MARROCOS – Eternamente e ainda depois

Concerto para Piano No. 23

Uma manhã de domingo à primavera, um sol magnífico, um dia desses que se podem chamar de “macios”, quando tudo é bom, funciona e cai bem. Lá fora e aqui dentro. Um olhar neutro pela janela e outro para a estante de livros. Neutro, mas não insensível. E embora a abertura esteja hermeticamente fechada ao ar e ruídos, a vista penetra e perde-se dentro de mim e da casa.

A melodia de Mozart toca na caixinha de som e me segue os passos. Enquanto busco um café, ela vai minguando nos ouvidos à medida que me afasto, mas não morre. Volto e olho para o mapa-múndi preso à parede. Detenho-me nele, mais uma vez exercendo o simples, eterno grande prazer de viajar num mapa. Olhando assim, o mundo até me parece pequeno, mas a carta é um vasto mural onde tenho a sensação de que mesmo num vislumbre, encontro mais lugares desejados do que eu daria conta visitar. Perco-me neles e depois aponto o olhar atenciosamente para o Marrocos e nada mais me prende ali. Sento-me à escrivaninha e navego na Internet, tomo as primeiras ondas de nossa road trip pelo país do Magreb[1]. Componho, nas teclas do notebook – e inspirado por Wolfgang – as notas iniciais desta viagem, que mesmo antes de sairmos já gruda em mim.

Meses depois, no escritório, observo pela janela a serra da Tijuca e avisto os extravagantes picos da Pedra da Gávea, da Tijuca e do Bico-de-Papagaio. Reconheço a sorte e o privilégio de ter vistas assim desde minha mesa de trabalho e em casa, de tal maneira que digo sempre: “ah, que sorte essas minhas janelas!” Em breve eu estaria a viajar com quem tanto amo, admiro e aprecio a companhia. Que belo e inspirador motivo para escrever.

Ao meu irmão, cunhada e companheira dedico este post.

Ali e assim continuei a anotar as palavras e frases que acentuavam meu entusiasmo criador para a narrativa desta viagem. Um fragmento do que leio, em especial me atrai: “Não há nada além do vazio, e isso é beleza”[1]. Ditas por Paul Bowles em “O céu que nos protege”, referem-se ao mesmo percurso rodoviário que faríamos entre Casablanca e Marrakech.

Ah, as minhas janelas…

A mente transborda-se de lembranças das minhas outras idas ao Marrocos, imagens descem da memória como água em cachoeira, sinto sensações na pele e prazeres na mente enquanto rememoro cada uma das surpresas sucedidas desde o oceano às dunas, todas tão inesquecíveis e bem marcadas que nem eu imaginava estarem guardadas com tal fidelidade e transparência. Reajo aos estranhos costumes, às cidades modernas com ares europeus, às outras antigas e paradas no tempo, aos tetos de madeira entalhados e delicadamente pintados das madrassas, aos intrincados mosaicos cerâmicos e à natureza, não só a das montanhas do Alto Atlas – com seus picos nevados – mas às da planície do pré-deserto, o Saara[2].

Não me dou conta e já estou às portas dos confins do profundo Marrocos. Vejo-me admirando os palmeirais, avistando camelos sem rumo no deserto, plantações impecáveis de verduras, tudo sob um céu azul pleno e dolorido nos olhos. Não me contenho e sento-me num tapete dentro de uma loja especializada num souk e gosto de deslizar a ponta dos dedos sobre a lã. Depois, chego a sentir o cheiro das especiarias vendidas a granel e o sabor da comida. Foram tantas as vezes que estive no país que minha imaginação já não precisa mais inventar um Marrocos, sua integridade e originalidade estão comigo em tudo: terra, arte, ar, sabor e cheiros.

Vagueio naquelas ruas estreitas, sinuosas, vazias de gentes e vozes

Vagueio por uma rua qualquer, igual às muitas que há no Marrocos. Rua sem fim, estreita, sinuosa, vazia de gentes e de vozes, um cânion de paredes altas chapiscadas e pintadas. Sinto uma inquietação sem propósito, como se ao fim de cada curva um perigo me esperasse. Sem sentido, porque não há nada nem ninguém a me olhar de esguelha por um vidro de janela.

Chamado pela força do Marrocos, movo-me num voo excitante até pousar em Casablanca, não pela primeira vez, mas, ah!…o litoral Atlântico… Dali, o rigor do planejamento segue a longa viagem desde a borda do mar até o pré-deserto. Devo parar ou seguir o curso do imaginário? Não tenho a insensibilidade da apatia, então deixo em aberto o que a mente quiser, porque, afinal, imaginar-me viajando e perder-me por países e lugares, não dar raízes aos desejos e não pertencer sequer a mim costuma ser quase tão bom quanto o viajar de fato. Flanar assim também é viagem. Você que me lê, me entende, sobretudo quando o faço pelo mundo islâmico. Deixo, então, que a fantasia siga seu curso lógico pelos 1.200 km de asfalto até Marrakech. A estrada é boa, um belo contraste entre o preto do asfalto e o ocre da terra. Passo por Rabat, Chefchaouen, Meknes e Fez antes de entrar no pré-Saara. Não fosse o silêncio, eu pensaria já viver cada quilômetro do roteiro, como se já rolasse a vida turístico-mundana, embora a realidade presencial só mesmo em dezembro, quando o inverno chegasse ao Marrocos e a imaginação desse lugar à visita.

Perdendo-me deliciosamente por este pedaço de bom caminho do oriente islâmico, revejo a harmonia dos desenhos ornamentais, da arquitetura árabe, da combinação magistral da geometria com as cores e traços dos mosaicos cerâmicos. Como os admiro! São engenhosas formas que mesmo repetidas não me cansam o olhar. Sua desmesura imensa dão-me sempre o sentimento de que fitá-las é sempre viver o prazer do fascínio, da admiração, seja num estuque, entalhe, mosaico ou grade de ferro.

Nas ruas vejo homens vestidos com gelabas de capuzes pontudos, cuja aparência fazem-nos parecerem sábios místicos da Idade Média, embora gente comum. As mulheres usam lenços coloridos, e sabendo ou não, tornam-se belos contrapontos à sisudez dos cinzas masculinos. Imagino que lá as nossas queridas e insuperáveis companheiras de viagem também não resistirão, haverão de adornarem suas belezas tal qual o jeito marroquino, com belas pashiminas e lenços de seda ou boa lã de camelo e carneiro comprados no frenesi do coração secular do souk de Fez, como se não bastassem as trazidas da Índia um ano antes, em cuja pose “desinteressada” capto com um olhar apaixonado e a lente de minha câmera.

A visita virtual começa pela moderna Casablanca e já antes do passeio inaugural da primeira manhã, me vejo tomando um café espresso na Marilyz Delice, boulangerie e pâtisserie instalada numa loja em bonito prédio no estilo Art déco, bem às portas de nosso hotel. Ora, já não era mais um sonho!, senão a viagem por um Marrocos visível e audível, a realidade transcendendo a imaginação, a magia do início da jornada pela agradável capital à beira do Atlântico, a realidade, a viagem tornando real o sonho.

Em Casablanca, muito embora evoque imagens hollywoodianas do filme homônimo mais romântico de todos os tempos, não se ouve sequer um sussurro do romantismo que o filme sugere. É bem aí que começa o problema para quem procura cenários do filme de Hunphrey Bogart e Ingrid Bergman. Melhor, então, saber que sequer um segundo do filme foi rodado na cidade, tampouco no país, senão todo num estúdio de Hollywood, a 10.000 quilômetros de distância. As lembranças da história de amor passada em Casablanca, contudo, ficaram e ainda inspiram. De fato, há um Rick’s Café na cidade, inspirado no do filme, feito para turistas por uma estrangeira, instalado numa mansão e projetado para lembrar o clássico do cinema de 1942. Dizem que fizeram um bom trabalho, mas não pude constatar, pois embora eu tenha tentado reservar uma mesa para quatro, sequer me deram resposta aos dois e-mails que enviei pelo canal do site.

Ah, o litoral Atlântico…

A avenida marginal litorânea é comprida, larga, clara e bem calçada, tem restaurantes e cafés, espaçados, gente caminhando, simplesmente observando o mar ou assistindo ao pôr do sol. Paramos diante da Mesquita Hassan II, obra de arte arquitetônica monumental à beira do Atlântico e, mais tarde, caminhamos pelo Bairro de Habous – um dos mais antigos da cidade – passando diante do Palácio Real, que não se visita.

O sol foi se pondo e voltamos para o hotel. A noite foi bem dormida. Na manhã seguinte pegamos a estrada em direção a Rabat, e no caminho visitamos, Chellah  – um sítio arqueológico da romana Sala Colônia, necrópole medieval de uma dinastia berbere – além da Kasbah dos Udayas.

Ao meu irmão, cunhada e companheira dedico este post.

[1] O Magreb é a região ocidental do norte do continente africano. A palavra tem origem árabe e significa “onde o Sol se põe”. Países do Magreb: Marrocos, Tunísia, Argélia, Mauritânia, Saara Ocidental (território controlado pelo Marrocos).

[2] Paul Bowles, autor de “O céu que nos protege” (The sheltering sky), levado para o cinema por Bernardo Bertolucci com muita dignidade, em 1990, em algum momento de sua autobiografia.

[3] ODeserto do Saara” é a maior redundância do mundo: ṣaḥārā é a transcrição em alfabeto latino da palavra árabe صحارى, que significa ‘desertos‘. O resultado, se você traduzir, é algo como ‘deserto dos desertos‘, ou simplesmente ‘deserto deserto‘.

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A seguir

Do mar à montanha: Casablanca a Marrakech (com fotos!)

EGITO. Karnak, Luxor e eu

Há canções, momentos e lugares

Sempre e para sempre, uma canção: Always and Forever

Muitas vezes viajei numa música. Acontece, e sempre que acontece é inesperado, as canções entram e asilam-se no coração e na mente. Algumas, até bem mais que melodias, tornam-se relações, e como as cicatrizes, permanecem sempre e para sempre, embora nem todas sejam veículos que carregam momentos e histórias; tenho mesmo muitas que marcam-me simplesmente por sua beleza e harmonia. Assim, desse jeito, sem outra pretensão, vão ficando no corpo feito tatuagem, sem dor, mas com a beleza da naturalidade, a delicadeza de um toque, embora com a profundidade de uma raiz. Não preciso desejo, assim com o elas não de intenção, para que no coração passem a palpitar e na mente a vibrarem, sempre e para sempre, umas levemente, outras arrasadoras, e quando acionadas por gatilhos emocionais ou pelo simples prazer da audição, voltam a emocionar. As mais antigas, em sépia ou preto e branco, as recentes, em multicoloridas lembranças.

São canções e não quaisquer, porque não é provável que no meu espaço mental se abra algum lugar para as cambaleantes, as que deixam apenas rastros ou, nem assim, até coisa nenhuma. Refiro-me às que incompreensivelmente ou com razões infinitas voltam da consciência trazendo fragmentos da minha vida, dando ainda mais beleza à existência. Se eu pudesse, agradeceria a cada um de seus autores, especialmente ao desta melodia – Always and Forevero tema musical escolhido para este post, composta por Pat Metheny e publicada em 1992. Desde então – e já na primeira nota – tornou-se a “minha” canção. Creio que seja uma ode ao amor mas, estou certo, foi feita à luz de uma sensibilidade invejável, um talento talvez superado apenas pela própria emoção do autor. Mais do que uma bela canção que vem marcando alguns dos mais belos momentos de minha vida, tornou-se uma companheira, como se fosse parte de meu destino, melodia que assim como tantos lugares que já visitei, sempre e para sempre me acompanharão na lembrança.

Uma data para não esquecer

Dezembro virou Janeiro e completei mais um ano de vida. Eu e ela. Sessenta e oito anos juntos, feitos um para o outro, falando com igual fluência a mesma língua. Ainda moleque dei-me conta da paixão e lhe propus união eterna. Jamais recebi sua resposta, contudo, persisto – resiliente – para a cada novo aniversário voltar ao pedido. Espero tocar-lhe um dia, que a relevância de minha profunda falta de gosto pela morte supere seu silêncio. Levo a vida, sempre dura – às vezes deliciosa, noutras hedionda – consciente de que vou morrer, não sei o dia, mas será a contragosto e levarei saudades da Bahia. E ainda que a morte não me cafungue a nuca, não ando por aí dando sopa. Ela sabe que seja lá quando for, ficarei tiririca da vida e tomarei as providências cabíveis.

Até aqui fiz minha parte: se existia algo que eu pudesse fazer, foi feito; se não, paciência. E se a morte achar que merece ser bacana comigo, conto com seu derradeiro gesto de boa-vontade: deixe que eu vá sem perceber ou, então, que não seja afoita, senão um tipinho desses impontuais. E se por acaso a sorte resolver estar comigo na hora, que o carreto que leva a gente desta para melhor esteja tão apinhado que eu fique para depois. Mas, quando chegar o irremediável “grande final, o dia do salto mortal”, que eu seja da morte um distante espectador.

Ao completar 68 anos de idade – embora ainda não arraste os pés, nem use bengala – sei que sou idoso, razão porque lembro-me como nunca das palavras do filósofo: “todo velho tem mais apego à vida que as crianças, sai dela com mais má vontade do que os jovens”. Rousseau estava certo. Penso nisso sobretudo aqui na terra dos faraós, que ao contrário de mim, acreditavam poder levar o que adquiriram na vida para depois da morte. Já que não, concentro-me exclusivamente em aproveitar intensamente a vida – “Que nem jacaré tomando conta dos ovos” – como disse o grande e saudoso “filósofo” João Saldanha.

Meu café da manhã foi assim, com estas intensas e arrojadas divagações que, embora estranhas, são de uma pessoa normal. Normal, ainda que não leia Paulo Coelho ou assista novelas. Podem acreditar, eu jamais frequentei a poltrona de um analista. Não sei bem se porque não acredito em psicanálise ou por temer que nunca me concederiam alta. Então, no desjejum, não precisei mais do que uma boa xícara de café forte, matar quem estava querendo terminar comigo – a fome – e refletir sobre a maravilha de viver. Logo a mente se ocupava da vastidão de coisas magníficas que há para se fazer na vida, entre elas, viajar. E, naquele dia, especialmente, o privilégio de conhecer Karnak e Luxor. Assim, após os dois milhões de caminhos que o pensamento tomou até chegarmos à entrada do complexo, meu aniversário já se tornara uma data para não esquecer, e pouco mais tarde, eu combinava a nova idade com a alegria e os prazeres do dia: a visita aos templos com adoráveis companhias.

Karnak e Luxor

Nada de investigações teóricas, de pesquisas históricas profundas ou leituras acadêmicas. Meu conhecimento era bastante básico, mas se resguardava na intenção de enriquecer-se com a prática da observação, vivendo a experiência da visita e o que dissesse o guia. Ambos os complexos me pareciam tão inspiradores, atraentes e fornecedores de experiências que não me dei conta de que marcavam o término de nossa viagem pelo Egito e do bom cruzeiro pelo Nilo. Nos ocupariam o dia com descobertas que jamais poderíamos supor, mesmo que antes as imaginássemos extraordinários.

Todos os turistas que faltaram aos outros sítios encontravam-se ali, agrupados ou dispersos, mas como em nenhum outro lugar no país. Nem mesmo nos espetaculares Museu do Cairo ou nas Pirâmides de Gizé. Na margem do grande Nilo, e cercada como sempre por deserto, Luxor é uma das grandes cidades da região, tem cerca de meio milhão de habitantes vivendo junto a um dos maiores museus ao ar livre do planeta. O sítio arqueológico remonta aos anos 3.200 a.C., embora apenas na 11ª dinastia tenha crescido ao ponto de tornar-se cidade. Igual a tudo ao longo do Nilo, é nas proximidades de suas águas que tudo acontece, cresce e prospera.

Há lugares que nem sempre correspondem às expectativas, e entre o que se espera e a realidade, alguns podem desapontar. No meu caso, para a felicidade deste otimista, encontrei muito maior número das boas e bem correspondidas expectativas do que o contrário, com o enorme complexo honrando a posição de destaque que ocupa no patrimônio faraônico, selando nossa visita com o sentimento de ter valido a pena tanta espera por visitar o Egito.

Logo à sua entrada, uma longa avenida ladeada por 1.350 esfinges conectava os dois templos, e depois uma nova rua, semelhante na aparência, embora menor e mais estreita, tinha igual impacto visual, conduzia ao indescritível conjunto, à fabulosa sucessão de pilons, obeliscos, estátuas, colunas, avenidas, ruas, templos e esfinges.

O encerramento da jornada foi sob um anoitecer encantador, como se não bastasse estarmos num dos mais belos templos egípcios. O som de um muezin numa mesquita vizinha fechava com chave faraônica de ouro nossa experiência memorável, selava com louvor a reputação do lugar, já bastante salientes.

Percebi, então, que os pensamentos matinais foram parte de um jogo da mente, um teste no qual ela pula de coisa em coisa até ter-me feito perceber o importante: o proveito que tiramos dela. E embora este relato seja de uma visita ao enorme templo da morte, à vida – a minha grande companheira de todas as horas – dedico estas mal traçadas linhas.

Deixo aqui o leitor sem mais palavras, com imagens dos adoráveis templos de Luxor e Karnak, lugares que hoje pertencem à parte especial da minha mente, reservada aos lugares mais encantadores em que já estive.

Próximo capítulo

Marrocos – Eternamente e ainda depois

EGITO – Luxor – O Vale dos Reis

Os faraós e a eternidade

A Map of The World, de Pat Metheny

Lá longe, uma escadaria. Tão distante de mim quanto seu passado. Situada ao pé de uma falésia, ao fim de um vazio desértico lunar, a arquitetura do templo tornava o conjunto uma paisagem estranha mas admirável, cujo ar misterioso fazia meu olhar se render. A mente, até então imperturbável, afobava-se com a proximidade da ação, do contato e do prazer do toque.

O Vale dos Reis

Às vezes olho para uma paisagem e enxergo mais do que ela, uma versão do que a mente pensa ser, de tal modo que ali minha pura fantasia abstrata fazia-me avistar um “palácio”, embora eu soubesse tratar-se do templo mortuário da Rainha Hatshepsut. E aparentava mesmo ser tão raro quanto eu pensava: dedicado a uma mulher, único a céu aberto no vale, as areias do deserto não o mantiveram em segredo por milênios, como todas as demais 63 tumbas descobertas ali. Mais do que ruínas de uma gloriosa civilização, um mausoléu faraônico era a casa da eternidade de reis e rainhas, e mesmo não sendo palácios em vida, edifícios suntuosos post mortem. Lugar de quietude e repouso, por certo, mas aparentemente tão vivo e pulsante de história que me inspirava, tanto pela beleza e exclusividade, quanto pela alegria e curiosidade que despertava, de tal modo que em nenhum breve momento me aparentou ser um lugar de luto e melancolia.

Obra das mais exclusivas e diferentes de todas as que visitáramos, sobretudo as tumbas subterrâneas do Vale dos Reis, onde estivéramos pouco antes, integra o conjunto de túmulos enterrados que arqueólogos precisaram de uma vida para descobrir. Impossível não inquietar-me, pois o de Hatshepsut, além de único exposto a céu aberto, tinha três terraços sobrepostos acessados através de rampas e escadas, cujo desenho, arte e arquitetura eu já podia identificar como típicas das moradas eternas faraônicas, ainda que aquela fosse tão inigualável.

Nem todos os faraós eram homens. Hatshepsut, por exemplo, ainda que não tão conhecida quanto Cleópatra, foi uma das mais importantes do Egito Antigo. Filha do Faraó Tutmés I, nasceu em 1490 a.C., morreu aos 50 anos de idade depois de comandar seu mundo. O mausoléu, localizado ao pé de um dos morros do vale, teve muito do que havia nele, destruído e vandalizado, motivo porquê sua reconstrução lhe dá a aparência de bem mais novo. Várias esculturas em pedra e pinturas representam a história da rainha, mas são as colunas e espaços abertos, que seguem uma geometria interessante e atraente, o que impõe ao templo sua característica tão expressiva e inigualável.

As tumbas escondidas

Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu uma tumba cheia de tesouros no Vale dos Reis. Desde então, diversas outras expedições e especialistas encontraram no mesmo espaço dezenas de outras, todas consistindo de um longo corredor inclinado que desce ao subsolo das montanhas até através chegarem a uma ou mais salas e, finalmente, à uma câmara funerária, entre elas a tumba de número 62, de Tutankamon e a de Ramsés IX, as grandes estrelas do vale. Descoberta em 1922, tudo o que foi encontrado está no Museu Egípcio, no Cairo. Escavações estão em andamento para a descoberta de novas tumbas, mas muitas das encontradas estão abertas à visitação, entre elas as mais populares aquelas ornamentadas nas paredes e tetos.

Dali seguimos para os Colossos de Mêmnon, duas estátuas gigantescas do faraó Amenófis III, situadas na necrópole da antiga cidade de Tebas, tidas como guardiãs do templo funerário do faraó. Depois, voltamos ao navio, carregados de boas lembranças e imagens que víramos no dia.

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A seguir:

Karnak, Luxor e eu

Uma data para não ser esquecida

A sonorizar este capítulo, A Map of The World, linda e inspiradora melodia de Pat Metheny tocada por ele mesmo, parte da trilha sonora de minha vida, que junto a outras tantas canções felizmente me seguem desde a infância sem que delas eu me esqueça e novas outras vão aderindo.

 

EGITO – Kom Ombo e Edfu – Adeus à Núbia

Colunas do Pátio do Templo de Kom Ombo
<p class="has-drop-cap has-text-align-justify has-medium-font-size" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="36" max-font-size="72" height="80"><strong><strong><strong><strong>Depois do azul </strong></strong></strong></strong>do dia e de um pôr do sol encantador veio a magia da noite. Eu ainda não avistara o céu, mas o imaginava, e se fosse como tal, admirá-lo não seria escolha, mas destino. Haveria de ser tão soberbo quanto a natureza do Nilo? E tão elétrico, límpido, estrelado e carente de contemplação quanto o representado em minha mente, um Céu daqueles de ouvir estrelas?Depois do azul do dia e de um pôr do sol encantador veio a magia da noite. Eu ainda não avistara o céu, mas o imaginava, e se fosse como tal, admirá-lo não seria escolha, mas destino. Haveria de ser tão soberbo quanto a natureza do Nilo? E tão elétrico, límpido, estrelado e carente de contemplação quanto o representado em minha mente, um Céu daqueles de ouvir estrelas?

<p class="has-text-align-justify has-medium-font-size" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="36" max-font-size="72" height="80"><strong><strong>Ora, direis, ouvir</strong> </strong>estrelas é perda de bom senso. Mas, sim, podem-se ouvi-las, como disse o poeta. Basta procurá-las num céu deserto e conversar com elas. E se toda noite tem sua beleza própria e seu tempo, se todo céu também nunca é o mesmo de ontem, aquele bem que poderia ser o poema que minha imaginação criara, mas se mesmo assim nada acontecesse como o inventado, a culpa seria tão só dela, minha mente criativa e sonhadora, porta aberta para um romantismo que nem sempre se confirma na realidade. E se também não fosse perfeita a noite como fora o dia, um quase já me bastaria, de tal jeito que nem o frio glacial e o cansaço do corpo barrariam meu desejo de admirá-la. Ora, direis, ouvir estrelas é perda de bom senso. Mas, sim, podem-se ouvi-las, como disse o poeta. Basta procurá-las num céu deserto e conversar com elas. E se toda noite tem sua beleza própria e seu tempo, se todo céu também nunca é o mesmo de ontem, aquele bem que poderia ser o poema que minha imaginação criara, mas se mesmo assim nada acontecesse como o inventado, a culpa seria tão só dela, minha mente criativa e sonhadora, porta aberta para um romantismo que nem sempre se confirma na realidade. E se também não fosse perfeita a noite como fora o dia, um quase já me bastaria, de tal jeito que nem o frio glacial e o cansaço do corpo barrariam meu desejo de admirá-la.

<p class="has-text-align-justify has-medium-font-size" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="36" max-font-size="72" height="80"><strong><strong>No deck do</strong> </strong>navio talvez ela não fosse mesmo tão bela quanto a criatividade da mente, mas lá fora, sob o céu do Nilo, eu sabia que um mundo diferente, novo e curioso tomaria posse de tudo, dominaria o rio, o deserto e mais a gente que o estivesse a admirar. E a posse não se daria só por estrelas, astros e satélites, também pela cacofonia de pássaros e insetos, o sussurrar gentil das folhas de palmeiras, um farfalhar de mato rasteiro e touceiras de junco ondulantes se esfregando às margens do rio, também de sons menores que só ouvidos atentos conseguem, como o cri-cri-cri dos grilos, as vozes quase inaudíveis de adultos, crianças e animais.No deck do navio talvez ela não fosse mesmo tão bela quanto a criatividade da mente, mas lá fora, sob o céu do Nilo, eu sabia que um mundo diferente, novo e curioso tomaria posse de tudo, dominaria o rio, o deserto e mais a gente que o estivesse a admirar. E a posse não se daria só por estrelas, astros e satélites, também pela cacofonia de pássaros e insetos, o sussurrar gentil das folhas de palmeiras, um farfalhar de mato rasteiro e touceiras de junco ondulantes se esfregando às margens do rio, também de sons menores que só ouvidos atentos conseguem, como o cri-cri-cri dos grilos, as vozes quase inaudíveis de adultos, crianças e animais.

<p class="has-text-align-justify has-medium-font-size" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="36" max-font-size="72" height="80"><strong>Naquele momento era</strong> a mente, com sua autonomia, quem me dominava, enganando o corpo fazendo-o suportar nos ossos um vento que já antes me congelara a pele. Alguns minutos depois, não sei quantos, já no limiar de minha capacidade de aguentar o frio por opção, encerrei a breve visita e a eterna procura por uma estrela mais brilhante. Voltei para o aconchego da cabine e dormi sob os agradáveis efeitos do cansaço, das lembranças de um dia fenomenal, de um jantar apetitoso e de meia taça de vinho tinto egípcio.Naquele momento era a mente, com sua autonomia, quem me dominava, enganando o corpo fazendo-o suportar nos ossos um vento que já antes me congelara a pele. Alguns minutos depois, não sei quantos, já no limiar de minha capacidade de aguentar o frio por opção, encerrei a breve visita e a eterna procura por uma estrela mais brilhante. Voltei para o aconchego da cabine e dormi sob os agradáveis efeitos do cansaço, das lembranças de um dia fenomenal, de um jantar apetitoso e de meia taça de vinho tinto egípcio.

Ainda ancorados, despertei na manhã seguinte com a mente em sossego e a comodidade de uma noite bem dormida. De uma bela noite. E assim levantei-me para ir à janela espreitar o rio, como já de costume o fazia, contudo agora com certa intimidade. Em breve o navegaríamos até Kom Ombo e dentro do peito o coração saudoso daria adeus à Núbia para então, 45 quilômetros depois, rio abaixo desde Assuã, na sua margem direita, entre palmeiras e tamareiras, encontrarmos mais um belo templo faraônico.

Kom Ombo

Aos deuses Sobek – do crocodilo – e Hórus, com cabeça de falcão – o templo foi oferecido, embora parte dele também a Hathor – deus da fertilidade e criador do mundo – a Khonsu e a Tasenetnofret (a Boa Irmã) e a Panebtawy (o Senhor das Duas Terras). O templo é duplo, assim como sua entrada e os salões, que embora conectados, servem cada qual à sua divindade, tendo sido todos construídos no início do reinado de Ptolomeu VI, ali por volta de 180-145 a.C., cujo membro mais famoso da linhagem foi sua última rainha, Cleópatra VII, conhecida por suas habilidades políticas.

Assim que ancoramos saímos para a visita com o templo à vista, cujas colunas avistavam-se do terraço do navio como se brotassem da terra arenosa tal qual as palmeiras circundantes, mas, à medida que nos aproximamos da entrada, elas crescem e surpreendem-nos para converterem-se numa das atrações do templo, e torná-lo um dos mais cativantes da viagem, outro bom exemplo arquitetônico da civilização faraônica.

As colunas que capturam o olhar são parte da beleza do cenário, porque há também seus lindos capitéis, as arquitraves – vigas que se apoiam nos os capiteis das colunas -, as cornijas e os blocos de pedra esculpidos e gravados. Em alguns encontram-se os nomes de Ptolomeu e Cleópatra, mas por certo apenas depois de apontados pelo guia. Além do pórtico – ou pilon – tudo mais integra o típico exemplo de arquitetura egípcia antiga.  

O santuário duplo tem salas erguidas de forma simétrica, duas entradas, dois pátios, dois salões hipostilos[1] e dois santuários. No interior há um pequeno, esquisito santuário que expõe crocodilos mumificados. Mas é a parede frontal, com as figuras dos deuses Sobek e Hórus, e um texto hieroglífico com 52 linhas, seus destaques, um dos elementos mais impressionantes de todos os templos do alto Egito. Três antecâmaras levam à área interna do templo, onde as paredes são cobertas por relevos finos e em excelente estado. Mas quer saber o que primeiro a gente percebe assim que entra no templo? Egípcios escondidos atrás de uma pilastra à espera de turistas para fotografá-los em troca de uma bakshish.

O templo de Hórus, em Edfu

Voltamos a pé ao navio ancorado bem defronte ao templo de Kom Ombo, que em breve partiria em direção a Edfu, a 63 quilômetros dali, onde visitaríamos o templo de Hórus, considerado o mais impressionante de todos os templos próximos às margens do Nilo no trajeto entre Luxor e Aswan, parada fundamental de todos os navios de cruzeiro que fazem este roteiro ao longo do Vale do Nilo.

Behedet, em egípcio antigo, ou Edfu, como se conhece no resto do mundo, é uma das maravilhas do Nilo faraônico, uma construção tardia, isto é, do período greco-romano, mandado construir por Ptolomeu III e Ptolomeu IV, com adições posteriores. É um templo completo que inclui desde o pilone construído pelo pai de Cleópatra, no século I a.C., até o salão que precede o santuário de Hórus, parte final e mais importante deste complexo do Novo Império, que consagra o templo de Edfu um perfeito e completo exemplo deste estilo arquitetônico.

Uma vez na margem do rio, pode-se chegar ao templo Hórus – deus protetor das famílias e dos faraós – com facilidade seja por taxi, tuk-tuk ou charrete. Optamos por tuk-tuk e cruzamos a cidade poeirenta sob um frenético, intenso e energético movimento de transportes levando passageiros turísticos desde o porto ao templo, para visitarmos uma das mais bem preservadas obras dos tempos ptolomaicos no Egito, construído entre 237 e 57 aC.

Sua porta é enorme, tem 37 metros de altura e guardam-na dois falcões, o deus dos céus e dos astros, como sempre, com paredes inteiras ornadas com desenhos, esculturas e hieróglifos em baixo-relevo incrivelmente conservados, inclusive aqueles destruídos a marretadas, desfigurados por cristãos. Nas paredes internas do templo há representações da procissão divina de Hórus e Hathor, estátuas do deus falcão protegendo om portal de uma colunata e diferentes cenas de um faraó rezando ou realizando oferendas. No interior há uma pequena sala a que chamam de biblioteca onde guardavam-se rolos de papiros científicos e administrativos, com paredes adornadas de imagens iconográficas.

Próximo capítulo

Luxor e Karnak


[1] Hipostilo, palavra grega, significa “teto sustentado por colunas” de um grande salão.

EGITO – O Templo de Ísis na Ilha de Philae

Não há mais mistérios, não há mais segredos nem pistas a seguir. Mas ainda magia e beleza. Hoje não se vai mais à procura de um mundo perdido, de peças que faltam para completar o mundo, templos submersos ou tumbas soterradas, senão para navegar o Nilo turisticamente. Mas isso quase basta, porque silenciosamente numa felucca[1] assistem-se passar os mesmos pedaços de Egito antigo às suas margens, tal qual experimentavam os exploradores pioneiros que pela primeira vez avistaram obras de um estranho, admirável mundo antigo. O rio ainda fascina do mesmo jeito e motiva tantos a sairem de casa em busca de seus tesouros faraônicos.

Somos agora apenas viajantes turísticos comuns, não mais pioneiros, e no exercício de deliciosas explorações mundanas. Seguimos o rio num entardecer encantador, em busca do Templo de Ísis na ilha de Philae, e não era nada difícil nos sentirmos na pele de exploradores de séculos passados.

A caminho do templo de Philae

O rio é eterno em sua beleza brilhante, no azul profundo que rasga o ocre e alimenta de fertilidade as terras às suas margens, preservando a integridade de sua gente e a identidade do país. Navegamos as mesmas águas cruzadas por embarcações cinco mil anos atrás, subindo o Nilo juntos às suas costas observando o desfilar de templos faraônicos. A atmosfera é soberba, e até possível descrevê-la, mas permanece coisa melhor de sentir do que contar. Naquela tarde, a felicidade parecia não vir de cada um de nós, senão do rio, e enquanto o barco seguia Nilo acima em direção à adorável ilha do templo, o entardecer na Núbia caía divino sobre nós, ajudando o protagonismo do rio, convertendo-se no pôr do sol mais estonteante, que embora sempre adorável em qualquer buraco do planeta, quando calha de ser daquele jeito torna-se arrasador.

A abordagem pela água é a coisa mais bonita

Os únicos sons vêm do bater suave do Nilo contra o casco do barco, do motor também e dos suspiros de não mais que oito passageiros. Não se sentem cheiros, a não ser de ar limpo, pois os perfumes, especiarias e incensos egípcios que carregam as narinas nos mercados não chegam a esta altura do rio. Não navegamos numa romântica dahabiya[2] movida pelo vento, senão numa embarcação anônima e ordinária, sem um convés repleto de sofás, futons e poltronas estofadas, mas a navegação me parece tão sedutora e mística quanto dos relatos de antigos viajantes. Sei que será breve, razão porque entregar-me a ela é o que melhor posso fazer. As vezes me ocorre não bastar olhar, precisar tocar para desfrutar plenamente o momento, então, inclino-me para fora do barco de madeira desgastada, ponho a mão na água e metade dos dedos arrastam no Nilo. Ele sobe pela palma até o pulso, com força, mas como carícia. Concentro-me no enorme prazer temendo os exageros, parecer tolo ou, pior, deslumbrado, ainda que intimamente justifique-se o tamanho do pazer de tocar as águas do Nilo. Sorrio, discretamente, um sorriso de “canto de boca”, mas deixo livre o curso dos meus pensamentos: “Que mundo maravilhoso! Que momento!”. A mão volta ao barco, os olho observam meu redor e reparo outros sorrisos francos e mãos medrosas tocarem o rio. Nem preciso ler pensamentos. 

Colunatas e pilares parece surgir do rio como miragem

Para mais, de nada eu preciso, nem mesmo desejar paz e sossego, pois ela já nos chega com a brisa confortável que sopra nossos rostos desde Assuã. Até a ilha de Agilika – pedaço de terra onde hoje mora o Templo de Ísis – são oito agradáveis quilômetros que vejo e sinto do mesmo jeito que disse Amelia Blandford Edwards[3], que em 1877 descreveu a abordagem pela água como a mais bonita. E vista assim, do nível de um pequeno barco – a ilha com palmeiras, colunatas e pilares parece surgir do rio como miragem. Falta pouco para encontrarmos a joia do Nilo, que já avisto aproximar-se. 

 Minha razão ainda não consegue aplacar a fantasia, então, mesmo com a aproximação encantadora – água, rio e impressões iguais às do relato de Amelia – faltam-me contudo as flores de lótus, os crocodilos, os papiros e nenúfares de flores roxas aglomerados num mesmo canto da margem. As imagens que eu trouxera na imaginação vinham agora, provando que um viajante deve cuidar para que o Egito antigo não se perca entre a luz da realidade e a escuridão de suas divagações. Volto aos trilhos e vejo que não há mesmo sombra de dúvida: a chegada honrando o valor do templo e as palavras da autora, convertendo-se num grande momento, a paisagem sendo tudo, maior que tudo, tão grande e bela que por pouco quase perco o interesse pela câmera. Registro rapidamente o momento para que não volte sem imagens fotográficas, mas não revelam o que descreveu a exploradora. Então, chego ao porto e o templo já não cabe mais no rio. Deixa de ser reflexo, de tremular na água para tomar sua forma concreta, protagonizar, me fazendo prever que apesar de encantadora a abordagem, haveria de ser visita ao templo outro espetáculo, ter peso igual em toda a diversão. O rio tornava-se agora coadjuvante e o templo tomava o papel principal.

A “avenida” dos vendedores do templo

Um plano ocre brilhando sob a luz mágica do entardecer que incidia diagonalmente sobre as paredes de pedras. Rochas empilhadas com maestria, talhadas com fineza e a delicadeza de divinos desenhos formando um cenário perfeito com o rio ao redor. Em terra, uma outra personalidade, a mesma intensa beleza, um templo entre os mais luminosos do Egito antigo, que em nada lembra a obscuridade dos muitos mausoléus que abrigam tumbas e sarcófagos faraônicos que visitaríamos nos dias seguintes.

Vejo aproximar-se o ancoradouro da ilha com outros barcos ancorados. Contemplo mais uma vez o reflexo do templo na água, despedindo-me dele, porque eu sabia que a chegada era para se aproveitar sem hesitações, que em breve a atracação mataria a perspectiva, acabaria com a atmosfera do encontro. Com um último suspiro saio do barco.

Um templo com luxuosas vistas para o rio

Uma pequena colina servida por uma escada de cimento leva-nos até o nível do chão, uma larga “avenida” com bom calçamento, que embora ladeada por um “corredor polonês” de vendedores, é caminho tranquilo às bilheterias e ao portão do complexo. Logo pegamos nossos ingressos, cruzamos o portão e, voilà!, um ângulo surpreendente e amplo se abre para um pátio delimitado por duas grandes fileiras de colunas.

O primeiro pilone

Trinta e uma delas dispostas ao longo de 100 metros margeiam o pátio diante do grande pórtico – ou pilone – obra em forma de pirâmide truncada com belíssimas e enormes representações de Ísis, Hórus e Ptolomeu III em baixo relevo, guardadas por dois leões de pedra ao nível do chão. O conjunto é tão belo que por si já teria valido a visita. Mas há um novo pátio fronteiro ao templo, cuja fachada tem representações da deusa e de seu esposo, Osíris, e assim que o cruzamos, uma aparição “surge”: a Sala Hipostila, uma coisa linda, adorável, com paredes, umbrais e colunas profusamente ornados.

O Templo de Ísis

Filas é nome da ilha que o templo de Ísis tomou para si. Era o antigo lugar onde fora construído há “apenas” 2.000 anos. Após 1902, com a construção da primeira represa de Assuã, permanecia inundado durante seis meses, quando então os viajantes remavam entre as colunas parcialmente submersas e espiavam tudo mais o que ficava à vista, rodeados por água e pedras do santuário dedicado à poderosa deusa. Ficou assim sob as águas do poderoso Nilo por 70 anos. Pobre Isis. Mais tarde, com a conclusão da Barragem Alta, o templo seria totalmente submerso, razão porque o deslocaram, graças a Isis, caso contrário o teríamos perdido. Remontado pedra por pedra na nova ilha, entre 1972 e 1980, mantiveram-se suas características originais, sua atmosfera incomparável, a aparência, o layout, paisagismo e até mesmo as marcas das inundações que ainda hoje podemos conferir.

Estilo e padrões faraônicos

Parece antigo – e para nós do novo mundo verdadeiramente é -, contudo, trata-se de um dos templos mais recentes, além do mais bem preservado. Considerados os padrões faraônicos, trata-se de um jovem dentro de uma história que remonta a 5000 anos[4]. A obra é “nova”, mas de uma época em que o resto do planeta vivia na obscuridade cultural e intelectual, que do primeiro ao último vislumbre, suas torres e paredes prendem olhares e faz soltarem-se suspiros.

Na ilha, outras edificações construídas pelos ptolomeus – Cleópatra a última – foram adicionadas a Philae nos últimos dois séculos a.C, assim como depois por imperadores romanos. Nas inscrições e desenhos contam-se histórias de deuses e da realeza, que embora comuns a todos os templos faraônicos, em Filas têm vista para o rio. Talvez eu devesse dizer algo mais, mencionar outros méritos do templo, discorrer sobre datas e deuses, não passageiras, mas deixarei de lado, pois não me qualifico e temo a simplicidade, abordagem superficial de um assunto cercado por obstáculos. Sinto-me, contudo, mais à vontade para apontar seus valores visuais, construtivos e arquitetônicos, as principais particularidades do templo, além de suas luxuosas vistas para o rio. E para o benefício de quem deseja informações técnicas precisas e afiadas, há um universo em egiptologia à disposição na Internet que eu teria prazer em recomendar.

Ísis era uma das principais divindades da mitologia egípcia e transcendia as fronteiras do Egito, chegando até o universo greco-romano e zelando por todos, de escravos e nobres a pecadores, santos, governantes e governados, dominando o cosmos com chifres, asas e um disco solar na cabeça.

Ao redor do Templo de Isis, pequenos outras obras com menor brilho, como os templos de Hathor e o de Trajano, o pavilhão de Nectanebo – rei da 30ª dinastia -, a Porta de Adriano, além de um nilômetro – cujos degraus de pedra mediam o nível do rio. O quiosque de Trajano, dedicado ao imperador romano, construído no início da era cristã, tem estrutura que pode sugerir ter sido adaptado e ornamentado mais tarde com elementos característicos do império. A edificação tem planta retangular e quatorze colunas com capitéis entalhados com motivos florais e paredes com imagens do imperador queimando incensos em honra de Isis e Osíris e ofertando vinho a Isis e Horus.

Dias mais tarde visitamos Luxor e Karnak, templos que poderiam tornar o de Ísis “pequeno”, contudo, sua beleza e delicadas proporções, a cuja “leveza grega aliada à forma egípcia” se referiu Amelia Edwards – trarei para sempre comigo no setor egípcio de meu cérebro viajante. 

Aproveitamos cada minuto na ilha da deusa, e aproximando-se a hora de um dos mais belos poentes da viagem, fomos orientados a apreciá-lo de cima, antes da descida ao ancoradouro para retorno ao barco. Foi mesmo tão belo que parecia exclusivo, como se a deusa celebrasse nossa visita ao templo. Descemos para a felluca que nos levaria de volta. Entramos num barco qualquer, o primeiro da fila, com um núbio no comando.

Seria mesmo núbio o nosso capitão? O Egito teve a Núbia como país vizinho em sua divisa do sul, que agora fica a 250 quilômetros dali, com o Sudão. Embora com óculos de sol “rayban” e um casaco contemporâneo, a fisionomia não aparentava ser a de um egípcio, pois tinha traços incomuns aos que víramos desde o Cairo, dando razão à minha curiosidade. O fim da visita foi sob um pôr do sol incrivelmente bonito enquanto nos afastávamos da ilha, navegando de volta os oito quilômetros que nos separam de Assuã.

A silhueta negra do templo foi ficando para trás, enquanto à frente, casas núbias desfilavam à beira d’água. Pintadas em azul turquesa e iluminadas pela cor quente do poente, ornavam-se com pinturas em rosa, amarelo e verde.

O Obelisco Inacabado

Nas proximidades da cidade há pedreiras antigas, fontes do melhor granito do Egito Antigo, de onde saía matéria prima para grandes esculturas, monolitos e obeliscos. Numa delas talhava-se o que pretendiam ser o maior obelisco da antiguidade – o Obelisco Inacabado – cujos 42 metros de altura e 1168 toneladas seria também o mais pesado bloco de pedra já produzido por egípcios na antiguidade.

Abandonado devido a fendas e rachaduras surgidas na peça ainda deitada, permanece conectado à rocha, tornando-se uma das atrações mais conhecidas da cidade, ainda que quase nada mais se saiba sobre a obra ou para onde seria transportado.

Embora muitos outros sítios arqueológicos fascinantes haveríamos de visitar nos próximos dias, aquele primeiro dia de cruzeiro no Nilo terminou como o mais notável de nossa estada no Egito.

Próximo capítulo

Edfu e Kom Ombo – De Assuã a Tebas (Luxor)

[1] Felucca é um barco à vela tradicional de madeira, usado em águas resguardadas do mar Vermelho e do Mediterrâneo Oriental, como em Malta e, particularmente, no rio Nilo no Egito e no Sudão, e também no Iraque e na Sicília.

[2] Dahabya é uma barcaça de passageiros, de madeira e com duas ou mais velas, usada no rio Nilo, relevos gravados na pedra de templos e tumbas do Egito testemunham que essas embarcações já existiam há milhares de anos, embora originalmente fossem usadas para transportar a realeza.

[3] Amelia Blandford Edwards, escritora, contista, jornalista e egiptóloga britânica da Era vitoriana, produziu romances, diários de viagens, contos e ensaios sobre o Egito Antigo e co-fundadora da Egypt Exploration Society, emA mil milhas acima do Nilo”, publicado em 1877 com o título A Thousand Miles Up the Nile(p. 207).

[4] O templo foi construído entre os anos 380 e 362 a.C., durante a última dinastia egípcia, dos Ptolomeus, que na verdade eram gregos e descendentes de um dos generais de Alexandre, pouco antes da invasão de Alexandre, o Grande, em 323 a.C.  

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