NAMÍBIA – Capítulo 7 – Walvis Bay. Onde o deserto encontra o Atlântico.

Pelicanos, flamingos, focas e chacais

                 Não era um céu ameaçador, mas nublado. No mais claro tom de cinza, cor que pintava a cidade, a baía e também meu olhar. Cheguei assim ao lado Atlântico da Namíbia, marcado pela frieza da paisagem e certa melancolia rondando meu estado-de-espírito. Em maior conta, culpa minha; em menor, pelo ensolarado e multicolorido deserto, que me viciara o olhar.

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                  Sossusvlei, havia pouco, ficara para trás, com seus intensos, variados, quentes tons cor de tangerina ainda marcando a viagem e meu olhar, acentuavam minhas expectativas do encontraria em Walvis Bay. Então, natural que o sinistro contraste entre ar marinho e do deserto, para o qual eu não estava preparado, resultasse falta de empatia e, provavelmente, desapontamento. Assim estreei meu encontro com a cidade. Dali em diante, supondo que não passaria de mera pousada, insossa estada, obrigatória entre o último e o próximo destinos. Seria, então esperar, resignado, pela manhã seguinte e nada mais? Pensar apenas na jornada ao Parque Nacional Etosha?

               Guardo a dúvida e não penso mais no assunto, uma atitude de auto-indulgência, a minha própria disposição de perdoar minha culpa pelo eventual erro da avaliação de uma Walvis que eu mal conhecera. Reflito resgatando meu bom-senso, reconhecendo, todavia, que pré-julgamentos e expectativas exageradas nunca terminam bem. E que na Namíbia não há lugares chatos, viajantes, sim.

            Desço do carro e vou a uma banca de artesanato próxima. Banca, não, lona. Estendida no chão, sobre ela estavam animaizinhos artesanais africanos, esculpidos em madeira, meio toscos, em três tamanhos cada, à espera de adoção por turistas, mediante, claro, pequena quantia. Me interesso por dois: um pequeno o órix e uma girafinha. Pego-os e com a proximidade dos olhos percebo que são ainda mais rústicos que de longe. Mal ficavam em pé, mas os imaginem encostadas nos guias de viagem de uma estante que mantenho num quarto em minha casa. Junto a mapas, fotos, livros, Atlas e pequenas lembranças como aquelas, são meu mundo de recordações viagens, meus “imãs de geladeira”. Ficariam bem na seção africana, defronte aos guias Bradt e Lonely Planet da Namíbia. Olho de novo para a lona e me interesso por um pequeno elefante. Pergunto se acompanham as presas, já que os expostos tinham apenas seus orifícios ao lado das trombas. Ante a afirmativa do vendedor, pago o total acertado para as três peças, sem regatear. Ele se vira, quebra dois palitos de fósforos, retira-lhes a cabeça incendiária e os enfia no lugar dos marfins. O paquiderme sai de graça. Olho embaixo do elefante procurando “não acompanham presas”. Nada encontro e rio da tentativa esperta, mas ingênua, de me ludibriar. Ameaço devolver os três animais e desistir da compra.  Pago o valor de dois e o elefante sai de graça. Com os fósforos!

                Corro em direção ao grupo, que ia adiante e entrava no The Raft Restaurant, onde se entra por uma ponte de madeira. Um lugar pitoresco, sobre palafitas, no píer da lagoa de Walvis. Almoçamos frutos do mar, carne e legumes, com vistas para a baía, pelicanos e flamingos. Frequentado por famílias, havia muitas crianças encantadoras. Sendo crianças, fazendo algazarras controladas. Eram todas branca, com carinhas de holandesas. Não havia um só negro. Estranho aquilo, me recordo vagamente de ter lido acerca do apartheid na Namíbia, resolvo não me alongar no pensamento para não acentuar meu desencanto com Walvis. Começo a comer e a fome a ser saciada pela boa refeição. O cardápio tinha aparência de fast food, mas havia opções de carne de caça, entre elas a de avestruz, cabra-de-leque e órix, além de as aves, crocodilo e frutos do mar como “kabeljou”, cavaquinhas e ostras.

             Meu estado-de-espírito melhora com o sol começando a aparecer entre as nuvens. Ainda era nublado, mas claro.

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                     Na mesa ao lado, um sargento fuzileiro naval da Marinha do Brasil, nos ouvindo falar português, aproximou-se e “matou as saudades” do nosso país conversando acerca da missão de cooperação no desenvolvimento da Marinha da Namíbia, iniciada na década de 90 pela brasileira. Disse que desde então houve uma série de intercâmbios e cursos ministrados em território brasileiro. Falou de seu orgulho e honra por integrá-la e que o Brasil vendera à Namíbia dois navios. Soubemos que a Marinha mantém, desde 2009, um grupo de assessoramento técnico no país. Mais tarde, já no Brasil, soube que o comandante da missão, Sérgio Lomba, é cunhado de uma amiga. Mundo pequeno!

                   Terminamos o almoço e caminhamos pelo vizinho Walvis Bay Waterfront, onde vimos flamingos levando boa vida às margens da lagoa, agradados pelo sol que começava a se mostrar, animando a cidade portuária, moderna, britânica, próspera, com casas ótimas e mansões de frente para a baía. Penso que deva ser cidade boa de morar.

              Estrategicamente importante, Walvis tem indústria de pesca liderando a economia. A cidade foi descoberta pelo ocidente em 1487, quando o navegador português Bartolomeu Dias ancorou ali sua caravela em busca de uma nova rota marítima para o Oriente. Em 1793, os holandeses fincaram ali uma bandeira, tendo logo os britânicos tomado o controle, assegurando a passagem dos navios de sua majestade, permanecendo ali até 1878. Em 1910, assim como todo ao país, Walvis – como é chamada carinhosamente pelos locais – foi incorporada à África do Sul.

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                   Como atração turística urbana, a cidade perde para Swakopmund, bem mais bonita e atraente., contudo sem ser tão conveniente para quem vem do deserto – o parque Namib Naukluft – e que se dirige ao Parque Nacional Etosha. Em termos de animais e natureza, também. Tem centenas de milhares de flamingos e pelicanos, o surpreendentemente Pelican Point, parque de proteção ambiental onde se podem ver focas. Algumas sendo comidas por chacais.

                 Pegamos a estrada de asfalto que beira o mar, também desolada e que passa por uma refinaria de sal, tudo muito portuário e frio. Nossa chegada à cênica Pelican Point Peninsula – com as praias do Oceano Atlântico de um lado e a lagoa de Walvis Bay do outro – foi um alento. Uma estreita faixa de areia que separa a calma lagoa do poderoso Atlântico, com boas oportunidades de atolar, mesmo um 4×4, e fotográficas de focas – as estrelas – e chacais, seus predadores, além de corvos-marinhos, gaivotas, pelicanos, andorinhas e, com sorte e um bom binóculo, golfinhos. Mais sorte ainda, baleias, comuns naquele mar, contudo não tão próximas da costa.

Pronto, Walvis estava “salva”, embora por uma atração 32 quilômetros distante.

Pelican Point ________________________________________

                    Talvez, digamos num sentido mais poético, ver bicho comendo bicho vivo não seja um programa muito doce. Especialmente aquelas fofuras, os filhotinhos de focas, ainda que seu cheiro desagradável fosse mero detalhe, preço pequeno a pagar por uma visita tão incrível. Não é fácil a vida daquelas criaturas. Um em cada quatro filhotes nascidos ali morre no primeiro ano de vida. De fome e vítimas de chacais. Em plena luz do dia, eles nem precisam esperar a noite para caçá-las.

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              Nunca imaginei encontrar um grupo tão grande desses carnívoros com nadadeiras e cara de cachorro. Os filhotes ficam por ali, em grupo, tipo num parque infantil, enquanto suas mães vão para o mar se alimentar e seus pais ficam em terra se matando por espaço territorial de reprodução. Precisam dele para seu harém com até 30 fêmeas. Os infantos, ingênuos que só, ainda não saem da areia firme para a água e suas mães não têm lá muito tempo e paciência para ensiná-los a cuidarem de si mesmos.

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              Os chacais sabem disso. Os que vivem ali são os de dorso negro, ou Canis mesomelae, canídeo de corpo longo e estreito, pernas finas e orelhas grandes e triangulares. Espertos, esperam os bebês foca solitariamente se aventurarem areia adentro. Embora pareçam inofensíveis vira-latas, são selvagens e agressivos, especialmente quando em busca de alimento. As Focas do Cabo, ou Cape Fur Seals (Arctocephalus pusillus pusillus), uma das nove espécies do planeta, são endêmicas da África Austral, e têm colônias na costa da Namíbia e da África do Sul. Têm orelhas externas, que outras parentes não. E não migram, ficam por ali a vida toda.

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                No farol que orienta navios na aproximação noturna porto de Walvis desde 1915, hoje há um lodge num prédio anexo, com vistas panorâmicas para o mar (quando o nevoeiro permite) e para o banquete dos chacais.

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Pelicanos e Flamingos ___________________________________

                 Pelicanos são grandes aquáticas aves da família Pelecanidae, caracterizados por seu longo bico e a grande bolsa na garganta, usada para capturar presas e drenar a água do conteúdo recolhido antes de engoli-la, têm plumagem clara, com algumas penas negras, cinzentas, castanhas ou róseas. O bico, a bolsa e a pele facial adquirem cores vivas na época reprodutiva.

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                Walvis Bay Lagoon, é sinônimo de flamingos e um lugar encantador, especialmente à tarde até o pôr-do-sol. Uma das maiores belezas desta parte do país, a mais antiga lagoa na costa da Namíbia, refúgio seguro para mais de 150.000 aves, estação de alimentação temporária para mais de 200.000 aves marinhas e andorinhas que migram para ali de dois em dois anos desde o Ártico. Até 90% de todos os flamingos sul-africanos passam o inverno no lugar e dependem da lagoa para sua sobrevivência. Apesar disso, fatores naturais, como o assoreamento da lagoa, pela areia soprada do deserto, e externos, como a construção de habitações e de salinas, contribuem para seu futuro incerto, o que significa a possibilidade de seu desaparecimento.

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                     Ali terminamos o dia ao pôr-do-sol. Eu gostaria de apenas com a escrita poder transportar o leitor para fazê-lo sentir a beleza daquele poente tão ousado, que tingia tudo à vista nos tons da paleta de cores entre o vermelho e o amarelo. Não me lembro de outro tão belo, nem mesmo no país, onde, parece, a bola incandescente reserva um jeito arrasador de se despedir ao deixarem espaço para estrelas e a lua. Coisa de porta-retrato, com sorte, também com direito à silhuetas de pássaros cruzando o astro rei se refletindo esticado na água. A escuridão tomava o céu e encerrava magnificamente o dia.

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Orix blog

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

Okaukuejo – O Parque Nacional Etosha

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O órix e o elefante sem presas

NAMÍBIA – Capítulo 6 – Do deserto à costa, pelo deserto

                     Eram sete e meia da manhã quando deixamos o lodge e o grande mar de areia, o Deserto Namib. O sol já começava quando uma pequena manada de gnus que vive nas proximidades atravessou a estradinha de cascalho da propriedade. Iam ao poço para beber água. François respeita o momento: pára o jipe, desliga o motor. Fica uns segundos em silêncio, vira-se para nós e nos saúda entusiasmado.

– Hakuna Matata. Bom dia, vocês são bem-vindos!

Sentado no banco dianteiro esquerdo, percebendo que todos pegam suas câmeras, Haroldo nos orienta:

                     – A luz é pouca. Ponham mais ISO e velocidade.

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                     O Blue wildebeest parece um grande antílope com chifres de gado. Ou com um bisão de ombros desproporcionais. É um belo animal de cara preta, chifres curvos e pontudos, um perigo para predadores. E a barba, pendendo do queixo, torna aquele animal, além de personalíssimo, o ícone das grandes migrações africanas. Fotografo como se fossem os últimos. Afinal, na natureza, todo momento é fugaz, por mais que se repita amanhã, todavia jamais será igual.

– Hoje iremos para a costa pelo deserto, passando por Solitaire, um vilarejo com a “melhor torta de maçã da Namíbia”. Mais adiante, cruzaremos o Trópico de Capricórnio e, uns quilômetros depois, veremos as raras árvores kokerboom – ou Aloe vera. Em Walvis Bay chegaremos no começo da tarde e comeremos num restaurante sobre um píer na baía.

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Solitaire ____________________________

            Uma hora depois, já na C14, estrada de asfalto, um belíssimo órix parece posar para nós. Disparamos fotos, com o carro parado, para registrar aquele encontro venturoso, uma despedida especial. Vinte minutos mais e chegamos a Solitaire, um oásis no deserto, única paragem de combustível entre Sesriem e Swakopmund.

Este é o lugar onde se compra a “melhor torta de maçã da Namíbia”, na Solitaire bakery, diz Haroldo assim que descemos do carro.

Teremos tempo para comer?

Não. Vou comprar para comermos mais adiante.

                A explicação ficara por ali, anulando minha vaga vontade de comer escondido a torta de maçã, que por certo seria acompanhada de um espresso(*).

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                Uma curiosa, esquecida, desértica e pitoresca vila na junção das estradas C14 e C19. Sob o mesmo céu sem nuvens e na terra ressequida. Mas um lugar surpreendente, de parada obrigatória para abastecimento de combustível, até mesmo para nosso jipe com dois tanques. Postos de gasolina são extremamente raros. O mais próximo dali fica em Maltahöhe, a166 km de distância, ou em Walvis Bay, a 232 ou, em sentido contrário, de onde viemos, em Sesriem, 83 km. Geograficamente, a leste ficam as montanhas, a oeste as dunas litorâneas, ao redor, deserto. Um posto de combustível, banheiros, uma lanchonete com café espresso, um lodge, carros antigos enferrujados e decrépitos, dos anos 50 e 60, largados propositalmente na entrada da vila, formam um cenário fotogênico. O lugar tem banheiros limpos – pelos quais se paga um dólar namibiano para o uso – a McGregor’s Bakery, em honra do falecido fundador, Percy McGregor, com variedade de bolos, tortas e café, além da strudel de maçã, dita a melhor da Namíbia e, finalmente, um armazém geral onde se pode abastecer o estoque de água, refrigerantes e cerveja e outros itens como recordações de viagens, de ímãs de geladeira a camisetas.

           O clima é extremo. Um pequeno quadro negro registra o que marcou o pluviômetro local. Em fevereiro, 0,5 mm! Em 2017 inteiro, 116 mm, 50 a menos do que chove só mm mês e dezembro no Rio de Janeiro. Os dias de verão são secos e áridos, com temperaturas para além dos 40C e noites de inverno que podem registrar 0C.

O Trópico de Capricórnio _________________________

            É uma linha imaginária, todos sabem. E assim, de mentirinha, atravessa continentes, países e oceanos. Na Namíbia, uma placa indica o lugar por onde passa. O Trópico de Capricórnio, assim chamado porque a constelação de Capricórnio ergue-se acima dele no solstício de verão, é um dos cinco principais círculos de latitude. Marcado por uma placa desgastada, na estrada C14, entre Solitaire e Walvis Bay, todos os turistas que por ali passam, fotografam-se sob ela. Como bons turistas, fizemos o mesmo, nos registramos na foto mais manjada de toda a Namíbia.

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A melhor torta de maçã da Namíbia _____________________

             Virou atração turística e você não sairá desapontado ao prová-la. Pode não ser a melhor do mundo, mas da Namíbia, merece a colocação. Comemos a nossa num Picnic Spot and Viewpoint(**) da estrada C14, no ponto em que ela começa a descer para a costa. Paramos ali para esticar as pernas e ver as curiosas quiver trees, ou kokerboom (Aloe dichotoma), árvore nativa do sudoeste da África, vulnerável à extinção, motivo porque são protegidas essas parentes da nossa conhecida babosa. Atingem até 9 metros de altura e podem viver cerca de 400 anos. As folhas são suculentas e têm a mesma gosma da babosa, ou aloe vera, ingrediente usado no Brasil na preparação de cosméticos.

As solitárias kokerboom __________________________________

           A característica mais evidente das quiver trees são o tronco grosso, sua casca fissurada por rachaduras, que se afila até o ponto onde ramifica e se espalha em galhos para formar uma coroa arredondada de ramos de folhas. Suculentas e pontudas, daí seu nome quiver (lança ou flecha). Encimados por uma flor amarelada, seca àquela época, ainda proporcionando um contraste vívido contra céu azul claro, no verão fornecem néctar aos insetos, pássaros e babuínos. Ela prefere ambiente quentes e pedregosos, como o daquele terreno em que estávamos. São árvores que ocorrem isoladamente, embora haja uma pequena floresta delas, em Keetmanshoop, parque nomeado monumento nacional namibiano, além de atração turística.

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              Tiramos fotos das árvores solitárias e do belo panorama, o espetacular vale no ventre do deserto. Uma estrada de terra, linha reta que morre no horizonte, por onde carros passavam levantando poeira de partículas tão secas e leves que turvavam o céu. Comemos a deliciosa torta de maçã antes de partirmos para o destino final, Walvis Bay, a uma hora e vinte dali.

Notas do autor

(*) Espresso vem do italiano, tem relação com o verbo latino expressus, particípio passado de exprĭmĕre, que significa entre outras coisas “apertar com força, comprimir, espremer, tirar de, arrancar”. Em português, esse verbo latino originou exprimir, espremer e, por extensão de sua forma nominal, expressar. Não há registro de espresso nos dicionários de língua portuguesa. Já expresso significa rápido, mas um café “espresso” significa o café “espremido”, feito sob pressão. Consequentemente, espresso deve ser aceito, segundo especialistas, porque nosso vocabulário aceita palavras estrangeiras. Por outro lado, não errado dizer expresso, porque de fato o café espresso (ou espremido) na máquina fica pronto em poucos segundos, rápido, portanto, para ser expresso.

 (**) geo coordenadas -23.310530, 15.511018

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Continuamos juntos? Próximo capítulo: 

Walvis Bay – Pelicanos, flamingos, focas e chacais

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NAMÍBIA – Capítulo 5 – A caminho do mar, a última noite no deserto.

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Nosso jipe nas areias do Atlântico, no Pelican Point em Walvis Bay: focas e pelicanos

Dias intensos, noites tranquilas ___________________________________________________

                  Lembro bem daquela noite. Eu só queria viver o momento. No mais completo e aprazível silêncio, na solidão do meu chalé, deitado na cama e usufruindo até onde eu pudesse os minutos que antecediam o adormecimento. A quietude era revigorante, contribuía a favor da sonolência, mas eu lutava pelo privilégio de ficar acordado no árido solo africano. O esforço era grande, o maior das três primeiras noites da fase inicial da viagem. Ainda eram vivas, dançando na mente, as imagens de cada momento. Voltavam com tal esmero, precisão e acuidade que pareciam as sensações que vivi. Da descida do avião – na chegada à Namíbia, no aeroporto de Windhoek – ao Pôr do Sol na Duna #1, poucas horas antes.

                 A viagem até ali estava perfeita e me contemplara com boa contagem de mamíferos, aves e paisagens de outro mundo. Meu corpo, em escombros, obedecia à superioridade da mente. Conspirava contra o físico um cérebro fervilhante, inconformado com a precocidade do sono. Viro a cabeça, pego o bloco de anotações e  escrevo palavras que temo perder, como um ensaio para esses parágrafos. Mesmo para um turista com afeição pela escrita, sempre pode ocorrer o imprevisto do esquecimento. Contudo, eu sabia: o cansaço e sonolência eram parte inescapável do charme daquela viagem, ainda que às vezes me parecesse chegar cedo demais, junto ao poente.

O tempo voa… parece que foi ontem, mas já estamos no terceiro dia de viagem… Falo sozinho no delicioso chalé do lodge enquanto olho para o céu galáctico pulsando em cada estrela.

             Temendo ser mal interpretado por algum companheiro do grupo cruzando meu chalé a caminho do seu, continuo no tema em pensamento. “O tempo passa mais rápido quando nos damos conta disso”, concluo em sussurros mentais.

         Neil Peart me vem à cabeça. O reservado, tímido e introspectivo compositor e baterista do Rush, lendário grupo de rock canadense, dublê de escritor de relatos de viagens e viajante dos melhores, em seu primeiro livro – “O Ciclista Mascarado” – descreve uma viagem de bicicleta pela África. Na introdução, diz que “se viaja à África Oriental pelos animais e para a Ocidental pelas pessoas.” Conheço ambos os lados do continente e não tenho porque discordar. Mas se conhecesse a Namíbia, imagino que Peart não erraria inserindo o país numa nova classificação, acrescendo à sua lista uma terceira categoria: “Viaja-se à Namíbia pelos animais, pelas paisagens e pelas pessoas.”

          Os animais. Vendo-os assim, selvagens, em liberdade e em sua saga pela vida, nos sentimos protagonistas de um documentário da National Geographic. Contudo, poucos pensam na Namíbia para safáris fotográficos, porque ali colado em suas linhas fronteiriças imaginárias fica a África do Sul, a super-potência do ramo. Mas se ambos são lugares igualmente perfeitos para realizar esses sonhos, a Namíbia é menos turística, ainda não perdeu autenticidade em nenhum metro de seus parques. Naquele terceiro dia eu já saboreava o prazer de ter visto bom número de mamíferos. E ainda havia os próximos dias, todos dedicados aos animais, às enormes possibilidade de ver leões, zebras, girafas, elefantes, rinocerontes pretos, avestruzes e hienas que habitam o Parque Nacional de Etosha. O parque alcançaríamos na terceira etapa da viagem, depois das focas e dos chacais, dos flamingos e pelicanos daquela tarde em Walvis Bay.

            Mas se é natural o imaginário coletivo da humanidade primeiro lembrar dos animais quando pensam na África, também é que, depois que qualquer indivíduo que goste de animais selvagens visitar o continente, reconhecer que apenas por eles não estará a faz justiça à fantástica e enorme massa de terra. E provavelmente também verá grudar em si, uma vez tocada a terra africana. Seja pela diversidade e pela beleza das paisagens, seja pelas possibilidades de experiências ou pelo patrimônio cultural e arquitetônico. Além de comida boa e de uma gente ainda melhor. Depois de experimentados cada um destes, a África passará a agir como uma imã, atraindo e trazendo os pensamentos de volta ao continente. Como fez com Peart, sujeito com quem compartilho alguns gostos comuns – motocicletas, aventuras, viagens e escrever – e que depois de se inscrever numa excursão de bicicleta – cujo título era o clichezíssimo “Camarões: terra de contrastes” – ao fim da estoica jornada, jurava jamais fazer uma “coisa daquelas” outra vez. Um ano depois, Peart voltava a pedalar na África, desta vez por Togo, Gana e Costa do Marfim.

             Mesmo com  pensamentos tão estimulantes, o sono me derrubou e a noite não se estendeu como eu queria. Apago o abajur do criado mudo, me aconchego com o travesseiro, fecho os olhos e respiro o ar fresco da última noite no deserto. Durmo escutando no celular a trilha sonora selecionada para aquela noite: Bill Evans. Tocavam Lucky to be me, My foolish heart, entre outras. Mal chego à terceira: durmo embalado por Peace piece, a lindíssima e sonífera canção(*). O sono me convoca, definitivamente, sem me dar tempo de desligar o telefone.

            Não acordo de madrugada. Sequer para o costumeiro xixi. Vou até as seis da manhã, estourando a bexiga, mas restaurado. E o celular, descarregado. Tocou Bill Evans, coitado, até morrer. Faço tudo o que é rotineiro depois do despertar e saio do chalé. De mala e cuia. Sinto um arrepio que vai da pele à carne, um frio do deserto que interdita involuntariamente meu bom-humor matinal. Despenca, como a temperatura, na mesma medida em que sobe a fome pelo desjejum. Adeus, Sossusvlei.

Orix blog(*) Clique aqui https://bit.ly/1XIR7aZ para escutar Bill Evans – Peace Piece – enquanto lê. Se voltar ao começo da leitura, ainda melhor. Boa viagem na música e pela Namíbia!

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Continuamos juntos? Próximos capítulos: 

Capítulo 6 – De novo a estrada. Do deserto à costa, pelo deserto

Capítulo 7 – Walvis Bay. Onde o deserto encontra o Atlântico.

Capítulo 8 – Okaukulejo. Parque Nacional Etosha

Capítulo 9 – Onkojima e o encontro com chitas e leopardos

 

 

NAMÍBIA – Capítulo 4 – O Cânion de Sesriem e o Pôr do Sol na Duna #1

Adeus, deserto, sublime deserto.

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Na imensidão de Sossusvlei, não há um só grão de areia fútil

                       As mudanças do tempo são poucas, mesmo passados milhões de anos. Exceto pela estrada, nada me sugeria alteração; nenhuma pedra, resto de toco, toco sozinho ou punhado de areia. Tirando nós e o jipe, tudo pertencia ao deserto, àquele pedaço do Namib-Naukluft, onde faríamos nossa despedida brindando e fotografando o pôr-do-sol. Em breve, tudo seria inundado pela luz dramática e quente do crepúsculo e por um silêncio que só há no deserto. A partir de então, a noite, e aquele céu reluzente do deserto, comandariam o espetáculo.

                      Uma longa reta de asfalto negro corta a areia, o rio Tsauchab e os resquícios de vida verde grudados às suas margens. A estrada passa defronte à Duna #1 e assim que passamos por ela, saímos para a areia e estacionamos o carro num refúgio sob árvores secas. Desço do carro e olho para a duna, esquadrinho seus detalhes e entorno, exerço minha paixão pelas paisagens e a natureza, bons motivos para disparos incontroláveis da câmera.

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A estrada, única mudança em milhões de anos

O Cânion de Sesriem

                        Antes da Duna 1, estivemos no cânion. Um quilômetro de comprimento, 30 metros de profundidade, 15 milhões anos. Um desfiladeiro natural esculpido pelo rio  em solo de rocha sedimentar de areia e cascalho. Uma hora bastou para o explorarmos bem, de ponta a ponta. Um pouco mais seria preciso se tivéssemos olhos de geólogo, pois é um campo curioso mesmo para os não espertos no assunto. Não chega a ser como as dunas – primeiras atrações de Sossusvlei – mas fica tão perto de seus caminhos que deixar de conhecê-lo é perder um fenômeno geológico diferente daquela paisagem de areia e dunas. Muitos o fazem, por desconhecimento ou porque o cânion fica escondido, quase invisível. Só o vemos chegando a pé e caminhando até sua borda. Ainda assim é preciso olhar para baixo 30 metros, com vertigem ou sem, para reconhecer tratar-se de um desfiladeiro. Caso resolva descer – não resistindo à curiosidade – com ou sem babuínos espiando o movimento do topo do cânion – a contrapartida será caminhar por um território geologicamente atraente, que apesar de pouco acessível, de sua aspereza e aridez, tem vida.

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Cânion de Sesriem

                        Para nós, o cânion de Sesriem fazia parte do programa. A descida foi fácil, bem mais do que eu avaliava observando-o de cima. Vai-se por um caminho de pouca inclinação e com uma escada na rocha ao final, no trecho mais íngreme. Já em seus domínios, uma história visual rápida da geologia da área se revelou. As paredes curvas mostram camadas sedimentares de 15 milhões de anos, quando o deserto Namib era menos seco. O piso é plano e a caminhada tranquila, não há com o que se preocupar. Os mais aventureiros, como eu, praticantes de escalada em rocha na juventude, até os 45 anos, não resistirão a subir em algumas pedras.

                    Há trechos em que ele serpenteia e se estreita, outros bem mais largos, até com árvores dentro. Nas paredes, buracos naturais são moradas de pombos, arlequins, corvos e estorninhos. A vida selvagem adaptou-se para viver naquele lugar inóspito, todavia bem menos que nas dunas, porque, afinal, ainda restam poças de água. Há pequenos lagartos, o besouro preto tok tokkie (sp de Onymacris), corujas, babuínos da savana (ou babuínos chacma, Papio cynocaphalus ursinus) e a pequena toupeira do deserto, (Eremitalpa granti), espécie de mamífero confinado entre as dunas e o norte, na Baía Walvis, um animalzinho próximo da extinção. Vimos um. Estava morto havia pouco. Um bichinho tão raro, tão frágil de dar dó.

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Cânion de Sesriem

A Duna #1

                        Um pano de fundo, um coadjuvante de grande efeito cênico que, desta vez não estávamos para subir, como a 45 e a Big Daddy. A Duna 1 não tem a sinuosidade sensual e as curvas de suas irmãs, mas tem lá sua importância no cenário. Para o terreno que a cerca – variações de areia, cascalho, seixos do leito seco do rio, alguma vegetação e boas possibilidades de encontrar um órix – tínhamos uns 40 minutos reservados, até voltarmos para o refúgio e o jipe, onde François arrumava a mesa com snacks africanos e vinho. “Por que será que desertos me encantam? O que há de tão cativante nesses acidentes geográficos, dos mais desoladores do planeta, e com tão pouca vida?”, penso.

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A Duna #1

O Pôr do sol

                        Chegamos ao ponto onde a estrada negra de asfalto corta o rio Tsauchab, próximo à Duna 1. O sol poente já se anuncia nas sombras da duna, mas ainda cintila forte sobre nossas cabeças. François estaciona o jipe num refúgio tranquilo ao lado do leito seco do rio. Resolvo explorar a área. Caminho primeiro sobre o leito de areia e seixos rolados de um rio resignado, um lugar morto pela mesma natureza, mas que sabe um dia ela mesma voltará a fazê-lo vivo, aguardando a efêmera água voltar a correr dentro dele. A paisagem é dramática como sempre no Sossusvlei, mas ali expõe vestígios de vida. É o que dizem as árvores que o rodeiam e não se atrevem a avançar um metro além do rio. Sabem que suas profundas raízes não encontrarão a mínima umidade que as mantém vivas com ralas folhas. Seguem, como tudo mais, o que dita a regra de sobrevivência no deserto, registram a permanente guerra entre a vida e a morte.

                       Ando com passos incertos, bamboleando as pernas na areia instável. Dói-me ver rios mortos. Ao menos posso dizer que cruzei mais um rio em África. E que não havia risco de crocodilos e hipopótamos, apenas um remanso, de pura areia e pedras roladas por torrentes passadas. Caminho, penso, observo e fotografo. Resolvo subir pelas pequenas dunas da margem e ouço Haroldo chamar o grupo para uma caminhada até a base da Duna 1. O rio fica lá, impávido. Sigo o grupo que já avança metros adiante de mim.

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O leito do rio Tsauchab 

– Vamos! Aqui é possível encontrar órix. Temos mais uma hora até o pôr do sol.

                No caminho, seixos rolados pretos denunciam: ali já passou um rio. A luminosidade, a despeito da tarde avançada, era de sol a pino. Mas era luz de qualidade, para fotografar e admirar enquanto batia na duna. A amplitude visual era tremenda, já a paisagem, nenhuma novidade. E de órix, só vimos marcas de sua passagem por ali: pegadas e fezes. Em verdade, eu nem esperava algo novo, especial e marcante para além do que já havíamos visto, pois a primeira parte da viagem, que se encerraria ali, já me completara no que eu esperava.

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Seixos rolados sobre areia no leito seco do rio

                       De volta ao jipe, François nos aguardava com uma pequena mesa arrumada. Snacks, vinho e suco para os garotos. Havia tempo para descanso. Me sento na areia, recosto numa árvore e sinto o prazer de contato pleno com a natureza. Areia, pedaços de madeira, galhos secos, folhas e seixos ao meu redor. Novamente me sinto parte, integrado, quase pertencendo ao lugar. Enfio os dedos na areia e fico ali, desligado de tudo, a olhar o deserto.

                               Viro o rosto para o lado, enfio a mão na areia e vejo um ponto ideal para registrar o pôr-do-sol. Ficava por trás de uma pequena duna, e de uma árvore seca sobre ela, o sol já se preparava. Os outros não vão longe, ficam por ali olhando em direção à Duna 1, procurando seus cenários para fotos. Olho minha câmera sobre a areia. Pego-a e a coloco no colo. Observo as marcas dos tempos cascudos que passou comigo. Penso que merecia mais cuidados meus, tenho pena de vê-la assim tão arranhada e gasta. Sopro e passo a mão. Volto à contemplação. Eu não media o tempo, mas queria que ele parasse por um tempo para eu melhos absorver o fascínio daquele lugar.

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Prontos para o brinde!

Como vai, Arnaldo? Cansado?

Nem tanto. Estou aproveitando a sombrinha e sentindo a natureza. Um pouco velho, talvez, para um dia tão intenso…

                     François estende a mão e me ajuda a levantar. Daquele modo, com sorriso, em silêncio, ninguém recusaria. Gentileza, generosidade e simpatia de sempre. Ainda que interrompendo meu momento antes de eu desejar que terminasse, paro a contemplação e reflexão e me ponho de pé.

Gente, vamos brindar!, convoca Haroldo. Ao nosso último dia aqui neste deserto, encerrando a primeira etapa da viagem. O sol já vai se pôr. Amanhã seguiremos para Walvis Bay, vamos viver a agradável companhia do ar refrescante da área costal da Namíbia.

                     Pouco a pouco vamos nos reunindo defronte à mesa e François enche nossas taças. Depois as seguramos acima de nossas cabeças, em direção ao céu e contra o sol. Brindamos como sempre. François diz:

Cheers! Saúde! Hakuna Matata! To you and to Namibia,“Land of the Brave!”

                     Talvez o sentido poético que eu via naquele pôr do sol estivesse mais em mim do que na paisagem, mas o tempo que passei ali a admirá-lo e fotografá-lo foi um dos mais marcantes de toda a viagem.

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                     Depois, jantar na pousada regado a vinho tinto e cama. Um belo jeito de encerrar nossa exploração do magnífico parque Namib Naukluft, de Sossusvlei e do deserto Namib.

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

A última noite no deserto

NAMÍBIA – Capítulo 3 – Piquenique no deserto sob acácias espinhosas

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                 A beleza é, por natureza, subjetiva. Gosto é indiscutível, alguns dizem; “A graça está nos olhos de quem vê”, já outros. Eu só sabia de mim, impregnado até as entranhas pela beleza singular de um charco morto havia 600 anos. Tínhamos visto tudo em Deadvlei e a viagem ao passado terminava na volta ao jipe, deixando para trás centenas de anos e um lugar sem vida. Não subitamente, mas quando já havíamos visto o bastante. E  o que sobrava à vista para nosso deleite, faltava às palavras para definir. Deadvlei, quando cheguei, era um lugar com o qual nunca sonhara. Na despedida, aquele que sempre me lembrarei.

                Outros turistas chegam e cruzam comigo no caminho por onde viemos. Eram poucos, afinal, o turismo engatinha na Namíbia. Eu cumprimentava a cada um, desejando boa experiência, como se os agradecesse pela paciência da espera.

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                Piquenique no deserto  


                O sol já ia bem quando chegamos ao estacionamento dos jipes. Havia muitos ao lado do nosso, primeiro a chegar naquela manhã. Passava das dez de um dia que para nós começara às cinco. Entramos e tomamos nossos lugares e François acelerou, conduzindo bravamente o 4×4, navegando pela areia até o ponto de estacionar sob frondosas acácias. Não chegou a ser uma aventura épica, apenas um caminho cascudo para um lugar bonito.

                 Sombreado e diferente do charco seco e morto que havia pouco acabáramos de deixar, o lugar onde faríamos nosso piquenique não era sem vida, havia folhas e pássaros nas árvores, mas rodeado da mesma sucessão de dunas pequenas e enormes, de leitos de rios secos e lagos idem, troncos de árvores caídas e restos de galhos ressequidos, da mesma beleza inconfundível daquele museu natural vivo ao ar livre.

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                Sem reagirmos às nossas veias exploratórias, nos entregamos novamente ao desconhecido, guiados por Haroldo, o que é fácil  quando um grupo de gente gosta das mesmas coisas e sabe que está ali pra aquilo.

Em vinte minutos podem voltar, diz François. É o tempo que preciso para o preparo de nossa refeição no deserto e afino meu violão. Enquanto estiverem comendo tocarei e cantarei uma canção em damara, a língua dos cliques.

          Haroldo nos leva para a caminhada e explica aspectos da língua damara:

A Namíbia, apesar da baixa taxa populacional, tem diversificada etnia. Cerca de 70% da população pertence aos povos banto – como os ovambo e herero – mas há os khoisan e outras minorias como os damara, os nama, os san, os caucasianos africânderes, alemães e indivíduos de sangue misto, conhecidos como “de cor”. Os nama e os san falam línguas semelhantes, parte do grupo caracterizado por três diferentes formas de “cliques” consonantais e vogais. Os sons são produzidos por estalos da língua, nos dentes de cima, nos de baixo e nos do lado. Os “cliques” são usados em outros idiomas tribais, sendo mais conhecido o dos bosquímanos(*), de Botswana, aquele povo do filme “Os deuses devem estar loucos”(**).

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              Incrível caminhar naquele lugar amplo, com horizonte imenso, lotado apenas por nós. Nada ou ninguém para esbarrar. O ar estava mais seco, me incomodava o nariz ressecado, mas me sentia bem ali, onde não se precisa esperar a chuva passar, porque simplesmente não chove, uma das razões porque goste tanto de desertos.

              A região, geograficamente, era um estímulo para minha memória, trazia de lá as lembranças do que me prendia nas aulas de geografia em tempos de ginásio. Estávamos no Kalahari, deserto da África Austral que abrange partes de Angola, do Botswana, da Namíbia e da África do Sul. Ali, na área do Namib Desert – quase idílico, com dunas de areia iguais aos do Sahara e vastidão a perder de vista e da imaginação. Na língua khoisan, seu nome significa “lugar vasto e desolado”. Vasto é, perfeitamente. Desolado nem tanto, porque embora dominem a areia e as dunas – espetaculares na forma e no tamanho – há  encostas e planícies, lagos intermitentes, rios e vales em constante transformação pela ação do vento. E plantas e animais, vários deles. Dizen ter mais de 55 milhões de anos, o que faz dele o deserto mais antigo do mundo. Era neste lugar que eu pisava e assim me sentia, desprezível em minha insignificância, enorme no encantamento. O estado se justificava: eu estava absorvido pelo deserto mais encantador que já conhecera.

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                     Eu me sentia tão membro do deserto e identificado com a Namíbia quanto não seria natural esperar numa viagem que estava longe da metade. Aquele era um sinal venturoso, pois não ter saudade da minha cama ou pensar em casa e na vida me fazia bem. De certa forma, um conflito que viajantes experimentam, quase inerente às viagens. Eu mesmo, inúmeras vezes, sinto que “metade de mim é partida, a outra metade saudade”. (Oswaldo Montenegro).

Lekker dag!, Bom dia, diz François em africâner ao nos receber de volta ao nosso lugar à sombra. O dia recomeça agora, com esta refeição que preparei para vocês enquanto desbravam nosso país, Land of the Brave!(***), concluiu ele.

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            Sobre uma grande mesa de camping para seis pessoas, arrumados caprichosamente, havia pratos, talheres, copos e comida. No fogão de uma boca, montado sobre uma bancada de armar, uma panela com ovos cozidos e outra com bacon frito. Pão de forma, yogurte, queijo, presunto, chá, café e salada de frutas. Até geléia. Uma lixeira, uma pia com água e cadeiras de lona completavam o ambiente montado por François. Faltava pouco para eu morrer de fome e nessas horas ela nunca me deixa com cerimônias. Então, na boa, fui o primeiro a me entregar sem dó ao que havia e o último a largar os talheres.

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Vou cantar para vocês uma das minhas canções favoritas na língua damara, disse François com seu reluzente violão negro piano e marrom.

            Terminada a refeição, bêbado de café, encantado com o violão e a voz afinadíssimos, pela canção que eu não entendia a letra, mas sabia ser romântica e me fez lembrar histórias de amor, de desamores e decepções. Mas passarinhos, dezenas deles, tentando entrar na “pia” para banharem-se, me trazem de volta ao que é bom. Que criaturinhas espetaculares aquelas! Eu olhava pra eles com certa inveja de uma vida tão simples, pensando na proporção descomunal e tão descompassada entre nossos mundos. Foi um momento precioso e delicado, desses que só a magia das viagens e caras cinco estrelas como François podem nos proporcionar.

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                  Desmontada a mesa, guardada a bagagem no jipe, já era de tarde quando tomamos o rumo do Cânion Sesriem, criado pela erosão do rio Tsauchab. E, depois, para um lugar em que o rio Tsauchaub atravessa a estrada de asfalto – na altura no km 22 – onde a grande Duna 1 nos esperava para uma rápida exploração e uma deliciosa seção de fotos do belíssimo crepúsculo. Ao sabor de vinho rosé.

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(*) Os Bosquímanos, palavra que deriva do inglês bushman, ou “homem do mato”, é um povo ameaçado de extinção. Ao menos cultural. Para os primeiros antropólogos que os estudaram, foram considerados fósseis vivos, elo perdido na evolução da humanidade entre hominídeos e humanos, parecidos fisicamente com pigmeus, tanto na estatura quanto na cor da pele.

(**) Os deuses devem estar loucos Uma garrafa de Coca-Cola jogada de um avião faz os nativos acreditarem que é um presente dos deuses, o que ocasiona uma série de confusões e brigas. Então eles decidem devolvê-la aos deuses, escolhendo um dos nativos para a tarefa.

(***) Land of the Brave! “Namibia, Land of the Brave” é o hino nacional do país, adotado oficialmente em 1991, um ano após sua independência.


Continuamos juntos? Próximo capítulo:

O Cânion Sesriem e o Crepúsculo na Duna 1

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NAMÍBIA – Capítulo 2 – Deadvlei, o charco morto

Orix blog A luz macia do amanhecer e a beleza morta no deserto


                                        O alarme toca antes das cinco da manhã e me levanto surpreso com a disposição. Pouco depois, um funcionário do lodge reforça o despertar batendo à porta. Agradeço e respondo ao seu sonoro Good morning já pensando no café-da-manhã, atendendo à minha faminta circunstância matinal. Caminho, ainda sob o céu escuro, pela longa passarela de madeira em direção à outra extremidade, onde fica o salão de refeições. O desjejum nos esperava meia hora depois das cinco.

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Deadvlei, o charco morto, ainda sem turistas

                          Chego pontualmente e já encontro todos por lá. Aparentemente, com igual disposição, ainda que não houvesse sol, senão estrelas no céu. A animação correspondia à minha, mas não à lógica da hora. Alguns good mornings e bons dias depois, um abraço nos garotos, um aperto de mãos em François, começo a pensar na sorte de integrar aquele grupo. Éramos desconhecidos até dois dias antes, mas bastaram uns sorrisos sincronizados, meia dúzia de atitudes e outra de palavras para horas depois termos boa afinidade e ótima conexão. “Uma sorte!”, penso eu. Um círculo de privilégios, concluo. Afinal, nem sempre é de me esperar que viagens em grupo funcionem com tal perfeição. Também era bom reconhecer a convicção coletiva: “escolhemos a viagem certa”, todos diziam à sua maneira. Era confortável perceber aquele prazer coletivo que impulsionava o meu. Vivíamos mais tempo dentro do jipe do que soltos em nossos lodges. Eram, ainda assim, boas as jornadas. Mal começavam de manhã, já empolgavam. Apesar dos “sacrifícios” – acordar cedo todos os dias, de madrugada em alguns e enfrentar longas jornadas de carro. Cedo já os víamos saciados como inesperadas, boas recompensas. O melhor da viagem, contudo, eu não sabia: os amigos que faria.

                               Se viagens são histórias para contar, penso no privilégio dos garotos Pedro e Gabriel. Que sonhos de viagens teriam? Pergunto a eles. “O que pensam de estarem na África em vez de na “Disney”?  “Para a Disney todo mundo vai, quero ver é virem à África!”. A resposta bastou-me. Sair da zona de conforto da diversão garantida para um lugar como aquele, incomuns para a maioria dos jovens daquela idade, era um risco que bem devem ter calculado seus pais. Penso no que seriam suas boas possibilidades de relatos, na tal soma de aprendizados, experiências e marcas que levariam no retorno à casa. Avanço no tempo e consigo “vê-los” contando aos amigos suas histórias. Depois, volto muitos anos a uma realidade oposta a deles: quando eu tinha sua idade e os tempos eram outros, quando para mim, viajar era possível apenas na imaginação. Eu sabia bem fazê-las, com tal convicção que pareciam reais. Demorei para se tornarem possíveis. Trinta e tantos anos. Mas valeu (ainda que a primeira tenha sido um acampamento), pois foram boas as ambições e as conquistas. Tanto que ainda hoje espero nunca me aposentar dessa vida.

                           Entrego-me à refeição com apetite maior que a possibilidade de me saciar com o que havia. Espartana, tinha o básico, o que era possível àquela hora, preparada gentilmente por alguém da cozinha. Havia pão, manteiga, ovos feitos à minuta e café. Peço um frito. Como com apetite e tomo duas xícaras de café como se fossem as últimas da vida.


Deadvlei ao alvorecer

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Do antigo charco, sobraram troncos e galhos quase petrificados

                           Dentro do jipe, enquanto aguardávamos François abastecer o bagageiro com as coisas do dia, aproveito para ler o Safari journal, caprichosamente impresso, encadernado, personalizado com o nome de cada passageiro, distribuído pela operadora Ultimate Safaris, com o itinerário e breve descrições das atrações de cada dia. Aquele começava com o título “Deadvlei antes do alvorecer”, depois, descrevia o  roteiro com um texto inspirador: “Esta manhã você levanta cedo para uma excursão mágica ao parque. Antes do nascer do sol, para capturar imagens das dunas enquanto a luz da hora é macia e as sombras acentuam formas e curvas imponentes das dunas”.

                            Prova de que até na morte pode haver beleza“Luz macia do amanhecer”, definitivamente era um jeito doce de nos fazer desejar estar tão cedo entre árvores mortas há mais de 600 anos, fotografar troncos e galhos quase petrificados, observar seus contrastes com o solo argiloso branco e craquelado, com as dunas avermelhadas, o céu azul e vestígios de uma planta verdejante que insiste em sobreviver naquela aridez. François entra no carro e Haroldo nos fala das atividades daquela manhã.

Hoje ficaremos no deserto até o pôr do sol, um dos mais bonitos do país. Voltaremos ao lodge um pouco antes do almoço para aproveitarmos a piscina e descansarmos. Quem quiser, terá tempo de dar um cochilo. Depois da visita a Deadvlei comeremos um pequeno almoço ao ar livre, preparado por François, à sombra de uma frondosa acácia.

                       Logo em seguida François nos saúda com um Hakuna Matata! expressivo, simpático e alegre, típico de seu jeito de ser, com o qual já havia nos conquistado. Ajoelhado sobre o assento, olhava para nós calado esperando a resposta do grupo. Ou, quem sabe, aquele fora um teste para checar se estávamos despertos o bastante para compreender a mensagem. Em coro, devolvemos com um hakuuunaaa mataaataaa alongado e cantado que, dali em diante se repetiria por todas as manhãs. Penso na frase, popularizada pelo encantador desenho “O Rei Leão”, da Disney. No idioma swahili, significa “sem problemas”, ou “não se preocupe”, o que embora não me parecesse ter sentido no momento, contudo, era um jeito muito simpático de François nos animar com a expressão africana. Gostamos!

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Safari Mzuri!, completa François, um cara cinco estrelas. Bom safari!, em swahili, ele disse. Esta sim uma expressão tudo a ver com o que esperávamos. Já em marcha, Haroldo completa:

Estamos para realizar uma das experiências mais notáveis de nossa jornada à Namíbia: a visita a Deadvlei e as fotografias do charco morto, que há séculos foi uma bacia de argila branca pantanosa, que em alguns raros dias por ano recebia água do rio, hoje um dos ícones do país, entre as paisagens mais inusitadas e incomuns do planeta. Eu mesmo não me canso de admirá-la, ainda depois de tantas vezes que já estive ali. Não me esqueço da emoção do primeiro encontro com Deadvlei e espero que o mesmo aconteça com vocês, diz Haroldo.

– A área é concorrida, continuou. Então, devemos nos apressar para chegar antes de outros turistas e fotografar sob diferentes incidências de luz, à medida que o Sol avançar, com a paisagem toda nossa. Estamos na baixa temporada, o fluxo de pessoas deve ser reduzido, mas quem chega primeiro percebe o quanto a exclusividade vale o preço de acordar tão cedo.

                             Chegamos nas proximidades do lugar depois de trafegar pela ótima estrada asfaltada do parque. Entrarmos, então, numa trilha de cascalho até chegarmos à areia. François parou o jipe e esvaziou os pneus antes de entrar. É técnica off-road, que aprendi quando praticava o esporte. Conta-se um minuto para cada pneu, a fim de que todos fiquem com a mesma pressão. Bem mais vazios, ficam com maior tração e distribuem melhor o peso do veículo sobre o terreno, reduzindo o afundamento e dificultando o atolamento.

                           Seguimos com o motorista acelerando forte até parar num descampado de areia, onde paramos. Havia apenas nosso jipe. Descemos e já pisamos na areia. Avaliei a dificuldade de ser vencido de carro, possível apenas por veículos com tração nas quatro rodas, caixa de câmbio com marcha reduzida e bloqueio de diferencial. Haroldo comandou a turma, pedindo que acelerássemos os passos e seguíssemos em bom ritmo.

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                    Pela areia, apenas por ela, subimos e descemos pequenas dunas, numa caminhada de cerca de 500 metros que, para mim, aparentava ser mais longa. Não era uma odisseia, longe disso, uma travessia do Sahara, algo assim. Era bem razoável a dificuldade de caminhar na areia fina, mas reduzi meu ritmo e fiquei um pouco para trás do grupo, a fim de recondicionar minha capacidade cardio-respiratória. Eu estava bem, mas percebi a necessidade de retomar as atividades físicas que havia dois ou três anos antes eu deixara. Cheguei ofegante ao ponto onde se vê o charco de cima, todo o conjunto de dunas que o cerca, um entorno absolutamente encantador. Haroldo me espera para dar explicações.

Deadvlei, do inglês dead e do Africâner vlei, – nome que significa algo com “charco morto” – há séculos foi vivo, pois em alguns poucos dias por ano recebia água do rio, na época das chuvas mais fortes, ocasionava cheias que se expandiam até inundar o charco, mantendo vivas árvores frondosas da espécie Acacia erioloba. Devido à interrupção do fluxo de água do rio Tsauchab por uma duna formada com o vento, o charco secou e a pequena floresta morreu. A falta de umidade na terra e no ar era tamanha que os troncos não apodreceram, ao contrário, se conservaram ao ponto da quase petrificação. Vejam. O solo branco e argiloso, composto de sedimentos que o rio trouxe, mas ficava escondido sob a água escura. Hoje não, ele contrasta com as dunas avermelhadas, a maior delas chamada “Big Daddy”, que chega a alcançar 350 metros. 

                       Estávamos, sobre a duna baixa que interrompeu o fluxo de água do rio, a responsável pelo “desastre” natural. Como numa arquibancada, com boa e ampla vista aérea  do charco.  Não havia névoa, devido ao ar tão seco como só nos desertos e em Deadvlei. E mesmo que a luz àquela hora estivesse longe de iluminar com o dramatismo que a gente vê nas fotos, era ela que permitia avaliarmos, ao fim da jornada, a variação de luminância e contrastes que o movimento do sol proporciona ao lugar. Era a segunda razão de começarmos o dia tão cedo, mas só ali compreendemos seu significado e valor. Permanecemos entregues ao prazer da contemplação das curvas sensuais das dunas e das “poses” das árvores secas. A morte, expressa naqueles troncos, e na aspereza do solo, na maciez da areia, era um contraponto à vida das pequenas touceiras verdejantes, que tiram água para a sobrevivência captando a escassa umidade do ar da madrugada. Uma beleza devastadora.

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                        Um grupo de turistas que acabara de chegar, ao contrário de nós que fomos ali primeiro para descer ao charco, optou por escalar a grande duna. Bom para nós, que ainda teríamos o lugar exclusivo, podendo contemplá-lo e fotografá-lo desde o começo da luz até o sol enchê-lo de cima. A subida da “Big Daddy”, imagino, deve gastar horas. Descemos com a primeira luz da manhã realçando a duna menor, exposta ao nascente, começando a mostrar seu brilho. Sua oposta – a “Big Daddy” – defronte a ela, ao contrário, estava obscurecida pela própria sombra. A paisagem começava a tomar as cores da Namíbia – laranjas, cinzas, verdes, azuis e marrons – e os troncos e galhos fossilizados retorcidos, a lembrar esculturas postas ali por algum artista, não uma espetacular obra da natureza.

                     Passamos por François, que sentado na areia, recostado num tronco de acácia caído, fora do charco, nos diz: “Este é meu escritório. Ficarei por aqui esperando vocês. Aproveitem! Mas não toquem em nada, para não afetarem a natureza.”

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François e seu “escritório” em Deadvlei

                      Chego ao chão firme da panela de sal e sinto alívio nas minhas panturrilhas, sofridas com a caminhada na areia fina. Entro e toco levemente no tronco da árvore mais próxima. Não resisto. Deslizo a ponta dos dedos e sinto farpas de madeira. Parecem agulhas. Fotografo a textura do tronco aproximando o zoom. A magia e a personalidade do lugar começavam a mostrar que aquele seria um dos pontos marcantes da viagem. Quero ir além do registro da beleza, mas aproveitar todo o potencial cênico e tentar produzir boas composições. Junto-me a Haroldo e ao grupo, que no centro do charco dava sugestões de enquadramentos.

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– Vejam. Os arbustos verdes contrastam bem com a areia avermelhada. Este é um ótimo ponto para fotografia. Tentem enquadrar colocando pouco chão e céu, aproximando com o zoom o verde do fundo de areia.

                 Faço o sugerido, todavia, não gosto do resultado. Mostro a Haroldo, que recomenda: “Tire o céu e deixe uma pequena faixa de piso branco. O restante, componha com areia e aquele arbusto verde, mas o coloque do lado esquerdo da foto.”

               Com novos ajustes, reenquadramento e orientação, disparo e mostro o resultado a Haroldo.

                         – Perfeito!, diz ele.

                       Percebo intensificar a luz. Ganho confiança e me destaco do grupo buscando outros enquadramentos. A maioria dos galhos começa a deixar de ser silhueta, coadjuvante no cenário, para tornar-se protagonista do charco, ganhando beleza com o sol em direção ao zênite, o popular “sol a pino”.  Fotografamos com calma e sem interferência de outros turistas, recebendo o prêmio por termos chegado tão cedo. Os turistas que madrugaram como nós, para subiram a duna, começavam a descer em direção ao charco. Ao chegarem já havíamos visto e fotografado o bastante, e o lugar – até então só nosso – democraticamente era de todos. O retorno ao jipe foi com a sensação de ter vivido um dos melhores momentos da minha vida de viagens. Resumindo, a experiência e o que eu acabara de ver a muito além dos relatos e fotos de viajantes encantados.

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                   O destino seguinte seria um campo sombreado por camel thorn trees (*) árvores espinhosas da Namíbia, através de uma larga trilha de areia. Lá chegando, caminhamos pelas proximidades entre novos, belos, inspiradores cenários, enquanto François arrumava a mesa para nosso piquenique.

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(*) Vachellia erioloba ou Acacia erioloba, conhecida como espinho de camelo ou espinho de girafa, uma acácia nativa das zonas áridas da África do Sul, Botsuana e Namíbia. (FONTE: Wikipédia)

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

Pic nic sob as espinhosas acácias do deserto

NAMÍBIA – Capítulo 1 – As dunas vermelhas do deserto Namib-Naukluft

Duna 45 (Namib Naukluft Park)
Natureza morta em Sossusvlei, Namib-Naukluft N.P.

Orix blogAs dunas vermelhas do deserto Namib-Naukluft


                     Haroldo fechava as portas do 4×4 e dizia aos participantes: “pronto, agora partimos!”. Então eu apareço, dou uma batidinha na carroceria e pergunto ao amigo, escritor e autor de Luzes da África: “Ainda posso entrar?”. “Sim, claro, temos um último lugar!”, ele responde, o que converteu a grande expectativa num entusiasmo incontrolável. É o que chamo de sorte: era minha a última vaga para o Safari fotográfico na Namíbia, completando, então, o grupo de seis brasileiros (além de Haroldo, e de François, nosso guia-motorista namibiano). Faltava, agora, apenas acertar as coisas. Depois, fazer a mala e pegar a estrada.

                     O roteiro incluía o norte e o sul do país, as sobrenaturais dunas vermelhas de Deadvlei e Sossusvlei – no deserto Namib-Naukluft – as insólitas paisagens da Costa do Esqueleto – no litoral – e o Parque Nacional Etosha, principal atrativo da Namíbia, com sua abundante vida selvagem. O itinerário que Haroldo me enviou estava minuciosamente planejado, tornando o roteiro num enxuto, bem desenhado programa levado a cabo com a ajuda de uma operadora local para a Viajologia Expedições, de Haroldo, que realiza jornadas a destinos exóticos, guiadas por ele para pequenos grupos de brasileiros.

                     Se as viagens já me rondavam desde a infância (ainda que muitas vezes, possíveis apenas na imaginação), só na adolescência me tornei um entusiasta efetivo da fotografia. Revelava e ampliava as minhas em casa, em preto e branco, num laboratório amador que eu e me meu irmão mais velho instalamos no quarto de serviços. Um jurássico ampliador Durst num quarto escuro com luz vermelha, papel fotográfico, bandejas com químicos reveladores e fixadores, varal de secar fotos e tudo mais.

                  Até então, uma viagem à Namíbia não figurava entre as primeiras da minha lista de desejos, mas a propaganda de Haroldo era muito atraente, e circunstâncias pessoais me levaram a consultá-lo. Sua resposta positiva e a necessidade de corrermos para viabilizar na prática a viagem, tornou tudo ainda mais estimulante. Passei a só pensar no país, então inédito para mim, o de número 62 em meu currículo, na grande oportunidade de aprendizado fotográfico, histórico, cultural, geográfico, da vida selvagem e  do meio ambiente daquela região africana.

                 Sobre Haroldo Castro, dizem os que viajaram com ele, “está sempre a sugerir e pronto a ensinar os amantes da fotografia, técnicas e enquadramentos, sem contudo impedir a criatividade de cada um. E que fica feliz quando acertam uma foto”.

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Márcia, Graziela, Pedro, Gabriel, Haroldo, Rogério e eu

                    Nos dias que antecederam nossa partida mergulhei no itinerário e conheci um pouco do país que pertenceu à África do Sul e foi colonizado por alemães, o que explica – além da ótima qualidade da cerveja – o motivo de tudo funcionar como um relógio e ser tão bem cuidado e mantido. A população é composta – além, principalmente, de europeus e sul-africanos – por vários grupos étnicos, entre eles os herero, os himba, os ovambo, os damara. É a segunda menor densidade demográfica do mundo, depois da Mongólia, o que significa trafegar por centenas de quilômetros cruzando com mais animais do que seres humanos. Algumas das cidades não chegam a ter mais que um posto de gasolina, um mercadinho, uma igreja e um punhado de casas.

Dia 2 De Windhoek a Sesriem (Namib Naukluft Park) 21 Fev 69
Asfalto, quando havia, era impecável

                   Continuo a pesquisa de lugares, nome, acidentes geográficos e atrações que conheceríamos, assim como dos lodges e onde comeríamos. Leio o que posso e concluo que a Namíbia era muito mais desconhecida para mim do que de fato eu imaginava. Como pude esperar tanto?

              Sobre o mapa, viajo na imensidão da África subsaariana, uma paisagem de savanas, de rios efêmeros e de inesperadas dunas em tons alaranjados, a maior delas, com 350m de altura, paisagens de um país com 300 dias de sol por ano.

                   Recebo uma nova circular, na qual Haroldo apresentava os participantes, os conectava entre si e recomendava o que levarmos na bagagem. De roupas a objetos pessoais, de equipamentos fotográficos a remédios, tudo mastigadinho e bem detalhado, para que não nos faltasse durante a viagem. Ao final, sugeria: “Levem uma lanterna!”. Me esperavam, ainda, quinze dias para a aventura.


A chegada

                     O piloto anuncia: “Senhores passageiros, são onze horas e em trinta minutos e já iniciamos nosso processo para o pouso no Hosea Kutako International Airport, em Windhoek”. Nosso voo, pela South African Airways vinha da cidade sul-africana, Johannesburgo.

                     Aeroporto é pequeno, desses que a gente desce do avião por uma escada e sai diretamente na pista. Quase já não há desses, então, me senti em terra bem mais cedo do que o costume. O portão de acesso ao terminal é perto, a curta caminhada sob o sol, o que para mim funcionava como impulsionador dos passos, animando a chegada e acelerando a ansiedade. Embora o processo de imigração tenha sido descomplicado, não burocrático, foi um pouco lento. Cerca de meia hora depois de preenchidos os formulários, passamos ao recolhimento da bagagem e, em minutos, éramos recepcionados pela operadora local e conduzidos ao furgão que nos levaria ao hotel.  A pequena capital da Namíbia ficava a longos uns 40 quilômetros e, o hotel, eu sua avenida principal.

                   Uma hora depois do check-in saímos para o pequeno centro comercial adjacente ao hotel, que nos recomendara Haroldo, onde havia uma providencial loja de roupas de safári, uma casa de câmbio para trocarmos dólares americanos por namibianos, indexado ao rand sul-Africano, moeda francamente aceita no país, outra da  MTC, a companhia local de telefonia celular, para comprarmos chips pré-pagos com pacote de dados.  Comemos por ali mesmo, voltamos ao hotel para descansar e dormir cedo, pois haveríamos de acordar cedo para assim começarmos nossa jornada ao sul.  À hora combinada, todos estavam a postos e bem dispostos para o desjejum e para a estrada à cidade de Sesriem, 320 quilômetros depois, com muitas paradas para fotografias. O grupo já estava bem integrado e ninguém se atrasou.

                     O inglês é idioma oficial, mas falado por apenas 1% da população, que tem nos onze dialetos suas formas de se comunicar no país. O ovambo (Oshiwambo) é uma língua nigero-congolesa pertencente à família das línguas bantu, a mais falada no país, isto é, por cerca de 49% da população. O alemão, português, espanhol e o francês também são oficiais, mas para pequenos grupos.


Da capital –  Windhoek – a Sesriem

                    Com a manhã luminosa, nosso primeiro dia de estrada começa cedo. François chega na direção do jipe, para diante da portaria do hotel e com sorriso amplo e simpatia ainda maior, cativa a todos. Educado e gentil, pega nossa bagagem, a coloca no reboque e nos pede para conferir se deixamos algo para trás. Depois, abre as portas de ambos os lados do veículo e nos ajuda a entrar. Senhoras primeiro. Todos estavam sentados quando, com inglês impecável e voz de locutor, ele se apresenta: “Good morning. My name is François Gowaseb. Pleased to meet you!” Continua e diz ter nascido em Windhoek, onde passou a maior parte de sua infância, mas que desenvolveu sua paixão pela natureza  durante suas férias numa fazenda perto de Otjimbingwe. Mais tarde, estudou viagens e turismo no Illiongwe College e, após sua graduação, decidiu se especializar como guia, tendo recebido seu certificado de nível superior, com o qual se qualificou oficialmente como guia nacional da Namíbia.

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François

                Conhecemos também nosso Toyota Landcruiser 4×4. Estalando de novo, cabine estendida, oito lugares (incluindo o motorista), com assentos individuais e janelas para todos, equipado, transformado e adaptado por um fabricante de veículos de safari personalizados na Tanzânia. Tinha ar condicionado, grandes janelas, geladeira, tomadas individuais elétricas e USB, dois tanques de combustível, teto retrátil, sistema de rastreamento por satélite e de comunicação por rádio, reboque para bagagem, compressor para enchimento de pneus e baterias de grande capacidade.

                 Além disso, cada assento havia sido caprichosamente arrumado com um grande mapa, um road atlas, folhetos ilustrativos com os animais e pássaros das regiões que visitaríamos, o Namibian Naturalist’s Guide, um bloco de anotações, o Species checklist – uma lista com os animais – de mamíferos a anfíbios, de répteis a roedores –  que poderíamos ver no país. Lápis para checá-los, o programa e itinerário da viagem e, finalmente, uma garrafa metálica de água, providencialmente personalizada com o nome de cada passageiro, completavam a lista de mimos. Enfim, nosso veículo de safári era confortável e seguro, além de inspirador.

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Fabricado no Japão, personalizado na Tanzânia, rodando na Namíbia

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             Partimos para nosso destino, a cidade de Sesrien, a 320 km da capital, porta de entrada para o Namib Naukluft National Park, onde veríamos (e subiríamos!) nas dunas de Sossusvlei e Deadvlei. Do total, apenas 100 km seriam por rodovias asfaltadas, o restante por estradas de terra e cascalho, todas, devo dizer, em ótimo estado e continuamente mantidas por máquinas e homens.

Anotem nossa quilometragem: partimos com o odômetro marcando 10.339 km, diz Haroldo. Ao final da viagem devemos contar com mais de 2000 percorridos.

               Seguimos através das montanhas de Khomas Hochland, visíveis já a 50 km de Windhoek, um dos trechos mais cênicos, com vistas para uma vasta planície cortada aqui e ali por leitos de rios secos. Depois descemos uma estradas sinuosa serpenteando uma grande escarpa até chegarmos ao deserto – sublime deserto – que nos acompanharia, dali em diante, nos próximos dias, naquele primeiro até ao Sossus Dune Lodge, onde nos hospedaríamos no início da tarde.

Dia 76 Parque Nacional Etosha 25 Fev77
Zebras no caminho

                   Algumas paradas ocasionais para ver e fotografar animais alongam o tempo da viagem, mas é o que faz a jornada ainda mais atraente. Vimos pela primeira vez o belíssimo órix, (Oryx gazella), antílope símbolo do país, também o primeiro mamífero de nossa lista.  Depois, dezenas de springboks – ou cabras-de-leque – graciosas e pequenas gazelas de pelagem castanha e branca, que sempre andam em bandos, saltam e correm com agilidade e graça, do jeitinho como vemos na TV em documentários da NatGeo. Até chegarmos ao lodge, novas paradas ou reduzidas na velocidade para vermos zebras, warthogs (javalis), babuínos, gnus e roedores. Verifico minha lista de animais e atualizo as anotações.

                    No reino dos pássaros, também muita variedade. Os mais curiosos eram os “tecelões sociáveis”, ou Philetairus socius, construtores de complexos e engenhosos ninhos, minuciosamente tecidos com fios de gramíneas secas abundantes na região, em condomínios com outros indivíduos de suas famílias, presos em galhos de árvores ou postes de eletricidade.

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Da capital –  Windhoek – a Sesriem, a caminho do deserto

                    Depois de muita terra e paradas para fotos, chegamos à porteira do parque, onde alguns quilômetros adiante fica o Sossus Dune Lodge.  O sol entrava na tarde, quando chegamos ao hotel dentro dos limites do Parque Namib-Naukluft, o que permite a quem se hospeda passar a noite, observar as beleza do nascer e do pôr do sol, antes da abertura e depois do fechamento do acesso ao parque, limitado entre 8 da manhã e 6 da noite.  Ter as paisagens acessíveis apenas para nós era um auspicioso sinal do que experimentaríamos durante a hospedagem, um privilégio que eu ainda não podia avaliar, no interior de uma das maiores áreas de conservação da África, com 50.000 km² de planícies desérticas abertas, leitos de rio secos e dunas, um conjunto de paisagens exclusivas do país. A vida selvagem inclui órix, gazelas (springbok), zebra, gnus (wildbeast), entre outros, e grande variedade de aves.

Dia 2 De Windhoek a Sesriem (Namib Naukluft Park) 21 Fev 34
Sossus Dune Lodge, o único hotel dentro dos limites do Parque Namib-Naukluft

                    A chegada foi um alívio, apesar de confortável a viagem. Afinal, o hotel era muito convidativo e o almoço, previsto para ser no trajeto, nos aguardava no restaurante do lodge. O programa previa um irrecusável descanso, uso da piscina de água natural sob o céu do deserto e, ao fim da tarde, uma saída para observação de órixes e observação do pôr do sol. Depois do rápido check-in previamente arrumado, todos queríamos conhecer nossas “cabanas” e tomar um banho refrescante.

                   Do hotel não se pode dizer que esteja localizado em qualquer lugar do deserto, senão aninhado aos pés das montanhas pedregosos e baixas do parque nacional. Os 25 bangalôs têm vista para as planícies e dunas circundantes e foram construídos em forma de aldeia, mas com o cuidado de interferirem minimamente  no meio ambiente.  Seu maior benefício, contudo, é permitir aos hóspedes alcancem Sossusvlei antes do nascer do sol e saiam de lá depois do poente.

A hospedagem dentro do parque é uma novidade para os grupos do Viajologia. Com a experiência anterior, percebi que seria um grande diferencial e uma boa experiência, então, pedi à operadora que analisasse a possibilidade. Ter acesso às atrações entre os horários de fechamento e abertura dos portões também será algo novo nas duas noites ficaremos, informou Haroldo.

               As habitações, apesar de rústicas, são extremamente aconchegantes e confortáveis, conectadas por uma longa passarela de  madeira, construída sobre o chão do deserto pedregoso. Três das paredes do chalé são feitas de lona esticada e moldada por ripas de madeira, enquanto a parede restante é composta por esquadrias de madeira e vidro, do chão ao teto, permitindo que o deserto “entre” no ambiente. Decorados com mobiliário de madeira, havia uma grande cama com dossel, cadeiras de repouso, aparadores, mesinhas de cabeceira, boa iluminação, um frigobar e uma deliciosa, ensolarada varanda.

Dia 2 De Windhoek a Sesriem (Namib Naukluft Park) 21 Fev 42
Rústico, confortável, no meio do deserto

                  Tomo um banho quente, muito quente, não porque gosto, mas por não haver outra opção. Eu já havia tido igual experiência em Dubai, num hotel onde não havia água fria durante o dia, pois a tubulação e a caixa d’água se aqueciam tanto durante o dia, ao sol, só esfriando no meio da noite, o único momento em que o banho era temperado. Também ali, a temperatura ambiente despencava à noite, tornando o clima extremamente agradável, como é comum nos desertos.

                   Resolvo voltar e conhecer a piscina, uma instalação rústica que aproveita bem a atmosfera do sopé da montanha rochosa. Revestida com pedra natural e escura, ela parecia um lago natural. A água, proveniente de uma nascente subterrânea, tinha temperatura extremamente agradável e, junto à piscina, completava a rusticidade um alpendre de bambus, sombreando espreguiçadeiras, um lugar muito agradável e convidativo para o relaxamento.

               Encontro Rogério, Graziella – o encantador casal carioca – e seus ainda mais cativantes filhos – Gabriel e Pedro – com quem eu já havia consolidado forte conexão durante a viagem. Mergulho e aproveito com eles a piscina, a magia do lugar e sinto-me agradavelmente envolvido pela natureza. Ainda havia tempo para uma cerveja antes do almoço, que compartilhamos ali mesmo, dentro da piscina. Geladíssima e saborosa. A tarde nos esperava para um passeio pelo deserto e eventuais encontros com órix e fotografias do poente.

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Gnus no lodge

                    A comida era boa. Não tanto quanto o hotel, sua piscina e a vista, mas saciava. Havia opções para o vegetariano – Haroldo – e a vegana do grupo, Márcia. Eu e a família carioca – carnívoros felizes e sem vergonha – comemos frango, a única opção que havia. Retornamos ao chalé e partimos às cinco da tarde para o deserto.


A Duna 45 e o Mar de areia

Namib, na língua nama, significa “lugar grande”, explica François. E Sossusvlei, no dialeto local, derivado o afrikaaner, significa “pântano sem retorno”.

                    – Este é um dos maiores e mais antigos desertos do mundo, completa Haroldo.

                    A descrição é apropriada, mas não é o tamanho do Deserto da Namíbia que me impressiona, senão seu relevo, solo, as dunas de areia sahariana e a estrada de asfalto tão negro e limpo que parece ter sido feita no dia. Impecável, é um risco negro contrastante com a paisagem em tons que vão a do avermelhado ao cinza do arrebatador deserto. Denominado “Mar de Areia”, vai até o mar, na costa árida africana do Atlântico Sul, abrangendo uma área de 3.077.700 hectares. Engloba uma variedade diversificada de grandes dunas que mudam o formato e se deslocam com o vento. As consequências consagram-se num exemplo notável de cenários geomorfológicos e ecológicos evolutivos, cujo vento interage com a geologia e a biologia, proporcionando além de beleza natural, condições atmosféricas que favorecem uma visibilidade excepcional de um bioma sem similar no mundo, listado na UNESCO.

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Subindo a Duna 45

Grande parte do deserto é protegida pelo Parque Nacional Namib-Naukluft. Algumas áreas são inacessíveis e outras podem ser visitadas, incluindo o Canyon de Sesriem e Deadvlei, que veremos amanhã antes do sol nascer, informa Haroldo.

                    A luz da tarde começava a incidir de tal modo que tornava a paisagem ainda mais quente, ressaltando o alaranjado queimado da duna, coloração natural decorrente da grande porcentagem de ferro oxidado que compõe sua areia. O jipe saiu do asfalto e entrou na areia, o que embora não chegasse a ser um off-road pleno, dava uma amostra do que teríamos no dia seguinte. Paramos na Duna 45, que está a 45 km de Sesriem e a 15 km do final da estrada de asfalto, algo como a uns 19 km de Sossusvlei. Não era uma duna qualquer, senão uma mais belas do país.

                    Minha primeira impressão foi a de que não conseguiria subir ao topo da duna, mas tenho algum tempo para me preocupar com o preparo físico: Haroldo nos leva para um lugar onde o cenário era apropriado para uma curta aula de fotografia em campo. Aos pés da duna, árvores secas contrastavam com o céu e a areia, e nos sugeriam diferentes opções de enquadramento.

Este é um cenário semelhante ao que veremos amanhã antes do nascer do sol em Deadvlei. E aqui poderemos treinar algumas tomadas, diz Haroldo.

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                Cada um faz suas fotos e mostra o resultado para o mestre, recebe novas dicas de enquadramento e volta a campo. Resolvo me concentrar nos detalhes, nas texturas, aproximando o zoom das superfícies das árvores e do solo, vendo pedras fotogênicas e curiosas, sobre a areia do deserto, seixos rolados que um dia estiveram sob a água de um rio, sabe-se lá há quantos séculos.

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                    Caminho em direção à base da duna e olho para o topo. “Vai ser uma parada dura”, penso.  Começo a escalar devagar. Dois passos à frente, três para trás. Passam por mim, correndo, Gabriel e Pedro. Invejo sua rapidez e disposição, mas continuo no meu ritmo. Paro para fotografar e todos passam por mim. Vejo duas chinesas descendo e, quando cruzo com elas, pergunto ofegante: “Vale a pena o topo?”. Não entendo o que respondem e, creio, também não o que perguntei. Subo mais um pouco, no mesmo ritmo, dois pra lá, três pra cá. Não estou cansado e mas não pretendo ficar. Sento na quina da duna e sinto que há mais grãos de areia em meu tênis do que na duna. Esvazio o calçado e me concentro na vista aérea daquela ângulo da duna, encantado com a luz, as sombras, cores e contrastes. Tudo é tão belo, apesar de deserto, que me pergunto “Como desertos tão áridos podem ser tão bonitos?”.

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                         Ainda que a tarde estivesse ensolarada, não fazia calor, soprava uma brisa agradável que eu sentia beliscar com grãos de areia nas panturrilhas. Resolvo subir a duna preocupado com a proteção da câmera. Aproveito para olhar cuidadosamente a paisagem e observo, já a meio caminho, Haroldo subindo. François arrumava uma mesa junto ao jipe. Consegui ver taças de vinho sendo preparadas e um prato com petiscos.  Satisfeito com os 70% da altura total da duna, onde cheguei, resolvi sentar e apreciar a vista da Duna 45.

                       Inicio a descida e ao chegar ao jipe continuo a caminhada até a estrada de asfalto. Havia dois precários banheiros de madeira usado pelos operários que trabalham na manutenção da estrada. Dali observo que o grupo descia a duna em direção ao jipe, liderados pelos garotos. Em baixo, nos esperava o brinde ao primeiro dia da viagem.

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                      François nos convida formalmente ao brinde enchendo nossas taças. Espera que todos as levantemos e discursa, dando boas-vindas ao grupo e dizendo que estava feliz por renovar seu prazer de dirigir mais um grupo de brasileiros guiados por Haroldo.

Okuhepa ngandi!, diz ele em herero, a lingua bantu, uma das faladas na Namíbia. Assim brindamos, bebemos, comemos frutas secas e castanhas, além de fatias finas de carne seca.

                      Um estorninho pousa no estepe do jipe e olha para nós. Parece esperar que o alimentemos. François percebe meu entusiasmo e diz:

– Este é um pale-winged starlings (estorninho de asas pálidas). Normalmente vivem nas colinas rochosas ou nos vales, mas as cidades os tem atraído, principalmente para procurarem por comida.

                      Agradeço e fotografo o simpático passarinho enquanto Rogério o alimenta com migalhas de biscoito salgado.

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                      Entramos no Toyota e seguimos para dunas próximas, em direção ao lodge, lugar onde ficaríamos até o por do sol. François estaciona o jipe e cada um toma direção diferente. Entro nos caminhos entre as pequenas dunas e exploro o terreno sozinho,  com vegetação rasteira, onde, segundo consta, é comum haver órix pastanto. O belíssimo animal com manchas brancas e pretas, tem na cabeça chifres imensos e esguios que chegam a 1,3 metro de comprimento. São verdadeiras lanças perfurantes, usadas para defesa e ataque. Penso que deva ser um animal perigoso, que pode matar um homem com facilidade. Todavia, os que encontrei pareciam ter mais medo de nós que o contrário.

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O órix e eu: olhares desconfiados

               Caminho  entre as pequenas dunas labirínticas, me distancio do grupo pensando em  ir ao “banheiro”. Me deparo com um órix pastando e sinto um arrepio, não sei se de medo ou emoção. Permaneço parado olhando fixamente para o animal. Ele faz o mesmo comigo, provavelmente estudando as possibilidades de ser atacado. Quando abaixa a cabeça e volta a comer, disparo repetidamente a câmera e o ruído o incomoda. Resolve partir e rapidamente some atrás das dunas. Saio feliz com o encontro, por ter chegado tão perto daquele belo animal. Começo a voltar ao jipe já quase me esquecendo do que havia ido ali fazer.

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Esperando o poente

Olhar o céu e dormir ouvindo estrelas

                   Retornamos ao Sossus Dune Lodge e jantamos ao ar livre. O céu era claro, mas não um céu comum. Africano, sem nuvens e incrivelmente limpo, luminoso e estrelado. Desses de ver galáxias, com um silêncio ensurdecedor, de “ouvir” estrelas. Cansado, mas feliz com o primeiro surpreendente dia  de viagem, me despeço dos companheiros de jornada e brindo com eles o dia, dando o último gole no delicioso vinho sul africano escolhido por Rogério. Sigo pela passarela até meu chalé, usando pela primeira vez a pequena lanterna que Haroldo sugeriu trazermos. Sua luz parecia mais potente do que aparentava ser, tudo devido à plena escuridão, algo que já não via há anos, me recordando apenas de ter visto algo igual no deserto Atacama, no Chile, anos antes. Caminho ouvindo meus passos, o ranger do piso de madeira e minha respiração. Uma brisa agradável soprava mas, confesso, ter chegado ao chalé 4 foi um alívio, devido à apreensão com o risco de encontrar animais, predadores, chacais e afins.

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                  Entro e vou direto à varanda. Colado na parte interior da porta, presto atenção a um aviso: “ATENÇÃO! Não alimente os babuínos, eles são muito perigosos! Mantenha suas portas e janelas fechadas todo o tempo em que estiver fora!” Sento-me numa das cadeiras e tomo uma garrafa de água mineral pelo gargalo enquanto olho o deserto e o céu.  O ar tinha um frescor e cheiro agradáveis. No firmamento, vejo um céu infinito e a Via Láctea. Percebo minha insignificância, mesmo que diante daquele mínimo pedaço do Universo que eu observava. Vejo uma estrela cadente e penso que presenciar meteoros ardendo em fogo durante sua entrada na atmosfera, deixando o rastro fugaz e lindo que eu pensava existir apenas no cinema.

                  Se até então – apesar de tão pouco percorrido – a Namíbia já me parecera um dos países mais fotogênicos da África, apesar das expectativas não terem sido as melhores antes da partida, eu estava marcado por cenários tão deslumbrantes quanto inesperados e diversos. E naquela varanda, a paisagem absurdamente encantadora, me fazia reconhecer a magia das viagens, o que elas podem proporcionar, os privilégio que nos reservam. Eu queria aproveitar cada minuto como se fosse o último, mas o sono e o cansaço já se anunciavam. Retorno ao interior do chalé e arrumo as roupas para o dia seguinte, enquanto deixo transferindo as fotos para o notebook, carregando as baterias da câmera, antes de me deitar. Tento uma conexão, mas não consigo. Escrevo uma mensagem para a família, um resumo do dia no Whatsapp, mas nem uma foto consigo enviar.

Orix blog


Continuamos juntos? Próximo capítulo:

Deadvlei.  Sob a luz macia do amanhecer, a beleza morta no deserto