Já se vai um ano. Bem-vindo, 2024!

Viver é tão bom

Acordei cedo, pouco antes das galinhas e com um triste sol pálido. Era véspera do Natal e quase de nossa partida para a Tunísia. Eu pensava naquilo como nunca, no atípico dia frio e um bom lugar pra ler um livro. Mas não. A força do pensamento me fez passar um filme que me dei ao gosto de deixá-lo rolar. Não era a coisa mesma, de sempre, aquela lengalenga de todo fim de ano, de pretextos para reflexões filosóficas, de gratidões e promessas que – se não tomo cuidado – convertem-se em não cumpríveis.

Não. Nem eram as da minha imaginação, sempre ampla, livre e prodigiosa nesta época do ano. Se desembrulhava na memória um aglomerado contínuo de imagens. E das boas, mesmo que não em technicolor e já um pouco desgastadas. Estavam no tempo e carregavam o tempo com elas. O filme ganhava sentido com as recordações de quando “passei” (nem posso dizer que “estive”) por Túnis numa viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo no século passado. Apesar do desgaste, senti-me privilegiado em tê-las ainda na memória nessa altura da vida, o que comemoro, tal como o Ano Novo.

Foi coisa breve, como não será o prazer de aterrar num destino desejado, de retornar ao estimulante continente africano, desta vez não ao Sul – para ver animais – senão ao teto da África. E de novo à Tunísia, para sete dias de visitas. Na escolha, não hesitamos no destino. E do começo ao fim, acreditamos que será uma viagem com tudo para dar certo e que também haverá de ficar impressa.

Dezembro acaba e com ele o Natal e também meu pouco entusiasmo com a data, que nem por isso deixa de ser gloriosa, pois imenso será o prazer de reunir familiares em minha casa na noite do dia 24. Tão francamente quanto posso ser, não sou religioso, o que para mim não tira do evento o prazer. De me esmerar em proporcionar uma bela noite de encontro, de troca de presentes e confraternização, numa mesa e numa sala cuidadosamente preparadas para a honra que se repete todos os anos.

Variantes depois de variantes, dois anos sem vergonha passados e tumultuosos, cinco doses depois, quase morta a pandemia, aproxima-se um janeiro estalando de novo. Não foi tão duro o ano velho, ao menos não como os dois que o antecederam. Difícil para alguns e maravilhoso para outros, de todo modo fica para trás. Não eu, que por caminhos mais retos que tortuosos, aos 72 anos chego ao novo imaginando-o com esperanças. E como bem disse Rubem Alves, em “O tempo e as jabuticabas”, sentindo-me como o jovem que diante de uma bacia de jabuticabas, chupa as primeiras displicentemente, mas ao perceber que terminam, passa a roê-las até o caroço.

Procuro não esperar ocasiões especiais fantasiosas que nunca chegarão, porque afinal, somos nós mesmos – aqui e agora – os responsáveis pela criação de nossos momentos. Carpe diem, quam minimum credula postero (aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no de amanhã) pode ser meu novo lema de vida nesta altura dela. E vou entrar com o pé direito, que dizem trazer sorte. Embora nestas coisas não haja nada certo nem seguro, nós merecemos pensar num ano mais virtuoso.

Coisas também deixei pelo caminho. Outras haverão de chegar. O ano foi bom, de retomadas e reconquistas no trabalho, na vida, nas viagens e relações humanas. Diferentemente daqueles sem fundamento, dos que passaram destrambelhados, loucos de imprevistas e incertezas. Considerando além dos extremismos que parecem ainda resistir, todos perdemos. Agora nós, a humanidade, temos de novo um lugar ao Sol e torna-se justo ansiarmos por uma tempestade de bonanças.

Viajar me parece uma boa ideia para celebrar o novo ano. E esperar que os caminhos e atos tortuosos se endireitem, pelos recomeços e restauração de vidas. Chego aos 72 anos de idade com muito a festejar. Devo à vida essa riqueza e o faço com prazer. Soa como uma declaração de amor? Pois é! Afinal, a felicidade está na compreensão de que a vida precisa ser comemorada, não apenas vivida. A primeira é uma condição da segunda. E não dá para adiar mais a felicidade, embora, por certo, eu deva postergar a vontade de aprender piano, mas não as viagens planejadas e os lugares ‘estranhos’. Espero-as, nos próximos 365 dias. Que venha bem o ano novo! Preciso, enxuto, direto e certeiro. Ensolarado, nada dos sombrios cinzentos de chuva miudinha.

Bom Natal e maravilhoso Ano Novo a todos! E até lá, Túnis.

Tunísia, Roma e Florença

A vida, uma viagem

Desperto no silêncio da noite. O relógio anuncia as cinco da manhã. Em meio às luzes pelas frestas, à penumbra que antecede o alvorecer, penso: “não era para essa luz entrar agora!” Mas aquele raio, que atravessou meio planeta para me despertar, nesta altura alta da vida veio lembrar-me que isso tem deixado de ser peculiar. Percebo a melodia suave da chuva a cair lá fora e lembro-me de que o tempo – este senhor implacável – prossegue em seu curso inexorável. E o sinto como se batesse à minha porta, através daquele raio, e à consciência quisesse me fazer recordar de algo vital. Atendo e ele diz: “O novo ano se anuncia”. Surpreendido, indago mentalmente: “Outro ano novo, já? Mas ontem mesmo vi o passado chegar!” O tempo, atencioso, mas sem dele mesmo a perder, com sua soberba, repara, me escuta e responde: “Sim. E não há que caminhar vagamente pela estrada da vida”. Então ele, majestoso, tão dono de si, vira-se e mostra que não liga para mim, que continuará a passar de seu jeito intolerável.

Eu nem queria lembrar-me, mas experimento mais uma vez o peso de minha própria jornada. Vivo o desconforto da idade, mas também celebro o privilégio de ainda estar por aqui, pois não sou de remoer o passado, mas de fitá-lo com gratidão, pois cada instante dele moldou quem eu sou. E para minha sorte, impôs-se bem mais ao meu corpo que à minha mente. Eu gosto de mim! E, afinal, ele passa assim desde que o tempo é tempo.

Não há tempo a perder no Outono da minha vida

Meu aniversário coincide com os primeiros raios do ano. Dia dois. Uma desvantagem, pois adentro o novo ciclo já tocado pelo envelhecimento. Contudo, a consciência sussurra que nesta etapa da vida – onde o passado supera em muito o futuro – não há a perder, embora eu viva um eterno desencontro entre a velocidade com que ele passa – a mesma com que noto meus filhos crescerem – e aquela que eu desejava que passasse. Não há mais tempo a ficar parado. Nem mesmo para ouvir toda a minha própria história.

É apenas mais um ano“, costumam dizer. Contenho a vontade de replicar, optando pela reflexão e num instante fugaz, minha mente conclui: sete décadas! E um pouco mais próximo do ocaso. O Outono da minha vida. É sempre assim, desde que o tempo é tempo. Não há razão para correr em busca da salvação, pois o risco de tropeçar é iminente. Contudo, faço o que está ao meu alcance: cuido da saúde, estimulo os neurônios, fortaleço os ossos e músculos, embora adie a cirurgia de catarata como se adiasse o tempo, essa inevitabilidade. Deixo meus pensamentos e planejo a próxima viagem.

Viajar é bom. Para ir ali e voltar, sofrer e chorar, rir e comemorar, como olhar de quem sabe ou a surpresa do desconhecido, numa tocada leve ou levada atrevida, a passo de caracol ou corrida de lebre, para lembrar-se de um simples momento ou marcar-se por toda a vida, para que a viagem nunca se acabe dentro de si, ou para que se a esqueça logo após, viver instantes pequenos e momentos grandes, segundos ou dias, entre sisudos e cordiais, experimentar a hospitalidade de uma nação inteira ou o mau humor de outra, como náufragos numa ilha ou num ônibus de excursão. Do Senegal a Zanzibar, da Lapônia ao Butão, da Mauritânia à Amazônia. E ver-se mergulhado nos preparos ou ir sem um qualquer.

 Para tentar sem conseguir ou para vencer. Tal qual um globetrotter ou um estreante, no Inverno ou no Verão, nas proximidades ou numa volta ao mundo, ver as coisas feitas para o gosto do turista ou aquelas que eles nunca visitarão, entrar num pagode ou numa catedral, castelo ou casebre de palha, andar ao acaso ou com sentido, não ter o que fazer ou por uma agenda impossível, com poderes mágicos ou com humanos limites, para passar e cumprimentar alguém, mas não responderem, ou para não crer num convite a entrar. Por lugares remotos ou entre os mais lotados, sentir-se um descobridor ou turista acidental, por um deserto ou numa estrada lisa, à beira da via ou dentro dela, para que a estrada seja a viagem ou que tudo esteja apenas ao fim dela. Por trilhos ou rios, sobre um camelo ou num caminhão overland, de bicicleta ou de moto, de jipe, sob um crepúsculo arrasador ou um belo amanhecer. De dia ou à noite, acampando sob um céu estrelado ou dormindo num hotel espetacular, deambulando por entre uma floresta de edifícios numa megalópole ou numa cerrada floresta tropical, vendo gente ou só animais. Por um ano, por muitos anos ou alguns dias. A um ícone urbano ou a um vilarejo escondido. Para cercar-se do mundo ou dele afastar-se, para fotografar, filmar, escrever umas linhas ou um livro, e assim fazer a viagem viver para além de sua memória, na de muita gente. Para buscar nela o consolo ou comemorar a felicidade. Para ser a primeira ou a última.

Viajar é bom, enfim, e um bom meio de viver essa riqueza que é a vida. E será assim mais uma vez, quando o Natal mal terminar, eu com minha metade passarmos da festa para a próxima viagem: um encontro turístico no Norte da África, com a Tunísia – um lugar que embora tenha tudo para ser, ainda não foi descoberto pelo de massa – numa jornada desejada e planejada que mais uma vez marcará para o bem o resto de nossas vidas. Por lá ficaremos, e na volta, pequenos dois dias em Roma e outro par em Florença. Que coisa, não?

Viva a vida, o novo ano, e fé no que virá!