Sevilha – Introdução

Sempre e para sempre (Always and Forever – Pat Metheny Group)

De volta ao começo, ao normal, ao admirável mundo velho

Às vezes eu estava lá, porque, afinal, o sonho é livre. Contudo, a maior parte do tempo, estive por aqui mesmo, em casa, mascarado e preso à falta dos sabores especiais de viajar. O cérebro transbordava em memórias e desejos, e entre nostalgia e esperança – dois sentimentos perigosos (se mal controlados) – surpreendia-me com recordações percorrendo os labirintos da mente, sempre pródiga em suas assimetrias a alimentarem memórias, da vida mesmo, de tudo, da cruel realidade da ausência das relações, dos milhões de beijos perdidos, de abraços proibidos, da devastação humana, das vidas salvas e das perdidas, da arrogância à negação dos cuidados, dos heróis e dos vilões da pandemia, da prisão imposta pela abstinência pandêmica, das fronteiras fechadas e das incertezas do livramento do maldito risco de morte. Restavam-me, então, as jornadas virtuais e um sentimento de “nunca mais” poder viajar.

Sei que não estava sozinho. Nem aqui, nem no mundo. Havia amigos, filhos, familiares, amada, sócios. Eu e a Terra vivendo a rude incerteza do presente. A dor que nos cercava, e a muitos aniquilava, às vezes fazia parecer sobre-humano lutar, que nossa hora iria chegar, cedo ou tarde, e que em breve as forças do mal arrombariam as portas de nossa vida confinada.

Cada um sentia suas coisas; uns morriam de medo de sair, outros de vontade de botar os pés fora de casa. Até que veio a primeira dose, uma emoção que não consigo contar, embora tenha sido um privilégio que desse ‘pra escrever um livro, uma sorte da qual jamais esquecerei, significativa, importante, tal como “viver de novo”.

Me lembro bem daquele dia. Enquanto eu estava na fila observando os que tomavam sua primeira dose, uns apavorados, outros sorridentes, chegando minha vez levantei a manga da camisa, fechei os olhos inspirei e expirei profundamente. Silencioso, confiante, como se assim eu potencializasse o poder da vacina com o poder da minha mente. “Pode abrir os olhos, senhor!”, disse a moça que me aplicara a injeção. Assim o fiz e notei sua expressão: um sorriso sugerindo que eu sentia medo, sem saber que eram êxtase, emoção, felicidade e agradecimento. Agradeci carinhosamente à jovem, que e talvez por isso não lhe tocasse o significado daquela vacina para cada um dos idosos da enorme fila. Ou, pior, para os integrantes dos grupos de risco mais graves. A sensação de “voltar a viver” era verdadeira, um presente, um privilégio. Então, senti-me vigoroso, verdadeiramente orgulhoso, e percebi que a desde ali as coisas começariam a mudar.

Então, apesar de persistirem resquícios de lembranças do passado, chegaram as esperanças no futuro. As minhas, vivas, remoíam no cérebro. A quarentena me fez compreender a necessidade de esperar com paciência e seguir pensando em lugares, imaginários ou desejados, alimentando meu desejo de um dia tornarem-se realidade em novas viagens. Aqueles dias, anos, em verdade, demoraram e, hoje, sabemos que continuarão para sempre. Agora, contudo, dois anos, oito meses e quatro doses depois da última viagem – gracias a la vida! – estamos libertos das suspensões e voltados às expectativas. Apesar de Agosto – que dizem ser do desgosto – quanta alegria poder voltar a voar neste mês.  

Aceito com reconhecimento, singeleza e humildade o privilégio de voltar a olhar o mapa mundi com olhos exploradores e inspiração, sobretudo o de começar a pôr em prática – sem desvios repressivos – novos planos que recuperam meu enorme, delicioso prazer de planejar viagens, de arrumar malas e de partir. Meu regresso à vida viajante torna esta viagem mais marcante, não ordinária e com mérito libertário, uma consequência memorável, embora me pareça que isto tudo soe sem originalidade, pois meio mundo parece ter tido a mesma ideia ao mesmo tempo e resolveram partir antes que fosse tarde demais, tal qual estouro de boiada.

Estou de volta ao passado, ao de um turista intencional, embora dando os primeiros passos nesta escapada a uma de minhas cinco cidades prediletas no mundo, Sevilha, um caso de amor à primeira visita há mais de 30 anos, quando me ocorreu uma sequência infindável de belezas que me abraçaram e infectaram feito germes desde o primeiro instante. Experimento agora um “dejà vu” sem estranheza, uma agradável sensação de estar onde quero e escolhi, embora imaginando que não vá sentir os impactos dos encontros inesperados de outrora, talvez porque concentre todos esses desejos em que sejam agora dirigidos à companheira, o motivo fundamental desta jornada: mostrar-lhe, tão logo possamos, as minhas cindo cidades prediletas do mundo: Istambul, que já conheceu comigo, Bangkok, Sevilha, Barcelona e Praga, planos em sérios planejamentos.

Não preciso me lembrar, nem a você, minha companheira, do inesquecível: nossos momentos juntos no auge da crise, nossos medos, nossas precauções, as escapadas à rua com tudo cerrado, nossas voltas de moto pela serra de Petrópolis ou Teresópolis como se emoreendêssemos uma aventura ao Atacama, ao bairro da Urca, àquele café, único café aberto em toda a cidade, das nossas noites diante da TV, da limpeza das camadas de ferrugem pelas caminhadas no condomínio, de nossos jantares em casa, das viagens off Road à Serra da Canastra, de todas as lembranças que jamais desaparecerão, sobretudo de imaginarmos – com os olhos abertos ou fechados – qual seria o lugar perfeito para comemorarmos o fim das privações. Por bem, estamos aqui agora!

Apraz-me, então, tanto escrever quanto viajar. E escrevo o que sinto com a mesma genuinidade de sempre, usando as palavras com respeito ao leitor e cuidado às suas convicções. É bom saber que a escrita tomará corpo, vida, caminho e independência, que na virtualidade da Internet, pelas vias deste blog, alcançará os olhos de alguém e se tornará quase um personagem. E assim como num conto, tal qual uma janela que se abre, que seja com ele generoso, que toque seu coração e mente, o motive, inspire, contudo deixando-lhe toda a liberdade do veredito final: divertir-se ou não, encontrá-lo aqui novamente ou vê-lo sumir.

Até lá!

Próximo capítulo: Sevilha – Acabamos de chegar