
Como se a luz do dia fosse insuficiente, a noite se insinua e tudo se transforma. O crepúsculo comove, acaricia, instila em nós um encantamento que arranca suspiros, como quase tudo nesta cidade. Se o dia não foi pleno o bastante, a noite, sem dúvida, transformará seu observador no mais recente apaixonado. Aquele que, mesmo sem proferir palavras, sem publicar em revistas ou blogs, sem partilhar com os seus ao chegar em casa, de alguma maneira, sem difundir seu encanto, o traz expresso no rosto, gravado na mente e guardado no coração. Posso duvidar de quase tudo, exceto do modo como Praga encanta desde o primeiro momento..
É outono em Praga. O sol agora não se despede por trás de Malá Strana nem lança seus últimos raios de luz tênue e enfraquecida, mas que se projeta com a mesma magnitude sobre a profusão de torres pontiagudas, de cúpulas e fachadas da gloriosa Cidade Velha. Desta vez não. A luz, que costuma realizar prodígios na linha do horizonte e transforma o instante efêmero num dos mais comoventes, mágicos e românticos que se podem experimentar na capital boêmia, converte-a numa rapsódia. Rapsódia, seja arcaica ou moderna, de Antonin Dvorak ou de Freddie Mercury, mas igualmente tocante. Ou ainda, numa serenata de Mozart e com a mesma intensidade e suavidade dos crepúsculos de verão em Praga.
Para o observador, a sensação pode ser real ou de fantasia, contudo um fenômeno de beleza incontornável, que visto assim, desde a Ponte Carlos, converte espectadores – hordas de turistas encantados – em seres mais felizes, de corações mais aquecidos e dias melhores.
Praga é poética, uma “praga” que inspira centenas de centenários dedos e mentes de escritores e poetas vivos ou mortos que já a descreveram, cada qual com sua força e interpretação, sem que precisassem de poentes tão vigorosos, das primaveras e outonos refletidos nas águas planas do Rio Moldava. Ajudaram, talvez sem querer, a tornar as outras cidades da Europa um pouco menos belas. E nos fizeram reconhecer que para além da beleza escancarada da cidade, vive-se ali uma atmosfera romântica e mágica que engole quem já não antes houver sido tragado por sua arquitetura.
Creio que até os corações de bronze dos santos da Ponte Carlos aquecem-se n esta hora. Trinta deles, transformados em metal pelas mãos talentosas de escultores nos anos 1600 e 1800, os quais parecem reverenciar o astro rei do mesmo jeito que nós, turistas mortais, são tomados pela plenitude da beleza, estátuas que trazem boa sorte, que realizam sonhos secretos para os que sabem deles, que no bronze escuro esfregam as mãos com pedidos, na esperança de realizarem-se.
Nossos corações aqui se entregam e custam a se recuperar do momento. São marcados pelas “garras que possui a cidade”, nas palavras manjadas de Kafka. Apreciá-la da Ponte Carlos nos rouba a razão por instantes, de tal modo que chega-se a pensar em alguma magia exclusiva ocorrendo por ali.
Praga merece olhares elegantes e palavras alinhadas, embora às vezes seja difícil ignorar as ordinárias e os clichês. Sobretudo quando descrevo seus lugares mais expostos ao turismo, como a Ponte Carlos. Tanto quanto possível, merece de mim o melhor. E não só por sua beleza, mas por seu conteúdo: de Mozart a Kafka, do barroco ao renascentista, das ruas estreitas e sinuosas às largas avenidas, das tantas e belas igrejas aos ricos e curiosos museus que às vezes convertem a cidade numa sala de aula.
Com o mesmo aprumo de meu olhar, tento descrevê-la exercendo minha liberdade de trafegar pelo poético e pelo romântico sem disfarçar minha parcial e apaixonada admiração.
Estou aqui novamente, tão plenamente presente quanto possível, agora tentando descrever minhas impressões com equilibrismo mental, do mesmo jeito que os malabaristas que se apresentam da ponte. E como os turistas que balbuciam seus desejos enquanto esfregam o bronze das estátuas dos santos, rogo que me emprestem um pouco de bom senso, a fim de que eu deixe as palavras em excesso correrem junto com as águas por baixo da ponte. Do mesmo jeito que por vezes, em costumeiras inundações, tentam levar junto a cidade rio abaixo.
Rodo lentamente o olhar por Josefov, Staré Mésto, Nové Mésto, Malá Strana, Prazský Hrad e Hradcany – os seis bairros próximos e pequenos – antes que o céu torne-se negro, embora a escuridão também traga lá grande beleza à cidade. Esqueço o redor e paro a vista sobre a poderosa colina Hradcany, sobretudo em seu magnífico castelo, e o brilhantismo que agora se impõe, do meu olhar saca suspiros. A catedral perfura o céu e a mim, pináculos agudos tal qual há pouco fizeram os da Igreja Týn.
O céu vai se tornando escuro, as luzes vão-se acendendo e as estrelas aparecendo. Em algum lugar, por trás do horizonte onde concentro o olhar, o Sol irá se pôr aqui para nascer no Japão.
É um momento em que o tempo voa, que o notamos mais breve que por todo o dia, quando ambas se unem num só feixe de luzes e sombras iluminando, ora em corretíssima luz dourada, ora em novas, intrigantes, sombrias e mágicas perspectivas obscuras. E como se o dia não bastasse à à cidade das mil torres, é hora boa para deixarmos a beleza da ponte e espreitarmos os becos de Staré Mésto.
É quando por ali se escondem alguns surpreendentes segredos da cidade, entre edifícios de delicadíssimo art nouveau (felizmente longe do brutalismo arquitetônico funcional socialista de outrora) e guardam-se boa parte de seus feitiços. Por onde é imperioso caminhar entre seus becos e ruas tortuosas para descobri-los, tentando abstrair-se da multidão de turistas.
Como se uma não bastasse, voltei a Praga pela terceira vez para contemplar o por do sol sobre a ponte Carlos.
