DE VOLTA À ÍNDIA – INTRODUÇÃO

O bom, o mau, o bonito e o feio

Dezembro estará terminando e nove anos terão se passado desde o primeiro encontro. Perto da meia noite, quando pousarmos no aeroporto Indira Gandhi, na imensa, pavorosamente caótica e arrebatadoramente sedutora megalópole, verei aquelas luzes compridas, suas auras esticadas ao redor das lâmpadas de um céu leitoso, riscos cintilantes de luz refletidos na atmosfera mais suja do mundo. O efeito é mágico, mas sinistro. Gosto dela mesmo assim. E se não fosse Delhi, não seria Índia.

Chegarei sem os medos da primeira vez, a Índia já não será mais “complicada, desafiadora e arrasadora”, mas carregarei outra responsabilidade: ter influenciado meus três companheiros para esta viagem. Haverão de achar a Índia tão fascinante, arrebatadora e inspiradora? Cairão de amores minha namorada, irmão e cunhada? Enxergarão a mesma beleza e grandeza? Reconhecerão perfeição mesmo com toda a aparente imperfeição indiana?  

Não sei se estava escrito nas estrelas ou se foi coisa dos gênios bonachões da tradição islâmica indiana, mas a paixão foi na primeira hora da primeira manhã. E em dezembro, quando a reencontrar, tudo o que é seu me completará, tornará melhor e maior. Das suas cores, seus sons e cheiros às coisas de Shiva, de Krishna, de Buda e Mahatma Gandhi. O meu país, a minha história de amor com um destino, o meu prazer em revisitá-lo e a minha crença de que será assim até o fim da vida.

Deixarei meus pensamentospara quando o avião tocar o solo e sentir de novo a dinâmica e a força do país,com a esperança de que conquiste, em vez de arrasar, seus novos visitantes. Esta viagem, minha terceira à Índia, foi moldada nas duas anteriores,condensada numa só, ampliada e revisitada para contemplar lugares em que nãoestive. Depois de carinhosamente desejada, intensamente pesquisada eexaustivamente programada, concluímos que a melhor e mais econômica maneira dechegar a Delhi seria voando pela EthiopianAirlines, com uma noite em Addis Abeba e, no dia seguinte, um voo noturno de6 horas a Delhi. Uma estada de trêsdias na capital, onde passaremos o Reveillone exploraremos o que for possível de seu fabuloso patrimônio e, depois então,por via aérea, terrestre e ferroviária, outras 15 cidades: Jaisalmer, Johdpur, Udaipur, Nagda, Jaipur, Amber, Ranakpur, Abhaneri, Agra,Fatehpur Sikri, Jhansi, Orchha, Khajuraho, Sikandra e Varanasi. Ao finaldo itinerário, possivelmente já entregues e gastos pelos prazeres intensos daviagem, voltaremos ao Brasil depois de 19 dias na Índia, de uma longa viagem de prazeres.

Começo agora a escrever e fecho os olhos. Penso e sinto bater outravez meu coração pela Índia. Dizem que é assim com as boas viagens, que nãoterminam jamais, que grudam na mente e vivem a nos rondar feito almas penadas. Paraos mais românticos, viram um caso de amor, e tal qual as paixões, sentem-se as mesmasemoções intangíveis, voltam a tocar o coração ao serem revividas. E quando terminam, começa o desejo insaciável de voltar.

Sinto-me assim ao voltar a escrever esta nova série sobre a Índia e revolvo a mente trazendo experiências encantadoras que se expressam em meus sentidos. Gostaria de saber contar tudo. E com o mesmo poder de transmitir ao leitor a intensidade com que me afetaram quando as vivi.  Será tão difícil descrevê-las que temo não passar da superfície. Ainda assim, caro leitor, tentarei. Afinal, esse é o fascínio de escrever. Então, deixe-me guiá-lo por esta jornada visual através desta série de posts fartamente ilustrados. Com “De volta à Índia”, tentarei descrever cada momento e compartilhar com você o privilégio de tê-los vivido.

Contarei tudo aqui. Estou com pressa de chegar! Namastê, Índia!

A seguir

Devolta à Índia – Capítulo 1 – Chegamos em Delhi


DE VOLTA À ÍNDIA – A viagem se aproxima e enquanto espero, reflito

Que o leitor me perdoe a ousadia da confidência, mas viajo como turista. E tenho aversão às pretensiosas diferenciações entre turistas e viajantes. Sou turista clichê, um clichê ambulante, que não procura disfarçar tal condição. Estou ainda mais feliz com esta viagem, por que desta vez será na companhia de três pessoas especiais e queridas – namorada, irmão e cunhada -, experientes viajantes que sabem viajar, agem como turistas e se adaptam bem aos desafios. São turistas, sim, mas de olhos compreensivos, ponderados e receptivos, condições ideais para alguém gostar da Índia. Eu mesmo viajo mais sereno, sem o deslumbramento da primeira vez, com a maturidade conferida pela segunda e o forte desejo de que seja fenomenal esta terceira também para eles, que a Índia os penetre sem pedir licença, e como a mim, os torne quase doutores indianistas.

Todos sabem, não sou religioso, místico, peregrino nem viajo em busca de qualquer coisa que se relacione com espiritualidade. Não tenho espírito. E se tenho, não o sinto, porque ele insiste em não se manifestar. Felizmente, graças a Deus. Tampouco viajo para encontrar sentido na vida, pois já conheço o meu e ele me satisfaz. Também não para encontrar qualquer coisa no além. Não acredito nele e sou feliz por não ter avida mediada por crenças. Tenho mesmo alguma aversão a muitas delas. Talvez porque aceite a finitude da vida sem desespero, como algo inexorável, embora eu vá a contragosto. E por não acreditar em vida depois da morte. Convenhamos, é muito mais duro viver a vida quem reconhece que ela termina aqui, que não terá bônus ao seu fim.

Não vou à Índia atrás do “interior de mim mesmo”, para “encontrar o sagrado”, para meditar, senão para por vezes refletir. Muito menos para dedicar-me aos estudos do hinduísmo védico e de coisas afins. Ao contrário, na Índia sou menos eu do que em qualquer outro lugar do planeta, embora em nenhum outro eu seja levado às reflexões sobre a vida, nem reavalie certas questões como a necessidade de maior frugalidade nela. Cresço muito intelectualmente e torno-me ainda menos compreensivo com tudo o que seja místico. São temas que não me interessam em particular.

Não me atraio a viajar à Índia a fim de me enfurnar num ashram-boutique, participar de workshops diários e papos-cabeça com gurus estrelados, tentando inutilmente – a despeito de sua sabedoria- apontar-me o caminho da “salvação”. Isso é coisa que começou no final dos anos 60, quando grande quantidade de ocidentais chegavam carregados de uma revolução cultural que valorizava a magia, o exotismo e os mistérios orientais. Entre eles, John Lennon e os Beatles. Foram à procura da salvação,mas também de uma temporada fumando seus baseados com alguma liberdade. Sairam de lá sem saber se se libertaram, como provavelmente todos os novos nômades que praticaram seu escapismo disfarçado de fome espiritual,exercendo um novo tipo de atividade turística – o “turismo espiritual” – lá explorado por gurus e levado a cabo em ashrams pelo país afora. Evoluiu tanto que hoje é quase uma commoditie indiana do ramo turístico, a espiritualidade tornada mercadoria. Para quem não curte alimentação natureba, alinhamento de chacras, medicinas alternativas, coisas místicas para a cura de enfermidades físicas e mentais ou em qualquer coisa que não se comprove cientificamente,praticar turismo assim é desastroso. Gosto de estar na Índia para ver indianos,não ocidentais místicos deslumbrados.

Então, temas como autoajuda e misticismo não me chamam à Índia, penso como Catherine Clément, autora de “A Viagem de Théo”, que nos recorda acerca da banalização dessas coisas indianas: Quando se sentem perdidos, os ocidentais adoram mascarar a alma: então, vêm a correr para a Índia, para locais de retiro concebidos para eles, com êxtases coletivos e devoção desenfreada, e os indianos fazem com isso bom dinheiro. São excelentes comerciantes. Até inventaram uma palavra bem divertida para definir esse comércio particular: Karma Cola[1].

Desde moleque desconfio desses “poderes” cujos “resultados” são meros “efeitos placebo”, a fé subtraindo razão. Não critico ou julgo quem viaja com tais objetivos, mas me estranha que se emocionem tanto. É um espanto. Também não na “bondade” e “proteção” divinas – especialmente na Índia – quanto me  deparo com seres humanos sofredores, sem pedaços do corpo, pontas dos dedos, pernas ou olhos, rostos imundos, deformados, famintos, miseráveis, sem qualquer conforto físico, doentes dormindo nas ruas entre lixo, baratas e ratos, com hanseníase e outras enfermidades já há muito erradicadas pela ciência. Na verdade, toda vez que vou à Índia, volto ainda menos espiritualizado pelos casos de estupro e por tal desvalorização da mulher. Sou da ciência. Tanto que não me aproximo sequer da pseudociência. Mas admiro a yoga e a meditação, dois dos muitos patrimônios que a Índia passou para a humanidade, mas daí ver misticismo em ambas é um devaneio.

Vou como turista mesmo. E sem vergonha ou culpa de sê-lo. Não tão alienado quanto da primeira vez, mas ainda com meu olhar estrangeiro e unilateral sobre uma cultura alheia e “exótica”, embora sem preconceitos. Sou zero místico. E abaixo de zero, crente. Mas a Índia é tão magnífica, tem tanto potencial de atrair turistas místicos que um destes que for lá procurar, seja lá o que for, encontrará. Coisas da mente humana. Felizmente, em outros âmbitos também: cultural, material, folclórico, arquitetônico, turístico, culinário…

Não creio sequer num Deus, que dirá nos 300 milhões de divindades hindus[2], embora eu me esforce para compreender seus significados e simbolismos. Da assustadora Kali – a deusa negra, dançarina dos crematórios, de cuja boca pende uma protuberante língua vermelha sedenta de sangue, com sua guirlanda de crânios ao redor do pescoço e um cinto feito de mãos decepadas – que para complicar ainda mais minha “compreensão”, é a personificação de outras deusas cujos nomes são Devi, Durga, Parvati, Uma, Sati e Padma. E tal do Ganesha? Que dizer da “história” desta deidade – corpo de menino, cabeça de elefante – um dos mais comuns e populares do hinduísmo, filho de outros dois deuses – Shiva e Parvati? De Shiva, deus de destruição, o que prefere a morte à vida, algo que me soa estranho, ao mesmo templo sublime. Mas o que há de certo ou de errado nisso tudo? Especialmente acerca desse povo tão estranho e sublime com quem em poucos dias estaremos convivendo? Só consigo ver tudo como uma bela manifestação cultural, rico folclore de um povo de imaginação fértil, cultura de cinco milênios, além de algo que me ajuda a compreender a resiliência do indiano e sua altíssima capacidade de resignação.

O prazer da frugalidade

Não quero dizer que a recessão recente e duradoura não tenha me afetado, mas continuo reconhecendo-me um privilegiado que pode viajar, a quem nada falta e que vive muito bem. Havia tempo eu não tinha necessidade de orçar e rastrear gastos, e não sabia o que era não dormir porque não teria no mês seguinte recursos bastantes para pagar todas as contas. Quero exprimir que nossa abordagem mais “frugal” desta viagem – tanto no planejamento quanto no andamento – tem sido extremamente positiva nesta fase da minha vida. E me traz novos valores e sabores. Havia muito tempo que eu não tinha que poupar para viajar, racionalizar, deixar de comer fora e comprar coisas para concretizar uma viagem. Dormir em lugares mais baratos (ainda que longe de inconfortáveis ou espartanos), comer nos mais simples, reduzir o peso da bagagem, racionalizar o uso das roupas e de produtos, comprar quase nada, concentrar-me no que é realmente importante (como ter experiências mais marcantes), faz a Índia parecer ainda mais notável. Especialmente numa viagem para o país mais frugal que conheço. Ainda que a “frugalidade” a que me refiro seja discreta, apenas uma redução dos excessos, a eliminação do que não importa, o desprezo pelo desperdício, que concentre foco em novos valores, mesmo assim, discreta, é uma frugalidade boa, que evoca o suficiente, escancara o fato de que posso ter perdido a medida dos valores entre ter e ser, ter mais respeito pelas coisas fundamentais, como uso de água, luz, gás, comida, entre outros.

Pessoalmente, acho muito gratificante tudo isso, estar contente com as coisas do jeito que estão no momento, ter ainda melhor consciência de que sou um privilegiado que olha mais para os outros que para dentro de mim mesmo!


[1] Na segunda metade da década de 60, o Ocidente adotou a Índia como seu mais novo balneário espiritual. Os Beatles se lançaram aos pés do Maharishi Mahesh Yogi e hordas de jovens americanos, ingleses, franceses e de outros países ocidentais seguiram o exemplo de seus ídolos, invadindo a Índia em busca da libertação do tédio e do desespero de um mundo cada vez mais materialista. Karma Cola é o título de um livro hilariante e ao mesmo tempo deprimente apresenta flashes dessa invasão, revelando a profunda incompreensão do Oriente pelos ocidentais que lá buscam a salvação da alma.

[2] 330 milhões de deuses na Índia! Sim, deuses e deusas com múltiplas cabeças e braços. Que tipo de religião maluca é o hinduísmo? Na verdade, não é o que parece. Enquanto os hindus acreditam que Deus está em tudo, tudo é manifestação da única fonte e criadora da realidade – Brahman. Portanto, toda coisa viva e não viva é vista como sagrada. Cada um dos muitos deuses e deusas do hinduísmo também representa aspectos individuais de Brahman. Por exemplo, Ganesh é adorado por dar boa sorte e remover obstáculos. O hinduísmo não prescreve nenhum caminho definido, em vez disso, os seguidores podem adorar a qual divindade que a cada vez sentirem necessidade.

Myanmar – Voando de balão sobre os templos de Bagan

Bagan 1

Pro dia nascer feliz

Passa um pouco das cinco da manhã. Pulo da cama ao som  do despertador e corro para a sacada ansioso para ver o céu em busca de notícias do tempo. Ainda havia um resto de luar. Não era cheia a Lua, até começava a perder seu brilho frio, mas ainda cintilava nas águas do grande rio Irrawaddy. Do lado de cá vejo as águas calmas e uma embarcação encalhada em razão da estação da  seca. Parece parado o preguiçoso rio, tão diferente do que é na época das monções, quando ganha vida, corre caudaloso, inunda campos, reabastece de água as cidades e de sedimentos o solo e transforma o barro em terra fértil. Contemplo o cenário com esperança e percebo um céu limpo anunciando o Sol pleno, condição para tornar possível o voo de balão sobre os templos de Bagan.

Vou ao banho e me recordo de uma foto do fotógrafo James Stanfield[1] publicada anos antes na National Geographic. A paisagem magnífica, tomada com arte e talento, revelava uma beleza quase inacreditável da planície semi-árida e misteriosa, com dezenas de estupas de tijolos vermelhos brotando da terra entre árvores e a bruma da manhã, a mesma que em breve eu esperava ver sobrevoando o mar de templos ruinosos.

Sobrevoando Bagan de balão

Às 05:30 da manhã, um curioso ônibus adaptado ao chassis de um caminhão da Segunda Guerra Mundial busca os passageiros em seus hotéis. Chega minha vez. Subo e tomo acento. Dentro dele já outros oito turistas. A mente vagueia, ainda sonolenta, enquanto o velho ônibus de motor barulhento se arrasta,segue devagar pela estrada de areia, vai colhendo aqui e ali outros turistas também insones, todos a caminho do mesmo campo de decolagem. Observo pela janela uma terra que o tempo não mudou, desde a imperial Birmânia, séculos passados. Muitos budas e templos depois, chego ao campo. Desço devagar, mas não relutante, senão ansioso. Seriam os balões da mesma geração do ônibus?

Surgem os primeiros raios da manhã. Raios quentes, mas não cor, não ardentes. O cenário parece ilusão, uma venturosa manhã com neblina rasteira à terra, um descampado de terra com  os gigantescos balões deitados e esticados, esperando a hora de serem cheios. É muito excitante vê-los trabalhar. Só menor que a experiência de voar.

Os incríveis artefatos voadores – os balões da Baloons over Bagan – são propriedade de um australiano e um birmanês, empresa com cerca de 100 funcionários birmaneses, 10 balões para até 10 passageiros cada, além do piloto, que realiza um voo diário de cerca de 45 minutos. Os pilotos, australianos e ingleses, quando chegaram os passageiros, já estão a postos diante de seu balão e grupo, assim como cada equipe que om inflará. Recebemos instruções de voo. São poucas. Seis homens começam a inflá-los com ventiladores e depois com ar quente. Puxam cordas para segurar o balão que se enche e começa a querer subir. O cesto ameaça se arrastar, se levanta e fica na posição horizontal, pronto para receber piloto e passageiros. Sou o último a tomar um lugar no cesto.

O clima se parecia com o de um safari colonial britânico, de uma elegância discreta e aventureira. Quando soltas as amarras, o balão sobe levemente. Guiado pela suave força do vento e pelo comando da piloto, quase não senti a decolagem. O fogo azul do gás propano, que mantém o balão cheio e quente, faz o único ruído audível. Todos estão calados. Quando já atingimos boa altitude, não tenho tempo de sentir vertigem, pois a “amurada” do cesto chega à altura de meu peito.

Vejo a névoa baixa, leitosa e rasteira junto à terra, agora já de cima e entregue ao silêncio. Com o Sol nascendo, o balão ia “raspando” o topo dos templos, crianças correndo embaixo, acenando e gritando para nós. Homens tocam seus rebanhos e carroças. Um mar de estupas se abre, tal qual a foto de James Stanfield.

Decolando e voando

Mais quente, mais alto; mais frio, mais baixo. Balão dominado, voo tranquilo, ao nos aproximarmos do templo Sulamani, a piloto pergunta: “Querem ver o brilho das pedras preciosas do hti?” Ela baixa suavemente e o cesto passa quase roçando o topo. Vimos de fato o enfeite brilhar.

“Vamos descer ali”, aponta para um descampado. Um caminhão e nosso ônibus também vão para o lugar. Descemos lentamente até o cesto tocar o solo, com precisão e suavidade. A equipe de terra montara uma mesa com champanhe e petiscos. Co todos já em terra, a piloto discursa, agradece, brinda e distribui um certificado de voo para cada passageiro. Pouco depois somos levados de volta aos respectivos hotéis.

Havia tempo para o café da manhã, um conforto para quem acordou às cinco e estava em jejum. Tiro um cochilei até onze da manhã. Renovado sigo com Patrício para um longo dia de visita aos templos, até o pôr do sol. Depois do voo seria óbvio não esperar novas emoções, mas injusto dizer que não as tive.

(*) Fotos feitas a partir do nascer do sol do dia 13 de fevereiro de 2013, com uma NIKON D800 e uma lente Nikon 28-200mm F3.5-5.6 durante um vôo de balão sobre Bagan.

[1] James Stanfield viveu aventuras invejáveis em mais de 120 países, fotografando para reportagens que já lhe renderam inúmeros prêmios de fotografia.

Myanmar – As lagartas de Kyaing Tong

Myanmar

Você quer comer lagartas?

– Como assim? Você quer dizer “lagartas”, insetos?

– Sim, de bambu.

-Vivas ou mortas, Patrício?

– Fritas!

– Vou tentar.

O homem tira de sua bolsa um saquinho plástico com as lagartinhas de bambu  fritas, compradas na manhã anterior numa banca do mercado de Kyaing Tong, que assim como as frutas desidratadas, são  um petisco popular na região. A embalagem – fechada com fita adesiva, – não tinha rótulo ou qualquer inscrição. Eu não contava com algo como “Não contém glúten”, uma tabela nutricional ou coisas afins, mas não havia sequer o nome do produto, embora fosse evidente tratarem-se de legítimas lagartinhas, perfeitamente identificáveis. Estavam ali íntegras suas cabeças, tronco rechonchudos brancos e perninhas. Aquelas que um dia foram serelepes habitantes dos bambús das florestas do montanhoso estado de Shan, estavam prontas para serem degustadas.

Myanmar Cap 1
Vivas ou mortas? Fritas!

– Do que são feitas, Patrício? São só lagartas? Têm algum tempero?

Estávamos sentados numa mesa de plástico sobre o chão de terra diante da pequenina venda defronte ao aeroporto. Mesa, venda e rua eram as únicas por ali. De sorte que éramos privilegiados por termos encontrado vago o lugar. Eu, Patrício – meu guia por toda a viagem – e Sing – o camarada birmanês natural de Kyaing Tong que nos guiou pelas colinas até as aldeias – nos sentamos para esperar a hora do embarque.

Patrício coloca a embalagem estufada de lagartinhas sobre a mesa e pede uma cerveja. Examino as lagartas mais de perto, sabendo que terei que encarar o desafio. Então, já que “Inês era morta”, tanto melhor ele seria se eu estivesse bem informado. Recoloco a embalagem no centro da mesa e espero alguém tomar a iniciativa. Sing abre, despeja um punhado na palma da mão e com a naturalidade com que eu como amendoim salgadinho, leva à boca e saboreia. Não mastiga, apenas remexe e pressiona o conteúdo com a língua contra o céu da boca. E não demonstra reação. Me agrada observar o comportamento das pessoas, tentar decifrar o que sentem, e todo momento elas dão pistas do que são, às vezes mais do que suas palavras. Não identifico nada, apenas naturalidade. O que eu queria era imitá-lo, de modo que quando chegasse minha vez, eu também parecesse natural. Pego a embalagem e pergunto:

– Como se chamam?

– Non mai phai. São muito comuns nos bosques de bambu do norte da Tailândia, do Laos e desta região de Myanmar. Dizem que também na província de Yunnan, na China, mas nunca estive lá.  Quando estão maduras, com uns 3,5 a 4 cm de comprimento, eles as retiram da parte ôca entre os nós dos bambús e depois as fritam. Os pa-yit kyaw (grilos) e os bi-laar (besouros) também são populares aqui.

Sing passa para Patrício, que despeja igual punhado na mão. Também o observo atentamente e sua reação foi discreta, não como a do colega, porque olhava para mim, dava uma luz sobre o que pretendia: me provocar, desafiar. Chega a minha vez. Eu estava confiante. Tomo um gole de Myanmar – a única cerveja do país – ele estende sua mão com o saquinho do petisco, olha em meus olhos e diz:

– Prove!

Soava como desafio, não uma ordem. E, ainda que eu não seja um viajante destemido, aventureiro intrépido, audaz desbravador, tenho lá meus medos, sou bom turista e não corro de desafios, mas também não tenho inveja dos que comem cérebro de macaco vivo. Me comporto como quero; sei que viajar é isso, mas também infinitamente mais que isso. Quero dizer, na medida do possível (e de minha coragem), provo de tudo, mesmo nunca tendo me atrevido a comer insetos nem achar que precise. Além de repulsivos, penso conterem parasitas. Ademais, sempre que os vejo imagino aquelas patinhas cheias de farpas agarrando na minha garganta e que não haverá jeito de desgarrá-los. Contudo, aquelas lagartinhas não eram insetos, e bem me  lembravam as do Brasil, maiores e mais gordas, chamadas gongo, tapuru, coró, morotó, fofó, boró ou bicho-do-coco, com a diferença de que aqui comem-nas vivas na floresta amazônica. Mas, como todo instante deve ser vivido intensamente, porque é irrepetível, resolvo fazê-lo.

Sem mais delongas, despejo um pouco na mão, a quantidade certa, medida antes com o olhar decifrador para Sing e Patrício. Aproximo o punhado do nariz e tento sentir o cheiro. Me preparo para engolir e olho para Patrício. Seguro o copo de cerveja com a mão esquerda e com a direita jogo as lagartinhas para dentro da boca como se fossem farinha. No primeiro instante não sinto sabor, logo depois, do óleo em que foram fritas. A textura era boa, seca e crocante, mas não o gosto, quase insípido, não fosse o óleo. Percebo olhares e expressões curiosos, então faço da espera algo positivo para mim, já que em minha boca iam bem as bichinhas. Com certa surpresa, depois regozijo, percebo sorrisos no partido que tiro.

Myanmar Cap 1 02
Os buracos entre os nós do bambu  para retirada das larvas

Não têm muito sabor. Devem ser melhor de comer cruas e vivas, talvez temperadas com sal e umas gotinhas de limão, como saboreamos ostras frescas e vivas no Brasil ou as lagartas do coco. Fritas elas perdem o gosto.

Sing sorriu e disse:

– Quer levar pra comer no avião?

A manhã ensolarada ainda tinha frescor. Eu estava na segunda cidade de um roteiro que começara dois dias antes na Capital, Yangon, e as aventuras ali consistiram em dois dias de trekkings de seis horas cada, através das encostas rurais, por lindos campos de arroz cintilantes e plantações de chá, a fim de visitar aldeias de diferentes etnias, de povos animistas[1], a residência de um xamã [2] de uma importante aldeia e como vivem. Eu estava comendo lagarta, tomando cerveja quente enquanto esperava o pouso do turbo hélice da Air KBZ pousar no terminal muito simples, quase um casebre de paredes caiadas, para irmos até a cidade de Heho,  porta de entrada para o lago Inle

Eu sentia saudades das experiências vividas, da comida deliciosa no mesmo lugar por duas noites, única opção de restaurante “chinês” que ficava numa rua residencial escuríssima, iluminada por postes de luz a cada cinquenta metros. A cozinha improvisada na garagem da casa era comandada por duas senhoras. O “salão” de refeições ficava do outro lado da rua: a calçada. Com o lago às costas e o pagode Wat Jong Kham na colina à frente. Duas mesas com quatro cadeiras sob uma árvore, de noite sob um breu iluminado por uma gambiarra de lâmpadas de 15 velas. O cardápio tinha pratos de comida chinesa com influências birmanesas, tudo a convenientes quinhentos metros da espelunca em que eu dormia.

O cardápio, sobre as opções e perguntando à moça que servia do que se tratavam. As respostas eram curtas, mas tinham um poder tão encantador quanto o da decifração dos textos egípcios por Jean-François Champollion: pork, chicken, noodle, vegetables, eggs.

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O pagode Wat Jong Kham e o lago de Kyaing Tong

Eu olhava para trás, no tempo, uma ocorrência psicológica que naquele momento me afastava do espaço que dividia com Sing e Patrício. Meu pensamentos me levaram a recordar o que me trouxera a Myanmar, escolha antiga, mas decisão tomada um ano antes. Eu estava tranquilo esperando o avião enquanto andava pelos pensamentos, mas começava a me tomar a impaciência, porque dali em diante o tempo gasto na espera me parecia perdido. Insisto no relógio, ansioso com a chegada do avião e a partida, ainda que não houvesse chance de perdê-lo, pois ainda estávamos a 30 minutos da hora da partida e o avião ainda em voo.

– Não é hora de irmos?, pergunto a Patrício.

– Ainda não. Quando ouvirmos o avião se aproximando, pediremos a conta. Estamos a quarenta metros do portão e já providenciei os cartões de embarque e o despacho da bagagem.

Aproveito a proximidade da hora do embarque e me despeço agradecendo a Sing, o guia especializado e indispensável para as visitas às tribos das colinas de Kyaing Tong. Era um camarada pacato, inteligente, educado e atencioso, que tornou a experiência nas tribos ainda mais rica, o que eu não compreenderia se estivesse só.

– Obrigado. Jamais esquecerei desses dois dias aqui. E além da memória, levarei tudo no coração.

Um abraço sela a despedida. Ouço o ruído do avião se aproximando do pouso e o impacto é instantâneo. Fico perplexo com a reação, a ansiedade acelerando o coração. É gênese do meu cérebro, nada além, e mas sempre que posso, tento escapar dela. Às vezes consigo. Me desola a convicção da inutilidade de uma situaçãomtão previsível, ao mesmo tempo condenável por minha autocrítica. Reflito, então, que se estou na terra do budismo, deveria pensar na prática zen, deixar passarem os pensamentos e buscar no enigma da consciência a paz, a fim de enfrentar agitações desnecessárias, permitir – na intimidade da consciência privada, quando um lado do cérebro discute com o outro a relação – o autocontrole.

Dou o último gole, pago a conta, levanto-me e caminho à frente de Patrício enquanto ele abraça o amigo. Entro no terminal desviando das mesmas galinhas que por ali circulavam na chegada. Espero Patrício, que logo atrás caminha ao meu encontro sorrindo. Num ritmo zen.

– Quer ir na frente, Affonso?, me pergunta sorrindo. “Quer seu cartão de embarque”, conclui.

– Você está certo. Obrigado por me trazer a tranquilidade. Rimos juntos e partilho com ele meu encantamento com os três primeiros dias em Myanmar.

A espera foi nada. Estamos entre os primeiros a entrar no avião. Tomo assento e com a porta ainda aberta sinto o último ar de Kyaing Tong. O embarque foi expresso e assim logo partimos, cinco minutos antes do previsto. “Tempo a mais para estar no lago”, penso.

Momentos depois, olho pela janela e vejo a cidade ficar pequena e para trás. Minha íris se enche de azul, de verde e de nuvens esparsas. Sinto prazer. De estar vivo, ter estado ali, escolhido aquela viagem e por reconhecer a magia que só elas me proporcionam.  Deixo um bom pedaço de mim por ali…

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[1] Animismo: termo usado na antropologia da religião, é uma visão de mundo em que entidades não-humanas (animais, plantas, objetos inanimados ou fenômenos) têm essência espiritual. A crença de alguns povos tribais indígenas surgida antes das religiões mais organizadas. Animismo não é uma designação dada pelos povos que o praticam. Fonte: Wikipédia

[2] Xamã: portador das funções religiosas no animismo, pessoa que “entra” em outros mundos e tem contato com seus aliados (animais, vegetais, minerais), ou seres de outras dimensões, espíritos ancestrais. Um sacerdote ou sacerdotisa que, em transe nos rituais xamânicos, manifesta seus poderes invocando espíritos da natureza e incorporando-os a fim de receber orientações e ajuda para resolver as situações que desafiam as pessoas de seus grupos sociais. Fonte: Wikipédia

A seguir

MYANMAR Capítulo 2 – Yangon, o primeiro sabor birmanês

Myanmar (encerramento capítulo)

NAMÍBIA – EPÍLOGO. A beleza não tem limite

                Quando a noite chega, um mundo novo surge em Okonjima. Terminávamos o dia e a viagem na reserva de leopardos e guepardos. E que dia fora aquele! Vimos os mais belos felinos que alguém pode encontrar estando em África. Mas não foram os animais que desenharam a fisionomia e a personalidade do fim do dia, senão o mais belo anoitecer, o último de nossa viagem.

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                   Eu já desconfiava que encontraria um novo sentido para a palavra “beleza” no próximo entardecer. Afinal, desde o primeiro poente, em todos os dias eles repetiam sua impetuosidade, de tal modo que o novo tornava-se mais bonito e deixava o anterior em segundo plano. Perdoem a falta de humildade, mas os dias na Namíbia eram todos assim,  começavam e se iam com o sol nos fazendo mais felizes, os lugares mais bonitos e as fotos mais encantadoras. Mas aquele foi o mais loucamente belo da vida.

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                   Todo poente na Namíbia vem com uma vantagem: revelar um dos céus mais limpos, com as estrelas mais cintilantes, entre os mais admiráveis e infinitos que se podem observar no planeta. Nenhum poente é humilde, discreto e sem personalidade na Namíbia, mas arrogantemente belo, nos fazendo reavaliar, a cada novo, nossas convicções de que beleza tem limite.             

                     Aos poucos a natureza ia se tornando mais dramaticamente bela, uma conjunção de céu, nuvens, terra e cores, tons e contrastes de tal modo dinâmicos e integrados que tornava aquele o novo “mais belo pôr-do-sol” que eu vira no país. O mais belo sim, porque para nós tudo terminava ali, não haveria outro amanhã na Namíbia para nós, pelo menos não naquela temporada. É verdade, talvez o leitor perceba que eu estava mais sensível com o iminente término da viagem, emocionado porque ali brindávamos, em comemoração, a despedida.

                 Mesmo Verão, uma brisa soprava discreta, acariciava a pele e derrubava folhas e eu era tomado pela beleza e emoção de estar ali. O dia terminava e com ele a viagem, e não poderia haver melhor hora e lugar para nossa despedida. A luz minguava, adicionando poesia à paisagem, e eu aproveitava até o último momento sua partida.

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                 Dias depois, já em casa, quando as atividades acumuladas me deram tempo de “revelar” as fotos na tela do computador, uma dor – uma dor gostosa de saudades – me fez lembrar dos cheiros, dos sons, das vozes, das experiências, dos sabores e dos amigos. Agora longe, vejo mais uma vez – em dezenas de fotos – o sol derretendo o horizonte e aquele resto de luz criar um arco íris.

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                    Obrigado, Namíbia. Muito obrigado, François, Pedro, Gabriel, Grazi, Pará, Márcia e Haroldo. Por tudo, por tantos e por tão intensos momentos que vivemos juntos naquele solo.

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 Quer continuar comigo? Então vamos! Próxima viagem:

DIAS de MYANMAR

Da colonial Yangon aos mil templos de Bagan

Primeiro capítulo

As lagartas de Kyaing Tong

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NAMÍBIA – Capítulo 12 – Adeus, Etosha

              DEPOIS de uma aurora de tirar o fôlego, um desjejum de matar a fome e de posse de meu lugar no jipe, saímos de Namutoni em direção à reserva privada de Okonjima, onde habitam leopardos e guepardos. Já distantes do lodge, pela estrada de cascalho, François comenta que a hora é propícia para o encontro de gnus, avestruzes, girafas e zebras. “Cedo assim, talvez também elefantes e rinocerontes”, acrescenta.

            Não mencionou hienas, e nós ainda não as havíamos encontrado. Todavia, penso que não deva esperar por elas, embora gostasse de vê-las, pois até então a viagem não tivesse um só momento frustrante, então não seria justo que minha vontade de ver aqueles carniceiros astutos se tornasse um desapontamento.

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              Animais de péssima reputação, mas grande inteligência a serviço da caça, as hienas estão entre os mais fascinantes para se ver num safari, especialmente quando em atividade.  Tenho ainda boas lembranças de quando pela primeira vez as encontrei. Foi em Sabi Sands, África do Sul, anos antes. E de tê-las alimentado, face-to-face, em Harar, na Etiópia, quando à noite, cinco ou seis que vivem na periferia da cidade seguem um homem até o portão mais remoto da antiga muralha da velha cidade islâmica, a fim de alimentá-las com restos de carne de camelo vendida nos açougues do lugar e faturar algum depois do showzinho para meia dúzia de turistas incrédulos.

                 Sei que há três espécies, a hiena-malhada, a hiena-marrom e a hiena-listrada, e que todas têm a mesma energia e vigor. Dizem vir de seus corações, maiores proporcionalmente que os de outros mamíferos do mesmo porte. E que costumam guardar seu próprio alimento para se resguardarem da falta dele. Eu estava entretido com a bela paisagem. Iluminada ainda discretamente com o

sol baixo, os tons ainda eram sem contrastes. Consultando o mapa, visualizo nosso roteiro e ligo o GPS do celular para verificar o ponto exato em que estávamos. Estava quase fechando os olhos para um cochilo, embalado pela velocidade constante do carro, quando François reduz fortemente a velocidade e exclama:

Hienas!, Hienas!.

               “Não acredito. Será Ganesha?”, me pergunto às sete da manhã assim que ouço o alerta. Era um casal em movimento e alerta, distantes entre si, uma bem próxima de nosso jipe, outra dentro da imensa relva, apenas com acabeça à mostra. Começavam seu dia num ritmo e vigor invejáveis para a hora. François explica o porquê: um chacal rondava o território tentando roubar-lhes ossos grandes, talvez fêmures de gnus, escondidos na relva. Cada qual corria em direção oposta para buscar o seu e trazê-los para perto de si. Um chacalzinho solitário não ousaria se aproximar para disputar no tapa ossos daquele tamanho pendendo das bocas de cada hiena.

Capítulo 12 02

              Da tentativa ao insucesso foram alguns minutos. Os mais estimulantes daquele dia na Namíbia. Seguimos nosso caminho já com o fascínio da aventura contagiando o começo da fresca manhã, e até o próximo destino, Okonjima, 361 qilômetros depois, no qual vimos adoráveis girafas, avestruzes, zebras, gnus e pássaros coloridos, como havia previsto François.

                Terminamos o dia com uma garrafa surpreendentemente boa de um tinto sul africano. Brindamos à memória de mais um dia fenomenal. E eu, a mim mesmo, pelo encontro com as hienas.

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

NAMÍBIA – Capítulo 13 – Onkojima – Leopardos e guepardos

NAMÍBIA – Capítulo 11 – Bom dia, Namutoni.

O Céu dentro de mim

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                Subo obstinada e decididamente uma centena de degraus até chegar ao topo. O coração retumba no peito quando saio da claustrofóbica escada. Enclausurada, ela circunda – estreita, e colada entre paredes – o interior da torre da caixa d’água do lodge. Lá em cima, um mirante. Nele, abre-se uma vista vertiginosa. Acompanho 360 graus de paisagem girando no eixo sobre os calcanhares. A paisagem era de filme, infinita, da vasta planície. Infiltrava-se pelos olhos e engolia tudo: eu, o velho forte alemão militar da virada do século XX, animais, terra e plantas. O núcleo de cada átomo, todo o planeta.

                  Naquela manhã o sol nasceu entre nuvens e com raios criativos, desenhando sombras na terra, colorindo o céu e o que podia quando chegava ao chão. Contrastes surpreendentes davam uma aparência bizarra e surreal à planície, me inspirando à observação como se eu já fizesse parte dela. Muito embora os raios de sol já aquecessem o ar, eu ainda sentia nos braços o frescor da madrugada.

                Desperto minhas melhores emoções observando aquela pintura. Olho com o coração e meus sentidos se excitam. “Isso é África”, exclamo baixinho. Era difícil sair dali, parar de viver o momento, deixar de ampliar os horizontes pessoais. Eu ainda tinha muito a refletir enquanto estivesse sozinho e completamente absorvido pelas terras do Etosha – e não por seu motivo mais digno – ser o símbolo máximo do conservacionismo namíbio, um tesouro para encontros e observação da vida selvagem – senão por sua imensa beleza. Tanto que quase me esqueci das aventuras do dia. E que me esperava o grupo, provavelmente dentro do jipe. Não sou retardatário. E se fosse, me envergonharia.

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               Faço alguns disparos com a câmera, mais rápidos e menos cuidadosos do que a paisagem merecia; corro contra o tempo. Viajar tem me proporcionado momentos marcantes, mas nem tantos como aquele, mesmo tão efêmero. Começo a caminhar para a descida e dou a última olhada para trás. Entro de novo no “túnel” com a consciência expandida, mas não sem um adeus sequer. Começo a descer com o céu dentro de mim. Um entusiasmo jovial me impulsiona e desço correndo. Roço a mão na parede e foco o olhar nos degraus. Ria de mim, pensava que se eu nunca relacionara a Namíbia em meus sonhos africanos, estava ali pagando pelo desleixo. E nem ela precisava me entregar tanto para me cativar o coração. Finda a escada, chego ao térreo e penso que precisava aprender a olhar melhor para países que nunca me atraíram. E que se há lugares imprescindíveis na Namíbia, aquele era um.

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                        O sol eu já sentia na pele ao entrar no carro. “Atrasado?”, pergunto. “Não”, respondem, o que me alivia. “François está acabando de engatar o reboque”, explicam. Assim como tem grandes virtudes o sol, a pontualidade é também admirável. Mas era o sol que me “chamava” naquela horas, já provido de satisfação por não ter feito me esperarem. Então, em vista disso, naquele momento, me aquecer era o mais agradável. Sentado em meu lugar no jipe, ainda estacionados, ouço ruídos e sinto o balanço do engate do reboque no engate do carro. Entre os muros do lodge instalado dentro de um antigo forte militar alemão, penso no que esperar daquele dia. Atravessaríamos boa porção do Etosha, de uma ponta a outra, e o mais óbvio seria pensar nas zebras, elefantes, rinocerontes, leões, leopardos, girafas, hienas, javalis, gazelas e tanto mais. Mas o melhor estava por vir. Afinal, nada é tão bom que não possa melhorar.

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                 Deixamos os limites do alojamento e sua atmosfera inigualável, suas boas, amplas e confortáveis instalações, acomodações agradáveis, restaurantes, uma loja de artesanato, piscina e o primoroso deck de observação de animais com vista para o poço do rei Nehale, e seguimos em direção à Panela de Sal.     

Panela de Sal do Etosha

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              Destaque no parque, o gigantesco Salt Pan é visível do espaço. Nunca estive a essa altura para confirmar, mas ali, no chão, diante dele, o horizonte me pareceu sem fim. E a panela de sal, um mar. Deve ser o tipo do lugar ideal para se caminhar até o meio e ver miragens nos confundido a visão.

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

NAMÍBIA – Capítulo 12 – Adeus, Etosha.

Hienas, gnus, avestruzes, girafas, mangustos, girafas e zebras: um dia entre as bestas da savana