VIAJAR, essa impermanência

FALTAM tantos posts sobre a Índia, e mais ainda sobre Istambul, Capadócia, Geórgia e Armênia, mas já estou aqui de novo, feliz nesta minha impermanência de viajar e escrever sobre viagens.

Há viajantes que afirmam “Sou feliz porque viajo”. Não posso mesmo discordar, porque para mim as viagens são muito excitantes, encantadoras e renovadoras. E para alguns, até autorrealizadoras. Contudo, não creio na equação simples acerca do que seja a “felicidade”, e embora não trate como uma afirmação falsa, discordo do significado absoluto, grandioso, raro, especial, quase exclusivo que muitos atribuem às viagens. Menos ainda que elas tenham o caráter mais humano que lhes concedem alguns, uma prerrogativa que a mim parece desmerecer outros meios para o encontro com a felicidade. A afirmação não chega ao esnobismo clássico de viajantes afetados, que distinguem e classificam de maneira rasa “viajantes” e os “turistas”. Quem assim age, refletidamente ou não, pode sugerir um sentimento de superioridade. E ninguém neste particular – e certamente não eu – deve pensar que todas as pessoas tenham as mesmas perspectivas da vida e sobre a felicidade, o que significaria viver um papel ilusório da realidade tão heterogênea da humanidade.

Há discussões de elevada reputação e inquestionável conteúdo técnico acerca do que seja a felicidade e também de como encontrá-la. Para Aristóteles, por exemplo, ela está no caminho do bem. Por outro lado, há quem acredite que resulta do somatório de outras inúmeras atitudes e circunstâncias. Bingo! O médico Carlos José de Andrade, oncologista do INCA (Instituto Nacional do Câncer), mestre em gestão de tecnologias em saúde, encontra evidências no fato de que a felicidade é um fator decorrente da manutenção da saúde e da prevenção de doenças, baseando-se no conceito de que “A principal missão de vida é ser feliz”. Bingo! outra vez. E se cada um de nós compreender que todos somos agraciados com o mesmo conjunto de “forças” internas que nos permite encontrar a felicidade, não temos por que não desenvolvê-las e partirmos em sua busca.

William Shakespeare dizia que os pequenos acontecimentos diários são o que tornam a vida espetacular. Nesses pequenos acontecimentos na vida do escritor e poeta inglês, concluo que era a maneira como ele encontrava a felicidade. Já os budistas não posso crer que errem quando afirmam que a “felicidade é a busca do desapego” e usam a meditação para alcançá-la, o que, de fato, faz bem a qualquer um, mesmo que não para o seu encontro, embora arrisquem-se, assim, a esbarrarem nela. Mas, e aqueles que são mais felizes comprando algo em vez de viajando? Devem ser simplesmente desqualificados? Não parece difícil compreender sua alegria genuína, até porque eu mesmo não creio em apenas um único meio de ser feliz, coisa que mesmo “especialistas” discordam. Para os consumistas, por exemplo, as viagens são eventos de emoções fugazes, enquanto os da posse, são perenes. Neste particular – ter ou ser, viajar ou comprar -, uma entre as melhores definições do que penso a respeito é “Ser feliz é exatamente achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter”, segundo Stephen Kanitz. Tenho a convicção de que não quero mais querer algo além do que já tenho, porque o que já possuo é mais do que preciso, embora menos do que mereça.

Dos autores de livros de autoajuda também não tenho do que divergir. Pregam eles que “ser feliz é estar bem consigo mesmo”. A verdade é que agora que me sento para escrever, reflito – sem espanto ou estranheza – que o encanto de viajar, e de ser feliz, depende muito mais do estado de espírito e da personalidade do viajante do que do destino em si, tampouco do ato de deslocar-se. E assim como há tantos meios de se encontrar a felicidade, às vezes é preciso conquistá-la, mesmo já tendo se deparado com ela. Para muitos, é uma fina camada de poeira num lugar onde repousa, para outros, algo escondido num poço profundo de um lugar perdido. Encontra-se ou não. E assim como ela não passa na porta da gente todo dia (e quando o faz, é discreta, silenciosa), as vicissitudes e os mal-feitos de nossa existência, ao contrário, passam defronte de nós com barulho e chamando a atenção.

Viajar, escrever e refletir sobre minhas viagens e acerca do que elas me proporcionam, não me autoriza pensar que viajar seja melhor que qualquer outro meio de ser feliz, sobretudo porque conheço um monte de gente que arrepia só de pensar em viajar e não me parecem infelizes. Não cometo a irresponsabilidade de definir o tema com alegações simplistas, porque ele é aberto às interpretações e muito vulnerável a críticas, embora seja delicioso para os viajantes explicarem como as viagens influenciam suas vidas, sobretudo para aqueles que as compartilham em relatos num blog ou em livros. Viajar é bom, e por muitos motivos, nem que seja para descobrir que voltar para a vida cotidiana é melhor do que ter partido para a jornada. Então, se me fosse possível escolher a melhor definição, seria: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”.[1]

Viajar para comer, amar, explorar e voltar pra casa

Viajar é bom. Para conhecer de tudo o que há na Terra um pouco, também para crescer, recolocar a mente onde se deseja, aprender e compartilhar. A novos lugares ou sempre aos mesmos, para viver dos episódios mais banais aos que deixam marcas, sendo um globetrotter ou estreante, no Inverno ou no Verão, simples passeio nas proximidades de casa ou volta ao mundo, por lugares remotos ou entre os mais lotados de turistas, nos sentirmos descobridores como Colombo ou turistas acidentais sem propósito de “exploração”.

Alguns chamam “inquietude” o que acomete aos viajantes e exemplificam com aqueles que mal refeitos de uma viagem vêm-se planejando a próxima. Segundo o psicólogo Carl Jung, é o que “indica insatisfação que leva à busca e descoberta de novos horizontes”. Ou, então, uma “fuga de si mesmo”. De ambas as definições discordo, e vivamente. Não porque eu seja versado no assunto, mas porque enquanto não estou a viajar, vivo igual satisfação e me parece assustador pensar numa viagem da qual jamais voltarei. Meu destino predileto? Minha casa. E embora as viagens me façam muito feliz, não é quando estou a deambular o mundo, senão em casa, onde levo uma vida “normal” (ainda que muitas vezes preparando uma nova viagem), que me sinto melhor e plenamente realizado, porque adoro sentir a distância e o desabrigo, para quando voltar, estar bem sob meu próprio teto.[2] A impermanência dura apenas enquanto viajo, e seus valores e significados tornam-se maiores quando retorno.

“Viajar? Para viajar basta existir”, disse o poeta[3]. Então, se é fácil e não requer prática e habilidade, se para sairmos de casa precisamos só do desejo e de disposição, contudo, para viajar com “arte” – olhando para o destino com a vista desembaçada, a mente aberta – necessitamos de aprendizado e dedicação. 

Viajar, contudo, para concluir, tem sido natural aos humanos desde o Neandertal, porque o homem se desloca por natureza, é um homo viator[4]. E a humanidade já viajava na Odisseia, de Homero, nas Histórias de Heródoto, da Antiguidade até inícios do século XIX -, quando eram motivadas por fins práticos, comerciais ou promovidas pelo Estado, desde o século XVI, com as explorações geográficas e as expedições coloniais que as seguiram, a despeito de que ali não se viajava por turismo. De missões diplomáticas e religiosas às conquistas de territórios, desde a Antiga Pérsia do rei Dario às religiosas das Cruzadas, das de Édipo até a Delfos – para consultar o oráculo – às caravanas comerciais relatadas no Livro das Maravilhas, de Marco Polo, das descobertas de caminhos marítimos até às de desafios levados a cabo por conquistadores de montanhas, desbravadores de florestas, de povos indígenas – como a Marcha para o Oeste, do Marechal Rondon -, dos aventureiros como Hans Staden aos eruditos como Michel de Montaigne, enfim, muito já se viajava, embora a atividade tenha se tornado turística apenas no fim do século XVIII, com a invenção dos navios a vapor, das estradas de ferro e das hospedagens, quando tudo era “exótico” e remoto para além das próprias cidades. Foi, então, que olhares romântico-comerciais passaram para os viajantes a ideia de que viajar era uma “aventura” para “exploradores”.  Mas… e escrever sobre viagens?

Escrever para entreter, não impressionar

À parte as complexidades dos temas sobre o porquê viajamos e acerca da felicidade, descrever viagens é um dos lados menos comuns aos viajantes. Felizes ou infelizes. Em todos os demais pormenores, quase sempre há coincidências e, aqui deste meu lado, o desejo de contá-las é espontâneo, tanto maior quanto menos explorado, mais diferente o lugar que descrevo, o que se constitui um grande impulsionador da criatividade agindo como motivação. Escrever parece ter nascido comigo, o que percebi desde que me senti dominado pelas palavras. Faz muito tempo que não escrevo naquele caderno velho de papel, onde anotava minhas coisas, mas a era digital só veio a incentivar e fortalecer o gosto. A cada nova viagem ele se manifesta e me domina, de tal modo que assim que começo a escrever uma introdução a qualquer relato de uma viagem, embora não termine ali, os pensamentos fervilham enquanto as letras vão se combinando na mente e depois no teclado. É tão grande o prazer quanto o dessabor da ausência das palavras. É coisa maior que o prazer de apontar minha Nikon para fotografar, e talvez seja assim porque escrevo com emoção, como num ato de reconhecimento pelo que “recebi” da viagem.

Se viajar é uma característica humana desde o Neandertal, como gênero literário é bem mais tardio, embora uma de suas mais eloquentes manifestações. De Heródoto, Homero, Virgílio e Ibn Battuta a Julio Verne e Paul Theroux. E apesar de que contar histórias seja arte que eu já domine, é nestes que me inspiro. E no começo, num breve texto como este, com o qual apresento uma viagem aos leitores, quando sinto os maiores arrepios. Embora escrever ficção deva ser muito mais difícil do que contos de viagens, há autores tão excepcionais que os fazem parecer fantasias, romances, poesia. E talvez por isso apenas autores excepcionais tornem-se populares.  

Descrever jornadas também tem suas dificuldades, porque embora trate-se de relatos de coisas vistas, não imaginadas, os clichês são armadilhas, o cunho comercial uma tolice e a superficialidade o túmulo da credibilidade. Ao contrário, para transmitir seu, fascínio ou não, por um lugar, por um país, as sensações com as descobertas, com um povo, um encontro, a cultura ou a culinária, é preciso personalidade, imparcialidade, autonomia e credibilidade. E para além disso, um bom estado da mente, a sensibilidade aguçada, fazer escavações em si mesmo, arrancar angústias, prazeres, tensões, decepções, felicidades e amarguras vividas numa jornada, e então tocar o leitor, trazer a ele a sensação de estar lá, sentir como sua a descrição da poeira, do brilho, do frio e calor. Só os bons conseguem mostrar os detalhes melhor que o conjunto, como o toque de uma brisa e o cheiro que ela traz, o que não é coisa banal e nem há muitos assim. Incomuns são os que conseguem tornar o leitor um acompanhante do escritor na jornada, mais ainda torná-lo, sem que perceba, personagem de um romance, qualidade tão excepcional e rara que se reflete com brilho na escrita.

Não sei ao certo, mas penso ter sido de Manuel Bandeira o meu gosto por escrever, depois da leitura. Todo texto meu escrevo como se fosse transformar em livro, numa narrativa refinada de viagens com reflexões bem-humoradas, mas também momentos de introspecção e extroversão, movido pela experiência e pela satisfação da jornada. Desde moleque eu me sentia destinado a tornar-me um escritor, embora um viajante eu nem desconfiasse. Tanto tempo depois, dou o braço a torcer, viajo bem melhor do que escrevo, e de mim não sairão grandes obras. Sobra-me, então, o prazer de compartilhar aqui neste blog a tentativa de inspirar o leitor, um desejo escondido de que alguma coisa especial eu lhe transmita, que embora eu muitas vezes não o conheça, rogo que lhe aconteça.

Escrever um relato ou uma crônica de viagem não deve ser produzir um folheto turístico, anúncio de hotel, resenha de companhia aérea, senão uma provocação, convocação, algo tão bem escrito que não use adjetivos previsíveis, exclamações abundantes, lugares comuns como “charmosos” e “mágicos” e nem feito para destacar aquele quarto ou piscina cinco estrelas porque hospedou-se ali de graça. Relato de viagem é outra coisa. E embora possa conter referências e resenhas de hotéis, de restaurantes e tudo mais, deve aprofundar-se mesmo é no destino, não no autor, e no conteúdo, orientando, indicando, incentivando, cativando, motivando e inspirando o leitor sem, contudo, guiá-lo.

Então, sempre e para sempre, estaremos juntos, eu, viajar e escrever.  Histórias de viagem ao Egito e ao Marrocos já foram contadas muitas vezes, mas em breve aqui, teremos mais uma, a minha versão. O destino virá e minha história ficará. Boa viagem!

Em breve: A próxima viagem: Egito e Marrocos


[1] Carlos Drummond de Andrade

[2] Amyr Klink

[3] Fernando Pessoa

[4] Homo viator, expressão latina para “homem viajante”, definição que condensa a “insatisfação” intrínseca ao ser humano, que o faz deambular em busca do novo.

TURQUIA – Palácio Topkapi, Istambul

O Mar de Mármara se transforma no Chifre de Ouro ao redor da península do Seraglio, onde sobre um promontório que domina a paisagem fica o complexo Topkapi. Ao seu redor, os belos jardins floridos e bem sombreados do Parque Gülhane e, abaixo, já ao nível do mar, os restos da muralha que protegia a cidade no império bizantino. O nome me traz à lembrança a ópera de Mozart – O Rapto do Serralho – desenvolvida a partir de um libreto numa época em que a Turquia setecentista exercia enorme fascínio cultural no velho mundo. Embora já não tanto, ainda mexe com o imaginário coletivo desde a sua estreia em Viena, em Julho de 1782. Mas este orientalismo exótico influiu de tal maneira que mudou a cabeça de escritores, pintores e compositores. A novela na qual baseou-se Wolfgang, conta a história de Konstanze, capturada e levada à Turquia, depois vendida como escrava ao sultão Selim, que mais tarde por ela se apaixonou.

Tem um sabor especial saber que meu compositor clássico predileto inspirou-se aqui, nesse lugar entre os mais destacados da “minha” cidade, Istambul, e saber que o palácio teve grande influência no sentimento romântico do compositor. O mesmo Mozart, antes do “Rapto”, compusera uma opereta inacabada, cuja heroína chama-se Zaïde, nome de uma escrava cristã do harém do sultão Solimão, de onde foge com o seu amante Gomatz, com a cumplicidade de Allazim, para depois serem capturados por Osmin, chefe da guarda do sultão, personagem que aparecerá mais tarde no “Rapto”.

No mesmo cenário romântico representado na magnifica ópera, assim como na opereta não concluída, ocorreu uma outra paixão, contudo real e histórica, entre Roxelana e o sultão Suleiman. Hürrem foi o nome recebido por Alexandra Anastasia Lisóvska quando foi capturada. Nascida onde hoje é a Ucrânia, filha de um padre da igreja cristã ortodoxa, foi vendida como escrava para o palácio do sultão. Hürrem ficou conhecida como Roxelana, casou-se com o sultão, tal qual Konstanze com Selim, e passou a viver nos aposentos reais, tornando-se figura central na vida política do império e acumulando poder. Deu seis filhos ao sultão.

Neste lugar tão carregado de história, fica o Topkapi, Um palácio de extensão prodigiosa, muito irregular, jardins como uma grande bússola cheia de ciprestes altos, prédios de pedra branca encimados por torres e espirais douradas que parecem magníficos. De fato, acredito não haver palácio de um rei cristão tão grande quanto este, segundo o descreveu Lady Mary Wortley Montagu, aristocrata, escritora, poeta e feminista inglesa, em suas“Cartas da Turquia”, sobre o Oriente Muçulmano. Extravagante já era nos tempos otomanos, contudo, sem qualquer relação arquitetônica e estilística com os palácios europeus.

Constantinopla. Se nos lembrarmos de que a divisão histórica entre a Idade Média e a Idade Moderna foi marcada pelo avanço do Império Otomano com a conquista da capital do antigo Império Romano do Oriente, a visita ao Topkapi toma nova dimensão. Para nós, brasileiros, ainda mais, porque o Brasil ainda sequer havia sido descoberto quando o sultão Mehmet II fez sua entrada triunfal na cidade, no final da tarde do dia em que o capturou, uma terça-feira, 29 de maio de 1453, passando pelo Portão de Adrianópolis, agora conhecido como Edirne Kapi, sendo então aclamado por suas tropas de oitenta mil homens. A partir dali, Mehmet II passou a ser chamado de Fatih, ou Conquistador, nome do bairro mais repleto de monumentos otomanos da cidade e de boa parte de sua herança cultural.

Durante séculos o mundo ocidental fascinou-se por seu exotismo, pelas maravilhas e mistérios do Império Otomano, por seus sultões que governaram os vastos domínios do império desde aqui, o Palácio de Topkapi. Mehmed II começou a construí-lo no local de uma antiga acrópole bizantina, em 1459, após a conquista. A dinastia otomana floresceu – governando a Turquia moderna, os Bálcãs e a maior parte do norte da África e Oriente Médio. A “culpa” do nome do palácio é do famoso punhal com uma esmeralda cercada de diamantes, encravada no cabo, cujo tamanho é descomunal, mas a lapidação, decepcionante. O que fariam hoje, com uma pedra daquele quilate, os lapidadores com suas técnicas e ferramentas modernas? Por ali, uma miríade de tesouros que inclui espadas, adagas, roupas reais, tapetes, tecidos, cerâmicas, manuscritos, joias, armaduras, pinturas e outros tantos de arte finamente trabalhada, além do trono de Suleyman, o Magnífico, e mais cerca de 200 outros itens que mostram o significado, a arte, o poder e a importância do palácio e do Império Otomano.

Conhecido como o “Novo Palácio” até o século 19, não é um exemplo tradicional palaciano de estilo europeu, mas um complexo de prédios, pavilhões baixos, quiosques e pátios, além do harém. Uma cidadela que, assim que se cruza seu portão de acesso, um mundo exótico de história de sultões, odaliscas e eunucos se abre, um manancial de paisagens para fotógrafos e observadores se revela, inspirações para criadores de contos se instalam nas mentes brilhantes ou não. Mesmo com a multidão de turistas, viaja-se no tempo, tanto melhor e mais rapidamente quanto maior a abstração do olhador. Só não é possível sentir os odores do passado, mas lembrarmos deles, perfumes e fragrâncias que ali eram usados, porque para o islã, o perfume tem grande importância e na sociedade otomana não era exceção, tanto que no museu do palácio expõe-se uma coleção de queimadores de incenso. De resto, todos os sentidos vão-se estimulando à medida que se caminha por ali.

Há três portas: Imperial, da Saudação e da Felicidade. Entramos pela Bâb-ı Humayun[1], ou Porta Imperial, entrada principal do lado da Hagia Sophia quando se faz a caminhada por trás do templo, desde o Hipódromo, pela Soğukçeşme Sokağı, a Rua da Fonte Fria. Saindo dela, chega-se ao largo onde domina a Fonte de Ahmet III,arquitetonicamente uma estrutura em estilo rococó turco, de 1728 – quando caracterizavam-se pela predominância de linhas circulares, ondulantes e curvas – no estilo do período tulipa, assim chamado ao emprego profuso da flor nacional nas ornamentações.

Depois de caminhar pelo primeiro pátio, chega-se ao Portão Ortakapi, ou Portão das Saudações, ou, ainda, Bab-üs Selam, de arquitetura militar, com duas grandes torres defensivas octogonais que também serviam de prisão, além de ameias e seteiras, que liga ao segundo pátio – Divan Meydani – também bastante arborizado com árvores centenárias. Construído pelo Sultão Süleiman, o Magnífico, em 1524, também é ornamentado com sua tugra[2] e uma placa com caligrafia árabe, cuja inscrição diz “Só existe um Deus e seu Profeta é Maomé”.

Topkapi é um grande complexo em duas partes, uma cidade dentro de outra: a primeira, o Enderun, lugar onde viviam o sultão e a nobreza; a outra, o Birun, onde residiam os empregados. Situado entre parques e jardins agradáveis, sombreados e bem cuidados, construído quando Constantinopla tornou-se otomana e o sultão Mehmed II, ou Maomé II, passou a chamá-la Istambul e ali instalou seu exército. Logo começaram as construções de monumentos na cidade, como o Grande Bazar e o Palácio Topkapi – no qual vários sultões otomanos viveram entre os séculos 15 e 19 – além da primeira mesquita imperial de otomana, a Mesquita de Fatih.

Logo à esquerda, já cruzado o portão, há um bonito alpendre oriental com lojas de lembranças turísticas de Istambul e do palácio. A seguir, a Cozinha do Palácio, minha parte preferida do complexo, à direita do segundo pátio. A falta de interesse pela cozinha monumental, todavia, faz boa parte dos visitantes que pouco ou nada perderam, embora os 20 fornos e tudo mais sejam um ponto a não perdes, maravilha arquitetônica com respeitável coleção de cerâmicas de Iznik, da Pérsica, da China e do Japão, a terceira maior do mundo, com cerca de 12 mil peças, entre elas algumas chinesas da época da Rota da Seda.

No espaço a ficava a despensa, trabalhavam 1200 pessoas, dormiam os empregados, frequentavam uma mesquita exclusiva e tinham seus próprios banhos. Segundo a história, eram preparadas cerca de 20 mil refeições por dia. Até uma confeitaria exclusiva, a helvahane, onde hoje guardam-se e expõem-se os utensílios usados na época, onde seus especialistas aprimoravam todos os dias as receitas novas e antigas para torná-las perfeitas para a corte e os janízaros, a elite do exército dos sultões otomanos, força, criada pelo sultão Murade I, constituída por crianças cristãs capturadas em batalha e levadas como escravas para serem convertidas ao Islã. Deve-se ao esplendor do palácio e sem harém o pouco caso que se dá à cozinha. Por certo ali, naquela cozinha, desenvolveram-se grandes receitas da comida otomana, embora hoje, na cidade, moderninhos restaurantes “gourmet” exagerem nas receitas influências estrangeiras, notadamente indianas, mexicanas, chinesas, tailandesas e mediterrâneas, em fusões preparadas e inventadas em restaurantes trendy ou, segundo tradução literal, famosinhos, nos quais não se servem sequer um simples Börek. Mas há dos chefs que mantiveram-se longe da sedução da nova cozinha e da fama, que embora perfeitos, dizem os espertos, não têm pretensões glamurosas. Mas deixemos por aqui as considerações gastronômicas, porque estamos a falar de Topkapi, não da comida turca, que mereceria o maior e mais saboroso capítulo desta série.

Muros, pátios, jardins, pavilhões, banhos turcos, harém, tesouros, cozinha e alojamentos militares, abrigavam escravos, opulência, intrigas, traições, comemorações de vitórias, banquetes extravagantes e o harém, cujos cômodos têm tetos e paredes ornados por belos azulejos de Iznik. E ali, o Pátio dos Eunucos Negros. Entre os lugares a não se deixar de ver, estão o Quiosque do Sultão Ahmet, o Pátio das Concubinas,o dos Consortes do Sultão,a Câmara Privada de Murat III e o Apartamento do príncipe herdeiro,os Pavilhões Gêmeos, o Salão Imperial, a Sala de Jantar de Ahmet III, a Biblioteca de Ahmet III, o Pavilhão Iftariye, o Pavilhão Bagdá, o Trono de Nadir Shah, o Salão de Audiências, a Fonte Ahmet III, a Igreja de Hagia lrene, o Pavilhão da Circuncisão, o Jardim das Tulipas, o Divan-I Hümayun e o Tesouro – onde se guardam as joias – especialmente a famosa adaga Topkapi, cravejada com pedras preciosas e um gigantesco diamante de 86 quilates, o Diamante Kaşıkçı, roupas reais e relíquias como fios da barba do profeta Maomé, entre outros.  

O harém mais famoso do mundo

Harém, segundo dicionários, significa o conjunto de aposentos pecaminosos independentes, no palácio de um sultão muçulmano, destinado à habitação de um grupo de mulheres constituído por concubinas, parentes femininas, criadas e, eventualmente, esposas. Naquela época, as mulheres do harém eram “importadas” dos cantos mais remotos do planeta, algumas capturados por piratas turcos, um flagelo dos mares Egeu, Jônico e Adriático. O lugar era bem protegido, sagrado e proibido aos homens, exceto filhos das concubinas e ao sultão. Os que se permitem ali para trabalharem são castrados, tornam-se eunucos. É, talvez, o maior exemplo de dominação masculina revestido de orientalismo que tanto alimentou o imaginário coletivo ocidental, impulsionando fantasias de mulheres luxuriantes, odaliscas sensuais em roupas de sedas transparentes, da luxúria de moças banhando-se nuas em piscinas coletivas enquanto outras dançavam à espera do chamado do sultão. Junto com elas, como chefe do harém – ou valide – vivia ninguém menos que a sogra, mãe do marido coletivo. Segundo o Corão, cada homem pode ter até quatro mulheres, mas as elites tinham número bem maior.

Na mentalidade no serralho, compartilhar a cama do sultão era visto como grande honra e privilégio, por isso, o harém era um lugar de ciúme, tramas e conspirações. Havia hierarquia entre as mulheres no harém. A coisa era organizada. Primeiro, a valide, logo baixo as kadin – quatro esposas dispostas por ordem de preferência -, abaixo destas ficavam doze ikbals, ou favoritas e, por fim, as gozde, que formavam uma espécie de fila de candidatas a ikbals. Por fim, concubinas sem posto e odaliscas, literalmente escravas, serventes do harém. Não é difícil imaginar conspirações, golpes e envenenamentos, pois qualquer mulher escrava sabia que poderia se tornar poderosa se desse à luz um príncipe herdeiro, portanto, não bastava ser bonita e satisfazer sexualmente ao sultão, mas também ser inteligente e ter dom político. Pode-se, então, resumir que um harém era uma prisão familiar. Todavia, foram esses poderes, conspirações e tramas que alimentaram a decadência do império otomano.

Paga-se ingresso extra para visitar os aposentos e pátios do harém, onde moravam mulheres estrangeiras, pois o Islã proibia a escravização de muçulmanas, muitas das quais chegavam ali ainda meninas, compradas ou recebidas como presentes. Ensinavam-se aspectos da cultura islâmica, o idioma turco, alguns costumes, comportamento, vestuário, dança e música. As que se destacavam serviam mais próximas ao sultão. Além de centenas de mulheres, também residiam seus filhos, até os 16 anos de idade, e todos recebiam a melhor educação, sendo que alguns trabalhavam para ajuda nas finanças do palácio.

Os mosaicos do Palácio Topkapi

Toda a cidade de Istambul tem patrimônios otomanos decorados com lindos azulejos de Iznik, E por toda a cidade encontram-se réplicas baratas de azulejos que há séculos revestem-nos. O intrincado processo de produção dos azulejos originais, bem mais complexo do que o artesanato barato disponível como suvenir, represenra uma rica herança cultural. A qualidade e a tradição, para além da beleza, fizeram de Iznik, onde a arte floresceu durante o domínio dos otomanos, famosa no mundo, quando no final do século XV, artesãos locais substituíram o tradicional barro por quartzo na confecção das cerâmicas, uma técnica inovadora que proporcionava uma base branca brilhante que destacava as quatro cores tradicionais encontradas nas peças de Iznik: turquesa, cobalto, malaquita e coral, cobertas por uma espessa camada de esmalte transparente. Os sultões otomanos gostaram do novo visual e logo o requintado çini passou a ser usado como adorno em revestimentos de espaços públicos e importantes edifícios em Istambul, incluindo a residência principal do império, o Palácio Topkapi, para além de mesquitas, madraças e túmulos. A cerâmica de Iznik desperto também o interesse dos mercadores genoveses e venezianos, e a arte durou cerca de cem anos. Com o declínio do Império Otomano, perdeu sua proteção e praticamente desapareceu no final do século XVII. Hoje, as peças originais de Iznik estão em leilões de arte e museus em todo o mundo, incluindo o Louvre e o Smithsonian.

A pequena cidade de Iznik, às margens do Lago Iznik, fica a razoável distância de balsa e de minibus de Istambul, uma boa escapada de um dia para quem tem tempo de visitá-la, onde iniciativas particulares fazem renascer a arte tradicional e ressuscitar o processo de fabricação de cerâmica, como a Fundação Iznik, localizada fora das muralhas romanas que ainda circundam parcialmente a cidade, onde o visitante pode ter um vislumbre de como é feita a cerâmica. Em Sultanahmet, além de no Kapalıçarşı (Grande Bazar), há uma loja da Iznik Classics, na Utangaç Sk. No:13 Cankurtaran Mh., 34122 Fatih, com peças genuínas confeccionadas em cerâmica.

Çini (pronuncia-se “tchi-ni”) é a palavra turca para nomear “mosaico turco”. Feitos de azulejos cerâmicos decorados com motivos florais, remontam ao século X e tornaram-se populares. Os mosaicos do palácio Topkapi estão entre os melhores exemplos desta arte decorativa, onde encontram-se centenas de metros quadrados de paredes recobertas por eles. Mas há três destaques nos quais vale concentrar atenção.

No Divan-I Hümayun, por exemplo, ou pavilhão do Conselho Imperial, construído em 1529 durante o reinado de Süleyman I (Süleyman, o Magnífico), um dos lugares mais importantes do palácio, porque era o gabinete do Império Otomano e ali eram tomadas as decisões políticas do império, há mosaicos de Iznik do século XVI, com motivos florais em azul, vermelho e verde sobre fundo branco, usando uma técnica denominada underglaze, onde a decoração era aplicada à superfície cerâmica antes de ser esmaltada, razão porque torna-se mais durável.

Já os da Câmara de Petições, ou Arz Odasi, construída durante o reinado de Mehmet II (Mehmet, o Conquistador), em 1460, um compartimento privado do sultão, onde por mais de quatro séculos os sultões otomanos receberam embaixadores estrangeiros e funcionários do Estado no salão, especialmente no rodapé da porta de entrada, há dois ladrilhos quadrados no estilo hatayi em fundo azul-marinho com figuras florais de bordas grossas. Suas cores também são únicas, já que a de fundo, azul-marinho e verde, são dominantes nesses dois quadrados. Em ambos os lados da porta há longos painéis de mosaicos sobre fundo azul com desenhos em estilo Rumi, painéis com bordas com fundo verde e figuras florais muito ricas. São únicos.No Harém, há um salão onde funcionava o Tribunal dos Eunucos Negros, ou  Kara Ağalar Taşlığı, com várias salas e espaços públicos, um pátio, dormitório e mesquita, lugares decorados com mosaicos de Iznik do século XVII, com técnica de submersão, com motivos de flores como tulipas, cravos e caligrafia de rumi, além de folhas de cipreste.

Próximo capítulo
A Cisterna de Yerebatan


[1] Humayun foi Pai de Akbar, o Grande, homem do clã de Babur e bisneto de Tamerlão, o fundador de Samarkanda, Uzbequistão, que estabeleceu o Império Mogol. Construído pelo Sultão Mehmed II, o Conquistador, este portão tem uma inscrição em árabe que diz “Com a graça e o assentimento de Deus, com o objetivo de estabelecer a paz e a tranquilidade”, além de versículos do Alcorão, cuja beleza do trabalho artístico da caligrafia merece atenção, assim como as tugras,o selo, a assinatura do sultão, usado na autenticação de documentos oficiais e no cunho de moedas, bem como nas entradas de palácios e monumentos.

[2] O símbolo mais notável da autoridade do sultão otomano era sua tuğra imperial (cifra), afixada em todos os documentos oficiais.

TURQUIA – Bom dia,Istambul! A primeira manhã

Sobrevoo Sultanahmet com um olhar à deriva. Avisto a cidade assim do alto e o desejo de descer é imediato, de caminhar por sua parte mais entranhada de histórias, pela qual apaixonar-me foi incontornável. Lá embaixo, de onde assisto a metrópole entrar em ação desde o terraço do nosso hotelzinho, ela me desperta os mesmos impulsos desbravadores de sempre. Nosso kahvalti – o desjejum turco – embora não com pressa, é breve, sem delongas descartáveis. A rua nos chama, embora o yogurt seja apreciável devagar na boca, dos melhores do mundo, imperdível e saboreado com suspiros. Já o café, não tanto. É fraco, não tem o poder de me despertar. Ao menos não como o muezzin o fez antes das cinco da manhã. Neste começo de primeiro dia na cidade, o Sol me chama, e creio que ninguém ali duvide que tenha claridade especial. Minha ansiedade faz parecer que o tempo corra mais rápido do que no relógio, e que o astro rei – que vai tão bem naquele começo de manhã – parece mesmo destinar um brilho ainda maior à cidade.

Saímos e bastou-me colocar os pés na calçada para começar a sentir os efeitos da notável atmosfera istambulesa já interferindo na razão: muito embora tão familiar, parecia ser a primeira vez que estava ali. A despeito de a mente saber que o que vejo é conhecido, me parece novo. É uma sensação desconcertante que dura uns segundos e, ao fim, me faz parecer Istambul mais uma ficção literária do que uma realidade turística. Logo que a mente para de me pregar peças, restabelecida minha percepção do presente, a reação psicológica – ainda que fugaz e breve que lembrou-me um dejá vu – chama-se, ao contrário, jamais vu (do francês, “jamais visto”), quando sentimos que algo familiar aparenta ser desconhecido. Curiosíssima e desconsertante manifestação cerebral.

Recuperados os sentidos, encerrados os rodopios da mente, como se um espírito dervixes me tivesse possuído, volto ao modo “normal” assim que saímos dos domínios da estreita rua onde se esconde nosso hotelzinho. Tão logo se descortina Constantinopla, sinto o prazer de derrubar as ilusões e perceber as coisas como são. não como as imagino. Preocupo-me e ligo minhas intenções na namorada, a fim de que Istambul lhe assegure o entusiasmo que reserva a mim, algo que justifica esse meu eterno desejo de retornar. Sinto-me bem, contudo, mesmo parecendo um estreante, a despeito de que uma pequena parte da minha vida eu tenha me deliciado passando nesta cidade. Meu olhar, agora, não é mais saudoso, e selamos este primeiro momento assim, como amigos que se abraçam no reencontro.

Já se foi a Primavera, mas ainda há flores. Os canteiros de Istambul estão, como sempre, incrivelmente bem cuidados. Mas já não há mais as tulipas, minhas flores prediletas, que em abril somam 20 milhões de florescidas, especialmente nos parques Emirgan e Gülhane. As liliáceas, que muitos pensam terem sido originadas na Holanda, têm a Turquia como terra-mãe, e os canteiros e jardins da cidade, que se encheram delas e de todas as cores, agora enfeitam-se de azaleias e de outras, revelam o gosto da gente turca pelas flores, uma herança otomana, de expressão artística, algo que me torna ainda maior admirador da cidade e fã de sua gente, como se já não me bastasse o patrimônio soberbo.

Nada de correria. Uma viagem, por melhor que faça à mente, também é desgaste físico. E estamos no Verão. Precisamos nos cuidar e o fizemos. Com uma agenda bem cuidada e planejada, temos tempo bastante para conhecer além do elementar. E se até aqui nos trouxeram o avião e o táxi, deste ponto em diante nossos pés o farão na maior parte. Bondes, ônibus, barcos e taxis – aqui e ali, ocasionalmente – ao menos enquanto os pés não se cansarem. Recorreremos, vez por outra, ao auxílio eficaz do sistema de transportes públicos de Istambul, não apenas porque sejam o melhor jeito de vencermos distâncias maiores, também porque, de certa forma, são atrações turísticas adicionais, notadamente os trams e os ferries. Bem calçados com macios sapatos, vestidos com roupas leves e carregados de pouco peso, com o corpo e a mente livres de descartáveis, estamos aqui para o que der e vier. Sobretudo para andar. Andar e andar é nossa proposta nestas três noites de um lado, mais três no outro do Chifre de Ouro, em Taksim. E embora o clichê maior de Istambul – “Onde a Europa encontra o Oriente” – seja tão verdadeiro quanto redutivo, que seja o Estreito de Bósforo que corta a cidade e a situa em dois continentes, o Chifre de Ouro o divide apenas em duas partes europeias.

Sultanahmet, o bairro do Sultão

Ponto de partida de qualquer visitante, vive sob um enxame de turistas. Não tem o chique-moderno de Beyoglu, mas é um tesouro de antiguidades. Fica numa península que já foi terreno da Nova Roma de Constantino, de Bizâncio e da otomana Istambul. Do império bizantino ao otomano, a distância cronológica é grande, mas na Praça Sultanahmet, podem-se medir em metros. Frente a frente, estão Hagia Sofia e a Mesquita Azul e, no meio, o que resta do Hipódromo: os obeliscos egípcios. Ao redor, muitas outras preciosidades dispersas nas ruas ou abrigadas em museus e, para além, entre mais importantes preciosidades, estão o Palácio Topkapi, as mesquitas Süleymaniye e o Grande Bazar, então, não há melhor lugar para a cidade “acontecer” para o visitante.

O Hipódromo é lugar que já não existe, mas foi centro desportivo e cultural na era de Constantino, o imperador romano. Era imensa arena esportiva criada por Septimus Severus e ampliada no quarto século para acomodar até 100.000 espectadores. Nela havia grandes estátuas dos mesmos cavalos de bronze que agora decoram a igreja de São Marcos, em Veneza, saqueados pelos cruzados. E também os Obeliscos egípcio, altos como lhes convém, que merecem uma olhada cuidadosa, sobretudo para os hieróglifos esculpidos em baixo relevo, atestando atestam sua origem e contando parte da história do lugar. Foi Teodósio, o Grande, quem os transportou até ali no fim do século IV.

Faziam parte do Templo de Karnak, em Luxor, no Egito. Teodósio colocou-os num pedestal de mármore esculpido com cenas do imperador e sua família assistindo às corridas do antigo hipódromo, depois de trazidos por barcos particulares desde a Alexandria, através do Nilo, e por um navio a remo construído especialmente para seu transporte a Constantinopla. A Coluna da Serpente, que retrata três delas entrelaçadas, feita em bronze, foi trazida do Templo de Apolo, em Delfos, na Grécia. O resto que havia ali e não foi saqueado, virou peça do Museu Arqueológico de Istambul, ao lado esquerdo da praça, de quem está de frente para o Bósforo.

Outro monumento, mais recente, na mesma praça, mais adiante, é do ano 1900, chama-se Fonte Alemã, ou Alman Çeşmesi, e foi presente do imperador alemão Wilhelm IIà cidade, dois anos após sua visita. Feita na Alemanha, foi transportada em peças para Istambul e instalada ali, nas proximidades da Mesquita Azul.

Embora a praça seja território de um abundante patrimônio, deixaremos para depois a Yerebatan Sarayi – ou Cisterna Bizantina -, a Sultanahmet Camii – ou Mesquita Azul -, a Aya Sofia – ou Basílica de Santa Sofia -, o Museu Arqueológico, os Banhos de Roxelana, um hamam do século XVI – projeto do arquiteto Sinan, batizado com o nome  da esposa de Solimão, o Magnífico -, a Porta Sublime, o Pavilhão Alay, o Parque Gülhane e a Mesquita Zeynep Sultan.

Nosso destino agora é o Palácio Topkapi. Saímos da praça seguindo pela Soğukçeşme Sokağı – ou Rua da Fonte Fria – com suas casas de madeira, típicas da era otomana, uma pequena parte do passado de Istambul do século XIX, com fachadas de madeira otomanas, treliças e sacadas em prédios de dois andares, alguns convertidos à modernidade – como hotéis boutique, cafés, restaurantes, escritórios e livrarias -, contudo, ainda, um oásis de calma rodeado de efervescência turística, um caminho delicioso que dura pouco até chegar ao imenso pátio diante do Topkapi. Um pequeno desvio leva à Madraça Caferağa – ou Cafer Ağa – antes de chegar ao Parque Gulhane. Construída em 1559, durante o reinado do Sultão Süleyman – o Magnífico, a madraça foi um dos projetos do arquiteto Mimar Sinan, o mais importante do Império Otomano. No seu pátio, encontram-se cafés, lojas de artesanato e uma escola de artes, caligrafia, música, desenho, pintura e porcelana.Um busto de bronze sob um pedestal de pedra nos apresenta Sinan, o arquiteto.

Agora o Sol não mais espreita, mas incide e dói nos olhos. Embora aqueça, não desconforta, é gentil assim entre as copas de árvores, mesmo anunciando que em breve convidará a paradas sombreadas para café e água. Avista-se um azul maculado por poluição, todavia, mas um céu que parece reverenciar a nós, turistas. O percurso também é pontuado por gatos, figuras perpétuas e abundantes na cidade, em nosso caminho ao palácio. Passeamos relaxadamente, mas com objetivo e sentido, como observadores atentos, pois como disse Cecília Meireles em suas Crônicas de Viagem – Viajar é ir mirando o caminho, vivendo-o em toda a sua extensão e, se possível, em toda a sua profundidade, também. Pisamos no chão de ruas saturadas por 16 séculos de história, de uma cidade que serviu de capital a quatro impérios – o romano, o bizantino, latino e o otomano, este último, entre 1453 e 1922 – com histórias em cada esquina, desde um capitel romano a uma igreja bizantina, de um palácio otomano a um museu com inesperado conteúdo, de uma fonte a uma mesquita.

Chegamos à entrada do primeiro pátio do Palácio Topkapi, um grande largo na entrada do palácio, defronte à Porta Imperial – ou Porta Sublime, ou, ainda, Bab-I Hümayün – onde se expunham as cabeças dos inimigos sumariamente decapitados. O que aconteceu na sequência precisa de um capítulo exclusivo, então, volto para contar (tão certo quanto retornarei a Istambul).

Saindo da mesquita, voltamos à praça, pegamos o Tram (VLT) na estação Sultanahmet e descemos na estação Gulhane. Dali, caminhamos pela rua Alemdar Cadesi[1] em direção ao Palácio Topkapi, passando diante da Porta Sublime, ou Bab al-Ali, um grande portal ornamental com um telhado projetando-se além das empenas da construção, em estilo rococó, que antigamente levava diretamente ao escritório do Grão Vizir, onde a partir do meio do século XVII em diante, a maioria dos negócios do império se realizavam e o sultão recebia embaixadores, tanto para credenciais quanto para reuniões protocolares e recepções no palácio.

Continuamos a caminhada pela rua Alemdar Cadesi em direção ao Palácio Topkapi e passamos antes defronte ao Alay Köşkü, o Quiosque da Procissão, em frente à Porta Sublime, construído em ângulo com o muro do palácio, um grande gazebo poligonal, de cujas janelas de treliça o sultão observava as idas e vindas no palácio e da rua e usado pelos sultões para receberem a saudação dos janízaros[2] que passavam por ali em desfile. O quiosque é de 1819, quando foi reconstruído pelo sultão Mahmut II.

Caminhamos em direção à Fonte do Sultão Ahmet III, na grande praça defronte ao Portão Imperial do Palácio Topkapi,ou Bâb-ı Humayun[3], construído por Mehmed II, com uma concepção artística otomana carregada de realeza e simbolismos, onde em seus dois nichos laterais eram expostas as cabeças de inimigos decapitados.

A seguir: O Palácio Topkapi


[1]  Cadesi é “rua”, em turco. Então, rua Cadesi é redundância.

[2] Os janízeros eram uma tropa de elite do exército otomano, uma força criada pelo sultão Murade I, constituída de crianças cristãs capturadas em batalha, levadas como escravas para Constantinopla, a fim de serem convertidas ao Islã e formadas como militares.

[3] A propósito do nome Humayun, ele é familiar, não me soa tão estranho, mesmo estando na Turquia, embora me remeta à Índia, para onde uma viagem para terminada havia seis meses mantinha a memória fresca: do clã de Babur, bisneto de Tamerlão, quem fundou Samarkanda, no Uzbequistão, e estabeleceu o Império Mogol. Humayun, pai de Akbar, o Grande, e melhor imperador da Índia. Quando se sabe um pouco da história e geografia, o portão toma um valor ainda maior, para além de sua beleza. Construído pelo Sultão Mehmed II, o Conquistador, uma inscrição em árabe diz o seguinte: “Com a graça e o assentimento de Deus, com o objetivo de estabelecer a paz e a tranquilidade”, além de versículos do Alcorão, inscrição tão importante quanto a beleza do trabalho artístico da caligrafia, quanto o significado dos versos. Há também tugras,um selo do sultão, como uma assinatura usada na autenticação de documentos oficiais e cunho de moedas, assim como nos palácios e monumentos.

TURQUIA – Merhaba, Istambul!

Mesquita Firuz Ağa

Allāhu Akbar, Allāhu Akbar, Allāhu Akbar… A madrugada mal se torna manhã, mas já ouço o som do almuadem[2] entoando o azan[3]. O pregão monocórdico desce do minarete da mesquita Firuz Ağa, do outro lado da rua. Apesar de pequena, é de 1491, um belo pequeno edifício elegante, que apesar de rodeado de espetaculares atrações bem mais notáveis, é dos poucos exemplos de mesquita do período “pré-clássico” otomano em Istambul. Sem cerimônia, o canto me desperta e faz virar na cama com um suspiro. Consulto o relógio: são 4:45 da manhã.

Embora não mais me surpreenda, pelo menos não como o fez na primeira vez, quando o ouví em Damasco, na Síria, e quase perdi a respiração, ainda me inspira. Seu soar num ponto entre a melancolia e o exotismo, carente de humor, ainda me agrada muitíssimo, contudo. Não imagino mais um homem gritando lá do alto do minarete o “vinde à oração”, pois sei que o chamado agora já não tem mais esta extravagância, que tornou-se elétrico, feito de dentro da mesquita, por um microfone e fios que levam a voz do muezzin até os alto-falantes instalados nas varandas das torres.

Meu sono durou o tempo que dura uma noite, e muito embora o sol ainda seja uma promessa que vem do Japão, que o quarto esteja escuro, penso em levantar-me. Reflito se fui feliz na escolha do lugar, se ele não me levará ao arrependimento, ainda que toda a cidade acorde com o eco de centenas de outros chamados antes da metrópole entrar em ação, de tornar-se a Istambul inquieta, nervosa, espetacular e atraente.

Oficialmente, a tênue luz que começa a tirar Istambul das sombras promete chegar plena daqui a uma hora, às 5:39, segundo informa o aplicativo do celular. Levanto-me com alguma disposição e vou à janela. Abro as cortinas que ainda vedam ao quarto a luz do Verão, embora nessas horas costume ser o estômago quem me ordena aprontar-me sem delongas. O desjejum é quem me chama, contudo, a mente e os olhos comandam o corpo como se atendessem ao chamado, não das orações, senão ao das ruas.

A incrível vista do quarto

O muezzin encerra o canto e o que avisto pela janela é um mero quadrado de janelas a três metros de distância, do espaço livre encaixotado dentro da edificação em toda a sua altura, destinado a garantir iluminação e ventilação aos quartos, já que não dão para a rua Vejo paredes mal acabadas, tubos, fios, chaminés, parabólicas desgastadas, parapeitos sujos e mal cuidados por onde cômodos mal peneirados por suas cortinas, outros sem elas, me permitem vislumbrar seus interiores sem vida. Alguns parecem escritórios, outros residências. Não curto este voyerismo inadequado e quase me envergonho dele, mas a curiosidade naqueles cômodos é mais forte. Recolho-me, contudo, temendo que um vizinho apareça e perceba minha afronta invasiva, e ele não estaria errado. Prefiro aprofundar-me na preparação do dia em vez de deter-me naquele espaço sem história e sem vida, janelas que sequer uma nesga de rua permitem. Mesmo sendo tão desconcertante o cenário, eu o fotografo com mera intenção de reportagem, de mostrá-lo aqui ao leitor. Enquanto penso nas palavras para descrevê-lo, imagino o que diria um versado em arte arquitetônica diante daquele prisma, mas o estômago se manifesta e demonstra saber que existe algo melhor a aproveitar do que aquela vista.

Ela ainda dorme e o quarto é tão pequeno que não há clima nem espaço para escrever, senão apenas para evoluir entre a cama e o banheiro. Resolvo deitar-me novamente e penso no que escreveria, se pudesse, mas a mente parece um túmulo. Olho fixamente para o teto e dispendo algum esforço derradeiro, antes da desistência, na tentativa de arrancar do cérebro alguma inspiração, mas a janela afetou-me a criatividade e minhas fontes de inspiração, além do que, a hora, convenhamos, não é favorável. O tema não é banal, contudo não consigo evoluir para nada mais que “Depois de doze horas e meia de excitação e de uma noite mal dormida no avião, chegamos bem no recém-inaugurado, espetacular maior aeroporto do mundo”. Envergonho-me da pincelada de primeira mão no que pretendo dizer nesta introdução e decido abandonar o tema. Começo então a pensar em Istambul, na bela cidade, no que viveremos aqui durante cindo dias nesta minha quinta visita. E, que, muito embora bastante familiar, será sempre maior sua capacidade de encantar-me, mais ainda que a minha de expressar-me sobre ela. É tão sedutora quanto fa primeira vez que cheguei aqui e descobri esta periferia do Oriente, esquina da Europa com a Ásia. É lugar que temo descrever como não merece, com superficialidades e desperdício de palavras. Istambul, esta eterna em sua irredutível potência histórica e patrimonial, precisa de que muito mais seja dito do que os velhos e cansados clichês como “Onde o Oriente encontra o Ocidente”, ou “Onde a Ásia encontra a Europa”.

Continuo a “anotar” na memória o que consigo arrancar do meu vazio de ideias, embora a vontade seja que uma vastidão de pensamentos jorre descontroladamente do cérebro. Registro o que é elegível para um futuro texto, mais para não me esquecer da chegada e de outras coisas que temo perder quando me dedicar a escrever. Sinto o cérebro faiscando e “escrevo” nele como se preenchesse cartões postais no balcão de uma agência dos correios. Era assim que eu fazia no século passado, antes da invenção da Internet e dos e mails, durante minha versão mais jovem de viajante, mesmo sabendo que chegariam ao destino depois de mim. Era um prazer, contudo, e eu não deixava de experimentá-lo. O tempo passou um bocado, mas permanece minha urgência de escrever e de fotografar, parceria que evoluiu desde os postais para este blog.

Saio da cama e começo o preparo para o dia. Sinto-me bem, vivo um dos melhores momentos de minha vida e estou em Istambul, o que me parece bastar. “Estamos juntos, em Istambul, é o que importa.”, penso em dizer-lhe, mas ela ainda não despertou.

Começa a esquentar a manhã e lembro-me de minha primeira vez na cidade. Foi no século passado, bem antes de Erdoğan, dos atentados com morte, das bombas, dos golpes fracassados, das oposições reprimidas, de jornalistas assassinados e das contra-pressões ao islamismo. O frio me açoitava a pele, a paisagem era sombria, o dia parecia noite, se bem me recordo, uma chocante contraposição aos dias luminosos que nos esperam. A neve cobria de branco a cidade e tornava-a quase da mesma cor do céu, de um cinza tenebroso. Dizem que raramente neva em Istambul, mas era assim que ela estava, o que hoje encaro como um privilégio, ainda que o Inverno não seja minha estação predileta para as viagens, mesmo que em muitos sítios ela proporcione um charme especial. Mas se eu pudesse escolher, se não fossem as possibilidades determinando as épocas em que viajo, viajaria apenas na Primavera, ainda mais a Istambul, quando ela se cobre de tulipas, a temperatura é um doce e tudo mais é ameno. Também já estive no Ramadã, período sagrado para os muçulmanos, quando entram em jejum de alimentos e líquidos entre o nascer e o pôr do sol de um dia. Foi bom ter passado por diferentes experiências na cidade, das nevascas ao Kurban Bayrami – a Festa do Sacrifício – um dos feriados islâmicos mais antigos na Turquia, celebrado durante os 4 dias de minha segunda visita à cidade. Neste evento, no primeiro dia os homens vão à mesquita para uma oração especial, logo de manhã cedo, e oferecem o sacrifício de um carneiro. A matança dos animais, generalizada, espalhada pela cidade, era chocante de assistir, e estava presente nas ruas, terraços de prédios e praças públicas. Não havia como ignorá-las, exceto fechando os olhos. Hoje, contudo, os turcos preferem fazer doações para a caridade ao invés de sacrificarem os animais. Deixo as memórias de lado com o som da cidade começando a encher as ruas e entrando no pequeno quarto.

Sultanahmet Meydane, a praça

Ouço o esganiçado pio das gaivotas e os primeiros sons da cidade, vozes e ruídos do bonde da rua defronte. Doze milhões habitam a urbe, em números oficiais, mas que suspeito não terem sido bem contados. É a humanidade preenchendo os espaços terrestres e, neste pedaço, começando a circular até tornarem uma das mais febris cidades que conheço. Estamos às portas da Sultanahmet Meydane, a praça que dá nome ao bairro, e a cerca de 200 metros a pé do que há de melhor do patrimônio histórico de Istambul. Quantos tesouros à vista e subterrâneos nos esperam! Penso nisso com entusiasmo e que não estamos ali para outra coisa senão sair às ruas já então começando a ficar meio pervertidas por nós, turistas e seus mesmos desejos de corromperem-se pelo mesmo ato devasso: “turistar”.

Enquanto me arrumo para o primeiro dia desta viagem, a namorada também. Ela é cúmplice de Istambul, embora não a conheça, mas traz de suas raízes o desejo de tomar Istambul para si, tal qual eu o fiz: “Istambul, a minha cidade!”. Sua vontade foi compartilhada comigo a certa altura. Disse-me ela: Tenho paixão por conhecer Istambul. Eu lhe respondi prontamente: Ora, só se for comigo!, e ali mesmo comecei a planejar a viagem à Turquia. Ela, surpresa, fez-me um olhar e explicou: Não é de hoje que desejo conhecer Istambul. É sonho que custou a se realizar, mas foi bom esperar para conhecê-la contigo. Contei-lhe (provavelmente pela terceira vez), minha história com Istambul e admiração que tenho por ela. Disse-lhe que embora a conhecesse até pelos cheiros, ainda me emocionava como a primeira vez. Os pensamentos me tomaram, tal qual ...um rio subterrâneo…, segundo Fernando Pessoa. Percebi novamente que viajar é bom, mas antes bem acompanhado do que só. E que nada se compara a viver, a ser feliz e a celebrar a vida. Preferivelmente em Istambul.

Prontos, subimos ao terraço. Diferentemente da vista do apartamento, é um verdadeiro camarote situado no último andar do hotelzinho. O céu já é azul, embora num tom ainda vago, mas parece prometer aumentar na intensidade. Vejo a rua, a praça e os bondes, árvores e minaretes. Os sons já são plenos, a urbe está acordada e penso (apenas penso) já sentir seus odores e que, a despeito de minha insignificância diante de sua tamanha grandiosidade, de meu enorme afeto e admiração por Istambul, ela parece me retribuir com generosidade especial, como se a mim ela observasse, não o contrário, como se eu e a cidade das sete colinas consolidássemos uma relação madura. A capital de impérios quase tão antiga quanto a civilização, esse esplendor que guarda patrimônios das velhas Bizâncio e de Constantinopla.

Avisto, rendido, a imagem dos telhados de Sultanahmet e os minaretes quase roçarem o parapeito do lado esquerdo do terraço. Fixo os olhos nos maiores e mais distantes, da Mesquita Azul e da Santa Sofia, incrivelmente altos, esguios, assim como suas cúpulas, todos desafiando a gravidade. Não são mais tão escuros quanto à noite, e parecem agora de prata, mas sempre pontiagudos, espetando o céu como lápis bem apontados. Parecem me indicar direções, não as do Paraíso, pois ainda é cedo para mim, mas os caminhos de um mosaico de paisagens, de histórias de conquistadores e conquistados, de impérios erguidos e desfeitos.

Avisto o mar Negro e o de Mármara também, e de como ligam-se por um estreito braço de mar a que chamam Bósforo, mas largo o suficiente para separar dois continentes, o europeu e o asiático, embora sem diferenças entre si. Agrada-me vê-la começar o dia assim, tão bem e tão cedo, quente e acolhedora, íntima e amiga, e apreciar a gentileza da cidade que agora surge suavemente, colorida, luminosa, cromática, tão diferente da Istambul que Orhan Pamuk – o romancista turco, prêmio Nobel – descreveu como sendo a de sua infância, da cor do chumbo, semiobscura, no estilo das fotografias em preto e branco. O céu vai se azulando nos tons dos azulejos de Ysnik, e neste Verão turco que vai em meio, assim permanecerá nos próximos dias, como uma ode aos seus visitantes.

Istambul. Aqui estamos para a vida real desta cidade, não mais para o sonho de uma viagem planejada e não vivida. Para ouvir cores e cheirar sons, para sentir a sinestesia que ela provoca, a combinatória entre visão, audição, olfato, paladar e tato. E, depois, Capadócia, com Istambul, os dois pilares do turismo na Turquia. E já que a Geórgia fica logo ali, por que não? Afinal, Tbilisi, sua encantadora, pequena capital, dizem ser uma surpresa que não deve deixar de ter um viajante. E, uma vez lá, com a Armênia tão próxima, uma escapada nos chama. Ai, o mundo…

A vista do terraço

Uma brisa delicada sopra do Bósforo. Desejo mais, ir além daquele instante, pôr os pés na rua, ouvir seus sons e misturar-me aos milhares de pessoas, mulheres de véus às cabeças. O vento refresca e carrega o cheiro de maresia. Vem das águas negras do estreito, que fluem do Mar Negro em direção ao de Mármara e, por fim, ao Egeu. Em breve estaremos diante de velhos homens sentados às mesas de casas de chá e narguilé, com um masbaha à mão, o “terço” muçulmano, jogando baralho, comendo, fumando e petiscando meze, o fast food turco. Aliás, come-se a sério nesta cidade. E bebe-se chá. E fuma-se cigarro também. Alguns tomam raki – a bebida alcoólica com sabor de anis, parecida com o ouzo grego, o arak árabe ou o pastis francês -, forte e servida com água misturada, quando fica turva e leitosa, degustada em copos altos e finos e acompanhada de melão e queijo feta. Enquanto fumam, alisam um gato de rua, o bicho nacional da cidade. Não é difícil para um turista procurar qualquer desculpa para trocar um punhado de palavras com alguém assim. Se o tentar, terá sucesso.

Não estamos muito cheios de tarefas, senão eu, carregado do empenho em mostrar o melhor de Istambul à namorada, submetê-la às suas tentações reais, depois da série antecipada de conversas e vídeos preparatórios. Com calma, porque temos cinco dias, que é tempo quase de sobra, e também sem que eu lhe pareça um guia turístico, senão com o desejo pretensioso de parecer-lhe um local. É tempo suficiente para percorrer lugares essenciais, mas escasso para viver a cidade em toda sua potencialidade. A isto chamo “estar” numa cidade, onde embora três dias lhe fariam boa justiça, teriam sido corridos demais. Menos, todavia, um aperitivo, que a cidade não merece e durante o qual poderíamos enjeitar ícones, e mesmo que não, deixar de ver mais do que eles. Nossa estada será em slow motion, mas eu acelerado pelo desejo de não vacilar na intenção de tornar Istambul também a sua cidade. Entregue à missão, poremos os pés descansados a percorrê-la, a senti-la e vê-la, já que por palavras gastei todas as que tinha para lhe impressionar.

A SEGUIR:
Bom dia,Istambul! A primeira manhã


[1] Alô, Istambul!

[2] Almuadem ou muezim é, no islã, o encarregado de anunciar em voz alta, do alto das almádenas (ou minaretes), o momento das cinco preces diárias. O chamamento consiste em proferir a frase Allah hu Akbar (Alá é grande), seguida da chahada, a “profissão de fé” islâmica, através da qual se atesta que “não há outro Deus para além de Alá e Muhammad é o seu profeta”. Esse chamamento (adhan) é entoado de forma melodiosa, sendo necessário que as palavras sejam bem pronunciadas.

[3]azan é a chamada para o salá (oração), feita aos muçulmanos, pelo muezim, a partir do minarete ou do exterior da mesquita, caso esta não possua minarete. Há uma segunda chamada (iqama) que convoca os fiéis a se enfileirarem para o início das orações. Por obrigação (fard), os muçulmanos fazem suas orações cinco vezes por dia. Segundo a tradição, o azan consistia originalmente numa frase simples (“Vinde à oração!”), mas o profeta Muhammad (Maomé) pediu aos seus crentes uma forma de tornar o apelo mais sofisticado. Num sonho, o companheiro Abd Allah ibn Zayd teve a visão de que os crentes deveriam ser chamados de uma forma melodiosa, que é a forma que se impôs. Os muçulmanos oram cinco vezes por dia;isso se aplica ao islamismo sunita, que é praticado na maioria dos países.Por outro lado, no Irã eles praticam o islamismo xiita e, nesse caso, oram três vezes ao dia. O horário de cada um varia de acordo com a época do ano, porque eles têm a ver com o nascer e o pôr do sol.

Os nomes de cada reza (em turco) e horários são definidos conforme a seguir: İmsak, duas horas antes do amanhecer; Güneş, pouco antes do nascer do sol; Öğle, próximo ao meio-dia, no zênite solar; İkindi, à tarde, quando as sombras dos objetos estão do tamanho exato dos objetos; Akşam, no pôr do sol, quando um novo dia se inicia, segundo o calendário Islâmico, e Yatsı à noite, quando a última luz do dia desapareceu.

Allahu Akbar (x 4) “Alá é grande, Alá é grande”; Ashhadu um la ilaha illa Allah (x 2) “Eu declaro que não há nenhum deus além de Allah”; Ashadu anna Muhammadan Rasool Allah (x 2) “Eu testemunho que Muhammad é o mensageiro de Allah”; ‘ala-s-Salah (x 2) Hayya “Vinde à oração”; Hayya’ ala-l-Falah (x 2) “Vinde à salvação”; As-salatu Khayrun Minan-nawm (x 2) “Oração é melhor que dormir”; Allahu Akbar (x 2) “Deus é o maior”; La ilaha illa Allah Não há deus senão Alá”. Obs: A parte que diz “A oração é melhor do que o sono” aplica-se apenas à primeira chamada à oração do dia, antes do amanhecer.

TURQUIA, Geórgia e Armênia

IntroduçãoA chuva no Rio e o Sol da Turquia

Ouça TRAVELS (de Pat Metheny), enquanto lê

São nove da manhã.  Abril já vai em meio, mas chove como em fevereiro. As águas que deveriam fechar o Verão em março varam o Outono e arrasam a cidade. Tudo com tal força que parecem querer alargar seu período. Eu deveria estar no trabalho, não em casa, mas estou involuntariamente ilhado e preocupado com o aguaceiro e suas consequências. Contudo, a despeito deste Abril de águas a mil, da cidade encharcada e das tragédias previstas, penso no contraponto aos dias ensolarados que nos esperam na Turquia. Em julho, o sol estará a pleno, o céu azul, árido de nuvens naquele lugar onde a Europa encontra a Ásia.

Com naturalidade olho para o mapa-múndi e encontro o ponto onde em breve estaremos.  O cérebro – com força quase física – faz grudar os olhos no planisfério por mais tempo de que preciso.  Observo-o, enquanto tamborilo os dedos na escrivaninha, e renovo o prazer de viajar no mapa sem saber se a mente é quem me usa ou se sou eu quem me satisfaço dela.

Sorrio, feliz, quando noto que o cérebro ainda é uma fortaleza saudável, a despeito da idade. E que guarda as recordações da vida, entre elas as da infância, que recupero agora com emoção. Lembro-me bem de que costumava viajar assim quando moleque, com a imaginação me levando a visitar países deslizando os dedos sobre eles no mapa, e me recordando dos que já “conhecia” – através dos livros e revistas, até em músicas – e dos que sonhava um dia conhecer, percorrendo desse jeito mil caminhos, mundos sem limites ou fronteiras. Então, se sou hoje um pouco do que fui, viajar parece algo unido a mim umbilicalmente e, provavelmente, também escrever e fotografar, se bem me lembro do quanto gostava de fazê-los ainda tão jovem, daqueles prazeres naturais que nasceram comigo, porque nunca alguém me disse que eu tinha que escrever, viajar e fotografar.

Penso agora em Istambul, nesta senhora cidade com muitos séculos de idade, assim como nas vezes em que nela estive. Fazem sete anos desde a última, contudo a cidade ainda vive em mim como se não houvesse o tempo. A sensação de retornar à urbe – que amei logo na primeira visita – tem o mesmo sabor do entusiasmo inaugural, embora pela quinta vez.


A preliminar foi no século passado durante um inverno tenebroso e sob um feriado religioso em que tudo se encerrava. Lúgubre, cinzenta e nada turística. Mesmo assim, quando nos “encontramos”, foi como se ela me dissesse: “quero ficar no seu corpo feito tatuagem…”. Espero jamais esquecer, morrer comigo a lembrança da sucessão de impactos formidáveis que experimentei.

Desta vez, embora já tão familiar, minha volta a Istambul, esta diáspora feliz e desejada à “minha” cidade não de origem, mas como se fosse natal, me revolve a forte correlação emocional entre mim e Istambul. Desta vez, contudo, há motivação muito especial e em prazer encantador: apresentá-la à namorada, guiá-la não mais por seu sonho de conhecer, mas de explorar a cidade pela qual que vim a saber tem forte atração.

Por que sou tão feliz em Istambul? Por que ela me parece tatuada na mente? Às vezes me pergunto se eu seria feliz assim sem tê-la conhecido? Sou outro, tantos anos depois, e não a vejo com o olhar poético de outrora, mas ela ainda é um fermento intelectual e me faz sentir saudades, como as que sinto de Damasco, hoje impossível, contudo, a mais encantadora capital do mundo árabe.

Espero logo o dia chegar para revisitar Istambul, mas que só até ali o tempo passe corrido, e de então em diante, seja lentíssimo, porque tenho apenas uma vida e quero ainda muitas oportunidades de voltar e voltar a Istambul para passear e celebrar a vida. Me apraz pensar que será sempre assim, que verei Istambul com familiaridade, embora sem negligência, e ela não deixando de seduzir, embora eu, ali, seja uma vaga presença.

 Abro as portas da imaginação e despencam da mente as imagens de romãs abertas à metade esperando serem espremidas; de senhores com testas franzidas e copos de raki à mão, concentrados em seus tabuleiros de gamão; de pombos frenéticos incentivados por vendedores de milho; do enorme espaço público defronte à entrada da Mesquita Nova, à beira-mar de Eminönü; das barracas e carrinhos de comida com vendedores à espera de compradores; de copos de chá, folhas de uva recheadas, doces de nozes, kebabs de cordeiro e frango girando no espeto, castanhas defumadas e assadas, sanduíches de peixe laminado; de pequenas ondas salpicando de água salgada as paredes do mar e as balsas o Corno de Ouro; da ponte de Galata e dos pescadores cuidando de suas varas de pesca, olhando por cima o Bósforo correndo em direção à Ásia; de mil minaretes espetando o céu, das meias cúpulas das mesquitas e madraças desenhadas há séculos por Mimar Sinann e, depois,  já na Capadócia, onde nunca estive além do desejo, passar por formações rochosas e cânions surreais, rochas contorcidas, falos rochosos apelidados de “chaminés de fada”, cogumelos gigantes de pedra em vales erodidos, cavernas artificiais com habitações trogloditas e igrejas primitivas em Göreme.

Decido, então, entregar-me ao prazer da escrita. Antes, espio pela janela e enxergo a chuva torrencial intensificar-se. A ventania é de se ouvir e as árvores de se ver tombarem. Nada inspirador. O aguaceiro, contudo, me traz lembranças de viagens chuvosas: doze dias inteiros em Portugal e outros tantos na Andaluzia sob uma chuva renitente. Aparentemente, para muitos, não há diferença entre jornadas ensolaradas ou chuvosas, já que ambas nascem e se desenrolam inspiradas no mesmo propósito, e prosseguem assim, independentemente do clima. Mas como são diferentes! Já eu assim não vejo a mesma beleza nas paisagens sem os raios de sol.

O relógio corre lento e estou longe de fazer as malas, embora pense compulsivamente em escrever o relato desta viagem. Os olhos estão aqui, mas a mente perambula por Istambul enquanto, na impossibilidade de seguir ao trabalho, aceito o ócio como oportunidade. Ponho-me a exercitar o prazer da escrita, já que é dia de não fazer nada e de curtir a falta de tarefas e preocupações. Então, para mim, que aprecio a leitura de relatos de viagens e a escrita, estes foram os motivos acidentais para tornar-me um escritor.

Claro que já tive problemas com minhas veleidades criativas e meus bloqueios intelectuais. Ao escrever hoje, sou mais resiliente, percebo que “Lutar com palavras é a luta mais vã…”, como disse Drumond de Andrade. Mas tenho paixão por elas, e sei que meu problema não se encontra nelas, senão em meus limites intelectuais e culturais. O esforço, já deve ter notado o leitor que me acompanha há mais de uma década, vem com a colheita de benefícios do exercício: ter escrito quatro livros, os quais espero publicar um dia, algumas crônicas e artigos para meu blog e noutros sítios na Internet, além de duas matérias para uma revista de viagens, com a busca do prazer, que cresce na medida em que o aprendizado avança. Foi assim comigo, razão porque reescrevi cinco vezes meu primeiro livro – “Bom dia, Addis. Adeus, Etiópia” – até o ponto em que especialistas o considerassem publicável. Mas continuo tendo inveja – saudável, é claro – dos escritores de verdade. Ela é quem aumenta o apetite pela leitura de relatos de viagens.

Estou no escritório de minha morada sentado diante do notebook. Cercado de livros, estantes, guias de viagens e recordações. Arrumo-os com capricho, fazendo cenários com os livros e objetos a eles e aos destinos relacionados. É meu espaço, minha mala de sonhos de viagens, de todas que um dia foram imaginadas e muitas que tornaram-se realidade. Há muito por trás dessas coisas. São uma ponte para o passado, tanto quanto um impulso para o futuro.

Me rodeiam dois pequenos globos terrestres, blocos de anotações, uma caneca com lápis e canetas que apanhei de hotéis no mundo, um abajur réplica de um Tiffany e um relógio bem moderno com termômetro. Estes dois últimos são os únicos bens que não se relacionam com as viagens. Decoram e servem. No mapa-múndi, acima dos olhos, pinos marcam 65 países. Olho para alguns mais detidamente e me lembro das experiências vividas em cada qual. Não coleciono países, contudo, muito me apraz contar os que já estive e revisitei. A câmera fotográfica também fica por aqui. Vejo-a desgastada por anos de uso, com cicatrizes dos maus tratos por que passou e com marcas de fricção e atrito. Com ela, eu trouxe para casa milhares de pedaços de muitos destinos, souvenirs fotográficos que revelam tanto a minha curiosidade quanto meu jeito de olhar, e hoje ilustram meus livros, este blog e minhas redes sociais. Entregam-me boas lembranças todas estas coisas e, já que ilhado estou, sento-me sabendo que escreverei.

Há tempos eu não passava uma manhã de segunda em casa. Uma segunda só minha, contemplando com olhar ora vago, ora penetrante, todos os objetos com os quais estou familiarizado. Viajando nas minhas memórias e nessas coisas carregadas de significados e lembranças, vão elas praticando suas verdades. Já não sou mais aquele moleque sentado à janela de minha casa, por onde eu imaginava o mundo e assistia a vida passar, no entanto, olho para trás e sinto o mesmo prazer quando imagino uma viagem e posso ir além, viajar sem estar na jornada. Contudo, pensar no passado é bom, mas tem muito mais charme olhar a vida à frente.

Começo a ler e a escrever sobre uma jornada sempre antes de iniciá-la, e quase sempre o faço no mesmo ambiente de casa, neste meu museu pessoal de viagens, onde cada coisa ou peça exposta funciona como nota de um lugar, inspira-me e torna o ambiente perfeito ao propósito de descrevê-las e planejá-las. Escrevo agora a introdução a este relato de viagem, cujo estilo – já conhece o leitor frequente, mas não o que aqui vem ler-me pela primeira vez – não é o de contar como foram os hotéis, quanto custaram os preços de ingressos, mostrar meu look do dia, fazer-me parecer mais importante que o destino, nem horários de funcionamento das atrações, a menos que estejam inseridos no contexto de relato. Claro que fico ao dispor de eventuais consultas neste sentido, e com prazer, mas guias turísticos já há de montão e espetaculares. Relatos de viagens é que são poucos.

Ouço Travels, obra-prima composta e tocada por Pat Metheny usando uma guitarra elétrica semi-acústica. Dá-me inspiração, ao contrário de sempre, quando a obstinação e a paciência têm predominado no meu ato de escrever. Talvez depois eu ouça Rapsódia Húngara, de Franz Liszt, como costumava fazer com meu pai, enquanto lia na sala de casa e ficávamos os dois sequestrados, ele pela leitura, eu pela música. E assim, nesta toada sentimental de boas lembranças, nesta área íntima de minha casa, lugar onde melhor se desnuda minha mente e sem qualquer vergonha que a intimidade permite, onde transito no tempo e sinto brotar do território físico as primeiras imagens e lembranças imateriais dos lugares onde estive, as paisagens e experiências que a memória descarrega adquirem outra perspectiva, findam por dar origem às palavras com que conto minhas micro-histórias de viagens.

Agora – sobre esta à Turquia e ao Cáucaso – Istambul é só um pretexto para o texto introdutório, porque minha vontade é de fazer um livro inteiro, do prefácio ao epílogo. E se há tantos lugares no mundo entre os que me apraz descrever, Istambul, cidade à qual regresso sempre como se fosse a primeira vez, está entre as primeiras. E se eu não fosse o que sou, teria me tornado escritor, passaria aqui todos os dias a fazer o que faço com tal prazer: planejar uma viagem e escrever sobre ela.

 Julho chegará e seis meses de planejamento, economia e preparação para a viagem terão se passado. As malas estarão prontas e também a cabeça. Este relato, que resulta desta viagem a Istambul, é uma revisão da cidade, onde estive a primeira vez em Março de 2000. Nada mais pretendo que refletir sua atmosfera incomparável, embora saiba que mal conseguirei arranhar a superfície do intento, senão mostrar um vislumbre de séculos de culturas e história, rabiscar sua  silhueta majestosa. Sinto nova emoção, não apenas a de revê-la, mas mostrá-la à namorada, com a qual, juntos, passaremos muitas horas em cinco dias vagando pela cidade, explorando seus bairros históricos e capturando seus traços mais notáveis e particulares. Com este relato, presto meu singelo tributo a Istambul.

A seguirCapítulo 1 – Merhaba, Istambul! [1]

[1] Alô, Istambul!

ÍNDIA – Jodhpur. Onde foi parar o azul?

No centro velho da cidade, a Torre do Relógio da Praça Sardar é um marco, e além de mostrar as horas com precisão britânica, o belo relógio espia do alto um labirinto de ruas estreitas, calmas e surpreendentemente alheias à efervescência vulcânica ao redor da torre que o abriga. A cidade se espalha para além dali, mas todo mundo parece morar naquele quadrado, porque é mesmo extraordinário, porque todos querem ficar por ali numa agitação que nunca termina.

A Praça Sardar

Protéticos, barbeiros, costureiros e vendedores instalados na praça aguardam com paciência indiana por seus clientes. Mulheres também, talvez em maior número, a maioria sentada no chão, vendendo roupas coloridas amontoadas em pequenas pilhas sobre lonas encardidas. Bancas de frutas e frituras nos convidam a saborosas, mas imprudentes experiências gustativas. Ela – a torre e seu relógio inglês -, além das ruas e das pessoas que a circundam, é vigiada mais distante pela imponente, altiva fortaleza de Mehrangarh, que soberba no alto da colina, a tudo regula.

A fortaleza de Mehrangarh, soberba, no alto da colina

Enquanto circulo e observo, cruzo com olhares bons e curiosos, interesseiros e interessantes. Mulheres cintilam em saris coloridos, emprestam a graça e leveza que falta ao energético espaço. Homens conduzem e buzinam motonetas que parecem prestes a se desfazerem. As vacas – aqueles animais-divindade que na India, muito embora não frequentem cultos ou templos, têm-se como sagradas – ficam ali, ao Shiva dará, deitadas ou caminhando sem destino e sem que ninguém as importunem, tal como é próprio aos seres sagrados.

Olhares bons e curiosos, interesseiros ou interessantes

Cães maduros e filhotes serelepes andam entre tuk-tuks, ambulantes, pedestres, desocupados, carregadores, pedintes e mendigos. Se não me escapa nada ou ninguém, é o grupo de coisas e seres que passam ou ficam na praça, aperfeiçoando o que na Índia chamamos “bagunça”, mas que o tempo e a boa observação nos faz perceber lógica, fundamento, princípio e ordem.

A cacofonia de sons – alguns decifráveis, outros não – e a inquietação da Praça Sardar de Jodhpur podem até consumir a estabilidade mental dos visitantes, mas tudo o que se vê, se ouve, cheira, toca e experimenta é precisamente o que faz valer uma viagem ao país. Estas experiências – de contemplação ou participação – tornam a Índia este destino tão fabuloso, para além do que já encanta seu patrimônio cultural e arquitetônico. Se ainda não o tiver percebido até então, será ali, na Praça Sardar de Jodhpur, que o visitante verá consumadas todas as verdades e clichês que ouviu do país, tudo aquilo que lhe pareça tão verdadeiro quanto seu oposto, e tão confirmável quanto enganoso.

Misturam cores, do rosa ao verde, do verde ao vermelho, do laranja ao amarelo

Aquela, decididamente, é uma vida que não nos pertence, mas quase podemos a senti-la como nossa, como se houvesse um princípio ativo oculto no ar que entra pelas narinas, chega aos pulmões e pela corrente sanguínea, termina no cérebro. E como os deixando num estado alterado de consciência, consagra-se num êxtase e nos marca como cicatriz.

Johdpur é mais que uma cidade que merece ser vista e terem contadas as experiências nela vividas; é para jamais esquecer. Por isso me apraz tanto agora escrever e reviver aqueles momentos.

Quanto melhor o envolvimento, maior o desgaste, mas o cansaço mental, às vezes exaustão, de alguma maneira é compensado. Os contrastes entre beleza e pobreza são invasivos, e por certo hão de ferir a sensibilidade do observador, já que antes atingem a dignidade humana. Chegam a magoar, entristecer, marcam o observador, mas são efeitos que passam, ainda que não se esqueçam. São como ferimentos, que um dia doeram, mas viraram cicatrizes: já não doem, mas lembram ter doído. E quando o coração parece cansado, o que os olhos enxergam desperta o ânimo novamente. E se chorar é natural para os mais sensíveis, sentir as lágrimas discretas e silenciosas correndo sob os olhos é parte da experiência. Ao final, entre mortos e feridos, salvamo-nos todos e, então, a Índia torna-se uma droga que depois da abstinência apela ao regresso.

Fotografo tudo com intensidade fora do comum e sinto o calor do processador da câmera esquentar a palma de minha mão. Desligo-a. Enquanto ela e meu cérebro esfriam, entramos no modo “repouso”. Deixo-me à contemplação dos pombos, que em bando agitados tiram rasantes de minha cabeça. Acompanho suas evoluções como se buscasse nelas uma tranquilidade reparadora. Volto à Terra e percebo que não teria sido tão perfeita a visita à cidade sem que tivesse vivido aqueles exaustivos, tortuosos momentos na Praça Sardar, o lugar mais exuberante de vida em Jodhpur.

Preciso trocar dólares, digo a Gajraj, nosso guia .

Ele nos leva a uma pequena loja de chás, massalas e incensos, com a melhor variedade da cidade, especialmente o pimentão vermelho de Mathaniya e darjeelings embalados a vácuo.

O proprietário é um dos melhores cambistas da cidade, nos diz o guia.  

O sol já anuncia sua ida para o Japão quando peço para retornar à torre. Subimos quatro ou cinco degraus que levam ao seu embasamento e depois ao topo, onde chegamos ao relógio para ver seu mecanismo. Desde este plano inicial, ligeiramente elevado em relação ao da praça, assisto à vida indiana passar e compreendo ainda melhor a lógica de seu movimento enquanto os sons que misturam vozes com ruídos da rua enchem os ouvidos.

A Torre do Relógio, ou Ghanta Ghar

Construída pelo marajá Sardar Singh, é uma parte importante da história da cidade. Tem alguma beleza e atrai seu desenho de uma arquitetura distinta. Cabe um olhar cuidadoso neste marco da cidade, ponto turístico que não atrai turistas, já que nenhum estava por ali disposto a pagar algumas rúpias para subir suas estreitas escadas, talvez desconfiados de sua estabilidade. No topo, conhecemos o Sr. Mohammad, homem que cuida do mecanismo e mostra como as coisas funcionam por ali.  O espaço é apertado, mas a experiência e o mecanismo do relógio valem a pena, muito embora a melhor atração seja mesmo o Sr. Mohammad. Ele e seu filho são, atualmente, as duas únicas pessoas que sabem fazer o relógio funcionar.

Um passeio pelo Summer Market e pelo Sadar Market de Johdpur

O enigma clássico indiano que emana das ruas das cidades do Rajastão confunde e enfeitiça quanto mais nos aprofundamos em seus cenários. Da praça para as vias escondidas por trás dela, os caminhos são uma sucessão de surpresas, de encontros e experiências. Arquitetura, arte, cultura, comida e gente, tudo tem o carisma especial que só se encontra na Índia.

Uma série de bazares especializados por tipos de mercadorias vendem de salwar kameez a móveis, de roupas de casamento e artesanato a calçados, de bordados, tecidos, marionetes e especiarias a alimentos, joias, brocados e pashminas, mais leite e queijo, chá, tâmaras, implementos agrícolas, frutas, verduras, legumes, produtos de beleza, flores, óleos e perfumes, especiarias, jelabi, comida e chai. cada qual tem seu nome: Sojati Gate Market, Nai Sarak, Mochi Bazaar, Kapraa Bazaar, Summer Market, Sarafa Bazaar. É preciso algum preparo para explorá-los, especialmente a companhia de um guia, pois são um emaranhado de becos antigos e movimento que confunde.

Uma loja de fantoches rajastanis me atrai especialmente. Os bonecos têm grandes olhos e roupas brilhantes, ficam pendurados por cordinhas à espera de alguém para lhes embalar e dar-lhes vida. Recordo-me das apresentações que já assisti e lembro de seus movimentos. Contam histórias dos tempos mogóis, de batalhas, romances, bravura e baladas. Ao fim da caminhada, paramos para beber um fabuloso lassi de manga com gengibre, cremoso e gelado no ponto certo, o melhor que provamos na Índia. Depois de uma hora numa loja de pashminas, encerramos a exploração dos bazares de Jodhpur.

No “caos feliz”, o Toorji Ka Jhalra, um suntuoso baoli

Ainda que pareça de outro planeta, quase uma insanidade coletiva, desorganizado na aparência, o caos que faz sentido e tem funcionalidade se dissipa assim que nos afastamos da praça e saímos dos mercados. Entramos na rua Tunwar ji ka Jhalra e continuamos por becos, até chegarmos a um grande largo onde fica Toorji Ka Jhalra, um suntuoso baoli escondido num canto da cidade velha. Poucos turistas vão até ali, apesar de seus setecentos anos de idade, intermináveis degraus feitos da mesma pedra dos palácios que conduzem a um abismo, profundo e fascinante, com pavilhões e colunas, que o torna uma preciosidade imperdível, cujo desenho intrigante tem padrão repetitivo e harmonioso. Não resisto à vontade e desço alguns degraus. Não chego à profundeza, onde fica a água verde acumulada, mas sinto o frescor. No Verão e nas monções, jovens mergulham dos degraus mais próximos à água e mulheres recolhem água em cacimbas. Observo e fotógrafo, deslumbrado, satisfeito, verdadeiramente realizado por vê-lo e registrá-lo na câmera.

Baoli Toorji Ka Jhalra

Tornei-me grande fã dos baolis desde a primeira vez que vi um destes. São construções inigualáveis que acredito só existirem na Índia. Quando programamos a viagem, selecionamos três que desejávamos visitar, entre eles o Tooriji ka Jhalra de Jodhpur, cuja lenda diz ter sido construído por uma rainha, embora a história registre que foi pelo Marajá Abhaya Singh, em 1740. Se eu tivesse dom artístico, reproduziria a imagem em rabiscos, a lápis ou em pinceladas molhadas numa aquarela em tons pastel. Registro como sei e posso, com fotos, exercendo o ato criativo que dura apenas um breve momento, o instante relâmpago, o dar e receber durante o tempo suficiente para nivelar a câmera e prender a presa fugaz em numa caixinha[1].

Baoli Toorji Ka Jhalra

Índigo blue, anil, azul. Para onde foi o azul?

Blue city?

Perto do baoli ficam as casas azuis. Eram tantas há alguns anos que deram o apelido à cidade. Diferentes explicações definem o uso da cor, embora pouco importe. Entre elas, a religiosa, pois seus residentes pertenciam à classe brâmane – a mais alta da sociedade hindu – e pintavam suas casas assim para distingui-las das demais.

Shiva também seria um motivo do azul. Afinal, o deus com corpo de homem e cabeça de elefante tem a cara dessa cor. Outra explicação mítica afirma que o fundador da cidade – Rao Jodha – mandou pintar as casas ao redor do forte para que a vista se parecesse com o mar. E por último, mas não menos importante, porque a cor azul protegeria as casas contra mosquitos, além de repelir a insolação, mantendo-as frescas.

Contudo, hoje, o apelido “Cidade Azul” parece inapropriado, pois o “mar” de casas da cor índigo que se estendia por uns dez quilômetros ao longo das muralhas da histórica cidade velha, hoje parece uma poça. O “bairro azul” já não passa de algumas ruas, mas ainda vale procurar por aquelas que insistem em manter o tom quase violeta, de anil, a cor de um dos mais antigos corantes usados pelo homem, cuja história começa exatamente na Índia.




[1] Henri Cartier-Bresson

ÍNDIA – Jaisalmer

  NIK_0815Os  cenotáfios de Bada Bagh, periferia de Jaisalmer

                           ACORDO ao som de pássaros e abro bem os olhos com o sol do deserto. Sua luz entra pela cortina e ilumina o chão do quarto, como se me dissesse “é hora de levantar”. O precursor de todo bom despertar é sempre uma noite bem dormida, então, levanto-me bem disposto e vou à janela de ferro e vidro. Avisto as aves em algazarra disputando algo, talvez sementes, quem sabe, insetos. O arbusto sem frutos encostado no muro de pedra da propriedade é o único tom a contrastar com o monocromatismo do deserto e da cidade. Sinto um cheiro agradável e o nariz não me engana: estou no deserto.

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O Lago Gadisar, Jaisalmer 

                         O calendário acaba de mudar para Janeiro. A viagem começara 4 dias antes em Delhi, mas era em Jaisalmer que eu me sentia em férias, naA última cidade da Índia antes do Paquistão, de uma terra nua e seca do deserto Thar, nosso primeiro destino depois da capital, a adorável urbe consumidora da sanidade dos turistas, das buzinas, do trânsito alucinante, das experiências iguais, dos tuk tuks, do patrimônio fenomenal, das imparáveis multidões e da comida de rua sendo um contraponto notável à silenciosa Jaisalmer.

                         Embora eu já à altura fosse um viajante com alguma experiência, e mesmo tendo estado na Índia duas vezes, não escapei das marcas daqueles dias intensos na frenética capital e das interferências em minha sensibilidade. Contudo, agora, com a areia beirando a janela do quarto do hotel de um só andar, eu me sentia um “descobridor” da Índia.

                         O ar está “limpo” e imóvel, não levanta poeira nem mexe com a copa das árvores. Faz frio e está seco, e a pouca umidade sinto na aspereza da pele das mãos.

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O forte de Jaisalmer

                          Concluo o adorável e fugaz conforto que a janela me proporciona,  ainda que me reserve apenas uma nesga da cidade. Ainda assim, é um convite à exploração e um incentivo às expectativas. A segunda etapa da viagem ganhava novo ritmo a partir dali, com novos horizontes e descobertas por virem. Sabíamos que e mesmo que aparentemente Jaisalmer não se compare à extensão patrimonial de suas concorrentes Jaipur, Johdpur e Udaipur, é cidade de grande personalidade, irrepetível em todo o Rajastão e com boas atrações. Do forte Jaisalmer aos havelis, das fachadas de pedra primorosamente esculpidas, dos cenotáfios de Bada Bagh ao Lago Gadisar, da exploração das ruas e seus mercados e templos jainistas.

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Os templos jainistas

                         Sou então tomado pela vontade de deixar a janela para ver e sentir o que é bom, mau, belo e feio da “Cidade Dourada de Jaisalmer”, clichê com o qual não resisti brincar , o mais usados em blogs, revistas, jornais, livros e afins. Há outros, como “Cidade das Mil e Uma Noites”, “Joia dourada do Rajastão”, contudo, o mais popular é este. Uma pesquisa no Google (“Jaisalmer, a Cidade Dourada”) resulta em 28 primeiros que usam o apelido intitulando suas postagens.[1]

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O bom e o belo: a cidade e seus habitantes

                            Jaisalmer é pequena e acolhedora, tem passado histórico, como todo o país, e em especial o Rajastão, mas particularidades. Desenvolvida em torno do forte, que domina a paisagem do alto da colina, ao entrarmos em suas vias estreitas ela sobressai. Pequena, mas com algo mais a conhecer para além do óbvio. A atração maior, depois do forte, são os havelis Patwon Ki e Nathmal Ki, antigas mansões com fachadas lindamente esculpidas, dois entre os cinco outros construídos num cânion de havelis adoráveis e atmosféricos, um dos lugares mais atraentes e desafiadores para cliques fotográficos.

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No haveli, janela com vista para o forte

Os havelis Patwon Ki e Nathmal Ki

                          O Nathmal Ji Ki Haveli foi residência oficial de um ministro-chefe do rei. Tem uma história interessante, pois foi projetado por dois arquitetos. Para olhares ingênuos, a mansão de vários andares parece uma só, mas quando o guia nos aponta as diferenças, a casa parece assimétrica, ainda que única, com metades singularmente diferentes, todavia sem qualquer linha que limite a partição, com os dois lados carregando diferenças sutis. Diferentemente do Patwon Ki, o Nathmal Ji Ki não é um museu aberto ao público, então, visitantes só podem chegar até o pátio de entrada.

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                         Os dois elefantes de arenito do Nathmal Ji Ki Haveli são representações icônicas das esplêndidas esculturas arquitetônicas de Jaisalmer e do Rajastão. Os havelis, também, dos mais importantes do Rajastão, chegam ao topo da qualidade do desenho e da ornamentação arquitetônica civil, constituindo-se numa forma extraordinária de expressão artística, cujas jharokhas, ou varandas, são obras-primas do trabalho construtivo em arenito amarelo, verdadeiras esculturas em filigranas, perfeitos exemplos da riqueza do artesanato, que apesar de ser em pedra, é fino, elegante e detalhado.

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                         O Patwon Ki Haveli é outro exemplo convincente da  riqueza dos que ali moravam. Construído na primeira metade do século XIX, foi  o maior de Jaisalmer. Guman Chand Patwa, seu proprietário, foi um abastado comerciante à época que encomendou a construção de cinco moradias nos andares do prédio para residirem seus cinco filhos. No interior, pinturas de parede esplêndidas e mosaicos espelhados. Contudo, sua fachada, uma escultura artística em arenito, tornou o haveli um ícone na cidade. Operado pelo governo, é hoje um museu com loja de antiguidades e artesanato.

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Um cânion de havelis

                         Aproximando-nos do haveli, vimos detalhes de suas varandas e fachada. Subimos o haveli por sua escada e outros detalhes intrigantes a ornamentação interior, decorado com pinturas e esculturas. Num nível acima, algumas salas vazias e pequenas janelas e nichos davam vistas para a rua. Apesar de não haver mobiliário e o estado geral não ser dos melhores, foi uma sensação de volta no tempo conhecer a antiga, autêntica mansão desde o interior. No nível mais alto, provavelmente o cômodo principal da residência, grandes janelas dão vistas para o Forte Jaisalmer. Depois, um terraço com uma vista ainda melhor e mais ampla. Descemos as escadas e voltamos ao vestíbulo de entrada, onde um belo pavão dava as boas-vindas aos visitantes.

Pelas ruas de Jaisalmer antiga

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A vaca e o tuk tuk

                        Voltamos à rua e vagamos pela labiríntica rede de vias pequenas da cidade antiga, desde os havelis  Patwon ki Haveli e Nathmal ji k Haveli até a região do Sadar Bazaar, passando por residências, comércio e ruas onde os moradores conversando, por pequenos templos e lojas, vendas e mercados de rua, por vacas passeando e às vezes até entrando nas casas. Apesar de estarmos numa região remota e desértica, a qualidade dos legumes e verduras era boa e surpreendentemente frescos e abundantes. Assim como em todo o Rajastão, vimos muitas lojas com roupas e artigos de casa e artesanais coloridos, de lanches, bolos doces e bebidas indianas, produtos de couro de camelo, antiguidades, bordados, cobertores, xales, tapeçaria, bonecos, caixas de madeira esculpida, lâmpadas de óleo e tecidos de seda e algodão.

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Convite de casamento

                        Os moradores locais acreditam que sendo Jaisalmer uma cidade pequena, onde todos se conhecem, a maneira mais eficiente de divulgar um casamento por acontecer é fazer um grafite diante de sua casa. Muitos comparecerão? Sim. E esta é uma peculiaridade de um casamento à moda indiana, convidar um a todos. Por gerações a tradição vem sendo mantida e preservada, inclusive pelas atuais. Independentemente, há beleza e charme na forma como eles são pintados nas paredes, de modo a terem se consagrado numa forma de arte popular e parte integrante da cultura local.

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Antigas moradias de abastados de Jaisalmer

A serendipitia e a fotografia

                        Entre esses caminhos serpenteantes, com velhas mansões, lojas de doces, de artesanato, mercadinhos, sujeira, vacas, muitas vacas, cães, restos, lixos e pedras no caminho, ruas com raras pessoas, cruzamos com Richard i’Anson[2], um dos maiores fotógrafos de viagens do mundo, do qual sou fã e seguidor no Instagram. Representante da Canon Australia, Canon Master Photographer, Embaixador da Fundação Australiana do Himalaia, membro da World Nomads, Mentor de Bolsa de Fotografia de Viagem da Austrália, um dos fotógrafos dos episódios Tales by Light, da National Geographic Channel no Netflix, diz ele, numa entrevista, que “a Índia está entre os cinco lugares que me fizeram”. Então, ali em Jaisalmer, na “esquina” com o Paquistão, rodeados pelo Deserto Thar, naquela manhã e naquele beco vinha ele em sentido contrário com sua câmera apoiada no ante-braço direito. Demo-nos conta disso segundos depois, e confirmamos a suspeita de que era ele que havíamos visto recolher a bagagem no mesmo voo que o nosso, um dia antes. Corri ao seu encontro e dobrei o mesmo beco em que ele entrara segundos antes.

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Com Mr. Richard i’Anson em Jaisalmer

                       Chamei-o:

Mr. Richard!, Mr. Richard!

                       Ele virou-se, e com a calma e uma simpatia que depois soube lhe ser habitual, ouviu minha apresentação, também com minha câmera à mão:

Sr. Richard, sou brasileiro do Rio de Janeiro, um grande fã e seu seguidor no Instagram, no Facebook, em seu site oficial. Assisti encantado algumas vezes ao seus episódios em Tales by Light. Estamos eu e mais três familiares viajando pela Índia, somos todos apaixonados por fotografia e quero dizer-lhe que é uma honra conhecê-lo.

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O falso sadhu mais famoso da Índia. Uma foto, uns algumas rúpias…

                       Surpreso, disse-me que esteve no Rio de Janeiro fazendo uma matéria sobre o Carnaval e que rodava o mundo fotografando festivais. Perguntei se podíamos fotografá-lo e ele respondeu com um sorriso. Foto feita, tietagem explícita consumada, saímos marcados pela serendiptia. Afinal, não é todo dia que se esbarra com uma personalidade de quem somos fãs, especialmente tão receptiva e simpática. Dali em diante ainda o encontramos acompanhado de sua esposa em duas outras oportunidades. Decidimos não mais abordá-lo nem o olharmos, a fim de evitarmos incômodo.

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Pelas ruas de Jaisalmer

NOTAS:

[1] Desisti de contar os que assim o faziam no corpo do texto, não no título. Que fique claro para o leitor que a cidade tem a mesma a cor do forte do deserto e das pedras de arenito, que “douram” tudo. Tirando, claro, as árvores, o céu, os carros, motos, as pessoas, as vacas e o artesanato, bem como os multicoloridos Ganeshas pintados nas paredes das casas

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[2]Página:https://richardianson.com/about-2/

Instagram: https://www.instagram.com/richianson/?hl=pt

Face:https://www.facebook.com/richardiansonphotography
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/richard-i-anson-7720018

ÍNDIA – De Agra a Jhansi, de trem

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                PARA quem já foi à Índia, e lá tenha sentido despertar uma espiritualidade inquietante, daquelas mesmo, carregadas de todos os estereótipos possíveis de caber numa cabeça, com direito à crença em todos os deuses hindus, tão poderosa que o fez jurar que sua outra vida foi na beira do Ganges, duvido que seja um indivíduo que tenha “visitado” o banheiro público da estação de Agra. Não há espiritualidade ou crença capaz de resistir àquele lugar. Mesmo a indiana. Os contrastes da imensa espiritualidade com a realidade (o sistema de castas e de culpar sempre a mulher no caso de estupros) em parte deve ter nascido ali, no banheiro da estação de Agra.

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              Um turista brasileiro, por exemplo, mesmo o mais crente, desses que acreditam até no PT, em homeopatia, em medicina alternativa, em guru indiano, em ervas curadoras milagrosas, no poder curativo do pensamento positivo, em tarô, búzios, chupa-cabra, numerologia, na previsão de futuro, em quem diz “trago seu amor em três dias” e naquelas “consultas” com astrólogos que acertam tudo de sua vida,  ali reavaliaria suas convicções.

               No país dos sem privada, o banheiro daquela estação é o túmulo de qualquer crença. Nesta e nas vidas passadas. A experiência de visitar o lugar é a mais escatológica que alguém possa ter a “oportunidade” de vivenciar. Depois daquilo, não é de se estranhar que na Índia muitos prefiram “fazer” ao ar livre, que mais de 500 milhões de pessoas naquele país evacuem a céu aberto. Parte delas nos trilhos das ferrovias, especialmente no início da manhã, antes que as multidões circulem.

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                    A Estação Agra Cantt é movimentada, mesmo nas primeiras horas da manhã. Nem tanto naquele domingo, pois não havia multidões nas amplas plataformas, contudo, nunca se está só nestas paragens. Gente sempre tem. E ali, sentada nos bancos e no chão, com ou sem bagagem, ouvindo anúncios de chegadas e partidas, não era a estação exceção à regra. Fazia muito frio. E nós estávamos ali de pé junto aos trilhos, encostados no carrinho com nossas malas quando nos deu vontade de “visitar” o banheiro. Mesmo para nós, que já estávamos em peregrinação turística pela Índia há quinze dias, teoricamente enrijecidos pelas visões de pobreza e sujeira, de toda a sorte de heróis humanos e animais tentando sobreviver, lembro de cada minuto da espera do trem. Íamos para Jhansi, esperando que o banheiro da composição fosse frequentável.

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                    Nós quatro já estávamos um pouco debilitados pela ingestão de algum veneno alimentar intestinal. Dois de nós já tivéramos as tripas reviradas, noites “dormidas” no trono, algo que nem mesmo nossas farmácias de viagem bem abastecidas e as consultas à nossa irmã médica no Brasil deram conta. Os banheiros, nestes casos de indisposição, eram o último lugar onde imaginávamos ir em busca de alívio imediato. Não há novidade nisso, muitos já se falou e não pretendo alongar-me no terma, pois quem já leu qualquer relato de viagem à Índia, sabe que banheiros públicos são o pior lugar para o alívio de diarréias. Que dirá o daquela estação. Fosse descritível seu estado, embora verdadeiramente trágico, eu preferiria “fazer” ao ar livre. Então, é um inconveniente impublicável contar-lhe sobre ele. Gosto de desafios, mas este é inconfrontável.

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                  Minutos depois, já acomodados em nossos poltronas no vagão, fui “visitar” o toalete da composição. Para os padrões indianos, sobretudo para o que havíamos visto na estação, era um paraíso para turistas indispostos em seus tortuosos, mas maravilhosos dias de viagem pela Índia. Limpo e fresco, com duchinha e papel. E não era daqueles com buraco no chão, que alguns chamam de “bacia turca”, o vaso sanitário “embutido” no chão, você tendo que fazer suas necessidades agachado, muito embora seja bastante mais conveniente porque não se precisa ter contato com o local onde outra pessoa sentou antes. Este era com vaso “normal” e perfeitamente frequentável, apesar dos pesares.

                A viagem foi ótima. Chegamos bem em Jhansi, de onde fomos de carro à incrível Orcha e depois à adorável Khajuraho.

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ÍNDIA – De Jaisalmer a Jodhpur, de carro

O Outono da minha Primavera

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                          MUITAS vezes sinto que sou o lugar onde estou. Hoje,  aqui em Jaisalmer, sou Jaisalmer.  É dia de meu aniversário,  o quinto de nossa viagem pela Índia e meu despertar foi brilhante. Descansado,  a cama já não parece cativeiro. Mas este não sou eu; acordo e me levanto, muito embora o frio hoje convide à preguiça das cobertas.  O ar também contribui para o bem-estar: já não é mais tão carregado quanto o da capital, dá-me a energia com que saio da cama, louco pela janela, não pelo banheiro. Vislumbro a cidade e sinto-me bem, afastado da rotina doméstica, bem integrado à indiana, apesar da não tão boa experiência no deserto, ontem. Observo-o agora da janela. A cidade está ao fundo e ambos têm a mesma cor.

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                           Desertos sempre me inspiram. mesmo aquele. Se alguém duvida que desertos motivem poetas, escritores,  seresteiros, namorados e fotógrafos, deveriam conhecer qualquer um.  Mesmo o de Jaisalmer, que o turismo predatório subtraiu suas melhores oportunidades de experimentarmos o romantismo que consigo encontrar neles.  Mesmo ali, em que a mente não consegue mais perambular pelas fantasias, ainda é um deserto. Sem a mais remota possibilidade de lembrarmos dos contos de Sherazade, história ali morta e enterrada pelas rodovias barulhentas às suas portas,  por montanhas de camelos com turistas em cima, acampamentos luxuosos e outros nem tanto,  shows turísticos e barraquinhas com sonoridade bombando, jipes cruzando e evoluindo nas dunas discretas e músicos à caça de turistas, aproveitadores e vendedores, areias sujas de lixo, sobretudo restos mortais daquilo que alguém um dia comeu ou bebeu.

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                       A paisagem me aquieta a mente, leva a um breve balanço dos meus anos de existência. Hoje completo mais um, estou no Outono de minha vida,  de minha pequena eternidade,  embora me sinta na Primavera. A Estação já passou, e eu nem precisava saber, pois o corpo e a pele demostram, mas sobra-me entusiasmo, ainda que eu reconheça que o “caminho” é para o Inverno, derradeira Estação da minha vida. Às vezes aparento andar meio cansado da lida, mas o vigor natural e umas vitaminas me empurram. Estou feliz., especialmente neste dia dois de Janeiro. Por estar vivo, na Índia e na companhia de três pessoas queridas. Espero – como é natural para os que passaram dos 60 e se aproximam dos 70 – com menor ansiedade, maior serenidade, o que me aguarda esta quarta-feira.

                        Vou ao desjejum e no caminho escapo ao jardim do hotel. A hora favorece o monocromatismo. Tudo se colore do tom sépia. Temos uma hora para o desjejum, quando ao final sairemos para nosso longo dia de jornada a caminho de Jodhpur. Inauguraremos nossas incursões rodoviárias pela Índia, algo estimulante e novo até aquele momento. Tenho tempo. E o café no hotel é espartano. Quinze minutos são mais do que preciso para alimentar-me.

                     Estamos num hotel em trecho aparentemente interminável de um campo seco, na beira da estrada de Jaisalmer a Jodhpur, no topo de um declive rochoso, periferia da cidade, esbarrando na fronteira com o Paquistão. Parece o último lugar da Índia antes da “terra de ninguém”. Dunas comem o asfalto e nada parece poder viver por ali. Ainda assim, encontro beleza na aridez,  mesmo subtraído – no dia anterior – de todo romantismo de meu olhar.

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                      A partida para o próximo destino é esperada com intensa expectativa, porque estradas são parte das intensas experiências que se vivem na Índia. As distâncias ali são medidas não por horas ou quilômetros, mas por experiências vividas. Ali, como nas cidades maiores, o trânsito é caótico, mas tem uma harmonia sem conflitos com a desordem. Depois de uns dias na Índia a gente continua sem compreender, mas percebe que sabe-se lá como, os envolvidos alcançam serenidade em meio ao estado geral de desordem.  Enquanto espero, delicio-me com o contraste da luz do entardecer de ontem com o desta dramaticamente brilhante manhã.  A cidade aparece inteira, enche meus olhos de sua cor e colore do mesmo tom as casas que nos rodeiam. Surpreende-me a importância daquele momento, embora pequeno. Atribuo esta marca aos mistérios que só as viagens me reservam, seus delírios perenes e fugazes que tornam-se prazeres, grudam na mente feito papel em bala Halls.

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                       Começaremos em breve nosso primeiro trecho rodoviário da viagem, uma nova experiência a vivermos na Índia. Palak, nosso amigo indiano, dirige a Van e nos protege. Nos acompanha desde o primeiro dia em Delhi e assim o fará por todo o destino. Está a postos com o sorriso discreto e genuíno recostado orgulhosamente na confortável Van Tempo[1] de 8 lugares, veículo que só se encontra na Índia. A vencer, teremos 5 horas e estimulantes 283 quilômetros, tempo e espaço que separam Jaisalmer de Jodhpur, a “cidade dourada” da “cidade azul”, os cafundós da Índia do próximo destino. A direção a seguir é noroeste, via Pokharan, pelas rodovias NH11 e NH125. Outras aventuras rodoviárias teremos depois nesta viagem, mas a primeira tem o sabor do ineditismo. A primeira vez numa estrada na Índia a gente nunca esquece, tal qual o sutiã a mocinha do anúncio da Valisére nos anos 80.

                    Palak arruma nossa bagagem no espaçoso compartimento de bagagem do carro e nos pede para conferirmos. Depois, abre a porta para que entremos, estende a mão para alcançarmos os degraus e já ao volante, pergunta:

                   – Passaportes, óculos, celulares? Não esqueceram nada?

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Pela janela do carro 

                   Partimos. A maioria dos carros estacionados no hotel também. Alguns tomaram o caminho da cidade, outros o da estrada. Eu tinha muitas razões para acreditar que seria uma viagem com boas paisagens e emoções até Jodhpur. Nos afastamos do hotel e logo passamos a fazer parte do deserto. Viagens por estrada na Índia presupõem cada parada uma atração, uma jornada quase tão boa quanto o destino. Teremos tempo para rever e organizar as fotos no computador, trocar algumas entre nós, ler, conversar, comer, apreciar a paisagem e fotografar e, quem sabe, uns bons cochilos.

                   A viagem para Jodhpur corre bem, os companheiros já aparentemente integrados ao país, um alívio pessoal, pois livrara-me do peso da culpa por tê-los influenciado. Vê-los assim é um prazer adicional, já que viajar é algo muito pessoal, intransferível, e cada destino visto pelo indivíduo segundo sua própria maneira de enxergar o mundo.

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                    Arrumo um bom lugar para pôr minha caixinha de som bluethooth e aciono o celular para tocar minha play list no Spotify com a concordância de todos. Uma das canções mais lindas entre as que tenho é dos anos 1980, composta pelo talento incomparável de Pat Matheny, cantada por Pedro Aznar e chama-se Dream of the Return[2]. Enquanto toca, sigo seus versos:

                      …Viajar la vida entera, Por la calma azul o en tormentas, zozobrar, Poco importa el modo, si algún puerto me espera…

                  Minha imaginação progride quanto mais mergulho na canção e na paisagem. São dez e meia da manhã e suponho que umas cinco horas ainda nos esperem até o destino. Às vezes, não é tanto a duração da jornada que traz sentido às viagens na Índia, mas os marcos no caminho, um álbum cultural de experiências e imagens vibrantes, neste pedaço do subcontinente, um retrato do Rajastão.

                       “…Viajar a vida inteira, Pela calma azul ou em tempestades emborcar, Pouco importa o modo, se algum porto me espera…”

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                     Volto à estrada e me lembro da máxima indiana: To drive in India you need three things; good breaks, good horn and good luck[3].  A rodovia é boa, surpreende quem espera o caos no asfalto. É bem pavimentada, tem boa sinalização e longas retas. Contudo, nem sempre a mão de direção é respeitada, motivo de alguns sustos e surpresas que nos fazem colocar as mãos no encosto da frente. Às vezes nem parece rodovia, porque trafega bem mais do que se espera numa rodovia, além de carros, motos e caminhões, camelos, macacos, vacas, bicicletas, tuc-tucs, tratores, carroças e gente, muita gente. Nos congestionamentos ocasionais, acidentes, pedágios e a trilha sonora das buzinas que nos lembram o trânsito de Delhi. Aqui e ali, brilham as mulheres rajastanis com seus trajes – ghagras, cholis e odhnis[4] – como se a estrada fosse um passeio, o acostamento fosse a “calçada”. Caminhões sobrecarregados de pellets para indústria de plásticos trafegam como podem, invariavelmente com a inscrição Horn please[5] no para-choque e exercendo o buzinaço como lhes é natural. Ônibus apinhados fazem recordar latas de sardinhas, homens carregam feixes de lenha na cabeça, bancas de legumes e verduras ficam nas margens da estrada defronte a vilarejos, carroças puxam-se por búfalos e carregam gente e mercadoria. Na Índia, a estrada pertence a todos.

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                   O trânsito do qual tanto se fala, sobretudo nas grandes cidades, para o desavisado visitante parece não obedecer aos sentidos lógicos de organização. Mão e contramão são regras subjetivas. É surpreendente, mas alguns dias no país e o curioso espectador consegue notar seus códigos, as convenções informais, a funcionalidade da bagunça. Se não fosse assim, não funcionaria, travaria. E ainda que do jeito peculiar indiano, lento e cheio de perigos, não é impossível perceber que regras existem, ainda que informais, algo bem definido no livro de Andrew Solomon[6], ”Lugares distantes: Como viajar pode mudar o mundo – que em alguns lugares do planeta”: Os únicos que dirigem em linha reta parecem ser os motoristas bêbados.

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                  Até então não encontrei guardas organizando a loucura. Nem mesmo nas cidades, o que é surpreendente para quem vem de uma megalópole como Delhi. Tampouco radares aplicando multas ou agentes de trânsito. Se existem, não os vi. Assim como nenhuma briga de trânsito. Se há governo na Índia, ele não aparece nas ruas controlando o trânsito, porque ele parece tocado por cada indivíduo, seguindo regras populares. A maneira mais fácil de compreendê-las é com a observação. Por exemplo, as buzinas. São irritantes, ensurdecedoras, infernais, extenuantes. Mas não são “loucura”, fúria levada a cabo por condutores desesperados. Não. Buzinaços ensandecidos ocorrem sim, quando por exemplo alguém atravanca o trânsito, mas, em verdade, regularmente há um código complexo o bastante para ser plenamente compreendido e praticado apenas indianos ou expatriados. Os toques nas buzinas têm múltiplas funções. Das mais óbvias – pedir passagem, avisar de algum risco (algo como “estou aqui”) – às mais informais: cumprimentar (“olá!”). E parecem existir hierarquias, tais como os mais fortes, os médios, os mais fracos. Em linhas gerais, quando dá, os mais lentos usam a pista esquerda e os mais rápidos a direita. Mas, não sei porque motivo, os tuk-tuks trafegam pela faixa central. Sempre que precisarem, por qualquer motivo, passam para outras pistas, mas retornam à sua assim que der.

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NOTAS:

[1] Force Motors Limited, montadora indiana de automóveis, conhecida como Bajaj Tempo Motors, joint venture com a Bachraj Trading Ltd. e a alemã Tempo e parcerias com as alemães como a Daimler, ZF, Bosch e a MAN.

[2] Dream of the Return – Álbum “Letter from Home” (1989) – Pat Metheny Group – Pat Metheny: Acoustic and Electric Guitars, 12 String Guitar, Soprano Guitars, Tiple Guitar. Pedro Aznar: voz

[3] Ditado popular indiano: “Para dirigir na Índia, você precisa de três coisas: bons freios, boa buzina e boa sorte”

[4] Ghagra, saia longa bordada e plissada, colorida, estampada, de seda, algodão ou crepe. Kanchli (ou choli ou kurti), vestimenta da parte superior do corpo, colorida e lisa, coladas no corpo. O toque étnico é dado por enfeites como espelhos, miçangas, lantejoulas, corais, conchas e bordados. Odhni, ou chunar, é um pedaço longo de tecido, com 2,5 metros de comprimento e 1,5 de largura, usado como véu, feito em tecido leve e transparente, bordados com contas ou outros enfeites.

[5] Buzine, por favor

[6] Andrew Solomon, um dos pensadores mais originais de nossa época, reúne neste livro escritos sobre lugares que passaram por abalos sísmicos culturais, políticos ou espirituais, um escritor de política, cultura e psicologia que vive em Nova Iorque e Londres e colabora com The New York Times, The New Yorker, Artforum, Travel and Leisure, e outras publicações.

ÍNDIA – A Velha Delhi

Acordo mais cedo do que preciso. Desperto sentindo-me como pilha precisando de recarga. O relógio biológico não acompanha meu desejo de entrar no compasso dos 17 milhões de habitantes de Delhi, apesar dos cuidados que tive, o preparo do terreno na noite anterior, quando cerrei as cortinas, eliminei frestas, apaguei vestígios de luz que atrapalhassem a produção de hormônios. Levanto-me como se a cama fosse cativeiro. Vou à janela ver o pedaço de paisagem que me reserva da cidade. Estão acesas as luzes, e assim a poluição atmosférica torna-se ainda mais notável. Vejo-a bem marcada nos rastros alongados e nos halos que se formam ao redor das lâmpadas. A embaçada iluminação multicolorida do Rashtrapati Bhavan – residência oficial do Presidente da Índia – parece borrada. A degradação da qualidade do ar parece ainda mais evidente, contudo, não há jeito senão enfrentá-la, pois o dia será cheio e bem esperado de tarefas turísticas.

Amanhece frio, suponho como o anterior, que foi aquecendo com o sol amável da manhã até eu não mais precisar do agasalho. O frescor do inverno indiano em dezembro é um alento adorável, um incentivo extra à exploração da cidade, especialmente ao me lembrar do quão quente é o verão na Índia. Tomo um banho e tudo fica melhor. Estou quase pronto para Delhi.

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Se o que define uma cidade são arquitetura, arte, tradições, geografia, história, gente e comida, na Velha Delhi há uma interminável possibilidade de experiências em todas estas manifestações. Quando chegarmos à cidade mogol de Sha Jahan, mesmo embora aqui e ali possamos verificar que muito perdeu-se no tempo, ainda encontraremos uma miscelânea fenomenal de coisas e patrimônio da época. O que sobrou é único, e tem distinção excepcional, para além de caráter notável que consagra este pedação da cidade como um patrimônio vivo dos mais preciosos da humanidade. Há mesmo muitos lugares, cantos, monumentos e templos que contam detalhes de uma história rica, por vezes obscura e escondida, é verdade, mas noutras bem iluminada e clara. Um conjunto às vezes confuso de coisas diferentes, de experiências com muitas feições acontecendo intensa e simultaneamente, uma sobrecarga de informação e para os sentidos dos visitantes, que por si já fazem valer toda a viagem.

Começamos pela tranquilidade de Purana Qila – ou Old Fort, onde a história é ainda mais antiga que Shajahanabad, lugar cuja serenidade nos prepara para o enfrentamento do “olho do furacão” que é Chandni Chowk.

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Purana Qila

Apesar de ser um dos locais turísticos mais cativantes de Delhi, é pouquíssimo visitado, o que em se tratando de Índia, tem suas vantagens. Construído entre 1538 e 1545 por Humayun, é mais uma evidência da glória da arte mogol aplicada à arquitetura, em cuja área se destacam três portões majestosos: o Humayun Darwaza, o Bara Darwaza e o Darwaza Talaqi, todos em arenito vermelho e, dentro do forte, a belíssima mesquita Qila-I-Kuhna e o pavilhão Sher Mandal, construído para fins de entretenimento do xá. A mesquita é a mais bonita da cidade, e ainda que não tenha a imponência e a grandiosidade da Mesquita Jama, na cidade velha, é bem mais ornamentada e absolutamente vazia de gente.

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Deixando para trás os motoristas buzinando loucamente, aparentemente sem sentido, ao entrarmos na quietude do parque de Purana Qila, ou Old Fort, percebemos que além de um lugar magnífico, é um oásis bom para se fugir quando Delhi já estiver saturando com toda sua intensidade penetrante. Apesar das dimensões da área, vimos apenas um jovem casal ocupado com o namoro e dois funcionários.

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A mesquita Qila-i-Kuhna, Purana Qila

Da bela fortaleza pouco resta além de ruínas, embora o portal Talaqi Darwaza, que leva ao imenso parque interno, nos faça pensar o contrário, devido à sua perfeita integridade, a despeito da idade. O Sher Mandal, observatório e biblioteca de Humayun, de onde ele caiu do segundo andar e morreu, e Qila-i-Kuhna, a mesquita de arenito vermelho com incrustações de mármore branco e preto, apesar de únicas construções remanescentes, são singelos mas ótimos exemplos de arquitetura. O primeiro é um edifício octogonal de arenito vermelho com dois andares, cuja escadaria íngreme leva ao telhado, encimado por um chatri octogonal apoiado por oito pilares. Ainda se podem ver de fora os restos do trabalho de gesso decorativo e vestígios de prateleiras de pedra onde, presumivelmente, os livros do imperador eram guardados.

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O segundo foi construído por Sher Shah, é uma grande mesquita de um único corredor, um dos primeiros exemplos do uso extensivo do arco aguçado, que lembra o gótico, na região. O interior é ricamente decorado com elementos islâmicos e o prédio figura entre os experts como um marco de transição do estilo Lhodi – mais discreto e contido – para o mogol, mais grandioso e imponente. A fachada frontal tem desenho e decoração notáveis e o interior é surpreendente, com um iwan marmorizado, arcos, saliências no teto, abóbodas, colunas e arcos.

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