De volta à Índia – Purana Qila, na Velha Delhi

                   Acordo mais cedo do que preciso. Meu relógio biológico demora mais do que desejo para entrar no compasso dos 17 milhões de pessoas que vivem em Delhi, apesar do cuidadoso preparo de terreno na noite anterior: cerrar as cortinas, não deixar frestas de luz, apagar qualquer vestígio dela. Ainda assim, sinto-me como pilhas precisando de recarga. Vou à janela ver o pedaço que ela me reserva da cidade. Ainda estão acesas suas luzes, quando a poluição do ar parece mais notável, marcada nos rastros alongados e círculos ao redor das lâmpadas.  Começamos o dia pela tranquilidade de Purana Qila – ou Old Fort, onde a história é ainda mais antiga que Shajahanabad. E apesar de belíssimo, um dos lugares turísticos mais cativantes da cidade, é pouquíssimo visitado. Sua serenidade não prepara o viajante para a intensidade de Chandni Chowk.

Bada Darwaza

            Ainda cedo cruzamos o Bada Darwaza, um de seus portões majestosos, e logo depois o portal Talaqi Darwaza, que leva ao imenso parque interno. Ambos fazem o visitante desavisado pensar que o forte esteja de pé, apesar de lhe sobrarem apenas ruínas. A eventual decepção é compensada pela belíssima mesquita Qila-I-Kuhna e pelo pavilhão Sher Mandal, construções das mais belas da cidade. Àquela hora da manhã, tão cedo, ainda não havia turistas, senão jovens casais ocupados com o namoro envoltos pela bruma de poluição, emprestando uma imagem romântica ao lugar.

O que sobra de Purana Qila

    O Sher Mandal foi construído como observatório celeste pessoal e biblioteca de Humayun, de onde ele caiu do segundo andar e morreu.  Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho, tem incrustações de mármore branco e preto, construído por Sher Shah, é uma grande mesquita de um único corredor, um dos primeiros exemplos na região em que se usou o arco aguçado, que lembra o gótico.

      O Sher Mandal, prazer e morte de Humayun

      O interior de Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho, é ricamente decorado com elementos islâmicos e o conjunto da edificação o tornou um marco de transição do estilo Lhodi – mais discreto e contido – para o mogol, mais grandioso e imponente. A fachada frontal tem desenho e decoração notáveis e o interior é surpreendente, com um iwan marmorizado, arcos, saliências no teto, abóbodas, colunas e arcos.

De volta à Índia – Na Velha Delhi, o Mercado Gadodia, um cortiço muito além das especiarias

                Olfato e odores. Uma experiência nasal no Gadodia Market

            Na Antiguidade, filósofos importantes não se preocupavam muito com o sentido que nos permite distinguir cheiros. Demócrito talvez tenha sido o primeiro a dedicar-se ao olfato, concluindo uma forte conexão entre nossa mente e os aromas, estabelecendo o que ele denominou “pensamento nasal”.  Já Heráclito, mais tarde, disse que “se todas as coisas se tornassem fumaça, nós as conheceríamos pelas narinas”.

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                 Pois bem, no mercado Khari Baoli, e mais depois no Gadodia Market, a sensação pode se confirmar em qualquer indivíduo não familiarizado com o lugar. O formigamento das narinas – sensação que não raro pode chegar ao cérebro, como sugeriu o filósofo, depois que nossos receptores olfativos tenham-se inflamado –  será o clímax da experiência.

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               Descemos do tuk tuk na Chandni Chowk, onde ela termina defronte à mesquita Fathepuri. Acreditávamos, até então, que tínhamos vindo do “olho do furacão”, mas logo percebemos que fora apenas uma introdução ao caos. Caminhamos pela rua Khari Baoli, viramos à esquerda na rua Swami Vivekanand, com o burburinho de sempre acentuando-se a cada metro, tornando-se, ao mesmo tempo, tão mais invasivo quanto atraente.

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                O ar converte-se numa fusão farta de cheiros misteriosos, exóticos , ora incômodos, ora estimulantes. Sinto cheiro de pimenta, de cardamomo, cominho, orégano, caril, açafrão-das-índias e massalas. Consigo-os identificar melhor porque estão expostos. Adiante, misturam-se a outros, e parecem dizer-me que não há condimento que não se possa encontrar por ali. Satura-se tanto que perdemos o comando dos sentidos, sequestra-nos o controle com “toques” violentos no olfato,  de tal modo, e com tamanha potência, que penetram pelo nariz e vão ao cérebro, findam ali a interferência nos pensamentos, como se drogas fossem.  Não chega a ser maior que atravessar a rua numa cidade grande, mas a “viagem” pode ser um desafio. Só persistência com paciência, podem amenizar. Paciência, aliás, é uma virtude a ser praticada em toda a Índia.

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                 Um incessante circular de gente, de mercadorias a granel em sacos de juta, de homens empurrando carrinhos de mão, num sistema antigo de distribuição e comércio que remonta à época do Xá Jahan, levado a cabo por “trabalhadores das especiarias”, como são conhecidos os imigrantes ou nacionais que ali laboram.

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              As velhas escadas escondidas do Gadodia Market levam ao terraço do edifício, um cortiço onde quase ninguém vai, exceto seus moradores, muito raramente, turistas. Os raros, todavia, não vão em busca de uma vista panorâmica de Velha Delhi, tampouco da mesquita vizinha, embora uma vez lá, a perspectiva não seja tão ruim. Avistam-se o pátio tranquilo da Fathepuri masjid, seus dois minaretes e o domo “acebolado”. É o lado que acalma os efeitos da infusão de especiarias, dos intensos ruídos urbanos da rua defronte, mas  não é o que vale quanto pesa a subida. Importa o vislumbre de uma vida comunal curiosa, de trabalhadores em seus momentos de descanso no maior centro de armazenamento e comércio atacadista de especiarias da Ásia, o Khari Baoli [1], cujo nome é referência ao poço de água antigo que ali existia, mas que há muito desapareceu.

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              É uma vida paralela, que embora integrada à do mercado, tem no cortiço e em seus moradores, em seu caráter desorganizado, sua simplicidade, na precariedade e na pobreza, sua mais evidente personalidade, o que ajuda a manter a cultura do lugar quase inalterada da original, emoldurada pelo que se pode ver – os varais de roupa estendidas aos terraços, os cães e bicicletas, os colchões tomando sol, caixas d’água e paredes sujas – o que está fora do alcance da visão -, e também pelo que se esconde nas moradias escuras, de janelas e portas únicas, de gente com hábitos diferentes, como quase de outro mundo.

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               Não é exatamente um “passeio no parque” chegar até aquele terraço. É um pouco difícil andar, mas faz parte da experiência a “caminhada aromática”. Provavelmente seria um delírio para um chef de cozinha, contudo um incômodo para as narinas mais sensíveis ou não familiarizadas. O visitante não se expõe apenas aos odores, mas a uma deliciosa experiência de multisensorialidade: desvia de cocô, de lixo e de água empoçada, de outras de líquidos não identificados, de mulheres vendendo flores, esbarra em homens carregando sacos de juta às costas, levantando poeira quando jogados no chão ou sobre carros de mão, desvia de gente e de enormes balanças à moda antiga.

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                 É gente da Caxemira, de Madhya Pradesh, do Rajastão, da própria Delhi e de outros estados. São vendedores, compradores, carregadores. Percebem-se uns tentando grandes barganhas, outros procurando escapar delas. E todos extremamente ativos e concentrados em suas tarefas e negócios, provável motivo porque foi o único lugar na Índia onde sequer fomos percebidos, o que, para um ocidental em viagem ao país, é uma raridade constrangedora. Nada parece nos escapar naquela “caminhada sensorial”.

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            Chegamos ao arco que leva às escadas desgastadas para o topo do edifício Gadodia. A simples “travessia” do corredor escuro, assim como a subida, foram uma experiência fascinante. Vimos lojas e escritórios com habitações nos andares acima, partido e conceito projetados com certa inovação, algo que um estudioso poderia definir como evolução dos antigos carevanserais, os antigos armazéns da Rota da Seda, que serviam para compra, venda e estocagem de grandes quantidades, como depósito de mercadoria e moradia temporária de caravaneiros. Contudo, olhando as condições do Gadodia, nos custa crer quem alguém possa morar com dignidade e salubridade. No topo de tudo, um terraço, nosso ponto focal, alvo, objetivo.

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             Já ali, primeiro estranha-se, depois entranha-se [2] das normas de convívio social, dos detalhes, do trabalho, do descanso, lazer, enfim, da vida que levam. Por vezes até a morte, porque há pessoas que passam sua existência inteira no mercado, algumas em pequenas alcovas mal iluminadas, versões tão diferentes de vida e das regras com as quais convivemos, que parecem de outro mundo. Quanto mais nos aprofundarmos nessas camadas, melhor as percebemos. Contudo, há as que não conseguimos ver, pois há uma herança cultural oculta, “enterrada” nas alvenarias, tão profunda que é preciso algum local para nos  explicar. O guia nos salva nesta hora.

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              O prédio, construído em 1920 por seu proprietário – L.L. Gadodia, um indiano que emigrou para os Estados Unidos há seis décadas – embora pareça europeu, inspirado no estilo de Lutyens de Nova Delhi, a ornamentação com chatris lhe dá a inconfundível personalidade hindu.

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             Apesar do atual estado de declínio, o Gadodia mantém-se como sempre: um espaço de habitação e de escritórios tal como foi projetado. Subimos os três lances de escada do cortiço e chegamos ao topo, um terraço com vistas para o quadrilátero formado pelo prédio. Foi uma viagem no tempo. E ainda que recentemente o mercado tenha encontrado um novo público, o turista, especialmente entusiastas do patrimônio, da arquitetura, da fotografia, ou mesmo da prática do voyeurismo da vida alheia, lá em cima, além de nós, havia apenas um indiano grudado no celular e dois macacos. A trilha sonora já não era mais a cacofonia de Chandni Chowk, tampouco ouviam-se as vozes dos comerciantes e trabalhadores, senão um silêncio retumbante. Descemos e voltamos à rua.

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             Passamos pela Mehar Chand and Sons, loja onde trabalha um master blender famoso, chamado A. Kumar, conhecido de chefs do mundo todo – famosos ou não – que experimentam e compram masalas como o Aloo Gobi, Butter Chicken e o Dal Makhani, entre outros. No fundo da loja, as aventuras culinárias indianas terminam em incríveis chás, do Darjeeling e Earl Grey ao Black Tea e ao Mango Tea.

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             Tomando um ligeiro desvio, perdido no caos de Chandni Chowk, fomos até o Haveli de Mirza Ghalib, um tesouro de 300 anos meio esquecido, e depois no simpático, atraente Haveli Dharampura, um hotel pousada no meio do olho do furacão, a seguir, no próximo capítulo.

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[1] Amêndoas (Badam), Castanha de Caju (Kajoo), Cocos (Nariyal), Noz-moscada Integral (Jaifer), Ervilha (Moong-phali), Pistácio (Pista), Nozes (Akhrot), Noz de Beterraba (Supari), Passas (Kishmish), Figos Secos (Anjeer), Pó de Chilli Suave (Bookanee Lal Mirch) e Pimentões Finamente Picados (Mota Lal Mirch), de cor vermelho intenso, Coentro moído (Dhania Powder), Manga Seca Moída (Aamchur), Gengibre (Adrak),  Anis (Sauf), Cardamomo (Elaichi), Canela (Dalchini), Açafrão (Kesar), Pimenta Preta (Kali Mirch).

[2] Fernando Pessoa, um dos nomes maiores da poesia portuguesa, foi abordado, em 1927, pela empresa Coca-Cola, para criar um slogan publicitário. Ele escreveu: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

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Haveli Dharampura

De volta à Índia. O Túmulo de Humayun. Para o marido, com amor

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               O estilo mogol, na arte e na arquitetura, não tem autor em particular ou grupo de artistas criadores, resulta de uma consciente atuação de alguns imperadores – desde Babur, o fundador do império mogol – até Humayun, Akbar, Jahangir, Sha Jahan, Dara Shikoh e Aurangzeb, que compartilhavam grande interesse pelas artes, além de líderes de um império que cobriu grande parte da Índia em seu auge. Eram homens cruéis, guerreiros conquistadores e senhores das guerras, é verdade. Comandavam bravamente invasões e o domínio de povos mas, ao mesmo tempo, apreciadores das artes, da ciência, astronomia, filosofia, literatura e religião.

                      A dinastia muçulmana – de origem mongol-turca – que governou a maior parte do norte da Índia desde o início do século XVI até meados do século XVIII, foi notável pela habilidade de seus governantes, que através de sete gerações demonstraram talentos incomuns, da organização administrativa ao comando, sendo a mais estranha aos dominadores, a dedicação, ainda que muçulmanos, de integrarem-se com os hindus para formarem estado indiano unido.

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                      Incentivando e promovendo diversas expressões artísticas, não apenas na arquitetura e na ornamentação, também na pintura e literatura, todavia principalmente naquelas, por 250 anos financiaram gerações de arquitetos, artesãos, calígrafos, artistas, pintores, escultores, metalúrgicos, tecelões, o que resultou num estilo esteticamente sutil, delicado e elegante, ainda que robusto e grandioso, às vezes monumental, massivo o bastante para expressar poder e glória. Era a grandiosidade artística como instrumento de demonstração de poder.

                       Sempre que possível, respeitavam os padrões islâmicos cujas bases estavam na Pérsia, mas inspiradas e consumadas por Tamerlão durante o império mogol de Samarkanda, Uzbequistão, de tal maneira que as primeiras construções mogóis na Índia sejam interpretadas estilisticamente como meras recriações do estilo timúrida de Tamerlão, embora da arte persa, da corte safávida de Isfahan, tenha-se originado, contudo, mais tarde, tendo adquirido na Índia sua personalidade e desenhos muito próprios. Talvez por isso os persas desprezassem as cortes islâmicas da Índia, que definiam os mogóis como gente de um senso estético que não lhes agradava, tendo sua arte sido influenciada demais pela hindu, se “arredondado” demais e tornado menos brilhante e colorida que a expressa nos mosaicos cerâmicos persas e timúridas.

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                 Carecia, diziam aqueles, de classicismo, de contenção, estavam longe da perfeição geométrica da safávida, ainda que inconfundível, de notável individualidade e de um bom gosto irretocável aos olhos do resto do mundo. Mesmo um não conhecedor, depois de uns dias na Índia, dificilmente deixará de reconhecer que aquele monumento ou trabalho pertence ao período mogol, sejam os expressos nas fachadas e ornamentações internas, sejam os demonstrados em minuciosas pinturas de cenas do império e nas artes decorativas, tal sua distintiva personalidade.

                 Uma obra prima arquitetônica que quase consagra toda a perfeição e beleza do estilo mogol, o imenso mausoléu de Humayun, ainda que este seja apenas um dos exemplos da fabulosa arte voltada à arquitetura, mesmo em Delhi, onde, por exemplo, a mesquita Qila-I-Kuhna, dentro da cidadela de Purana Qila – ou Old Fort, chega à perfeição. Este túmulo, declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO, em 1993, foi obra desenhada por arquitetos de Bukhara, no Uzbequistão, a pátria timúrida, dinastia da qual os mogóis são extensão. É comum apelidarem o túmulo de Humayun como “Taj Mahal de Delhi”, embora haja enormes diferênças entre ambas, todavia, a magnífica necrópole – em cujo silêncio sereno de suas pedras cor-de-rosa Humayun repousa em paz – também pode ser uma prova de amor.

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                  O quinto imperador mogol – Shah Jahan – talvez seja o personagem mais romântico da Índia, pois construiu o Taj Mahal, o mais espetacular túmulo do planeta, monumento em memória de sua esposa, Mumtaz Mahal,. Merece o título, não há dúvidas, mas poucos sabem que sua inspiração veio de sua bisavó, Hamida Banu Begum, esposa do segundo imperador mogol, Humayun que, dizem, construiu a Tumba de Humayun, o primeiro do subcontinente indiano cercado por um jardim – o Char Bagh –  que também impressiona pela megalomania, pela demonstração de poder e pelo que deve ter sido a vultosa soma de dinheiro empregada ali, onde não se encontra ângulo imperfeito ou canto que não impressione.

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A seguir:

Capítulo 5 – O Complexo Arqueológico Mehrauli

De volta à Índia – A primeira manhã. Duas Delhis, dois mundos

          O clima age a nosso favor, com um quase frio nos fazendo imaginar o quanto deve ser difícil Delhi acima dos 40 graus. Sob um céu azul, mesmo sendo cinza, começamos o dia na vasta expansão urbana da capital, onde duas “cidades” me atraem: a “nova” – de arquitetura colonial modernista, com amplas avenidas e vistas grandiosas, arborizada por tamarindeiros, rodeada por mansões coloniais e prédios do governo em estilo inglês…

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A Nova Delhi, ou Lutyens Delhi

… – e a velha, de essência mogol, carregada de “indianidades”, a antiga Shajahanabad, a que o economista John Kenneth Galbraith, embaixador americano na Índia, nos anos 1960 chamou de “anarquia funcional”. Ali fica Chandni Chowk, nome da principal avenida de comércio da capital do império mogol, o olho do furacão, hoje quase um bairro dentro de outro. A anarquia permanece, assim como a pressão das pessoas, as vielas e os becos com ou sem saída, a fumaça, os cheiros, os mitos e as lendas, as verdades e a história entre uma cacofonia inconfundível e uma multidão imparável.

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Detalhe da intrincada, belíssima ornamentação do Minarete Qutub

          Para além de ambas, junto à Nova Delhi ficam fenomenais ruínas do século XII, de cidadelas construídas pelos primeiros governantes islâmicos, num parque chamado Mehrauli, entre cujas diversas construções antigas – de mausoléus a mesquitas, de baolis a templos hindus – fica o Complexo Qutub. Ali, o ícone do parque é o Qutub Minar – o minarete de tijolos mais alto do mundo – um fenomenal exemplo de arquitetura indo-islâmica que faz jus integrar o Patrimônio Mundial da Unesco, eterno, ícone do poder mogol, projetado nas linhas do Minarete de Jam, no Afeganistão. São 72,5 metros de altura sobre uma base sólida, belíssima, massiva, com 14,3 metros de diâmetro.

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Complexo Qutub

          Histórias sugerem que Qutub Minar teria sido construído num local em que havia um conjunto de 27 templos hindus e jainistas, parcialmente destruídos pelos invasores muçulmanos, mantidas algumas preciosidades e usadas suas pedras em mesquitas e outros lugares. Mas não é só este impressionante monumento que capta a atenção de quem está ali. Outras antiguidades também, como a Mesquita Quwwat-ul-Islam, o Alai Darwaza, o Alai Minar, a Madrasa e Tumba de Ala-ud-din, o Pilar de Ferro – com sete metros de altura, do séc. IV, erguido em homenagem ao deus hindu Vishnu, o vestígio metálico melhor preservado da história da humanidade – a Tumba do Imam Zamin.

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Túmulo de Isa Khan Niyazi

          Chegamos até lá pelas ruas largas do bairro novo e, na área em que se fundem a nova e a antiga Delhi, paramos no Baoli do Marajá Agrasen ki – ou Ugrasen ki Baoli – um reservatório de água que servia à população para a coleta de água e lazer. Em Delhi e no Rajastão há outros poços semelhantes, belos e antigos, sendo este o mais conhecido e próximo.

Baoli do Marajá Agrasen ki

          Apesar da presença do rio Yamuna, Delhi sempre teve deficiência de água devido aos longos períodos de estiagem. A população medieval recorria, então, a esses poços, além de represas e lagos artificiais que havia para reter a água de chuva durante o período das monções. De todas as estruturas de conservação de água construídas desde então, as mais esteticamente interessantes e incomuns foram os baolis, que ainda hoje consideram-se uma fusão brilhante de sensibilidades arquitetônica e artística, concebida como uma enorme evolução dos poços subterrâneos, pois eram abertos e equipados com escadarias que desciam até o nível da água, tinham uma face equipada com câmaras e passagens destinadas ao lazer num ambiente mais fresco, com câmaras e “passeios” que se interligavam, alguns até com pranchas para mergulhos. Um misto de reservatório de água potável e piscina.

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Baoli do Marajá Agrasen ki

Sunder Nursery

         Pouco depois de sairmos do baoli, Niraj pede ao motorista que pare num local que não estava no roteiro. E nos diz com orgulho que nos mostrará uma atração muito nova em Delhi, o Sunder Nursery (Viveiro Sunder). Ao descermos da van avisto duas placas anunciando o que disseram as revista Times –  “Um dos grandes lugares para se visitar em Delhi” – e a Outdoor Magazine – “O mais novo sítio turístico da cidade. Abandonado por anos, foi reaberto em março de 2018 depois de minuciosa reforma.

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Sunder Nursery

          Inesperado e surpreendente, o Sunder Nursery é mais que um horto ou parque, senão um complexo de jardins históricos do século XVI, com canteiros de flores coloridas e um jardim de rosas com 30 diferentes variedades, 300 espécies de árvores e 80 de aves permanentes e 90 hectares que serão expandidos até juntar-se ao Purana Qila, quando se tornará o maior parque urbano da Índia.  A vista central tem jardins inspirados nos jardins mogóis, com fontes de pedra e mármore com adornos em forma de lótus. O lugar é de uma beleza natural e arquitetônica especial, porque entre a natureza de um jardim bem cuidado ficam 15 monumentos mogóis, seis deles do século XVI e nomeados Patrimônio Mundial da Unesco.

          Dali fomos ao espetacular Túmulo de Humayun.

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A seguir
O Túmulo de Humayun. Para o marido, com amor
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O Túmulo de Humayun

De volta à Índia – O Gurdwara Bangla Sahib

Fé, oração, beneficência e selfies

                 A tarde de nosso primeiro dia na cidade começou com o que selecionamos: visitas ao Bangla Sahib, de 1783, um dos gurdwaras (templos sikh) da capital, e o Lakshmi Narayan, hindu, construído em 1938 e inaugurado por Mahatma Gandhi, no bairro Nizamuddin.

O Gurdwara Bangla Sahib

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                 Como um imã, o Bangla Sahib atrai milhares de turistas e deixou de ser apenas um templo sikh e casa de beneficência – que serve diariamente cerca de 10.000 refeições gratuitamente – para consagrar-se numa popular atração da cidade.

               Em sua cozinha, num ato filantrópico, enorme quantidade de refeições, incluindo o roti – pão indiano -, lentilhas e legumes, é voluntariamente preparada pela comunidade para alimentar populares, a partir das matérias-primas doadas por comerciantes seguidores da religião. Uma visita organizada tornou-se uma experiência que permanece indescritível, mesmo nove anos depois de minha primeira vez, mas desta, ainda melhor, porque circulamos o tempo que quisemos pela cozinha com Niraj, nosso guia perfeito de Delhi.

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               O lugar tem atmosfera tão peculiar e cativante quanto é difícil expressar, especialmente pelas pessoas que ali estão, em sua quase totalidade indianos, sikhs ou não, onde entre elas nos tornamos “celebridades”, raríssimos ocidentais constante e carinhosamente chamados para selfies individuais, em grupos ou, simples, registros deles mesmos, como se nos dissessem “levem nossa foto como recordações da Índia”.

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                Além do templo, um museu de história sikh, uma escola secundária, uma biblioteca bem abastecida e uma lojinha completam as atrações. Mas, o bom mesmo é o templo.

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              Tudo começa numa confortável sala com bancos onde nos sentamos para a retirada dos sapatos e cobrirmos os cabelos. Mulheres à moda muçulmana, homens com lenços fornecidos ali. Depois, caminhamos descalços e subimos uma escada, passamos por um canalzinho de mármore com água corrente para o lava-pés simbólico, já que ninguém capricha.

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            Descalços, caminhando por pisos de mármore limpos e frios ou passadeiras de tapete, entramos no enorme salão de refeições e continuamos até a cozinha, onde voluntários preparam quantidades de refeição para um batalhão, em panelas compatíveis com a demanda. Qualquer indivíduo, de qualquer religião, inclusive turistas, podem comer ali. O grande refeitório chama-se langar khana, e abriga centenas de pessoas, enquanto igual número espera sua vez no próximo turno. Tudo sem qualquer distinção de status econômico, social ou religioso.

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             O gurudwara é quase todo construído em mármore, de uma brancura que sugere pureza e paz. Em silêncio, visita-se o interior do templo,  sobretudo seu ponto mais solene –  o palki (palanquim) ao centro de um salão, bem ornamentado – onde está o livro sagrado, e também novamente somos surpreendidos pela quantidade de devotos e turistas. O livro é uma cópia do Guru Granth Sahib, a sagrada escritura sikh, que fica ao lado de músicos sentados sob um dossel entoando kirtans (canções religiosas) cantadas por sacerdotes, enquanto um deles continuamente lê trechos do texto sagrado.

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                   Por fora, as impressionantes cúpulas pontiagudas – três “cebolas” banhadas a ouro sobre o prédio, uma delas de mármore soberbamente trabalhado – e o grande, alto e arqueado, encimado por cinco chattris – cúpulas sustentadas por pilares – também de pedra branca decorada com discretas incrustações florais. Ali também fica o sarovar, enorme tanque de água com um reflexo perfeito do templo, dependendo da hora, fica ainda mais bonito ao fim do dia, especialmente ao pôr do sol. É o ponto alto da visita, quando parecemos celebridades continuamente solicitadas para uma selfie. O lugar seria perfeito para uma composição fotográfica, não fosse a multidão. Permanecemos ali até o final da tarde e nos divertimos muito, nos sentimos privilegiados com a experiência e a generosidade sikh, sobretudo compreendendo o motivo porque o Gurudwara Bangla Sahib tornou-se uma das atrações mais populares da cidade.

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O Templo Lakshmi Narayan

             Dedicado ao Deus Laxminarayan, construído em 1938 e inaugurado por Mahatma Gandhi, com um grande jardim interno, fontes e santuários em três andares, o que me atrai é seu estilo arquitetônico, igual aos mais abundantes templos do norte da Índia, com adornos e esculturas que retratam cenas da mitologia hindu. Não pode ser fotografado por dentro, uma pena. Retornamos felizes ao “ícone de vidro de Lutyens Delhi”, onde jantamos e dormirmos nossa primeira noite na Índia.

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A seguir

Capítulo 3: Um dia fabuloso em Delhi 

DE VOLTA À ÍNDIA – Delhi. A chegada

                      UM sol preguiçoso e poucos metros de visão. A impressão de um intenso nevoeiro nada mais é que o ar leitoso de Delhi, a cidade com a atmosfera mais suja do mundo. Às nove da manhã – cinco minutos antes de aterrissar – o avião sacode vencendo a poluição incrivelmente espessa que me impede de ver o solo. Ao passar pelas nuvens, um solavanco repentino indica o pouso, surpreendendo-me. Só então é possível ver os edifícios do aeroporto, embaçados e dispersos pelo ar espesso enquanto o avião segue o caminho do terminal. Poucos metros de visão e um gosto ruim no ar nos esperam. Ainda assim, é bom rever Delhi já por seu belo Aeroporto Internacional Indira Gandhi.

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              Nada mais desejado que um desembarque rápido, a recuperação da bagagem em bom tempo e um processo de imigração sem delongas. Apresso os passos. Nosso grupo tinha boa distância a caminhar da saída do avião até a imigração e ao recolhimento de bagagem, ainda que bem auxiliados por longas esteiras rolantes encurtando o caminho. Tomamos a direção dos estrangeiros com eVisa e não esperamos muito pela entrevista. Simpático e receptivo, o oficial nos devolve os passaportes carimbados e caminhamos em direção às malas. Dali ao saguão do aeroporto foi um pulo. Devesh, nosso receptivo, nos espera com uma placa com nossos nomes. Foi bom vê-lo, assim como a Pawan Sharma, antigo conhecido, com quem tratamos toda a viagem. Não posso afirmar que ela teria sido tão proveitosa sem a ajuda da Lotus Premiun Voyages e sua equipe, com quem trocamos centenas de e-mails até a finalização do programa, todos prontamente respondidos e profissionalmente bem resolvidos. Para mim, contudo, já não era surpresa, senão a terceira vez que viajava com a operadora.

                Uma breve parada para um espresso italiano, compra de chips para os celulares e troca de alguns dólares por rúpias indianas e logo saímos para o famoso caos indiano, já se manifestando no caminho do estacionamento do aeroporto ao hotel.

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              O tráfego já congestionado mostra que Delhi está tão desperta quanto nós, provavelmente nós por causa do estimulante café, a despeito de uma madrugada passada dentro do avião desde Addis Abeba. O sol me energiza e a cidade me ajuda com sua personalidade inconfundível, marca o que vemos pela janela da van conduzida por Palak, o motorista, figura notável que já ali demonstrava ser um grande condutor. Em breve também, um ótimo companheiro de viagem, ainda que não imaginássemos o quanto deixaríamos o país tão saudosos do camarada. Palak conduz a confortável Van Tempo[1] de 8 lugares com calma e atenção, nos proporciona desde já a confiança de que seria também assim quando pegássemos a estrada.

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                 Devesh prossegue em seu trabalho receptivo, nos distribui brindes, mapas, canetas, um livro com o programa detalhado e colares de flores de boas-vindas, além de um celular para chamadas a ele, seu diretor, os guias de cada cidade e o motorista, cujos nomes estavam devidamente registrados na agenda do aparelho. Iniciávamos ali um roteiro detalhado e intensamente planejado por Delhi, Jaisalmer, Johdpur, Udaipur, Nagda, Eklingji, Jaipur, Amber, Ranakpur, Abhaneri, Agra, Fatehpur Sikri, Jhansi, Orchha, Khajuraho, Sikandra e Varanasi.  

                Ao chegarmos ao hotel, não muito longe do Parliament House – na área de Windsor Place, próximo à rotatória entre a Janpath, a Firozshah e a Ashoka Road, a cinco minutos de Connaught Place – meu pensamento e desejo estavam em tomar um banho, repousar por duas ou três horas até darmos início à exploração da cidade no início da tarde. Um mundo dinâmico de acontecimentos começaria para nós, assim como já se mostravam as contradições das mentes fatigadas pelo jet lag. Sentíamos os efeitos da descompensação horária a corromper o ânimo e a vivacidade dos viajantes, as mentes e corpos, que fora de sintonia com o nascer e o pôr do sol, sentem desânimo e cansaço, ainda que em todos houvesse um entusiasmo notável. Importa salientar que nossa noite fora mal dormida, como de sempre as passadas dentro de um avião. Vínhamos de Addis Abeba, num voo madrugador de seis horas e meia. Viagens intensas como aquela e a distância da vida cotidiana exigem concentração, mente atenta, não-dispersão, não-negligência, senão olhares observadores e atentos. Contudo, estávamos em Delhi, o que nos impulsionava vivê-la o quanto antes, já não mais a imaginação e o desejo que nos seguiram por seis meses antes da viagem.

               Uma agradável sensação de reciprocidade: eu a desejo e ela me seduz, mesmo cada qual conhecendo seus defeitos. Como se a mim pertencesse seu cenário e eu fosse ali um de seus personagens. Delhi apela por mim – com a mesma audácia e agressividade de sempre – e eu a atendo, com o respeito e admiração costumeiros. Vejo nela um charme que muitos não enxergam, talvez porque seja tão mais indiscreta noutras de suas qualidades. Admiro o que ela tem de mais consistente e marcante: o peso de seu passado e um potente patrimônio material, uma história complexa, cultura e beleza arquitetônica que me manteria ocupado por dias intensos perambulando entre suas tumbas e templos históricos, ruas medievais e bazares lotados.

               Subo ao apartamento e espio a cidade “nova”, dos anos 1930, pela janela do “ícone de vidro de Lutyens Delhi”, apelido voluptuoso da torre onde me hospedo. O arquiteto inglês que a projetou dá nome ao bairro. Ainda que cercado de Delhi por todos os lados, apenas rastros de seus ruídos passam pela boa vedação de vidro da janela. O simples vislumbre torna a cidade mais real e me acende o fato de que em breve eu poderei vê-la, tocá-la e sentí-la. Já não me assusta a névoa suja, porque é familiar. E não me ameaça sua grandeza como na primeira vez. Conheço bem seus lados doces e amargos. Estou feliz. O dia promete visto daquela janela, onde Delhi é verdejante e tem horizontes os mais amplos.

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              Enxergo pombos voando alto e tuk-tuks voando baixo. E gente. Que caminha ou trafega em carros que buzinam sem sentido. Toco o vidro. Está frio. Não faço ideia da temperatura, mas a imagino. Estendo a mão para a escrivaninha e busco o celular. Consulto o aplicativo do clima: 12 graus. Fará sol todo o dia. Olho de novo para o céu e percebo o esforço da luz tentando passar pelo manto de poluição. Enquanto me preparo para aproveitar o fim do café da manhã e espero o grupo de viagem fazer o mesmo, sigo observando e refletindo, me preparando para enfrentar suas ruas, ver suas coisas boas e ruins: agenciadores e golpistas, pobres mendigos e desvalidos, gente tentando ganhar algum dinheiro, taxistas e tuk-tuks cobrando 10 vezes a tarifa dos não locais, pedintes que não aceitam não como resposta, vendedores que incomodam até perdermos a razão ou lhes compremos algo para nos livrarmos deles.

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               Avisto o primeiro Hindustan Ambassador estacionado numa das ruas próximas. Gosto de vê-lo. O veículo que hoje não vive mais seus templos de glória, tem desenho de 1958 que permanece atraente. Transformados em táxis, já foram símbolo de status, os preferidos de políticos e embaixadores, contudo começam a desaparecer em razão da idade. 

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             Entre jardins arborizados e avenidas largas projetadas pelos ingleses, vejo moradias no estilo Lutyens, do início do século XX, onde vivem os velhos e novos-ricos de Delhi. Olho de cima aquele pedaço da capital do British Raj[1], de onde estou próximo aos centros comerciais Connaught Place e Janpath Market, distante, mas não tão longe, da Velha Delhi, muitíssimo mais densa, barulhenta e energética. O hotel fica nas proximidades do Civil Lines, o setor administrativo, e também da Raj Path, a enorme e larga avenida. Vejo seu início, no Rashtrapati Bhavan – prédio espetaculoso que serve de residência oficial do Presidente da Índia – mas não onde termina, no India Gate, ícone do bairro, um arco do triunfo inspirado no parisiense e marco do orgulho indiano, grande e concreto o bastante quanto o sonho britânico ao colonizar a Índia. Reconheço em Delhi sua falta de unidade entre a nova e velha cidades, exatamente o que a torna sedutora, para além de outras tantas razões. Estou na área dos hotéis de luxo, dos shoppings, boates, bares e restaurantes espetaculares, mas é a  mogol que me atrai, a antiga, a capital islâmica de Sha Jahan, da desordem urbana e da sujeira, da velhice e da pobreza, de um patrimônio histórico de outro planeta.  

           Se eu soubesse desenhar faria um sketchbook no moleskine, registraria as cenas da janela como o fazem sem esforço os viajantes com talento artístico. Desenhos, pinturas e colagens, textos condensados do que se vê, com a poesia e capricho dos que viram e sentiram, decidindo registrar com arte. Como não, contento-me em fotografar, ainda que a imagem não seja das melhores. O pequeno caderno de notas deixo na mochila, onde faço anotações esparsas da viagem. Fotografo, mas gostaria de desenhar. Não sei, embora um projeto de artista habite em mim. Vejo a cidade já sem um olhar estrangeiro tão acentuado quanto da primeira vez. Mais evoluído, não-crítico, menos ainda preconceituoso, mais curioso, ainda tão respeitoso, embora sem fantasias, sem enxergar como Poliana, tudo azul e fugindo da realidade. Meus olhos erram pelos lugares e procuram o que quero, concentram-se na qualidade da atenção, no sentido positivo da curiosidade, assim como no poema de Ferreira Gullar, “são uma parte de mim que é todo mundo, outra que é ninguém, uma que é um fundo sem fundo e a última que é estranheza e solidão, que pesa e pondera, e outra que delira”.

              Todavia linda Delhi que vejo dali, a que me atrai é a esfarrapada, a loucura de Shajahanabad, capital do império mogol[1], com toda a sua “indianidade”, sujeira e poluição, mal-cheiro de esterco e lixo, bom de perfume de sândalo e especiarias. Saio da janela e volto a olhar para o quarto. Parece bom, bonito, confortável e elegante, sem excessos, fazer jus às boas avaliações, sobretudo pela ótima relação custo-benefício. Um hotel com mais do que preciso e menos do que mereço.  Enquanto abro a mala e preparo as coisas e roupas para o dia o intelecto vai-se ajustando à realidade do lugar. Sinto-me bem e confortável, apesar da falta que me fazem as horas não dormidas. Um garotão, mentalmente falando, apesar de encontrar-me a dois dias de completar 67 anos. E com a nova idade, ainda mais carregado do verdadeiro senso de propósito, de significado e sentido que encontro nas viagens, com a mesma paixão pelo mundo e pelo que ele tem a oferecer aos seus visitadores. Estou feliz, sobretudo porque reconheço que a felicidade é merecida, porque sou digno da vida, mais certo ainda de que ela, assim como o tempo, passa rápida demais, como dizia Sêneca.

            Volto a ocupar-me das minhas coisas. Procuro por música no playlist do Spotfy e ponho a tocar Indian Chill na caixinha bluetooth. Ouço Guru Bandana, oração musical de Ali Akbar Khan e me emociono. Abro o notebook e deixo-o conectado à Internet. Tenho pouco tempo, então deixo para mais tarde começar a escrever estas mal traçadas linhas. Arrumo a câmera e a mochila e depois descemos para o café, para depois retornarmos ao quarto para o repouso que o corpo pedia, até uma da tarde, quando começaríamos a primeira incursão pela cidade. Sinto-me mais sereno e sem o deslumbramento de minha primeira vez na Índia, mais maduro com a experiência da segunda e com o forte desejo de que esta terceira seja fenomenal também para quem viaja comigo.

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A seguir:  De volta à Índia – Capítulo 2: O Gurduwara Bangla Sahib

[1] Force Motors Limited, montadora indiana de automóveis, conhecida como Bajaj Tempo Motors, joint venture com a Bachraj Trading Ltd. e a alemã Tempo e parcerias com as alemães como a Daimler, ZF, Bosch e a MAN.

[2] “British Raj” (raj=império)

[3] Os mogóis (ou mugals) eram o povo cujo império dominava toda a região do subcontinente Indiano. Seu fundador foi Babur, imperador muçulmano descendente de Gengis Khan, um mongol (não confundir com mogol) pelo lado materno. Grandes nomes do império mogol sempre se ouvem quando se lê ou viaja à Índia: são Akbar, Humayum e Sha Jahan. Os impérios mogol e mongol  estão relacionados, mas não existiram ao mesmo tempo. O mogol surgiu quase 150 anos depois do fim do império mongol, cujo lugar de origem foi o atual Uzbequistão.

DE VOLTA À ÍNDIA – INTRODUÇÃO

O bom, o mau, o bonito e o feio

Dezembro estará terminando e nove anos terão se passado desde o primeiro encontro. Perto da meia noite, quando pousarmos no aeroporto Indira Gandhi, na imensa, pavorosamente caótica e arrebatadoramente sedutora megalópole, verei aquelas luzes compridas, suas auras esticadas ao redor das lâmpadas de um céu leitoso, riscos cintilantes de luz refletidos na atmosfera mais suja do mundo. O efeito é mágico, mas sinistro. Gosto dela mesmo assim. E se não fosse Delhi, não seria Índia.

Chegarei sem os medos da primeira vez, a Índia já não será mais “complicada, desafiadora e arrasadora”, mas carregarei outra responsabilidade: ter influenciado meus três companheiros para esta viagem. Haverão de achar a Índia tão fascinante, arrebatadora e inspiradora? Cairão de amores minha namorada, irmão e cunhada? Enxergarão a mesma beleza e grandeza? Reconhecerão perfeição mesmo com toda a aparente imperfeição indiana?  

Não sei se estava escrito nas estrelas ou se foi coisa dos gênios bonachões da tradição islâmica indiana, mas a paixão foi na primeira hora da primeira manhã. E em dezembro, quando a reencontrar, tudo o que é seu me completará, tornará melhor e maior. Das suas cores, seus sons e cheiros às coisas de Shiva, de Krishna, de Buda e Mahatma Gandhi. O meu país, a minha história de amor com um destino, o meu prazer em revisitá-lo e a minha crença de que será assim até o fim da vida.

Deixarei meus pensamentospara quando o avião tocar o solo e sentir de novo a dinâmica e a força do país,com a esperança de que conquiste, em vez de arrasar, seus novos visitantes. Esta viagem, minha terceira à Índia, foi moldada nas duas anteriores,condensada numa só, ampliada e revisitada para contemplar lugares em que nãoestive. Depois de carinhosamente desejada, intensamente pesquisada eexaustivamente programada, concluímos que a melhor e mais econômica maneira dechegar a Delhi seria voando pela EthiopianAirlines, com uma noite em Addis Abeba e, no dia seguinte, um voo noturno de6 horas a Delhi. Uma estada de trêsdias na capital, onde passaremos o Reveillone exploraremos o que for possível de seu fabuloso patrimônio e, depois então,por via aérea, terrestre e ferroviária, outras 15 cidades: Jaisalmer, Johdpur, Udaipur, Nagda, Jaipur, Amber, Ranakpur, Abhaneri, Agra,Fatehpur Sikri, Jhansi, Orchha, Khajuraho, Sikandra e Varanasi. Ao finaldo itinerário, possivelmente já entregues e gastos pelos prazeres intensos daviagem, voltaremos ao Brasil depois de 19 dias na Índia, de uma longa viagem de prazeres.

Começo agora a escrever e fecho os olhos. Penso e sinto bater outravez meu coração pela Índia. Dizem que é assim com as boas viagens, que nãoterminam jamais, que grudam na mente e vivem a nos rondar feito almas penadas. Paraos mais românticos, viram um caso de amor, e tal qual as paixões, sentem-se as mesmasemoções intangíveis, voltam a tocar o coração ao serem revividas. E quando terminam, começa o desejo insaciável de voltar.

Sinto-me assim ao voltar a escrever esta nova série sobre a Índia e revolvo a mente trazendo experiências encantadoras que se expressam em meus sentidos. Gostaria de saber contar tudo. E com o mesmo poder de transmitir ao leitor a intensidade com que me afetaram quando as vivi.  Será tão difícil descrevê-las que temo não passar da superfície. Ainda assim, caro leitor, tentarei. Afinal, esse é o fascínio de escrever. Então, deixe-me guiá-lo por esta jornada visual através desta série de posts fartamente ilustrados. Com “De volta à Índia”, tentarei descrever cada momento e compartilhar com você o privilégio de tê-los vivido.

Contarei tudo aqui. Estou com pressa de chegar! Namastê, Índia!

A seguir

Devolta à Índia – Capítulo 1 – Chegamos em Delhi