ÍNDIA, AGRA – O Mausoléu de I’timād-ud-Daulah

Going AheadPat Metheny Works Albun, by Pat Metheny Group

Palavras funcionam, mas às vezes não tanto quanto as imagens. É claro que dependem do poder e da arte de quem as escreve, mas quanto a mim, embora sejam a matéria prima deste blog, nem sempre daqui saem textos que me satisfaçam. Por tal motivo, às vezes recorro aos filmes e às fotografias. Quero dizer, às vezes bem mais do que precisaria delas, e sem as quais não conseguiria ir tão longe. Costumo dizer que histórias bem narradas têm grande valor, mas quando ilustradas, ficam ainda melhores.

De todo modo, qualquer viagem, mesmo escrita por um mestre, perde muito do seu encanto aos olhos de quem a viveu. É possível, com palavras, descrevermos o que vimos e sentimos, mas não creio ser possível fazer alguém chegar a sentir a mesma emoção, causar-lhe o mesmo arrepio e as venturas e desventuras de quem as experimentou. Escrevo sempre com o melhor de mim, não apenas por respeito ao leitor, também por gosto, contudo sem jamais acreditar ser possível fazê-lo vivenciar o mesmo que trago guardado em minha cabeça. Mas ah, como eu adoraria ter o poder fazer isso!

Estávamos em Agra, numa rua a caminho de uma atração secundária, desviando de vacas sagradas, de tuc-tucs apinhados, de bicicletas lentas e respirando ar poluído. Vivendo, enfim, o caos indiano organizado e com sentido, aquela mais absoluta loucura asiática, coisas que só acontecem na Índia que a tornam tão única e peculiar e a convertem numa preciosidade. Desfrutávamos com toda intensidade o momento, e não apenas porque nos agradavam soberbamente suas atrações monumentais, sua arquitetura sublime, seus templos encantadores, palácios e fortalezas notáveis, mas as pessoas e as experiências que essas particularidades nos possibilitavam viver.

Creio que será assim agora, ao tentar descrever minha primeira impressão à vista daquele mausoléu. Seguramente ele seria, em qualquer lugar do mundo, um monumento espetacular, mas ali, situado próximo ao Taj Mahal e ao Forte Vermelho de Agra, tornou-se, inexoravelmente, deles uma eterna sombra.

Não houve empatia nem emoção. Pareceu-me mesmo atarracado, embora luxuoso, um caixote de mármore feito para abrigar algumas tumbas, sem lá muito apreço pelo desenho, embora tanto pela ornamentação. Mas bastou aproximar-me dele para que a crueza do olhar imediato fosse compensada pela atenção de um mais cuidadoso. E era este intencional, que sob silêncio, tornava o objeto observado mais invasivo ao observador. Parado diante de alguns detalhes, como se estivesse acomodando minha visão, lembrei-me de meu prazer de olhar assim, com mais presteza.

Recordo-me até de quando senti-me impulsionado a observar as coisas de tal jeito: foi com a releitura – anos depois da publicação – de uma crônica de Otto Lara Resende – “Vista Cansada” – publicada no jornal Folha de São Paulo em 23 de fevereiro de 1992, em que dizia “…de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo…”. Mais tarde, confirmei a simpatia pelo jeito de olhar com o poeta inglês William Blake, quando em algum lugar afirmou que “Se as portas da percepção estiverem limpas, tudo parecerá ao homem como de fato é…”.

Desde então, tornou-se um exemplo a imitar, o qual tenho me tornado assíduo na prática, evitando os descuidados, para os quais tornei-me vacinado.

Pois bem. Não tem aquele mausoléu – sob qualquer ponto-de-vista – a grandiosidade das obras da Índia mogol que até então havíamos visitado. E isto não o deixaria menor, não fosse a proximidade aos seus irmão gigantes. Contudo, conhecida sua história, observados seus detalhes, torna-se ele um estímulo à exploração mais cuidadosa. Com um olhar mais demorado o observador percebe uma beleza menos ostensiva, então discreta e delicada. E nem tanto pelo desenho, mas pela ornamentação. De tal maneira que a Tumba de I’timād-ud-Daulah – uma atração quase secundária em Agra – torna-se de tal modo, uma curta e agradável visita para qualquer visitante, mesmo o não apreciador da arquitetura mogol.

A “caixa de joias” – como costumam descrevê-la – não tem a glória, o romantismo e talvez nem o amor que inspirou a construção do Taj Mahal. Mas sabendo-se que foi nela que inspirou-se o projetista para desenhar aquele, o símbolo do amor eterno – o Taj, que mais tarde consagrou-se como obra prima da humanidade e uma de suas maravilhas da humanidade – esta pequena caixa toma outro valor.

À beira do rio Yamuna, construído entre 1622 e 1628 num pequeno terreno ladeado por jardins e córregos, muito embora discreta, é obra de grande importância arquitetônica, já que marca a transição entre a primeira fase da arquitetura monumental mogol – em arenito vermelho e com decorações em mármore branco e preto – e sua segunda fase, esta a qual me refiro. Além do mais, foi o primeiro monumento construído inteiramente em mármore branco na Índia, com o qual inaugurou-se o ciclo de construções monumentais baseadas naquele material e também o emprego da técnica de ornamentação denominada pietra dura, usada no Taj Mahal, aquele trabalho magnífico, de inspiração italiana, que consiste na incrustação de pedras semi-preciosas na pedra branca polida.

Sobre uma plataforma de arenito, ele tem este trabalho nos quatro lados e ornamentações islâmicas admiráveis, que muitas vezes atenuam a por vezes severa demais simetria do “caixote”, o que lhe confere grande personalidade, além de beleza e uma aparência muito peculiar.

A entrada para o jardim é feita cruzando-se um portal de arenito vermelho, da fase anterior, de frente para o rio Yamuna. Logo depois o túmulo aparece e domina a paisagem, tirando do visitante toda a sua atenção. Ao aproximar-se, este perceberá que cada milímetro do mármore foi decorado com as incrustações em topázio, lápis-lazúli e ônix, entre outras, cujos motivos ornamentais de origem persa, representam ciprestes, taças de vinho, frutas e vasos de flores, até os afrescos ainda relativamente bem visíveis do interior.

Uma caminhada pelo complexo revela ainda outras pequenas dependências, um jardim e canais de água e a ausência de turistas, algo que me surpreendeu, tal a importância da obra. Ao chegar à margem do Yamuna avistei uma Agra diferente da que até então visitáramos: altas chaminés de tijolos de indústrias hoje desativadas, outrora poluentes, e do rio seco e assoreado, provavelmente também poluído. Foi uma breve visita, contudo da qual trouxemos agradáveis lembranças.

ÍNDIA, AGRA- NA OUTRA MARGEM DO RIO

Cinema Paradiso [Love Theme] by Pat Metheny and Charlie HadenBeyond the Missouri Sky (Short Stories) 1996

Ainda era manhã cedo no Mehtab Bagh. Não mais madrugada, quando estivéramos no Taj Mahal, contudo logo depois disso. Ali, do outro lado do Rio Yamuna tem-se uma vista incomum e a possibilidade de um Taj só para si. E assim foi. Quero dizer, praticamente, pois se bem me recordo, além de nós havia dois felinos pingados, vacas pastando, um bando de pardais e um casal de jovens a quem atrapalhamos o namoro. Sem intenção, mas quebramos – e, pior – talvez irremediavelmente, o encanto daqueles olhares apaixonados, da troca de sorrisos cúmplices e até dos suspiros que atravessavam a cidade. Ignoravam o mausoléu dando-lhe as costas, seu único pecado, é bem verdade. E com justa razão não devem ter feito de nós um bom julgamento, embora apenas eles, os astros e Shiva saberiam dizer o que pensaram de nossa interferência naquele jardim perfeito, em seu momento no único pedaço sossegado, vazio e desocupado de gente e de turistas nas proximidades de Agra. Ainda por cima com vistas para o Taj Mahal, o monumento ao amor eterno.

Os namorados, de costas para o Taj Mahal…

Mas já era tarde, estávamos ali onde nem as buzinas da cidade chegam, embora sim os murmúrios dos turistas lá no belíssimo, icônico mausoléu do amor eterno de Sha Jaham por Mumtaz Mahal. O lugar é simples, embora surpreendente, tanto que dele trouxemos a segunda mais bela recordação de nossa visita do Taj Mahal. Só para nós e o casalzinho.

Do outro lado do rio, como vimos o Taj Mahal…

Seguimos em frente com celeridade em direção ao rio e ao que nos interessava, caminhando por uma aleia rodeada de árvores verdes e bem cuidadas, pequenas e de copas bem aparadas. Chegamos às proximidades da margem do rio e pudemos avistar os contornos, não todos os detalhes, com a nitidez que o céu indiano permite, e o pedestal elevado do mausoléu.

Ainda sob a intensa névoa que marcara aquela manhã, misturada então à poluição atmosférica indiana, o monumento permanecia fabuloso, quase igual ao que eu conhecera antes daquele mesmo ângulo em fotos magníficas vistas na Internet, provavelmente porque eu o avistava não como enxergam os olhos, mas um sentimento..

Do outro lado do rio, como na Internet vimos o Taj Mahal…

O lugar pouco conhecido pertence ao lado B turístico de Agra, é raramente visitado e para ali vão apenas os que procuram além do óbvio e do conforto. Muitos não imaginam a esplêndida vista e as experiências marcantes que se podem viver ali, embora nem seja de fato preciso, pois o Taj Mahal é lindo observado de qualquer ângulo.

Concebido para ser apreciado à luz da lua, o antigo jardim público em estilo indo-persa foi desenhado com base nos quatro jardins do Paraíso do Alcorão. O rio Yamuna, importante afluente do rio Ganges, no Inverno não parece um rio, senão um arroio, e sabendo tratar-se de um caudaloso curso d’água na época das monções, é chocante vê-lo como a cloaca da cidade. Pilhas de lixo às suas margens assoreadas, vez por outra desgarram-se para preguiçosamente seguirem seu curso até a morte num ralo final. Ali já não não se encontra mais a fileira de templos, cujo único restante hoje está à beira a ruína.

À beira do Yamuna, o que restou dos pequenos templos do no o Mehtab Bagh

Enquanto eu observava, tentava conceber o lugar e o rio em seus tempos originais – do imperador e de sua amada – magicamente como os supunha, sob uma atmosfera esplêndida de contos islâmicos, um lugar romântico, encantador, bonito, sereno e apropriado às fantasias.

Curtimos bastante o breve momento que passamos no jardim, mas naquela altura eu só desejava o café da manhã. Retornamos ao hotel para o merecido desjejum de um dia em que despertamos às 5 da manhã para a visita ao Taj Mahal ao nascer do Sol. E ainda havia muito o que visitar em Agra.

Voltamos pelo mesmo caminho e passamos pelo mesmo casal. Observei-os de viés e provavelmente eles a nós. Meu pensamento era um só: de desculpas. “Nos desculpem por termos feito aquele pouquinho de sua vida parar de ter graça, porque só quem não sabe o gosto de namorar, não conhece o prazer de namorar escondido.”

Namastê!

VARANASI – RETRATOS DA VIDA NA CIDADE DA MORTE

Sobre o Ganges, ao anoitecer

Ainda não era noite, mas a natureza pontual já fazia o Sol encostar no horizonte. Enquanto admirávamos o espetáculo, seguíamos escorregando silenciosamente na água leitosa do rio Ganges, no mesmo lugar onde pela manhã víramos o sol nascer. Passávamos por palácios, por templos, escadarias grandiosas e hindus aglomerados em ghats praticando seus rituais sagrados. Já com o céu escuro, chegávamos ao Ghat Manikarnika, o mais sagrado lugar de cremação de toda a Índia, na capital espiritual do país. O fim da tarde havia sido bastante entusiasmante com o passeio a pé pelos becos escondidos da cidade onde muitos passam seus últimos dias, e por onde os corpos são carregados em padiolas em direção ao rio para serem cremados. E embora a experiência neste dia tenha sido intensa, nada se compararia ao que estávamos por experimentar.

Hindus aglomerados em escadarias defronte ao rio em rituais de banho

Estacionamos a dez metros de onde as fogueiras quase nunca cessam, e entre tantas que ardiam, uma esperava por um corpo que acabara de chegar. Envolto em tecido branco, era de um homem, já que em vermelho seria de uma mulher jovem, e em dourado de uma mulher idosa. Ao seu redor, enquanto alguns já ardiam, outros já haviam se tornado cinzas e alguns despejados no Ganges. Cães e vacas circulavam entre eles, como parte natural do ritual.

Deve ter esperado em algum albergue próximo sua vez de morrer, como muitos o fazem na cidade para onde vão os moribundos, contudo, agora, era apenas um corpo que em vida escolheu morrer em Varanasi – algo que um hindu tanto exalta, pois é como pode interromper seu ciclo de reencarnações, o jeito como sua alma encontrará a liberdade definitiva. Teimo em acreditar que mesmo assim não lhe faltassem razões para viver. Contudo, chegara sua hora e, então, de tudo o que lhe aconteceu ou poderia acontecer em vida, já não importava, senão atingir o moksha, a libertação do ciclo de sofrimentos na vida terrena, um dos pilares da fé hindu.

Escorregando silenciosamente sobre a água leitosa do rio sagrado

Fé na morte e fé no rio

Enquanto eu observava as chamas devorando corpos, ouvia ossos e crânios estalando e percebia novos cadáveres chegando sobre padiolas de bambu. Carregadas por membros masculinos da família, o filho mais velho seguindo as tradições coordenava tudo, e nunca aparentava tristeza, embora ali, quem veja cara, não enxergue coração, pois sabe-se que lágrimas atrapalham o desprendimento do espírito. Ele deve encarar tudo com naturalidade, e caminhar três voltas ao redor da pira segurando um feixe de palha embebida em cânfora, assim como jogar pó de sândalo sobre o corpo para amenizar o odor de carne queimada – antes que um dalit acenda os trezentos quilos de madeira para que fogueira queime por três ou quatro horas.

Ouvíamos cânticos em hindi e orações dispersas, enquanto membros da família queimavam incensos. Assistíamos a um funeral, que muito embora não aparentasse ser festivo, também não nos permitia que o presumíssemos sofrido. Parecia mesmo um alívio, um momento auspicioso, algo antes muito esperado.

Na superfície da água a luz de cada fogueira se espelhava, formava rastros compridos e chegava até nós, de tal maneira que pareciam ter a intenção de ligar a terra aos barcos, as cremações aos espectadores. Tingiam a água, os prédios, céu, gente, tudo de dourado. Tornavam o momento no único que eu pudesse considerar poético, e eu via naquilo tanto beleza quanto dignidade, ainda que sob uma atmosfera com energia estranha, intensa, nervosa e lúgubre. Mas o rio brilhava e a cena às vezes parecia de uma tela impressionista, que mesmo sem leveza era repleta de paz e com um silêncio encantador. O frescor também se notava na pele, vinha da superfície do rio, e formava uma bruma que nascia da água e sumia depressa no ar. Nós sentíamos muito frio e nos embrulhávamos do jeito que podíamos.

Permanecemos ali exercendo nosso “voyerismo” crematório, com os olhos pregados, os ouvidos atentos e as respirações inaudíveis, a não ser por um ou outro suspiro. Percebíamos vozes longínquas e esporádicas chegarem até nós. Vinham da terra, mas pareciam de um mundo paralelo e surreal, que embora triste e chocante, era bastante atraente. Não sei dizer se interpretavam nossa presença como uma perversão, ainda que não fosse nossa intenção, que nosso deleite visual era respeitoso, admirável e digno, mesmo sendo um funeral.

Na manhã seguinte, com o dia a Sol raiado, voltamos ao mesmo lugar. A água e o céu tinham outra tonalidade, eram rosados e não havia cremações. O frio, contudo, ainda era bastante inconfortável. Deixamos o barco e caminhamos por trás do ghat de cremação, passando por depósitos de lenha, avistando tudo de outra perspectiva, sobretudo do lugar onde os corpos na noite anterior foram cremados.

Ao mesmo tempo, as ruas paralelas e transversais que conectam a cidade ao Ganges, começavam a se encher de vida, de gente, de animais e crianças, com a proximidade entre vida e morte tornando tudo muito curioso e interessante. Fiz muitas fotos, retratos da vida na cidade da morte, e saí muito marcado dali, como acredito todos nós, sobretudo com o sentimento de que a vida é um enorme conforto, e o que acabáramos de assistir na noite anterior e naquela madrugada e alvorecer, um dos grandes privilégios que ela nos proporcionou. Concluí que há poucos lugares tão crus, tão chocantes e que não fazem questão de esconder suas verdades quanto Varanasi. E que dificilmente uma cidade ocupará um lugar tão marcante em minha vida de viajante pelas experiências que me proporcionou.

Namastê, Varanasi!

NUMA ESTRADA NA ÍNDIA, UM DIA PARA VENERAR

Piano Sonata no. 16 ‘Facile’, K. 545 – II. Andante – Mozart

O motorista sentou-se em silêncio, tomou seu lugar, fechou a porta, ligou o motor e partiu. Era cedo, eu sentia o evidente frescor do Inverno indiano, e na atmosfera, a inconfundível personalidade do Rajastão, mas muito embora os dias na Índia sejam quase sempre imprevisíveis – às vezes também indecifráveis – daquele eu esperava que corresse como eu o imaginara.

Meu olhar grudou-se na janela na rodovia a caminho de Jodhpur. Mergulhado em minha teimosia exploratória, vivia eu o gosto da ânsia de observar tudo, de admirar, contudo sem consumir ou profanar. A van era um exílio, o paraíso de onde confortavelmente avistávamos os sempre presentes dramas humanos do cotidiano indiano. Assim que saímos da cidade e entramos no deserto, ele nos engoliu. E embora com sua serenidade, diferentemente do jeito agressivo das cidades, também com um jeito desordenado e aleatório, revelou um desfile humano de graças e desgraças, de momentos perfeitos e imperfeitos, sublimes e entristecedores, tudo o que sempre todos que visitam a Índia vivem.

Mas ali, no deserto, as pessoas são mais esparsas. Não que sejam diferentes, contudo não se multiplicam como nas cidades, razão porque cativam mais os olhares. As mulheres, por exemplo. Enchem de graça e cor a cor do Deserto Thar, e de prazer os olhos de quem as avista. Vestem-se com tradição, usam ghagras, cholis e odhnis[1] de cores ácidas e intensas. Já os homens, não, bem mais discretamente. Elas carregam feixes ou bacias de água nas cabeças e andam com graça e equilíbrio. Já outras ficam à beira da estrada, aparentemente sem terem o que fazer. Não raramente, também avistam-se aleijados, cegos e toda a sorte de infelicidades que os tornam incapazes, para além de elefantes, camelos, cães sarnentos e magros, vacas, macacos, cabras e outros bichos.

Porque na Índia é assim, às vezes nos arrebata e encanta, emociona e alegra, noutras, faz doer, fere e marca como cicatriz, tal qual aquelas que um dia foram feridas, e que toda vez que as olhamos, percebemos não doerem mais, contudo lembram-nos de terem doído. Foi assim naquele dia. Não dói mais, mas lembro-me ter doído. Tão forte e de tal modo que agradeço à Índia por ter me dado tanto. Graças à vida!

Namastê, Índia!


[1] Ghagra, saia longa bordada e plissada, colorida, estampada, de seda, algodão ou crepe. Kanchli (ou choli ou kurti), vestimenta da parte superior do corpo, colorida e lisa, coladas no corpo. O toque étnico é dado por enfeites como espelhos, miçangas, lantejoulas, corais, conchas e bordados. O odhni, ou chunar, é um pedaço longo de tecido, com 2,5 metros de comprimento e 1,5 de largura, usado como véu, feito em tecido leve e transparente, bordados com contas ou outros enfeites.

ÍNDIA – AGRA. TAJ MAHAL. QUANDO A NÉVOA DEIXAR…

In her family, de Pat Metheny, lançada em 1987, no álbum Still Life (Talking).

Eu já funcionava, mas não o sol. E apesar de tão cedo, fazia muito sentido estarmos ali. Eram cinco da manhã enquanto esperávamos para vê-lo nascer sobre uma das obras mais célebres do mundo, um símbolo de poder e do amor. Mas havia a névoa. E ela nos chegava aos narizes, como se nos avisasse “Não se animem!”

Acabáramos de realizar a proeza, a crueldade de acordarmos às quatro e meia da madrugada para aguardarmos a abertura dos portões do jardim do Taj Mahal, numa fila de perder o rabo de vista. Fila indiana, com parte da multidão que diariamente visita o lugar – cerca de 40 mil turistas -, todos na mesma espera. Embora ansiosos, aparentavam-se enfadonhos. Ou sonolentos, quem sabe. Eu, por exemplo, refletia: “É só ter calma que passa.”

O momento da verdade chegara, afinal, quando passava pouco das seis e abriram-se os portões. Sentíamos frio. E por razões de sobrevivência, também o corpo tremer. Caminhamos com celeridade desnecessária, embora aceitável, pois no fim das contas, o esperado encontro com o túmulo é ainda mais fabuloso sob os primeiros raios da manhã.

Adentramos o imenso jardim enevoado até chegarmos ao Charbagh[1], o grandioso portal de entrada com uma vista inspiradora para o mausoléu. A visita poderia terminar ali e já teria valido. E nem precisa aquele o sol nascer tão caprichosamente, vazando certeiro por uma das janelas do arco. Justamente ali começava o primeiro truque que arquitetos e artesãos do Taj Mahal usaram para arrebatar olhares, tocar corações, marcar mentes: quando o observador se aproxima do portão, o arco emoldura o Taj ao fundo, contudo, o monumento parece incrivelmente próximo e grande, mas bastam poucos passos em sua direção para que diminua seu tamanho, ilusão exatamente oposta à que se espera.

Assim que cruzamos o portal, o Taj apareceu envolto numa névoa tão espessa que embaçava a visão até ao nível do chão. E o tornava um pavão, nada misterioso, mas uma intencional obra com pompa e ostentação, num símbolo maior da glória, da riqueza e esplendor do império mogol. Um luxo impensável para um túmulo, mas uma obra que tornou-se maravilha do mundo. Conta a história do amor do príncipe Shah Jahan pela princesa Mumtaz Mahal. E encanta. Há séculos. E a tantos outros visitantes, poetas, seresteiros, namorados, escritores e fotógrafos que parece fazer a todos acreditarem que amor, amor mesmo, só aquele. E quanto mais o olharmos, mais perfeito nos parecerá.  

Um belo caminho central, cercado por gramados e uma linha de pinheiros cipriotas em ambos os lados, conduz à plataforma elevada e retangular, em cujo topo fica o mausoléu circular. Uma série de fontes de água encantadoras torna a caminhada até a entrada do mausoléu uma experiência memorável.

Distante dele percebe-se uma nova ilusão: embora os minaretes ao redor da tumba pareçam perfeitamente verticais, inclinam-se para fora, de tal modo que proporcionam um certo desconforto visual em relação ao equilíbrio estético. Mas a função proporciona aos pilares a capacidade de tombarem para o lado oposto ao do mausoléu, desintegrando-se sem prejuízo à cripta na eventualidade de um terremoto. Dentro dele, os túmulos de Mumtaz Mahal e Shahjahan, cercados – ou protegidos – por paredes esculpidas em puro mármore branco, artisticamente incrustadas com pedras preciosas, e inscrições do Alcorão nas paredes laterais, dão o toque religioso ao mausoléu.

É fácil entender o porquê de sua magnitude e riqueza: havia tanto dinheiro quanto amor e dor pela perda, condições para a reunião de safiras, ametistas, jades, ágatas, turquezas e lápis-lazulis vindas do Iêmen, do Afeganistão, da China, da Pérsia e do Ceilão, para serem incrustradas em mármore makrana branco extraído no Rajastão. Imaculadamente branco, diga-se. Pedras que através de um trabalho denominado pietra dura[1] revestem todo o mausoléu, num resultado magnífico, especialmente belo se observado à luz do sol nascente. Quando a névoa deixa, claro.

Xá Jahan, o imperador que apaixonou-se à primeira vista por sua futura esposa – Mumtaz Mahal -, e pela qual alimentou um amor obsessivo, perdeu-a aos 38 anos, quando deu à luz seu 14º filho depois de 19 anos de vida conjugal. A história desse amor ,depois da morte de Mumtaz, teve um final trágico: o filho de Shah Jahan – Aurangzeb -, farto dos desvarios do pai, que quase levaram o império à falência, tomou-lhe o trono, o poder e o aprisionou no Forte de Agra, onde permaneceu os últimos 8 anos de sua vida confinado num cômodo com vista para o mausoléu.

A história tornou-se piegas, mas ainda toca. Talvez não tanto quanto a simetria e a qualidade do desenho, quanto os conceitos e o partido arquitetônicos, características que a consagraram como epítome da arquitetura mogol, bem mais que sua função, embora na Índia tantas outras existam com a mesma marca da cultura indo-islâmica.

Então, toda sua histórica vem transcendendo dinastias, indivíduos, poderes e domínios, e quer queiram, quer não, permanecendo tanto uma ode ao amor quanto “Um sonho em mármore, desenhado por fadas e acabado por joalheiros.”[1]


Shah Jahan terminou seus dias aprisionado aqui, no Forte de Agra, confinado num cômodo com vista para o mausoléu

[1] Rabindranath Tagore, conhecido como Gurudev, foi um poeta, romancista, músico e dramaturgo bengali do final do século XIX e início do século XX, que assim definiu o Taj Mahal.

[1] Pietra dura ou pietre dure, chamada de parchin kari no sul da Ásia, é uma técnica de incrustação utilizando pedras coloridas, muito polidas, cortadas em formatos específicos e encaixadas para formar imagens. É considerada uma arte decorativa.

[1] Charbagh (chahār bāgh) é a denominação que se dá ao jardim em estilo persa, cujo layout tem quatro lados didividos por caminhos e por canais de água. Em persa “Chār” significa ‘quatro’ e “bāgh“, ‘jardim’.

ÍNDIA – Fathepur Sikri – Para dizer apenas um pouco

Beyond The Missouri Sky, por Charlie Haden e Pat Metheny

Nesses tempos difíceis, cada um arruma seu jeito de suavizar em si os maus efeitos. Há quem faça exercícios, coma compulsivamente ou não faça nada mesmo, se entregue. Eu ouço música, leio, escrevo e trabalho. Não necessariamente nesta ordem, mas tal qual a fome em dia de apetite, as duas primeiras atividades ligam com voracidade minhas memórias de viagens ao desejo de descrevê-las. Pouco mais de dois anos depois, vivo a força da lembrança de um desses dias marcados feito cicatriz na memória. Dele sinto até os cheiros da chegada a Fatehpur Sikri – antiga capital do império mogol, de beleza espantosa – que tornou-se inapagável em minha mente.

Chegando à pequena cidade, não era, mas o que eu avistava parecia miragem. E como para mim todas as coisas devem ter que fazer sentido, destinei-lhe um olhar não resumido, um ato inconsistente que aquela vista majestosa jamais perdoaria. Ao contrário, o meu era de uma polidez e prudência recompensadas por uma das vistas mais superlativas que eu já experimentara, e de uma beleza e equilíbrio que minha capacidade de descrever inibem. Não era devaneio, senão tão concreta quanto não seria possível às ilusões.

A soberba estrutura de arenito apresentava uma simetria admirável, paredes enormes com esculturas detalhadas. Nenhum de seus espaços aparentava estar mal preenchido. Eu não estava ali para encontrar defeitos e, afinal, não acreditava que houvessem. Tomado pela admiração corri os olhos pelo topo, encerrado com pequenos e grandes chattris, cujas formas e desenhos iguais se repetiam podendo sugerir tédio, mas sequer um deles fora mal colocado, senão demonstravam que não havia qualquer linha se perdido no papel de quem os imaginou. Entre os desenhos geométricos da marcheteria também. Embora aos milhares, nenhum minúsculo pedaço de mármore branco ou preto fora erradamente assentado. E como se não bastasse, arrematava-se o portão por colunas altíssimas, esguias e elegantes, com invejável efeito sobre a observação do espectador. Assim foi minha primeira impressão do fabuloso Buland Darwaza – ou “Portão da Vitória” – de Fatehpur Sikri.

Logo que descemos do micro-ônibus lotado de nós e de outras sardinhas indianas, deparamo-nos com uma obra que me desafiava a razão. Talvez apenas olhares negligentes não experimentassem a sensação de hipnose. Sim, havia gente displicente, não tocada por sua grandeza, que subia os 42 degraus sem olhar para cima ou para a frente. E então, depois da travessia “perigosa” do portão, era engolida pela enorme boca para ser expelida no interior.

Quanto mais eu me aproximava, mais agradável e estimulante se tornava a ideia de reviver a experiência: atravessar pela segunda vez o maior portal do mundo, guarda da ainda mais impressionante cidade abandonada de Fatehpur Sikri.

Para além de elegante e de exemplo eterno da magnífica arquitetura mogol, o monumento é um dos mais representativos da genialidade de Akbar, de tal maneira que chegar novamente ali tornara-se um presente, sobretudo depois de um dia de viagem. Não que o caminho fosse transtorno. Ao contrário, fora de saborear cada quilômetro de retas e curvas, de povoados e descampados entre Jaipur e a “Cidade da Vitória”, mas nada se igualava ao poder daquele portal. Comprometedor de minha razão e equilíbrio, lugar onde toda a Índia mogol parecia caber, embora natural minha admiração, era inesperada a sensação de cruzá-lo para chegar ao imenso pátio interno. Permanecemos mais de uma hora visitando a Jama Masjid, o Buland Darwaza, a Tumba de Salim Chishti, o Diwan-i-am e o Diwan-i-Khas. E para um apreciador da arte e arquitetura, Fatehpur Sikri consagrava-se para mim num local imperdível, cujo estilo hindo-islâmico consagrava-se num conjunto de notáveis exemplos onde se percebem a personalidade do grande imperador.

Nada na Índia é banal, e qualquer visitante estrangeiro perceberá isso bem antes de visitar Fatehpur Sikri. Mas terá sido ali que se reconhecerá ordinário diante de tamanha grandeza. Terminada a visita, em sabia que estivera num lugar fabuloso a menos para conhecer no mundo.

MARROCOS – Eternamente e ainda depois

Concerto para Piano No. 23

Uma manhã de domingo à primavera, um sol magnífico, um dia desses que se podem chamar de “macios”, quando tudo é bom, funciona e cai bem. Lá fora e aqui dentro. Um olhar neutro pela janela e outro para a estante de livros. Neutro, mas não insensível. E embora a abertura esteja hermeticamente fechada ao ar e ruídos, a vista penetra e perde-se dentro de mim e da casa.

A melodia de Mozart toca na caixinha de som e me segue os passos. Enquanto busco um café, ela vai minguando nos ouvidos à medida que me afasto, mas não morre. Volto e olho para o mapa-múndi preso à parede. Detenho-me nele, mais uma vez exercendo o simples, eterno grande prazer de viajar num mapa. Olhando assim, o mundo até me parece pequeno, mas a carta é um vasto mural onde tenho a sensação de que mesmo num vislumbre, encontro mais lugares desejados do que eu daria conta visitar. Perco-me neles e depois aponto o olhar atenciosamente para o Marrocos e nada mais me prende ali. Sento-me à escrivaninha e navego na Internet, tomo as primeiras ondas de nossa road trip pelo país do Magreb[1]. Componho, nas teclas do notebook – e inspirado por Wolfgang – as notas iniciais desta viagem, que mesmo antes de sairmos já gruda em mim.

Meses depois, no escritório, observo pela janela a serra da Tijuca e avisto os extravagantes picos da Pedra da Gávea, da Tijuca e do Bico-de-Papagaio. Reconheço a sorte e o privilégio de ter vistas assim desde minha mesa de trabalho e em casa, de tal maneira que digo sempre: “ah, que sorte essas minhas janelas!” Em breve eu estaria a viajar com quem tanto amo, admiro e aprecio a companhia. Que belo e inspirador motivo para escrever.

Ao meu irmão, cunhada e companheira dedico este post.

Ali e assim continuei a anotar as palavras e frases que acentuavam meu entusiasmo criador para a narrativa desta viagem. Um fragmento do que leio, em especial me atrai: “Não há nada além do vazio, e isso é beleza”[1]. Ditas por Paul Bowles em “O céu que nos protege”, referem-se ao mesmo percurso rodoviário que faríamos entre Casablanca e Marrakech.

Ah, as minhas janelas…

A mente transborda-se de lembranças das minhas outras idas ao Marrocos, imagens descem da memória como água em cachoeira, sinto sensações na pele e prazeres na mente enquanto rememoro cada uma das surpresas sucedidas desde o oceano às dunas, todas tão inesquecíveis e bem marcadas que nem eu imaginava estarem guardadas com tal fidelidade e transparência. Reajo aos estranhos costumes, às cidades modernas com ares europeus, às outras antigas e paradas no tempo, aos tetos de madeira entalhados e delicadamente pintados das madrassas, aos intrincados mosaicos cerâmicos e à natureza, não só a das montanhas do Alto Atlas – com seus picos nevados – mas às da planície do pré-deserto, o Saara[2].

Não me dou conta e já estou às portas dos confins do profundo Marrocos. Vejo-me admirando os palmeirais, avistando camelos sem rumo no deserto, plantações impecáveis de verduras, tudo sob um céu azul pleno e dolorido nos olhos. Não me contenho e sento-me num tapete dentro de uma loja especializada num souk e gosto de deslizar a ponta dos dedos sobre a lã. Depois, chego a sentir o cheiro das especiarias vendidas a granel e o sabor da comida. Foram tantas as vezes que estive no país que minha imaginação já não precisa mais inventar um Marrocos, sua integridade e originalidade estão comigo em tudo: terra, arte, ar, sabor e cheiros.

Vagueio naquelas ruas estreitas, sinuosas, vazias de gentes e vozes

Vagueio por uma rua qualquer, igual às muitas que há no Marrocos. Rua sem fim, estreita, sinuosa, vazia de gentes e de vozes, um cânion de paredes altas chapiscadas e pintadas. Sinto uma inquietação sem propósito, como se ao fim de cada curva um perigo me esperasse. Sem sentido, porque não há nada nem ninguém a me olhar de esguelha por um vidro de janela.

Chamado pela força do Marrocos, movo-me num voo excitante até pousar em Casablanca, não pela primeira vez, mas, ah!…o litoral Atlântico… Dali, o rigor do planejamento segue a longa viagem desde a borda do mar até o pré-deserto. Devo parar ou seguir o curso do imaginário? Não tenho a insensibilidade da apatia, então deixo em aberto o que a mente quiser, porque, afinal, imaginar-me viajando e perder-me por países e lugares, não dar raízes aos desejos e não pertencer sequer a mim costuma ser quase tão bom quanto o viajar de fato. Flanar assim também é viagem. Você que me lê, me entende, sobretudo quando o faço pelo mundo islâmico. Deixo, então, que a fantasia siga seu curso lógico pelos 1.200 km de asfalto até Marrakech. A estrada é boa, um belo contraste entre o preto do asfalto e o ocre da terra. Passo por Rabat, Chefchaouen, Meknes e Fez antes de entrar no pré-Saara. Não fosse o silêncio, eu pensaria já viver cada quilômetro do roteiro, como se já rolasse a vida turístico-mundana, embora a realidade presencial só mesmo em dezembro, quando o inverno chegasse ao Marrocos e a imaginação desse lugar à visita.

Perdendo-me deliciosamente por este pedaço de bom caminho do oriente islâmico, revejo a harmonia dos desenhos ornamentais, da arquitetura árabe, da combinação magistral da geometria com as cores e traços dos mosaicos cerâmicos. Como os admiro! São engenhosas formas que mesmo repetidas não me cansam o olhar. Sua desmesura imensa dão-me sempre o sentimento de que fitá-las é sempre viver o prazer do fascínio, da admiração, seja num estuque, entalhe, mosaico ou grade de ferro.

Nas ruas vejo homens vestidos com gelabas de capuzes pontudos, cuja aparência fazem-nos parecerem sábios místicos da Idade Média, embora gente comum. As mulheres usam lenços coloridos, e sabendo ou não, tornam-se belos contrapontos à sisudez dos cinzas masculinos. Imagino que lá as nossas queridas e insuperáveis companheiras de viagem também não resistirão, haverão de adornarem suas belezas tal qual o jeito marroquino, com belas pashiminas e lenços de seda ou boa lã de camelo e carneiro comprados no frenesi do coração secular do souk de Fez, como se não bastassem as trazidas da Índia um ano antes, em cuja pose “desinteressada” capto com um olhar apaixonado e a lente de minha câmera.

A visita virtual começa pela moderna Casablanca e já antes do passeio inaugural da primeira manhã, me vejo tomando um café espresso na Marilyz Delice, boulangerie e pâtisserie instalada numa loja em bonito prédio no estilo Art déco, bem às portas de nosso hotel. Ora, já não era mais um sonho!, senão a viagem por um Marrocos visível e audível, a realidade transcendendo a imaginação, a magia do início da jornada pela agradável capital à beira do Atlântico, a realidade, a viagem tornando real o sonho.

Em Casablanca, muito embora evoque imagens hollywoodianas do filme homônimo mais romântico de todos os tempos, não se ouve sequer um sussurro do romantismo que o filme sugere. É bem aí que começa o problema para quem procura cenários do filme de Hunphrey Bogart e Ingrid Bergman. Melhor, então, saber que sequer um segundo do filme foi rodado na cidade, tampouco no país, senão todo num estúdio de Hollywood, a 10.000 quilômetros de distância. As lembranças da história de amor passada em Casablanca, contudo, ficaram e ainda inspiram. De fato, há um Rick’s Café na cidade, inspirado no do filme, feito para turistas por uma estrangeira, instalado numa mansão e projetado para lembrar o clássico do cinema de 1942. Dizem que fizeram um bom trabalho, mas não pude constatar, pois embora eu tenha tentado reservar uma mesa para quatro, sequer me deram resposta aos dois e-mails que enviei pelo canal do site.

Ah, o litoral Atlântico…

A avenida marginal litorânea é comprida, larga, clara e bem calçada, tem restaurantes e cafés, espaçados, gente caminhando, simplesmente observando o mar ou assistindo ao pôr do sol. Paramos diante da Mesquita Hassan II, obra de arte arquitetônica monumental à beira do Atlântico e, mais tarde, caminhamos pelo Bairro de Habous – um dos mais antigos da cidade – passando diante do Palácio Real, que não se visita.

O sol foi se pondo e voltamos para o hotel. A noite foi bem dormida. Na manhã seguinte pegamos a estrada em direção a Rabat, e no caminho visitamos, Chellah  – um sítio arqueológico da romana Sala Colônia, necrópole medieval de uma dinastia berbere – além da Kasbah dos Udayas.

Ao meu irmão, cunhada e companheira dedico este post.

[1] O Magreb é a região ocidental do norte do continente africano. A palavra tem origem árabe e significa “onde o Sol se põe”. Países do Magreb: Marrocos, Tunísia, Argélia, Mauritânia, Saara Ocidental (território controlado pelo Marrocos).

[2] Paul Bowles, autor de “O céu que nos protege” (The sheltering sky), levado para o cinema por Bernardo Bertolucci com muita dignidade, em 1990, em algum momento de sua autobiografia.

[3] ODeserto do Saara” é a maior redundância do mundo: ṣaḥārā é a transcrição em alfabeto latino da palavra árabe صحارى, que significa ‘desertos‘. O resultado, se você traduzir, é algo como ‘deserto dos desertos‘, ou simplesmente ‘deserto deserto‘.

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A seguir

Do mar à montanha: Casablanca a Marrakech (com fotos!)

EGITO. Karnak, Luxor e eu

Há canções, momentos e lugares

Sempre e para sempre, uma canção: Always and Forever

Muitas vezes viajei numa música. Acontece, e sempre que acontece é inesperado, as canções entram e asilam-se no coração e na mente. Algumas, até bem mais que melodias, tornam-se relações, e como as cicatrizes, permanecem sempre e para sempre, embora nem todas sejam veículos que carregam momentos e histórias; tenho mesmo muitas que marcam-me simplesmente por sua beleza e harmonia. Assim, desse jeito, sem outra pretensão, vão ficando no corpo feito tatuagem, sem dor, mas com a beleza da naturalidade, a delicadeza de um toque, embora com a profundidade de uma raiz. Não preciso desejo, assim com o elas não de intenção, para que no coração passem a palpitar e na mente a vibrarem, sempre e para sempre, umas levemente, outras arrasadoras, e quando acionadas por gatilhos emocionais ou pelo simples prazer da audição, voltam a emocionar. As mais antigas, em sépia ou preto e branco, as recentes, em multicoloridas lembranças.

São canções e não quaisquer, porque não é provável que no meu espaço mental se abra algum lugar para as cambaleantes, as que deixam apenas rastros ou, nem assim, até coisa nenhuma. Refiro-me às que incompreensivelmente ou com razões infinitas voltam da consciência trazendo fragmentos da minha vida, dando ainda mais beleza à existência. Se eu pudesse, agradeceria a cada um de seus autores, especialmente ao desta melodia – Always and Forevero tema musical escolhido para este post, composta por Pat Metheny e publicada em 1992. Desde então – e já na primeira nota – tornou-se a “minha” canção. Creio que seja uma ode ao amor mas, estou certo, foi feita à luz de uma sensibilidade invejável, um talento talvez superado apenas pela própria emoção do autor. Mais do que uma bela canção que vem marcando alguns dos mais belos momentos de minha vida, tornou-se uma companheira, como se fosse parte de meu destino, melodia que assim como tantos lugares que já visitei, sempre e para sempre me acompanharão na lembrança.

Uma data para não esquecer

Dezembro virou Janeiro e completei mais um ano de vida. Eu e ela. Sessenta e oito anos juntos, feitos um para o outro, falando com igual fluência a mesma língua. Ainda moleque dei-me conta da paixão e lhe propus união eterna. Jamais recebi sua resposta, contudo, persisto – resiliente – para a cada novo aniversário voltar ao pedido. Espero tocar-lhe um dia, que a relevância de minha profunda falta de gosto pela morte supere seu silêncio. Levo a vida, sempre dura – às vezes deliciosa, noutras hedionda – consciente de que vou morrer, não sei o dia, mas será a contragosto e levarei saudades da Bahia. E ainda que a morte não me cafungue a nuca, não ando por aí dando sopa. Ela sabe que seja lá quando for, ficarei tiririca da vida e tomarei as providências cabíveis.

Até aqui fiz minha parte: se existia algo que eu pudesse fazer, foi feito; se não, paciência. E se a morte achar que merece ser bacana comigo, conto com seu derradeiro gesto de boa-vontade: deixe que eu vá sem perceber ou, então, que não seja afoita, senão um tipinho desses impontuais. E se por acaso a sorte resolver estar comigo na hora, que o carreto que leva a gente desta para melhor esteja tão apinhado que eu fique para depois. Mas, quando chegar o irremediável “grande final, o dia do salto mortal”, que eu seja da morte um distante espectador.

Ao completar 68 anos de idade – embora ainda não arraste os pés, nem use bengala – sei que sou idoso, razão porque lembro-me como nunca das palavras do filósofo: “todo velho tem mais apego à vida que as crianças, sai dela com mais má vontade do que os jovens”. Rousseau estava certo. Penso nisso sobretudo aqui na terra dos faraós, que ao contrário de mim, acreditavam poder levar o que adquiriram na vida para depois da morte. Já que não, concentro-me exclusivamente em aproveitar intensamente a vida – “Que nem jacaré tomando conta dos ovos” – como disse o grande e saudoso “filósofo” João Saldanha.

Meu café da manhã foi assim, com estas intensas e arrojadas divagações que, embora estranhas, são de uma pessoa normal. Normal, ainda que não leia Paulo Coelho ou assista novelas. Podem acreditar, eu jamais frequentei a poltrona de um analista. Não sei bem se porque não acredito em psicanálise ou por temer que nunca me concederiam alta. Então, no desjejum, não precisei mais do que uma boa xícara de café forte, matar quem estava querendo terminar comigo – a fome – e refletir sobre a maravilha de viver. Logo a mente se ocupava da vastidão de coisas magníficas que há para se fazer na vida, entre elas, viajar. E, naquele dia, especialmente, o privilégio de conhecer Karnak e Luxor. Assim, após os dois milhões de caminhos que o pensamento tomou até chegarmos à entrada do complexo, meu aniversário já se tornara uma data para não esquecer, e pouco mais tarde, eu combinava a nova idade com a alegria e os prazeres do dia: a visita aos templos com adoráveis companhias.

Karnak e Luxor

Nada de investigações teóricas, de pesquisas históricas profundas ou leituras acadêmicas. Meu conhecimento era bastante básico, mas se resguardava na intenção de enriquecer-se com a prática da observação, vivendo a experiência da visita e o que dissesse o guia. Ambos os complexos me pareciam tão inspiradores, atraentes e fornecedores de experiências que não me dei conta de que marcavam o término de nossa viagem pelo Egito e do bom cruzeiro pelo Nilo. Nos ocupariam o dia com descobertas que jamais poderíamos supor, mesmo que antes as imaginássemos extraordinários.

Todos os turistas que faltaram aos outros sítios encontravam-se ali, agrupados ou dispersos, mas como em nenhum outro lugar no país. Nem mesmo nos espetaculares Museu do Cairo ou nas Pirâmides de Gizé. Na margem do grande Nilo, e cercada como sempre por deserto, Luxor é uma das grandes cidades da região, tem cerca de meio milhão de habitantes vivendo junto a um dos maiores museus ao ar livre do planeta. O sítio arqueológico remonta aos anos 3.200 a.C., embora apenas na 11ª dinastia tenha crescido ao ponto de tornar-se cidade. Igual a tudo ao longo do Nilo, é nas proximidades de suas águas que tudo acontece, cresce e prospera.

Há lugares que nem sempre correspondem às expectativas, e entre o que se espera e a realidade, alguns podem desapontar. No meu caso, para a felicidade deste otimista, encontrei muito maior número das boas e bem correspondidas expectativas do que o contrário, com o enorme complexo honrando a posição de destaque que ocupa no patrimônio faraônico, selando nossa visita com o sentimento de ter valido a pena tanta espera por visitar o Egito.

Logo à sua entrada, uma longa avenida ladeada por 1.350 esfinges conectava os dois templos, e depois uma nova rua, semelhante na aparência, embora menor e mais estreita, tinha igual impacto visual, conduzia ao indescritível conjunto, à fabulosa sucessão de pilons, obeliscos, estátuas, colunas, avenidas, ruas, templos e esfinges.

O encerramento da jornada foi sob um anoitecer encantador, como se não bastasse estarmos num dos mais belos templos egípcios. O som de um muezin numa mesquita vizinha fechava com chave faraônica de ouro nossa experiência memorável, selava com louvor a reputação do lugar, já bastante salientes.

Percebi, então, que os pensamentos matinais foram parte de um jogo da mente, um teste no qual ela pula de coisa em coisa até ter-me feito perceber o importante: o proveito que tiramos dela. E embora este relato seja de uma visita ao enorme templo da morte, à vida – a minha grande companheira de todas as horas – dedico estas mal traçadas linhas.

Deixo aqui o leitor sem mais palavras, com imagens dos adoráveis templos de Luxor e Karnak, lugares que hoje pertencem à parte especial da minha mente, reservada aos lugares mais encantadores em que já estive.

Próximo capítulo

Marrocos – Eternamente e ainda depois

EGITO – Luxor – O Vale dos Reis

Os faraós e a eternidade

A Map of The World, de Pat Metheny

Lá longe, uma escadaria. Tão distante de mim quanto seu passado. Situada ao pé de uma falésia, ao fim de um vazio desértico lunar, a arquitetura do templo tornava o conjunto uma paisagem estranha mas admirável, cujo ar misterioso fazia meu olhar se render. A mente, até então imperturbável, afobava-se com a proximidade da ação, do contato e do prazer do toque.

O Vale dos Reis

Às vezes olho para uma paisagem e enxergo mais do que ela, uma versão do que a mente pensa ser, de tal modo que ali minha pura fantasia abstrata fazia-me avistar um “palácio”, embora eu soubesse tratar-se do templo mortuário da Rainha Hatshepsut. E aparentava mesmo ser tão raro quanto eu pensava: dedicado a uma mulher, único a céu aberto no vale, as areias do deserto não o mantiveram em segredo por milênios, como todas as demais 63 tumbas descobertas ali. Mais do que ruínas de uma gloriosa civilização, um mausoléu faraônico era a casa da eternidade de reis e rainhas, e mesmo não sendo palácios em vida, edifícios suntuosos post mortem. Lugar de quietude e repouso, por certo, mas aparentemente tão vivo e pulsante de história que me inspirava, tanto pela beleza e exclusividade, quanto pela alegria e curiosidade que despertava, de tal modo que em nenhum breve momento me aparentou ser um lugar de luto e melancolia.

Obra das mais exclusivas e diferentes de todas as que visitáramos, sobretudo as tumbas subterrâneas do Vale dos Reis, onde estivéramos pouco antes, integra o conjunto de túmulos enterrados que arqueólogos precisaram de uma vida para descobrir. Impossível não inquietar-me, pois o de Hatshepsut, além de único exposto a céu aberto, tinha três terraços sobrepostos acessados através de rampas e escadas, cujo desenho, arte e arquitetura eu já podia identificar como típicas das moradas eternas faraônicas, ainda que aquela fosse tão inigualável.

Nem todos os faraós eram homens. Hatshepsut, por exemplo, ainda que não tão conhecida quanto Cleópatra, foi uma das mais importantes do Egito Antigo. Filha do Faraó Tutmés I, nasceu em 1490 a.C., morreu aos 50 anos de idade depois de comandar seu mundo. O mausoléu, localizado ao pé de um dos morros do vale, teve muito do que havia nele, destruído e vandalizado, motivo porquê sua reconstrução lhe dá a aparência de bem mais novo. Várias esculturas em pedra e pinturas representam a história da rainha, mas são as colunas e espaços abertos, que seguem uma geometria interessante e atraente, o que impõe ao templo sua característica tão expressiva e inigualável.

As tumbas escondidas

Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu uma tumba cheia de tesouros no Vale dos Reis. Desde então, diversas outras expedições e especialistas encontraram no mesmo espaço dezenas de outras, todas consistindo de um longo corredor inclinado que desce ao subsolo das montanhas até através chegarem a uma ou mais salas e, finalmente, à uma câmara funerária, entre elas a tumba de número 62, de Tutankamon e a de Ramsés IX, as grandes estrelas do vale. Descoberta em 1922, tudo o que foi encontrado está no Museu Egípcio, no Cairo. Escavações estão em andamento para a descoberta de novas tumbas, mas muitas das encontradas estão abertas à visitação, entre elas as mais populares aquelas ornamentadas nas paredes e tetos.

Dali seguimos para os Colossos de Mêmnon, duas estátuas gigantescas do faraó Amenófis III, situadas na necrópole da antiga cidade de Tebas, tidas como guardiãs do templo funerário do faraó. Depois, voltamos ao navio, carregados de boas lembranças e imagens que víramos no dia.

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A seguir:

Karnak, Luxor e eu

Uma data para não ser esquecida

A sonorizar este capítulo, A Map of The World, linda e inspiradora melodia de Pat Metheny tocada por ele mesmo, parte da trilha sonora de minha vida, que junto a outras tantas canções felizmente me seguem desde a infância sem que delas eu me esqueça e novas outras vão aderindo.

 

EGITO – Kom Ombo e Edfu – Adeus à Núbia

Colunas do Pátio do Templo de Kom Ombo
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Ainda ancorados, despertei na manhã seguinte com a mente em sossego e a comodidade de uma noite bem dormida. De uma bela noite. E assim levantei-me para ir à janela espreitar o rio, como já de costume o fazia, contudo agora com certa intimidade. Em breve o navegaríamos até Kom Ombo e dentro do peito o coração saudoso daria adeus à Núbia para então, 45 quilômetros depois, rio abaixo desde Assuã, na sua margem direita, entre palmeiras e tamareiras, encontrarmos mais um belo templo faraônico.

Kom Ombo

Aos deuses Sobek – do crocodilo – e Hórus, com cabeça de falcão – o templo foi oferecido, embora parte dele também a Hathor – deus da fertilidade e criador do mundo – a Khonsu e a Tasenetnofret (a Boa Irmã) e a Panebtawy (o Senhor das Duas Terras). O templo é duplo, assim como sua entrada e os salões, que embora conectados, servem cada qual à sua divindade, tendo sido todos construídos no início do reinado de Ptolomeu VI, ali por volta de 180-145 a.C., cujo membro mais famoso da linhagem foi sua última rainha, Cleópatra VII, conhecida por suas habilidades políticas.

Assim que ancoramos saímos para a visita com o templo à vista, cujas colunas avistavam-se do terraço do navio como se brotassem da terra arenosa tal qual as palmeiras circundantes, mas, à medida que nos aproximamos da entrada, elas crescem e surpreendem-nos para converterem-se numa das atrações do templo, e torná-lo um dos mais cativantes da viagem, outro bom exemplo arquitetônico da civilização faraônica.

As colunas que capturam o olhar são parte da beleza do cenário, porque há também seus lindos capitéis, as arquitraves – vigas que se apoiam nos os capiteis das colunas -, as cornijas e os blocos de pedra esculpidos e gravados. Em alguns encontram-se os nomes de Ptolomeu e Cleópatra, mas por certo apenas depois de apontados pelo guia. Além do pórtico – ou pilon – tudo mais integra o típico exemplo de arquitetura egípcia antiga.  

O santuário duplo tem salas erguidas de forma simétrica, duas entradas, dois pátios, dois salões hipostilos[1] e dois santuários. No interior há um pequeno, esquisito santuário que expõe crocodilos mumificados. Mas é a parede frontal, com as figuras dos deuses Sobek e Hórus, e um texto hieroglífico com 52 linhas, seus destaques, um dos elementos mais impressionantes de todos os templos do alto Egito. Três antecâmaras levam à área interna do templo, onde as paredes são cobertas por relevos finos e em excelente estado. Mas quer saber o que primeiro a gente percebe assim que entra no templo? Egípcios escondidos atrás de uma pilastra à espera de turistas para fotografá-los em troca de uma bakshish.

O templo de Hórus, em Edfu

Voltamos a pé ao navio ancorado bem defronte ao templo de Kom Ombo, que em breve partiria em direção a Edfu, a 63 quilômetros dali, onde visitaríamos o templo de Hórus, considerado o mais impressionante de todos os templos próximos às margens do Nilo no trajeto entre Luxor e Aswan, parada fundamental de todos os navios de cruzeiro que fazem este roteiro ao longo do Vale do Nilo.

Behedet, em egípcio antigo, ou Edfu, como se conhece no resto do mundo, é uma das maravilhas do Nilo faraônico, uma construção tardia, isto é, do período greco-romano, mandado construir por Ptolomeu III e Ptolomeu IV, com adições posteriores. É um templo completo que inclui desde o pilone construído pelo pai de Cleópatra, no século I a.C., até o salão que precede o santuário de Hórus, parte final e mais importante deste complexo do Novo Império, que consagra o templo de Edfu um perfeito e completo exemplo deste estilo arquitetônico.

Uma vez na margem do rio, pode-se chegar ao templo Hórus – deus protetor das famílias e dos faraós – com facilidade seja por taxi, tuk-tuk ou charrete. Optamos por tuk-tuk e cruzamos a cidade poeirenta sob um frenético, intenso e energético movimento de transportes levando passageiros turísticos desde o porto ao templo, para visitarmos uma das mais bem preservadas obras dos tempos ptolomaicos no Egito, construído entre 237 e 57 aC.

Sua porta é enorme, tem 37 metros de altura e guardam-na dois falcões, o deus dos céus e dos astros, como sempre, com paredes inteiras ornadas com desenhos, esculturas e hieróglifos em baixo-relevo incrivelmente conservados, inclusive aqueles destruídos a marretadas, desfigurados por cristãos. Nas paredes internas do templo há representações da procissão divina de Hórus e Hathor, estátuas do deus falcão protegendo om portal de uma colunata e diferentes cenas de um faraó rezando ou realizando oferendas. No interior há uma pequena sala a que chamam de biblioteca onde guardavam-se rolos de papiros científicos e administrativos, com paredes adornadas de imagens iconográficas.

Próximo capítulo

Luxor e Karnak


[1] Hipostilo, palavra grega, significa “teto sustentado por colunas” de um grande salão.