No Haveli Dharampura, um lassi de manga, por favor!

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           Nas ruas mais “tranquilas” da velha cidade, enquanto caminhávamos desviando de triciclos, tuk tuks, motonetas, carrocinhas e gente, deixávamos para trás a ruidosa Chandni Chowk e mergulhávamos nos becos estreitos e silenciosos de Velha Delhi. Antes passamos pelos concorridos bazares Dariba e Kinari, especializados em jóias e roupas para casamentos e festas, e logo, a certa altura, entramos numa pequena via com toda a cadência, atmosfera e personalidade peculiares a Chandni Chowk, muitas fachadas desgastadas, preciosidades escondidas por toda sorte de descasos, belezas arquitetônicas roubadas em sua originalidade,  palacetes que a despeito de tudo, mantinham uma nobreza admirável.

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                     Por ali havia uma esquina. Hoje eu não conseguiria localizar seu ponto exato no mapa. Nela,  uma portinha que vendia apetitosas (e perigosas!) samosas. Não resistimos. Fritinhas na hora em óleo centenário, servidas embrulhadas em pedaços de jornal rasgado. Ainda hoje não sabemos se foi este nosso atrevimento culinário que nos atacou severamente as entranhas, mas estavam saborosas. Tanto que as repetimos, a despeito de apimentadas. Não experimentamos, mas eram também atraentes o que vendiam noutras iguais lojinhas: naan khatai, puri choley, pakora e lassis, o que faz do bairro um dos mais antigos e deliciosos centros de prazeres gastronômicos populares da cidade.

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                   Depois de incontáveis novos esbarrões, do vai e vem de pessoas cuidando de seus negócios diários e compras, de sarees de lantejoulas nas vitrines, de tudo o que pode se encontrar de mais lindo ou kitsch por ali,  a história, muitas vezes perdida em becos escondidos, com ou sem saída, pode surpreender e atrair o turista mais atento aos detalhes, verdadeiros fios perdidos, expostos em fachadas, janelas e portas que abrigam parte de um passado nobre de riquezas expressos sobretudo nos havelis, alguns dos últimos remanescentes do ilustre e glorioso passado de Chandni Chowk, onde dói testemunhar a força com que a modernidade invade a história e a vai apagando,  deixando que os sinais do tempo desgastem tanto as fachadas que elas parecem prestes a entrar em colapso, como se apelassem aos olhares mais atentos para que não as deixem definitivamente entrarem para a memória depois de destruídas.

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                   Seguimos, após a parada culinária observados por macacos sorrateiros, entre um cânion de edifícios em mau estado, de fachadas novas e antigas escondidas por emaranhados de cabos de energia, naquele estilo indiano que só eletricistas insanos metem a mão. Havelis e pequenos templos jainistas antigos escondem-se por trás de uma teia de fios, cobertos de sujeira acumulada, por telhadinhos plásticos e puxadinhos, entre outras peças da parafernália que oculta algumas das preciosidades arquitetônicas e patrimoniais da área.

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O Haveli Dharampuraum belo edifício restaurado, convertido em hotel-boutique

                    Não era o lugar onde eu esperava encontrar um meio de hospedagem com aquele padrão, mas a novidade não apenas revigorou o prédio como pode trazer à área outras iniciativas que recolocariam em uso antigos palacetes abandonados. A mansão do século 19 tem bons quartos, um simpático restaurante – o Lakhori – e um pequeno terraço junto ao telhado com vistas muito interessantes para aquele trecho de rua, para os telhados e fachadas de prédios próximos, como também para as cúpulas em forma de cebolas, com os minaretes da Jama Masjid.

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              Nos sentamos para um café e um mango lassi, a bebida cremosa feita com iogurte e fruta, uma pitada de gengibre, extremamente agradável no sabor e refrescante, dizem também que adequada para amenizar os efeitos das comidas apimentadas, devido à propriedade que dizem ter o iogurte.

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             Um funcionário nos leva a conhecer a pousada e o terraço. Orgulhoso, termina o passeio nos contando um pouco da história do edifício. No terraço, aponta lugares para boas fotos, demonstrando o que aprendeu com outros amantes da fotografia que por certo ali estiveram antes de nós, entre eles a estreita rua abaixo, visão vertiginosa a partir do parapeito, e parte das cúpulas em forma de cebola e minaretes da fabulosa Jama Masjid, visão encoberta  parcialmente por telhados e terraços, antenas e caixas d’água vizinhas.

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                   A breve parada foi além de descanso, inesperada oportunidade de conhecermos os pormenores de um haveli, sobretudo de seu interior, antes de seguirmos pelas ora sombrias, ora luminosas ruas estreitas de Shajahanabad e Chandni Chowk.

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Kucha Pati Ram – Um lado escondido da história

                 Continuamos nossa caminhada até outra antiga glória: Kucha Pati Ram, uma rua sem saída com havelis e história quase esquecida pelo tempo, fora do roteiro comum do turismo. Um beco com mansões da época de Sha Jahan, quase a totalidade em estado negligente de manutenção, hoje com aparência de casas populares. Portões e janelas arqueadas escondem o que há por dentro, quase bastam para encantar o observador com desejo de conhecer os interiores, inacessíveis, a  não ser a seus moradores. Minuciosos detalhes ornamentais cobertos por poeira, teias de aranha, fios elétricos e letreiros.

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              Kucha Pati Ram é um beco com antigos palacetes, alguns ruinosos, outros apenas desbotados, todos gastos e cansados, cujas chabutras (portais) quase não se percebem. Elaborados, ornados, esculpidos, adornam as portas que dão acesso aos pátios centrais, proporcionam uma ideia de como se vivia na época dos tempos dourados de Chandni Chowk, sob as regras do Islã: casas com intensa vida interna, convenientemente escondidas pela vida das ruas.

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             Cada haveli tem sua obra de arte distinta, uma mistura de temas religiosos, mitológicos, sociais, familiares e históricos, tendo também Krishna e sua vida,  assim como cenas do Mahabharata e do Ramayana como tema recorrente nas pinturas, revelando que naquela residência morava uma família com tradições hinduístas, entre as cenas da corte real islâmica, pois havia liberdade para improvisações nos temas ornamentais, o que fica evidente na inclusão de recursos visuais da tecnologia moderna, como ferrovias e carros, para além dos religiosos, compartilhando o mesmo espaço. Pinturas de retratos também se tornaram populares, um meio de registrar a história da família proprietária e sua genealogia.

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De volta à Índia – Shajahanabad

                      Descemos do tuk tuk espremidos entre outros e defronte às muralhas do Forte Vermelho e do Shri Digambar Jain Lal Mandir,  o mais antigo e conhecido templo jainista em Delhi. Entramos a pé em Chandni Chowk – a artéria principal de Shajahanabad – nome pelo qual se conhece a velha Deli, ou cidade de Sha Jahan, via por onde corre o sangue de uma cidade que embora tão antiga, não para. Afinal, é urbe pra lá de vinte milhões de habitantes.

A outrora bela avenida larga, principal da Capital mogol, tinha um canal aberto no meio e era ladeada por árvores. Por ela passavam carruagens e comitivas da nobreza, então já um movimentado mercado. Hoje é quase um bairro, lugar da maior e mais estonteante desordem visual, de multidões, de edifícios antigos descaracterizados por letreiros, de lojas tão pequenas que parecem buracos, de gente prestando os serviços mais inusitados na beira da rua, especialmente no trecho entre os templos jainista Digambar Jain Lal Mandir e o sikh Gurdwara Sisganj.

                      E assim nos metemos no meio de um desfile imparável de gente, bicicletas, riquichás, tuk tuks, carregadores de mercadorias, esfarrapados, mendigos, vacas ruminando lixo e cães. Todos seguindo igual direção. Seguro com firmeza a mão da namorada e olho inúmeras vezes para trás buscando interpretar as fisionomias do irmão e da cunhada. Compartilhamos a pé um espaço tão exíguo e com um tal número de indivíduos, que faz o Princípio da Impenetrabilidade – a Lei de Newton, onde “dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo” – parecer uma tese que os indianos se incumbiram de desmontar.

                     Nenhum prédio nos faz olhar para o futuro. Tudo ali é passado. Ops!, não, vejo um Mc Donald’s. Por que a Índia haveria de escapar da globalização?  Vá lá. Más é onde na Índia se percebe o que chamam “desordem urbana” e “caos”. Nosso guia vai à frente, tranquilo como se caminhasse por Lohdi Gardens. Come um saco de pistaches que carrega na mão direita. Percebo em nossos semblantes controle, um pouco entorpecidos, talvez, mas resilientes. “Estão preparados”, convenço-me.

                     O ar é oleoso e poeirento. O ruído de buzinas, permanente. Não há trégua para os ouvidos.  Olhamos ora para o chão – a fim de não pisarmos no indesejado -, ora para cima – surpresos com o mafuá de cabos elétricos, um emaranhado de cabos de energia, provavelmente muitos deles piratas. Só Ganesha sabe para onde aqueles fios vão. Tudo é um chocante contraponto à quietude dos parques Lodhi e Mehauli, oásis da cidade.

                  Me incomodava a loucura? Não. Ao contrário, ela me estimulava ao me fazer reviver a experiência. Dou-lhe um desconto, afinal, a rua estava em obras. E a familiaridade conspirava a meu favor, então, eu estava no controle, “cuidando” de meus companheiros de viagem, temendo que a experiência lhes fosse demasiado excessiva, ao ponto de transbordá-los e ali pensassem: “Por que não escolhemos Seychelles?”. Digo à namorada: “Não temos nada a temer”.

               Nossos passos confundem-se com outros, milhares de outros. Nossos olhos – ora no chão, evitando tropeços, ora na paisagem – seguem o rumo da multidão, da maré de gente e tudo mais que se move, cruza, estaciona, buzina, muge, late e fala. Em Chandni Chowk, gente não só caminha, também esbarra, se contorce e desvia de tudo para seguir seu destino.

            Passamos defronte ao prédio do antigo Banco do Estado da Índia, cuja grande fachada com arcos, colunas romanas e tetos altos são típicos da arquitetura da colônia inglesa, hoje área de um dos maiores mercados de eletrônicos da Ásia. Alguns passos à frente, passamos pela Dariba Kalan, uma rua popular especializada no comércio de joias de fazer homens e mulheres perderem a cabeça.

             Pegamos um tuk tuk em direção ao miolo do bairro. Conseguiu ser ainda mais vibrante a experiência do que a caminhada anterior. Mãos pra dentro, pra não perdermos os dedos. Descemos defronte à Mesquita Fatehpuri, na rua Katra Bariyan. Uma das três construídas no reinado de Shahjahan, em particular, esta atribuída à generosidade de sua esposa, Fatehpuri Begum, que marca o ponto extremo oeste do eixo Chandni Chowk.

           Niraj, nosso guia (grande guia!) detem-se diante de uma loja de doces clássica. Diz chamar-se Confeitaria Chaina Ram Sindhi, “a mais antiga loja de doces de Old Delhi”, completa. Provamos na calçada (não havia outra opção) o Karachi Halwa e o Daal ka Halwa. Gostamos tanto que trouxemos uma caixa.


	

De volta à Índia – Purana Qila, na Velha Delhi

                   Acordo mais cedo do que preciso. Meu relógio biológico demora mais do que desejo para entrar no compasso dos 17 milhões de pessoas que vivem em Delhi, apesar do cuidadoso preparo de terreno na noite anterior: cerrar as cortinas, não deixar frestas de luz, apagar qualquer vestígio dela. Ainda assim, sinto-me como pilhas precisando de recarga. Vou à janela ver o pedaço que ela me reserva da cidade. Ainda estão acesas suas luzes, quando a poluição do ar parece mais notável, marcada nos rastros alongados e círculos ao redor das lâmpadas.  Começamos o dia pela tranquilidade de Purana Qila – ou Old Fort, onde a história é ainda mais antiga que Shajahanabad. E apesar de belíssimo, um dos lugares turísticos mais cativantes da cidade, é pouquíssimo visitado. Sua serenidade não prepara o viajante para a intensidade de Chandni Chowk.

Bada Darwaza

            Ainda cedo cruzamos o Bada Darwaza, um de seus portões majestosos, e logo depois o portal Talaqi Darwaza, que leva ao imenso parque interno. Ambos fazem o visitante desavisado pensar que o forte esteja de pé, apesar de lhe sobrarem apenas ruínas. A eventual decepção é compensada pela belíssima mesquita Qila-I-Kuhna e pelo pavilhão Sher Mandal, construções das mais belas da cidade. Àquela hora da manhã, tão cedo, ainda não havia turistas, senão jovens casais ocupados com o namoro envoltos pela bruma de poluição, emprestando uma imagem romântica ao lugar.

O que sobra de Purana Qila

    O Sher Mandal foi construído como observatório celeste pessoal e biblioteca de Humayun, de onde ele caiu do segundo andar e morreu.  Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho, tem incrustações de mármore branco e preto, construído por Sher Shah, é uma grande mesquita de um único corredor, um dos primeiros exemplos na região em que se usou o arco aguçado, que lembra o gótico.

      O Sher Mandal, prazer e morte de Humayun

      O interior de Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho, é ricamente decorado com elementos islâmicos e o conjunto da edificação o tornou um marco de transição do estilo Lhodi – mais discreto e contido – para o mogol, mais grandioso e imponente. A fachada frontal tem desenho e decoração notáveis e o interior é surpreendente, com um iwan marmorizado, arcos, saliências no teto, abóbodas, colunas e arcos.