A Mesquita e Tumba de Jamali-Kamali  e o Baoli Rajon

De homens, gênios, história e lendas. De sol, pedra e água

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                Há muitos sítios ditos assombrados em Delhi, a “cidade dos gênios”, de criaturas sobrenaturais da mitologia islâmica[1]. Nos folclores persa e árabe, os djinns são indivíduos com poderes de conceder desejos aos humanos, mas também há seus opostos, os tipos maliciosos e intrometidos, que muito embora sejam de crença islâmica, os hindus e sikhs também costumam procurar “ajuda” destas criaturas mágicas, que dizem escolhem as ruínas mais escuras e desoladas do parque para residirem.

               Em Delhi, todavia, a maior parte dos lugares que encantam os turistas são aqueles cercados de burburinho, sob atmosferas eletrizantes, dos sons pulsantes, dos ares aromáticos, tons coloridos e experiências impactantes. Aqueles em que toda a Índia parece caber em Delhi. Contudo, há na cidade lugares que encantam por uma virtude, tão oposta e tão maior quanto o que caracteriza o vulcão ativo que é a capital indiana. São o silêncio e a quietude, em que em alguns dos quais, lendas, fábulas, mitos e mistérios permeiam cada pedra. O Parque Arqueológico de Mehrauli é um destes e, ali, ainda um mais especial que o distingue dos demais: dois monumentos adjacentes – uma mesquita e um túmulo – construídos entre 1528 e 1529, que não apenas são notáveis por serem os primeiros exemplares da arquitetura mogol na Índia, mas por sua história. Tão atraente que desde que começamos o planejamento desta viagem o selecionamos como lugar de indispensável visitação: a mesquita e túmulos de Jamali e Kamali.

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               Situadas num parque bonito e atmosférico, entre um jardim protegido por muro de pedras, a mesquita e o túmulo, ainda que compartilhem seus limites com o Qutub Minar, a não mais que 500 metros de distância dali, é lugar que quase ninguém as percebe. Outras construções espalham-se pelo complexo e em todas vivem-se bons momentos. São muitas, entre elas, o túmulo de Balban, o dossel de Metcalfe, o túmulo de Quli Khan, o Rajon Ki Baoli e o túmulo de Khan Shahid. Entre estes, a mesquita e o túmulo Jamali-Kamali e o belíssimo baoli Rajon Ki.

                Entre um verde exuberante, num canto quase isolado do parque, o incauto turista que por ali passar poderá pensar tratar-se de “mais-um-túmulo-da-era-mogol” quando deparar-se com a placa indicativa do monumento. Deixará de conhecer sua história curiosa, se decidir não visitá-lo. Quase tão atraente quanto a engenharia. Para os amantes da arquitetura não será preciso mais que um olhar para se sentirem atraídos.  Contudo, é a curiosa história e o fato de ser um “lugar assombrado”, com relatos de experiências assustadoras, que marcam a mesquita e o túmulo Jamali-Kamali.

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                A história é de poetas, de poesia e romance. Jamali teria sido o pseudônimo de Shaikh Jamali Kamboh, um renomado santo sufi que viveu durante o governo da dinastia pré-mogol dos Lodhi, cujo governante à altura descendia da dinastia mogol de Babur e Humayun. O poeta, cujas rimas suaves impressionaram o imperador no final do século XV, tornou-se popular e famoso, tendo escrito obras importantes como “O Espelho dos Significados”, “O Sol e a Lua” e “A Jornada Espiritual dos Místicos”. Sua habilidade poética fez dele um imortal. Babur e Humayun gostavam tanto do que escrevia que tornaram-se seus patronos. Kamali, por sua vez, era o oposto de Jamali, um ilustre desconhecido, que dizem no máximo ter sido seu discípulo, cujos antecedentes não são plenamente conhecidos. Os nomes estão marcados juntos, com hífen – Jamali-Kamali – não só porque foram sepultados lado a lado. Especula-se que eram amantes e teriam sido profundamente apaixonados. Esta é a breve história do túmulo, mas quem quiser se aprofundar, deve ler o livro “Jamali-Kamali, Um Conto de Paixão na Índia Mogol”, de Karen Chase, que descreveu a história sobre o amor gay que não conheceu a vergonha, que ninguém ridiculariza nem julga, corre solta e poética, sem guardar preconceitos.

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                   Construídos em 1528, foram a primeira obra em arenito vermelho e mármore branco, que tornou-se tendência popular da arquitetura mogol. Tem cinco arcos esculpidos na sala de oração, onde uma cúpula se eleva acima do arco central.

                        Um guarda escondido surge do nada, parece entediado, talvez porque raramente alguém passa por ali. Ele “cuida” do prédio, fechado por um portão de ferro. Niraj, nosso guia, conversa com ele e lhe pede para abrí-lo para nós. Entramos no espaço vazio através do pequeno portão de ferro da muralha que separa a mesquita  e a tumba. Entre quatro paredes altas, o cenário é perfeito para a criação de histórias de gênios e fantasmas que dizem haver por ali à noite. No prédio, duas sepulturas de mármore abrigam os restos mortais de Jamali e Kamali. Nada empolgante do ponto de vista do desenho, talvez porque nele não se possa entrar, mas um vislumbre pela janela gradeada é o bastante para nos surpreender com o estampado da pintura do teto, em vermelho e azul, com inscrições do Alcorão e de poemas de Jamali quase apagados pelo tempo. A falta de luz protege o que resta.

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E os gênios?

                    Gênios remetem aos contos de Aladin e sua lâmpada mágica, da série Arabian Nights, história cuja versão infantil foi adaptada num filme de animação que marcou a juventude de muita gente. Já em Delhi, os gênios, ou djinns, são mais, digamos, adultos, não tão românticos. Conhecidos por suas travessuras e sons assustadores, invadem casas sem aviso prévio e costumam habitar ruínas da cidade, muitas delas no complexo arqueológico de Mehrauli.

                       Para os que acreditam em mitos e lendas, os djinns de Delhi concedem desejos. Fiéis rezam, acendem velas e escrevem cartas para eles. Dizem que as leem e escutam pacientemente os pedidos. E que podem resolver qualquer problema. Não acredito em gênios, mas, por conveniência, jamais passaria por ali à noite. Dizem que na mesquita e túmulo Jamali-Kamali, alguns se refugiam e, por estas histórias, Jamali-Kamali tornou-se conhecido como a “casa dos Djinns”, onde ainda hoje reúnem-se epssoas ali para se conectarem com eles.

Rajon Ki Baoli. Sol, pedra e água

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                        Quase um tesouro escondido numa parte do quase deserto Parque Arqueológico de Mehrauli, este baoli de pedra é um lugar especialmente calmo, fresco e bonito. O pitoresco baoli remonta ao ano 1506, tem três andares abaixo do nível do solo e surge repentinamente à medida que nos aproximamos dele. A estrutura de pedra acredita-se ter sido construída na era Lodhi. por Daulat Khan. A construção é retangular, consiste num poço profundo que pode ser acessado através da grande escada. Um nicho aberto na parede sul atua como uma passagem que une o poço ao tanque de água. Seus degraus podem ser descidos e levam até ao fundo. Os lados são cercados por muros altos e incluem uma plataforma para caminhar, doze pilares de cada lado e nichos arqueados. Em certos lugares, há nichos nas paredes, usados para abrigar lamparinas a óleo, o que sugere ter sido além de poço reservatório de água, um lugar para encontros sociais e culturais, espaço público frequentado também durante a noite.

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[1] Djinns não são fantasmas nem são anjos, mas “entidades” criada por Allah para agirem junto aos humanos, fitos de fogo mas sem fumaça. De acordo com a mitologia islâmica, Iblis era um Djinn que se recusou a se ajoelhar diante de Deus e foi expulso do céu, passando então a ser um diabo, ou Shaitan. Eles têm o poder de manipular mentes humanas fracas e possuir pessoas se elas se apaixonarem por eles. “Vivem” por milhares de anos e podem ter uma família. Cabelos longos e perfumes são uma fraqueza para eles, então tenha isso em mente antes de entrar em um prédio antigo e desolado!

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No Haveli Dharampura, um lassi de manga, por favor!

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           Nas ruas mais “tranquilas” da velha cidade, enquanto caminhávamos desviando de triciclos, tuk tuks, motonetas, carrocinhas e gente, deixávamos para trás a ruidosa Chandni Chowk e mergulhávamos nos becos estreitos e silenciosos de Velha Delhi. Antes passamos pelos concorridos bazares Dariba e Kinari, especializados em jóias e roupas para casamentos e festas, e logo, a certa altura, entramos numa pequena via com toda a cadência, atmosfera e personalidade peculiares a Chandni Chowk, muitas fachadas desgastadas, preciosidades escondidas por toda sorte de descasos, belezas arquitetônicas roubadas em sua originalidade,  palacetes que a despeito de tudo, mantinham uma nobreza admirável.

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                     Por ali havia uma esquina. Hoje eu não conseguiria localizar seu ponto exato no mapa. Nela,  uma portinha que vendia apetitosas (e perigosas!) samosas. Não resistimos. Fritinhas na hora em óleo centenário, servidas embrulhadas em pedaços de jornal rasgado. Ainda hoje não sabemos se foi este nosso atrevimento culinário que nos atacou severamente as entranhas, mas estavam saborosas. Tanto que as repetimos, a despeito de apimentadas. Não experimentamos, mas eram também atraentes o que vendiam noutras iguais lojinhas: naan khatai, puri choley, pakora e lassis, o que faz do bairro um dos mais antigos e deliciosos centros de prazeres gastronômicos populares da cidade.

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                   Depois de incontáveis novos esbarrões, do vai e vem de pessoas cuidando de seus negócios diários e compras, de sarees de lantejoulas nas vitrines, de tudo o que pode se encontrar de mais lindo ou kitsch por ali,  a história, muitas vezes perdida em becos escondidos, com ou sem saída, pode surpreender e atrair o turista mais atento aos detalhes, verdadeiros fios perdidos, expostos em fachadas, janelas e portas que abrigam parte de um passado nobre de riquezas expressos sobretudo nos havelis, alguns dos últimos remanescentes do ilustre e glorioso passado de Chandni Chowk, onde dói testemunhar a força com que a modernidade invade a história e a vai apagando,  deixando que os sinais do tempo desgastem tanto as fachadas que elas parecem prestes a entrar em colapso, como se apelassem aos olhares mais atentos para que não as deixem definitivamente entrarem para a memória depois de destruídas.

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                   Seguimos, após a parada culinária observados por macacos sorrateiros, entre um cânion de edifícios em mau estado, de fachadas novas e antigas escondidas por emaranhados de cabos de energia, naquele estilo indiano que só eletricistas insanos metem a mão. Havelis e pequenos templos jainistas antigos escondem-se por trás de uma teia de fios, cobertos de sujeira acumulada, por telhadinhos plásticos e puxadinhos, entre outras peças da parafernália que oculta algumas das preciosidades arquitetônicas e patrimoniais da área.

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O Haveli Dharampuraum belo edifício restaurado, convertido em hotel-boutique

                    Não era o lugar onde eu esperava encontrar um meio de hospedagem com aquele padrão, mas a novidade não apenas revigorou o prédio como pode trazer à área outras iniciativas que recolocariam em uso antigos palacetes abandonados. A mansão do século 19 tem bons quartos, um simpático restaurante – o Lakhori – e um pequeno terraço junto ao telhado com vistas muito interessantes para aquele trecho de rua, para os telhados e fachadas de prédios próximos, como também para as cúpulas em forma de cebolas, com os minaretes da Jama Masjid.

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              Nos sentamos para um café e um mango lassi, a bebida cremosa feita com iogurte e fruta, uma pitada de gengibre, extremamente agradável no sabor e refrescante, dizem também que adequada para amenizar os efeitos das comidas apimentadas, devido à propriedade que dizem ter o iogurte.

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             Um funcionário nos leva a conhecer a pousada e o terraço. Orgulhoso, termina o passeio nos contando um pouco da história do edifício. No terraço, aponta lugares para boas fotos, demonstrando o que aprendeu com outros amantes da fotografia que por certo ali estiveram antes de nós, entre eles a estreita rua abaixo, visão vertiginosa a partir do parapeito, e parte das cúpulas em forma de cebola e minaretes da fabulosa Jama Masjid, visão encoberta  parcialmente por telhados e terraços, antenas e caixas d’água vizinhas.

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                   A breve parada foi além de descanso, inesperada oportunidade de conhecermos os pormenores de um haveli, sobretudo de seu interior, antes de seguirmos pelas ora sombrias, ora luminosas ruas estreitas de Shajahanabad e Chandni Chowk.

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Kucha Pati Ram – Um lado escondido da história

                 Continuamos nossa caminhada até outra antiga glória: Kucha Pati Ram, uma rua sem saída com havelis e história quase esquecida pelo tempo, fora do roteiro comum do turismo. Um beco com mansões da época de Sha Jahan, quase a totalidade em estado negligente de manutenção, hoje com aparência de casas populares. Portões e janelas arqueadas escondem o que há por dentro, quase bastam para encantar o observador com desejo de conhecer os interiores, inacessíveis, a  não ser a seus moradores. Minuciosos detalhes ornamentais cobertos por poeira, teias de aranha, fios elétricos e letreiros.

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              Kucha Pati Ram é um beco com antigos palacetes, alguns ruinosos, outros apenas desbotados, todos gastos e cansados, cujas chabutras (portais) quase não se percebem. Elaborados, ornados, esculpidos, adornam as portas que dão acesso aos pátios centrais, proporcionam uma ideia de como se vivia na época dos tempos dourados de Chandni Chowk, sob as regras do Islã: casas com intensa vida interna, convenientemente escondidas pela vida das ruas.

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             Cada haveli tem sua obra de arte distinta, uma mistura de temas religiosos, mitológicos, sociais, familiares e históricos, tendo também Krishna e sua vida,  assim como cenas do Mahabharata e do Ramayana como tema recorrente nas pinturas, revelando que naquela residência morava uma família com tradições hinduístas, entre as cenas da corte real islâmica, pois havia liberdade para improvisações nos temas ornamentais, o que fica evidente na inclusão de recursos visuais da tecnologia moderna, como ferrovias e carros, para além dos religiosos, compartilhando o mesmo espaço. Pinturas de retratos também se tornaram populares, um meio de registrar a história da família proprietária e sua genealogia.

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De volta à Índia – Shajahanabad

                      Descemos do tuk tuk espremidos entre outros e defronte às muralhas do Forte Vermelho e do Shri Digambar Jain Lal Mandir,  o mais antigo e conhecido templo jainista em Delhi. Entramos a pé em Chandni Chowk – a artéria principal de Shajahanabad – nome pelo qual se conhece a velha Deli, ou cidade de Sha Jahan, via por onde corre o sangue de uma cidade que embora tão antiga, não para. Afinal, é urbe pra lá de vinte milhões de habitantes.

A outrora bela avenida larga, principal da Capital mogol, tinha um canal aberto no meio e era ladeada por árvores. Por ela passavam carruagens e comitivas da nobreza, então já um movimentado mercado. Hoje é quase um bairro, lugar da maior e mais estonteante desordem visual, de multidões, de edifícios antigos descaracterizados por letreiros, de lojas tão pequenas que parecem buracos, de gente prestando os serviços mais inusitados na beira da rua, especialmente no trecho entre os templos jainista Digambar Jain Lal Mandir e o sikh Gurdwara Sisganj.

                      E assim nos metemos no meio de um desfile imparável de gente, bicicletas, riquichás, tuk tuks, carregadores de mercadorias, esfarrapados, mendigos, vacas ruminando lixo e cães. Todos seguindo igual direção. Seguro com firmeza a mão da namorada e olho inúmeras vezes para trás buscando interpretar as fisionomias do irmão e da cunhada. Compartilhamos a pé um espaço tão exíguo e com um tal número de indivíduos, que faz o Princípio da Impenetrabilidade – a Lei de Newton, onde “dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo” – parecer uma tese que os indianos se incumbiram de desmontar.

                     Nenhum prédio nos faz olhar para o futuro. Tudo ali é passado. Ops!, não, vejo um Mc Donald’s. Por que a Índia haveria de escapar da globalização?  Vá lá. Más é onde na Índia se percebe o que chamam “desordem urbana” e “caos”. Nosso guia vai à frente, tranquilo como se caminhasse por Lohdi Gardens. Come um saco de pistaches que carrega na mão direita. Percebo em nossos semblantes controle, um pouco entorpecidos, talvez, mas resilientes. “Estão preparados”, convenço-me.

                     O ar é oleoso e poeirento. O ruído de buzinas, permanente. Não há trégua para os ouvidos.  Olhamos ora para o chão – a fim de não pisarmos no indesejado -, ora para cima – surpresos com o mafuá de cabos elétricos, um emaranhado de cabos de energia, provavelmente muitos deles piratas. Só Ganesha sabe para onde aqueles fios vão. Tudo é um chocante contraponto à quietude dos parques Lodhi e Mehauli, oásis da cidade.

                  Me incomodava a loucura? Não. Ao contrário, ela me estimulava ao me fazer reviver a experiência. Dou-lhe um desconto, afinal, a rua estava em obras. E a familiaridade conspirava a meu favor, então, eu estava no controle, “cuidando” de meus companheiros de viagem, temendo que a experiência lhes fosse demasiado excessiva, ao ponto de transbordá-los e ali pensassem: “Por que não escolhemos Seychelles?”. Digo à namorada: “Não temos nada a temer”.

               Nossos passos confundem-se com outros, milhares de outros. Nossos olhos – ora no chão, evitando tropeços, ora na paisagem – seguem o rumo da multidão, da maré de gente e tudo mais que se move, cruza, estaciona, buzina, muge, late e fala. Em Chandni Chowk, gente não só caminha, também esbarra, se contorce e desvia de tudo para seguir seu destino.

            Passamos defronte ao prédio do antigo Banco do Estado da Índia, cuja grande fachada com arcos, colunas romanas e tetos altos são típicos da arquitetura da colônia inglesa, hoje área de um dos maiores mercados de eletrônicos da Ásia. Alguns passos à frente, passamos pela Dariba Kalan, uma rua popular especializada no comércio de joias de fazer homens e mulheres perderem a cabeça.

             Pegamos um tuk tuk em direção ao miolo do bairro. Conseguiu ser ainda mais vibrante a experiência do que a caminhada anterior. Mãos pra dentro, pra não perdermos os dedos. Descemos defronte à Mesquita Fatehpuri, na rua Katra Bariyan. Uma das três construídas no reinado de Shahjahan, em particular, esta atribuída à generosidade de sua esposa, Fatehpuri Begum, que marca o ponto extremo oeste do eixo Chandni Chowk.

           Niraj, nosso guia (grande guia!) detem-se diante de uma loja de doces clássica. Diz chamar-se Confeitaria Chaina Ram Sindhi, “a mais antiga loja de doces de Old Delhi”, completa. Provamos na calçada (não havia outra opção) o Karachi Halwa e o Daal ka Halwa. Gostamos tanto que trouxemos uma caixa.


	

De volta à Índia – Purana Qila, na Velha Delhi

                   Acordo mais cedo do que preciso. Meu relógio biológico demora mais do que desejo para entrar no compasso dos 17 milhões de pessoas que vivem em Delhi, apesar do cuidadoso preparo de terreno na noite anterior: cerrar as cortinas, não deixar frestas de luz, apagar qualquer vestígio dela. Ainda assim, sinto-me como pilhas precisando de recarga. Vou à janela ver o pedaço que ela me reserva da cidade. Ainda estão acesas suas luzes, quando a poluição do ar parece mais notável, marcada nos rastros alongados e círculos ao redor das lâmpadas.  Começamos o dia pela tranquilidade de Purana Qila – ou Old Fort, onde a história é ainda mais antiga que Shajahanabad. E apesar de belíssimo, um dos lugares turísticos mais cativantes da cidade, é pouquíssimo visitado. Sua serenidade não prepara o viajante para a intensidade de Chandni Chowk.

Bada Darwaza

            Ainda cedo cruzamos o Bada Darwaza, um de seus portões majestosos, e logo depois o portal Talaqi Darwaza, que leva ao imenso parque interno. Ambos fazem o visitante desavisado pensar que o forte esteja de pé, apesar de lhe sobrarem apenas ruínas. A eventual decepção é compensada pela belíssima mesquita Qila-I-Kuhna e pelo pavilhão Sher Mandal, construções das mais belas da cidade. Àquela hora da manhã, tão cedo, ainda não havia turistas, senão jovens casais ocupados com o namoro envoltos pela bruma de poluição, emprestando uma imagem romântica ao lugar.

O que sobra de Purana Qila

    O Sher Mandal foi construído como observatório celeste pessoal e biblioteca de Humayun, de onde ele caiu do segundo andar e morreu.  Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho, tem incrustações de mármore branco e preto, construído por Sher Shah, é uma grande mesquita de um único corredor, um dos primeiros exemplos na região em que se usou o arco aguçado, que lembra o gótico.

      O Sher Mandal, prazer e morte de Humayun

      O interior de Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho, é ricamente decorado com elementos islâmicos e o conjunto da edificação o tornou um marco de transição do estilo Lhodi – mais discreto e contido – para o mogol, mais grandioso e imponente. A fachada frontal tem desenho e decoração notáveis e o interior é surpreendente, com um iwan marmorizado, arcos, saliências no teto, abóbodas, colunas e arcos.

De volta à Índia – Na Velha Delhi, o Mercado Gadodia, um cortiço muito além das especiarias

                Olfato e odores. Uma experiência nasal no Gadodia Market

            Na Antiguidade, filósofos importantes não se preocupavam muito com o sentido que nos permite distinguir cheiros. Demócrito talvez tenha sido o primeiro a dedicar-se ao olfato, concluindo uma forte conexão entre nossa mente e os aromas, estabelecendo o que ele denominou “pensamento nasal”.  Já Heráclito, mais tarde, disse que “se todas as coisas se tornassem fumaça, nós as conheceríamos pelas narinas”.

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                 Pois bem, no mercado Khari Baoli, e mais depois no Gadodia Market, a sensação pode se confirmar em qualquer indivíduo não familiarizado com o lugar. O formigamento das narinas – sensação que não raro pode chegar ao cérebro, como sugeriu o filósofo, depois que nossos receptores olfativos tenham-se inflamado –  será o clímax da experiência.

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               Descemos do tuk tuk na Chandni Chowk, onde ela termina defronte à mesquita Fathepuri. Acreditávamos, até então, que tínhamos vindo do “olho do furacão”, mas logo percebemos que fora apenas uma introdução ao caos. Caminhamos pela rua Khari Baoli, viramos à esquerda na rua Swami Vivekanand, com o burburinho de sempre acentuando-se a cada metro, tornando-se, ao mesmo tempo, tão mais invasivo quanto atraente.

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                O ar converte-se numa fusão farta de cheiros misteriosos, exóticos , ora incômodos, ora estimulantes. Sinto cheiro de pimenta, de cardamomo, cominho, orégano, caril, açafrão-das-índias e massalas. Consigo-os identificar melhor porque estão expostos. Adiante, misturam-se a outros, e parecem dizer-me que não há condimento que não se possa encontrar por ali. Satura-se tanto que perdemos o comando dos sentidos, sequestra-nos o controle com “toques” violentos no olfato,  de tal modo, e com tamanha potência, que penetram pelo nariz e vão ao cérebro, findam ali a interferência nos pensamentos, como se drogas fossem.  Não chega a ser maior que atravessar a rua numa cidade grande, mas a “viagem” pode ser um desafio. Só persistência com paciência, podem amenizar. Paciência, aliás, é uma virtude a ser praticada em toda a Índia.

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                 Um incessante circular de gente, de mercadorias a granel em sacos de juta, de homens empurrando carrinhos de mão, num sistema antigo de distribuição e comércio que remonta à época do Xá Jahan, levado a cabo por “trabalhadores das especiarias”, como são conhecidos os imigrantes ou nacionais que ali laboram.

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              As velhas escadas escondidas do Gadodia Market levam ao terraço do edifício, um cortiço onde quase ninguém vai, exceto seus moradores, muito raramente, turistas. Os raros, todavia, não vão em busca de uma vista panorâmica de Velha Delhi, tampouco da mesquita vizinha, embora uma vez lá, a perspectiva não seja tão ruim. Avistam-se o pátio tranquilo da Fathepuri masjid, seus dois minaretes e o domo “acebolado”. É o lado que acalma os efeitos da infusão de especiarias, dos intensos ruídos urbanos da rua defronte, mas  não é o que vale quanto pesa a subida. Importa o vislumbre de uma vida comunal curiosa, de trabalhadores em seus momentos de descanso no maior centro de armazenamento e comércio atacadista de especiarias da Ásia, o Khari Baoli [1], cujo nome é referência ao poço de água antigo que ali existia, mas que há muito desapareceu.

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              É uma vida paralela, que embora integrada à do mercado, tem no cortiço e em seus moradores, em seu caráter desorganizado, sua simplicidade, na precariedade e na pobreza, sua mais evidente personalidade, o que ajuda a manter a cultura do lugar quase inalterada da original, emoldurada pelo que se pode ver – os varais de roupa estendidas aos terraços, os cães e bicicletas, os colchões tomando sol, caixas d’água e paredes sujas – o que está fora do alcance da visão -, e também pelo que se esconde nas moradias escuras, de janelas e portas únicas, de gente com hábitos diferentes, como quase de outro mundo.

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               Não é exatamente um “passeio no parque” chegar até aquele terraço. É um pouco difícil andar, mas faz parte da experiência a “caminhada aromática”. Provavelmente seria um delírio para um chef de cozinha, contudo um incômodo para as narinas mais sensíveis ou não familiarizadas. O visitante não se expõe apenas aos odores, mas a uma deliciosa experiência de multisensorialidade: desvia de cocô, de lixo e de água empoçada, de outras de líquidos não identificados, de mulheres vendendo flores, esbarra em homens carregando sacos de juta às costas, levantando poeira quando jogados no chão ou sobre carros de mão, desvia de gente e de enormes balanças à moda antiga.

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                 É gente da Caxemira, de Madhya Pradesh, do Rajastão, da própria Delhi e de outros estados. São vendedores, compradores, carregadores. Percebem-se uns tentando grandes barganhas, outros procurando escapar delas. E todos extremamente ativos e concentrados em suas tarefas e negócios, provável motivo porque foi o único lugar na Índia onde sequer fomos percebidos, o que, para um ocidental em viagem ao país, é uma raridade constrangedora. Nada parece nos escapar naquela “caminhada sensorial”.

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            Chegamos ao arco que leva às escadas desgastadas para o topo do edifício Gadodia. A simples “travessia” do corredor escuro, assim como a subida, foram uma experiência fascinante. Vimos lojas e escritórios com habitações nos andares acima, partido e conceito projetados com certa inovação, algo que um estudioso poderia definir como evolução dos antigos carevanserais, os antigos armazéns da Rota da Seda, que serviam para compra, venda e estocagem de grandes quantidades, como depósito de mercadoria e moradia temporária de caravaneiros. Contudo, olhando as condições do Gadodia, nos custa crer quem alguém possa morar com dignidade e salubridade. No topo de tudo, um terraço, nosso ponto focal, alvo, objetivo.

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             Já ali, primeiro estranha-se, depois entranha-se [2] das normas de convívio social, dos detalhes, do trabalho, do descanso, lazer, enfim, da vida que levam. Por vezes até a morte, porque há pessoas que passam sua existência inteira no mercado, algumas em pequenas alcovas mal iluminadas, versões tão diferentes de vida e das regras com as quais convivemos, que parecem de outro mundo. Quanto mais nos aprofundarmos nessas camadas, melhor as percebemos. Contudo, há as que não conseguimos ver, pois há uma herança cultural oculta, “enterrada” nas alvenarias, tão profunda que é preciso algum local para nos  explicar. O guia nos salva nesta hora.

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              O prédio, construído em 1920 por seu proprietário – L.L. Gadodia, um indiano que emigrou para os Estados Unidos há seis décadas – embora pareça europeu, inspirado no estilo de Lutyens de Nova Delhi, a ornamentação com chatris lhe dá a inconfundível personalidade hindu.

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             Apesar do atual estado de declínio, o Gadodia mantém-se como sempre: um espaço de habitação e de escritórios tal como foi projetado. Subimos os três lances de escada do cortiço e chegamos ao topo, um terraço com vistas para o quadrilátero formado pelo prédio. Foi uma viagem no tempo. E ainda que recentemente o mercado tenha encontrado um novo público, o turista, especialmente entusiastas do patrimônio, da arquitetura, da fotografia, ou mesmo da prática do voyeurismo da vida alheia, lá em cima, além de nós, havia apenas um indiano grudado no celular e dois macacos. A trilha sonora já não era mais a cacofonia de Chandni Chowk, tampouco ouviam-se as vozes dos comerciantes e trabalhadores, senão um silêncio retumbante. Descemos e voltamos à rua.

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             Passamos pela Mehar Chand and Sons, loja onde trabalha um master blender famoso, chamado A. Kumar, conhecido de chefs do mundo todo – famosos ou não – que experimentam e compram masalas como o Aloo Gobi, Butter Chicken e o Dal Makhani, entre outros. No fundo da loja, as aventuras culinárias indianas terminam em incríveis chás, do Darjeeling e Earl Grey ao Black Tea e ao Mango Tea.

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             Tomando um ligeiro desvio, perdido no caos de Chandni Chowk, fomos até o Haveli de Mirza Ghalib, um tesouro de 300 anos meio esquecido, e depois no simpático, atraente Haveli Dharampura, um hotel pousada no meio do olho do furacão, a seguir, no próximo capítulo.

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[1] Amêndoas (Badam), Castanha de Caju (Kajoo), Cocos (Nariyal), Noz-moscada Integral (Jaifer), Ervilha (Moong-phali), Pistácio (Pista), Nozes (Akhrot), Noz de Beterraba (Supari), Passas (Kishmish), Figos Secos (Anjeer), Pó de Chilli Suave (Bookanee Lal Mirch) e Pimentões Finamente Picados (Mota Lal Mirch), de cor vermelho intenso, Coentro moído (Dhania Powder), Manga Seca Moída (Aamchur), Gengibre (Adrak),  Anis (Sauf), Cardamomo (Elaichi), Canela (Dalchini), Açafrão (Kesar), Pimenta Preta (Kali Mirch).

[2] Fernando Pessoa, um dos nomes maiores da poesia portuguesa, foi abordado, em 1927, pela empresa Coca-Cola, para criar um slogan publicitário. Ele escreveu: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

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Haveli Dharampura

De volta à Índia. O Túmulo de Humayun. Para o marido, com amor

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               O estilo mogol, na arte e na arquitetura, não tem autor em particular ou grupo de artistas criadores, resulta de uma consciente atuação de alguns imperadores – desde Babur, o fundador do império mogol – até Humayun, Akbar, Jahangir, Sha Jahan, Dara Shikoh e Aurangzeb, que compartilhavam grande interesse pelas artes, além de líderes de um império que cobriu grande parte da Índia em seu auge. Eram homens cruéis, guerreiros conquistadores e senhores das guerras, é verdade. Comandavam bravamente invasões e o domínio de povos mas, ao mesmo tempo, apreciadores das artes, da ciência, astronomia, filosofia, literatura e religião.

                      A dinastia muçulmana – de origem mongol-turca – que governou a maior parte do norte da Índia desde o início do século XVI até meados do século XVIII, foi notável pela habilidade de seus governantes, que através de sete gerações demonstraram talentos incomuns, da organização administrativa ao comando, sendo a mais estranha aos dominadores, a dedicação, ainda que muçulmanos, de integrarem-se com os hindus para formarem estado indiano unido.

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                      Incentivando e promovendo diversas expressões artísticas, não apenas na arquitetura e na ornamentação, também na pintura e literatura, todavia principalmente naquelas, por 250 anos financiaram gerações de arquitetos, artesãos, calígrafos, artistas, pintores, escultores, metalúrgicos, tecelões, o que resultou num estilo esteticamente sutil, delicado e elegante, ainda que robusto e grandioso, às vezes monumental, massivo o bastante para expressar poder e glória. Era a grandiosidade artística como instrumento de demonstração de poder.

                       Sempre que possível, respeitavam os padrões islâmicos cujas bases estavam na Pérsia, mas inspiradas e consumadas por Tamerlão durante o império mogol de Samarkanda, Uzbequistão, de tal maneira que as primeiras construções mogóis na Índia sejam interpretadas estilisticamente como meras recriações do estilo timúrida de Tamerlão, embora da arte persa, da corte safávida de Isfahan, tenha-se originado, contudo, mais tarde, tendo adquirido na Índia sua personalidade e desenhos muito próprios. Talvez por isso os persas desprezassem as cortes islâmicas da Índia, que definiam os mogóis como gente de um senso estético que não lhes agradava, tendo sua arte sido influenciada demais pela hindu, se “arredondado” demais e tornado menos brilhante e colorida que a expressa nos mosaicos cerâmicos persas e timúridas.

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                 Carecia, diziam aqueles, de classicismo, de contenção, estavam longe da perfeição geométrica da safávida, ainda que inconfundível, de notável individualidade e de um bom gosto irretocável aos olhos do resto do mundo. Mesmo um não conhecedor, depois de uns dias na Índia, dificilmente deixará de reconhecer que aquele monumento ou trabalho pertence ao período mogol, sejam os expressos nas fachadas e ornamentações internas, sejam os demonstrados em minuciosas pinturas de cenas do império e nas artes decorativas, tal sua distintiva personalidade.

                 Uma obra prima arquitetônica que quase consagra toda a perfeição e beleza do estilo mogol, o imenso mausoléu de Humayun, ainda que este seja apenas um dos exemplos da fabulosa arte voltada à arquitetura, mesmo em Delhi, onde, por exemplo, a mesquita Qila-I-Kuhna, dentro da cidadela de Purana Qila – ou Old Fort, chega à perfeição. Este túmulo, declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO, em 1993, foi obra desenhada por arquitetos de Bukhara, no Uzbequistão, a pátria timúrida, dinastia da qual os mogóis são extensão. É comum apelidarem o túmulo de Humayun como “Taj Mahal de Delhi”, embora haja enormes diferênças entre ambas, todavia, a magnífica necrópole – em cujo silêncio sereno de suas pedras cor-de-rosa Humayun repousa em paz – também pode ser uma prova de amor.

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                  O quinto imperador mogol – Shah Jahan – talvez seja o personagem mais romântico da Índia, pois construiu o Taj Mahal, o mais espetacular túmulo do planeta, monumento em memória de sua esposa, Mumtaz Mahal,. Merece o título, não há dúvidas, mas poucos sabem que sua inspiração veio de sua bisavó, Hamida Banu Begum, esposa do segundo imperador mogol, Humayun que, dizem, construiu a Tumba de Humayun, o primeiro do subcontinente indiano cercado por um jardim – o Char Bagh –  que também impressiona pela megalomania, pela demonstração de poder e pelo que deve ter sido a vultosa soma de dinheiro empregada ali, onde não se encontra ângulo imperfeito ou canto que não impressione.

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A seguir:

Capítulo 5 – O Complexo Arqueológico Mehrauli

De volta à Índia – A primeira manhã. Duas Delhis, dois mundos

          O clima age a nosso favor, com um quase frio nos fazendo imaginar o quanto deve ser difícil Delhi acima dos 40 graus. Sob um céu azul, mesmo sendo cinza, começamos o dia na vasta expansão urbana da capital, onde duas “cidades” me atraem: a “nova” – de arquitetura colonial modernista, com amplas avenidas e vistas grandiosas, arborizada por tamarindeiros, rodeada por mansões coloniais e prédios do governo em estilo inglês…

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A Nova Delhi, ou Lutyens Delhi

… – e a velha, de essência mogol, carregada de “indianidades”, a antiga Shajahanabad, a que o economista John Kenneth Galbraith, embaixador americano na Índia, nos anos 1960 chamou de “anarquia funcional”. Ali fica Chandni Chowk, nome da principal avenida de comércio da capital do império mogol, o olho do furacão, hoje quase um bairro dentro de outro. A anarquia permanece, assim como a pressão das pessoas, as vielas e os becos com ou sem saída, a fumaça, os cheiros, os mitos e as lendas, as verdades e a história entre uma cacofonia inconfundível e uma multidão imparável.

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Detalhe da intrincada, belíssima ornamentação do Minarete Qutub

          Para além de ambas, junto à Nova Delhi ficam fenomenais ruínas do século XII, de cidadelas construídas pelos primeiros governantes islâmicos, num parque chamado Mehrauli, entre cujas diversas construções antigas – de mausoléus a mesquitas, de baolis a templos hindus – fica o Complexo Qutub. Ali, o ícone do parque é o Qutub Minar – o minarete de tijolos mais alto do mundo – um fenomenal exemplo de arquitetura indo-islâmica que faz jus integrar o Patrimônio Mundial da Unesco, eterno, ícone do poder mogol, projetado nas linhas do Minarete de Jam, no Afeganistão. São 72,5 metros de altura sobre uma base sólida, belíssima, massiva, com 14,3 metros de diâmetro.

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Complexo Qutub

          Histórias sugerem que Qutub Minar teria sido construído num local em que havia um conjunto de 27 templos hindus e jainistas, parcialmente destruídos pelos invasores muçulmanos, mantidas algumas preciosidades e usadas suas pedras em mesquitas e outros lugares. Mas não é só este impressionante monumento que capta a atenção de quem está ali. Outras antiguidades também, como a Mesquita Quwwat-ul-Islam, o Alai Darwaza, o Alai Minar, a Madrasa e Tumba de Ala-ud-din, o Pilar de Ferro – com sete metros de altura, do séc. IV, erguido em homenagem ao deus hindu Vishnu, o vestígio metálico melhor preservado da história da humanidade – a Tumba do Imam Zamin.

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Túmulo de Isa Khan Niyazi

          Chegamos até lá pelas ruas largas do bairro novo e, na área em que se fundem a nova e a antiga Delhi, paramos no Baoli do Marajá Agrasen ki – ou Ugrasen ki Baoli – um reservatório de água que servia à população para a coleta de água e lazer. Em Delhi e no Rajastão há outros poços semelhantes, belos e antigos, sendo este o mais conhecido e próximo.

Baoli do Marajá Agrasen ki

          Apesar da presença do rio Yamuna, Delhi sempre teve deficiência de água devido aos longos períodos de estiagem. A população medieval recorria, então, a esses poços, além de represas e lagos artificiais que havia para reter a água de chuva durante o período das monções. De todas as estruturas de conservação de água construídas desde então, as mais esteticamente interessantes e incomuns foram os baolis, que ainda hoje consideram-se uma fusão brilhante de sensibilidades arquitetônica e artística, concebida como uma enorme evolução dos poços subterrâneos, pois eram abertos e equipados com escadarias que desciam até o nível da água, tinham uma face equipada com câmaras e passagens destinadas ao lazer num ambiente mais fresco, com câmaras e “passeios” que se interligavam, alguns até com pranchas para mergulhos. Um misto de reservatório de água potável e piscina.

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Baoli do Marajá Agrasen ki

Sunder Nursery

         Pouco depois de sairmos do baoli, Niraj pede ao motorista que pare num local que não estava no roteiro. E nos diz com orgulho que nos mostrará uma atração muito nova em Delhi, o Sunder Nursery (Viveiro Sunder). Ao descermos da van avisto duas placas anunciando o que disseram as revista Times –  “Um dos grandes lugares para se visitar em Delhi” – e a Outdoor Magazine – “O mais novo sítio turístico da cidade. Abandonado por anos, foi reaberto em março de 2018 depois de minuciosa reforma.

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Sunder Nursery

          Inesperado e surpreendente, o Sunder Nursery é mais que um horto ou parque, senão um complexo de jardins históricos do século XVI, com canteiros de flores coloridas e um jardim de rosas com 30 diferentes variedades, 300 espécies de árvores e 80 de aves permanentes e 90 hectares que serão expandidos até juntar-se ao Purana Qila, quando se tornará o maior parque urbano da Índia.  A vista central tem jardins inspirados nos jardins mogóis, com fontes de pedra e mármore com adornos em forma de lótus. O lugar é de uma beleza natural e arquitetônica especial, porque entre a natureza de um jardim bem cuidado ficam 15 monumentos mogóis, seis deles do século XVI e nomeados Patrimônio Mundial da Unesco.

          Dali fomos ao espetacular Túmulo de Humayun.

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A seguir
O Túmulo de Humayun. Para o marido, com amor

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O Túmulo de Humayun