
Agosto vai em meio e divide o verão. A noite finda lentamente, mas o dia nasce de repente, com o vigor de um rebento. São 6 da manhã em Istambul aos 27 graus, temperatura que chegará aos 33, segundo as previsões. Vivo por uns momentos um prelúdio para o dia que nos espera. Desperto com chamado para a Fajr – a primeira oração do dia – 15 minutos antes do sol nascer, dois espetáculos com hora certa para acontecerem. Respiro fundo e ouço o azan melodioso – extremamente importante para os muçulmanos – feito em coro pelos muezim num mar de minaretes, e ecoa pela cidade, por seu mundo de vidas e histórias, para muito além do bairro onde estou. Embora tenham padrão rígido, da grande sabedoria em seus versos, percebem-se diferentes estilos, que variam segundo seu recitador. Para turistas ocidentais de passagem, ainda que sob olhares estrangeiros, é emocionante, espiritualiza a paisagem, mesmo que depois de uns dias possa embaralhar a mente dos que precisam dormir, embora muito maior seja a sensação de impacto no viajante. Quem em Istambul ignoraria uma janela com vista para aquele mundo?
Quando estou distante, sinto sua presença, ouço seus barulhos e me lembro de sua vista aérea mais encantadora, desde a Mesquita Suleymanie. E pensar nela suaviza a saudade. Não vejo a paixão como um desvio, mas um amor que a separação faz sentir saudades e pensar. Só consigo sair dela porque sei que vou voltar. O destino quis assim. Desde a primeira vez que fui a Istambul, ela não saiu de mim. Depois, com muitas visitas, ficou tão grande que não me cabe mais, vaza de mim. Nem eu quero que dela algo me escape, pois não me atrapalha, ao contrário, alimento-me bem dela.
Com uma ponta de ousadia, chamo-a “minha cidade”. É possível que ela admita o atrevimento, pois enquanto a avisto, uma chama sem pavio me aquece. Do outro lado do vidro, enquanto o dia raia, ela ainda corre devagar, mas logo crescerá, chegará às mãos e andará à solta dentro de nós. Olhando-a assim, através da janela, e sem pressa, meu pensamento divaga, me perco na cidade e ainda sobra tanto dela. Mas sou todo reverência. Olho cada coisa como se a visse pela primeira vez, embora conte as que estive em Istambul: sete, com esta. Quase me surpreendo como permanece absorvente. Desde a primeira, há dezessete anos, de onde trago marcadas as imagens e sons de sua magnificência. Celebro em mim a gratidão, a cada vez, por tornar-se ainda mais nossa, familiar e incrivelmente prazerosa. Certas cidades são assim, sentem-se mais no coração do que nos olhos ou na mente, e muitas vezes mais do que na razão. Talvez – como nas paixões – perco-me por Istambul. Não me admira ser a cidade mais visitada no mundo.[1]
Nada de novo à frente, embaixo ou acima de mim. Não preciso mais saber olhar para ela, aprender nada, desembaçar a vista. Seu exotismo e grandiosidade já há tempo a converteram de “destino desejado” em “nossa cidade”. Agora, familiar e deliciosamente habitual, conhecida até pelos cheiros, continua a nos aguçar os sentidos, recriar a felicidade inicial, a nos abrir sorrisos próprios dos prazeres da familiaridade. Para vê-la, agora, já preferimos as passeadas lentas. Para senti-la como tantas outras coisas ir se tornando ainda mais parte de nossa vida emocional. O prazer é quase mágico e renovado a cada visita. Por mim, só paro de vir quando me fizer sentir tédio, embora seja coisa que não costume dar em mim. Sequer dentro de casa. Ao contrário, em Istambul, escolho as sensações.
Posso ir para todo lado, qualquer que me apeteça. E vou. Para muitas pessoas, deve ser um desafio à lógica essa repetição de destinos. Não para mim, que sou feito de muitos lugares, alguns imensamente repetidos, na mesma proporção do prazer generoso e do entusiasmo que me provocam. Assim como para a Índia, onde sempre encontro mais do que o esperado.
Mais um anel?
Mais um anel para os dedos da amada, uma pulseira para seus pulsos? Uma tulipa furtada de um jardim da cidade? Não espero delas, é verão. Quem sabe, dizer-lhe um sonoro “te amo” inesperado? Talvez não, nem palavras, porque só expressões bastam, assim como Istambul, que é lugar perfeito para comemorarmos nosso aniversário de união.

Entre tantas, é uma boa razão para estarmos aqui, coisa que por sorte compartilhamos com a mesma paixão. Me conforta perceber também o prazer da amada e seu entusiasmo com a cidade. Não resistimos ao desejo de repetir nossas certezas de que ali, tudo o que vivermos e avistarmos, embora familiar, terá sempre a mesma intensidade. E apesar de difícil para mim a arte de viajar sem planos, objetivos e expectativas, não nos sentimos gastando tempo sem estes em Istambul.
Meu coração agora está em Istambul e para além de mim, da cidade, até de Bizâncio e Constantinopla. Ainda não nos encontramos no distrito de Fatih. Por enquanto a aprecio seu lado europeu pela janela. Não é sua parte mais paralisada no tempo, onde nos agrada muito observar a competição fenomenal entre abóbadas e minaretes que excedem minha capacidade de admiração. Sequer o desjejum ainda comemos, mas para ele logo iremos. Para este lado – Beyoğlu – bom tempo dispensaremos. Ali também compreenderemos por que seus habitantes expressam em sorrisos a sorte de morarem num lugar tão inspirador.
Viva Istambul, onde estaremos em breve e para onde embarcaremos outras vezes mais, embora desta vez não sei se contarei as histórias que já contei antes.
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[1] Em 2023, a cidade mais visitada do mundo foi Istambul, seguida de Londres (Reino Unido), Dubai (Emirados Árabes Unidos), Antalya (Turquia), Paris (França), Hong Kong (China), Bangkok (Tailândia), Nova Iorque (USA), Cancun (México) e Meca (Arábia Saudita).
