EGITO – Luxor – O Vale dos Reis

Os faraós e a eternidade

A Map of The World, de Pat Metheny

Lá longe, uma escadaria. Tão distante de mim quanto seu passado. Situada ao pé de uma falésia, ao fim de um vazio desértico lunar, a arquitetura do templo tornava o conjunto uma paisagem estranha mas admirável, cujo ar misterioso fazia meu olhar se render. A mente, até então imperturbável, afobava-se com a proximidade da ação, do contato e do prazer do toque.

<p class="has-text-align-justify has-medium-font-size" style="line-height:1.5" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80">

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O Vale dos Reis

Às vezes olho para uma paisagem e enxergo mais do que ela, uma versão do que a mente pensa ser, de tal modo que ali minha pura fantasia abstrata fazia-me avistar um “palácio”, embora eu soubesse tratar-se do templo mortuário da Rainha Hatshepsut. E aparentava mesmo ser tão raro quanto eu pensava: dedicado a uma mulher, único a céu aberto no vale, as areias do deserto não o mantiveram em segredo por milênios, como todas as demais 63 tumbas descobertas ali. Mais do que ruínas de uma gloriosa civilização, um mausoléu faraônico era a casa da eternidade de reis e rainhas, e mesmo não sendo palácios em vida, edifícios suntuosos post mortem. Lugar de quietude e repouso, por certo, mas aparentemente tão vivo e pulsante de história que me inspirava, tanto pela beleza e exclusividade, quanto pela alegria e curiosidade que despertava, de tal modo que em nenhum breve momento me aparentou ser um lugar de luto e melancolia.

Obra das mais exclusivas e diferentes de todas as que visitáramos, sobretudo as tumbas subterrâneas do Vale dos Reis, onde estivéramos pouco antes, integra o conjunto de túmulos enterrados que arqueólogos precisaram de uma vida para descobrir. Impossível não inquietar-me, pois o de Hatshepsut, além de único exposto a céu aberto, tinha três terraços sobrepostos acessados através de rampas e escadas, cujo desenho, arte e arquitetura eu já podia identificar como típicas das moradas eternas faraônicas, ainda que aquela fosse tão inigualável.

Nem todos os faraós eram homens. Hatshepsut, por exemplo, ainda que não tão conhecida quanto Cleópatra, foi uma das mais importantes do Egito Antigo. Filha do Faraó Tutmés I, nasceu em 1490 a.C., morreu aos 50 anos de idade depois de comandar seu mundo. O mausoléu, localizado ao pé de um dos morros do vale, teve muito do que havia nele, destruído e vandalizado, motivo porquê sua reconstrução lhe dá a aparência de bem mais novo. Várias esculturas em pedra e pinturas representam a história da rainha, mas são as colunas e espaços abertos, que seguem uma geometria interessante e atraente, o que impõe ao templo sua característica tão expressiva e inigualável.

As tumbas escondidas

Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu uma tumba cheia de tesouros no Vale dos Reis. Desde então, diversas outras expedições e especialistas encontraram no mesmo espaço dezenas de outras, todas consistindo de um longo corredor inclinado que desce ao subsolo das montanhas até através chegarem a uma ou mais salas e, finalmente, à uma câmara funerária, entre elas a tumba de número 62, de Tutankamon e a de Ramsés IX, as grandes estrelas do vale. Descoberta em 1922, tudo o que foi encontrado está no Museu Egípcio, no Cairo. Escavações estão em andamento para a descoberta de novas tumbas, mas muitas das encontradas estão abertas à visitação, entre elas as mais populares aquelas ornamentadas nas paredes e tetos.

Dali seguimos para os Colossos de Mêmnon, duas estátuas gigantescas do faraó Amenófis III, situadas na necrópole da antiga cidade de Tebas, tidas como guardiãs do templo funerário do faraó. Depois, voltamos ao navio, carregados de boas lembranças e imagens que víramos no dia.

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A seguir:

Karnak, Luxor e eu

Uma data para não ser esquecida

A sonorizar este capítulo, A Map of The World, linda e inspiradora melodia de Pat Metheny tocada por ele mesmo, parte da trilha sonora de minha vida, que junto a outras tantas canções felizmente me seguem desde a infância sem que delas eu me esqueça e novas outras vão aderindo.

 

EGITO – Kom Ombo e Edfu – Adeus à Núbia

Colunas do Pátio do Templo de Kom Ombo
<p class="has-drop-cap has-text-align-justify has-medium-font-size" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="36" max-font-size="72" height="80"><strong><strong><strong><strong>Depois do azul </strong></strong></strong></strong>do dia e de um pôr do sol encantador veio a magia da noite. Eu ainda não avistara o céu, mas o imaginava, e se fosse como tal, admirá-lo não seria escolha, mas destino. Haveria de ser tão soberbo quanto a natureza do Nilo? E tão elétrico, límpido, estrelado e carente de contemplação quanto o representado em minha mente, um Céu daqueles de ouvir estrelas?Depois do azul do dia e de um pôr do sol encantador veio a magia da noite. Eu ainda não avistara o céu, mas o imaginava, e se fosse como tal, admirá-lo não seria escolha, mas destino. Haveria de ser tão soberbo quanto a natureza do Nilo? E tão elétrico, límpido, estrelado e carente de contemplação quanto o representado em minha mente, um Céu daqueles de ouvir estrelas?

<p class="has-text-align-justify has-medium-font-size" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="36" max-font-size="72" height="80"><strong><strong>Ora, direis, ouvir</strong> </strong>estrelas é perda de bom senso. Mas, sim, podem-se ouvi-las, como disse o poeta. Basta procurá-las num céu deserto e conversar com elas. E se toda noite tem sua beleza própria e seu tempo, se todo céu também nunca é o mesmo de ontem, aquele bem que poderia ser o poema que minha imaginação criara, mas se mesmo assim nada acontecesse como o inventado, a culpa seria tão só dela, minha mente criativa e sonhadora, porta aberta para um romantismo que nem sempre se confirma na realidade. E se também não fosse perfeita a noite como fora o dia, um quase já me bastaria, de tal jeito que nem o frio glacial e o cansaço do corpo barrariam meu desejo de admirá-la. Ora, direis, ouvir estrelas é perda de bom senso. Mas, sim, podem-se ouvi-las, como disse o poeta. Basta procurá-las num céu deserto e conversar com elas. E se toda noite tem sua beleza própria e seu tempo, se todo céu também nunca é o mesmo de ontem, aquele bem que poderia ser o poema que minha imaginação criara, mas se mesmo assim nada acontecesse como o inventado, a culpa seria tão só dela, minha mente criativa e sonhadora, porta aberta para um romantismo que nem sempre se confirma na realidade. E se também não fosse perfeita a noite como fora o dia, um quase já me bastaria, de tal jeito que nem o frio glacial e o cansaço do corpo barrariam meu desejo de admirá-la.

<p class="has-text-align-justify has-medium-font-size" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="36" max-font-size="72" height="80"><strong><strong>No deck do</strong> </strong>navio talvez ela não fosse mesmo tão bela quanto a criatividade da mente, mas lá fora, sob o céu do Nilo, eu sabia que um mundo diferente, novo e curioso tomaria posse de tudo, dominaria o rio, o deserto e mais a gente que o estivesse a admirar. E a posse não se daria só por estrelas, astros e satélites, também pela cacofonia de pássaros e insetos, o sussurrar gentil das folhas de palmeiras, um farfalhar de mato rasteiro e touceiras de junco ondulantes se esfregando às margens do rio, também de sons menores que só ouvidos atentos conseguem, como o cri-cri-cri dos grilos, as vozes quase inaudíveis de adultos, crianças e animais.No deck do navio talvez ela não fosse mesmo tão bela quanto a criatividade da mente, mas lá fora, sob o céu do Nilo, eu sabia que um mundo diferente, novo e curioso tomaria posse de tudo, dominaria o rio, o deserto e mais a gente que o estivesse a admirar. E a posse não se daria só por estrelas, astros e satélites, também pela cacofonia de pássaros e insetos, o sussurrar gentil das folhas de palmeiras, um farfalhar de mato rasteiro e touceiras de junco ondulantes se esfregando às margens do rio, também de sons menores que só ouvidos atentos conseguem, como o cri-cri-cri dos grilos, as vozes quase inaudíveis de adultos, crianças e animais.

<p class="has-text-align-justify has-medium-font-size" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="36" max-font-size="72" height="80"><strong>Naquele momento era</strong> a mente, com sua autonomia, quem me dominava, enganando o corpo fazendo-o suportar nos ossos um vento que já antes me congelara a pele. Alguns minutos depois, não sei quantos, já no limiar de minha capacidade de aguentar o frio por opção, encerrei a breve visita e a eterna procura por uma estrela mais brilhante. Voltei para o aconchego da cabine e dormi sob os agradáveis efeitos do cansaço, das lembranças de um dia fenomenal, de um jantar apetitoso e de meia taça de vinho tinto egípcio.Naquele momento era a mente, com sua autonomia, quem me dominava, enganando o corpo fazendo-o suportar nos ossos um vento que já antes me congelara a pele. Alguns minutos depois, não sei quantos, já no limiar de minha capacidade de aguentar o frio por opção, encerrei a breve visita e a eterna procura por uma estrela mais brilhante. Voltei para o aconchego da cabine e dormi sob os agradáveis efeitos do cansaço, das lembranças de um dia fenomenal, de um jantar apetitoso e de meia taça de vinho tinto egípcio.

Ainda ancorados, despertei na manhã seguinte com a mente em sossego e a comodidade de uma noite bem dormida. De uma bela noite. E assim levantei-me para ir à janela espreitar o rio, como já de costume o fazia, contudo agora com certa intimidade. Em breve o navegaríamos até Kom Ombo e dentro do peito o coração saudoso daria adeus à Núbia para então, 45 quilômetros depois, rio abaixo desde Assuã, na sua margem direita, entre palmeiras e tamareiras, encontrarmos mais um belo templo faraônico.

Kom Ombo

Aos deuses Sobek – do crocodilo – e Hórus, com cabeça de falcão – o templo foi oferecido, embora parte dele também a Hathor – deus da fertilidade e criador do mundo – a Khonsu e a Tasenetnofret (a Boa Irmã) e a Panebtawy (o Senhor das Duas Terras). O templo é duplo, assim como sua entrada e os salões, que embora conectados, servem cada qual à sua divindade, tendo sido todos construídos no início do reinado de Ptolomeu VI, ali por volta de 180-145 a.C., cujo membro mais famoso da linhagem foi sua última rainha, Cleópatra VII, conhecida por suas habilidades políticas.

Assim que ancoramos saímos para a visita com o templo à vista, cujas colunas avistavam-se do terraço do navio como se brotassem da terra arenosa tal qual as palmeiras circundantes, mas, à medida que nos aproximamos da entrada, elas crescem e surpreendem-nos para converterem-se numa das atrações do templo, e torná-lo um dos mais cativantes da viagem, outro bom exemplo arquitetônico da civilização faraônica.

As colunas que capturam o olhar são parte da beleza do cenário, porque há também seus lindos capitéis, as arquitraves – vigas que se apoiam nos os capiteis das colunas -, as cornijas e os blocos de pedra esculpidos e gravados. Em alguns encontram-se os nomes de Ptolomeu e Cleópatra, mas por certo apenas depois de apontados pelo guia. Além do pórtico – ou pilon – tudo mais integra o típico exemplo de arquitetura egípcia antiga.  

O santuário duplo tem salas erguidas de forma simétrica, duas entradas, dois pátios, dois salões hipostilos[1] e dois santuários. No interior há um pequeno, esquisito santuário que expõe crocodilos mumificados. Mas é a parede frontal, com as figuras dos deuses Sobek e Hórus, e um texto hieroglífico com 52 linhas, seus destaques, um dos elementos mais impressionantes de todos os templos do alto Egito. Três antecâmaras levam à área interna do templo, onde as paredes são cobertas por relevos finos e em excelente estado. Mas quer saber o que primeiro a gente percebe assim que entra no templo? Egípcios escondidos atrás de uma pilastra à espera de turistas para fotografá-los em troca de uma bakshish.

O templo de Hórus, em Edfu

Voltamos a pé ao navio ancorado bem defronte ao templo de Kom Ombo, que em breve partiria em direção a Edfu, a 63 quilômetros dali, onde visitaríamos o templo de Hórus, considerado o mais impressionante de todos os templos próximos às margens do Nilo no trajeto entre Luxor e Aswan, parada fundamental de todos os navios de cruzeiro que fazem este roteiro ao longo do Vale do Nilo.

Behedet, em egípcio antigo, ou Edfu, como se conhece no resto do mundo, é uma das maravilhas do Nilo faraônico, uma construção tardia, isto é, do período greco-romano, mandado construir por Ptolomeu III e Ptolomeu IV, com adições posteriores. É um templo completo que inclui desde o pilone construído pelo pai de Cleópatra, no século I a.C., até o salão que precede o santuário de Hórus, parte final e mais importante deste complexo do Novo Império, que consagra o templo de Edfu um perfeito e completo exemplo deste estilo arquitetônico.

Uma vez na margem do rio, pode-se chegar ao templo Hórus – deus protetor das famílias e dos faraós – com facilidade seja por taxi, tuk-tuk ou charrete. Optamos por tuk-tuk e cruzamos a cidade poeirenta sob um frenético, intenso e energético movimento de transportes levando passageiros turísticos desde o porto ao templo, para visitarmos uma das mais bem preservadas obras dos tempos ptolomaicos no Egito, construído entre 237 e 57 aC.

Sua porta é enorme, tem 37 metros de altura e guardam-na dois falcões, o deus dos céus e dos astros, como sempre, com paredes inteiras ornadas com desenhos, esculturas e hieróglifos em baixo-relevo incrivelmente conservados, inclusive aqueles destruídos a marretadas, desfigurados por cristãos. Nas paredes internas do templo há representações da procissão divina de Hórus e Hathor, estátuas do deus falcão protegendo om portal de uma colunata e diferentes cenas de um faraó rezando ou realizando oferendas. No interior há uma pequena sala a que chamam de biblioteca onde guardavam-se rolos de papiros científicos e administrativos, com paredes adornadas de imagens iconográficas.

Próximo capítulo

Luxor e Karnak


[1] Hipostilo, palavra grega, significa “teto sustentado por colunas” de um grande salão.

EGITO – O Templo de Ísis na Ilha de Philae

Não há mais mistérios, não há mais segredos nem pistas a seguir. Mas ainda magia e beleza. Hoje não se vai mais à procura de um mundo perdido, de peças que faltam para completar o mundo, templos submersos ou tumbas soterradas, senão para navegar o Nilo turisticamente. Mas isso quase basta, porque silenciosamente numa felucca[1] assistem-se passar os mesmos pedaços de Egito antigo às suas margens, tal qual experimentavam os exploradores pioneiros que pela primeira vez avistaram obras de um estranho, admirável mundo antigo. O rio ainda fascina do mesmo jeito e motiva tantos a sairem de casa em busca de seus tesouros faraônicos.

Somos agora apenas viajantes turísticos comuns, não mais pioneiros, e no exercício de deliciosas explorações mundanas. Seguimos o rio num entardecer encantador, em busca do Templo de Ísis na ilha de Philae, e não era nada difícil nos sentirmos na pele de exploradores de séculos passados.

A caminho do templo de Philae

O rio é eterno em sua beleza brilhante, no azul profundo que rasga o ocre e alimenta de fertilidade as terras às suas margens, preservando a integridade de sua gente e a identidade do país. Navegamos as mesmas águas cruzadas por embarcações cinco mil anos atrás, subindo o Nilo juntos às suas costas observando o desfilar de templos faraônicos. A atmosfera é soberba, e até possível descrevê-la, mas permanece coisa melhor de sentir do que contar. Naquela tarde, a felicidade parecia não vir de cada um de nós, senão do rio, e enquanto o barco seguia Nilo acima em direção à adorável ilha do templo, o entardecer na Núbia caía divino sobre nós, ajudando o protagonismo do rio, convertendo-se no pôr do sol mais estonteante, que embora sempre adorável em qualquer buraco do planeta, quando calha de ser daquele jeito torna-se arrasador.

A abordagem pela água é a coisa mais bonita

Os únicos sons vêm do bater suave do Nilo contra o casco do barco, do motor também e dos suspiros de não mais que oito passageiros. Não se sentem cheiros, a não ser de ar limpo, pois os perfumes, especiarias e incensos egípcios que carregam as narinas nos mercados não chegam a esta altura do rio. Não navegamos numa romântica dahabiya[2] movida pelo vento, senão numa embarcação anônima e ordinária, sem um convés repleto de sofás, futons e poltronas estofadas, mas a navegação me parece tão sedutora e mística quanto dos relatos de antigos viajantes. Sei que será breve, razão porque entregar-me a ela é o que melhor posso fazer. As vezes me ocorre não bastar olhar, precisar tocar para desfrutar plenamente o momento, então, inclino-me para fora do barco de madeira desgastada, ponho a mão na água e metade dos dedos arrastam no Nilo. Ele sobe pela palma até o pulso, com força, mas como carícia. Concentro-me no enorme prazer temendo os exageros, parecer tolo ou, pior, deslumbrado, ainda que intimamente justifique-se o tamanho do pazer de tocar as águas do Nilo. Sorrio, discretamente, um sorriso de “canto de boca”, mas deixo livre o curso dos meus pensamentos: “Que mundo maravilhoso! Que momento!”. A mão volta ao barco, os olho observam meu redor e reparo outros sorrisos francos e mãos medrosas tocarem o rio. Nem preciso ler pensamentos. 

Colunatas e pilares parece surgir do rio como miragem

Para mais, de nada eu preciso, nem mesmo desejar paz e sossego, pois ela já nos chega com a brisa confortável que sopra nossos rostos desde Assuã. Até a ilha de Agilika – pedaço de terra onde hoje mora o Templo de Ísis – são oito agradáveis quilômetros que vejo e sinto do mesmo jeito que disse Amelia Blandford Edwards[3], que em 1877 descreveu a abordagem pela água como a mais bonita. E vista assim, do nível de um pequeno barco – a ilha com palmeiras, colunatas e pilares parece surgir do rio como miragem. Falta pouco para encontrarmos a joia do Nilo, que já avisto aproximar-se. 

 Minha razão ainda não consegue aplacar a fantasia, então, mesmo com a aproximação encantadora – água, rio e impressões iguais às do relato de Amelia – faltam-me contudo as flores de lótus, os crocodilos, os papiros e nenúfares de flores roxas aglomerados num mesmo canto da margem. As imagens que eu trouxera na imaginação vinham agora, provando que um viajante deve cuidar para que o Egito antigo não se perca entre a luz da realidade e a escuridão de suas divagações. Volto aos trilhos e vejo que não há mesmo sombra de dúvida: a chegada honrando o valor do templo e as palavras da autora, convertendo-se num grande momento, a paisagem sendo tudo, maior que tudo, tão grande e bela que por pouco quase perco o interesse pela câmera. Registro rapidamente o momento para que não volte sem imagens fotográficas, mas não revelam o que descreveu a exploradora. Então, chego ao porto e o templo já não cabe mais no rio. Deixa de ser reflexo, de tremular na água para tomar sua forma concreta, protagonizar, me fazendo prever que apesar de encantadora a abordagem, haveria de ser visita ao templo outro espetáculo, ter peso igual em toda a diversão. O rio tornava-se agora coadjuvante e o templo tomava o papel principal.

A “avenida” dos vendedores do templo

Um plano ocre brilhando sob a luz mágica do entardecer que incidia diagonalmente sobre as paredes de pedras. Rochas empilhadas com maestria, talhadas com fineza e a delicadeza de divinos desenhos formando um cenário perfeito com o rio ao redor. Em terra, uma outra personalidade, a mesma intensa beleza, um templo entre os mais luminosos do Egito antigo, que em nada lembra a obscuridade dos muitos mausoléus que abrigam tumbas e sarcófagos faraônicos que visitaríamos nos dias seguintes.

Vejo aproximar-se o ancoradouro da ilha com outros barcos ancorados. Contemplo mais uma vez o reflexo do templo na água, despedindo-me dele, porque eu sabia que a chegada era para se aproveitar sem hesitações, que em breve a atracação mataria a perspectiva, acabaria com a atmosfera do encontro. Com um último suspiro saio do barco.

Um templo com luxuosas vistas para o rio

Uma pequena colina servida por uma escada de cimento leva-nos até o nível do chão, uma larga “avenida” com bom calçamento, que embora ladeada por um “corredor polonês” de vendedores, é caminho tranquilo às bilheterias e ao portão do complexo. Logo pegamos nossos ingressos, cruzamos o portão e, voilà!, um ângulo surpreendente e amplo se abre para um pátio delimitado por duas grandes fileiras de colunas.

O primeiro pilone

Trinta e uma delas dispostas ao longo de 100 metros margeiam o pátio diante do grande pórtico – ou pilone – obra em forma de pirâmide truncada com belíssimas e enormes representações de Ísis, Hórus e Ptolomeu III em baixo relevo, guardadas por dois leões de pedra ao nível do chão. O conjunto é tão belo que por si já teria valido a visita. Mas há um novo pátio fronteiro ao templo, cuja fachada tem representações da deusa e de seu esposo, Osíris, e assim que o cruzamos, uma aparição “surge”: a Sala Hipostila, uma coisa linda, adorável, com paredes, umbrais e colunas profusamente ornados.

O Templo de Ísis

Filas é nome da ilha que o templo de Ísis tomou para si. Era o antigo lugar onde fora construído há “apenas” 2.000 anos. Após 1902, com a construção da primeira represa de Assuã, permanecia inundado durante seis meses, quando então os viajantes remavam entre as colunas parcialmente submersas e espiavam tudo mais o que ficava à vista, rodeados por água e pedras do santuário dedicado à poderosa deusa. Ficou assim sob as águas do poderoso Nilo por 70 anos. Pobre Isis. Mais tarde, com a conclusão da Barragem Alta, o templo seria totalmente submerso, razão porque o deslocaram, graças a Isis, caso contrário o teríamos perdido. Remontado pedra por pedra na nova ilha, entre 1972 e 1980, mantiveram-se suas características originais, sua atmosfera incomparável, a aparência, o layout, paisagismo e até mesmo as marcas das inundações que ainda hoje podemos conferir.

Estilo e padrões faraônicos

Parece antigo – e para nós do novo mundo verdadeiramente é -, contudo, trata-se de um dos templos mais recentes, além do mais bem preservado. Considerados os padrões faraônicos, trata-se de um jovem dentro de uma história que remonta a 5000 anos[4]. A obra é “nova”, mas de uma época em que o resto do planeta vivia na obscuridade cultural e intelectual, que do primeiro ao último vislumbre, suas torres e paredes prendem olhares e faz soltarem-se suspiros.

Na ilha, outras edificações construídas pelos ptolomeus – Cleópatra a última – foram adicionadas a Philae nos últimos dois séculos a.C, assim como depois por imperadores romanos. Nas inscrições e desenhos contam-se histórias de deuses e da realeza, que embora comuns a todos os templos faraônicos, em Filas têm vista para o rio. Talvez eu devesse dizer algo mais, mencionar outros méritos do templo, discorrer sobre datas e deuses, não passageiras, mas deixarei de lado, pois não me qualifico e temo a simplicidade, abordagem superficial de um assunto cercado por obstáculos. Sinto-me, contudo, mais à vontade para apontar seus valores visuais, construtivos e arquitetônicos, as principais particularidades do templo, além de suas luxuosas vistas para o rio. E para o benefício de quem deseja informações técnicas precisas e afiadas, há um universo em egiptologia à disposição na Internet que eu teria prazer em recomendar.

Ísis era uma das principais divindades da mitologia egípcia e transcendia as fronteiras do Egito, chegando até o universo greco-romano e zelando por todos, de escravos e nobres a pecadores, santos, governantes e governados, dominando o cosmos com chifres, asas e um disco solar na cabeça.

Ao redor do Templo de Isis, pequenos outras obras com menor brilho, como os templos de Hathor e o de Trajano, o pavilhão de Nectanebo – rei da 30ª dinastia -, a Porta de Adriano, além de um nilômetro – cujos degraus de pedra mediam o nível do rio. O quiosque de Trajano, dedicado ao imperador romano, construído no início da era cristã, tem estrutura que pode sugerir ter sido adaptado e ornamentado mais tarde com elementos característicos do império. A edificação tem planta retangular e quatorze colunas com capitéis entalhados com motivos florais e paredes com imagens do imperador queimando incensos em honra de Isis e Osíris e ofertando vinho a Isis e Horus.

Dias mais tarde visitamos Luxor e Karnak, templos que poderiam tornar o de Ísis “pequeno”, contudo, sua beleza e delicadas proporções, a cuja “leveza grega aliada à forma egípcia” se referiu Amelia Edwards – trarei para sempre comigo no setor egípcio de meu cérebro viajante. 

Aproveitamos cada minuto na ilha da deusa, e aproximando-se a hora de um dos mais belos poentes da viagem, fomos orientados a apreciá-lo de cima, antes da descida ao ancoradouro para retorno ao barco. Foi mesmo tão belo que parecia exclusivo, como se a deusa celebrasse nossa visita ao templo. Descemos para a felluca que nos levaria de volta. Entramos num barco qualquer, o primeiro da fila, com um núbio no comando.

Seria mesmo núbio o nosso capitão? O Egito teve a Núbia como país vizinho em sua divisa do sul, que agora fica a 250 quilômetros dali, com o Sudão. Embora com óculos de sol “rayban” e um casaco contemporâneo, a fisionomia não aparentava ser a de um egípcio, pois tinha traços incomuns aos que víramos desde o Cairo, dando razão à minha curiosidade. O fim da visita foi sob um pôr do sol incrivelmente bonito enquanto nos afastávamos da ilha, navegando de volta os oito quilômetros que nos separam de Assuã.

A silhueta negra do templo foi ficando para trás, enquanto à frente, casas núbias desfilavam à beira d’água. Pintadas em azul turquesa e iluminadas pela cor quente do poente, ornavam-se com pinturas em rosa, amarelo e verde.

O Obelisco Inacabado

Nas proximidades da cidade há pedreiras antigas, fontes do melhor granito do Egito Antigo, de onde saía matéria prima para grandes esculturas, monolitos e obeliscos. Numa delas talhava-se o que pretendiam ser o maior obelisco da antiguidade – o Obelisco Inacabado – cujos 42 metros de altura e 1168 toneladas seria também o mais pesado bloco de pedra já produzido por egípcios na antiguidade.

Abandonado devido a fendas e rachaduras surgidas na peça ainda deitada, permanece conectado à rocha, tornando-se uma das atrações mais conhecidas da cidade, ainda que quase nada mais se saiba sobre a obra ou para onde seria transportado.

Embora muitos outros sítios arqueológicos fascinantes haveríamos de visitar nos próximos dias, aquele primeiro dia de cruzeiro no Nilo terminou como o mais notável de nossa estada no Egito.

Próximo capítulo

Edfu e Kom Ombo – De Assuã a Tebas (Luxor)

[1] Felucca é um barco à vela tradicional de madeira, usado em águas resguardadas do mar Vermelho e do Mediterrâneo Oriental, como em Malta e, particularmente, no rio Nilo no Egito e no Sudão, e também no Iraque e na Sicília.

[2] Dahabya é uma barcaça de passageiros, de madeira e com duas ou mais velas, usada no rio Nilo, relevos gravados na pedra de templos e tumbas do Egito testemunham que essas embarcações já existiam há milhares de anos, embora originalmente fossem usadas para transportar a realeza.

[3] Amelia Blandford Edwards, escritora, contista, jornalista e egiptóloga britânica da Era vitoriana, produziu romances, diários de viagens, contos e ensaios sobre o Egito Antigo e co-fundadora da Egypt Exploration Society, emA mil milhas acima do Nilo”, publicado em 1877 com o título A Thousand Miles Up the Nile(p. 207).

[4] O templo foi construído entre os anos 380 e 362 a.C., durante a última dinastia egípcia, dos Ptolomeus, que na verdade eram gregos e descendentes de um dos generais de Alexandre, pouco antes da invasão de Alexandre, o Grande, em 323 a.C.  

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CAIRO – A Cidadela de Saladino. Ah, que vista!

Para ler ouvindo Something left unsaid – Por Lyle Mays

Chegamos cedo. Tão antes do tempo que mesmo depois dos ingressos comprados tivemos que aguardar a abertura dos portões da Cidadela de Saladino. Estávamos numa grande praça à entrada do complexo e diante de um improvisado café onde aqueciam-se com a bebida os motoristas das vans e ônibus turísticos. E embora houvesse sol, seus raios fossem para todos, os sentíamos nos olhos, mais do que na pele.

Olhando para a muralha da cidadela, aquelas suas enormes torres de vigilância, os minaretes e o grande portão de acesso, o típico palácio árabe aparentava ser mais que obra concreta, senão uma ilustração do livro de histórias das “Mil e uma noites de Sherazade”[1].

O céu estava surpreendentemente claro e limpo, quase sem nuvens, azul e transparente, então um agradável convite às caminhadas ao ar livre, contudo sob a confortável temperatura do inverno. Nada mais atraente e apropriado para uma visita ao legado de Saladino: a Mesquita de Alabastro, os pequenos palácios convertidos em museus nada assombrosos (quase sempre fechados) e os terraços com vistas soberbas sobre o Cairo. De longe, aquele com a melhor vista aérea da cidade, seu um grandioso conjunto arquitetônico, para as tantas outras cidades que parecem haver dentro do Cairo.

O Mirante da Cidadela de Saladino

A paisagem permitia aos olhos enxergarem muito além do que vista alcança, e a mim, olhar como nunca houvera feito antes. Eu me concentrava nas minúcias, embora o monumental fosse o que dominasse o panorama. Surpreso, eu contemplava o Cairo Islâmico e seu mar de construções monocromáticas, o horizonte, as pirâmides e as areias infinitas do deserto. E já que a imaginação me permitia, embora não o céu leitoso, enxergava até mesmo a indecifrável esfinge. E não era mal com a segurança da distância, protegendo-me de seu jeito Monalisa, seu olhar perdido, mas traiçoeiro, fingidora ao desdenhar do observador, mas pronta a devorá-lo. E com o que a imaginação me concedia, avistava também o Alto e o Baixo Egito, todo o Magrebe, o Oriente sendo inteiro.

Embora tudo ao alcance da vista fosse apenas um vislumbre, a mera sombra da vastidão da cidade onde vivem 45 mil pessoas por quilômetro quadrado, sua grandeza era avassaladora, tão estimulante da curiosidade que, mesmo indescritível, não era imencionável. Ia, assim, muito além de sua concretude, estimulava-me, sem barreiras, as especulações.

Depois daquele fabuloso estímulo ao olhar, o silêncio era o que mais eu sentia. Afinal, no Cairo, silêncio e solitude, caem tão bem quanto podem surpreender. Lá se iam 3 dias na capital, tempo bastante para percebermos o prazer da calmaria, pois de tão rara que, o visitante que não esteve no mirante de Saladino haverá de acreditar que a quietude no Cairo é como as bruxas: não se creem nelas, mas que existem, existem. E já que é tão rara, talvez só ali se perceba, estimula tanto os olhares curiosos, a fim de que devorem a grandeza das minúcias da insana cidade, sem contudo ouvirem-se seus ruídos, sob o reconfortante prazer da quietude.

Seria ridículo supor que éramos os únicos turistas por ali naquela fria manhã de dezembro, mas era surpreendente não estarmos no formigueiro humano, ao contrário, entre tão poucos visitantes numa das atrações mais fundamentais da cidade, exclusividade consagrava o momento num privilégio.

Dali o observador, enquanto avançava o olhar pela urbe, sente-se como um pássaro em voo livre, planando nas alturas, tocado pela brisa, escaneando a paisagem como um predador, com largos e atentos olhares, assistindo à sua balbúrdia quase incivilizada sem que precise mergulhar na “lama” de seu escarcéu.

No primeiro plano, encontram-se a cidade árabe e a turca otomana, mais distante a modernista de 1920 – com suas boas influências francesa e inglesa – e ao fundo, a contemporânea Cairo, cada qual com suas pequenas grandezas, desenhos complexos ora sofisticados, ora rústicos, arquitetura nas miudezas, pormenores, pequenos elementos de uma fachada, residência, um telhado, minaretes, uma pousada, das ruas estreitas que somem por trás de prédios e reaparecem adiante defronte de casas baixas, uma diversidade tão numerosa de pormenores quanto o número de peças do Museu Egípcio. Ao observar o panorama do mirante de Saladino, desvenda-se a História da cidade em todos os seus tempos.

Ah, que vista!

Daquela paisagem, mesmo depois de tudo o que for dito, alguma coisa ficará por dizer, como nesta música de Lyle Mays.

Segurei a câmera como se fosse de cristal, com tal cuidado, mas a firmeza que seu peso exige. Apontei a lente para o panorama que mal cabia na grande angular. Não me cabia um registro apressado ou descuidado, então, fiz meu melhor, sem, contudo, captar a mínima parte do que enxergara, do que me revelara.

O grandioso cenário, todavia, não impressionava apenas a todos, ao menos não àquelas duas jovens que lhe dispensaram uma olhadela, deram-lhe as costas e dedicaram-se às selfies de caras, bocas e gestos “instagramáveis”. Por fim, já com algumas dezenas de imagens guardadas no cérebro e na Nikon, seguimos para conhecer o restante do lugar, caminhando por um jardim em direção à mesquita, enquanto nosso guia nos conduzia também ao passado, a 1183, ano em que as obras da fortaleza concluíram-se, depois de imaginadas pelo líder muçulmano Saladino.

A Mesquita de Alabastro

No interior, uma calçada coberta por arcos belíssimos se estende pela maior fachada da mesquita. Era enorme, simétrica, com lindas colunas de pedra, abriga várias entradas falsas, embora apenas uma leve ao seu interior. Entramos num oásis de calma, respeitando o código de vestuário e etiqueta islâmicos: sem sapatos, em silêncio e com nossas esposas cobrindo os cabelos, embelezadas por pashminas compradas na noite anterior no mercado Khan el Khalili.

Enorme, a Mesquita de Mohamed Ali, – ou Mesquita de Alabastro – é um soberbo templo. Revestido internamente da mesma pedra de quem toma o apelido, avista-se de muitos pontos da cidade. Pela porta chega-se ao pátio de abluções, como é comum nos templos islâmicos, que antecede a entrada ao salão de orações.

Rodeado por colunas e arcos de alabastro, a fonte de abluções tem desenho e ornamentação otomanos admiráveis. Contudo, uma curiosidade destoa naquele lindo pátio: um relógio de bronze instalado no telhado e sobre uma torre com aparência arquitetônica medieval, presente do Rei Luis Felipe da França em retribuição ao obelisco do Templo de Luxor, doado pelo soberano Mohamed Ali, que se encontra hoje no centro da Place de La Concorde, em Paris.

O interior do templo faz juz em tamanho à sua grandiosidade exterior. Por dentro, o silêncio é ainda mais notável, solene, quase de um mundo paralelo. Um candelabro pende do domo central e chega a poucos metros do piso, inteiramente coberto por tapetes originais. E tudo conveniente e discretamente iluminado por luz natural vinda da porta e de algumas janelas primorosamente calculadas, a fim de que os raios solares não descoloram os intensos vermelhos do carpete oriental. O minbar e o túmulo de Mohamed Ali – em mármore branco esculpido e ornamentado com pedras preciosas – são dois dos mais preciosos tesouros da mesquita.

Absolutamente tudo revela o tradicional bom-gosto do desenho islâmico, sua qualidade nos padrões geométricos. O tapete é um convite a nos sentarmos para apreciarmos detidamente o conjunto da obra. Depois de satisfeitos, a caminharmos sobre ele, a fim de conferirmos o conforto e o prazer de passear sobre ele para conferirmos de perto os detalhes ornamentais do templo, dezenas deles, tantos que exigiriam toda uma manhã de observação e fotos. E já que eram permitidas, nos fartarmos delas.

Quem já esteve em Istambul e visitou a Mesquita Azul, sua memória não o poupará de lembrar-se da Mesquita de Alabtastro, não sem motivo: a do Cairo foi inspirada naquela.

Que manhã passamos na Cidadela de Saladino. Ah, que visita!

Veja em 360 graus o panorama do Mirante de Saladino:

https://www.360cities.net/image/the-saladin-citadel-of-cairo-egypt

Próximo capítulo

A Mesquita e Madrassa do sultão Hassan e a Mesquita de ar-Rifa’i


[1] http://www.miniweb.com.br/cantinho/infantil/38/estorias_miniweb/1001_noites.html

EGITO – Cairo. Um cartão postal visto à janela

Ouço seus ruídos e concluo que a cidade despertou antes de mim. Alguma luminosidade atravessa as cortinas, mas não o bastante para me tirar da cama. Alguma preguiça me resta, afinal, foram poucas horas de sono, embora uma bem dormida madrugada. Observo o quarto e detenho o olhar nos detalhes. Não são nada atraentes e evidenciam marcas do tempo, um hotel que já teve seus dias de glória, embora ainda seja um ícone do Cairo. É um dos mais altos edifícios da cidade, com mais de 30 pavimentos, o que me leva a imaginar a vista está além da janela. Estar às margens do Nilo parece hoje ser sua maior qualidade. Embora não se possa afirmar que estamos de ponto turístico, os dois quilômetros da praça Tahrir[1] e do Museu do Cairo nos deixa bem mais próximos de todas as demais atrações da cidade. Comparado a um hotel defronte as Pirâmides de Gizé, opção que a operadora nos ofereceu, escolhida por nove entre dez turistas, os mais de 20 km de distância nos sujeitaria ao tráfego e retenções naquele que considera-se entre os mais engarrafados do planeta.

Apanho os óculos, levanto-me e vou à janela. Pelo vidro da floor-to-ceiling window – como chamam o janelão do chão ao teto – a porção que avisto da cidade é quase toda do eterno Rio Nilo e em pequena parte de um medianamente largo horizonte, contudo comprometido pelo céu embaçado. Abro a janela e vou à varanda. Sim, os quartos têm uma varanda e eu preciso de óculos. Apesar de supor o frio, a vista é um convite, então saio como se testasse o quão glacial é o Inverno no teto da África. Qual nada. É Inverno, mas é África. Não demora muito e já sinto seus efeitos na pele.

A parte da urbe e do grande rio que avisto são, embora grandiosas, pequenas amostras de suas amplitudes. Neste Rio Nilo – o Nilo Azul, que começa no lago Tana, na Etiópia, que tive o privilégio de conhecer, e se junta ao Nilo Branco, ao sul do Egito, em Cartum, no Sudão, e juntos formam o rio mais longo do mundo – que em dois dias percorreremos em seu trecho mais turístico – entre Assuã a Luxor – e de volta ao Cairo, seguindo seu curso natural até o mar Mediterrâneo.

O guarda-corpo da varanda não é suficiente para que eu não sinta uma forte vertigem, mas também muito especial, com um panorama só visto pelos pássaros. Me ocorre uma ilusão na, um dejá vu que me leva a faz pensar já ter estado aqui, embora jamais, mesmo parecendo tão familiar. O efeito é breve como uma faísca, mas a sensação é de uma eternidade. Por certo um estado confusional da mente que mistura as centenas de imagens vistas antes e o leve torpor de um despertar recente.

O céu é embaçado, leitoso, mas diferente de atmosfera de Delhi, onde se constitui de duas partes de fumaça e uma de ar. Aqui não, ela é salpicada de minúsculos grãos de areia que chegam do deserto e, juntos à fumaça dos carros, dá ao céu do Cairo o personalíssimo “tom celeste egípcio”, um eufemismo carinhoso que tenta amenizar a expressão “poluição atmosférica”. Dizem que nesta cidade à beira do deserto, quando a brisa converte-se em ventania, acossa a cidade trazendo uma poeira que embaça a visibilidade em 70%. Depois, com a calmaria, a poeira deposita-se nas janelas, fachadas e letreiros, onde então passa a aparentar estar ali desde a eternidade ou, então, desde que Cleópatra era menina.

Observo a grande torre do Cairo, a ponte Qasr el-Nil, uma enorme bandeira do Egito e o absorvente rio Nilo dividido pela ilha Gezira e o bairro Zamalek. Embarcações pequenas e médias navegam por este trecho da cidade que chamam de Garden City, um pedacinho bonito e amplo da urbe, onde mora a parte privilegiada dos 20 milhões de habitantes cairotas, número que parece inverossímil, sobretudo quando nos damos conta de que toda a população de Damasco, de Beirute, Bagdá e Riad não dariam conta de completar a do Cairo.

Os prédios aqui parecem mais artísticos, têm desenhos mais bem cuidados, são mais atraentes do que as unidades de armazenamento do proletariado que vimos ontem de madrugada, quando pousamos. Dizem que os miseráveis no Cairo não moram nas ruas, que há décadas os sem-teto uniram-se aos sem-vida indo morar num gigantesco cemitério, transformando mausoléus em residências com direito a puxadinhos, posses de túmulos, locações, sublocações, comércio e parabólicas. O governo levou água e eletricidade, transformando a versão de moradia dos mortos em algo mais, digamos, vivo. Chamam-na “Cidade dos Mortos” e existe desde o século XIV. Dias depois perguntei ao nosso guia se era um lugar visitável. Ele respondeu que não, porque é perigoso. Uma pena.

Recupero da mente a programação do dia, cheio de tarefas turísticas, o que acentua meu desejo de largar a varanda e partir para a exploração. Custo a deixar a varanda e meu último olhar à paisagem foi como se estivesse agradecesse por um panorama que não cabia em si, embora sua parte mais desmedida ficasse para além do hotel. Me afasto sem dar as costas, sem desprezar o que agora invade o quarto depois de abertas as cortinas.

Retorno ao quarto e dedico-me a desfazer parte da mala e a explorar um pouco mais da acomodação, além de verificar as atividades do dia e separar o que usarei. Arrumo na mochila as câmeras, baterias e carregadores. Configuro a conexão do celular e do notebook com a Internet seguindo as instruções fornecidas durante o check-in. A namorada arruma-se no banheiro, seca os cabelos e fecha a porta para que o ruído não me incomode. O celular vibra e leio a mensagem de Mohamed Besheer, quem cuidou de tudo para nós em inúmeras mensagens por WhastsApp e e-mails: “Oi amigo, bom dia. Tudo certo? Quero confirmar se está tudo bem”. Respondo-lhe que sim, agradeço e lhe “digo” que estaremos na recepção do hotel à hora combinada para o encontro com o guia que nos levará à primeira incursão pela cidade: Mênfis – a primeira capital de Egito no reino antigo, antes da fundação do Cairo, onde fica a estátua de Ramsés II -, depois à Pirâmide de Djoser – a mais antiga e misteriosa de todas – um grande complexo funerário, usada para o sepultamento do Faraó Djoser, no século XXVII a.C.

Saqqara – A pirâmide de Djoser

Almoçaremos na rua, e a nosso pedido, num restaurante não-turístico que sirva koshary, o “arroz com feijão” egípcio, encontrado em qualquer pé-sujo de uma esquina cairota. Consiste em macarrão com lentilha preta, arroz, grão de bico, legumes, cebola frita e molho de tomate. Descrito assim parece um “mexidão” de sobras, mas não. Come-se num prato fundo e só de pensar nas fotos que vi, salivo. Percebo que estou com fome, mas também que para além do estômago “cantando”, ouço um coro de chamados para orações vindo dos minaretes da cidade. O café da manhã no hotel teria sido mais decepcionante, não fosse a fome unida à vontade de comer.

MênfisA estátua de Ramsés II

A seguir: CAIRO – O primeiro dia do resto de uma viagem


[1] Praça Tahrir, local central das manifestações populares da Primavera Árabe, nome romântico para os levantes políticos que começaram na Tunísia em 2010 e espalharam-se pelo o Egito – com milhares de egípcios protestando contra a presidência de Hosni Mubarak -, Bahrein, Iêmen, Líbia, Omã, Jordânia e Síria. A versão egípcia durou mais, da queda do ditador Hosni Mubarak até a transição comandada por militares e, depois, até uma eleição civil e democrática que um novo golpe militar retomou o poder para evitar que o Estado deixasse de ser laico. A turbulência vem e vai, e embora não se dirija a estrangeiros turistas, são manifestações violentas que os assustam e afastam, sem falar dos últimos atentados terroristas.