De volta à Índia – Shajahanabad

                      Descemos do tuk tuk espremidos entre outros e defronte às muralhas do Forte Vermelho e do Shri Digambar Jain Lal Mandir,  o mais antigo e conhecido templo jainista em Delhi. Entramos a pé em Chandni Chowk – a artéria principal de Shajahanabad – nome pelo qual se conhece a velha Deli, ou cidade de Sha Jahan, via por onde corre o sangue de uma cidade que embora tão antiga, não para. Afinal, é urbe pra lá de vinte milhões de habitantes.

A outrora bela avenida larga, principal da Capital mogol, tinha um canal aberto no meio e era ladeada por árvores. Por ela passavam carruagens e comitivas da nobreza, então já um movimentado mercado. Hoje é quase um bairro, lugar da maior e mais estonteante desordem visual, de multidões, de edifícios antigos descaracterizados por letreiros, de lojas tão pequenas que parecem buracos, de gente prestando os serviços mais inusitados na beira da rua, especialmente no trecho entre os templos jainista Digambar Jain Lal Mandir e o sikh Gurdwara Sisganj.

                      E assim nos metemos no meio de um desfile imparável de gente, bicicletas, riquichás, tuk tuks, carregadores de mercadorias, esfarrapados, mendigos, vacas ruminando lixo e cães. Todos seguindo igual direção. Seguro com firmeza a mão da namorada e olho inúmeras vezes para trás buscando interpretar as fisionomias do irmão e da cunhada. Compartilhamos a pé um espaço tão exíguo e com um tal número de indivíduos, que faz o Princípio da Impenetrabilidade – a Lei de Newton, onde “dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo” – parecer uma tese que os indianos se incumbiram de desmontar.

                     Nenhum prédio nos faz olhar para o futuro. Tudo ali é passado. Ops!, não, vejo um Mc Donald’s. Por que a Índia haveria de escapar da globalização?  Vá lá. Más é onde na Índia se percebe o que chamam “desordem urbana” e “caos”. Nosso guia vai à frente, tranquilo como se caminhasse por Lohdi Gardens. Come um saco de pistaches que carrega na mão direita. Percebo em nossos semblantes controle, um pouco entorpecidos, talvez, mas resilientes. “Estão preparados”, convenço-me.

                     O ar é oleoso e poeirento. O ruído de buzinas, permanente. Não há trégua para os ouvidos.  Olhamos ora para o chão – a fim de não pisarmos no indesejado -, ora para cima – surpresos com o mafuá de cabos elétricos, um emaranhado de cabos de energia, provavelmente muitos deles piratas. Só Ganesha sabe para onde aqueles fios vão. Tudo é um chocante contraponto à quietude dos parques Lodhi e Mehauli, oásis da cidade.

                  Me incomodava a loucura? Não. Ao contrário, ela me estimulava ao me fazer reviver a experiência. Dou-lhe um desconto, afinal, a rua estava em obras. E a familiaridade conspirava a meu favor, então, eu estava no controle, “cuidando” de meus companheiros de viagem, temendo que a experiência lhes fosse demasiado excessiva, ao ponto de transbordá-los e ali pensassem: “Por que não escolhemos Seychelles?”. Digo à namorada: “Não temos nada a temer”.

               Nossos passos confundem-se com outros, milhares de outros. Nossos olhos – ora no chão, evitando tropeços, ora na paisagem – seguem o rumo da multidão, da maré de gente e tudo mais que se move, cruza, estaciona, buzina, muge, late e fala. Em Chandni Chowk, gente não só caminha, também esbarra, se contorce e desvia de tudo para seguir seu destino.

            Passamos defronte ao prédio do antigo Banco do Estado da Índia, cuja grande fachada com arcos, colunas romanas e tetos altos são típicos da arquitetura da colônia inglesa, hoje área de um dos maiores mercados de eletrônicos da Ásia. Alguns passos à frente, passamos pela Dariba Kalan, uma rua popular especializada no comércio de joias de fazer homens e mulheres perderem a cabeça.

             Pegamos um tuk tuk em direção ao miolo do bairro. Conseguiu ser ainda mais vibrante a experiência do que a caminhada anterior. Mãos pra dentro, pra não perdermos os dedos. Descemos defronte à Mesquita Fatehpuri, na rua Katra Bariyan. Uma das três construídas no reinado de Shahjahan, em particular, esta atribuída à generosidade de sua esposa, Fatehpuri Begum, que marca o ponto extremo oeste do eixo Chandni Chowk.

           Niraj, nosso guia (grande guia!) detem-se diante de uma loja de doces clássica. Diz chamar-se Confeitaria Chaina Ram Sindhi, “a mais antiga loja de doces de Old Delhi”, completa. Provamos na calçada (não havia outra opção) o Karachi Halwa e o Daal ka Halwa. Gostamos tanto que trouxemos uma caixa.


	

De volta à Índia – Purana Qila, na Velha Delhi

                   Acordo mais cedo do que preciso. Meu relógio biológico demora mais do que desejo para entrar no compasso dos 17 milhões de pessoas que vivem em Delhi, apesar do cuidadoso preparo de terreno na noite anterior: cerrar as cortinas, não deixar frestas de luz, apagar qualquer vestígio dela. Ainda assim, sinto-me como pilhas precisando de recarga. Vou à janela ver o pedaço que ela me reserva da cidade. Ainda estão acesas suas luzes, quando a poluição do ar parece mais notável, marcada nos rastros alongados e círculos ao redor das lâmpadas.  Começamos o dia pela tranquilidade de Purana Qila – ou Old Fort, onde a história é ainda mais antiga que Shajahanabad. E apesar de belíssimo, um dos lugares turísticos mais cativantes da cidade, é pouquíssimo visitado. Sua serenidade não prepara o viajante para a intensidade de Chandni Chowk.

Bada Darwaza

            Ainda cedo cruzamos o Bada Darwaza, um de seus portões majestosos, e logo depois o portal Talaqi Darwaza, que leva ao imenso parque interno. Ambos fazem o visitante desavisado pensar que o forte esteja de pé, apesar de lhe sobrarem apenas ruínas. A eventual decepção é compensada pela belíssima mesquita Qila-I-Kuhna e pelo pavilhão Sher Mandal, construções das mais belas da cidade. Àquela hora da manhã, tão cedo, ainda não havia turistas, senão jovens casais ocupados com o namoro envoltos pela bruma de poluição, emprestando uma imagem romântica ao lugar.

O que sobra de Purana Qila

    O Sher Mandal foi construído como observatório celeste pessoal e biblioteca de Humayun, de onde ele caiu do segundo andar e morreu.  Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho, tem incrustações de mármore branco e preto, construído por Sher Shah, é uma grande mesquita de um único corredor, um dos primeiros exemplos na região em que se usou o arco aguçado, que lembra o gótico.

      O Sher Mandal, prazer e morte de Humayun

      O interior de Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho, é ricamente decorado com elementos islâmicos e o conjunto da edificação o tornou um marco de transição do estilo Lhodi – mais discreto e contido – para o mogol, mais grandioso e imponente. A fachada frontal tem desenho e decoração notáveis e o interior é surpreendente, com um iwan marmorizado, arcos, saliências no teto, abóbodas, colunas e arcos.