ÍNDIA – De Agra a Jhansi, de trem

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                PARA quem já foi à Índia, e lá tenha sentido despertar uma espiritualidade inquietante, daquelas mesmo, carregadas de todos os estereótipos possíveis de caber numa cabeça, com direito à crença em todos os deuses hindus, tão poderosa que o fez jurar que sua outra vida foi na beira do Ganges, duvido que seja um indivíduo que tenha “visitado” o banheiro público da estação de Agra. Não há espiritualidade ou crença capaz de resistir àquele lugar. Mesmo a indiana. Os contrastes da imensa espiritualidade com a realidade (o sistema de castas e de culpar sempre a mulher no caso de estupros) em parte deve ter nascido ali, no banheiro da estação de Agra.

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              Um turista brasileiro, por exemplo, mesmo o mais crente, desses que acreditam até no PT, em homeopatia, em medicina alternativa, em guru indiano, em ervas curadoras milagrosas, no poder curativo do pensamento positivo, em tarô, búzios, chupa-cabra, numerologia, na previsão de futuro, em quem diz “trago seu amor em três dias” e naquelas “consultas” com astrólogos que acertam tudo de sua vida,  ali reavaliaria suas convicções.

               No país dos sem privada, o banheiro daquela estação é o túmulo de qualquer crença. Nesta e nas vidas passadas. A experiência de visitar o lugar é a mais escatológica que alguém possa ter a “oportunidade” de vivenciar. Depois daquilo, não é de se estranhar que na Índia muitos prefiram “fazer” ao ar livre, que mais de 500 milhões de pessoas naquele país evacuem a céu aberto. Parte delas nos trilhos das ferrovias, especialmente no início da manhã, antes que as multidões circulem.

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                    A Estação Agra Cantt é movimentada, mesmo nas primeiras horas da manhã. Nem tanto naquele domingo, pois não havia multidões nas amplas plataformas, contudo, nunca se está só nestas paragens. Gente sempre tem. E ali, sentada nos bancos e no chão, com ou sem bagagem, ouvindo anúncios de chegadas e partidas, não era a estação exceção à regra. Fazia muito frio. E nós estávamos ali de pé junto aos trilhos, encostados no carrinho com nossas malas quando nos deu vontade de “visitar” o banheiro. Mesmo para nós, que já estávamos em peregrinação turística pela Índia há quinze dias, teoricamente enrijecidos pelas visões de pobreza e sujeira, de toda a sorte de heróis humanos e animais tentando sobreviver, lembro de cada minuto da espera do trem. Íamos para Jhansi, esperando que o banheiro da composição fosse frequentável.

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                    Nós quatro já estávamos um pouco debilitados pela ingestão de algum veneno alimentar intestinal. Dois de nós já tivéramos as tripas reviradas, noites “dormidas” no trono, algo que nem mesmo nossas farmácias de viagem bem abastecidas e as consultas à nossa irmã médica no Brasil deram conta. Os banheiros, nestes casos de indisposição, eram o último lugar onde imaginávamos ir em busca de alívio imediato. Não há novidade nisso, muitos já se falou e não pretendo alongar-me no terma, pois quem já leu qualquer relato de viagem à Índia, sabe que banheiros públicos são o pior lugar para o alívio de diarréias. Que dirá o daquela estação. Fosse descritível seu estado, embora verdadeiramente trágico, eu preferiria “fazer” ao ar livre. Então, é um inconveniente impublicável contar-lhe sobre ele. Gosto de desafios, mas este é inconfrontável.

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                  Minutos depois, já acomodados em nossos poltronas no vagão, fui “visitar” o toalete da composição. Para os padrões indianos, sobretudo para o que havíamos visto na estação, era um paraíso para turistas indispostos em seus tortuosos, mas maravilhosos dias de viagem pela Índia. Limpo e fresco, com duchinha e papel. E não era daqueles com buraco no chão, que alguns chamam de “bacia turca”, o vaso sanitário “embutido” no chão, você tendo que fazer suas necessidades agachado, muito embora seja bastante mais conveniente porque não se precisa ter contato com o local onde outra pessoa sentou antes. Este era com vaso “normal” e perfeitamente frequentável, apesar dos pesares.

                A viagem foi ótima. Chegamos bem em Jhansi, de onde fomos de carro à incrível Orcha e depois à adorável Khajuraho.

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