Myanmar Capítulo 1 – As lagartas de Kyaing Tong

Myanmar

Você quer comer lagartas?

– Como assim? Você quer dizer “lagartas”, insetos?

– Sim, de bambu.

-Vivas ou mortas, Patrício?

– Fritas!

– Vou tentar.

O homem tira de sua bolsa um saquinho plástico com as lagartinhas de bambu  fritas, compradas na manhã anterior numa banca do mercado de Kyaing Tong, que assim como as frutas desidratadas, são  um petisco popular na região. A embalagem, fechada com fita adesiva, não tinha rótulo ou qualquer inscrição. Eu não contava com algo como “Não contém glúten”, tabela nutricional, coisas afins, mas nada havia, sequer o nome do produto. Ninguém teria dúvida de que eram lagartinhas, afinal, visíveis ainda eram suas as cabecinhas, patas, os corpinhos rechonchudos, brancos e íntegros daquelas que um dia foram serelepes vivendo no interior de bambús nas florestas do montanhoso estado de Shan.

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Vivas ou mortas? Fritas!

– Do que são feitas, Patrício? São só lagartas? Têm algum tempero?

Estávamos sentados numa mesa de plástico sobre o chão de terra diante da pequenina venda defronte ao aeroporto. Mesa, venda e rua eram as únicas por ali. De sorte que éramos privilegiados por termos encontrado vago o lugar. Eu, Patrício – meu guia por toda a viagem – e Sing – o camarada birmanês natural de Kyaing Tong que nos guiou pelas colinas até as aldeias – nos sentamos para esperar a hora do embarque.

Patrício coloca a embalagem estufada de lagartinhas sobre a mesa e pede uma cerveja. Examino as lagartas mais de perto, sabendo que terei que encarar o desafio. Então, já que “Inês era morta”, tanto melhor ele seria se eu estivesse bem informado. Recoloco a embalagem no centro da mesa e espero alguém tomar a iniciativa. Sing abre, despeja um punhado na palma da mão e com a naturalidade com que eu como amendoim salgadinho, leva à boca e saboreia. Não mastiga, apenas remexe e pressiona o conteúdo com a língua contra o céu da boca. E não demonstra reação. Me agrada observar o comportamento das pessoas, tentar decifrar o que sentem, e todo momento elas dão pistas do que são, às vezes mais do que suas palavras. Não identifico nada, apenas naturalidade. O que eu queria era imitá-lo, de modo que quando chegasse minha vez, eu também parecesse natural. Pego a embalagem e pergunto:

– Como se chamam?

– Non mai phai. São muito comuns nos bosques de bambu do norte da Tailândia, do Laos e desta região de Myanmar. Dizem que também na província de Yunnan, na China, mas nunca estive lá.  Quando estão maduras, com uns 3,5 a 4 cm de comprimento, eles as retiram da parte ôca entre os nós dos bambús e depois as fritam. Os pa-yit kyaw (grilos) e os bi-laar (besouros) também são populares aqui.

Sing passa para Patrício, que despeja igual punhado na mão. Também o observo atentamente e sua reação foi discreta, não como a do colega, porque olhava para mim, dava uma luz sobre o que pretendia: me provocar, desafiar. Chega a minha vez. Eu estava confiante. Tomo um gole de Myanmar – a única cerveja do país – ele estende sua mão com o saquinho do petisco, olha em meus olhos e diz:

– Prove!

Soava como desafio, não uma ordem. E, ainda que eu não seja um viajante destemido, aventureiro intrépido, audaz desbravador, tenho lá meus medos, sou bom turista e não corro de desafios, mas também não tenho inveja dos que comem cérebro de macaco vivo. Me comporto como quero; sei que viajar é isso, mas também infinitamente mais que isso. Quero dizer, na medida do possível (e de minha coragem), provo de tudo, mesmo nunca tendo me atrevido a comer insetos nem achar que precise. Além de repulsivos, penso conterem parasitas. Ademais, sempre que os vejo imagino aquelas patinhas cheias de farpas agarrando na minha garganta e que não haverá jeito de desgarrá-los. Contudo, aquelas lagartinhas não eram insetos, e bem me  lembravam as do Brasil, maiores e mais gordas, chamadas gongo, tapuru, coró, morotó, fofó, boró ou bicho-do-coco, com a diferença de que aqui comem-nas vivas na floresta amazônica. Mas, como todo instante deve ser vivido intensamente, porque é irrepetível, resolvo fazê-lo.

Sem mais delongas, despejo um pouco na mão, a quantidade certa, medida antes com o olhar decifrador para Sing e Patrício. Aproximo o punhado do nariz e tento sentir o cheiro. Me preparo para engolir e olho para Patrício. Seguro o copo de cerveja com a mão esquerda e com a direita jogo as lagartinhas para dentro da boca como se fossem farinha. No primeiro instante não sinto sabor, logo depois, do óleo em que foram fritas. A textura era boa, seca e crocante, mas não o gosto, quase insípido, não fosse o óleo. Percebo olhares e expressões curiosos, então faço da espera algo positivo para mim, já que em minha boca iam bem as bichinhas. Com certa surpresa, depois regozijo, percebo sorrisos no partido que tiro.

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Os buracos entre os nós do bambu  para retirada das larvas

Não têm muito sabor. Devem ser melhor de comer cruas e vivas, talvez temperadas com sal e umas gotinhas de limão, como saboreamos ostras frescas e vivas no Brasil ou as lagartas do coco. Fritas elas perdem o gosto.

Sing sorriu e disse:

– Quer levar pra comer no avião?

A manhã ensolarada ainda tinha frescor. Eu estava na segunda cidade de um roteiro que começara dois dias antes na Capital, Yangon, e as aventuras ali consistiram em dois dias de trekkings de seis horas cada, através das encostas rurais, por lindos campos de arroz cintilantes e plantações de chá, a fim de visitar aldeias de diferentes etnias, de povos animistas[1], a residência de um xamã [2] de uma importante aldeia e como vivem. Eu estava comendo lagarta, tomando cerveja quente enquanto esperava o pouso do turbo hélice da Air KBZ pousar no terminal muito simples, quase um casebre de paredes caiadas, para irmos até a cidade de Heho,  porta de entrada para o lago Inle

Eu sentia saudades das experiências vividas, da comida deliciosa no mesmo lugar por duas noites, única opção de restaurante “chinês” que ficava numa rua residencial escuríssima, iluminada por postes de luz a cada cinquenta metros. A cozinha improvisada na garagem da casa era comandada por duas senhoras. O “salão” de refeições ficava do outro lado da rua: a calçada. Com o lago às costas e o pagode Wat Jong Kham na colina à frente. Duas mesas com quatro cadeiras sob uma árvore, de noite sob um breu iluminado por uma gambiarra de lâmpadas de 15 velas. O cardápio tinha pratos de comida chinesa com influências birmanesas, tudo a convenientes quinhentos metros da espelunca em que eu dormia.

O cardápio, sobre as opções e perguntando à moça que servia do que se tratavam. As respostas eram curtas, mas tinham um poder tão encantador quanto o da decifração dos textos egípcios por Jean-François Champollion: pork, chicken, noodle, vegetables, eggs.

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O pagode Wat Jong Kham e o lago de Kyaing Tong

Eu olhava para trás, no tempo, uma ocorrência psicológica que naquele momento me afastava do espaço que dividia com Sing e Patrício. Meu pensamentos me levaram a recordar o que me trouxera a Myanmar, escolha antiga, mas decisão tomada um ano antes. Eu estava tranquilo esperando o avião enquanto andava pelos pensamentos, mas começava a me tomar a impaciência, porque dali em diante o tempo gasto na espera me parecia perdido. Insisto no relógio, ansioso com a chegada do avião e a partida, ainda que não houvesse chance de perdê-lo, pois ainda estávamos a 30 minutos da hora da partida e o avião ainda em voo.

– Não é hora de irmos?, pergunto a Patrício.

– Ainda não. Quando ouvirmos o avião se aproximando, pediremos a conta. Estamos a quarenta metros do portão e já providenciei os cartões de embarque e o despacho da bagagem.

Aproveito a proximidade da hora do embarque e me despeço agradecendo a Sing, o guia especializado e indispensável para as visitas às tribos das colinas de Kyaing Tong. Era um camarada pacato, inteligente, educado e atencioso, que tornou a experiência nas tribos ainda mais rica, o que eu não compreenderia se estivesse só.

– Obrigado. Jamais esquecerei desses dois dias aqui. E além da memória, levarei tudo no coração.

Um abraço sela a despedida. Ouço o ruído do avião se aproximando do pouso e o impacto é instantâneo. Fico perplexo com a reação, a ansiedade acelerando o coração. É gênese do meu cérebro, nada além, e mas sempre que posso, tento escapar dela. Às vezes consigo. Me desola a convicção da inutilidade de uma situaçãomtão previsível, ao mesmo tempo condenável por minha autocrítica. Reflito, então, que se estou na terra do budismo, deveria pensar na prática zen, deixar passarem os pensamentos e buscar no enigma da consciência a paz, a fim de enfrentar agitações desnecessárias, permitir – na intimidade da consciência privada, quando um lado do cérebro discute com o outro a relação – o autocontrole.

Dou o último gole, pago a conta, levanto-me e caminho à frente de Patrício enquanto ele abraça o amigo. Entro no terminal desviando das mesmas galinhas que por ali circulavam na chegada. Espero Patrício, que logo atrás caminha ao meu encontro sorrindo. Num ritmo zen.

– Quer ir na frente, Affonso?, me pergunta sorrindo. “Quer seu cartão de embarque”, conclui.

– Você está certo. Obrigado por me trazer a tranquilidade. Rimos juntos e partilho com ele meu encantamento com os três primeiros dias em Myanmar.

A espera foi nada. Estamos entre os primeiros a entrar no avião. Tomo assento e com a porta ainda aberta sinto o último ar de Kyaing Tong. O embarque foi expresso e assim logo partimos, cinco minutos antes do previsto. “Tempo a mais para estar no lago”, penso.

Momentos depois, olho pela janela e vejo a cidade ficar pequena e para trás. Minha íris se enche de azul, de verde e de nuvens esparsas. Sinto prazer. De estar vivo, ter estado ali, escolhido aquela viagem e por reconhecer a magia que só elas me proporcionam.  Deixo um bom pedaço de mim por ali…

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[1]
Animismo: termo usado na antropologia da religião, é uma visão de mundo em que entidades não-humanas (animais, plantas, objetos inanimados ou fenômenos) têm essência espiritual. A crença de alguns povos tribais indígenas surgida antes das religiões mais organizadas. Animismo não é uma designação dada pelos povos que o praticam. Fonte: Wikipédia

[2] Xamã: portador das funções religiosas no animismo, pessoa que “entra” em outros mundos e tem contato com seus aliados (animais, vegetais, minerais), ou seres de outras dimensões, espíritos ancestrais. Um sacerdote ou sacerdotisa que, em transe nos rituais xamânicos, manifesta seus poderes invocando espíritos da natureza e incorporando-os a fim de receber orientações e ajuda para resolver as situações que desafiam as pessoas de seus grupos sociais. Fonte: Wikipédia

A seguir

MYANMAR Capítulo 2 – Yangon, o primeiro sabor birmanês

Myanmar (encerramento capítulo)

NAMÍBIA – EPÍLOGO. A beleza não tem limite

                Quando a noite chega, um mundo novo surge em Okonjima. Terminávamos o dia e a viagem na reserva de leopardos e guepardos. E que dia fora aquele! Vimos os mais belos felinos que alguém pode encontrar estando em África. Mas não foram os animais que desenharam a fisionomia e a personalidade do fim do dia, senão o mais belo anoitecer, o último de nossa viagem.

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                   Eu já desconfiava que encontraria um novo sentido para a palavra “beleza” no próximo entardecer. Afinal, desde o primeiro poente, em todos os dias eles repetiam sua impetuosidade, de tal modo que o novo tornava-se mais bonito e deixava o anterior em segundo plano. Perdoem a falta de humildade, mas os dias na Namíbia eram todos assim,  começavam e se iam com o sol nos fazendo mais felizes, os lugares mais bonitos e as fotos mais encantadoras. Mas aquele foi o mais loucamente belo da vida.

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                   Todo poente na Namíbia vem com uma vantagem: revelar um dos céus mais limpos, com as estrelas mais cintilantes, entre os mais admiráveis e infinitos que se podem observar no planeta. Nenhum poente é humilde, discreto e sem personalidade na Namíbia, mas arrogantemente belo, nos fazendo reavaliar, a cada novo, nossas convicções de que beleza tem limite.             

                     Aos poucos a natureza ia se tornando mais dramaticamente bela, uma conjunção de céu, nuvens, terra e cores, tons e contrastes de tal modo dinâmicos e integrados que tornava aquele o novo “mais belo pôr-do-sol” que eu vira no país. O mais belo sim, porque para nós tudo terminava ali, não haveria outro amanhã na Namíbia para nós, pelo menos não naquela temporada. É verdade, talvez o leitor perceba que eu estava mais sensível com o iminente término da viagem, emocionado porque ali brindávamos, em comemoração, a despedida.

                 Mesmo Verão, uma brisa soprava discreta, acariciava a pele e derrubava folhas e eu era tomado pela beleza e emoção de estar ali. O dia terminava e com ele a viagem, e não poderia haver melhor hora e lugar para nossa despedida. A luz minguava, adicionando poesia à paisagem, e eu aproveitava até o último momento sua partida.

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                 Dias depois, já em casa, quando as atividades acumuladas me deram tempo de “revelar” as fotos na tela do computador, uma dor – uma dor gostosa de saudades – me fez lembrar dos cheiros, dos sons, das vozes, das experiências, dos sabores e dos amigos. Agora longe, vejo mais uma vez – em dezenas de fotos – o sol derretendo o horizonte e aquele resto de luz criar um arco íris.

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                    Obrigado, Namíbia. Muito obrigado, François, Pedro, Gabriel, Grazi, Pará, Márcia e Haroldo. Por tudo, por tantos e por tão intensos momentos que vivemos juntos naquele solo.

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 Quer continuar comigo? Então vamos! Próxima viagem:

DIAS de MYANMAR

Da colonial Yangon aos mil templos de Bagan

Primeiro capítulo

As lagartas de Kyaing Tong

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NAMÍBIA – Capítulo 12 – Adeus, Etosha

              DEPOIS de uma aurora de tirar o fôlego, um desjejum de matar a fome e de posse de meu lugar no jipe, saímos de Namutoni em direção à reserva privada de Okonjima, onde habitam leopardos e guepardos. Já distantes do lodge, pela estrada de cascalho, François comenta que a hora é propícia para o encontro de gnus, avestruzes, girafas e zebras. “Cedo assim, talvez também elefantes e rinocerontes”, acrescenta.

            Não mencionou hienas, e nós ainda não as havíamos encontrado. Todavia, penso que não deva esperar por elas, embora gostasse de vê-las, pois até então a viagem não tivesse um só momento frustrante, então não seria justo que minha vontade de ver aqueles carniceiros astutos se tornasse um desapontamento.

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              Animais de péssima reputação, mas grande inteligência a serviço da caça, as hienas estão entre os mais fascinantes para se ver num safari, especialmente quando em atividade.  Tenho ainda boas lembranças de quando pela primeira vez as encontrei. Foi em Sabi Sands, África do Sul, anos antes. E de tê-las alimentado, face-to-face, em Harar, na Etiópia, quando à noite, cinco ou seis que vivem na periferia da cidade seguem um homem até o portão mais remoto da antiga muralha da velha cidade islâmica, a fim de alimentá-las com restos de carne de camelo vendida nos açougues do lugar e faturar algum depois do showzinho para meia dúzia de turistas incrédulos.

                 Sei que há três espécies, a hiena-malhada, a hiena-marrom e a hiena-listrada, e que todas têm a mesma energia e vigor. Dizem vir de seus corações, maiores proporcionalmente que os de outros mamíferos do mesmo porte. E que costumam guardar seu próprio alimento para se resguardarem da falta dele. Eu estava entretido com a bela paisagem. Iluminada ainda discretamente com o

sol baixo, os tons ainda eram sem contrastes. Consultando o mapa, visualizo nosso roteiro e ligo o GPS do celular para verificar o ponto exato em que estávamos. Estava quase fechando os olhos para um cochilo, embalado pela velocidade constante do carro, quando François reduz fortemente a velocidade e exclama:

Hienas!, Hienas!.

               “Não acredito. Será Ganesha?”, me pergunto às sete da manhã assim que ouço o alerta. Era um casal em movimento e alerta, distantes entre si, uma bem próxima de nosso jipe, outra dentro da imensa relva, apenas com acabeça à mostra. Começavam seu dia num ritmo e vigor invejáveis para a hora. François explica o porquê: um chacal rondava o território tentando roubar-lhes ossos grandes, talvez fêmures de gnus, escondidos na relva. Cada qual corria em direção oposta para buscar o seu e trazê-los para perto de si. Um chacalzinho solitário não ousaria se aproximar para disputar no tapa ossos daquele tamanho pendendo das bocas de cada hiena.

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              Da tentativa ao insucesso foram alguns minutos. Os mais estimulantes daquele dia na Namíbia. Seguimos nosso caminho já com o fascínio da aventura contagiando o começo da fresca manhã, e até o próximo destino, Okonjima, 361 qilômetros depois, no qual vimos adoráveis girafas, avestruzes, zebras, gnus e pássaros coloridos, como havia previsto François.

                Terminamos o dia com uma garrafa surpreendentemente boa de um tinto sul africano. Brindamos à memória de mais um dia fenomenal. E eu, a mim mesmo, pelo encontro com as hienas.

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

NAMÍBIA – Capítulo 13 – Onkojima – Leopardos e guepardos

NAMÍBIA – Capítulo 11 – Bom dia, Namutoni.

O Céu dentro de mim

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                Subo obstinada e decididamente uma centena de degraus até chegar ao topo. O coração retumba no peito quando saio da claustrofóbica escada. Enclausurada, ela circunda – estreita, e colada entre paredes – o interior da torre da caixa d’água do lodge. Lá em cima, um mirante. Nele, abre-se uma vista vertiginosa. Acompanho 360 graus de paisagem girando no eixo sobre os calcanhares. A paisagem era de filme, infinita, da vasta planície. Infiltrava-se pelos olhos e engolia tudo: eu, o velho forte alemão militar da virada do século XX, animais, terra e plantas. O núcleo de cada átomo, todo o planeta.

                  Naquela manhã o sol nasceu entre nuvens e com raios criativos, desenhando sombras na terra, colorindo o céu e o que podia quando chegava ao chão. Contrastes surpreendentes davam uma aparência bizarra e surreal à planície, me inspirando à observação como se eu já fizesse parte dela. Muito embora os raios de sol já aquecessem o ar, eu ainda sentia nos braços o frescor da madrugada.

                Desperto minhas melhores emoções observando aquela pintura. Olho com o coração e meus sentidos se excitam. “Isso é África”, exclamo baixinho. Era difícil sair dali, parar de viver o momento, deixar de ampliar os horizontes pessoais. Eu ainda tinha muito a refletir enquanto estivesse sozinho e completamente absorvido pelas terras do Etosha – e não por seu motivo mais digno – ser o símbolo máximo do conservacionismo namíbio, um tesouro para encontros e observação da vida selvagem – senão por sua imensa beleza. Tanto que quase me esqueci das aventuras do dia. E que me esperava o grupo, provavelmente dentro do jipe. Não sou retardatário. E se fosse, me envergonharia.

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               Faço alguns disparos com a câmera, mais rápidos e menos cuidadosos do que a paisagem merecia; corro contra o tempo. Viajar tem me proporcionado momentos marcantes, mas nem tantos como aquele, mesmo tão efêmero. Começo a caminhar para a descida e dou a última olhada para trás. Entro de novo no “túnel” com a consciência expandida, mas não sem um adeus sequer. Começo a descer com o céu dentro de mim. Um entusiasmo jovial me impulsiona e desço correndo. Roço a mão na parede e foco o olhar nos degraus. Ria de mim, pensava que se eu nunca relacionara a Namíbia em meus sonhos africanos, estava ali pagando pelo desleixo. E nem ela precisava me entregar tanto para me cativar o coração. Finda a escada, chego ao térreo e penso que precisava aprender a olhar melhor para países que nunca me atraíram. E que se há lugares imprescindíveis na Namíbia, aquele era um.

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                        O sol eu já sentia na pele ao entrar no carro. “Atrasado?”, pergunto. “Não”, respondem, o que me alivia. “François está acabando de engatar o reboque”, explicam. Assim como tem grandes virtudes o sol, a pontualidade é também admirável. Mas era o sol que me “chamava” naquela horas, já provido de satisfação por não ter feito me esperarem. Então, em vista disso, naquele momento, me aquecer era o mais agradável. Sentado em meu lugar no jipe, ainda estacionados, ouço ruídos e sinto o balanço do engate do reboque no engate do carro. Entre os muros do lodge instalado dentro de um antigo forte militar alemão, penso no que esperar daquele dia. Atravessaríamos boa porção do Etosha, de uma ponta a outra, e o mais óbvio seria pensar nas zebras, elefantes, rinocerontes, leões, leopardos, girafas, hienas, javalis, gazelas e tanto mais. Mas o melhor estava por vir. Afinal, nada é tão bom que não possa melhorar.

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                 Deixamos os limites do alojamento e sua atmosfera inigualável, suas boas, amplas e confortáveis instalações, acomodações agradáveis, restaurantes, uma loja de artesanato, piscina e o primoroso deck de observação de animais com vista para o poço do rei Nehale, e seguimos em direção à Panela de Sal.     

Panela de Sal do Etosha

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              Destaque no parque, o gigantesco Salt Pan é visível do espaço. Nunca estive a essa altura para confirmar, mas ali, no chão, diante dele, o horizonte me pareceu sem fim. E a panela de sal, um mar. Deve ser o tipo do lugar ideal para se caminhar até o meio e ver miragens nos confundido a visão.

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

NAMÍBIA – Capítulo 12 – Adeus, Etosha.

Hienas, gnus, avestruzes, girafas, mangustos, girafas e zebras: um dia entre as bestas da savana

NAMÍBIA – Capítulo 10 – Okaukuejo a Namutomi

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As pessoas sonham muito mais do que pensam. E se lembram muito menos do que sonham. Eu sou um dos que entendem pouco sobre os meus. E naquela noite, por exemplo, como de costume, não fiz a menor ideia se me ocorreram essas ficções da mente. Talvez porque antes eu não tenha experimentado sentimentos incômodos, por me encontrar livre de preocupações, sem angústias no coração e estivesse vazio de ansiedades. As experiências do dia deixaram de me dominar, porque o cansaço era imenso. Nem mesmo o eletrizante encontro noturno com os rinocerontes, na poça d’água de Okaukuejo, saiu da fase estática da memória para a dinâmica da mente. Eu estava amortecido pela exaustão e o ambiente contribuía para o repouso e desligamento. Não havia sons nem conversas audíveis. E não pus música para dormir. Nenhuma qualidade para mim é mais valiosa que o silêncio para dormir. Se me tivessem ocorrido os sonhos – essas utopias da imaginação – as histórias que eu haveria de contar aqui seriam outras.

 

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Acordo bem e o que não pensei de noite (e não sonhei de madrugada), jorrou da mente logo que abri os olhos, em verdadeiras tormentas cerebrais. Nenhuma virtude foi melhor que o silêncio daquela noite para meu dormir. Me levanto e tudo vai comigo ao banheiro e ali permanecem, em polvorosa, até depois do chuveiro. É hora boa, dizem os que cantam, para soltar a voz. Pra mim, que não tenho esse dom, é ideal para aplacar as efervescências mentais, deixando que a água escorra na cabeça como se “lavasse” também a mente. Contudo, o líquido ali é raro, demoro menos do que o costume num banho. Água não merece desperdício em nenhum lugar do planeta, mas na secura daquela savana, é coisa de incomodar mesmo um gasto mínimo de um simples banho. Um adesivo colado no espelho lembra aos hóspedes a raridade do líquido e pede sua economia. Nem precisava, mas acelero. Enxugo o corpo e a cabeça parecendo que a toalha secou também a tempestade.

 

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        Agora era o lugar isolado no planeta que me inspirava. Começo a pensar nas atividades do dia e consulto o travel journal: “Dia dedicado à exploração das áreas centrais do Parque Nacional Etosha – entre Okaukuejo e Namutomi“, é o que resume o informativo. Percorreríamos distância bem menor que a das longas travessias dos dias anteriores, algo como 133 quilômetros de estrada, fora os desvios. O maior deles para alcançar o Halali Camp, onde fica o Mohinga Waterhole Viewpoint, um interessante e atmosférico observatório em forma de anfiteatro, coberto com ripas de bambu, bancos para sentar, com vista aérea para um poço onde costumam ir rinocerontes, elefantes, impalas e leopardos.

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             Para nós viajantes, a configuração do programa era atraente, e segundo o jornal, tinha atrativos inegáveis, porventura ainda mais diversos em relevo e paisagens, sobretudo em diversidade animal, do que tivemos no dia anterior. Ora, era tudo o que eu não precisava para me encher de ansiedade. Limpo a câmera, arrumo a mala e sigo para o restaurante a fim de matar quem estava me matando. Depois no jipe, nosso pequeno grupo de entusiastas da fotografia e da vida selvagem presta atenção a François, que nos pede ajuda para subir o teto panorâmico, um sinal de que as chances de vermos animais estavam logo após a saída do lodge em Okaukuejo.

O diferencial, e principal característica do parque, é sua salina gigantesca, com 5.000 quilômetros quadrados, uma vasta área árida e branca com água às suas margens, que avistaríamos desde um de seus ‘mirantes”. Há muitas fontes naturais na “panela”, que atraem os animais da região, desde o minúsculo e endêmico dik-dik de Damara até o magnífico elefante.  Já os grandes felinos – leões, guepardos e leopardos – estão presentes em quase todas as áreas do parque, mas nas mais verdes, onde há boas possibilidades de encontrá-los e, com sorte, vê-los em atividade de caça. Quanto mais arborizada,  maiores as chances de observarmos aves, pois tem mais de 340 espécies, muitas das quais, migratórias.

 

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Dois leões e uma girafa _____________________________________

           Parece cruel, e chega mesmo a ser, mas também um raro privilégio presenciar. As emoções são mistas. Assistir um animal exercendo sua veia predatória enquanto sua caça visceralmente luta pela vida e contra a brutalidade da morte iminente, ainda que um evento corriqueiro na natureza das savanas africanas, é emocionalmente chocante, tanto quanto visualmente atraente ver caça e caçador em atividade. Logo depois de avistarmos um grupo de girafas, a cerca de 500 metros mais adiante e bem junto à estrada, dois leões, um macho e uma fêmea, estavam juntos ao corpo de uma girafa que acabaram de abater. Não chegamos a presenciar a batalha dos felinos para derrotarem mortalmente sua caça, mas a tempo de ver seu ventre acabado de ser rasgado, aberto e seus órgãos expostos.

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Ficamos uma hora no lugar e saímos. Quinze minutos depois encontramos um grande elefante. E no Etosha, onde são os maiores da África, vê-los é sempre um impacto.

 

Ao ritmo de Hatari! ____________________________ 

 

Absolutamente contagiante. Eu me sentia como em Hatari!, filme de 1962, estrelado por John Wayne, com locações na Tanzânia, que marcou minha infância, assim como sua trilha sonora, liderada pela memorável canção de Henry Mancini, Baby Elephant Walk (“O Passo do Elefantinho”). Um grupo internacional de caçadores se encontrava na África para a captura de animais selvagens encomendados por zoológicos do mundo.(*)

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(not so baby) elephant walk!

                   A estrada segue os contornos da enorme panela de sal, que no cumprimento se estende de Okaukulejo a Namutomi, até um pouco depois, ao von Lindequist Gate, nome que homenageia o governador alemão do Sudoeste Africano que em 1907 proclamou o parque uma reserva de caça, época em que caçar animais era considerado por muitos uma atividade politicamente correta.

                  O sol se punha em Namutomi. E não era comum, porque não foram todos. Que crepúsculo era aquele. No instante em que o sol se escondia atrás do horizonte, tornando tudo de sua cor, um gnu aparece próximo à linha do horizonte. Pasta placidamente, compõe um quadro mais que perfeito para meu olhar, depois para o registro com a câmera. Talvez não haja mais o que dizer daquele pôr do sol. Ou, então, coisas deixaram de ser ditas e a imagem não mostra. Se for, provavelmente era o que me dizia o coração diante de algo tão magnífico. Obrigado, Namíbia.

(*) Henry Mancini ‎– Hatari!

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NAMÍBIA – Capítulo 9 – Dia de Rinoceronte

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Rinoceronte-negro (Diceros bicornis) ou Rinoceronte-de-lábios-pontudos Poça d’água Okaukuejo, dentro do Parque Nacional Etosha. Fotografado às 22:15 por © Haroldo Castro / viajologia.com.br

A poça d’água de Okaukuejo _________

             Poças d´água são um mundo mágico, disse Mario Quintana. É claro que o poeta não se referia às namíbias, senão às comuns, urbanas, acumuladas de chuvas nas ruas e calçadas. Segundo seu olhar, “elas refletem um céu quebrado no chão, onde em vez de tristes estrelas, brilham os letreiros de gás Néon”. Aquela, de Okaukuejo, era nobre, importante. Deram-lhe até um nome pomposo: King Nehale. Não era comum, do tipo que a gente desvia ou pula pra não molhar os pés. Ou feita das mesmas águas, pois ali mal chove. Rios, lagos e poças naturais não existem para os animais saciarem a sede, então bombeiam água do subsolo para enchê-las, mas ainda assim, artificiais, não mundanas e originais como romanticamente enxergou o poeta, tinha lá sua magia, mistérios e efeitos fantásticos.

          Apenas um muro de pedra à altura de minha cintura me separava dela, os mundos humano e animal, poça, dos espectadores. Preferida por rinocerontes negros, eles “sempre aparecem depois que o sol se põe”. Foi o que cansei de ler. O holofote é para as noites sem luar banhando a poça. Mas é discreto, o puseram com o cuidado e capricho para não exceder a luminância de um céu enluarado. Olho para o horizonte sem deter-me nela e ouço os murmúrios da savana respirando seu ar fresco, impregnado de sua fragrância. Como era agradável estar ali. Inspeciono o lugar porque não há nada de rinocerontes. Nenhum outro animal também. Apenas dois ou três humanos esperando na “arquibancada”. A espera, e a ausência, afetaram minha bexiga. Volto ao chalé e imagino que o grupo já tenha retornado.

           Duas horas e meia antes, saíram para o único safári vespertino de toda nossa jornada. Aquele que não fui. Sigo para o restaurante e os encontro entusiasmados. Contaram ter visto quatro rinocerontes negros e três guepardos. Quatro! Daqueles raros animais em vias de extinção. Lamentaram que eu tivesse perdido a experiência, mas os garotos disseram: “Estamos dois mamíferos à sua frente!”. Sofro calado. Alguém tem pena de mim e diz: “Vamos torcer para que Ganesha nos faça encontrar novos rinos e guepardos amanhã, Arnaldo!” Agradeço o prêmio de consolação.

              Jantamos e tomamos vinho tinto sul africano. Brindamos, mais uma vez à vida, à viagem e a nós. Deixo a mesa antes de todos e me despeço. Permanecem ali por mais uma hora, a julgar pelo tanto que havia nas taças e de animação na conversa. Volto ao chalé, exausto, mas sem culpas por ter perdido o único safári com o sol posto de toda nossa jornada. A opção – ficar no lodge recarregando energia – fora consciente, pois eu reconhecia estar no meu limite e a possibilidade de um dia seguinte de ressaca caso não repousasse.

            O breve repouso recarregou-me de energia. Não muita, um quarto talvez, mas suficiente para uma sobrevida antes do sono, um sopro para desejar sair do conforto da cama e conferir a poça d’água. Sou um cara saudável, disposto, dinâmico e entusiasmado. Motivado a conhecer tudo que o mundo tem de interessante, e acho mesmo que tudo o que ele tem é de fato muito interessante. Então, aquela poça me chamava. E, devo admitir, não era uma qualquer. “Quem sabe eu encontre animais agora?” Penso e acho que seria melhor ir logo antes que fosse tarde e o sono me pegasse definitivamente. Na manhã seguinte, eu sabia, acordaria arrependido. Sou daqueles que não precisam contar os anos de idade para reconhecer que nesta faixa a gente tem menos tempo pra viver do que já vivido. Tenho muito mais passado que futuro, como disse Mario de Andrade, não o nosso escritor, mas o político angolano, que sabiamente definiu esse “chamado da vida”. Para os da minha idade, este é um apelo irresistível para viver intensamente o que resta, porque o tempo torna-se escasso, porque a alma pede pressa.

                Lá fora estava escuro, um breu de não se enxergar nada, e apesar da ausência de nuvens, a visibilidade horizontal era ruim. Pego minha pequena lanterna, acendo e ilumino o caminho. Trago a luz do quarto nos olhos, mal acostumados então enquanto seguem meu andar titubeante. As estrelas – escondidas até duas horas atrás – já cintilam como só nos desertos, mas só elas não bastam para que eu apague a lanterna. Vou da escuridão até a penumbra sob aquele céu pulsante, caminhando até a poça por uma pista de cimento com metro e meio de largura, uns cem de comprimento, que aqui e ali se desdobra noutras e serpenteia até cada chalé, depois segue em reta segue até o muro de pedra.

                Chego ao muro baixo para mim, mas alto para os animais, com cerca de três metros se medido do nível do solo do charco abaixo. Para nós, o muro é discreto, um limite quase imperceptível entre espectadores e animais, que nos faz sentir algo como estarmos num zoológico ao contrário, onde as pessoas estão “enjauladas” e os animais soltos perambulando. Uma fileira de bancos em forma de arquibancada nos dá o conforto de estar frente à frente, quase sem sentir a barreira entre os mundos humano e o selvagem com vista aérea. O charco é mal iluminado, para não tirar a impressão de noite, tem luminosidade semelhante à de um luar pleno, então, preciso ainda adaptar minha visão à pouca luz.

            Vejo a superfície do solo, grossa, seca, argilosa e pedregosa que rodeia o charco circular, um leito da vegetação de ervas e árvores esparsas, pontilhada por arbustos de acácias atrofiadas pela ação de elefantes, que assim plana se estende ao horizonte. Em outras palavras, é savana, como o nosso clássico cerrado brasileiro, mas que em solo africano tem esse nome romântico. É terra da mesma qualidade, ali no Etosha indo até onde os olhos conseguem ver, dando ao expectador a uma paisagem desafiadora que vai até a grande panela de sal, de puro sal seco, um mar seco, cenário para além da imaginação.

           Avisto dois vultos grandes e imóveis. Não identifico bem sua morfologia, então o cérebro associa o que vejo ao que lhe é mais familiar. E por culpa da má visão noturna que a vista cansada pela idade me impõe, penso ver elefantes. Começo a acostumar a vista à pouca luz do holofote e esquadrinho – seguindo a linha do dorso, do lombo à boca – e concluo, especialmente por sua pança, traseiro avantajados e pernas curtas, serem rinocerontes. Suponho que sejam negros, que em verdade são marrons, ou cinzas. Não tenho capacidade de definir mais, tanto por ignorância quanto por não enxergar bem, todavia, são da espécie que habita o lugar, diferentes dos brancos, dos de Sumatra, de Java ou dos indianos e de outras sete ou oito subespécies. A extinção daqueles animais que avisto é uma hipótese e, embora o evento não seja incomum no tempo geológico, é uma realidade dolorosa. Estariam ali daqui uns anos? Tornam-se, então, os troféus daquela viagem.

              Haroldo se aproxima em silêncio, pára ao meu lado e sussurra. “Tudo bem? São elefantes?”. “Tudo bem e vc?”, respondo. “Não são. Veja, não balançam os pés, não têm trombas nem orelhas enormes. Pelo contorno das bocas, parecem rinocerontes”, concluo. Eufórico, reconhece os raros animais e corre para seu chalé. “São rinoceronte negros! Vou apanhar a câmera e chamar os outros. Eles não podem perder isso!”. “Eu fico, não vou perder…”.

             Meus pés estão firmemente presos ao chão, mas eu parecia flutuar. Haroldo corre aos dois chalés e os chama. Rogério sai enrolado na toalha. Antes de chegar ao mirante, se dá conta e volta para vestir-se. Não leva um minuto e ele volta sorrindo: “Caramba, eu vinha de toalha, não sabia que tinha gente aqui!”. “Está tudo bem. Com esse breu ninguém ia enxergar mesmo…”, falo a ele e rimos juntos.

                Ter visto rinocerontes negros foi uma experiência por excelência e, para mim, um dos mais marcantes momentos da viagem. Faltava, todavia, ver as chitas, a fim de que eu voltasse a me igualar em número de mamíferos à contabilidade do grupo. Antes de dormir, Haroldo voltou à poça Okaukuejo e viu cinco rinocerontes, contabilizando naquela viagem o total de nove. Quem me dera eu pudesse ter parado o tempo para eu ir buscar minha câmera sem perder nada. Não os fotografei, com medo de perder a oportunidade. Haroldo me emprestou uma foto para ornar este post. A outra, peguei sem pedir. Mas está ali o crédito.

              Na manhã seguinte, iríamos de OkaukuejoNamutomi. Volto ao chalé e no silêncio do quarto jogo o corpo na cama. Deixo de ser homem para ser coisa. Durmo como uma pedra, porque pedra é coisa que também dorme.

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Fotografado por:
© Rich and Alice Go Globetrotting – Sept 2017 Etosha National Park
https://richandalice.wordpress.com/category/namibia/

         Orix blog

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Continuamos juntos? Próximo capítulo: 

Capítulo 11 – Bom dia, Namutoni. Adeus, Etosha.

 

                 

NAMÍBIA – Capítulo 8 – Do mar às planícies

Okaukuejo. Contatos imediatos no Parque Nacional Etosha

                    Desperto antes do relógio. Uma algazarra de pássaros ronda ruidosamente minha janela. Tive sono solto, noite bem dormida e acordo bem-disposto. Inclino a cabeça e consulto a hora: faltam cinco minutos para as seis da manhã. Desmarco o despertador, me levanto, vou à janela, recolho a cortina e abro a porta da varanda. O apartamento é no térreo e com vista para a prainha da baía de Walvis, o lado Atlântico da Namíbia.

                Olho para o céu e sorrio com o prenúncio de um dia ensolarado, ainda que encoberto, mas diferente da cinzenta atmosfera da tarde anterior. Sinto o ar litorâneo invadir o quarto e minhas narinas. Saio até um gramado, cinco passos depois da porta e sobre um piso de cerâmica. Observo um barco de pesca recém chegado ao porto junto ao hotel. Pescadores recolhiam uma rede e catavam os peixes presos nela. Jogavam-nos em caixas plásticas e os pelicanos na água tentavam a sorte. Não sei se esperando por furtivas oportunidades ou a generosidade dos homens.

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                 A cena bucólica era um convite a correr para vê-la de perto. O quadro era bonito, de coisas familiares a mim – como barcos de pesca, redes, pescadores, peixes e mar – mas de outras raras, como os pelicanos. Dou mais uma espiada e retorno ao apartamento. Deixo abertas a cortina e a porta. O sol e o verde entram comigo, mas param no meio do quarto. Sigo até o banheiro e não gasto mais que 5 minutos entre o banho e o barbear. Volto ao quarto enrolado na toalha e tenho a intimidade desvendada por gaivotas. No gramado, junto ao piso da varanda, me espiam desconfiadas. Ambos nos surpreendemos com o encontro. Penso em dizer-lhes,”Podem entrar, garotas!”, mas…

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                    Saio para fotografar antes do desjejum, temendo perder a cena dos pelicanos no cais. Cruzo com François. Está lavando o carro num box de serviços atrás do hotel.  O jipe já não tem vestígios da fina poeira do deserto, que no dia anterior grudara em todo o veículo, dos vidros ao chassi. Nos cumprimentamos e sigo ao cais. Encontro Haroldo fazendo o mesmo para que eu fora ali. Desejo-lhe bom dia e percebo que embora com nossas câmeras, nos deleitávamos mesmo era com a paisagem. Fotografamos, claro, e logo retornamos ao coffee-shop para o desjejum. A turma já havia se servido enquanto eu e Haroldo admirávamos a cena da baía. A refeição deles ia em meio, então tratamos de correr, pois nossa saída seria em vinte minutos. Não havia mais tempo para relaxarmos, 500 quilômetros nos esperavam até Okaukuejo.

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          Nos sentamos juntos e Haroldo explica o roteiro do dia ao grupo:

Hoje passaremos por cidades pequenas, como Omaruru, Kaalcop, Kalkfeld, Outjo e Ombika, e no final da tarde, nos aproximando das quatro horas, chegaremos à vila de Okaukuejo, dentro do Parque Nacional Etosha, onde nos hospedaremos. Nos esperam as maravilhas da vida selvagem no parque, os grandes animais africanos e, com sorte, possibilidades de contatos imediatos com eles.

         Encerramos a hospedagem com um check-out rápido e entregamos nossa bagagem a François, que ajudado por um funcionário do hotel a colocou no reboque.

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Bom dia, aventureiros! Hakuna Matata! Estamos começando nossa jornada para o nordeste até o Etosha National Park, diz ele com sua habitual simpatia e voz de locutor.

             A jornada começou pelo perímetro urbano de Walvis, às sete e meia da manhã, pontualmente como determinava o programa. Uma hora depois estávamos a atravessar um fascinante cenário de deserto. Havia alguma diferença em relação às paisagens que víramos até então. Uma parada no caminho para o almoço haveria de ser num lugar a cerca de metade da jornada. Logo, retornaríamos à estrada até o Anderson gate, um dos portões do Parque Nacional Etosha. 

Pessoal, quando chegarmos ao parque farei o check-in de vocês no Okaukulejo Camp enquanto vão ao banheiro. François deixará o reboque com a bagagem de no estacionamento e logo sairemos para nosso primeiro game drive no Etosha. O dia será longo, acordamos muito cedo hoje e só voltaremos ao lodge depois do pôr-do-sol, quando nos refrescaremos antes do jantar, explica Haroldo.

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             Me entrego às reflexões na estrada. Viagens por terra, especialmente as mais longas, costumam me levar à leitura e aos pensamentos. O jipe já me permitia essa intimidade de esticar as pernas para o corredor, reclinar-me sobre a poltrona, cruzá-las sobre ela, o relaxamento e o bem-estar. Quase fazia parte de mim. Sorte de termos um condutor bacana e um grupo de companheiros de viagem bem integrado. Mesmo já havia alguns dias juntos, cada manhã começava diferente, peculiar, surpreendendo com novidades. Assim como as noites também eram momentos de consagramos os belos dias vividos, brindando-os com vinho tinto sul-africano.

            Assim, relaxado, ora lendo, ora olhando a paisagem, percebo-a mais verdejante que desértica, lugar apropriado à proteção ambiental que na região onde iríamos, se consagra numa das mais reconhecidas no mundo. O parque promove o restabelecimento da população animal – entre elas a do rinoceronte negro, elefantes e chitas – mas também atrai o turismo e recursos importantes para o país. Mas é turismo maduro que se pratica na Namíbia. Nada se vê daquela coisa tailandesa de andar em elefante, morder rabo de tigre e entrar em jaula de animal selvagem dopado para tornar-se “domesticado”. Como resultado, o país vem se tornando um destino perfeito  para observação animal, atraindo cada vez mais viajantes.

            A viagem ia em meio e o que eu pensava seria alimento às expectativas e ansiedade pelos encontros com os animais. Contudo, a paisagem era tão absorvente, os momentos tão positivos, que não sobrava lugar para inquietação.

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O Parque Nacional Etosha ______________________

                         A estrada foi boa todo o tempo. Até mesmo dentro do parque Etosha, que com seus 22.000 km2 – dois mil a mais que o Parque Nacional Kruger, na Àfrica do Sul -tem toda sua área protegida servida por uma principal, asfaltada, e várias vicinais. A fauna selvagem vive (ou sobrevive, como é comum à saga de quase todos) livremente sem interferência humana. Parte do imenso território é dominada por uma enorme panela de sal e pelos prados que a circundam, numa gigantesca planície aberta.

                 Água, fonte natural fundamental para a vida, naturalmente está disponível nos raros charcos, mas seria insuficiente para o projeto ambicioso de crescimento da população animal. Então, bombeiam-na das profundezas de grandes nascentes por todo o parque. É a única interferência humana a seu favor. Então, é para lá que vão, quase sempre em bom número, beber nos pequenos lagos que se formam com a água jorrada do subsolo. Também é para vamos nós, turistas, estacionados, esperando ou contemplando-os os que já ali estão. É a oportunidade para predadores e expectadores.  Mais de 110 espécies de mamíferos, 300 de aves, além de anfíbios, répteis e peixes circulam por ali.

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                  Não há dúvida de que os animais são o foco de qualquer visitante. Mas também pode ser a geologia do Etosha, nome que se origina no idioma Ndonga, significa “grande lugar branco”. Sobretudo a panela de sal – ou Etosha Pan – uma das paisagens mais impressionantes do país, depois das dunas de Sossusvlei. A crosta branca e brilhante de sal da superfície se estende por 120 quilômetros, ininterruptamente. Contrasta com o céu azul e a faz parecer um mar branco rodeado de terra.

           Mas são eles, os animais, os protagonistas nesse palco geológico e geográfico, em número surpreendente. É fácil encontrá-los, principalmente ao fim do dia e de manhã cedo. Encontrar elefantes, girafas, zebras, gnus, leões e tantos outros é extremamente estimulante. Nossa expectativa, nos dois dias no parque, seria, desde então, a chegada, de trafegarmos cerca de 400 quilômetros dentro do parque atrás de animais em seus diferentes sítios.

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                  As planícies abertas mantinham os tons de verde de quando saímos, até chegarmos aos limites do parque, no Anderson’s Gate, próximo a Ombika, a 22 quilômetros de Okaukulejo – onde nos hospedaríamos. Essa distância percorrida até o alojamento já seria nosso primeiro game drive. Me sinto bem integrado à natureza da planície, graças à temperatura agradável e à propriedade do lugar de ser tão belo e sedutor. Haroldo aproveita a parada diante do portão para que François preencha os requisitos normais para nossa entrada no parque e nos diz:

Amigos. Em minha última viagem à Índia comprei pequenos Ganesha artesanais, de fibra natural, pensando em dá-los a cada um de vocês neste nosso safari fotográfico à Namíbia. Que ele nos traga sorte!

                  Distribui a pequena imagem cor laranja a cada um de nós, um simpático Ganesha, dos mais populares entre os milhares de deuses indianos. Acreditássemos ou não na divindade, o gesto era auspicioso. Guardo o meu ainda dentro de seu saquinho plástico e dali em diante em nenhum momento cheguei a tocá-lo ou invocá-lo. Hoje, “mora” junto a outras figuras na seção “Índia” de uma estante de livros, guias e objetos de viagens que mantenho em casa. De vez em quando olho para meu Ganesha e penso na naquela viagem. Não chego a refletir sobre o tema da religiosidade, mas concluo: “quem sou eu para desvendar os mistérios e crenças da humanidade?”. 

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                 Entramos num lugar com mais de uma centena de espécies de mamíferos selvagens em liberdade total, o que significa não controlados por humanos, a não ser a manutenção da garantia de sua liberdade total. Esse bem-estar gozado pelos animais  significa também que estão sujeitos ao que ocorre em sua saga pela vida: fome, sede, desconforto, dor, lesões, doenças, medo e aflição, diferentemente das reservas particulares, onde são protegidos mais amplamente, com ações humanas interferindo em suas vidas.

                  François aproveita a oportunidade para nos dar instruções de conduta e comportamento dentro do carro. Estaciona assim que passa o portão, num dos lados da estrada, ajoelha-se sobre seu assento, vira para nós e diz:

Nossa aproximação de qualquer animal será sempre com cautela e com o menor ruído possível. No caso dos elefantes, que se aproximam do jipe até podendo tocá-lo, embora possa ser intensamente satisfatório, vê-los assim pode assustar a gente. E dependendo da nossa reação, isso tem lá seus perigos. Vocês podem ficar de pé nas poltronas mas fiquem parados, calados e não façam gestos bruscos.

                Os elefantes – um dos big five (*) de um game drive africano – estão entre os animais mais perigosos da África, em virtude de seu tamanho, presas, de seu tronco forte e velocidade de até 40km por hora que alcança quando corre. Numa reação violenta pode facilmente abalroar e tombar um jipe como o nosso. Todavia, estão acostumadas aos jipes, bem como aos seres humanos dentro deles. Se bem comportados, claro. Ali há cerca de 2500 indivíduos. Graças à argila branca e à areia que se encontram no entorno dos pequenos lagos, são conhecidos pela aparência esbranquiçada de sua pele, devido aos banhos regulares dessa lama, que jogam sobre o dorso toda vez que vão beber água, hábito para arrefecer o corpo durante o dia e proteger a pele do sol. E porque precisam de muita água, permanecem nas proximidades, nunca se distanciam muito das poças de água.

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Girafa preparando-se para beber água num dos water holes do Etosha

                 Animados com a possibilidade de encontrarmos os maiores destes paquidermes no mundo – o Elefante Africano da Floresta – consequentemente maior animal caminhando pela terra, no lugar mais acessível para ver estes animais, seguimos para nosso lodge.

                 A estrada de asfalto – rodeada de arbustos espinhosos e de um verde para surpreendente – tinha inúmeros caminhos secundários de cascalho, e a luz da tarde ainda era boa, tornando-se quente à medida que se aproximava o poente, dali a cerca de 3 horas. Favorável às fotografias não só pela luz como pelo momento em que os animais saem para caçar, passear, pastar e beber água.

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Vejam, um elefante! É Ganesha a nosso favor! Não se passaram cinco minutos e já encontramos esse enorme macho. Acho que é meu record, fala Haroldo entusiasmado.

                      Consulto o relógio: 16:33h. Empunho a câmera e subo na poltrona, encosto o peito no teto – convenientemente acolchoado na parte interior do veículo – abro os braços e os apoio com a câmera segura pelas duas mãos, apontando para o paquiderme. Não era uma novidade para mim, eu já havia feito dois safaris anteriormente, na África do Sul, onde encontrei elefantes também bastante próximos do jipe, todavia em manadas e não daquele tamanho. Oh!, santa adrenalina! O solitário, enorme animal com presas veio em nossa direção, tinha o estilo “fantasmagórico” de se “vestir” típico do Etosha.

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Por favor, não balancem, disse alguém no jipe enquanto eu me levantava e subia na poltrona.

                    Aquele exemplar do maior mamífero terrestre saíu de trás de um arbusto e caminhou a passo de elefante para a estrada. François colocou o jipe de modo a que o animal viesse em nossa direção. Ao nos avistar, parou e nos esquadrinhou detidamente. Uns segundos que parecerem minutos e favoreceram bons registros fotográficos. Após ter-nos identificando como um exemplar de “animal estranho e barulhento”, já comum por ali, sabendo não haver perigo, retornou ao seu caminho. Com o jipe parado, nossa respiração também e, creio, quase os corações, ele decide aproximar-se até ficar a dois metros da lateral do carro. Os disparos são intensos e constantes, único som que ousamos fazer, além de nossa respiração.  Seleciono o modo “silencioso” do disparador de minha câmera, temendo ser mais um a incomodá-lo e o ruído tléc tléc tléc vira tlâc, tlâc, tlâc.

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                      O belo paquiderme se distancia de nós e segue seu destino, o water hole próximo. Chegando lá, zebras e springboks aguardaram seu espetáculo terminar, para depois também saciarem a sede. Leva água à boca com a tromba, depois a asperge sobre o dorso. Depois  pega água mais do fundo, com lama, e começa a jogá-la sobre si, parecendo a melhor parte de sua ida até ali. Satisfeito, sai e dá lugar ao bando de zebras que o aguardavam.

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                      Após o encontro, Haroldo exclama, aparentemente tão animado quanto nós:

 – Que Ganesha continue nos acompanhando!

                    Nunca ultrapasso a fronteira entre a realidade e a crença, mas balbucio algo parecido com “amém”. “Sorte de ser eu!” penso exclamando. Uso título da canção de Bill Evans – Lucky to be me  – pois poderia não ter sido eu a estar ali, a pegar o último lugar disponível no grupo “Safari fotográfico na Namíbia” do Viajologia.

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                     Não entraremos nos quartos. Vou fazer o registro de vocês na recepção, deixaremos a bagagem no reboque e quando voltarmos vocês já terão as chaves de seus quartos. Enquanto faço isso, podem ir ao banheiro e comprar algo para comer na loja do hotel. Esperem aqui. Não vai levar 15 minutos, diz Haroldo.

                  Os primeiros animais que vimos depois de deixarmos o Okaukulejo Camp foram avestruzes e chacais. Minutos depois, uma família de girafas cruzava a estrada defronte ao jipe. Pararam num descampado amplo logo depois de atravessarem a pista de cascalho, e ali ficaram bom tempo nos observando, um momento que aproveitamos para novos disparos intensos.

                Zebras estão entre os mais bonitos e comuns animais no parque, e sempre em grupos com muitos filhotes. A Namíbia tem duas espécies destes equídeos: a zebra de Hartmann e a zebra de Burchell. A primeira é maior e se assemelha às da África do Sul, ou Cape Mountain. Encontram-se no Etosha e no Parque Nacional de Naukluft. Já a zebra de Burchell é mais facilmente reconhecida pelas listras marrons claras e por que preferem terrenos rochosos, como no Etosha ocidental, ainda que sejam encontradas noutras reservas naturais da Namíbia, desde que haja pasto adequado.

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                 São brancas com listras pretas ou pretas com listras brancas? Segundo o biólogo da Fundação Parque Zoológico de São Paulo, Guilherme Domenichelli, não há dúvidas de que sejam animais claros com listras escuras, embora outras definições, defendidas faça com que o assunto não seja consenso. Atribuem à sua pelagem a particularidade do preto e branco contrastando-se em listras, confundirem predadores. Mas há quem ache que esta não aparente ser a melhor cor e padrão para camuflagem.

                    De volta à “casa”, bastante cansado, mas extremamente bem recompensado, mais um pôr-do-sol magnífico registramos às 7 e meia da noite, no Okaukeujo Camp, o mais antigo e popular lodge dos três que há dentro do parque. Este tem seu próprio poço de água, tão popular entre os animais, que o pessoal do hotel fez uma fileira de bancos para os hóspedes observarem-nos. Nossos chalés eram próximos do poço mas não exatamente defronte.

                 Jantamos no buffet do hotel. Pratos variados que comemos com vinho sul africano. Depois do jantar fui o primeiro a me retirar para o chalé, para dormir cedo, pois às 6:30 da manhã seguinte, para depois do café, às sete da manhã começarmos nossa exploração do Etosha, em direção ao Namutoni, onde nos hospedaríamos no Namutoni Camp, a 176 quilômetros distante dali, se não entrássemos em rotas secundárias.

                      Dormi ouvindo a música Lucky to be me – de Bill Evans. Sorte de ser eu!

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De Okaukuejo a Namutoni, um dia de safari no Etosha

(*) Big Five é o nome escolhido para num safari fotográfico – ou game drive – definir os cinco animais – leão, elefante africano, búfalo-africano, leopardo e rinoceronte – escolhidos pela dificuldade de serem caçados, não pelo tamanho, motivo porque o leopardo encontra-se na lista e o hipopótamo não.

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Continuamos juntos? Próximo capítulo: 

NAMÍBIA – Capítulo 9 – Dia de rinoceronte