Recupero da mente a programação do dia, cheio de tarefas turísticas, o que acentua meu desejo de largar a varanda e partir para a exploração. Custo a deixar a varanda e meu último olhar à paisagem foi como se estivesse agradecesse por um panorama que não cabia em si, embora sua parte mais desmedida ficasse para além do hotel. Me afasto sem dar as costas, sem desprezar o que agora invade o quarto depois de abertas as cortinas.

Retorno ao quarto e dedico-me a desfazer parte da mala e a explorar um pouco mais da acomodação, além de verificar as atividades do dia e separar o que usarei. Arrumo na mochila as câmeras, baterias e carregadores. Configuro a conexão do celular e do notebook com a Internet seguindo as instruções fornecidas durante o check-in. A namorada arruma-se no banheiro, seca os cabelos e fecha a porta para que o ruído não me incomode. O celular vibra e leio a mensagem de Mohamed Besheer, quem cuidou de tudo para nós em inúmeras mensagens por WhastsApp e e-mails: “Oi amigo, bom dia. Tudo certo? Quero confirmar se está tudo bem”. Respondo-lhe que sim, agradeço e lhe “digo” que estaremos na recepção do hotel à hora combinada para o encontro com o guia que nos levará à primeira incursão pela cidade: Mênfis – a primeira capital de Egito no reino antigo, antes da fundação do Cairo, onde fica a estátua de Ramsés II -, depois à Pirâmide de Djoser – a mais antiga e misteriosa de todas – um grande complexo funerário, usada para o sepultamento do Faraó Djoser, no século XXVII a.C.

Saqqara – A pirâmide de Djoser

Almoçaremos na rua, e a nosso pedido, num restaurante não-turístico que sirva koshary, o “arroz com feijão” egípcio, encontrado em qualquer pé-sujo de uma esquina cairota. Consiste em macarrão com lentilha preta, arroz, grão de bico, legumes, cebola frita e molho de tomate. Descrito assim parece um “mexidão” de sobras, mas não. Come-se num prato fundo e só de pensar nas fotos que vi, salivo. Percebo que estou com fome, mas também que para além do estômago “cantando”, ouço um coro de chamados para orações vindo dos minaretes da cidade. O café da manhã no hotel teria sido mais decepcionante, não fosse a fome unida à vontade de comer.

MênfisA estátua de Ramsés II

A seguir: CAIRO – O primeiro dia do resto de uma viagem


[1] Praça Tahrir, local central das manifestações populares da Primavera Árabe, nome romântico para os levantes políticos que começaram na Tunísia em 2010 e espalharam-se pelo o Egito – com milhares de egípcios protestando contra a presidência de Hosni Mubarak -, Bahrein, Iêmen, Líbia, Omã, Jordânia e Síria. A versão egípcia durou mais, da queda do ditador Hosni Mubarak até a transição comandada por militares e, depois, até uma eleição civil e democrática que um novo golpe militar retomou o poder para evitar que o Estado deixasse de ser laico. A turbulência vem e vai, e embora não se dirija a estrangeiros turistas, são manifestações violentas que os assustam e afastam, sem falar dos últimos atentados terroristas.

EGITO. Cairo, um breve gosto de Oriente

O Cairo visto à janela: o Rio Nilo e as Pirâmides de Gizé

Lembro-me bem daquela manhã. O navio chegava ao porto sob um sol suave enquanto um vento delicado soprava o deck do Costa Mágica. O relógio marcava 7 horas, e embora longe o Verão, já se sentia morna a brisa, como um prenúncio de calor agradável para o resto do dia, um prêmio para quem está com o Saara rondando. O enorme transatlântico – na época, o maior de cruzeiros com bandeira europeia – finalizava a manobra de atracação. Parte dos passageiros adiava o desjejum e acompanhava o “evento”. Afinal, eram 103 mil toneladas de aço encostando no concreto do porto à borda do Mediterrâneo, próximo ao delta do Rio Nilo. Alternávamos o olhar entre o casco e a cidade e sentíamos doer nos olhos o céu azul, nas narinas o cheiro de areia e outros odores coadjuvantes do Saara, e na pele um vento delicado. Uma beleza de cenário para ver e sentir.

O navio encostou com segurança e precisão, de modo que todos corremos para o café-da-manhã. Duas horas depois já nos encontrávamos na Biblioteca de Alexandria, moderníssima, com milhares de títulos de livros e 3000 manuscritos e mapas antigos. 

Reconheço o Egito como um destino indispensável a um viajante, e ainda que eu tenha estado em Alexandria anos antes, assim que cheguei ao Cairo considerava o país como inédito para mim. Embora a visita a Alexandria tenha sido atraente e proveitosa, o Egito era país com o qual eu sonhara desde a infância, e ao deixarmos o porto não me senti satisfeito, pois eram as pirâmides, o Vale dos Reis e o Rio Nilo que povoavam meus sonhos. Então, eu precisava retornar.

Quase chego a sentir-me tolo revelando ao leitor que o Egito me atrai desde moleque, porque não estou só: todos os relatos de viagens que li sobre o país mencionavam que seus autores pensavam no Egito desde a infância. E muito mesmo antes de mim. Curiosos, exploradores, escritores, viajantes e fotógrafos desbravaram o Egito consagrando um sonho de infância. Quando adultos, gente como Napoleão Bonaparte deu curso à sua curiosidade, neste caso através de uma invasão de pouco sucesso militar, mas que resultou em descobertas científicas e acúmulos culturais extraordinários. Tantos que dali em diante o país passou de “lugar exótico e curioso” à “egiptomania”[1]. Já o Marrocos, para onde iremos depois do Egito, é o tipo de país que a gente visita e sabe que voltará. Tanto que fez-me querer retornar pela quarta vez. Ambos destinos são irreparáveis, mas para quem escreve relatos de viagens, estão entre os terrenos mais férteis em inspiração e conteúdo.

Pouparei o leitor de me estender aqui nos detalhes do roteiro ao monte de cidades e lugares que visitaremos nos dois países, o que deixarei para contar-lhe em capítulos. Agora, dou-me por bem relatando nossa chegada ao Cairo.

Cairo – Um breve gosto do Oriente

Numa olhada pela janela começava nossa jornada pela terra dos faraós. Dois dias antes estávamos a comemorar o Natal em casa, e entre abraços, comidas e presentes, pensávamos na viagem. Agora, prestes o avião a aterrar na terra dos faraós, às duas e meia da manhã, hora que, convenhamos, não é lá das mais adequadas de se pousar em lugar nenhum, era a ansiedade, não o sono, o que melhor eu sentia, não sem juizo, depois de três aeroportos, dois aviões e duas dezenas de horas, pousar no Cairo era um prêmio pelas mais de dez horas de intervalo de conexão, ainda que tornasse possível o repouso num hotel com vista pro mar nas proximidades do aeroporto Fiumicino, além de um delicioso almoço com vista para barcos de pesca ancorados diante de nós.

Enquanto a aeronave desce e prepara-se para o pouso e meus olhos procuram as maravilhas icônicas do Egito, as três pirâmides. Contudo, apesar de 130 desses monumentos espalhadas pelo país, não avisto qualquer, sequer a sombra de suas mais famosas: Quéops, Quéfrem e Miquerinos, embora eu saiba que estejam por ali. A uma dezena de minutos de tocar o solo, já a mente liberada da vida doméstica, deparo-me com o mar de luzes urbanas da enorme metrópole, com milhares de prédios suburbanos cercando a pista, próximos entre si, todos do mesmo tom monocromático do deserto, de cuja areia saariana parecem terem sido feitas suas alvenarias e revestimentos, edificações populares de uma arquitetura invariável e monótona.

Lembro-me bem da rigorosa decisão de viajarmos ao Egito devido às questões de segurança, relacionadas com atentados contra turistas e agitações políticas. A indústria turística alcançou seu ponto mais baixo com o ataque de 2015 a um voo vindo de Sharm el Sheikh, onde mais de 200 pessoas morreram. A violência continuou com uma bomba destruindo um ônibus de turismo perto das pirâmides de Gizé em dezembro de 2018, matando quatro e ferindo quatorze pessoas e, em maio, algumas manifestações políticas que severamente contidas passaram a devolver a confiança de que era seguro viajar ao Egito.

A tripulação anuncia o pouso. Em italiano, inglês e árabe egípcio. O idioma local soa bem nos meus ouvidos, com sua bonita sequência de notas densas, ásperas e arranhadas nos “erres” guturais. Estamos ansiosos por esta jornada por terras com cinco mil anos de história, de faraós, pirâmides e túmulos, templos esculpidos na rocha, esfinges, ruínas, cidadelas, mesquitas, mercados, deuses, mitos e tesouros, tantos que ainda há muitos enterrados por descobrir.

O momento da chegada é sempre marcante, quer pelo alívio, quer por assinalar o cruzamento da fronteira entre o sonho e a realidade. Ajusto-me à nova situação e administro as incertezas com o desconhecido, os instigantes choques culturais, por ter há pouco deixado o cotidiano para nos tornarmos turistas em ação.

Sinto o toque do avião no solo e ele se aproxima do bonito, novíssimo terminal internacional do Cairo. Assim que é permitido, solto o cinto de segurança e me levanto da poltrona. Estico a coluna e retiro as malas do compartimento. De pé, no corredor, aguardo com calma – se assim posso chamar este inexorável momento de inquietude – que a gente à minha frente comece sua marcha à saída do avião. Giro o corpo no próprio eixo e aceno para meus companheiros de viagem; recebo os seus de volta. As portas se abrem e meu corpo ainda pesado começa a empurrar a mala de rodinhas. Colados uns aos outros, todos buscam com urgência a mesma porta, a saída para o alívio, pois cruzá-la significa pôr fim ao “aborrecimento” de voar. Me despeço dos comissários de bordo como se o fizesse do avião, e logo à saída encontramos nosso receptivo para nos ajudar com as formalidades do aeroporto. Decorreram sem qualquer intercorrência, devo dizer. Ponto para o Egito. Do desembarque aos vistos, do recolhimento das malas à passagem pela fiscalização da Alfândega, eventos que embora já nos fossem bastante familiares, foram aqui luxuosamente auxiliados pelo homem da operadora local que contratamos. Um belo visto de papel-moeda colado no passaporte selou nossa entrada no país. E cartões SIM para celulares comprados no saguão do aeroporto encerraram nossa relação com o lugar.

Já no hotel, situado no centro do Cairo e nas proximidades da Praça Tahrir – não particularmente próximo das Pirâmides de Gizé, lugar de preferência de nove entre dez turistas – mas escolha consciente e ponderada devido ao fato de que a maior parte das atrações que visitaríamos no Cairo estavam bem mais próximas do centro da cidade do que das pirâmides, e que os deslocamentos entre Gizé e o centro da cidade costumam tomar muito tempo útil do turista.

O gentil profissional despediu-se após preceder ao nosso check-in, compartilhar sua gratidão por nossa visita e combinar para as 12 horas da mesma manhã o encontro com nosso guia no lobby do hotel, e então subimos às nossas habitações no trigésimo andar. Vista daquela altura, de madrugada a capital do Egito é bem iluminada. O belo, amplo panorama aéreo defronte ao Rio Nilo confiro numa olhada rápida através da janela do hotelão, cuja vista instigante estimula a imaginá-la depois do Sol nascer. Sinto um breve, mas delicioso gosto de Oriente, contudo, deixo de admirar a paisagem porque a meta é dormir pelo menos de cinco a seis horas – entre as quatro e as nove ou dez da manhã – a fim de completarmos o tanque do nosso bom estado físico e mental.

A Lua é Nova. Não é Crescente nem Meia, é Nova. O céu é escuro e toda a noite cabe no meu quarto, mas logo o Sol virá e fecho as janelas e cortinas para evitar sua inconveniência àquela altura. Vou à porta e penduro o do not disturb na massaneta e vamos para onde planejávamos desde que saímos: à cama.

Não é incomum que nessas horas em que repouso a cabeça sobre o travesseiro uma canção soe na minha mente. Nesta madrugada, são notas e versos que cantarolou: And I think to myself what a wonderful world…

Penso no mundo e no quanto ele é maravilhoso. Me sinto bem com o privilégio que é poder viajar e fico imaginando o que veremos lá fora, imagens que sem saber habitariam meus sonhos. Logo adormeço “pregado” à cama. Daqui a pouco eu volto para contar o dia.

A seguir (com fotos e filmes, prometo!):

Cairo – A primeira manhã – Um cartão postal visto à janela


[1] A “descoberta” (científica) do Egito, entre o final do século 18 e o início do século 19, provocou uma onda de interesse por todas as coisas egípcias, da Europa aos Estados Unidos, fascínio que inspirou uma onda de turismo ao país, e se manifestou na arquitetura, arte e cultura ocidentais através de uma variedade de desenhos e motivos inspirados na terra dos faraós. Passou-se a chamar esse entusiasmo de egiptomania.

VIAJAR, essa impermanência

FALTAM tantos posts sobre a Índia, e mais ainda sobre Istambul, Capadócia, Geórgia e Armênia, mas já estou aqui de novo, feliz nesta minha impermanência de viajar e escrever sobre viagens.

Há viajantes que afirmam “Sou feliz porque viajo”. Não posso mesmo discordar, porque para mim as viagens são muito excitantes, encantadoras e renovadoras. E para alguns, até autorrealizadoras. Contudo, não creio na equação simples acerca do que seja a “felicidade”, e embora não trate como uma afirmação falsa, discordo do significado absoluto, grandioso, raro, especial, quase exclusivo que muitos atribuem às viagens. Menos ainda que elas tenham o caráter mais humano que lhes concedem alguns, uma prerrogativa que a mim parece desmerecer outros meios para o encontro com a felicidade. A afirmação não chega ao esnobismo clássico de viajantes afetados, que distinguem e classificam de maneira rasa “viajantes” e os “turistas”. Quem assim age, refletidamente ou não, pode sugerir um sentimento de superioridade. E ninguém neste particular – e certamente não eu – deve pensar que todas as pessoas tenham as mesmas perspectivas da vida e sobre a felicidade, o que significaria viver um papel ilusório da realidade tão heterogênea da humanidade.

Há discussões de elevada reputação e inquestionável conteúdo técnico acerca do que seja a felicidade e também de como encontrá-la. Para Aristóteles, por exemplo, ela está no caminho do bem. Por outro lado, há quem acredite que resulta do somatório de outras inúmeras atitudes e circunstâncias. Bingo! O médico Carlos José de Andrade, oncologista do INCA (Instituto Nacional do Câncer), mestre em gestão de tecnologias em saúde, encontra evidências no fato de que a felicidade é um fator decorrente da manutenção da saúde e da prevenção de doenças, baseando-se no conceito de que “A principal missão de vida é ser feliz”. Bingo! outra vez. E se cada um de nós compreender que todos somos agraciados com o mesmo conjunto de “forças” internas que nos permite encontrar a felicidade, não temos por que não desenvolvê-las e partirmos em sua busca.

William Shakespeare dizia que os pequenos acontecimentos diários são o que tornam a vida espetacular. Nesses pequenos acontecimentos na vida do escritor e poeta inglês, concluo que era a maneira como ele encontrava a felicidade. Já os budistas não posso crer que errem quando afirmam que a “felicidade é a busca do desapego” e usam a meditação para alcançá-la, o que, de fato, faz bem a qualquer um, mesmo que não para o seu encontro, embora arrisquem-se, assim, a esbarrarem nela. Mas, e aqueles que são mais felizes comprando algo em vez de viajando? Devem ser simplesmente desqualificados? Não parece difícil compreender sua alegria genuína, até porque eu mesmo não creio em apenas um único meio de ser feliz, coisa que mesmo “especialistas” discordam. Para os consumistas, por exemplo, as viagens são eventos de emoções fugazes, enquanto os da posse, são perenes. Neste particular – ter ou ser, viajar ou comprar -, uma entre as melhores definições do que penso a respeito é “Ser feliz é exatamente achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter”, segundo Stephen Kanitz. Tenho a convicção de que não quero mais querer algo além do que já tenho, porque o que já possuo é mais do que preciso, embora menos do que mereça.

Dos autores de livros de autoajuda também não tenho do que divergir. Pregam eles que “ser feliz é estar bem consigo mesmo”. A verdade é que agora que me sento para escrever, reflito – sem espanto ou estranheza – que o encanto de viajar, e de ser feliz, depende muito mais do estado de espírito e da personalidade do viajante do que do destino em si, tampouco do ato de deslocar-se. E assim como há tantos meios de se encontrar a felicidade, às vezes é preciso conquistá-la, mesmo já tendo se deparado com ela. Para muitos, é uma fina camada de poeira num lugar onde repousa, para outros, algo escondido num poço profundo de um lugar perdido. Encontra-se ou não. E assim como ela não passa na porta da gente todo dia (e quando o faz, é discreta, silenciosa), as vicissitudes e os mal-feitos de nossa existência, ao contrário, passam defronte de nós com barulho e chamando a atenção.

Viajar, escrever e refletir sobre minhas viagens e acerca do que elas me proporcionam, não me autoriza pensar que viajar seja melhor que qualquer outro meio de ser feliz, sobretudo porque conheço um monte de gente que arrepia só de pensar em viajar e não me parecem infelizes. Não cometo a irresponsabilidade de definir o tema com alegações simplistas, porque ele é aberto às interpretações e muito vulnerável a críticas, embora seja delicioso para os viajantes explicarem como as viagens influenciam suas vidas, sobretudo para aqueles que as compartilham em relatos num blog ou em livros. Viajar é bom, e por muitos motivos, nem que seja para descobrir que voltar para a vida cotidiana é melhor do que ter partido para a jornada. Então, se me fosse possível escolher a melhor definição, seria: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”.[1]

Viajar para comer, amar, explorar e voltar pra casa

Viajar é bom. Para conhecer de tudo o que há na Terra um pouco, também para crescer, recolocar a mente onde se deseja, aprender e compartilhar. A novos lugares ou sempre aos mesmos, para viver dos episódios mais banais aos que deixam marcas, sendo um globetrotter ou estreante, no Inverno ou no Verão, simples passeio nas proximidades de casa ou volta ao mundo, por lugares remotos ou entre os mais lotados de turistas, nos sentirmos descobridores como Colombo ou turistas acidentais sem propósito de “exploração”.

Alguns chamam “inquietude” o que acomete aos viajantes e exemplificam com aqueles que mal refeitos de uma viagem vêm-se planejando a próxima. Segundo o psicólogo Carl Jung, é o que “indica insatisfação que leva à busca e descoberta de novos horizontes”. Ou, então, uma “fuga de si mesmo”. De ambas as definições discordo, e vivamente. Não porque eu seja versado no assunto, mas porque enquanto não estou a viajar, vivo igual satisfação e me parece assustador pensar numa viagem da qual jamais voltarei. Meu destino predileto? Minha casa. E embora as viagens me façam muito feliz, não é quando estou a deambular o mundo, senão em casa, onde levo uma vida “normal” (ainda que muitas vezes preparando uma nova viagem), que me sinto melhor e plenamente realizado, porque adoro sentir a distância e o desabrigo, para quando voltar, estar bem sob meu próprio teto.[2] A impermanência dura apenas enquanto viajo, e seus valores e significados tornam-se maiores quando retorno.

“Viajar? Para viajar basta existir”, disse o poeta[3]. Então, se é fácil e não requer prática e habilidade, se para sairmos de casa precisamos só do desejo e de disposição, contudo, para viajar com “arte” – olhando para o destino com a vista desembaçada, a mente aberta – necessitamos de aprendizado e dedicação. 

Viajar, contudo, para concluir, tem sido natural aos humanos desde o Neandertal, porque o homem se desloca por natureza, é um homo viator[4]. E a humanidade já viajava na Odisseia, de Homero, nas Histórias de Heródoto, da Antiguidade até inícios do século XIX -, quando eram motivadas por fins práticos, comerciais ou promovidas pelo Estado, desde o século XVI, com as explorações geográficas e as expedições coloniais que as seguiram, a despeito de que ali não se viajava por turismo. De missões diplomáticas e religiosas às conquistas de territórios, desde a Antiga Pérsia do rei Dario às religiosas das Cruzadas, das de Édipo até a Delfos – para consultar o oráculo – às caravanas comerciais relatadas no Livro das Maravilhas, de Marco Polo, das descobertas de caminhos marítimos até às de desafios levados a cabo por conquistadores de montanhas, desbravadores de florestas, de povos indígenas – como a Marcha para o Oeste, do Marechal Rondon -, dos aventureiros como Hans Staden aos eruditos como Michel de Montaigne, enfim, muito já se viajava, embora a atividade tenha se tornado turística apenas no fim do século XVIII, com a invenção dos navios a vapor, das estradas de ferro e das hospedagens, quando tudo era “exótico” e remoto para além das próprias cidades. Foi, então, que olhares romântico-comerciais passaram para os viajantes a ideia de que viajar era uma “aventura” para “exploradores”.  Mas… e escrever sobre viagens?

Escrever para entreter, não impressionar

À parte as complexidades dos temas sobre o porquê viajamos e acerca da felicidade, descrever viagens é um dos lados menos comuns aos viajantes. Felizes ou infelizes. Em todos os demais pormenores, quase sempre há coincidências e, aqui deste meu lado, o desejo de contá-las é espontâneo, tanto maior quanto menos explorado, mais diferente o lugar que descrevo, o que se constitui um grande impulsionador da criatividade agindo como motivação. Escrever parece ter nascido comigo, o que percebi desde que me senti dominado pelas palavras. Faz muito tempo que não escrevo naquele caderno velho de papel, onde anotava minhas coisas, mas a era digital só veio a incentivar e fortalecer o gosto. A cada nova viagem ele se manifesta e me domina, de tal modo que assim que começo a escrever uma introdução a qualquer relato de uma viagem, embora não termine ali, os pensamentos fervilham enquanto as letras vão se combinando na mente e depois no teclado. É tão grande o prazer quanto o dessabor da ausência das palavras. É coisa maior que o prazer de apontar minha Nikon para fotografar, e talvez seja assim porque escrevo com emoção, como num ato de reconhecimento pelo que “recebi” da viagem.

Se viajar é uma característica humana desde o Neandertal, como gênero literário é bem mais tardio, embora uma de suas mais eloquentes manifestações. De Heródoto, Homero, Virgílio e Ibn Battuta a Julio Verne e Paul Theroux. E apesar de que contar histórias seja arte que eu já domine, é nestes que me inspiro. E no começo, num breve texto como este, com o qual apresento uma viagem aos leitores, quando sinto os maiores arrepios. Embora escrever ficção deva ser muito mais difícil do que contos de viagens, há autores tão excepcionais que os fazem parecer fantasias, romances, poesia. E talvez por isso apenas autores excepcionais tornem-se populares.  

Descrever jornadas também tem suas dificuldades, porque embora trate-se de relatos de coisas vistas, não imaginadas, os clichês são armadilhas, o cunho comercial uma tolice e a superficialidade o túmulo da credibilidade. Ao contrário, para transmitir seu, fascínio ou não, por um lugar, por um país, as sensações com as descobertas, com um povo, um encontro, a cultura ou a culinária, é preciso personalidade, imparcialidade, autonomia e credibilidade. E para além disso, um bom estado da mente, a sensibilidade aguçada, fazer escavações em si mesmo, arrancar angústias, prazeres, tensões, decepções, felicidades e amarguras vividas numa jornada, e então tocar o leitor, trazer a ele a sensação de estar lá, sentir como sua a descrição da poeira, do brilho, do frio e calor. Só os bons conseguem mostrar os detalhes melhor que o conjunto, como o toque de uma brisa e o cheiro que ela traz, o que não é coisa banal e nem há muitos assim. Incomuns são os que conseguem tornar o leitor um acompanhante do escritor na jornada, mais ainda torná-lo, sem que perceba, personagem de um romance, qualidade tão excepcional e rara que se reflete com brilho na escrita.

Não sei ao certo, mas penso ter sido de Manuel Bandeira o meu gosto por escrever, depois da leitura. Todo texto meu escrevo como se fosse transformar em livro, numa narrativa refinada de viagens com reflexões bem-humoradas, mas também momentos de introspecção e extroversão, movido pela experiência e pela satisfação da jornada. Desde moleque eu me sentia destinado a tornar-me um escritor, embora um viajante eu nem desconfiasse. Tanto tempo depois, dou o braço a torcer, viajo bem melhor do que escrevo, e de mim não sairão grandes obras. Sobra-me, então, o prazer de compartilhar aqui neste blog a tentativa de inspirar o leitor, um desejo escondido de que alguma coisa especial eu lhe transmita, que embora eu muitas vezes não o conheça, rogo que lhe aconteça.

Escrever um relato ou uma crônica de viagem não deve ser produzir um folheto turístico, anúncio de hotel, resenha de companhia aérea, senão uma provocação, convocação, algo tão bem escrito que não use adjetivos previsíveis, exclamações abundantes, lugares comuns como “charmosos” e “mágicos” e nem feito para destacar aquele quarto ou piscina cinco estrelas porque hospedou-se ali de graça. Relato de viagem é outra coisa. E embora possa conter referências e resenhas de hotéis, de restaurantes e tudo mais, deve aprofundar-se mesmo é no destino, não no autor, e no conteúdo, orientando, indicando, incentivando, cativando, motivando e inspirando o leitor sem, contudo, guiá-lo.

Então, sempre e para sempre, estaremos juntos, eu, viajar e escrever.  Histórias de viagem ao Egito e ao Marrocos já foram contadas muitas vezes, mas em breve aqui, teremos mais uma, a minha versão. O destino virá e minha história ficará. Boa viagem!

Em breve: A próxima viagem: Egito e Marrocos


[1] Carlos Drummond de Andrade

[2] Amyr Klink

[3] Fernando Pessoa

[4] Homo viator, expressão latina para “homem viajante”, definição que condensa a “insatisfação” intrínseca ao ser humano, que o faz deambular em busca do novo.

TURQUIA – Palácio Topkapi, Istambul

O Mar de Mármara se transforma no Chifre de Ouro ao redor da península do Seraglio, onde sobre um promontório que domina a paisagem fica o complexo Topkapi. Ao seu redor, os belos jardins floridos e bem sombreados do Parque Gülhane e, abaixo, já ao nível do mar, os restos da muralha que protegia a cidade no império bizantino. O nome me traz à lembrança a ópera de Mozart – O Rapto do Serralho – desenvolvida a partir de um libreto numa época em que a Turquia setecentista exercia enorme fascínio cultural no velho mundo. Embora já não tanto, ainda mexe com o imaginário coletivo desde a sua estreia em Viena, em Julho de 1782. Mas este orientalismo exótico influiu de tal maneira que mudou a cabeça de escritores, pintores e compositores. A novela na qual baseou-se Wolfgang, conta a história de Konstanze, capturada e levada à Turquia, depois vendida como escrava ao sultão Selim, que mais tarde por ela se apaixonou.

Tem um sabor especial saber que meu compositor clássico predileto inspirou-se aqui, nesse lugar entre os mais destacados da “minha” cidade, Istambul, e saber que o palácio teve grande influência no sentimento romântico do compositor. O mesmo Mozart, antes do “Rapto”, compusera uma opereta inacabada, cuja heroína chama-se Zaïde, nome de uma escrava cristã do harém do sultão Solimão, de onde foge com o seu amante Gomatz, com a cumplicidade de Allazim, para depois serem capturados por Osmin, chefe da guarda do sultão, personagem que aparecerá mais tarde no “Rapto”.

No mesmo cenário romântico representado na magnifica ópera, assim como na opereta não concluída, ocorreu uma outra paixão, contudo real e histórica, entre Roxelana e o sultão Suleiman. Hürrem foi o nome recebido por Alexandra Anastasia Lisóvska quando foi capturada. Nascida onde hoje é a Ucrânia, filha de um padre da igreja cristã ortodoxa, foi vendida como escrava para o palácio do sultão. Hürrem ficou conhecida como Roxelana, casou-se com o sultão, tal qual Konstanze com Selim, e passou a viver nos aposentos reais, tornando-se figura central na vida política do império e acumulando poder. Deu seis filhos ao sultão.

Neste lugar tão carregado de história, fica o Topkapi, Um palácio de extensão prodigiosa, muito irregular, jardins como uma grande bússola cheia de ciprestes altos, prédios de pedra branca encimados por torres e espirais douradas que parecem magníficos. De fato, acredito não haver palácio de um rei cristão tão grande quanto este, segundo o descreveu Lady Mary Wortley Montagu, aristocrata, escritora, poeta e feminista inglesa, em suas“Cartas da Turquia”, sobre o Oriente Muçulmano. Extravagante já era nos tempos otomanos, contudo, sem qualquer relação arquitetônica e estilística com os palácios europeus.

Constantinopla. Se nos lembrarmos de que a divisão histórica entre a Idade Média e a Idade Moderna foi marcada pelo avanço do Império Otomano com a conquista da capital do antigo Império Romano do Oriente, a visita ao Topkapi toma nova dimensão. Para nós, brasileiros, ainda mais, porque o Brasil ainda sequer havia sido descoberto quando o sultão Mehmet II fez sua entrada triunfal na cidade, no final da tarde do dia em que o capturou, uma terça-feira, 29 de maio de 1453, passando pelo Portão de Adrianópolis, agora conhecido como Edirne Kapi, sendo então aclamado por suas tropas de oitenta mil homens. A partir dali, Mehmet II passou a ser chamado de Fatih, ou Conquistador, nome do bairro mais repleto de monumentos otomanos da cidade e de boa parte de sua herança cultural.

Durante séculos o mundo ocidental fascinou-se por seu exotismo, pelas maravilhas e mistérios do Império Otomano, por seus sultões que governaram os vastos domínios do império desde aqui, o Palácio de Topkapi. Mehmed II começou a construí-lo no local de uma antiga acrópole bizantina, em 1459, após a conquista. A dinastia otomana floresceu – governando a Turquia moderna, os Bálcãs e a maior parte do norte da África e Oriente Médio. A “culpa” do nome do palácio é do famoso punhal com uma esmeralda cercada de diamantes, encravada no cabo, cujo tamanho é descomunal, mas a lapidação, decepcionante. O que fariam hoje, com uma pedra daquele quilate, os lapidadores com suas técnicas e ferramentas modernas? Por ali, uma miríade de tesouros que inclui espadas, adagas, roupas reais, tapetes, tecidos, cerâmicas, manuscritos, joias, armaduras, pinturas e outros tantos de arte finamente trabalhada, além do trono de Suleyman, o Magnífico, e mais cerca de 200 outros itens que mostram o significado, a arte, o poder e a importância do palácio e do Império Otomano.

Conhecido como o “Novo Palácio” até o século 19, não é um exemplo tradicional palaciano de estilo europeu, mas um complexo de prédios, pavilhões baixos, quiosques e pátios, além do harém. Uma cidadela que, assim que se cruza seu portão de acesso, um mundo exótico de história de sultões, odaliscas e eunucos se abre, um manancial de paisagens para fotógrafos e observadores se revela, inspirações para criadores de contos se instalam nas mentes brilhantes ou não. Mesmo com a multidão de turistas, viaja-se no tempo, tanto melhor e mais rapidamente quanto maior a abstração do olhador. Só não é possível sentir os odores do passado, mas lembrarmos deles, perfumes e fragrâncias que ali eram usados, porque para o islã, o perfume tem grande importância e na sociedade otomana não era exceção, tanto que no museu do palácio expõe-se uma coleção de queimadores de incenso. De resto, todos os sentidos vão-se estimulando à medida que se caminha por ali.

Há três portas: Imperial, da Saudação e da Felicidade. Entramos pela Bâb-ı Humayun[1], ou Porta Imperial, entrada principal do lado da Hagia Sophia quando se faz a caminhada por trás do templo, desde o Hipódromo, pela Soğukçeşme Sokağı, a Rua da Fonte Fria. Saindo dela, chega-se ao largo onde domina a Fonte de Ahmet III,arquitetonicamente uma estrutura em estilo rococó turco, de 1728 – quando caracterizavam-se pela predominância de linhas circulares, ondulantes e curvas – no estilo do período tulipa, assim chamado ao emprego profuso da flor nacional nas ornamentações.

Depois de caminhar pelo primeiro pátio, chega-se ao Portão Ortakapi, ou Portão das Saudações, ou, ainda, Bab-üs Selam, de arquitetura militar, com duas grandes torres defensivas octogonais que também serviam de prisão, além de ameias e seteiras, que liga ao segundo pátio – Divan Meydani – também bastante arborizado com árvores centenárias. Construído pelo Sultão Süleiman, o Magnífico, em 1524, também é ornamentado com sua tugra[2] e uma placa com caligrafia árabe, cuja inscrição diz “Só existe um Deus e seu Profeta é Maomé”.

Topkapi é um grande complexo em duas partes, uma cidade dentro de outra: a primeira, o Enderun, lugar onde viviam o sultão e a nobreza; a outra, o Birun, onde residiam os empregados. Situado entre parques e jardins agradáveis, sombreados e bem cuidados, construído quando Constantinopla tornou-se otomana e o sultão Mehmed II, ou Maomé II, passou a chamá-la Istambul e ali instalou seu exército. Logo começaram as construções de monumentos na cidade, como o Grande Bazar e o Palácio Topkapi – no qual vários sultões otomanos viveram entre os séculos 15 e 19 – além da primeira mesquita imperial de otomana, a Mesquita de Fatih.

Logo à esquerda, já cruzado o portão, há um bonito alpendre oriental com lojas de lembranças turísticas de Istambul e do palácio. A seguir, a Cozinha do Palácio, minha parte preferida do complexo, à direita do segundo pátio. A falta de interesse pela cozinha monumental, todavia, faz boa parte dos visitantes que pouco ou nada perderam, embora os 20 fornos e tudo mais sejam um ponto a não perdes, maravilha arquitetônica com respeitável coleção de cerâmicas de Iznik, da Pérsica, da China e do Japão, a terceira maior do mundo, com cerca de 12 mil peças, entre elas algumas chinesas da época da Rota da Seda.

No espaço a ficava a despensa, trabalhavam 1200 pessoas, dormiam os empregados, frequentavam uma mesquita exclusiva e tinham seus próprios banhos. Segundo a história, eram preparadas cerca de 20 mil refeições por dia. Até uma confeitaria exclusiva, a helvahane, onde hoje guardam-se e expõem-se os utensílios usados na época, onde seus especialistas aprimoravam todos os dias as receitas novas e antigas para torná-las perfeitas para a corte e os janízaros, a elite do exército dos sultões otomanos, força, criada pelo sultão Murade I, constituída por crianças cristãs capturadas em batalha e levadas como escravas para serem convertidas ao Islã. Deve-se ao esplendor do palácio e sem harém o pouco caso que se dá à cozinha. Por certo ali, naquela cozinha, desenvolveram-se grandes receitas da comida otomana, embora hoje, na cidade, moderninhos restaurantes “gourmet” exagerem nas receitas influências estrangeiras, notadamente indianas, mexicanas, chinesas, tailandesas e mediterrâneas, em fusões preparadas e inventadas em restaurantes trendy ou, segundo tradução literal, famosinhos, nos quais não se servem sequer um simples Börek. Mas há dos chefs que mantiveram-se longe da sedução da nova cozinha e da fama, que embora perfeitos, dizem os espertos, não têm pretensões glamurosas. Mas deixemos por aqui as considerações gastronômicas, porque estamos a falar de Topkapi, não da comida turca, que mereceria o maior e mais saboroso capítulo desta série.

Muros, pátios, jardins, pavilhões, banhos turcos, harém, tesouros, cozinha e alojamentos militares, abrigavam escravos, opulência, intrigas, traições, comemorações de vitórias, banquetes extravagantes e o harém, cujos cômodos têm tetos e paredes ornados por belos azulejos de Iznik. E ali, o Pátio dos Eunucos Negros. Entre os lugares a não se deixar de ver, estão o Quiosque do Sultão Ahmet, o Pátio das Concubinas,o dos Consortes do Sultão,a Câmara Privada de Murat III e o Apartamento do príncipe herdeiro,os Pavilhões Gêmeos, o Salão Imperial, a Sala de Jantar de Ahmet III, a Biblioteca de Ahmet III, o Pavilhão Iftariye, o Pavilhão Bagdá, o Trono de Nadir Shah, o Salão de Audiências, a Fonte Ahmet III, a Igreja de Hagia lrene, o Pavilhão da Circuncisão, o Jardim das Tulipas, o Divan-I Hümayun e o Tesouro – onde se guardam as joias – especialmente a famosa adaga Topkapi, cravejada com pedras preciosas e um gigantesco diamante de 86 quilates, o Diamante Kaşıkçı, roupas reais e relíquias como fios da barba do profeta Maomé, entre outros.  

O harém mais famoso do mundo

Harém, segundo dicionários, significa o conjunto de aposentos pecaminosos independentes, no palácio de um sultão muçulmano, destinado à habitação de um grupo de mulheres constituído por concubinas, parentes femininas, criadas e, eventualmente, esposas. Naquela época, as mulheres do harém eram “importadas” dos cantos mais remotos do planeta, algumas capturados por piratas turcos, um flagelo dos mares Egeu, Jônico e Adriático. O lugar era bem protegido, sagrado e proibido aos homens, exceto filhos das concubinas e ao sultão. Os que se permitem ali para trabalharem são castrados, tornam-se eunucos. É, talvez, o maior exemplo de dominação masculina revestido de orientalismo que tanto alimentou o imaginário coletivo ocidental, impulsionando fantasias de mulheres luxuriantes, odaliscas sensuais em roupas de sedas transparentes, da luxúria de moças banhando-se nuas em piscinas coletivas enquanto outras dançavam à espera do chamado do sultão. Junto com elas, como chefe do harém – ou valide – vivia ninguém menos que a sogra, mãe do marido coletivo. Segundo o Corão, cada homem pode ter até quatro mulheres, mas as elites tinham número bem maior.

Na mentalidade no serralho, compartilhar a cama do sultão era visto como grande honra e privilégio, por isso, o harém era um lugar de ciúme, tramas e conspirações. Havia hierarquia entre as mulheres no harém. A coisa era organizada. Primeiro, a valide, logo baixo as kadin – quatro esposas dispostas por ordem de preferência -, abaixo destas ficavam doze ikbals, ou favoritas e, por fim, as gozde, que formavam uma espécie de fila de candidatas a ikbals. Por fim, concubinas sem posto e odaliscas, literalmente escravas, serventes do harém. Não é difícil imaginar conspirações, golpes e envenenamentos, pois qualquer mulher escrava sabia que poderia se tornar poderosa se desse à luz um príncipe herdeiro, portanto, não bastava ser bonita e satisfazer sexualmente ao sultão, mas também ser inteligente e ter dom político. Pode-se, então, resumir que um harém era uma prisão familiar. Todavia, foram esses poderes, conspirações e tramas que alimentaram a decadência do império otomano.

Paga-se ingresso extra para visitar os aposentos e pátios do harém, onde moravam mulheres estrangeiras, pois o Islã proibia a escravização de muçulmanas, muitas das quais chegavam ali ainda meninas, compradas ou recebidas como presentes. Ensinavam-se aspectos da cultura islâmica, o idioma turco, alguns costumes, comportamento, vestuário, dança e música. As que se destacavam serviam mais próximas ao sultão. Além de centenas de mulheres, também residiam seus filhos, até os 16 anos de idade, e todos recebiam a melhor educação, sendo que alguns trabalhavam para ajuda nas finanças do palácio.

Os mosaicos do Palácio Topkapi

Toda a cidade de Istambul tem patrimônios otomanos decorados com lindos azulejos de Iznik, E por toda a cidade encontram-se réplicas baratas de azulejos que há séculos revestem-nos. O intrincado processo de produção dos azulejos originais, bem mais complexo do que o artesanato barato disponível como suvenir, represenra uma rica herança cultural. A qualidade e a tradição, para além da beleza, fizeram de Iznik, onde a arte floresceu durante o domínio dos otomanos, famosa no mundo, quando no final do século XV, artesãos locais substituíram o tradicional barro por quartzo na confecção das cerâmicas, uma técnica inovadora que proporcionava uma base branca brilhante que destacava as quatro cores tradicionais encontradas nas peças de Iznik: turquesa, cobalto, malaquita e coral, cobertas por uma espessa camada de esmalte transparente. Os sultões otomanos gostaram do novo visual e logo o requintado çini passou a ser usado como adorno em revestimentos de espaços públicos e importantes edifícios em Istambul, incluindo a residência principal do império, o Palácio Topkapi, para além de mesquitas, madraças e túmulos. A cerâmica de Iznik desperto também o interesse dos mercadores genoveses e venezianos, e a arte durou cerca de cem anos. Com o declínio do Império Otomano, perdeu sua proteção e praticamente desapareceu no final do século XVII. Hoje, as peças originais de Iznik estão em leilões de arte e museus em todo o mundo, incluindo o Louvre e o Smithsonian.

A pequena cidade de Iznik, às margens do Lago Iznik, fica a razoável distância de balsa e de minibus de Istambul, uma boa escapada de um dia para quem tem tempo de visitá-la, onde iniciativas particulares fazem renascer a arte tradicional e ressuscitar o processo de fabricação de cerâmica, como a Fundação Iznik, localizada fora das muralhas romanas que ainda circundam parcialmente a cidade, onde o visitante pode ter um vislumbre de como é feita a cerâmica. Em Sultanahmet, além de no Kapalıçarşı (Grande Bazar), há uma loja da Iznik Classics, na Utangaç Sk. No:13 Cankurtaran Mh., 34122 Fatih, com peças genuínas confeccionadas em cerâmica.

Çini (pronuncia-se “tchi-ni”) é a palavra turca para nomear “mosaico turco”. Feitos de azulejos cerâmicos decorados com motivos florais, remontam ao século X e tornaram-se populares. Os mosaicos do palácio Topkapi estão entre os melhores exemplos desta arte decorativa, onde encontram-se centenas de metros quadrados de paredes recobertas por eles. Mas há três destaques nos quais vale concentrar atenção.

No Divan-I Hümayun, por exemplo, ou pavilhão do Conselho Imperial, construído em 1529 durante o reinado de Süleyman I (Süleyman, o Magnífico), um dos lugares mais importantes do palácio, porque era o gabinete do Império Otomano e ali eram tomadas as decisões políticas do império, há mosaicos de Iznik do século XVI, com motivos florais em azul, vermelho e verde sobre fundo branco, usando uma técnica denominada underglaze, onde a decoração era aplicada à superfície cerâmica antes de ser esmaltada, razão porque torna-se mais durável.

Já os da Câmara de Petições, ou Arz Odasi, construída durante o reinado de Mehmet II (Mehmet, o Conquistador), em 1460, um compartimento privado do sultão, onde por mais de quatro séculos os sultões otomanos receberam embaixadores estrangeiros e funcionários do Estado no salão, especialmente no rodapé da porta de entrada, há dois ladrilhos quadrados no estilo hatayi em fundo azul-marinho com figuras florais de bordas grossas. Suas cores também são únicas, já que a de fundo, azul-marinho e verde, são dominantes nesses dois quadrados. Em ambos os lados da porta há longos painéis de mosaicos sobre fundo azul com desenhos em estilo Rumi, painéis com bordas com fundo verde e figuras florais muito ricas. São únicos.No Harém, há um salão onde funcionava o Tribunal dos Eunucos Negros, ou  Kara Ağalar Taşlığı, com várias salas e espaços públicos, um pátio, dormitório e mesquita, lugares decorados com mosaicos de Iznik do século XVII, com técnica de submersão, com motivos de flores como tulipas, cravos e caligrafia de rumi, além de folhas de cipreste.

Próximo capítulo
A Cisterna de Yerebatan


[1] Humayun foi Pai de Akbar, o Grande, homem do clã de Babur e bisneto de Tamerlão, o fundador de Samarkanda, Uzbequistão, que estabeleceu o Império Mogol. Construído pelo Sultão Mehmed II, o Conquistador, este portão tem uma inscrição em árabe que diz “Com a graça e o assentimento de Deus, com o objetivo de estabelecer a paz e a tranquilidade”, além de versículos do Alcorão, cuja beleza do trabalho artístico da caligrafia merece atenção, assim como as tugras,o selo, a assinatura do sultão, usado na autenticação de documentos oficiais e no cunho de moedas, bem como nas entradas de palácios e monumentos.

[2] O símbolo mais notável da autoridade do sultão otomano era sua tuğra imperial (cifra), afixada em todos os documentos oficiais.

TURQUIA – Bom dia,Istambul! A primeira manhã

Sobrevoo Sultanahmet com um olhar à deriva. Avisto a cidade assim do alto e o desejo de descer é imediato, de caminhar por sua parte mais entranhada de histórias, pela qual apaixonar-me foi incontornável. Lá embaixo, de onde assisto a metrópole entrar em ação desde o terraço do nosso hotelzinho, ela me desperta os mesmos impulsos desbravadores de sempre. Nosso kahvalti – o desjejum turco – embora não com pressa, é breve, sem delongas descartáveis. A rua nos chama, embora o yogurt seja apreciável devagar na boca, dos melhores do mundo, imperdível e saboreado com suspiros. Já o café, não tanto. É fraco, não tem o poder de me despertar. Ao menos não como o muezzin o fez antes das cinco da manhã. Neste começo de primeiro dia na cidade, o Sol me chama, e creio que ninguém ali duvide que tenha claridade especial. Minha ansiedade faz parecer que o tempo corra mais rápido do que no relógio, e que o astro rei – que vai tão bem naquele começo de manhã – parece mesmo destinar um brilho ainda maior à cidade.

Saímos e bastou-me colocar os pés na calçada para começar a sentir os efeitos da notável atmosfera istambulesa já interferindo na razão: muito embora tão familiar, parecia ser a primeira vez que estava ali. A despeito de a mente saber que o que vejo é conhecido, me parece novo. É uma sensação desconcertante que dura uns segundos e, ao fim, me faz parecer Istambul mais uma ficção literária do que uma realidade turística. Logo que a mente para de me pregar peças, restabelecida minha percepção do presente, a reação psicológica – ainda que fugaz e breve que lembrou-me um dejá vu – chama-se, ao contrário, jamais vu (do francês, “jamais visto”), quando sentimos que algo familiar aparenta ser desconhecido. Curiosíssima e desconsertante manifestação cerebral.

Recuperados os sentidos, encerrados os rodopios da mente, como se um espírito dervixes me tivesse possuído, volto ao modo “normal” assim que saímos dos domínios da estreita rua onde se esconde nosso hotelzinho. Tão logo se descortina Constantinopla, sinto o prazer de derrubar as ilusões e perceber as coisas como são. não como as imagino. Preocupo-me e ligo minhas intenções na namorada, a fim de que Istambul lhe assegure o entusiasmo que reserva a mim, algo que justifica esse meu eterno desejo de retornar. Sinto-me bem, contudo, mesmo parecendo um estreante, a despeito de que uma pequena parte da minha vida eu tenha me deliciado passando nesta cidade. Meu olhar, agora, não é mais saudoso, e selamos este primeiro momento assim, como amigos que se abraçam no reencontro.

Já se foi a Primavera, mas ainda há flores. Os canteiros de Istambul estão, como sempre, incrivelmente bem cuidados. Mas já não há mais as tulipas, minhas flores prediletas, que em abril somam 20 milhões de florescidas, especialmente nos parques Emirgan e Gülhane. As liliáceas, que muitos pensam terem sido originadas na Holanda, têm a Turquia como terra-mãe, e os canteiros e jardins da cidade, que se encheram delas e de todas as cores, agora enfeitam-se de azaleias e de outras, revelam o gosto da gente turca pelas flores, uma herança otomana, de expressão artística, algo que me torna ainda maior admirador da cidade e fã de sua gente, como se já não me bastasse o patrimônio soberbo.

Nada de correria. Uma viagem, por melhor que faça à mente, também é desgaste físico. E estamos no Verão. Precisamos nos cuidar e o fizemos. Com uma agenda bem cuidada e planejada, temos tempo bastante para conhecer além do elementar. E se até aqui nos trouxeram o avião e o táxi, deste ponto em diante nossos pés o farão na maior parte. Bondes, ônibus, barcos e taxis – aqui e ali, ocasionalmente – ao menos enquanto os pés não se cansarem. Recorreremos, vez por outra, ao auxílio eficaz do sistema de transportes públicos de Istambul, não apenas porque sejam o melhor jeito de vencermos distâncias maiores, também porque, de certa forma, são atrações turísticas adicionais, notadamente os trams e os ferries. Bem calçados com macios sapatos, vestidos com roupas leves e carregados de pouco peso, com o corpo e a mente livres de descartáveis, estamos aqui para o que der e vier. Sobretudo para andar. Andar e andar é nossa proposta nestas três noites de um lado, mais três no outro do Chifre de Ouro, em Taksim. E embora o clichê maior de Istambul – “Onde a Europa encontra o Oriente” – seja tão verdadeiro quanto redutivo, que seja o Estreito de Bósforo que corta a cidade e a situa em dois continentes, o Chifre de Ouro o divide apenas em duas partes europeias.

Sultanahmet, o bairro do Sultão

Ponto de partida de qualquer visitante, vive sob um enxame de turistas. Não tem o chique-moderno de Beyoglu, mas é um tesouro de antiguidades. Fica numa península que já foi terreno da Nova Roma de Constantino, de Bizâncio e da otomana Istambul. Do império bizantino ao otomano, a distância cronológica é grande, mas na Praça Sultanahmet, podem-se medir em metros. Frente a frente, estão Hagia Sofia e a Mesquita Azul e, no meio, o que resta do Hipódromo: os obeliscos egípcios. Ao redor, muitas outras preciosidades dispersas nas ruas ou abrigadas em museus e, para além, entre mais importantes preciosidades, estão o Palácio Topkapi, as mesquitas Süleymaniye e o Grande Bazar, então, não há melhor lugar para a cidade “acontecer” para o visitante.

O Hipódromo é lugar que já não existe, mas foi centro desportivo e cultural na era de Constantino, o imperador romano. Era imensa arena esportiva criada por Septimus Severus e ampliada no quarto século para acomodar até 100.000 espectadores. Nela havia grandes estátuas dos mesmos cavalos de bronze que agora decoram a igreja de São Marcos, em Veneza, saqueados pelos cruzados. E também os Obeliscos egípcio, altos como lhes convém, que merecem uma olhada cuidadosa, sobretudo para os hieróglifos esculpidos em baixo relevo, atestando atestam sua origem e contando parte da história do lugar. Foi Teodósio, o Grande, quem os transportou até ali no fim do século IV.

Faziam parte do Templo de Karnak, em Luxor, no Egito. Teodósio colocou-os num pedestal de mármore esculpido com cenas do imperador e sua família assistindo às corridas do antigo hipódromo, depois de trazidos por barcos particulares desde a Alexandria, através do Nilo, e por um navio a remo construído especialmente para seu transporte a Constantinopla. A Coluna da Serpente, que retrata três delas entrelaçadas, feita em bronze, foi trazida do Templo de Apolo, em Delfos, na Grécia. O resto que havia ali e não foi saqueado, virou peça do Museu Arqueológico de Istambul, ao lado esquerdo da praça, de quem está de frente para o Bósforo.

Outro monumento, mais recente, na mesma praça, mais adiante, é do ano 1900, chama-se Fonte Alemã, ou Alman Çeşmesi, e foi presente do imperador alemão Wilhelm IIà cidade, dois anos após sua visita. Feita na Alemanha, foi transportada em peças para Istambul e instalada ali, nas proximidades da Mesquita Azul.

Embora a praça seja território de um abundante patrimônio, deixaremos para depois a Yerebatan Sarayi – ou Cisterna Bizantina -, a Sultanahmet Camii – ou Mesquita Azul -, a Aya Sofia – ou Basílica de Santa Sofia -, o Museu Arqueológico, os Banhos de Roxelana, um hamam do século XVI – projeto do arquiteto Sinan, batizado com o nome  da esposa de Solimão, o Magnífico -, a Porta Sublime, o Pavilhão Alay, o Parque Gülhane e a Mesquita Zeynep Sultan.

Nosso destino agora é o Palácio Topkapi. Saímos da praça seguindo pela Soğukçeşme Sokağı – ou Rua da Fonte Fria – com suas casas de madeira, típicas da era otomana, uma pequena parte do passado de Istambul do século XIX, com fachadas de madeira otomanas, treliças e sacadas em prédios de dois andares, alguns convertidos à modernidade – como hotéis boutique, cafés, restaurantes, escritórios e livrarias -, contudo, ainda, um oásis de calma rodeado de efervescência turística, um caminho delicioso que dura pouco até chegar ao imenso pátio diante do Topkapi. Um pequeno desvio leva à Madraça Caferağa – ou Cafer Ağa – antes de chegar ao Parque Gulhane. Construída em 1559, durante o reinado do Sultão Süleyman – o Magnífico, a madraça foi um dos projetos do arquiteto Mimar Sinan, o mais importante do Império Otomano. No seu pátio, encontram-se cafés, lojas de artesanato e uma escola de artes, caligrafia, música, desenho, pintura e porcelana.Um busto de bronze sob um pedestal de pedra nos apresenta Sinan, o arquiteto.

Agora o Sol não mais espreita, mas incide e dói nos olhos. Embora aqueça, não desconforta, é gentil assim entre as copas de árvores, mesmo anunciando que em breve convidará a paradas sombreadas para café e água. Avista-se um azul maculado por poluição, todavia, mas um céu que parece reverenciar a nós, turistas. O percurso também é pontuado por gatos, figuras perpétuas e abundantes na cidade, em nosso caminho ao palácio. Passeamos relaxadamente, mas com objetivo e sentido, como observadores atentos, pois como disse Cecília Meireles em suas Crônicas de Viagem – Viajar é ir mirando o caminho, vivendo-o em toda a sua extensão e, se possível, em toda a sua profundidade, também. Pisamos no chão de ruas saturadas por 16 séculos de história, de uma cidade que serviu de capital a quatro impérios – o romano, o bizantino, latino e o otomano, este último, entre 1453 e 1922 – com histórias em cada esquina, desde um capitel romano a uma igreja bizantina, de um palácio otomano a um museu com inesperado conteúdo, de uma fonte a uma mesquita.

Chegamos à entrada do primeiro pátio do Palácio Topkapi, um grande largo na entrada do palácio, defronte à Porta Imperial – ou Porta Sublime, ou, ainda, Bab-I Hümayün – onde se expunham as cabeças dos inimigos sumariamente decapitados. O que aconteceu na sequência precisa de um capítulo exclusivo, então, volto para contar (tão certo quanto retornarei a Istambul).

Saindo da mesquita, voltamos à praça, pegamos o Tram (VLT) na estação Sultanahmet e descemos na estação Gulhane. Dali, caminhamos pela rua Alemdar Cadesi[1] em direção ao Palácio Topkapi, passando diante da Porta Sublime, ou Bab al-Ali, um grande portal ornamental com um telhado projetando-se além das empenas da construção, em estilo rococó, que antigamente levava diretamente ao escritório do Grão Vizir, onde a partir do meio do século XVII em diante, a maioria dos negócios do império se realizavam e o sultão recebia embaixadores, tanto para credenciais quanto para reuniões protocolares e recepções no palácio.

Continuamos a caminhada pela rua Alemdar Cadesi em direção ao Palácio Topkapi e passamos antes defronte ao Alay Köşkü, o Quiosque da Procissão, em frente à Porta Sublime, construído em ângulo com o muro do palácio, um grande gazebo poligonal, de cujas janelas de treliça o sultão observava as idas e vindas no palácio e da rua e usado pelos sultões para receberem a saudação dos janízaros[2] que passavam por ali em desfile. O quiosque é de 1819, quando foi reconstruído pelo sultão Mahmut II.

Caminhamos em direção à Fonte do Sultão Ahmet III, na grande praça defronte ao Portão Imperial do Palácio Topkapi,ou Bâb-ı Humayun[3], construído por Mehmed II, com uma concepção artística otomana carregada de realeza e simbolismos, onde em seus dois nichos laterais eram expostas as cabeças de inimigos decapitados.

A seguir: O Palácio Topkapi


[1]  Cadesi é “rua”, em turco. Então, rua Cadesi é redundância.

[2] Os janízeros eram uma tropa de elite do exército otomano, uma força criada pelo sultão Murade I, constituída de crianças cristãs capturadas em batalha, levadas como escravas para Constantinopla, a fim de serem convertidas ao Islã e formadas como militares.

[3] A propósito do nome Humayun, ele é familiar, não me soa tão estranho, mesmo estando na Turquia, embora me remeta à Índia, para onde uma viagem para terminada havia seis meses mantinha a memória fresca: do clã de Babur, bisneto de Tamerlão, quem fundou Samarkanda, no Uzbequistão, e estabeleceu o Império Mogol. Humayun, pai de Akbar, o Grande, e melhor imperador da Índia. Quando se sabe um pouco da história e geografia, o portão toma um valor ainda maior, para além de sua beleza. Construído pelo Sultão Mehmed II, o Conquistador, uma inscrição em árabe diz o seguinte: “Com a graça e o assentimento de Deus, com o objetivo de estabelecer a paz e a tranquilidade”, além de versículos do Alcorão, inscrição tão importante quanto a beleza do trabalho artístico da caligrafia, quanto o significado dos versos. Há também tugras,um selo do sultão, como uma assinatura usada na autenticação de documentos oficiais e cunho de moedas, assim como nos palácios e monumentos.