Aqui, depois aqui… Umanoite aqui, duas… Eu contava os lugares até parar no primeiro: o Deserto do Namibe, imensidão desmedida até mesmo para um planisfério. Chamam-no de “lugar vasto e desolado”, fica dentro do Parque Nacional Namib-Naukluft. Paro e me fixo por um tempo no Desert Hills Lodge, em Sesriem, primeiro de nosso extenso roteiro. Contemplo a Namíbia para além de sua Capital, mas sequer penso em seguir o itinerário até as opulentas Cataratas Vitória, quase final do roteiro. Fico por li mesmo, percebendo os tons do deserto pouco antes do anoitecer, 350 km depois de nossa chegada.
Já à noite a pureza do céu – todo tão limpo e claro – faz parecer que o Universo está mais perto de nós e que engole nossa pequenez. É diferente ali: as estrelas vêm até você. E seja quando e como for, sempre será uma bela noite, como em nenhum outro lugar na Namíbia, uma vastidão de céu invadindo olhares, corações e mentes. O silêncio também, é notável e pode ser uma das sensações mais deliciosas de sentir o contemplador. Sinto as minhas vivas, como referências que guardo de quando ali estive. Tudo é irresistível – mas o céu…ah o céu! “Ora (direis) ouvir estrelas!”. Eu creio que posso ouví-las, e sem ter perdido o senso.
Ainda não é o lugar da bicharada, mas das areias avermelhadas e das estrelas, que a vontade impetuosa de começar a viagem me faz pensar assim agora, dias antes de voar, percorrendo o mapa com os olhos, como se já estivesse conduzindo nosso 4X4, entre os outros veículos à nossa espera no hotel, no dia da chegada. É de sonhar com a viagem de sonho que nos sentimos agora, a seis dias de embarcarmos. Nos espera o anoitecer no deserto, e minha mente prega suas peças, me faz sonhar com uma viagem de sonho, a nossa grande expedição overlander a percorrer o Deserto do Namibe com o grupo (que grupo!) de brasileiros, pessoas tão interessantes quanto os destinos e suas paisagens.
Ai, custa esperar.
Ao som da Sonata para Piano, No. 16, “Facile”, K 545, Segundo movimento, Andante
Não me levem a mal os terraplanistas, mas o mundo é redondo, não tenho dúvida. E mesmo que me esforce para pensar o contrário, é inútil, embora eu me entretenha imaginá-lo daquele jeito. Contudo – nesses tempos em que o mundo está de fato “achatado” pela globalização, os avanços da tecnologia e da comunicação, que estejamos conectados como nunca e que as noções de distância estejam extremamente reduzidas – ele ainda é fisicamente redondinho.
Quandoo encaro assim, penso em África, naquele continente vasto, diverso e cheio de riquezas culturais, geográficas e humanas que me sugerem uma deliciosa coleção de aventuras. “Viajo” por uma abundância de lugares com experiências notáveis, encontro naquele “planeta”, amplas, novas e boas ideias de viagens que me atraem como abelhas o mel.
As árvores mortas de Deadvlei
Como nasce uma viagem?
De infinitas e particulares maneiras, mas, neste caso, uma rara, incrível e limitadíssima oportunidade de embarcar numa expedição com um grupo de brasileiros – cada qual dirigindo seu 4 x 4 pela Namíbia, Botsuana e Zimbábue – surgida durante nossa expedição pela África do Sul com a Overlander.
Grace, Robert e Renato estavam no comando do grupo quando corria o mês de setembro de 2023. Na noite de encerramento, confraternização e despedidas, Robert informou:
– Caros amigos, é com grande entusiasmo que compartilhamos uma nova jornada que já começamos a desenhar. Será uma expedição fascinante por terras de imensurável beleza, cruzando os mistérios da Namíbia, o coração selvagem de Botsuana e – como toque final – um pulo ao Zimbábue para visitarmos as Cataratas Vitória. A aventura, que promete ser tão memorável quanto a que agora concluímos, está programada para o próximo ano.
– No mês de março, eu e Grace partiremos para desvendar, pessoalmente, cada detalhe deste roteiro. Percorreremos as trilhas, visitaremos os lodges, refinaremos o itinerário e cuidaremos dos preparativos com a mesma dedicação e carinho que sempre colocamos em nossas expedições. Queremos garantir que cada curva do caminho e cada pausa ao pôr do sol estejam à altura do que sonhamos para vocês.
– Quando retornarmos ao Brasil, enviaremos um comunicado formal a todos que queiram se juntar a nós. Cabe lembrar que já temos parte dos carros confirmados desde nossa aventura de maio, restando poucas vagas para completar o grupo. Contamos com aqueles de vocês que, hoje, encerram esta jornada conosco, para mais uma vez compartilharmos os encantos do continente africano. Aguardamos ansiosos para vivermos juntos mais essa experiência única.
Overlander – Grace, Robert e Renato conduzindo um grupo na África do Sul
Captamos prontamente os objetivos de Robert, atraídos pela ideia de uma nova expedição. Sem muitas palavras, tomamos a decisão ali mesmo. Até acertarmos nossa participação, passaram-se 3 ou 4 meses.
Como será a expedição
Cerca de 3.500 quilômetros de self-drive. Pela vastidão das planícies da Namíbia, país a que regresso com prazer. Seremos 18 brasileiros de diferentes partes do país, além dos 3 que nos guiarão, num total de 10 veículos iguais e equipados, apropriados para viagens do tipo overland e off-road. Nos encontraremos no Aeroporto Internacional de Windhoek, pegaremos um transfer até nosso primeiro hotel, onde receberemos nossos carros, kits e instruções, além de irmos ao mercado local para compras do que julgarmos úteis para a longa viagem.
O roteiro
Na manhã seguinte, cruzaremos a imensidão de areia avermelhada – o Namib Desert – mais antigo do nosso planeta, onde dunas esculpidas pelo vento se estendem até o horizonte e sob um céu de um azul permanente, que à noite converte-se num espetáculo de estrelas cintilantes. Nossos dias serão assim, cruzando o Spreetshoogte Pass, no meio do inóspito, belo deserto, conhecendo Sossusvlei e o famoso Deadvlei, no Parque Nacional Namib-Naukluft, seguindo até Swakopmund, na Costa dos Esqueletos, litoral do país, onde visitaremos Walvis Bay, passando pela icônica Solitaire, lugarejo no meio do deserto, extremamente acolhedor e curioso.
Mulheres do grupo Mbunza, noMuseu Vivo da cultura Mbunza
Através dasMontanhas Erongo, uma das zonas mais impressionantes do país, de origem vulcânica e com mais de 2.000 metros de altura, passaremos por cidades típicas do interior, chegaremos ao Parque Nacional Etosha e à Reserva Onguma, onde faremos alguns game drives de manhã cedo e à noite. A região é de grandes possibilidades de avistarmos leões, leopardos, guepardos, elefantes, gnus, rinocerontes negros e os raríssimos brancos, girafas, zebras, kudus, órixes, hienas, spingboks e steenboks, além de outras de dezenas de espécies de aves e animais.
Na Namíbia, boa parte das estradas é de terra ou rípio
Nosso roteiro continuará rumo a Rundu, onde pernoitaremos num river lodge, para na manhã seguinte seguirmos pela Faixa de Caprivi até Botsuana. Visitaremos o Salar de Makgadikgadi[1], o Deserto de Kalahari e Maun, a capital deste país. Teremos uma experiência cultural no Museu Vivo da cultura Mbunza e pernoitaremos às margens do Rio Kavango, onde na chegada faremos um passeio de barco pelo rio até Popa Falls.
Grace,da Overlander, conferindo e atestando a qualidade dos serviços in loco
NoParque Nacional Chobe deixaremos nossos carros e sairemos em jipes abertos para novos e diferentes safáris, região com enorme população elefantes e búfalos, além de incrível avifauna. Faremos um morning game drive no Chobe National Park e seguiremos para Kasane, atravessando uma estrada parque com chance de avistarmos animais selvagens até chegarmos ao próximo lodge, onde teremos tempo de fazer um safári de barco pelo rio Chobe até o pôr do sol.
Um novo dia estará nascendo quando formos em direção ao Zimbábue, onde visitaremos as Cataratas de Vitória, uma das atrações mais icônicas desta região do continente. Deixaremos nossos carros e seguiremos todos juntos de ônibus. Na fronteira realizaremos os trâmites de entrada no país e seguiremos para as cataratas situadas no rio Zambeze, na fronteira com a Zâmbia.
Robert, da Overlander, conferindo as emoções de um passeio de mokoro, destaque da expedição
Almoçaremos num lugar com vista incrível para as Victoria Falls, visitaremos um centro cultural com artesanato local muito peculiares da região e ao final do dia retornaremos para Botsuana. Após o café da manhã do dia seguinte, partiremos em comboio com destino a Maun, onde pelo caminho veremos grandes baobás, apelidados de “Árvores da Vida”, símbolo icónico do continente africano. No dia seguinte iremos em direção ao Delta do Okavango e à tarde partiremos para um game drive na região. Após o café da manhã de mais um dia iremos até as margens do Rio Khwai, onde teremos uma experiência inesquecível: um passeio de barco mokoro, que tradicionalmente eram feitos escavando um grande tronco de uma árvore, mas atualmente de fibra, sendo ainda um meio de transporte popular. À noite, depois de nosso último game drive, teremos nosso Jantar de Encerramento.
Robert, da Overlander, recebendo os respingos da Victoria Falls
Após o café da manhã do último dia, partiremos em direção ao Aeroporto de Maun, onde faremos o primeiro voo de retorno ao Brasil, para Johanesburgo e depois cada um para suas cidades.
Toda viagem requer preparação. Cerca uma viagem todo tipo de contratempos, sobretudo uma digna do nome overland. Mas não essa. A experiência anterior nos proporcionou a tranquilidade e a segurança de não termos que nos preocupar com nada, além de arrumarmos as malas com as coisas certas. Iremos novamente com a Overlander – da Grace e do Robert – para a África subsaariana, embora não à África do Sul, mas também numa expedição que transcenderá as fronteiras geográficas, mergulhará na história e na vida selvagem e natural. Precisarei apenas da leitura, dos vídeos – mais por curiosidade – pois tudo certamente se repetirá na milimetricamente perfeita e caprichada organização costumeira.
Sossusvlei e a Duna 45 – by Robert Ager
Que chegue logo a hora do sonho, das emoções confusas, das percepções desordenadas e dos fragmentos de coisas reais converterem-se finalmente em momentos reais, do encontro com o grupo no aeroporto de Windhoeck e de vivermos aqui nosso sonho a dois, eu com minha metade, além de todo o grupo. Afinal, viver é melhor que sonhar, já dizia Belchior! Aqui, ali e em todo lugar, para viver essa vida, vida que vale a pena, como um navegador que navega por esta esfera, Terra, da cor azul e branca.
Até lá. E boa viagem.
[1] Pronuncia-se mâhâdihâdi em tsuana (“mahadigadi”) língua nacional do Botsuana