De Agra a Jhansi, de trem, pelo Shatabdi Express

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                PARA quem já foi à Índia, e lá tenha sentido despertar uma espiritualidade inquietante, daquelas mesmo, carregadas de todos os estereótipos possíveis de caber numa cabeça, com direito à crença em todos os deuses hindus, tão poderosa que o fez jurar que sua outra vida foi na beira do Ganges, duvido que seja um indivíduo que tenha “visitado” o banheiro público da estação de Agra. Não há espiritualidade ou crença capaz de resistir àquele lugar. Mesmo a indiana. Os contrastes da imensa espiritualidade com a realidade (o sistema de castas e de culpar sempre a mulher no caso de estupros) em parte deve ter nascido ali, no banheiro da estação de Agra.

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              Um turista brasileiro, por exemplo, mesmo o mais crente, desses que acreditam até no PT, em homeopatia, em medicina alternativa, em guru indiano, em ervas curadoras milagrosas, no poder curativo do pensamento positivo, em tarô, búzios, chupa-cabra, numerologia, na previsão de futuro, em quem diz “trago seu amor em três dias” e naquelas “consultas” com astrólogos que acertam tudo de sua vida,  ali reavaliaria suas convicções.

               No país dos sem privada, o banheiro daquela estação é o túmulo de qualquer crença. Nesta e nas vidas passadas. A experiência de visitar o lugar é a mais escatológica que alguém possa ter a “oportunidade” de vivenciar. Depois daquilo, não é de se estranhar que na Índia muitos prefiram “fazer” ao ar livre, que mais de 500 milhões de pessoas naquele país evacuem a céu aberto. Parte delas nos trilhos das ferrovias, especialmente no início da manhã, antes que as multidões circulem.

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                    A Estação Agra Cantt é movimentada, mesmo nas primeiras horas da manhã. Nem tanto naquele domingo, pois não havia multidões nas amplas plataformas, contudo, nunca se está só nestas paragens. Gente sempre tem. E ali, sentada nos bancos e no chão, com ou sem bagagem, ouvindo anúncios de chegadas e partidas, não era a estação exceção à regra. Fazia muito frio. E nós estávamos ali de pé junto aos trilhos, encostados no carrinho com nossas malas quando nos deu vontade de “visitar” o banheiro. Mesmo para nós, que já estávamos em peregrinação turística pela Índia há quinze dias, teoricamente enrijecidos pelas visões de pobreza e sujeira, de toda a sorte de heróis humanos e animais tentando sobreviver, lembro de cada minuto da espera do trem. Íamos para Jhansi, esperando que o banheiro da composição fosse frequentável.

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                    Nós quatro já estávamos um pouco debilitados pela ingestão de algum veneno alimentar intestinal. Dois de nós já tivéramos as tripas reviradas, noites “dormidas” no trono, algo que nem mesmo nossas farmácias de viagem bem abastecidas e as consultas à nossa irmã médica no Brasil deram conta. Os banheiros, nestes casos de indisposição, eram o último lugar onde imaginávamos ir em busca de alívio imediato. Não há novidade nisso, muitos já se falou e não pretendo alongar-me no terma, pois quem já leu qualquer relato de viagem à Índia, sabe que banheiros públicos são o pior lugar para o alívio de diarréias. Que dirá o daquela estação. Fosse descritível seu estado, embora verdadeiramente trágico, eu preferiria “fazer” ao ar livre. Então, é um inconveniente impublicável contar-lhe sobre ele. Gosto de desafios, mas este é inconfrontável.

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                  Minutos depois, já acomodados em nossos poltronas no vagão, fui “visitar” o toalete da composição. Para os padrões indianos, sobretudo para o que havíamos visto na estação, era um paraíso para turistas indispostos em seus tortuosos, mas maravilhosos dias de viagem pela Índia. Limpo e fresco, com duchinha e papel. E não era daqueles com buraco no chão, que alguns chamam de “bacia turca”, o vaso sanitário “embutido” no chão, você tendo que fazer suas necessidades agachado, muito embora seja bastante mais conveniente porque não se precisa ter contato com o local onde outra pessoa sentou antes. Este era com vaso “normal” e perfeitamente frequentável, apesar dos pesares.

                A viagem foi ótima. Chegamos bem em Jhansi, de onde fomos de carro à incrível Orcha e depois à adorável Khajuraho.

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De volta à Índia – De Jaisalmer a Jodhpur, de carro

O Outono da minha Primavera

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                          MUITAS vezes sinto que sou o lugar onde estou. Hoje,  aqui em Jaisalmer, sou Jaisalmer.  É dia de meu aniversário,  o quinto de nossa viagem pela Índia e meu despertar foi brilhante. Descansado,  a cama já não parece cativeiro. Mas este não sou eu; acordo e me levanto, muito embora o frio hoje convide à preguiça das cobertas.  O ar também contribui para o bem-estar: já não é mais tão carregado quanto o da capital, dá-me a energia com que saio da cama, louco pela janela, não pelo banheiro. Vislumbro a cidade e sinto-me bem, afastado da rotina doméstica, bem integrado à indiana, apesar da não tão boa experiência no deserto, ontem. Observo-o agora da janela. A cidade está ao fundo e ambos têm a mesma cor.

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                           Desertos sempre me inspiram. mesmo aquele. Se alguém duvida que desertos motivem poetas, escritores,  seresteiros, namorados e fotógrafos, deveriam conhecer qualquer um.  Mesmo o de Jaisalmer, que o turismo predatório subtraiu suas melhores oportunidades de experimentarmos o romantismo que consigo encontrar neles.  Mesmo ali, em que a mente não consegue mais perambular pelas fantasias, ainda é um deserto. Sem a mais remota possibilidade de lembrarmos dos contos de Sherazade, história ali morta e enterrada pelas rodovias barulhentas às suas portas,  por montanhas de camelos com turistas em cima, acampamentos luxuosos e outros nem tanto,  shows turísticos e barraquinhas com sonoridade bombando, jipes cruzando e evoluindo nas dunas discretas e músicos à caça de turistas, aproveitadores e vendedores, areias sujas de lixo, sobretudo restos mortais daquilo que alguém um dia comeu ou bebeu.

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                       A paisagem me aquieta a mente, leva a um breve balanço dos meus anos de existência. Hoje completo mais um, estou no Outono de minha vida,  de minha pequena eternidade,  embora me sinta na Primavera. A Estação já passou, e eu nem precisava saber, pois o corpo e a pele demostram, mas sobra-me entusiasmo, ainda que eu reconheça que o “caminho” é para o Inverno, derradeira Estação da minha vida. Às vezes aparento andar meio cansado da lida, mas o vigor natural e umas vitaminas me empurram. Estou feliz., especialmente neste dia dois de Janeiro. Por estar vivo, na Índia e na companhia de três pessoas queridas. Espero – como é natural para os que passaram dos 60 e se aproximam dos 70 – com menor ansiedade, maior serenidade, o que me aguarda esta quarta-feira.

                        Vou ao desjejum e no caminho escapo ao jardim do hotel. A hora favorece o monocromatismo. Tudo se colore do tom sépia. Temos uma hora para o desjejum, quando ao final sairemos para nosso longo dia de jornada a caminho de Jodhpur. Inauguraremos nossas incursões rodoviárias pela Índia, algo estimulante e novo até aquele momento. Tenho tempo. E o café no hotel é espartano. Quinze minutos são mais do que preciso para alimentar-me.

                     Estamos num hotel em trecho aparentemente interminável de um campo seco, na beira da estrada de Jaisalmer a Jodhpur, no topo de um declive rochoso, periferia da cidade, esbarrando na fronteira com o Paquistão. Parece o último lugar da Índia antes da “terra de ninguém”. Dunas comem o asfalto e nada parece poder viver por ali. Ainda assim, encontro beleza na aridez,  mesmo subtraído – no dia anterior – de todo romantismo de meu olhar.

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                      A partida para o próximo destino é esperada com intensa expectativa, porque estradas são parte das intensas experiências que se vivem na Índia. As distâncias ali são medidas não por horas ou quilômetros, mas por experiências vividas. Ali, como nas cidades maiores, o trânsito é caótico, mas tem uma harmonia sem conflitos com a desordem. Depois de uns dias na Índia a gente continua sem compreender, mas percebe que sabe-se lá como, os envolvidos alcançam serenidade em meio ao estado geral de desordem.  Enquanto espero, delicio-me com o contraste da luz do entardecer de ontem com o desta dramaticamente brilhante manhã.  A cidade aparece inteira, enche meus olhos de sua cor e colore do mesmo tom as casas que nos rodeiam. Surpreende-me a importância daquele momento, embora pequeno. Atribuo esta marca aos mistérios que só as viagens me reservam, seus delírios perenes e fugazes que tornam-se prazeres, grudam na mente feito papel em bala Halls.

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                       Começaremos em breve nosso primeiro trecho rodoviário da viagem, uma nova experiência a vivermos na Índia. Palak, nosso amigo indiano, dirige a Van e nos protege. Nos acompanha desde o primeiro dia em Delhi e assim o fará por todo o destino. Está a postos com o sorriso discreto e genuíno recostado orgulhosamente na confortável Van Tempo[1] de 8 lugares, veículo que só se encontra na Índia. A vencer, teremos 5 horas e estimulantes 283 quilômetros, tempo e espaço que separam Jaisalmer de Jodhpur, a “cidade dourada” da “cidade azul”, os cafundós da Índia do próximo destino. A direção a seguir é noroeste, via Pokharan, pelas rodovias NH11 e NH125. Outras aventuras rodoviárias teremos depois nesta viagem, mas a primeira tem o sabor do ineditismo. A primeira vez numa estrada na Índia a gente nunca esquece, tal qual o sutiã a mocinha do anúncio da Valisére nos anos 80.

                    Palak arruma nossa bagagem no espaçoso compartimento de bagagem do carro e nos pede para conferirmos. Depois, abre a porta para que entremos, estende a mão para alcançarmos os degraus e já ao volante, pergunta:

                   – Passaportes, óculos, celulares? Não esqueceram nada?

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Pela janela do carro 

                   Partimos. A maioria dos carros estacionados no hotel também. Alguns tomaram o caminho da cidade, outros o da estrada. Eu tinha muitas razões para acreditar que seria uma viagem com boas paisagens e emoções até Jodhpur. Nos afastamos do hotel e logo passamos a fazer parte do deserto. Viagens por estrada na Índia presupõem cada parada uma atração, uma jornada quase tão boa quanto o destino. Teremos tempo para rever e organizar as fotos no computador, trocar algumas entre nós, ler, conversar, comer, apreciar a paisagem e fotografar e, quem sabe, uns bons cochilos.

                   A viagem para Jodhpur corre bem, os companheiros já aparentemente integrados ao país, um alívio pessoal, pois livrara-me do peso da culpa por tê-los influenciado. Vê-los assim é um prazer adicional, já que viajar é algo muito pessoal, intransferível, e cada destino visto pelo indivíduo segundo sua própria maneira de enxergar o mundo.

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                    Arrumo um bom lugar para pôr minha caixinha de som bluethooth e aciono o celular para tocar minha play list no Spotify com a concordância de todos. Uma das canções mais lindas entre as que tenho é dos anos 1980, composta pelo talento incomparável de Pat Matheny, cantada por Pedro Aznar e chama-se Dream of the Return[2]. Enquanto toca, sigo seus versos:

                      …Viajar la vida entera, Por la calma azul o en tormentas, zozobrar, Poco importa el modo, si algún puerto me espera…

                  Minha imaginação progride quanto mais mergulho na canção e na paisagem. São dez e meia da manhã e suponho que umas cinco horas ainda nos esperem até o destino. Às vezes, não é tanto a duração da jornada que traz sentido às viagens na Índia, mas os marcos no caminho, um álbum cultural de experiências e imagens vibrantes, neste pedaço do subcontinente, um retrato do Rajastão.

                       “…Viajar a vida inteira, Pela calma azul ou em tempestades emborcar, Pouco importa o modo, se algum porto me espera…”

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                     Volto à estrada e me lembro da máxima indiana: To drive in India you need three things; good breaks, good horn and good luck[3].  A rodovia é boa, surpreende quem espera o caos no asfalto. É bem pavimentada, tem boa sinalização e longas retas. Contudo, nem sempre a mão de direção é respeitada, motivo de alguns sustos e surpresas que nos fazem colocar as mãos no encosto da frente. Às vezes nem parece rodovia, porque trafega bem mais do que se espera numa rodovia, além de carros, motos e caminhões, camelos, macacos, vacas, bicicletas, tuc-tucs, tratores, carroças e gente, muita gente. Nos congestionamentos ocasionais, acidentes, pedágios e a trilha sonora das buzinas que nos lembram o trânsito de Delhi. Aqui e ali, brilham as mulheres rajastanis com seus trajes – ghagras, cholis e odhnis[4] – como se a estrada fosse um passeio, o acostamento fosse a “calçada”. Caminhões sobrecarregados de pellets para indústria de plásticos trafegam como podem, invariavelmente com a inscrição Horn please[5] no para-choque e exercendo o buzinaço como lhes é natural. Ônibus apinhados fazem recordar latas de sardinhas, homens carregam feixes de lenha na cabeça, bancas de legumes e verduras ficam nas margens da estrada defronte a vilarejos, carroças puxam-se por búfalos e carregam gente e mercadoria. Na Índia, a estrada pertence a todos.

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                   O trânsito do qual tanto se fala, sobretudo nas grandes cidades, para o desavisado visitante parece não obedecer aos sentidos lógicos de organização. Mão e contramão são regras subjetivas. É surpreendente, mas alguns dias no país e o curioso espectador consegue notar seus códigos, as convenções informais, a funcionalidade da bagunça. Se não fosse assim, não funcionaria, travaria. E ainda que do jeito peculiar indiano, lento e cheio de perigos, não é impossível perceber que regras existem, ainda que informais, algo bem definido no livro de Andrew Solomon[6], ”Lugares distantes: Como viajar pode mudar o mundo – que em alguns lugares do planeta”: Os únicos que dirigem em linha reta parecem ser os motoristas bêbados.

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                  Até então não encontrei guardas organizando a loucura. Nem mesmo nas cidades, o que é surpreendente para quem vem de uma megalópole como Delhi. Tampouco radares aplicando multas ou agentes de trânsito. Se existem, não os vi. Assim como nenhuma briga de trânsito. Se há governo na Índia, ele não aparece nas ruas controlando o trânsito, porque ele parece tocado por cada indivíduo, seguindo regras populares. A maneira mais fácil de compreendê-las é com a observação. Por exemplo, as buzinas. São irritantes, ensurdecedoras, infernais, extenuantes. Mas não são “loucura”, fúria levada a cabo por condutores desesperados. Não. Buzinaços ensandecidos ocorrem sim, quando por exemplo alguém atravanca o trânsito, mas, em verdade, regularmente há um código complexo o bastante para ser plenamente compreendido e praticado apenas indianos ou expatriados. Os toques nas buzinas têm múltiplas funções. Das mais óbvias – pedir passagem, avisar de algum risco (algo como “estou aqui”) – às mais informais: cumprimentar (“olá!”). E parecem existir hierarquias, tais como os mais fortes, os médios, os mais fracos. Em linhas gerais, quando dá, os mais lentos usam a pista esquerda e os mais rápidos a direita. Mas, não sei porque motivo, os tuk-tuks trafegam pela faixa central. Sempre que precisarem, por qualquer motivo, passam para outras pistas, mas retornam à sua assim que der.

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NOTAS:

[1] Force Motors Limited, montadora indiana de automóveis, conhecida como Bajaj Tempo Motors, joint venture com a Bachraj Trading Ltd. e a alemã Tempo e parcerias com as alemães como a Daimler, ZF, Bosch e a MAN.

[2] Dream of the Return – Álbum “Letter from Home” (1989) – Pat Metheny Group – Pat Metheny: Acoustic and Electric Guitars, 12 String Guitar, Soprano Guitars, Tiple Guitar. Pedro Aznar: voz

[3] Ditado popular indiano: “Para dirigir na Índia, você precisa de três coisas: bons freios, boa buzina e boa sorte”

[4] Ghagra, saia longa bordada e plissada, colorida, estampada, de seda, algodão ou crepe. Kanchli (ou choli ou kurti), vestimenta da parte superior do corpo, colorida e lisa, coladas no corpo. O toque étnico é dado por enfeites como espelhos, miçangas, lantejoulas, corais, conchas e bordados. Odhni, ou chunar, é um pedaço longo de tecido, com 2,5 metros de comprimento e 1,5 de largura, usado como véu, feito em tecido leve e transparente, bordados com contas ou outros enfeites.

[5] Buzine, por favor

[6] Andrew Solomon, um dos pensadores mais originais de nossa época, reúne neste livro escritos sobre lugares que passaram por abalos sísmicos culturais, políticos ou espirituais, um escritor de política, cultura e psicologia que vive em Nova Iorque e Londres e colabora com The New York Times, The New Yorker, Artforum, Travel and Leisure, e outras publicações.

De volta à Índia – A Velha Delhi

               Acordo mais cedo do que preciso. Desperto sentindo-me como pilha precisando de recarga. O relógio biológico não acompanha meu desejo de entrar no compasso dos 17 milhões de habitantes de Delhi, apesar dos cuidados que tive, o preparo do terreno na noite anterior, quando cerrei as cortinas, eliminei frestas, apaguei vestígios de luz que atrapalhassem a produção de hormônios. Levanto-me como se a cama fosse cativeiro. Vou à janela ver o pedaço de paisagem que me reserva da cidade. Estão acesas as luzes, e assim a poluição atmosférica torna-se ainda mais notável. Vejo-a bem marcada nos rastros alongados e nos halos que se formam ao redor das lâmpadas. A embaçada iluminação multicolorida do Rashtrapati Bhavan – residência oficial do Presidente da Índia – parece borrada. A degradação da qualidade do ar parece ainda mais evidente, contudo, não há jeito senão enfrentá-la, pois o dia será cheio e bem esperado de tarefas turísticas.

               Amanhece frio, suponho como o anterior, que foi aquecendo com o sol amável da manhã até eu não mais precisar do agasalho. O frescor do inverno indiano em dezembro é um alento adorável, um incentivo extra à exploração da cidade, especialmente ao me lembrar do quão quente é o verão na Índia. Tomo um banho e tudo fica melhor. Estou quase pronto para Delhi.

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            Se o que define uma cidade são arquitetura, arte, tradições, geografia, história, gente e comida, na Velha Delhi há uma interminável possibilidade de experiências em todas estas manifestações. Quando chegarmos à cidade mogol de Sha Jahan, mesmo embora aqui e ali possamos verificar que muito perdeu-se no tempo, ainda encontraremos uma miscelânea fenomenal de coisas e patrimônio da época. O que sobrou é único, e tem distinção excepcional, para além de caráter notável que consagra este pedação da cidade como um patrimônio vivo dos mais preciosos da humanidade. Há mesmo muitos lugares, cantos, monumentos e templos que contam detalhes de uma história rica, por vezes obscura e escondida, é verdade, mas noutras bem iluminada e clara. Um conjunto às vezes confuso de coisas diferentes, de experiências com muitas feições acontecendo intensa e simultaneamente, uma sobrecarga de informação e para os sentidos dos visitantes, que por si já fazem valer toda a viagem.

               Começamos pela tranquilidade de Purana Qila – ou Old Fort, onde a história é ainda mais antiga que Shajahanabad, lugar cuja serenidade nos prepara para o enfrentamento do “olho do furacão” que é Chandni Chowk.

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Purana Qila

           Apesar de ser um dos locais turísticos mais cativantes de Delhi, é pouquíssimo visitado, o que em se tratando de Índia, tem suas vantagens. Construído entre 1538 e 1545 por Humayun, é mais uma evidência da glória da arte mogol aplicada à arquitetura, em cuja área se destacam três portões majestosos: o Humayun Darwaza, o Bara Darwaza e o Darwaza Talaqi, todos em arenito vermelho e, dentro do forte, a belíssima mesquita Qila-I-Kuhna e o pavilhão Sher Mandal, construído para fins de entretenimento do xá. A mesquita é a mais bonita da cidade, e ainda que não tenha a imponência e a grandiosidade da Mesquita Jama, na cidade velha, é bem mais ornamentada e absolutamente vazia de gente.

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       Deixndo para trás os motoristas buzinando loucamente, aparentemente sem sentido, ao entrarmos na quietude do parque de Purana Qila, ou Old Fort, percebemos que além de um lugar magnífico, é um oásis bom para se fugir quando Delhi já estiver saturando com toda sua intensidade penetrante. Apesar das dimensões da área,  vimos apenas um jovem casal ocupado com o namoro e dois funcionários.

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A mesquita Qila-i-Kuhna, Purana Qila

              Da bela fortaleza pouco resta além de ruínas, embora o portal Talaqi Darwaza, que leva ao imenso parque interno, nos faça pensar o contrário, devido à sua perfeita integridade, a despeito da idade. O Sher Mandal, observatório e bibliotecade Humayun, de onde ele caiu do segundo andar e morreu, e Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho com incrustações de mármore branco e preto, apesar de únicas construções remanescentes, são singelos mas ótimos exemplos de arquitetura. O primeiro é um edifício octogonal de arenito vermelho com dois andares, cuja escadaria íngreme leva ao telhado, encimado por um chatri octogonal apoiado por oito pilares. Ainda se podem ver de fora os restos do trabalho de gesso decorativo e vestígios de prateleiras de pedra onde, presumivelmente, os livros do imperador eram guardados.

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           O segundo foi construído por Sher Shah, é uma grande mesquita de um único corredor, um dos primeiros exemplos do uso extensivo do arco aguçado, que lembra o gótico, na região. O interior é ricamente decorado com elementos islâmicos e o prédio figura entre os experts como um marco de transição do estilo Lhodi – mais discreto e contido – para o mogol, mais grandioso e imponente. A fachada frontal tem desenho e decoração notáveis e o interior é surpreendente, com um iwan marmorizado, arcos, saliências no teto, abóbodas, colunas e arcos.

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A Mesquita e Tumba de Jamali-Kamali  e o Baoli Rajon

De homens, gênios, história e lendas. De sol, pedra e água

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                Há muitos sítios ditos assombrados em Delhi, a “cidade dos gênios”, de criaturas sobrenaturais da mitologia islâmica[1]. Nos folclores persa e árabe, os djinns são indivíduos com poderes de conceder desejos aos humanos, mas também há seus opostos, os tipos maliciosos e intrometidos, que muito embora sejam de crença islâmica, os hindus e sikhs também costumam procurar “ajuda” destas criaturas mágicas, que dizem escolhem as ruínas mais escuras e desoladas do parque para residirem.

               Em Delhi, todavia, a maior parte dos lugares que encantam os turistas são aqueles cercados de burburinho, sob atmosferas eletrizantes, dos sons pulsantes, dos ares aromáticos, tons coloridos e experiências impactantes. Aqueles em que toda a Índia parece caber em Delhi. Contudo, há na cidade lugares que encantam por uma virtude, tão oposta e tão maior quanto o que caracteriza o vulcão ativo que é a capital indiana. São o silêncio e a quietude, em que em alguns dos quais, lendas, fábulas, mitos e mistérios permeiam cada pedra. O Parque Arqueológico de Mehrauli é um destes e, ali, ainda um mais especial que o distingue dos demais: dois monumentos adjacentes – uma mesquita e um túmulo – construídos entre 1528 e 1529, que não apenas são notáveis por serem os primeiros exemplares da arquitetura mogol na Índia, mas por sua história. Tão atraente que desde que começamos o planejamento desta viagem o selecionamos como lugar de indispensável visitação: a mesquita e túmulos de Jamali e Kamali.

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               Situadas num parque bonito e atmosférico, entre um jardim protegido por muro de pedras, a mesquita e o túmulo, ainda que compartilhem seus limites com o Qutub Minar, a não mais que 500 metros de distância dali, é lugar que quase ninguém as percebe. Outras construções espalham-se pelo complexo e em todas vivem-se bons momentos. São muitas, entre elas, o túmulo de Balban, o dossel de Metcalfe, o túmulo de Quli Khan, o Rajon Ki Baoli e o túmulo de Khan Shahid. Entre estes, a mesquita e o túmulo Jamali-Kamali e o belíssimo baoli Rajon Ki.

                Entre um verde exuberante, num canto quase isolado do parque, o incauto turista que por ali passar poderá pensar tratar-se de “mais-um-túmulo-da-era-mogol” quando deparar-se com a placa indicativa do monumento. Deixará de conhecer sua história curiosa, se decidir não visitá-lo. Quase tão atraente quanto a engenharia. Para os amantes da arquitetura não será preciso mais que um olhar para se sentirem atraídos.  Contudo, é a curiosa história e o fato de ser um “lugar assombrado”, com relatos de experiências assustadoras, que marcam a mesquita e o túmulo Jamali-Kamali.

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                A história é de poetas, de poesia e romance. Jamali teria sido o pseudônimo de Shaikh Jamali Kamboh, um renomado santo sufi que viveu durante o governo da dinastia pré-mogol dos Lodhi, cujo governante à altura descendia da dinastia mogol de Babur e Humayun. O poeta, cujas rimas suaves impressionaram o imperador no final do século XV, tornou-se popular e famoso, tendo escrito obras importantes como “O Espelho dos Significados”, “O Sol e a Lua” e “A Jornada Espiritual dos Místicos”. Sua habilidade poética fez dele um imortal. Babur e Humayun gostavam tanto do que escrevia que tornaram-se seus patronos. Kamali, por sua vez, era o oposto de Jamali, um ilustre desconhecido, que dizem no máximo ter sido seu discípulo, cujos antecedentes não são plenamente conhecidos. Os nomes estão marcados juntos, com hífen – Jamali-Kamali – não só porque foram sepultados lado a lado. Especula-se que eram amantes e teriam sido profundamente apaixonados. Esta é a breve história do túmulo, mas quem quiser se aprofundar, deve ler o livro “Jamali-Kamali, Um Conto de Paixão na Índia Mogol”, de Karen Chase, que descreveu a história sobre o amor gay que não conheceu a vergonha, que ninguém ridiculariza nem julga, corre solta e poética, sem guardar preconceitos.

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                   Construídos em 1528, foram a primeira obra em arenito vermelho e mármore branco, que tornou-se tendência popular da arquitetura mogol. Tem cinco arcos esculpidos na sala de oração, onde uma cúpula se eleva acima do arco central.

                        Um guarda escondido surge do nada, parece entediado, talvez porque raramente alguém passa por ali. Ele “cuida” do prédio, fechado por um portão de ferro. Niraj, nosso guia, conversa com ele e lhe pede para abrí-lo para nós. Entramos no espaço vazio através do pequeno portão de ferro da muralha que separa a mesquita  e a tumba. Entre quatro paredes altas, o cenário é perfeito para a criação de histórias de gênios e fantasmas que dizem haver por ali à noite. No prédio, duas sepulturas de mármore abrigam os restos mortais de Jamali e Kamali. Nada empolgante do ponto de vista do desenho, talvez porque nele não se possa entrar, mas um vislumbre pela janela gradeada é o bastante para nos surpreender com o estampado da pintura do teto, em vermelho e azul, com inscrições do Alcorão e de poemas de Jamali quase apagados pelo tempo. A falta de luz protege o que resta.

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E os gênios?

                    Gênios remetem aos contos de Aladin e sua lâmpada mágica, da série Arabian Nights, história cuja versão infantil foi adaptada num filme de animação que marcou a juventude de muita gente. Já em Delhi, os gênios, ou djinns, são mais, digamos, adultos, não tão românticos. Conhecidos por suas travessuras e sons assustadores, invadem casas sem aviso prévio e costumam habitar ruínas da cidade, muitas delas no complexo arqueológico de Mehrauli.

                       Para os que acreditam em mitos e lendas, os djinns de Delhi concedem desejos. Fiéis rezam, acendem velas e escrevem cartas para eles. Dizem que as leem e escutam pacientemente os pedidos. E que podem resolver qualquer problema. Não acredito em gênios, mas, por conveniência, jamais passaria por ali à noite. Dizem que na mesquita e túmulo Jamali-Kamali, alguns se refugiam e, por estas histórias, Jamali-Kamali tornou-se conhecido como a “casa dos Djinns”, onde ainda hoje reúnem-se epssoas ali para se conectarem com eles.

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                        Quase um tesouro escondido numa parte do quase deserto Parque Arqueológico de Mehrauli, este baoli de pedra é um lugar especialmente calmo, fresco e bonito. O pitoresco baoli remonta ao ano 1506, tem três andares abaixo do nível do solo e surge repentinamente à medida que nos aproximamos dele. A estrutura de pedra acredita-se ter sido construída na era Lodhi. por Daulat Khan. A construção é retangular, consiste num poço profundo que pode ser acessado através da grande escada. Um nicho aberto na parede sul atua como uma passagem que une o poço ao tanque de água. Seus degraus podem ser descidos e levam até ao fundo. Os lados são cercados por muros altos e incluem uma plataforma para caminhar, doze pilares de cada lado e nichos arqueados. Em certos lugares, há nichos nas paredes, usados para abrigar lamparinas a óleo, o que sugere ter sido além de poço reservatório de água, um lugar para encontros sociais e culturais, espaço público frequentado também durante a noite.

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[1] Djinns não são fantasmas nem são anjos, mas “entidades” criada por Allah para agirem junto aos humanos, fitos de fogo mas sem fumaça. De acordo com a mitologia islâmica, Iblis era um Djinn que se recusou a se ajoelhar diante de Deus e foi expulso do céu, passando então a ser um diabo, ou Shaitan. Eles têm o poder de manipular mentes humanas fracas e possuir pessoas se elas se apaixonarem por eles. “Vivem” por milhares de anos e podem ter uma família. Cabelos longos e perfumes são uma fraqueza para eles, então tenha isso em mente antes de entrar em um prédio antigo e desolado!

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No Haveli Dharampura, um lassi de manga, por favor!

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           Nas ruas mais “tranquilas” da velha cidade, enquanto caminhávamos desviando de triciclos, tuk tuks, motonetas, carrocinhas e gente, deixávamos para trás a ruidosa Chandni Chowk e mergulhávamos nos becos estreitos e silenciosos de Velha Delhi. Antes passamos pelos concorridos bazares Dariba e Kinari, especializados em jóias e roupas para casamentos e festas, e logo, a certa altura, entramos numa pequena via com toda a cadência, atmosfera e personalidade peculiares a Chandni Chowk, muitas fachadas desgastadas, preciosidades escondidas por toda sorte de descasos, belezas arquitetônicas roubadas em sua originalidade,  palacetes que a despeito de tudo, mantinham uma nobreza admirável.

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                     Por ali havia uma esquina. Hoje eu não conseguiria localizar seu ponto exato no mapa. Nela,  uma portinha que vendia apetitosas (e perigosas!) samosas. Não resistimos. Fritinhas na hora em óleo centenário, servidas embrulhadas em pedaços de jornal rasgado. Ainda hoje não sabemos se foi este nosso atrevimento culinário que nos atacou severamente as entranhas, mas estavam saborosas. Tanto que as repetimos, a despeito de apimentadas. Não experimentamos, mas eram também atraentes o que vendiam noutras iguais lojinhas: naan khatai, puri choley, pakora e lassis, o que faz do bairro um dos mais antigos e deliciosos centros de prazeres gastronômicos populares da cidade.

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                   Depois de incontáveis novos esbarrões, do vai e vem de pessoas cuidando de seus negócios diários e compras, de sarees de lantejoulas nas vitrines, de tudo o que pode se encontrar de mais lindo ou kitsch por ali,  a história, muitas vezes perdida em becos escondidos, com ou sem saída, pode surpreender e atrair o turista mais atento aos detalhes, verdadeiros fios perdidos, expostos em fachadas, janelas e portas que abrigam parte de um passado nobre de riquezas expressos sobretudo nos havelis, alguns dos últimos remanescentes do ilustre e glorioso passado de Chandni Chowk, onde dói testemunhar a força com que a modernidade invade a história e a vai apagando,  deixando que os sinais do tempo desgastem tanto as fachadas que elas parecem prestes a entrar em colapso, como se apelassem aos olhares mais atentos para que não as deixem definitivamente entrarem para a memória depois de destruídas.

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                   Seguimos, após a parada culinária observados por macacos sorrateiros, entre um cânion de edifícios em mau estado, de fachadas novas e antigas escondidas por emaranhados de cabos de energia, naquele estilo indiano que só eletricistas insanos metem a mão. Havelis e pequenos templos jainistas antigos escondem-se por trás de uma teia de fios, cobertos de sujeira acumulada, por telhadinhos plásticos e puxadinhos, entre outras peças da parafernália que oculta algumas das preciosidades arquitetônicas e patrimoniais da área.

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O Haveli Dharampuraum belo edifício restaurado, convertido em hotel-boutique

                    Não era o lugar onde eu esperava encontrar um meio de hospedagem com aquele padrão, mas a novidade não apenas revigorou o prédio como pode trazer à área outras iniciativas que recolocariam em uso antigos palacetes abandonados. A mansão do século 19 tem bons quartos, um simpático restaurante – o Lakhori – e um pequeno terraço junto ao telhado com vistas muito interessantes para aquele trecho de rua, para os telhados e fachadas de prédios próximos, como também para as cúpulas em forma de cebolas, com os minaretes da Jama Masjid.

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              Nos sentamos para um café e um mango lassi, a bebida cremosa feita com iogurte e fruta, uma pitada de gengibre, extremamente agradável no sabor e refrescante, dizem também que adequada para amenizar os efeitos das comidas apimentadas, devido à propriedade que dizem ter o iogurte.

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             Um funcionário nos leva a conhecer a pousada e o terraço. Orgulhoso, termina o passeio nos contando um pouco da história do edifício. No terraço, aponta lugares para boas fotos, demonstrando o que aprendeu com outros amantes da fotografia que por certo ali estiveram antes de nós, entre eles a estreita rua abaixo, visão vertiginosa a partir do parapeito, e parte das cúpulas em forma de cebola e minaretes da fabulosa Jama Masjid, visão encoberta  parcialmente por telhados e terraços, antenas e caixas d’água vizinhas.

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                   A breve parada foi além de descanso, inesperada oportunidade de conhecermos os pormenores de um haveli, sobretudo de seu interior, antes de seguirmos pelas ora sombrias, ora luminosas ruas estreitas de Shajahanabad e Chandni Chowk.

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Kucha Pati Ram – Um lado escondido da história

                 Continuamos nossa caminhada até outra antiga glória: Kucha Pati Ram, uma rua sem saída com havelis e história quase esquecida pelo tempo, fora do roteiro comum do turismo. Um beco com mansões da época de Sha Jahan, quase a totalidade em estado negligente de manutenção, hoje com aparência de casas populares. Portões e janelas arqueadas escondem o que há por dentro, quase bastam para encantar o observador com desejo de conhecer os interiores, inacessíveis, a  não ser a seus moradores. Minuciosos detalhes ornamentais cobertos por poeira, teias de aranha, fios elétricos e letreiros.

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              Kucha Pati Ram é um beco com antigos palacetes, alguns ruinosos, outros apenas desbotados, todos gastos e cansados, cujas chabutras (portais) quase não se percebem. Elaborados, ornados, esculpidos, adornam as portas que dão acesso aos pátios centrais, proporcionam uma ideia de como se vivia na época dos tempos dourados de Chandni Chowk, sob as regras do Islã: casas com intensa vida interna, convenientemente escondidas pela vida das ruas.

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             Cada haveli tem sua obra de arte distinta, uma mistura de temas religiosos, mitológicos, sociais, familiares e históricos, tendo também Krishna e sua vida,  assim como cenas do Mahabharata e do Ramayana como tema recorrente nas pinturas, revelando que naquela residência morava uma família com tradições hinduístas, entre as cenas da corte real islâmica, pois havia liberdade para improvisações nos temas ornamentais, o que fica evidente na inclusão de recursos visuais da tecnologia moderna, como ferrovias e carros, para além dos religiosos, compartilhando o mesmo espaço. Pinturas de retratos também se tornaram populares, um meio de registrar a história da família proprietária e sua genealogia.

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