Merhaba,Istambul! [1]

Mesquita Firuz Ağa

Allāhu Akbar, Allāhu Akbar, Allāhu Akbar… A madrugada mal se torna manhã, mas já ouço o som do almuadem[2] entoando o azan[3]. O pregão monocórdico desce do minarete da mesquita Firuz Ağa, do outro lado da rua. Apesar de pequena, é de 1491, um belo pequeno edifício elegante, que apesar de rodeado de espetaculares atrações bem mais notáveis, é dos poucos exemplos de mesquita do período “pré-clássico” otomano em Istambul. Sem cerimônia, o canto me desperta e faz virar na cama com um suspiro. Consulto o relógio: são 4:45 da manhã.

Embora não mais me surpreenda, pelo menos não como o fez na primeira vez, quando o ouví em Damasco, na Síria, e quase perdi a respiração, ainda me inspira. Seu soar num ponto entre a melancolia e o exotismo, carente de humor, ainda me agrada muitíssimo, contudo. Não imagino mais um homem gritando lá do alto do minarete o “vinde à oração”, pois sei que o chamado agora já não tem mais esta extravagância, que tornou-se elétrico, feito de dentro da mesquita, por um microfone e fios que levam a voz do muezzin até os alto-falantes instalados nas varandas das torres.

Meu sono durou o tempo que dura uma noite, e muito embora o sol ainda seja uma promessa que vem do Japão, que o quarto esteja escuro, penso em levantar-me. Reflito se fui feliz na escolha do lugar, se ele não me levará ao arrependimento, ainda que toda a cidade acorde com o eco de centenas de outros chamados antes da metrópole entrar em ação, de tornar-se a Istambul inquieta, nervosa, espetacular e atraente.

Oficialmente, a tênue luz que começa a tirar Istambul das sombras promete chegar plena daqui a uma hora, às 5:39, segundo informa o aplicativo do celular. Levanto-me com alguma disposição e vou à janela. Abro as cortinas que ainda vedam ao quarto a luz do Verão, embora nessas horas costume ser o estômago quem me ordena aprontar-me sem delongas. O desjejum é quem me chama, contudo, a mente e os olhos comandam o corpo como se atendessem ao chamado, não das orações, senão ao das ruas.

A incrível vista do quarto

O muezzin encerra o canto e o que avisto pela janela é um mero quadrado de janelas a três metros de distância, do espaço livre encaixotado dentro da edificação em toda a sua altura, destinado a garantir iluminação e ventilação aos quartos, já que não dão para a rua Vejo paredes mal acabadas, tubos, fios, chaminés, parabólicas desgastadas, parapeitos sujos e mal cuidados por onde cômodos mal peneirados por suas cortinas, outros sem elas, me permitem vislumbrar seus interiores sem vida. Alguns parecem escritórios, outros residências. Não curto este voyerismo inadequado e quase me envergonho dele, mas a curiosidade naqueles cômodos é mais forte. Recolho-me, contudo, temendo que um vizinho apareça e perceba minha afronta invasiva, e ele não estaria errado. Prefiro aprofundar-me na preparação do dia em vez de deter-me naquele espaço sem história e sem vida, janelas que sequer uma nesga de rua permitem. Mesmo sendo tão desconcertante o cenário, eu o fotografo com mera intenção de reportagem, de mostrá-lo aqui ao leitor. Enquanto penso nas palavras para descrevê-lo, imagino o que diria um versado em arte arquitetônica diante daquele prisma, mas o estômago se manifesta e demonstra saber que existe algo melhor a aproveitar do que aquela vista.

Ela ainda dorme e o quarto é tão pequeno que não há clima nem espaço para escrever, senão apenas para evoluir entre a cama e o banheiro. Resolvo deitar-me novamente e penso no que escreveria, se pudesse, mas a mente parece um túmulo. Olho fixamente para o teto e dispendo algum esforço derradeiro, antes da desistência, na tentativa de arrancar do cérebro alguma inspiração, mas a janela afetou-me a criatividade e minhas fontes de inspiração, além do que, a hora, convenhamos, não é favorável. O tema não é banal, contudo não consigo evoluir para nada mais que “Depois de doze horas e meia de excitação e de uma noite mal dormida no avião, chegamos bem no recém-inaugurado, espetacular maior aeroporto do mundo”. Envergonho-me da pincelada de primeira mão no que pretendo dizer nesta introdução e decido abandonar o tema. Começo então a pensar em Istambul, na bela cidade, no que viveremos aqui durante cindo dias nesta minha quinta visita. E, que, muito embora bastante familiar, será sempre maior sua capacidade de encantar-me, mais ainda que a minha de expressar-me sobre ela. É tão sedutora quanto fa primeira vez que cheguei aqui e descobri esta periferia do Oriente, esquina da Europa com a Ásia. É lugar que temo descrever como não merece, com superficialidades e desperdício de palavras. Istambul, esta eterna em sua irredutível potência histórica e patrimonial, precisa de que muito mais seja dito do que os velhos e cansados clichês como “Onde o Oriente encontra o Ocidente”, ou “Onde a Ásia encontra a Europa”.

Continuo a “anotar” na memória o que consigo arrancar do meu vazio de ideias, embora a vontade seja que uma vastidão de pensamentos jorre descontroladamente do cérebro. Registro o que é elegível para um futuro texto, mais para não me esquecer da chegada e de outras coisas que temo perder quando me dedicar a escrever. Sinto o cérebro faiscando e “escrevo” nele como se preenchesse cartões postais no balcão de uma agência dos correios. Era assim que eu fazia no século passado, antes da invenção da Internet e dos e mails, durante minha versão mais jovem de viajante, mesmo sabendo que chegariam ao destino depois de mim. Era um prazer, contudo, e eu não deixava de experimentá-lo. O tempo passou um bocado, mas permanece minha urgência de escrever e de fotografar, parceria que evoluiu desde os postais para este blog.

Saio da cama e começo o preparo para o dia. Sinto-me bem, vivo um dos melhores momentos de minha vida e estou em Istambul, o que me parece bastar. “Estamos juntos, em Istambul, é o que importa.”, penso em dizer-lhe, mas ela ainda não despertou.

Começa a esquentar a manhã e lembro-me de minha primeira vez na cidade. Foi no século passado, bem antes de Erdoğan, dos atentados com morte, das bombas, dos golpes fracassados, das oposições reprimidas, de jornalistas assassinados e das contra-pressões ao islamismo. O frio me açoitava a pele, a paisagem era sombria, o dia parecia noite, se bem me recordo, uma chocante contraposição aos dias luminosos que nos esperam. A neve cobria de branco a cidade e tornava-a quase da mesma cor do céu, de um cinza tenebroso. Dizem que raramente neva em Istambul, mas era assim que ela estava, o que hoje encaro como um privilégio, ainda que o Inverno não seja minha estação predileta para as viagens, mesmo que em muitos sítios ela proporcione um charme especial. Mas se eu pudesse escolher, se não fossem as possibilidades determinando as épocas em que viajo, viajaria apenas na Primavera, ainda mais a Istambul, quando ela se cobre de tulipas, a temperatura é um doce e tudo mais é ameno. Também já estive no Ramadã, período sagrado para os muçulmanos, quando entram em jejum de alimentos e líquidos entre o nascer e o pôr do sol de um dia. Foi bom ter passado por diferentes experiências na cidade, das nevascas ao Kurban Bayrami – a Festa do Sacrifício – um dos feriados islâmicos mais antigos na Turquia, celebrado durante os 4 dias de minha segunda visita à cidade. Neste evento, no primeiro dia os homens vão à mesquita para uma oração especial, logo de manhã cedo, e oferecem o sacrifício de um carneiro. A matança dos animais, generalizada, espalhada pela cidade, era chocante de assistir, e estava presente nas ruas, terraços de prédios e praças públicas. Não havia como ignorá-las, exceto fechando os olhos. Hoje, contudo, os turcos preferem fazer doações para a caridade ao invés de sacrificarem os animais. Deixo as memórias de lado com o som da cidade começando a encher as ruas e entrando no pequeno quarto.

Sultanahmet Meydane, a praça

Ouço o esganiçado pio das gaivotas e os primeiros sons da cidade, vozes e ruídos do bonde da rua defronte. Doze milhões habitam a urbe, em números oficiais, mas que suspeito não terem sido bem contados. É a humanidade preenchendo os espaços terrestres e, neste pedaço, começando a circular até tornarem uma das mais febris cidades que conheço. Estamos às portas da Sultanahmet Meydane, a praça que dá nome ao bairro, e a cerca de 200 metros a pé do que há de melhor do patrimônio histórico de Istambul. Quantos tesouros à vista e subterrâneos nos esperam! Penso nisso com entusiasmo e que não estamos ali para outra coisa senão sair às ruas já então começando a ficar meio pervertidas por nós, turistas e seus mesmos desejos de corromperem-se pelo mesmo ato devasso: “turistar”.

Enquanto me arrumo para o primeiro dia desta viagem, a namorada também. Ela é cúmplice de Istambul, embora não a conheça, mas traz de suas raízes o desejo de tomar Istambul para si, tal qual eu o fiz: “Istambul, a minha cidade!”. Sua vontade foi compartilhada comigo a certa altura. Disse-me ela: Tenho paixão por conhecer Istambul. Eu lhe respondi prontamente: Ora, só se for comigo!, e ali mesmo comecei a planejar a viagem à Turquia. Ela, surpresa, fez-me um olhar e explicou: Não é de hoje que desejo conhecer Istambul. É sonho que custou a se realizar, mas foi bom esperar para conhecê-la contigo. Contei-lhe (provavelmente pela terceira vez), minha história com Istambul e admiração que tenho por ela. Disse-lhe que embora a conhecesse até pelos cheiros, ainda me emocionava como a primeira vez. Os pensamentos me tomaram, tal qual ...um rio subterrâneo…, segundo Fernando Pessoa. Percebi novamente que viajar é bom, mas antes bem acompanhado do que só. E que nada se compara a viver, a ser feliz e a celebrar a vida. Preferivelmente em Istambul.

Prontos, subimos ao terraço. Diferentemente da vista do apartamento, é um verdadeiro camarote situado no último andar do hotelzinho. O céu já é azul, embora num tom ainda vago, mas parece prometer aumentar na intensidade. Vejo a rua, a praça e os bondes, árvores e minaretes. Os sons já são plenos, a urbe está acordada e penso (apenas penso) já sentir seus odores e que, a despeito de minha insignificância diante de sua tamanha grandiosidade, de meu enorme afeto e admiração por Istambul, ela parece me retribuir com generosidade especial, como se a mim ela observasse, não o contrário, como se eu e a cidade das sete colinas consolidássemos uma relação madura. A capital de impérios quase tão antiga quanto a civilização, esse esplendor que guarda patrimônios das velhas Bizâncio e de Constantinopla.

Avisto, rendido, a imagem dos telhados de Sultanahmet e os minaretes quase roçarem o parapeito do lado esquerdo do terraço. Fixo os olhos nos maiores e mais distantes, da Mesquita Azul e da Santa Sofia, incrivelmente altos, esguios, assim como suas cúpulas, todos desafiando a gravidade. Não são mais tão escuros quanto à noite, e parecem agora de prata, mas sempre pontiagudos, espetando o céu como lápis bem apontados. Parecem me indicar direções, não as do Paraíso, pois ainda é cedo para mim, mas os caminhos de um mosaico de paisagens, de histórias de conquistadores e conquistados, de impérios erguidos e desfeitos.

Avisto o mar Negro e o de Mármara também, e de como ligam-se por um estreito braço de mar a que chamam Bósforo, mas largo o suficiente para separar dois continentes, o europeu e o asiático, embora sem diferenças entre si. Agrada-me vê-la começar o dia assim, tão bem e tão cedo, quente e acolhedora, íntima e amiga, e apreciar a gentileza da cidade que agora surge suavemente, colorida, luminosa, cromática, tão diferente da Istambul que Orhan Pamuk – o romancista turco, prêmio Nobel – descreveu como sendo a de sua infância, da cor do chumbo, semiobscura, no estilo das fotografias em preto e branco. O céu vai se azulando nos tons dos azulejos de Ysnik, e neste Verão turco que vai em meio, assim permanecerá nos próximos dias, como uma ode aos seus visitantes.

Istambul. Aqui estamos para a vida real desta cidade, não mais para o sonho de uma viagem planejada e não vivida. Para ouvir cores e cheirar sons, para sentir a sinestesia que ela provoca, a combinatória entre visão, audição, olfato, paladar e tato. E, depois, Capadócia, com Istambul, os dois pilares do turismo na Turquia. E já que a Geórgia fica logo ali, por que não? Afinal, Tbilisi, sua encantadora, pequena capital, dizem ser uma surpresa que não deve deixar de ter um viajante. E, uma vez lá, com a Armênia tão próxima, uma escapada nos chama. Ai, o mundo…

A vista do terraço

Uma brisa delicada sopra do Bósforo. Desejo mais, ir além daquele instante, pôr os pés na rua, ouvir seus sons e misturar-me aos milhares de pessoas, mulheres de véus às cabeças. O vento refresca e carrega o cheiro de maresia. Vem das águas negras do estreito, que fluem do Mar Negro em direção ao de Mármara e, por fim, ao Egeu. Em breve estaremos diante de velhos homens sentados às mesas de casas de chá e narguilé, com um masbaha à mão, o “terço” muçulmano, jogando baralho, comendo, fumando e petiscando meze, o fast food turco. Aliás, come-se a sério nesta cidade. E bebe-se chá. E fuma-se cigarro também. Alguns tomam raki – a bebida alcoólica com sabor de anis, parecida com o ouzo grego, o arak árabe ou o pastis francês -, forte e servida com água misturada, quando fica turva e leitosa, degustada em copos altos e finos e acompanhada de melão e queijo feta. Enquanto fumam, alisam um gato de rua, o bicho nacional da cidade. Não é difícil para um turista procurar qualquer desculpa para trocar um punhado de palavras com alguém assim. Se o tentar, terá sucesso.

Não estamos muito cheios de tarefas, senão eu, carregado do empenho em mostrar o melhor de Istambul à namorada, submetê-la às suas tentações reais, depois da série antecipada de conversas e vídeos preparatórios. Com calma, porque temos cinco dias, que é tempo quase de sobra, e também sem que eu lhe pareça um guia turístico, senão com o desejo pretensioso de parecer-lhe um local. É tempo suficiente para percorrer lugares essenciais, mas escasso para viver a cidade em toda sua potencialidade. A isto chamo “estar” numa cidade, onde embora três dias lhe fariam boa justiça, teriam sido corridos demais. Menos, todavia, um aperitivo, que a cidade não merece e durante o qual poderíamos enjeitar ícones, e mesmo que não, deixar de ver mais do que eles. Nossa estada será em slow motion, mas eu acelerado pelo desejo de não vacilar na intenção de tornar Istambul também a sua cidade. Entregue à missão, poremos os pés descansados a percorrê-la, a senti-la e vê-la, já que por palavras gastei todas as que tinha para lhe impressionar.

A SEGUIR:
Bom dia,Istambul! A primeira manhã


[1] Alô, Istambul!

[2] Almuadem ou muezim é, no islã, o encarregado de anunciar em voz alta, do alto das almádenas (ou minaretes), o momento das cinco preces diárias. O chamamento consiste em proferir a frase Allah hu Akbar (Alá é grande), seguida da chahada, a “profissão de fé” islâmica, através da qual se atesta que “não há outro Deus para além de Alá e Muhammad é o seu profeta”. Esse chamamento (adhan) é entoado de forma melodiosa, sendo necessário que as palavras sejam bem pronunciadas.

[3]azan é a chamada para o salá (oração), feita aos muçulmanos, pelo muezim, a partir do minarete ou do exterior da mesquita, caso esta não possua minarete. Há uma segunda chamada (iqama) que convoca os fiéis a se enfileirarem para o início das orações. Por obrigação (fard), os muçulmanos fazem suas orações cinco vezes por dia. Segundo a tradição, o azan consistia originalmente numa frase simples (“Vinde à oração!”), mas o profeta Muhammad (Maomé) pediu aos seus crentes uma forma de tornar o apelo mais sofisticado. Num sonho, o companheiro Abd Allah ibn Zayd teve a visão de que os crentes deveriam ser chamados de uma forma melodiosa, que é a forma que se impôs. Os muçulmanos oram cinco vezes por dia;isso se aplica ao islamismo sunita, que é praticado na maioria dos países.Por outro lado, no Irã eles praticam o islamismo xiita e, nesse caso, oram três vezes ao dia. O horário de cada um varia de acordo com a época do ano, porque eles têm a ver com o nascer e o pôr do sol.

Os nomes de cada reza (em turco) e horários são definidos conforme a seguir: İmsak, duas horas antes do amanhecer; Güneş, pouco antes do nascer do sol; Öğle, próximo ao meio-dia, no zênite solar; İkindi, à tarde, quando as sombras dos objetos estão do tamanho exato dos objetos; Akşam, no pôr do sol, quando um novo dia se inicia, segundo o calendário Islâmico, e Yatsı à noite, quando a última luz do dia desapareceu.

Allahu Akbar (x 4) “Alá é grande, Alá é grande”; Ashhadu um la ilaha illa Allah (x 2) “Eu declaro que não há nenhum deus além de Allah”; Ashadu anna Muhammadan Rasool Allah (x 2) “Eu testemunho que Muhammad é o mensageiro de Allah”; ‘ala-s-Salah (x 2) Hayya “Vinde à oração”; Hayya’ ala-l-Falah (x 2) “Vinde à salvação”; As-salatu Khayrun Minan-nawm (x 2) “Oração é melhor que dormir”; Allahu Akbar (x 2) “Deus é o maior”; La ilaha illa Allah Não há deus senão Alá”. Obs: A parte que diz “A oração é melhor do que o sono” aplica-se apenas à primeira chamada à oração do dia, antes do amanhecer.

Turquia, Geórgia e Armênia

IntroduçãoA chuva no Rio e o Sol da Turquia

Ouça TRAVELS (de Pat Metheny), enquanto lê

São nove da manhã.  Abril já vai em meio, mas chove como em fevereiro. As águas que deveriam fechar o Verão em março varam o Outono e arrasam a cidade. Tudo com tal força que parecem querer alargar seu período. Eu deveria estar no trabalho, não em casa, mas estou involuntariamente ilhado e preocupado com o aguaceiro e suas consequências. Contudo, a despeito deste Abril de águas a mil, da cidade encharcada e das tragédias previstas, penso no contraponto aos dias ensolarados que nos esperam na Turquia. Em julho, o sol estará a pleno, o céu azul, árido de nuvens naquele lugar onde a Europa encontra a Ásia.

Com naturalidade olho para o mapa-múndi e encontro o ponto onde em breve estaremos.  O cérebro – com força quase física – faz grudar os olhos no planisfério por mais tempo de que preciso.  Observo-o, enquanto tamborilo os dedos na escrivaninha, e renovo o prazer de viajar no mapa sem saber se a mente é quem me usa ou se sou eu quem me satisfaço dela.

Sorrio, feliz, quando noto que o cérebro ainda é uma fortaleza saudável, a despeito da idade. E que guarda as recordações da vida, entre elas as da infância, que recupero agora com emoção. Lembro-me bem de que costumava viajar assim quando moleque, com a imaginação me levando a visitar países deslizando os dedos sobre eles no mapa, e me recordando dos que já “conhecia” – através dos livros e revistas, até em músicas – e dos que sonhava um dia conhecer, percorrendo desse jeito mil caminhos, mundos sem limites ou fronteiras. Então, se sou hoje um pouco do que fui, viajar parece algo unido a mim umbilicalmente e, provavelmente, também escrever e fotografar, se bem me lembro do quanto gostava de fazê-los ainda tão jovem, daqueles prazeres naturais que nasceram comigo, porque nunca alguém me disse que eu tinha que escrever, viajar e fotografar.

Penso agora em Istambul, nesta senhora cidade com muitos séculos de idade, assim como nas vezes em que nela estive. Fazem sete anos desde a última, contudo a cidade ainda vive em mim como se não houvesse o tempo. A sensação de retornar à urbe – que amei logo na primeira visita – tem o mesmo sabor do entusiasmo inaugural, embora pela quinta vez.


A preliminar foi no século passado durante um inverno tenebroso e sob um feriado religioso em que tudo se encerrava. Lúgubre, cinzenta e nada turística. Mesmo assim, quando nos “encontramos”, foi como se ela me dissesse: “quero ficar no seu corpo feito tatuagem…”. Espero jamais esquecer, morrer comigo a lembrança da sucessão de impactos formidáveis que experimentei.

Desta vez, embora já tão familiar, minha volta a Istambul, esta diáspora feliz e desejada à “minha” cidade não de origem, mas como se fosse natal, me revolve a forte correlação emocional entre mim e Istambul. Desta vez, contudo, há motivação muito especial e em prazer encantador: apresentá-la à namorada, guiá-la não mais por seu sonho de conhecer, mas de explorar a cidade pela qual que vim a saber tem forte atração.

Por que sou tão feliz em Istambul? Por que ela me parece tatuada na mente? Às vezes me pergunto se eu seria feliz assim sem tê-la conhecido? Sou outro, tantos anos depois, e não a vejo com o olhar poético de outrora, mas ela ainda é um fermento intelectual e me faz sentir saudades, como as que sinto de Damasco, hoje impossível, contudo, a mais encantadora capital do mundo árabe.

Espero logo o dia chegar para revisitar Istambul, mas que só até ali o tempo passe corrido, e de então em diante, seja lentíssimo, porque tenho apenas uma vida e quero ainda muitas oportunidades de voltar e voltar a Istambul para passear e celebrar a vida. Me apraz pensar que será sempre assim, que verei Istambul com familiaridade, embora sem negligência, e ela não deixando de seduzir, embora eu, ali, seja uma vaga presença.

 Abro as portas da imaginação e despencam da mente as imagens de romãs abertas à metade esperando serem espremidas; de senhores com testas franzidas e copos de raki à mão, concentrados em seus tabuleiros de gamão; de pombos frenéticos incentivados por vendedores de milho; do enorme espaço público defronte à entrada da Mesquita Nova, à beira-mar de Eminönü; das barracas e carrinhos de comida com vendedores à espera de compradores; de copos de chá, folhas de uva recheadas, doces de nozes, kebabs de cordeiro e frango girando no espeto, castanhas defumadas e assadas, sanduíches de peixe laminado; de pequenas ondas salpicando de água salgada as paredes do mar e as balsas o Corno de Ouro; da ponte de Galata e dos pescadores cuidando de suas varas de pesca, olhando por cima o Bósforo correndo em direção à Ásia; de mil minaretes espetando o céu, das meias cúpulas das mesquitas e madraças desenhadas há séculos por Mimar Sinann e, depois,  já na Capadócia, onde nunca estive além do desejo, passar por formações rochosas e cânions surreais, rochas contorcidas, falos rochosos apelidados de “chaminés de fada”, cogumelos gigantes de pedra em vales erodidos, cavernas artificiais com habitações trogloditas e igrejas primitivas em Göreme.

Decido, então, entregar-me ao prazer da escrita. Antes, espio pela janela e enxergo a chuva torrencial intensificar-se. A ventania é de se ouvir e as árvores de se ver tombarem. Nada inspirador. O aguaceiro, contudo, me traz lembranças de viagens chuvosas: doze dias inteiros em Portugal e outros tantos na Andaluzia sob uma chuva renitente. Aparentemente, para muitos, não há diferença entre jornadas ensolaradas ou chuvosas, já que ambas nascem e se desenrolam inspiradas no mesmo propósito, e prosseguem assim, independentemente do clima. Mas como são diferentes! Já eu assim não vejo a mesma beleza nas paisagens sem os raios de sol.

O relógio corre lento e estou longe de fazer as malas, embora pense compulsivamente em escrever o relato desta viagem. Os olhos estão aqui, mas a mente perambula por Istambul enquanto, na impossibilidade de seguir ao trabalho, aceito o ócio como oportunidade. Ponho-me a exercitar o prazer da escrita, já que é dia de não fazer nada e de curtir a falta de tarefas e preocupações. Então, para mim, que aprecio a leitura de relatos de viagens e a escrita, estes foram os motivos acidentais para tornar-me um escritor.

Claro que já tive problemas com minhas veleidades criativas e meus bloqueios intelectuais. Ao escrever hoje, sou mais resiliente, percebo que “Lutar com palavras é a luta mais vã…”, como disse Drumond de Andrade. Mas tenho paixão por elas, e sei que meu problema não se encontra nelas, senão em meus limites intelectuais e culturais. O esforço, já deve ter notado o leitor que me acompanha há mais de uma década, vem com a colheita de benefícios do exercício: ter escrito quatro livros, os quais espero publicar um dia, algumas crônicas e artigos para meu blog e noutros sítios na Internet, além de duas matérias para uma revista de viagens, com a busca do prazer, que cresce na medida em que o aprendizado avança. Foi assim comigo, razão porque reescrevi cinco vezes meu primeiro livro – “Bom dia, Addis. Adeus, Etiópia” – até o ponto em que especialistas o considerassem publicável. Mas continuo tendo inveja – saudável, é claro – dos escritores de verdade. Ela é quem aumenta o apetite pela leitura de relatos de viagens.

Estou no escritório de minha morada sentado diante do notebook. Cercado de livros, estantes, guias de viagens e recordações. Arrumo-os com capricho, fazendo cenários com os livros e objetos a eles e aos destinos relacionados. É meu espaço, minha mala de sonhos de viagens, de todas que um dia foram imaginadas e muitas que tornaram-se realidade. Há muito por trás dessas coisas. São uma ponte para o passado, tanto quanto um impulso para o futuro.

Me rodeiam dois pequenos globos terrestres, blocos de anotações, uma caneca com lápis e canetas que apanhei de hotéis no mundo, um abajur réplica de um Tiffany e um relógio bem moderno com termômetro. Estes dois últimos são os únicos bens que não se relacionam com as viagens. Decoram e servem. No mapa-múndi, acima dos olhos, pinos marcam 65 países. Olho para alguns mais detidamente e me lembro das experiências vividas em cada qual. Não coleciono países, contudo, muito me apraz contar os que já estive e revisitei. A câmera fotográfica também fica por aqui. Vejo-a desgastada por anos de uso, com cicatrizes dos maus tratos por que passou e com marcas de fricção e atrito. Com ela, eu trouxe para casa milhares de pedaços de muitos destinos, souvenirs fotográficos que revelam tanto a minha curiosidade quanto meu jeito de olhar, e hoje ilustram meus livros, este blog e minhas redes sociais. Entregam-me boas lembranças todas estas coisas e, já que ilhado estou, sento-me sabendo que escreverei.

Há tempos eu não passava uma manhã de segunda em casa. Uma segunda só minha, contemplando com olhar ora vago, ora penetrante, todos os objetos com os quais estou familiarizado. Viajando nas minhas memórias e nessas coisas carregadas de significados e lembranças, vão elas praticando suas verdades. Já não sou mais aquele moleque sentado à janela de minha casa, por onde eu imaginava o mundo e assistia a vida passar, no entanto, olho para trás e sinto o mesmo prazer quando imagino uma viagem e posso ir além, viajar sem estar na jornada. Contudo, pensar no passado é bom, mas tem muito mais charme olhar a vida à frente.

Começo a ler e a escrever sobre uma jornada sempre antes de iniciá-la, e quase sempre o faço no mesmo ambiente de casa, neste meu museu pessoal de viagens, onde cada coisa ou peça exposta funciona como nota de um lugar, inspira-me e torna o ambiente perfeito ao propósito de descrevê-las e planejá-las. Escrevo agora a introdução a este relato de viagem, cujo estilo – já conhece o leitor frequente, mas não o que aqui vem ler-me pela primeira vez – não é o de contar como foram os hotéis, quanto custaram os preços de ingressos, mostrar meu look do dia, fazer-me parecer mais importante que o destino, nem horários de funcionamento das atrações, a menos que estejam inseridos no contexto de relato. Claro que fico ao dispor de eventuais consultas neste sentido, e com prazer, mas guias turísticos já há de montão e espetaculares. Relatos de viagens é que são poucos.

Ouço Travels, obra-prima composta e tocada por Pat Metheny usando uma guitarra elétrica semi-acústica. Dá-me inspiração, ao contrário de sempre, quando a obstinação e a paciência têm predominado no meu ato de escrever. Talvez depois eu ouça Rapsódia Húngara, de Franz Liszt, como costumava fazer com meu pai, enquanto lia na sala de casa e ficávamos os dois sequestrados, ele pela leitura, eu pela música. E assim, nesta toada sentimental de boas lembranças, nesta área íntima de minha casa, lugar onde melhor se desnuda minha mente e sem qualquer vergonha que a intimidade permite, onde transito no tempo e sinto brotar do território físico as primeiras imagens e lembranças imateriais dos lugares onde estive, as paisagens e experiências que a memória descarrega adquirem outra perspectiva, findam por dar origem às palavras com que conto minhas micro-histórias de viagens.

Agora – sobre esta à Turquia e ao Cáucaso – Istambul é só um pretexto para o texto introdutório, porque minha vontade é de fazer um livro inteiro, do prefácio ao epílogo. E se há tantos lugares no mundo entre os que me apraz descrever, Istambul, cidade à qual regresso sempre como se fosse a primeira vez, está entre as primeiras. E se eu não fosse o que sou, teria me tornado escritor, passaria aqui todos os dias a fazer o que faço com tal prazer: planejar uma viagem e escrever sobre ela.

 Julho chegará e seis meses de planejamento, economia e preparação para a viagem terão se passado. As malas estarão prontas e também a cabeça. Este relato, que resulta desta viagem a Istambul, é uma revisão da cidade, onde estive a primeira vez em Março de 2000. Nada mais pretendo que refletir sua atmosfera incomparável, embora saiba que mal conseguirei arranhar a superfície do intento, senão mostrar um vislumbre de séculos de culturas e história, rabiscar sua  silhueta majestosa. Sinto nova emoção, não apenas a de revê-la, mas mostrá-la à namorada, com a qual, juntos, passaremos muitas horas em cinco dias vagando pela cidade, explorando seus bairros históricos e capturando seus traços mais notáveis e particulares. Com este relato, presto meu singelo tributo a Istambul.

A seguirCapítulo 1 – Merhaba, Istambul! [1]

[1] Alô, Istambul!

Jodhpur. Onde foi parar o azul?

No centro velho da cidade, a Torre do Relógio da Praça Sardar é um marco, e além de mostrar as horas com precisão britânica, o belo relógio espia do alto um labirinto de ruas estreitas, calmas e surpreendentemente alheias à efervescência vulcânica ao redor da torre que o abriga. A cidade se espalha para além dali, mas todo mundo parece morar naquele quadrado, porque é mesmo extraordinário, porque todos querem ficar por ali numa agitação que nunca termina.

A Praça Sardar

Protéticos, barbeiros, costureiros e vendedores instalados na praça aguardam com paciência indiana por seus clientes. Mulheres também, talvez em maior número, a maioria sentada no chão, vendendo roupas coloridas amontoadas em pequenas pilhas sobre lonas encardidas. Bancas de frutas e frituras nos convidam a saborosas, mas imprudentes experiências gustativas. Ela – a torre e seu relógio inglês -, além das ruas e das pessoas que a circundam, é vigiada mais distante pela imponente, altiva fortaleza de Mehrangarh, que soberba no alto da colina, a tudo regula.

A fortaleza de Mehrangarh, soberba, no alto da colina

Enquanto circulo e observo, cruzo com olhares bons e curiosos, interesseiros ou interessantes. Mulheres cintilam em saris coloridos, emprestam a graça e leveza que falta ao energético espaço. Homens conduzem e buzinam motonetas que parecem prestes a se desfazerem. As vacas – aqueles animais-divindade que na India, muito embora não frequentem cultos ou templos, têm-se como sagradas – ficam ali, ao Shiva dará, deitadas ou caminhando sem destino e sem que ninguém as importunem, tal como é próprio aos seres sagrados.

Olhares bons e curiosos, interesseiros ou interessantes

Cães maduros e filhotes serelepes andam entre tuk-tuks, ambulantes, pedestres, desocupados, carregadores, pedintes e mendigos. Se não me escapa nada ou ninguém, é o grupo de coisas e seres que passam ou ficam na praça, aperfeiçoando o que na Índia chamamos “bagunça”, mas que o tempo e a boa observação nos faz perceber lógica, fundamento, princípio e ordem.

A cacofonia de sons – alguns decifráveis, outros não – e a inquietação da Praça Sardar de Jodhpur podem até consumir a estabilidade mental dos visitantes, mas tudo o que se vê, se ouve, cheira, toca e experimenta é precisamente o que faz valer uma viagem ao país. Estas experiências – de contemplação ou participação – tornam a Índia este destino tão fabuloso, para além do que já encanta seu patrimônio cultural e arquitetônico. Se ainda não o tiver percebido até então, será ali, na Praça Sardar de Jodhpur, que o visitante verá consumadas todas as verdades e clichês que ouviu do país, tudo aquilo que lhe pareça tão verdadeiro quanto seu oposto, e tão confirmável quanto enganoso.

Misturam cores, do rosa ao verde, do verde ao vermelho, do laranja ao amarelo

Aquela, decididamente, é uma vida não nos pertence, mas quase podemos a senti-la como nossa. É como se houvesse um princípio ativo oculto no ar. Ele entra pelas narinas, chega aos pulmões e, depois, pela corrente sanguínea, termina no cérebro. Então, como num estado alterado de consciência, dura pouco mas consagra-se num êxtase e nos marca como cicatriz. Johdpur é mais que uma cidade que merece ser vista e terem contadas as experiências nela vividas; é para jamais esquecer. Então, como me apraz agora escrever!

Quanto melhor o envolvimento, maior o desgaste. Mas o cansaço mental, às vezes até exaustão, de alguma maneira é compensado. Os contrastes entre beleza e pobreza são invasivos, e por certo hão de ferir a sensibilidade do observador, já que antes atingem a dignidade humana. Chegam mesmo a magoar, entristecer e marcar o observador, mas são efeitos que passam, ainda que não se esqueçam. São como ferimentos que um dia doeram, mas viraram cicatrizes: não doem mais, mas lembram ter doído. E quando o coração parece cansado, o que os olhos enxergam desperta o ânimo novamente. E se chorar é natural para os mais sensíveis, sentir as lágrimas discretas e silenciosas correndo sob os olhos é parte da experiência. Ao final, entre mortos e feridos, salvamo-nos todos e, então, a Índia torna-se uma droga que depois da abstinência apela ao regresso.

Fotografo tudo com intensidade fora do comum e sinto o calor do processador da câmera esquentar a palma de minha mão. Desligo-a. Enquanto ela e meu cérebro esfriam, entramos no modo “repouso”. Deixo-me à contemplação dos pombos, que em bando agitados tiram rasantes de minha cabeça. Acompanho suas evoluções como se buscasse nelas uma tranquilidade reparadora. Volto à Terra e percebo que não teria sido tão perfeita a visita à cidade sem que tivesse vivido aqueles exaustivos, tortuosos momentos na Praça Sardar, a o lugar mais exuberante de vida em Jodhpur.

Preciso trocar dólares, digo a Gajraj, nosso guia .

Ele nos leva a uma pequena loja de chás, massalas e incensos, com a melhor variedade da cidade, especialmente o pimentão vermelho de Mathaniya e darjeelings embalados a vácuo.

O proprietário é um dos melhores cambistas da cidade, nos diz o guia.  

O sol já anuncia sua ida para o Japão quando peço para retornar à torre. Subimos quatro ou cinco degraus que levam ao seu embasamento e depois ao topo, onde chegamos ao relógio para ver seu mecanismo. Desde este plano inicial, ligeiramente elevado em relação ao da praça, assisto à vida indiana passar e compreendo ainda melhor a lógica de seu movimento enquanto os sons que misturam vozes com ruídos da rua enchem os ouvidos.

A Torre do Relógio, ou Ghanta Ghar

Construída pelo marajá Sardar Singh, é uma parte importante da história da cidade. Tem alguma beleza e atrai seu desenho, a arquitetura distinta. Cabe um olhar cuidadoso neste marco da cidade, ponto turístico que não atrai turistas, já que nenhum estava por ali disposto a pagar algumas rúpias para subir suas estreitas escadas, talvez desconfiados de sua estabilidade. No topo, conhecemos o Sr. Mohammad, homem que cuida do mecanismo e mostra como as coisas funcionam por ali.  O espaço é apertado, mas a experiência e o mecanismo do relógio valem a pena, muito embora a melhor atração seja mesmo o Sr. Mohammad. Ele e seu filho são, atualmente, as duas únicas pessoas que sabem fazer o relógio funcionar.

Um passeio pelo Summer Market e pelo Sadar Market de Johdpur

O enigma clássico indiano que emana das ruas das cidades do Rajastão confunde e enfeitiça quanto mais nos aprofundamos em seus cenários. Da praça para as vias escondidas por trás dela, os caminhos são uma sucessão de surpresas, de encontros e experiências. Arquitetura, arte, cultura, comida e gente, tudo tem o carisma especial que só se encontra na Índia.

Uma série de bazares especializados por tipos de mercadorias vendem de salwar kameez a móveis, de roupas de casamento e artesanato a calçados, de bordados, tecidos, marionetes e especiarias a alimentos, joias, brocados e pashminas, mais leite e queijo, chá, tâmaras, implementos agrícolas, frutas, verduras, legumes, produtos de beleza, flores, óleos e perfumes, especiarias, jelabi, comida e chai. cada qual tem seu nome: Sojati Gate Market, Nai Sarak, Mochi Bazaar, Kapraa Bazaar, Summer Market, Sarafa Bazaar. É preciso algum preparo para explorá-los, especialmente a companhia de um guia, pois são um emaranhado de becos antigos e movimento que confunde.

Uma loja de fantoches rajastanis me atrai especialmente. Os bonecos têm grandes olhos e roupas brilhantes, ficam pendurados por cordinhas à espera de alguém para lhes embalar e dar-lhes vida. Recordo-me das apresentações que já assisti e lembro de seus movimentos. Contam histórias dos tempos mogóis, de batalhas, romances, bravura e baladas. Ao fim da caminhada, paramos para beber um fabuloso lassi de manga com gengibre, cremoso e gelado no ponto certo, o melhor que provamos na Índia. Depois de uma hora numa loja de pashminas, encerramos a exploração dos bazares de Jodhpur.

No “caos feliz”, o Toorji Ka Jhalra, um suntuoso baoli

Ainda que pareça de outro planeta, quase uma insanidade coletiva, desorganizado na aparência, o caos que faz sentido e tem funcionalidade se dissipa assim que nos afastamos da praça e saímos dos mercados. Entramos na rua Tunwar ji ka Jhalra e continuamos por becos, até chegarmos a um grande largo onde fica Toorji Ka Jhalra, um suntuoso baoli escondido num canto da cidade velha. Poucos turistas vão até ali, apesar de seus setecentos anos de idade, intermináveis degraus feitos da mesma pedra dos palácios que conduzem a um abismo, profundo e fascinante, com pavilhões e colunas, que o torna uma preciosidade imperdível, cujo desenho intrigante tem padrão repetitivo e harmonioso. Não resisto à vontade e desço alguns degraus. Não chego à profundeza, onde fica a água verde acumulada, mas sinto o frescor. No Verão e nas monções, jovens mergulham dos degraus mais próximos à água e mulheres recolhem água em cacimbas. Observo e fotógrafo, deslumbrado, satisfeito, verdadeiramente realizado por vê-lo e registrá-lo na câmera.

Baoli Toorji Ka Jhalra

Tornei-me grande fã dos baolis desde a primeira vez que vi um destes. São construções inigualáveis que acredito só existirem na Índia. Quando programamos a viagem, selecionamos três que desejávamos visitar, entre eles o Tooriji ka Jhalra de Jodhpur, cuja lenda diz ter sido construído por uma rainha, embora a história registre que foi pelo Marajá Abhaya Singh, em 1740. Se eu tivesse dom artístico, reproduziria a imagem em rabiscos, a lápis ou em pinceladas molhadas numa aquarela em tons pastel. Registro como sei e posso, com fotos, exercendo o ato criativo que dura apenas um breve momento, o instante relâmpago, o dar e receber durante o tempo suficiente para nivelar a câmera e prender a presa fugaz em numa caixinha[1].

Baoli Toorji Ka Jhalra

Índigo blue, anil, azul. Para onde foi o azul?

Blue city?

Perto do baoli ficam as casas azuis. Eram tantas há alguns anos que deram o apelido à cidade. Diferentes explicações definem o uso da cor, embora pouco importe. Entre elas, a religiosa, pois seus residentes pertenciam à classe brâmane – a mais alta da sociedade hindu – e pintavam suas casas assim para distingui-las das demais.

Shiva também seria um motivo do azul. Afinal, o deus com corpo de homem e cabeça de elefante tem a cara dessa cor. Outra explicação mítica afirma que o fundador da cidade – Rao Jodha – mandou pintar as casas ao redor do forte para que a vista se parecesse com o mar. E por último, mas não menos importante, porque a cor azul protegeria as casas contra mosquitos, além de repelir a insolação, mantendo-as frescas.

Contudo, hoje, o apelido “Cidade Azul” parece inapropriado, pois o “mar” de casas da cor índigo que se estendia por uns dez quilômetros ao longo das muralhas da histórica cidade velha, hoje parece uma poça. O “bairro azul” já não passa de algumas ruas, mas ainda vale procurar por aquelas que insistem em manter o tom quase violeta, de anil, a cor de um dos mais antigos corantes usados pelo homem, cuja história começa exatamente na Índia.




[1] Henri Cartier-Bresson

De volta à Índia – Jaisalmer

  NIK_0815Os  cenotáfios de Bada Bagh, periferia de Jaisalmer

                           ACORDO ao som de pássaros e abro bem os olhos com o sol do deserto. Sua luz entra pela cortina e ilumina o chão do quarto, como se me dissesse “é hora de levantar”. O precursor de todo bom despertar é sempre uma noite bem dormida, então, levanto-me bem disposto e vou à janela de ferro e vidro. Avisto as aves em algazarra disputando algo, talvez sementes, quem sabe, insetos. O arbusto sem frutos encostado no muro de pedra da propriedade é o único tom a contrastar com o monocromatismo do deserto e da cidade. Sinto um cheiro agradável e o nariz não me engana: estou no deserto.

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O Lago Gadisar, Jaisalmer 

                         O calendário acaba de mudar para Janeiro. A viagem começara 4 dias antes em Delhi, mas era em Jaisalmer que eu me sentia em férias, naA última cidade da Índia antes do Paquistão, de uma terra nua e seca do deserto Thar, nosso primeiro destino depois da capital, a adorável urbe consumidora da sanidade dos turistas, das buzinas, do trânsito alucinante, das experiências iguais, dos tuk tuks, do patrimônio fenomenal, das imparáveis multidões e da comida de rua sendo um contraponto notável à silenciosa Jaisalmer.

                         Embora eu já à altura fosse um viajante com alguma experiência, e mesmo tendo estado na Índia duas vezes, não escapei das marcas daqueles dias intensos na frenética capital e das interferências em minha sensibilidade. Contudo, agora, com a areia beirando a janela do quarto do hotel de um só andar, eu me sentia um “descobridor” da Índia.

                         O ar está “limpo” e imóvel, não levanta poeira nem mexe com a copa das árvores. Faz frio e está seco, e a pouca umidade sinto na aspereza da pele das mãos.

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O forte de Jaisalmer

                          Concluo o adorável e fugaz conforto que a janela me proporciona,  ainda que me reserve apenas uma nesga da cidade. Ainda assim, é um convite à exploração e um incentivo às expectativas. A segunda etapa da viagem ganhava novo ritmo a partir dali, com novos horizontes e descobertas por virem. Sabíamos que e mesmo que aparentemente Jaisalmer não se compare à extensão patrimonial de suas concorrentes Jaipur, Johdpur e Udaipur, é cidade de grande personalidade, irrepetível em todo o Rajastão e com boas atrações. Do forte Jaisalmer aos havelis, das fachadas de pedra primorosamente esculpidas, dos cenotáfios de Bada Bagh ao Lago Gadisar, da exploração das ruas e seus mercados e templos jainistas.

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Os templos jainistas

                         Sou então tomado pela vontade de deixar a janela para ver e sentir o que é bom, mau, belo e feio da “Cidade Dourada de Jaisalmer”, clichê com o qual não resisti brincar , o mais usados em blogs, revistas, jornais, livros e afins. Há outros, como “Cidade das Mil e Uma Noites”, “Joia dourada do Rajastão”, contudo, o mais popular é este. Uma pesquisa no Google (“Jaisalmer, a Cidade Dourada”) resulta em 28 primeiros que usam o apelido intitulando suas postagens.[1]

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O bom e o belo: a cidade e seus habitantes

                            Jaisalmer é pequena e acolhedora, tem passado histórico, como todo o país, e em especial o Rajastão, mas particularidades. Desenvolvida em torno do forte, que domina a paisagem do alto da colina, ao entrarmos em suas vias estreitas ela sobressai. Pequena, mas com algo mais a conhecer para além do óbvio. A atração maior, depois do forte, são os havelis Patwon Ki e Nathmal Ki, antigas mansões com fachadas lindamente esculpidas, dois entre os cinco outros construídos num cânion de havelis adoráveis e atmosféricos, um dos lugares mais atraentes e desafiadores para cliques fotográficos.

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No haveli, janela com vista para o forte

Os havelis Patwon Ki e Nathmal Ki

                          O Nathmal Ji Ki Haveli foi residência oficial de um ministro-chefe do rei. Tem uma história interessante, pois foi projetado por dois arquitetos. Para olhares ingênuos, a mansão de vários andares parece uma só, mas quando o guia nos aponta as diferenças, a casa parece assimétrica, ainda que única, com metades singularmente diferentes, todavia sem qualquer linha que limite a partição, com os dois lados carregando diferenças sutis. Diferentemente do Patwon Ki, o Nathmal Ji Ki não é um museu aberto ao público, então, visitantes só podem chegar até o pátio de entrada.

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                         Os dois elefantes de arenito do Nathmal Ji Ki Haveli são representações icônicas das esplêndidas esculturas arquitetônicas de Jaisalmer e do Rajastão. Os havelis, também, dos mais importantes do Rajastão, chegam ao topo da qualidade do desenho e da ornamentação arquitetônica civil, constituindo-se numa forma extraordinária de expressão artística, cujas jharokhas, ou varandas, são obras-primas do trabalho construtivo em arenito amarelo, verdadeiras esculturas em filigranas, perfeitos exemplos da riqueza do artesanato, que apesar de ser em pedra, é fino, elegante e detalhado.

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                         O Patwon Ki Haveli é outro exemplo convincente da  riqueza dos que ali moravam. Construído na primeira metade do século XIX, foi  o maior de Jaisalmer. Guman Chand Patwa, seu proprietário, foi um abastado comerciante à época que encomendou a construção de cinco moradias nos andares do prédio para residirem seus cinco filhos. No interior, pinturas de parede esplêndidas e mosaicos espelhados. Contudo, sua fachada, uma escultura artística em arenito, tornou o haveli um ícone na cidade. Operado pelo governo, é hoje um museu com loja de antiguidades e artesanato.

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Um cânion de havelis

                         Aproximando-nos do haveli, vimos detalhes de suas varandas e fachada. Subimos o haveli por sua escada e outros detalhes intrigantes a ornamentação interior, decorado com pinturas e esculturas. Num nível acima, algumas salas vazias e pequenas janelas e nichos davam vistas para a rua. Apesar de não haver mobiliário e o estado geral não ser dos melhores, foi uma sensação de volta no tempo conhecer a antiga, autêntica mansão desde o interior. No nível mais alto, provavelmente o cômodo principal da residência, grandes janelas dão vistas para o Forte Jaisalmer. Depois, um terraço com uma vista ainda melhor e mais ampla. Descemos as escadas e voltamos ao vestíbulo de entrada, onde um belo pavão dava as boas-vindas aos visitantes.

Pelas ruas de Jaisalmer antiga

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A vaca e o tuk tuk

                        Voltamos à rua e vagamos pela labiríntica rede de vias pequenas da cidade antiga, desde os havelis  Patwon ki Haveli e Nathmal ji k Haveli até a região do Sadar Bazaar, passando por residências, comércio e ruas onde os moradores conversando, por pequenos templos e lojas, vendas e mercados de rua, por vacas passeando e às vezes até entrando nas casas. Apesar de estarmos numa região remota e desértica, a qualidade dos legumes e verduras era boa e surpreendentemente frescos e abundantes. Assim como em todo o Rajastão, vimos muitas lojas com roupas e artigos de casa e artesanais coloridos, de lanches, bolos doces e bebidas indianas, produtos de couro de camelo, antiguidades, bordados, cobertores, xales, tapeçaria, bonecos, caixas de madeira esculpida, lâmpadas de óleo e tecidos de seda e algodão.

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Convite de casamento

                        Os moradores locais acreditam que sendo Jaisalmer uma cidade pequena, onde todos se conhecem, a maneira mais eficiente de divulgar um casamento por acontecer é fazer um grafite diante de sua casa. Muitos comparecerão? Sim. E esta é uma peculiaridade de um casamento à moda indiana, convidar um a todos. Por gerações a tradição vem sendo mantida e preservada, inclusive pelas atuais. Independentemente, há beleza e charme na forma como eles são pintados nas paredes, de modo a terem se consagrado numa forma de arte popular e parte integrante da cultura local.

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Antigas moradias de abastados de Jaisalmer

A serendipitia e a fotografia

                        Entre esses caminhos serpenteantes, com velhas mansões, lojas de doces, de artesanato, mercadinhos, sujeira, vacas, muitas vacas, cães, restos, lixos e pedras no caminho, ruas com raras pessoas, cruzamos com Richard i’Anson[2], um dos maiores fotógrafos de viagens do mundo, do qual sou fã e seguidor no Instagram. Representante da Canon Australia, Canon Master Photographer, Embaixador da Fundação Australiana do Himalaia, membro da World Nomads, Mentor de Bolsa de Fotografia de Viagem da Austrália, um dos fotógrafos dos episódios Tales by Light, da National Geographic Channel no Netflix, diz ele, numa entrevista, que “a Índia está entre os cinco lugares que me fizeram”. Então, ali em Jaisalmer, na “esquina” com o Paquistão, rodeados pelo Deserto Thar, naquela manhã e naquele beco vinha ele em sentido contrário com sua câmera apoiada no ante-braço direito. Demo-nos conta disso segundos depois, e confirmamos a suspeita de que era ele que havíamos visto recolher a bagagem no mesmo voo que o nosso, um dia antes. Corri ao seu encontro e dobrei o mesmo beco em que ele entrara segundos antes.

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Com Mr. Richard i’Anson em Jaisalmer

                       Chamei-o:

Mr. Richard!, Mr. Richard!

                       Ele virou-se, e com a calma e uma simpatia que depois soube lhe ser habitual, ouviu minha apresentação, também com minha câmera à mão:

Sr. Richard, sou brasileiro do Rio de Janeiro, um grande fã e seu seguidor no Instagram, no Facebook, em seu site oficial. Assisti encantado algumas vezes ao seus episódios em Tales by Light. Estamos eu e mais três familiares viajando pela Índia, somos todos apaixonados por fotografia e quero dizer-lhe que é uma honra conhecê-lo.

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O falso sadhu mais famoso da Índia. Uma foto, uns algumas rúpias…

                       Surpreso, disse-me que esteve no Rio de Janeiro fazendo uma matéria sobre o Carnaval e que rodava o mundo fotografando festivais. Perguntei se podíamos fotografá-lo e ele respondeu com um sorriso. Foto feita, tietagem explícita consumada, saímos marcados pela serendiptia. Afinal, não é todo dia que se esbarra com uma personalidade de quem somos fãs, especialmente tão receptiva e simpática. Dali em diante ainda o encontramos acompanhado de sua esposa em duas outras oportunidades. Decidimos não mais abordá-lo nem o olharmos, a fim de evitarmos incômodo.

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Pelas ruas de Jaisalmer

NOTAS:

[1] Desisti de contar os que assim o faziam no corpo do texto, não no título. Que fique claro para o leitor que a cidade tem a mesma a cor do forte do deserto e das pedras de arenito, que “douram” tudo. Tirando, claro, as árvores, o céu, os carros, motos, as pessoas, as vacas e o artesanato, bem como os multicoloridos Ganeshas pintados nas paredes das casas

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De Agra a Jhansi, de trem, pelo Shatabdi Express

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                PARA quem já foi à Índia, e lá tenha sentido despertar uma espiritualidade inquietante, daquelas mesmo, carregadas de todos os estereótipos possíveis de caber numa cabeça, com direito à crença em todos os deuses hindus, tão poderosa que o fez jurar que sua outra vida foi na beira do Ganges, duvido que seja um indivíduo que tenha “visitado” o banheiro público da estação de Agra. Não há espiritualidade ou crença capaz de resistir àquele lugar. Mesmo a indiana. Os contrastes da imensa espiritualidade com a realidade (o sistema de castas e de culpar sempre a mulher no caso de estupros) em parte deve ter nascido ali, no banheiro da estação de Agra.

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              Um turista brasileiro, por exemplo, mesmo o mais crente, desses que acreditam até no PT, em homeopatia, em medicina alternativa, em guru indiano, em ervas curadoras milagrosas, no poder curativo do pensamento positivo, em tarô, búzios, chupa-cabra, numerologia, na previsão de futuro, em quem diz “trago seu amor em três dias” e naquelas “consultas” com astrólogos que acertam tudo de sua vida,  ali reavaliaria suas convicções.

               No país dos sem privada, o banheiro daquela estação é o túmulo de qualquer crença. Nesta e nas vidas passadas. A experiência de visitar o lugar é a mais escatológica que alguém possa ter a “oportunidade” de vivenciar. Depois daquilo, não é de se estranhar que na Índia muitos prefiram “fazer” ao ar livre, que mais de 500 milhões de pessoas naquele país evacuem a céu aberto. Parte delas nos trilhos das ferrovias, especialmente no início da manhã, antes que as multidões circulem.

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                    A Estação Agra Cantt é movimentada, mesmo nas primeiras horas da manhã. Nem tanto naquele domingo, pois não havia multidões nas amplas plataformas, contudo, nunca se está só nestas paragens. Gente sempre tem. E ali, sentada nos bancos e no chão, com ou sem bagagem, ouvindo anúncios de chegadas e partidas, não era a estação exceção à regra. Fazia muito frio. E nós estávamos ali de pé junto aos trilhos, encostados no carrinho com nossas malas quando nos deu vontade de “visitar” o banheiro. Mesmo para nós, que já estávamos em peregrinação turística pela Índia há quinze dias, teoricamente enrijecidos pelas visões de pobreza e sujeira, de toda a sorte de heróis humanos e animais tentando sobreviver, lembro de cada minuto da espera do trem. Íamos para Jhansi, esperando que o banheiro da composição fosse frequentável.

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                    Nós quatro já estávamos um pouco debilitados pela ingestão de algum veneno alimentar intestinal. Dois de nós já tivéramos as tripas reviradas, noites “dormidas” no trono, algo que nem mesmo nossas farmácias de viagem bem abastecidas e as consultas à nossa irmã médica no Brasil deram conta. Os banheiros, nestes casos de indisposição, eram o último lugar onde imaginávamos ir em busca de alívio imediato. Não há novidade nisso, muitos já se falou e não pretendo alongar-me no terma, pois quem já leu qualquer relato de viagem à Índia, sabe que banheiros públicos são o pior lugar para o alívio de diarréias. Que dirá o daquela estação. Fosse descritível seu estado, embora verdadeiramente trágico, eu preferiria “fazer” ao ar livre. Então, é um inconveniente impublicável contar-lhe sobre ele. Gosto de desafios, mas este é inconfrontável.

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                  Minutos depois, já acomodados em nossos poltronas no vagão, fui “visitar” o toalete da composição. Para os padrões indianos, sobretudo para o que havíamos visto na estação, era um paraíso para turistas indispostos em seus tortuosos, mas maravilhosos dias de viagem pela Índia. Limpo e fresco, com duchinha e papel. E não era daqueles com buraco no chão, que alguns chamam de “bacia turca”, o vaso sanitário “embutido” no chão, você tendo que fazer suas necessidades agachado, muito embora seja bastante mais conveniente porque não se precisa ter contato com o local onde outra pessoa sentou antes. Este era com vaso “normal” e perfeitamente frequentável, apesar dos pesares.

                A viagem foi ótima. Chegamos bem em Jhansi, de onde fomos de carro à incrível Orcha e depois à adorável Khajuraho.

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