CAIRO – A Cidadela de Saladino. Ah, que vista!

Para ler ouvindo Something left unsaid – Por Lyle Mays

Chegamos cedo. Tão antes do tempo que mesmo depois dos ingressos comprados tivemos que aguardar a abertura dos portões da Cidadela de Saladino. Estávamos numa grande praça à entrada do complexo e diante de um improvisado café onde aqueciam-se com a bebida os motoristas das vans e ônibus turísticos. E embora houvesse sol, seus raios fossem para todos, os sentíamos nos olhos, mais do que na pele.

Olhando para a muralha da cidadela, aquelas suas enormes torres de vigilância, os minaretes e o grande portão de acesso, o típico palácio árabe aparentava ser mais que obra concreta, senão uma ilustração do livro de histórias das “Mil e uma noites de Sherazade”[1].

O céu estava surpreendentemente claro e limpo, quase sem nuvens, azul e transparente, então um agradável convite às caminhadas ao ar livre, contudo sob a confortável temperatura do inverno. Nada mais atraente e apropriado para uma visita ao legado de Saladino: a Mesquita de Alabastro, os pequenos palácios convertidos em museus nada assombrosos (quase sempre fechados) e os terraços com vistas soberbas sobre o Cairo. De longe, aquele com a melhor vista aérea da cidade, seu um grandioso conjunto arquitetônico, para as tantas outras cidades que parecem haver dentro do Cairo.

O Mirante da Cidadela de Saladino

A paisagem permitia aos olhos enxergarem muito além do que vista alcança, e a mim, olhar como nunca houvera feito antes. Eu me concentrava nas minúcias, embora o monumental fosse o que dominasse o panorama. Surpreso, eu contemplava o Cairo Islâmico e seu mar de construções monocromáticas, o horizonte, as pirâmides e as areias infinitas do deserto. E já que a imaginação me permitia, embora não o céu leitoso, enxergava até mesmo a indecifrável esfinge. E não era mal com a segurança da distância, protegendo-me de seu jeito Monalisa, seu olhar perdido, mas traiçoeiro, fingidora ao desdenhar do observador, mas pronta a devorá-lo. E com o que a imaginação me concedia, avistava também o Alto e o Baixo Egito, todo o Magrebe, o Oriente sendo inteiro.

Embora tudo ao alcance da vista fosse apenas um vislumbre, a mera sombra da vastidão da cidade onde vivem 45 mil pessoas por quilômetro quadrado, sua grandeza era avassaladora, tão estimulante da curiosidade que, mesmo indescritível, não era imencionável. Ia, assim, muito além de sua concretude, estimulava-me, sem barreiras, as especulações.

Depois daquele fabuloso estímulo ao olhar, o silêncio era o que mais eu sentia. Afinal, no Cairo, silêncio e solitude, caem tão bem quanto podem surpreender. Lá se iam 3 dias na capital, tempo bastante para percebermos o prazer da calmaria, pois de tão rara que, o visitante que não esteve no mirante de Saladino haverá de acreditar que a quietude no Cairo é como as bruxas: não se creem nelas, mas que existem, existem. E já que é tão rara, talvez só ali se perceba, estimula tanto os olhares curiosos, a fim de que devorem a grandeza das minúcias da insana cidade, sem contudo ouvirem-se seus ruídos, sob o reconfortante prazer da quietude.

Seria ridículo supor que éramos os únicos turistas por ali naquela fria manhã de dezembro, mas era surpreendente não estarmos no formigueiro humano, ao contrário, entre tão poucos visitantes numa das atrações mais fundamentais da cidade, exclusividade consagrava o momento num privilégio.

Dali o observador, enquanto avançava o olhar pela urbe, sente-se como um pássaro em voo livre, planando nas alturas, tocado pela brisa, escaneando a paisagem como um predador, com largos e atentos olhares, assistindo à sua balbúrdia quase incivilizada sem que precise mergulhar na “lama” de seu escarcéu.

No primeiro plano, encontram-se a cidade árabe e a turca otomana, mais distante a modernista de 1920 – com suas boas influências francesa e inglesa – e ao fundo, a contemporânea Cairo, cada qual com suas pequenas grandezas, desenhos complexos ora sofisticados, ora rústicos, arquitetura nas miudezas, pormenores, pequenos elementos de uma fachada, residência, um telhado, minaretes, uma pousada, das ruas estreitas que somem por trás de prédios e reaparecem adiante defronte de casas baixas, uma diversidade tão numerosa de pormenores quanto o número de peças do Museu Egípcio. Ao observar o panorama do mirante de Saladino, desvenda-se a História da cidade em todos os seus tempos.

Ah, que vista!

Daquela paisagem, mesmo depois de tudo o que for dito, alguma coisa ficará por dizer, como nesta música de Lyle Mays.

Segurei a câmera como se fosse de cristal, com tal cuidado, mas a firmeza que seu peso exige. Apontei a lente para o panorama que mal cabia na grande angular. Não me cabia um registro apressado ou descuidado, então, fiz meu melhor, sem, contudo, captar a mínima parte do que enxergara, do que me revelara.

O grandioso cenário, todavia, não impressionava apenas a todos, ao menos não àquelas duas jovens que lhe dispensaram uma olhadela, deram-lhe as costas e dedicaram-se às selfies de caras, bocas e gestos “instagramáveis”. Por fim, já com algumas dezenas de imagens guardadas no cérebro e na Nikon, seguimos para conhecer o restante do lugar, caminhando por um jardim em direção à mesquita, enquanto nosso guia nos conduzia também ao passado, a 1183, ano em que as obras da fortaleza concluíram-se, depois de imaginadas pelo líder muçulmano Saladino.

A Mesquita de Alabastro

No interior, uma calçada coberta por arcos belíssimos se estende pela maior fachada da mesquita. Era enorme, simétrica, com lindas colunas de pedra, abriga várias entradas falsas, embora apenas uma leve ao seu interior. Entramos num oásis de calma, respeitando o código de vestuário e etiqueta islâmicos: sem sapatos, em silêncio e com nossas esposas cobrindo os cabelos, embelezadas por pashminas compradas na noite anterior no mercado Khan el Khalili.

Enorme, a Mesquita de Mohamed Ali, – ou Mesquita de Alabastro – é um soberbo templo. Revestido internamente da mesma pedra de quem toma o apelido, avista-se de muitos pontos da cidade. Pela porta chega-se ao pátio de abluções, como é comum nos templos islâmicos, que antecede a entrada ao salão de orações.

Rodeado por colunas e arcos de alabastro, a fonte de abluções tem desenho e ornamentação otomanos admiráveis. Contudo, uma curiosidade destoa naquele lindo pátio: um relógio de bronze instalado no telhado e sobre uma torre com aparência arquitetônica medieval, presente do Rei Luis Felipe da França em retribuição ao obelisco do Templo de Luxor, doado pelo soberano Mohamed Ali, que se encontra hoje no centro da Place de La Concorde, em Paris.

O interior do templo faz juz em tamanho à sua grandiosidade exterior. Por dentro, o silêncio é ainda mais notável, solene, quase de um mundo paralelo. Um candelabro pende do domo central e chega a poucos metros do piso, inteiramente coberto por tapetes originais. E tudo conveniente e discretamente iluminado por luz natural vinda da porta e de algumas janelas primorosamente calculadas, a fim de que os raios solares não descoloram os intensos vermelhos do carpete oriental. O minbar e o túmulo de Mohamed Ali – em mármore branco esculpido e ornamentado com pedras preciosas – são dois dos mais preciosos tesouros da mesquita.

Absolutamente tudo revela o tradicional bom-gosto do desenho islâmico, sua qualidade nos padrões geométricos. O tapete é um convite a nos sentarmos para apreciarmos detidamente o conjunto da obra. Depois de satisfeitos, a caminharmos sobre ele, a fim de conferirmos o conforto e o prazer de passear sobre ele para conferirmos de perto os detalhes ornamentais do templo, dezenas deles, tantos que exigiriam toda uma manhã de observação e fotos. E já que eram permitidas, nos fartarmos delas.

Quem já esteve em Istambul e visitou a Mesquita Azul, sua memória não o poupará de lembrar-se da Mesquita de Alabtastro, não sem motivo: a do Cairo foi inspirada naquela.

Que manhã passamos na Cidadela de Saladino. Ah, que visita!

Veja em 360 graus o panorama do Mirante de Saladino:

https://www.360cities.net/image/the-saladin-citadel-of-cairo-egypt

Próximo capítulo

A Mesquita e Madrassa do sultão Hassan e a Mesquita de ar-Rifa’i


[1] http://www.miniweb.com.br/cantinho/infantil/38/estorias_miniweb/1001_noites.html

7 comentários em “CAIRO – A Cidadela de Saladino. Ah, que vista!

  1. As descrições são tão perfeitas, até parece que você usou o incrível candelabro para iluminar todos os cantos visitados .

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  2. Uma viagem abre nossa mente, saímos da zona de conforto e torna-se linda e mágica pelas recordações que guardamos no coração. Neste fantástico texto pude reviver os momentos e lugares “mágicos “que passei ao lado de pessoas queridas. Parabéns e obrigada, afinal recordar é viver !!!’😘

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  3. Cada vez melhor!!! Não me surpreendo quando leio seus textos ou aprecio as fotos que apresenta com tanta qualidade. Reservo a curiosidade para os detalhes de suas descrições de pessoas e lugares, especialidade sua, que encanta mais a cada postagem. Obrigada por levar seus leitores a lugares que, magicamente, você torna tão mais incríveis.

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  4. Belíssimo texto. A descrição da Mesquita do Alabastro é realmente perfeita. Os detalhes arquitetônicos e do ambiente foram muito bem descritos, e perfeitamente ilustrados pelas fotos.
    Que candelabro lindo! E a vista panorâmica retratada na foto em 360° do Mirante do Saladino é de cair o queixo.
    Tudo isso acompanhado de uma música linda. Adorei.

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  5. Que fotos lindas e ricamente acompanhadas por este relato preciso e poético, meu irmão. Está não é a Mesquita mais linda do Cairo, mas a Cidadela é um passeio destes que guardamos na memória para revisitar muitas vezes. Obrigado pelo post e pela companhia!

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