Veneza e bolonha

Somos todos culpados

Tema d’Amore – Love Theme, para Cinema Paradiso, de Ennio Morricone, by Pat Metheny

Grande canal com Basílica de Santa Maria della Salute ao fundo © Dalbera (CC BY 2.0)

Enquanto caminho (ou flutuo) sobre Veneza, reflito acerca da harmonia mais única, preciosa e cativante desta cidade: da terra com a água. E envolvido por sua atmosfera fascinante, esqueço-me de que apesar de aqui o mar ser quase sempre sereno – enquanto aprisionado em cento e cinquenta canais, e tão poético quando embala gondolas dançando amarradas a troncos – vez por outra infiltra-se sorrateiramente pelas paredes das casas e as apodrece lentamente. E pode ir além, muito além, quando invade suas ruas e labirintos e espraia-se da laguna por suas praças durante a Acqua Alta. Pobre Veneza.

E ela, vista por mim, seja de que ângulo for, por dentro ou com os pés à borda, me faz pensar que além de Veneza, eu também não mudei desde que a vi pela primeira vez. Foi no século XX. Faz tempo, quase outra vida, mas de um passado que me faz feliz por ainda poder lembrar-me dele. Então, considero que vivo neste momento dois privilégios: estar em Veneza e ter boa memória. E mesmo no meio de uma cidade abarrotada de turistas, por onde caminhar às vezes é um exercício de paciência, penso que, apesar do clichê, talvez eu seja mesmo um privilegiado.

Em seu começo, a invasão de forasteiros – poucos ainda, apesar de muitos – deu-se logo depois da Segunda Guerra Mundial, mas nada que se aproximasse dos 83 mil por dia nos dias de hoje. E ainda não havia lojas de souvenirs baratos. Oitenta e três mil.  Por dia! Numa cidade onde moram 55 mil. Somos, então, todos culpados pelo que fazemos com Veneza. E se formos daqueles que gostam de ouvir os saltos de quem caminha, mas não se vê, só indo muito além de onde vão os turistas.

Apesar de minha idade, em que nesta altura seria natural acomodar-me, não. Eu ainda trabalho, caminho e permaneço motivado pelas viagens. Contudo, me permito já não me agradarem certas obrigações sociais, tampouco estar sempre disponível para outras dispensáveis. Ainda assim, Veneza permanece me chamando, apesar de todas as suas mazelas turísticas, com minha visão de sua quase decadência, assediada pelo turismo excessivo e humanamente insustentável, abafada pelas multidões que devastam sua essência. E eu a atendo. As melhores viagens de minha vida não são apenas as que eu ainda estou por fazer, senão também as que refaço.

Embora amenize que durante as caminhadas contemplativas eu “ouça” a belíssima canção tema de Cinema Paradiso, de Ennio Morricone, continua Veneza não sendo fácil. Verdadeira armadilha turística em cada fragmento da cidade, por vezes grotesca e triste. E eu, não tanto assim, observo-a admirado com seu didatismo histórico, cultural, artístico e arquitetônico, sem esperar que desta vez me habitue ao ponto de já não me afetarem seus excessos.

De suas margens ou na água – dentro dum vaporetto, traghetto ou gôndola, e especialmente porque estou sempre ao lado exclusivo de minha melhor metade, ou, ainda, do alto do terraço de nosso hotel, contemplo o espetáculo e percebo ter trazido meu preconceito com essas cidades excessivamente turísticas. Curiosamente, contudo, elas me provocam. Todas tão belas, que mesmo abarrotadas, exploradoras de seus visitantes e desconfortáveis, não me abalaram (ao menos não para sempre), que este turista raiz, mestre em revisitar cidades invadidas por nós, não se farta de sê-lo e fazê-lo. Até alimento um pouco mais meu descaso com aqueles que se autodenominam “viajantes”, não turistas.

E então, aqui estou, de novo, em Veneza, na tão batida quanto espetacular cidade.  E não venho sem pretensões, apesar do preconceito. Inclusive a de saber que esbarrarei nos 83 mil turistas que a visitam diariamente. Somos 30 milhões por ano. E todos culpados, como se não já não bastassem suas outras desgraças. São boas as chances de ser estimulante e inesquecível. Especialmente porque não encontrarei mais os “Cadeados do amor”que embora símbolos de amor eterno – enfeiavam as pontes dell’Accademia, Scalzi e de Rialto. Foram retirados pela prefeitura, proibidos. Tintoretto agradece. Além disso, a Prefeitura desestimulou as lojas de souvenires baratos.

Embora assim, Veneza está longe de ser comum, permanece obrigatória, embora não ideal. Ainda desperta emoções inigualáveis, muitas vezes, contraditórias. Contudo, ninguém consegue estar aqui com indiferença e de sentir-se “tocado” por ela. E talvez seja esse o motor que me impulsiona e aos outros milhões que a visitam.

Mais difícil, contudo, é descrevê-la. Tanto que nem meu entusiasmo por escrever sobre viagens ameniza o receio da imprudência. Ignoro mesmo o que eu poderia acrescentar depois de tanto que já se escreveu – de bom e não – desta Veneza que é um dos locais mais expostos aos lugares-comuns. Talvez, senão, relatar meus momentos contemplando tanta graça e beleza em pedra, tijolo e tinta, ainda que a Acqua Alta – a natureza reclamando seu lugar – pareça que irá acabar destruindo. Seja lá como for, Veneza marca. E espero, sob meu ponto de vista, conseguir descrevê-la ainda mais.

Já Bolonha, não, para mim é toda nova, um espaço vazio na minha mente que espero ocupar com toda a distinção. A cidade das torres, da cor ocre, dos tijolos alinhados em todas as fachadas, dos intermináveis pórticos e de seu maior lugar-comum: o macarrão à bolonhesa. Acerca desta cidade, que sobrevive melhor aos caprichos turísticos, ainda não tenho nada a dizer.

Até lá. E vida longa a Veneza!

2 comentários em “Veneza e bolonha

  1. Viajei nessas linhas até Veneza, que ainda não conheço! Simplesmente fascinante!!!

    Bia

    biaviagemambiental.blogspot.com

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