Viver é tão bom
Acordei cedo, pouco antes das galinhas e com um triste sol pálido. Era véspera do Natal e quase de nossa partida para a Tunísia. Eu pensava naquilo como nunca, no atípico dia frio e um bom lugar pra ler um livro. Mas não. A força do pensamento me fez passar um filme que me dei ao gosto de deixá-lo rolar. Não era a coisa mesma, de sempre, aquela lengalenga de todo fim de ano, de pretextos para reflexões filosóficas, de gratidões e promessas que – se não tomo cuidado – convertem-se em não cumpríveis.
Não. Nem eram as da minha imaginação, sempre ampla, livre e prodigiosa nesta época do ano. Se desembrulhava na memória um aglomerado contínuo de imagens. E das boas, mesmo que não em technicolor e já um pouco desgastadas. Estavam no tempo e carregavam o tempo com elas. O filme ganhava sentido com as recordações de quando “passei” (nem posso dizer que “estive”) por Túnis numa viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo no século passado. Apesar do desgaste, senti-me privilegiado em tê-las ainda na memória nessa altura da vida, o que comemoro, tal como o Ano Novo.
Foi coisa breve, como não será o prazer de aterrar num destino desejado, de retornar ao estimulante continente africano, desta vez não ao Sul – para ver animais – senão ao teto da África. E de novo à Tunísia, para sete dias de visitas. Na escolha, não hesitamos no destino. E do começo ao fim, acreditamos que será uma viagem com tudo para dar certo e que também haverá de ficar impressa.

Dezembro acaba e com ele o Natal e também meu pouco entusiasmo com a data, que nem por isso deixa de ser gloriosa, pois imenso será o prazer de reunir familiares em minha casa na noite do dia 24. Tão francamente quanto posso ser, não sou religioso, o que para mim não tira do evento o prazer. De me esmerar em proporcionar uma bela noite de encontro, de troca de presentes e confraternização, numa mesa e numa sala cuidadosamente preparadas para a honra que se repete todos os anos.

Variantes depois de variantes, dois anos sem vergonha passados e tumultuosos, cinco doses depois, quase morta a pandemia, aproxima-se um janeiro estalando de novo. Não foi tão duro o ano velho, ao menos não como os dois que o antecederam. Difícil para alguns e maravilhoso para outros, de todo modo fica para trás. Não eu, que por caminhos mais retos que tortuosos, aos 72 anos chego ao novo imaginando-o com esperanças. E como bem disse Rubem Alves, em “O tempo e as jabuticabas”, sentindo-me como o jovem que diante de uma bacia de jabuticabas, chupa as primeiras displicentemente, mas ao perceber que terminam, passa a roê-las até o caroço.
Procuro não esperar ocasiões especiais fantasiosas que nunca chegarão, porque afinal, somos nós mesmos – aqui e agora – os responsáveis pela criação de nossos momentos. Carpe diem, quam minimum credula postero (aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no de amanhã) pode ser meu novo lema de vida nesta altura dela. E vou entrar com o pé direito, que dizem trazer sorte. Embora nestas coisas não haja nada certo nem seguro, nós merecemos pensar num ano mais virtuoso.
Coisas também deixei pelo caminho. Outras haverão de chegar. O ano foi bom, de retomadas e reconquistas no trabalho, na vida, nas viagens e relações humanas. Diferentemente daqueles sem fundamento, dos que passaram destrambelhados, loucos de imprevistas e incertezas. Considerando além dos extremismos que parecem ainda resistir, todos perdemos. Agora nós, a humanidade, temos de novo um lugar ao Sol e torna-se justo ansiarmos por uma tempestade de bonanças.
Viajar me parece uma boa ideia para celebrar o novo ano. E esperar que os caminhos e atos tortuosos se endireitem, pelos recomeços e restauração de vidas. Chego aos 72 anos de idade com muito a festejar. Devo à vida essa riqueza e o faço com prazer. Soa como uma declaração de amor? Pois é! Afinal, a felicidade está na compreensão de que a vida precisa ser comemorada, não apenas vivida. A primeira é uma condição da segunda. E não dá para adiar mais a felicidade, embora, por certo, eu deva postergar a vontade de aprender piano, mas não as viagens planejadas e os lugares ‘estranhos’. Espero-as, nos próximos 365 dias. Que venha bem o ano novo! Preciso, enxuto, direto e certeiro. Ensolarado, nada dos sombrios cinzentos de chuva miudinha.
Bom Natal e maravilhoso Ano Novo a todos! E até lá, Túnis.





