De volta à Índia – Jaisalmer

  NIK_0815Os  cenotáfios de Bada Bagh, periferia de Jaisalmer

                           ACORDO ao som de pássaros e abro bem os olhos com o sol do deserto. Sua luz entra pela cortina e ilumina o chão do quarto, como se me dissesse “é hora de levantar”. O precursor de todo bom despertar é sempre uma noite bem dormida, então, levanto-me bem disposto e vou à janela de ferro e vidro. Avisto as aves em algazarra disputando algo, talvez sementes, quem sabe, insetos. O arbusto sem frutos encostado no muro de pedra da propriedade é o único tom a contrastar com o monocromatismo do deserto e da cidade. Sinto um cheiro agradável e o nariz não me engana: estou no deserto.

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O Lago Gadisar, Jaisalmer 

                         O calendário acaba de mudar para Janeiro. A viagem começara 4 dias antes em Delhi, mas era em Jaisalmer que eu me sentia em férias, naA última cidade da Índia antes do Paquistão, de uma terra nua e seca do deserto Thar, nosso primeiro destino depois da capital, a adorável urbe consumidora da sanidade dos turistas, das buzinas, do trânsito alucinante, das experiências iguais, dos tuk tuks, do patrimônio fenomenal, das imparáveis multidões e da comida de rua sendo um contraponto notável à silenciosa Jaisalmer.

                         Embora eu já à altura fosse um viajante com alguma experiência, e mesmo tendo estado na Índia duas vezes, não escapei das marcas daqueles dias intensos na frenética capital e das interferências em minha sensibilidade. Contudo, agora, com a areia beirando a janela do quarto do hotel de um só andar, eu me sentia um “descobridor” da Índia.

                         O ar está “limpo” e imóvel, não levanta poeira nem mexe com a copa das árvores. Faz frio e está seco, e a pouca umidade sinto na aspereza da pele das mãos.

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O forte de Jaisalmer

                          Concluo o adorável e fugaz conforto que a janela me proporciona,  ainda que me reserve apenas uma nesga da cidade. Ainda assim, é um convite à exploração e um incentivo às expectativas. A segunda etapa da viagem ganhava novo ritmo a partir dali, com novos horizontes e descobertas por virem. Sabíamos que e mesmo que aparentemente Jaisalmer não se compare à extensão patrimonial de suas concorrentes Jaipur, Johdpur e Udaipur, é cidade de grande personalidade, irrepetível em todo o Rajastão e com boas atrações. Do forte Jaisalmer aos havelis, das fachadas de pedra primorosamente esculpidas, dos cenotáfios de Bada Bagh ao Lago Gadisar, da exploração das ruas e seus mercados e templos jainistas.

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Os templos jainistas

                         Sou então tomado pela vontade de deixar a janela para ver e sentir o que é bom, mau, belo e feio da “Cidade Dourada de Jaisalmer”, clichê com o qual não resisti brincar , o mais usados em blogs, revistas, jornais, livros e afins. Há outros, como “Cidade das Mil e Uma Noites”, “Joia dourada do Rajastão”, contudo, o mais popular é este. Uma pesquisa no Google (“Jaisalmer, a Cidade Dourada”) resulta em 28 primeiros que usam o apelido intitulando suas postagens.[1]

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O bom e o belo: a cidade e seus habitantes

                            Jaisalmer é pequena e acolhedora, tem passado histórico, como todo o país, e em especial o Rajastão, mas particularidades. Desenvolvida em torno do forte, que domina a paisagem do alto da colina, ao entrarmos em suas vias estreitas ela sobressai. Pequena, mas com algo mais a conhecer para além do óbvio. A atração maior, depois do forte, são os havelis Patwon Ki e Nathmal Ki, antigas mansões com fachadas lindamente esculpidas, dois entre os cinco outros construídos num cânion de havelis adoráveis e atmosféricos, um dos lugares mais atraentes e desafiadores para cliques fotográficos.

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No haveli, janela com vista para o forte

Os havelis Patwon Ki e Nathmal Ki

                          O Nathmal Ji Ki Haveli foi residência oficial de um ministro-chefe do rei. Tem uma história interessante, pois foi projetado por dois arquitetos. Para olhares ingênuos, a mansão de vários andares parece uma só, mas quando o guia nos aponta as diferenças, a casa parece assimétrica, ainda que única, com metades singularmente diferentes, todavia sem qualquer linha que limite a partição, com os dois lados carregando diferenças sutis. Diferentemente do Patwon Ki, o Nathmal Ji Ki não é um museu aberto ao público, então, visitantes só podem chegar até o pátio de entrada.

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                         Os dois elefantes de arenito do Nathmal Ji Ki Haveli são representações icônicas das esplêndidas esculturas arquitetônicas de Jaisalmer e do Rajastão. Os havelis, também, dos mais importantes do Rajastão, chegam ao topo da qualidade do desenho e da ornamentação arquitetônica civil, constituindo-se numa forma extraordinária de expressão artística, cujas jharokhas, ou varandas, são obras-primas do trabalho construtivo em arenito amarelo, verdadeiras esculturas em filigranas, perfeitos exemplos da riqueza do artesanato, que apesar de ser em pedra, é fino, elegante e detalhado.

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                         O Patwon Ki Haveli é outro exemplo convincente da  riqueza dos que ali moravam. Construído na primeira metade do século XIX, foi  o maior de Jaisalmer. Guman Chand Patwa, seu proprietário, foi um abastado comerciante à época que encomendou a construção de cinco moradias nos andares do prédio para residirem seus cinco filhos. No interior, pinturas de parede esplêndidas e mosaicos espelhados. Contudo, sua fachada, uma escultura artística em arenito, tornou o haveli um ícone na cidade. Operado pelo governo, é hoje um museu com loja de antiguidades e artesanato.

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Um cânion de havelis

                         Aproximando-nos do haveli, vimos detalhes de suas varandas e fachada. Subimos o haveli por sua escada e outros detalhes intrigantes a ornamentação interior, decorado com pinturas e esculturas. Num nível acima, algumas salas vazias e pequenas janelas e nichos davam vistas para a rua. Apesar de não haver mobiliário e o estado geral não ser dos melhores, foi uma sensação de volta no tempo conhecer a antiga, autêntica mansão desde o interior. No nível mais alto, provavelmente o cômodo principal da residência, grandes janelas dão vistas para o Forte Jaisalmer. Depois, um terraço com uma vista ainda melhor e mais ampla. Descemos as escadas e voltamos ao vestíbulo de entrada, onde um belo pavão dava as boas-vindas aos visitantes.

Pelas ruas de Jaisalmer antiga

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A vaca e o tuk tuk

                        Voltamos à rua e vagamos pela labiríntica rede de vias pequenas da cidade antiga, desde os havelis  Patwon ki Haveli e Nathmal ji k Haveli até a região do Sadar Bazaar, passando por residências, comércio e ruas onde os moradores conversando, por pequenos templos e lojas, vendas e mercados de rua, por vacas passeando e às vezes até entrando nas casas. Apesar de estarmos numa região remota e desértica, a qualidade dos legumes e verduras era boa e surpreendentemente frescos e abundantes. Assim como em todo o Rajastão, vimos muitas lojas com roupas e artigos de casa e artesanais coloridos, de lanches, bolos doces e bebidas indianas, produtos de couro de camelo, antiguidades, bordados, cobertores, xales, tapeçaria, bonecos, caixas de madeira esculpida, lâmpadas de óleo e tecidos de seda e algodão.

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Convite de casamento

                        Os moradores locais acreditam que sendo Jaisalmer uma cidade pequena, onde todos se conhecem, a maneira mais eficiente de divulgar um casamento por acontecer é fazer um grafite diante de sua casa. Muitos comparecerão? Sim. E esta é uma peculiaridade de um casamento à moda indiana, convidar um a todos. Por gerações a tradição vem sendo mantida e preservada, inclusive pelas atuais. Independentemente, há beleza e charme na forma como eles são pintados nas paredes, de modo a terem se consagrado numa forma de arte popular e parte integrante da cultura local.

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Antigas moradias de abastados de Jaisalmer

A serendipitia e a fotografia

                        Entre esses caminhos serpenteantes, com velhas mansões, lojas de doces, de artesanato, mercadinhos, sujeira, vacas, muitas vacas, cães, restos, lixos e pedras no caminho, ruas com raras pessoas, cruzamos com Richard i’Anson[2], um dos maiores fotógrafos de viagens do mundo, do qual sou fã e seguidor no Instagram. Representante da Canon Australia, Canon Master Photographer, Embaixador da Fundação Australiana do Himalaia, membro da World Nomads, Mentor de Bolsa de Fotografia de Viagem da Austrália, um dos fotógrafos dos episódios Tales by Light, da National Geographic Channel no Netflix, diz ele, numa entrevista, que “a Índia está entre os cinco lugares que me fizeram”. Então, ali em Jaisalmer, na “esquina” com o Paquistão, rodeados pelo Deserto Thar, naquela manhã e naquele beco vinha ele em sentido contrário com sua câmera apoiada no ante-braço direito. Demo-nos conta disso segundos depois, e confirmamos a suspeita de que era ele que havíamos visto recolher a bagagem no mesmo voo que o nosso, um dia antes. Corri ao seu encontro e dobrei o mesmo beco em que ele entrara segundos antes.

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Com Mr. Richard i’Anson em Jaisalmer

                       Chamei-o:

Mr. Richard!, Mr. Richard!

                       Ele virou-se, e com a calma e uma simpatia que depois soube lhe ser habitual, ouviu minha apresentação, também com minha câmera à mão:

Sr. Richard, sou brasileiro do Rio de Janeiro, um grande fã e seu seguidor no Instagram, no Facebook, em seu site oficial. Assisti encantado algumas vezes ao seus episódios em Tales by Light. Estamos eu e mais três familiares viajando pela Índia, somos todos apaixonados por fotografia e quero dizer-lhe que é uma honra conhecê-lo.

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O falso sadhu mais famoso da Índia. Uma foto, uns algumas rúpias…

                       Surpreso, disse-me que esteve no Rio de Janeiro fazendo uma matéria sobre o Carnaval e que rodava o mundo fotografando festivais. Perguntei se podíamos fotografá-lo e ele respondeu com um sorriso. Foto feita, tietagem explícita consumada, saímos marcados pela serendiptia. Afinal, não é todo dia que se esbarra com uma personalidade de quem somos fãs, especialmente tão receptiva e simpática. Dali em diante ainda o encontramos acompanhado de sua esposa em duas outras oportunidades. Decidimos não mais abordá-lo nem o olharmos, a fim de evitarmos incômodo.

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Pelas ruas de Jaisalmer

NOTAS:

[1] Desisti de contar os que assim o faziam no corpo do texto, não no título. Que fique claro para o leitor que a cidade tem a mesma a cor do forte do deserto e das pedras de arenito, que “douram” tudo. Tirando, claro, as árvores, o céu, os carros, motos, as pessoas, as vacas e o artesanato, bem como os multicoloridos Ganeshas pintados nas paredes das casas

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[2]Página:https://richardianson.com/about-2/

Instagram: https://www.instagram.com/richianson/?hl=pt

Face:https://www.facebook.com/richardiansonphotography
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/richard-i-anson-7720018

De Agra a Jhansi, de trem, pelo Shatabdi Express

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                PARA quem já foi à Índia, e lá tenha sentido despertar uma espiritualidade inquietante, daquelas mesmo, carregadas de todos os estereótipos possíveis de caber numa cabeça, com direito à crença em todos os deuses hindus, tão poderosa que o fez jurar que sua outra vida foi na beira do Ganges, duvido que seja um indivíduo que tenha “visitado” o banheiro público da estação de Agra. Não há espiritualidade ou crença capaz de resistir àquele lugar. Mesmo a indiana. Os contrastes da imensa espiritualidade com a realidade (o sistema de castas e de culpar sempre a mulher no caso de estupros) em parte deve ter nascido ali, no banheiro da estação de Agra.

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              Um turista brasileiro, por exemplo, mesmo o mais crente, desses que acreditam até no PT, em homeopatia, em medicina alternativa, em guru indiano, em ervas curadoras milagrosas, no poder curativo do pensamento positivo, em tarô, búzios, chupa-cabra, numerologia, na previsão de futuro, em quem diz “trago seu amor em três dias” e naquelas “consultas” com astrólogos que acertam tudo de sua vida,  ali reavaliaria suas convicções.

               No país dos sem privada, o banheiro daquela estação é o túmulo de qualquer crença. Nesta e nas vidas passadas. A experiência de visitar o lugar é a mais escatológica que alguém possa ter a “oportunidade” de vivenciar. Depois daquilo, não é de se estranhar que na Índia muitos prefiram “fazer” ao ar livre, que mais de 500 milhões de pessoas naquele país evacuem a céu aberto. Parte delas nos trilhos das ferrovias, especialmente no início da manhã, antes que as multidões circulem.

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                    A Estação Agra Cantt é movimentada, mesmo nas primeiras horas da manhã. Nem tanto naquele domingo, pois não havia multidões nas amplas plataformas, contudo, nunca se está só nestas paragens. Gente sempre tem. E ali, sentada nos bancos e no chão, com ou sem bagagem, ouvindo anúncios de chegadas e partidas, não era a estação exceção à regra. Fazia muito frio. E nós estávamos ali de pé junto aos trilhos, encostados no carrinho com nossas malas quando nos deu vontade de “visitar” o banheiro. Mesmo para nós, que já estávamos em peregrinação turística pela Índia há quinze dias, teoricamente enrijecidos pelas visões de pobreza e sujeira, de toda a sorte de heróis humanos e animais tentando sobreviver, lembro de cada minuto da espera do trem. Íamos para Jhansi, esperando que o banheiro da composição fosse frequentável.

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                    Nós quatro já estávamos um pouco debilitados pela ingestão de algum veneno alimentar intestinal. Dois de nós já tivéramos as tripas reviradas, noites “dormidas” no trono, algo que nem mesmo nossas farmácias de viagem bem abastecidas e as consultas à nossa irmã médica no Brasil deram conta. Os banheiros, nestes casos de indisposição, eram o último lugar onde imaginávamos ir em busca de alívio imediato. Não há novidade nisso, muitos já se falou e não pretendo alongar-me no terma, pois quem já leu qualquer relato de viagem à Índia, sabe que banheiros públicos são o pior lugar para o alívio de diarréias. Que dirá o daquela estação. Fosse descritível seu estado, embora verdadeiramente trágico, eu preferiria “fazer” ao ar livre. Então, é um inconveniente impublicável contar-lhe sobre ele. Gosto de desafios, mas este é inconfrontável.

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                  Minutos depois, já acomodados em nossos poltronas no vagão, fui “visitar” o toalete da composição. Para os padrões indianos, sobretudo para o que havíamos visto na estação, era um paraíso para turistas indispostos em seus tortuosos, mas maravilhosos dias de viagem pela Índia. Limpo e fresco, com duchinha e papel. E não era daqueles com buraco no chão, que alguns chamam de “bacia turca”, o vaso sanitário “embutido” no chão, você tendo que fazer suas necessidades agachado, muito embora seja bastante mais conveniente porque não se precisa ter contato com o local onde outra pessoa sentou antes. Este era com vaso “normal” e perfeitamente frequentável, apesar dos pesares.

                A viagem foi ótima. Chegamos bem em Jhansi, de onde fomos de carro à incrível Orcha e depois à adorável Khajuraho.

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De volta à Índia – De Jaisalmer a Jodhpur, de carro

O Outono da minha Primavera

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                          MUITAS vezes sinto que sou o lugar onde estou. Hoje,  aqui em Jaisalmer, sou Jaisalmer.  É dia de meu aniversário,  o quinto de nossa viagem pela Índia e meu despertar foi brilhante. Descansado,  a cama já não parece cativeiro. Mas este não sou eu; acordo e me levanto, muito embora o frio hoje convide à preguiça das cobertas.  O ar também contribui para o bem-estar: já não é mais tão carregado quanto o da capital, dá-me a energia com que saio da cama, louco pela janela, não pelo banheiro. Vislumbro a cidade e sinto-me bem, afastado da rotina doméstica, bem integrado à indiana, apesar da não tão boa experiência no deserto, ontem. Observo-o agora da janela. A cidade está ao fundo e ambos têm a mesma cor.

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                           Desertos sempre me inspiram. mesmo aquele. Se alguém duvida que desertos motivem poetas, escritores,  seresteiros, namorados e fotógrafos, deveriam conhecer qualquer um.  Mesmo o de Jaisalmer, que o turismo predatório subtraiu suas melhores oportunidades de experimentarmos o romantismo que consigo encontrar neles.  Mesmo ali, em que a mente não consegue mais perambular pelas fantasias, ainda é um deserto. Sem a mais remota possibilidade de lembrarmos dos contos de Sherazade, história ali morta e enterrada pelas rodovias barulhentas às suas portas,  por montanhas de camelos com turistas em cima, acampamentos luxuosos e outros nem tanto,  shows turísticos e barraquinhas com sonoridade bombando, jipes cruzando e evoluindo nas dunas discretas e músicos à caça de turistas, aproveitadores e vendedores, areias sujas de lixo, sobretudo restos mortais daquilo que alguém um dia comeu ou bebeu.

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                       A paisagem me aquieta a mente, leva a um breve balanço dos meus anos de existência. Hoje completo mais um, estou no Outono de minha vida,  de minha pequena eternidade,  embora me sinta na Primavera. A Estação já passou, e eu nem precisava saber, pois o corpo e a pele demostram, mas sobra-me entusiasmo, ainda que eu reconheça que o “caminho” é para o Inverno, derradeira Estação da minha vida. Às vezes aparento andar meio cansado da lida, mas o vigor natural e umas vitaminas me empurram. Estou feliz., especialmente neste dia dois de Janeiro. Por estar vivo, na Índia e na companhia de três pessoas queridas. Espero – como é natural para os que passaram dos 60 e se aproximam dos 70 – com menor ansiedade, maior serenidade, o que me aguarda esta quarta-feira.

                        Vou ao desjejum e no caminho escapo ao jardim do hotel. A hora favorece o monocromatismo. Tudo se colore do tom sépia. Temos uma hora para o desjejum, quando ao final sairemos para nosso longo dia de jornada a caminho de Jodhpur. Inauguraremos nossas incursões rodoviárias pela Índia, algo estimulante e novo até aquele momento. Tenho tempo. E o café no hotel é espartano. Quinze minutos são mais do que preciso para alimentar-me.

                     Estamos num hotel em trecho aparentemente interminável de um campo seco, na beira da estrada de Jaisalmer a Jodhpur, no topo de um declive rochoso, periferia da cidade, esbarrando na fronteira com o Paquistão. Parece o último lugar da Índia antes da “terra de ninguém”. Dunas comem o asfalto e nada parece poder viver por ali. Ainda assim, encontro beleza na aridez,  mesmo subtraído – no dia anterior – de todo romantismo de meu olhar.

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                      A partida para o próximo destino é esperada com intensa expectativa, porque estradas são parte das intensas experiências que se vivem na Índia. As distâncias ali são medidas não por horas ou quilômetros, mas por experiências vividas. Ali, como nas cidades maiores, o trânsito é caótico, mas tem uma harmonia sem conflitos com a desordem. Depois de uns dias na Índia a gente continua sem compreender, mas percebe que sabe-se lá como, os envolvidos alcançam serenidade em meio ao estado geral de desordem.  Enquanto espero, delicio-me com o contraste da luz do entardecer de ontem com o desta dramaticamente brilhante manhã.  A cidade aparece inteira, enche meus olhos de sua cor e colore do mesmo tom as casas que nos rodeiam. Surpreende-me a importância daquele momento, embora pequeno. Atribuo esta marca aos mistérios que só as viagens me reservam, seus delírios perenes e fugazes que tornam-se prazeres, grudam na mente feito papel em bala Halls.

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                       Começaremos em breve nosso primeiro trecho rodoviário da viagem, uma nova experiência a vivermos na Índia. Palak, nosso amigo indiano, dirige a Van e nos protege. Nos acompanha desde o primeiro dia em Delhi e assim o fará por todo o destino. Está a postos com o sorriso discreto e genuíno recostado orgulhosamente na confortável Van Tempo[1] de 8 lugares, veículo que só se encontra na Índia. A vencer, teremos 5 horas e estimulantes 283 quilômetros, tempo e espaço que separam Jaisalmer de Jodhpur, a “cidade dourada” da “cidade azul”, os cafundós da Índia do próximo destino. A direção a seguir é noroeste, via Pokharan, pelas rodovias NH11 e NH125. Outras aventuras rodoviárias teremos depois nesta viagem, mas a primeira tem o sabor do ineditismo. A primeira vez numa estrada na Índia a gente nunca esquece, tal qual o sutiã a mocinha do anúncio da Valisére nos anos 80.

                    Palak arruma nossa bagagem no espaçoso compartimento de bagagem do carro e nos pede para conferirmos. Depois, abre a porta para que entremos, estende a mão para alcançarmos os degraus e já ao volante, pergunta:

                   – Passaportes, óculos, celulares? Não esqueceram nada?

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Pela janela do carro 

                   Partimos. A maioria dos carros estacionados no hotel também. Alguns tomaram o caminho da cidade, outros o da estrada. Eu tinha muitas razões para acreditar que seria uma viagem com boas paisagens e emoções até Jodhpur. Nos afastamos do hotel e logo passamos a fazer parte do deserto. Viagens por estrada na Índia presupõem cada parada uma atração, uma jornada quase tão boa quanto o destino. Teremos tempo para rever e organizar as fotos no computador, trocar algumas entre nós, ler, conversar, comer, apreciar a paisagem e fotografar e, quem sabe, uns bons cochilos.

                   A viagem para Jodhpur corre bem, os companheiros já aparentemente integrados ao país, um alívio pessoal, pois livrara-me do peso da culpa por tê-los influenciado. Vê-los assim é um prazer adicional, já que viajar é algo muito pessoal, intransferível, e cada destino visto pelo indivíduo segundo sua própria maneira de enxergar o mundo.

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                    Arrumo um bom lugar para pôr minha caixinha de som bluethooth e aciono o celular para tocar minha play list no Spotify com a concordância de todos. Uma das canções mais lindas entre as que tenho é dos anos 1980, composta pelo talento incomparável de Pat Matheny, cantada por Pedro Aznar e chama-se Dream of the Return[2]. Enquanto toca, sigo seus versos:

                      …Viajar la vida entera, Por la calma azul o en tormentas, zozobrar, Poco importa el modo, si algún puerto me espera…

                  Minha imaginação progride quanto mais mergulho na canção e na paisagem. São dez e meia da manhã e suponho que umas cinco horas ainda nos esperem até o destino. Às vezes, não é tanto a duração da jornada que traz sentido às viagens na Índia, mas os marcos no caminho, um álbum cultural de experiências e imagens vibrantes, neste pedaço do subcontinente, um retrato do Rajastão.

                       “…Viajar a vida inteira, Pela calma azul ou em tempestades emborcar, Pouco importa o modo, se algum porto me espera…”

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                     Volto à estrada e me lembro da máxima indiana: To drive in India you need three things; good breaks, good horn and good luck[3].  A rodovia é boa, surpreende quem espera o caos no asfalto. É bem pavimentada, tem boa sinalização e longas retas. Contudo, nem sempre a mão de direção é respeitada, motivo de alguns sustos e surpresas que nos fazem colocar as mãos no encosto da frente. Às vezes nem parece rodovia, porque trafega bem mais do que se espera numa rodovia, além de carros, motos e caminhões, camelos, macacos, vacas, bicicletas, tuc-tucs, tratores, carroças e gente, muita gente. Nos congestionamentos ocasionais, acidentes, pedágios e a trilha sonora das buzinas que nos lembram o trânsito de Delhi. Aqui e ali, brilham as mulheres rajastanis com seus trajes – ghagras, cholis e odhnis[4] – como se a estrada fosse um passeio, o acostamento fosse a “calçada”. Caminhões sobrecarregados de pellets para indústria de plásticos trafegam como podem, invariavelmente com a inscrição Horn please[5] no para-choque e exercendo o buzinaço como lhes é natural. Ônibus apinhados fazem recordar latas de sardinhas, homens carregam feixes de lenha na cabeça, bancas de legumes e verduras ficam nas margens da estrada defronte a vilarejos, carroças puxam-se por búfalos e carregam gente e mercadoria. Na Índia, a estrada pertence a todos.

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                   O trânsito do qual tanto se fala, sobretudo nas grandes cidades, para o desavisado visitante parece não obedecer aos sentidos lógicos de organização. Mão e contramão são regras subjetivas. É surpreendente, mas alguns dias no país e o curioso espectador consegue notar seus códigos, as convenções informais, a funcionalidade da bagunça. Se não fosse assim, não funcionaria, travaria. E ainda que do jeito peculiar indiano, lento e cheio de perigos, não é impossível perceber que regras existem, ainda que informais, algo bem definido no livro de Andrew Solomon[6], ”Lugares distantes: Como viajar pode mudar o mundo – que em alguns lugares do planeta”: Os únicos que dirigem em linha reta parecem ser os motoristas bêbados.

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                  Até então não encontrei guardas organizando a loucura. Nem mesmo nas cidades, o que é surpreendente para quem vem de uma megalópole como Delhi. Tampouco radares aplicando multas ou agentes de trânsito. Se existem, não os vi. Assim como nenhuma briga de trânsito. Se há governo na Índia, ele não aparece nas ruas controlando o trânsito, porque ele parece tocado por cada indivíduo, seguindo regras populares. A maneira mais fácil de compreendê-las é com a observação. Por exemplo, as buzinas. São irritantes, ensurdecedoras, infernais, extenuantes. Mas não são “loucura”, fúria levada a cabo por condutores desesperados. Não. Buzinaços ensandecidos ocorrem sim, quando por exemplo alguém atravanca o trânsito, mas, em verdade, regularmente há um código complexo o bastante para ser plenamente compreendido e praticado apenas indianos ou expatriados. Os toques nas buzinas têm múltiplas funções. Das mais óbvias – pedir passagem, avisar de algum risco (algo como “estou aqui”) – às mais informais: cumprimentar (“olá!”). E parecem existir hierarquias, tais como os mais fortes, os médios, os mais fracos. Em linhas gerais, quando dá, os mais lentos usam a pista esquerda e os mais rápidos a direita. Mas, não sei porque motivo, os tuk-tuks trafegam pela faixa central. Sempre que precisarem, por qualquer motivo, passam para outras pistas, mas retornam à sua assim que der.

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NOTAS:

[1] Force Motors Limited, montadora indiana de automóveis, conhecida como Bajaj Tempo Motors, joint venture com a Bachraj Trading Ltd. e a alemã Tempo e parcerias com as alemães como a Daimler, ZF, Bosch e a MAN.

[2] Dream of the Return – Álbum “Letter from Home” (1989) – Pat Metheny Group – Pat Metheny: Acoustic and Electric Guitars, 12 String Guitar, Soprano Guitars, Tiple Guitar. Pedro Aznar: voz

[3] Ditado popular indiano: “Para dirigir na Índia, você precisa de três coisas: bons freios, boa buzina e boa sorte”

[4] Ghagra, saia longa bordada e plissada, colorida, estampada, de seda, algodão ou crepe. Kanchli (ou choli ou kurti), vestimenta da parte superior do corpo, colorida e lisa, coladas no corpo. O toque étnico é dado por enfeites como espelhos, miçangas, lantejoulas, corais, conchas e bordados. Odhni, ou chunar, é um pedaço longo de tecido, com 2,5 metros de comprimento e 1,5 de largura, usado como véu, feito em tecido leve e transparente, bordados com contas ou outros enfeites.

[5] Buzine, por favor

[6] Andrew Solomon, um dos pensadores mais originais de nossa época, reúne neste livro escritos sobre lugares que passaram por abalos sísmicos culturais, políticos ou espirituais, um escritor de política, cultura e psicologia que vive em Nova Iorque e Londres e colabora com The New York Times, The New Yorker, Artforum, Travel and Leisure, e outras publicações.