Ang’ata Migration Ndutu Camp – Serengeti

Dormi sob um céu de meia lua e acordei com o sol rendendo o satélite. Em sua troca diária de turno, lutava para aquecer o inverno naquela parte da África. Era ainda um anúncio a luz da manhã, não a tangerina que logo encheria o céu. O frio era suportável, mas de sentir. Abri o zíper da cabana, fechei o do casaco, coloquei a cabeça para fora e encontrei “nosso” Maasai enrolado em seu olkarasha – o tecido xadrez que eles usam como capa e para afastar o frio. Cobria-lhe também a cabeça. Era azul, em vez do tradicional vermelho.
Parado a dez metros de nossa “porta”, parecia ter permanecido ali por toda a noite. Era discreto, mas magnético. Cumprimentei-o e obtive sua resposta, embora o desejo fosse de conversarmos, ainda que impedidos pelo muro das línguas. Estiquei-me um pouco mais e quase ao peito a barraca, olhei para os lados e avistei a fileira de outras. Contei doze, como quem não tivesse o que fazer. Ouvi vozes despertando. E à frente, o ruído de mato, que dançava ao sabor da brisa. A paisagem que a vegetação proibia, eu sabia ir até o horizonte. Pena não poder avistá-la, enxergar a espetacular, inigualável savana do Serengeti. O acampamento não tinha cercas, nem mesmo um fio de arame. Era o que o integrava à natureza de um modo pouco invasivo e ao mesmo tempo encantador. Dava para notar, dava para sentir: ali por trás todo o poder da savana, talvez animais, quem sabe, afastados pela ação do “nosso” maassai.

Próximo ao Lago Ndutu, o Ang’ata Ndutu Camp ficava bem perto da planície de grama curta do Serengeti. “Ficava”, porque meses adiante seria removido, desmontado e guardado para a nova temporada. Por aquela imensidão, os gnus se reúnem aos milhões em fevereiro e março. E estávamos em fevereiro!
O “maior espetáculo da Terra” – a migração, quando cruzam a fronteira aquática com o Quênia – só ocorre em julho, mas os animais que a protagonizam preparam-se para ela. Embora o Serengeti abrigue bem mais animais do que os gnus e os Cinco Grandes, inclusive a destacar os grous coroados, são aqueles os protagonistas.

Avistáramos muitos deles no dia anterior, num dia de pleno e fabuloso safari, experiências e encontros. Tudo tão perto da ação que parecia estarmos na primeira fila de um cinema. Um Land Cruiser como aqueles, com seu teto ajustável, permite vistas panorâmicas em 360°. Enfim, tivemos ali todas as demonstrações possíveis da singularidade do Serengeti. Contudo, agora, não resistia à vontade de conhecer a joia do dia: a cratera Ngorongoro, embora não fosse razoável esperar por nada mais de espetacular que tivéramos até então. Genuinamente, eu sentia que depois do Serengeti seria demais esperar que a cratera superasse nossa experiência.
Mas, primeiro o café
O homem segurava um cajado, andava curvado enquanto nos guiava pelo caminho reto até a tenda central. Protegia-nos da natureza selvagem e de sua agressividade. O cajado parecia lhe ser útil, indo à nossa frente, a distância confortável para ouvir nossos passos. O desjejum com o grupo foi com café preto tanzaniano. Bom, mas somos brasileiros, e gostamos de café. Minha fome e a dimensão da savana que dali avistávamos parecia alargar tudo em todas as direções. Espaço, tempo e estômago.

Milhões de gnus, gazelas e zebras provavelmente começavam seu desjejum também, em marcha lenta em sua busca cíclica por pastos verdes. Dali a poucos meses, estariam do outro lado do Rio Mara. Por enquanto, seu território tinha mais de 15 mil quilômetros quadrados que sustentam e abrigam leões, leopardos, chitas e hienas, além de uma série de espécies menores, de abutres a besouros de esterco. Como acontece há milênios, todos dependem do retorno dos gnus, ano após ano. Inclusive os besouros.

É aí que entra o Ang’ata Migration Ndutu Camp, acampamento montado e desmontado todos os anos pouco antes do período da migração. Quando escurece, a sensação é de segurança relativa, um clima de estar à mercê da natureza sob um indiscutível céu romântico estrelado sobre uma natureza crua, selvagem áspera e encantadora. A emoção de um safári hospedando-se num acampamento como aquele se multiplica.
Na cama, o corpo vibrava antes de adormecer. Eram doze tendas de estrutura simples, temporária, com chuveiros que pingam água quente de balde posta à noite, depois de madrugada perto do alvorecer, quando os maasai derramam baldes de água no reservatório de lata de cada barraca, nosso despertador de cada dia. As camas são boas, largas e confortáveis, com bons lençóis e travesseiros.

De resto, afora os móveis e duas lâmpadas de uma gambiarra dependurada no quarto e no banheiro, tudo é de lona ou de plástico. Até o piso. Do chuveiro e do vaso, inclusive. O banheiro privativo tem o chuveiro de plástico a dois dedos das cabeças preso por um arame. Fica inclinado, pendente.


A banca de pia de madeira tem cuba de cerâmica, mas é instável sobre o piso de terra. O vaso sanitário tem descarga que funciona. Às vezes. O lounge é o lugar para carregar celulares, baterias e tudo mais, disputadíssimo único ponto com eletricidade disponível.


Ideal para conhecer outros viajantes e compartilhar histórias do dia, tem sofás, duas mesas baixas defronte a eles e uma estante de livros e guias. Os cafés da manhã e jantares são servidos na tenda de refeições, logo ao lado. Grande e medianamente iluminada, com uma grande bancada para o autosserviço dos hóspedes. Por trás, a cozinha. Que não visitei porque cedo aprendi que nunca se visita uma cozinha de restaurante.

Uma fogueira é acesa todas as noites, a uns 20 metros adiante da cabana principal, com cadeiras ao redor, não muito concorrida devido ao frio à noite.

Comi o desjejum pensando na jornada dos gnus. Eu sempre os achei entre os mais estranhos, embora o mais emblemático das savanas africanas. Morfologicamente falando, quero dizer. São esquisitos, mal-acabados, parecendo feitos às pressas e sem capricho no desenho. Pertencem à família dos antílopes, mas quando os olhamos fica difícil imaginá-los primos dos elegantes impalas e gazelas. A cabeça lembra a de um javali, o pescoço, de um búfalo, as listras, de uma zebra, as corcovas atrás dos ombros, sei lá que bicho, mas a traseira, de uma hiena, a cauda de uma girafa e o passo – desajeitado que só – de nenhum outro, apenas seu. Com chifres diminutos, olhos minúsculos, rostos alongados e barbas longas, diz um conto popular local que seu crânio carrega o cérebro de uma pulga. Talvez seja um exagero. Só talvez.

Caminhando centenas de quilômetros, os desajeitados animais serão pisoteados por eles mesmos enquanto descem caoticamente as barrancas escarpadas para mergulharem no rio em sua saga anual. Muitos se afogam, quebram as pernas, são abocanhados por crocodilos, carregados pelas correntezas e comidos mais tarde por abutres. Os que chegam à margem oposta são esperados por leões e hienas. A jornada destas criaturas – apesar de seu sentido absolutamente lógico, a busca pela sobrevivência nos pastos verdes – não deixa de ser enigmática e surpreendente e convida-me a aprofundar-me. Sabe-se que o motor desta eterna movimentação é simples: as fêmeas reproduzem durante todo o ano, estão amamentando ou grávidas de outro. E de junho a setembro, elas fazem ambas as coisas enquanto migram, o que exige muita energia e alimento, o que buscam consumindo o máximo de gramíneas possível. Então, se faltar…
Um dia luminoso e de ação
Eu estava no Serengeti, nada menos. Era o que bastava. Que embora de uma paisagem simples e de poucos tons, é aberta, vasta, de engolir os espectadores. Tirando os kopjes – as formações rochosas que surgem como ilhas em meio ao oceano de grama verde, nas quais figueiras-da-rocha ficam suas raízes entre fendas e onde leões em família costumam abrigar-se – tudo mais lembrava as savanas do Quênia.

Senti muitas vezes no peito o privilégio sublime de estar ali. E embora não como parte do lugar, mas como ardoroso espectador, sentia todos os seus pormenores, vibrações, vindas de um dos ambientes mais selvagens do planeta, de uma natureza cuja força é formidável. E eu, com regras ultrapassadas, imaginava: “Não é justo querer nada mais”. Mas havia Ngorongoro pela frente, que é coisa de não se perder um instante sequer.
O dia estava luminoso como sempre, ao ponto de lembrar-me da canção de Haroldo Barbosa e Luiz Reis – “Luminosa manhã, pra que tanta luz…” – o sol tocava os olhos de quem se atrevesse a explorar o céu, até as profundezas da retina. Duas nuvens decoravam o azul e eu sem saber que estava escrito: mais tarde choveriam.
Foi quando um balão mágico sobrevoando bem próximo à minha cabeça seguia seu caminho improvisado. Acabara de decolar. Era belíssimo o voo, que eu apreciei tanto quanto seus entusiasmados tripulantes. Não houve luta contra a vontade de tirar fotos dele e de parar. Fiz tantas quanto pude enquanto o balão esteve à vista. Comigo ficará guardado aquele momento. Por fim, entrei no jipe e partimos para o próximo destino, no dia 20 de fevereiro, às sete e meia da manhã. Meia hora depois estávamos à margem do encantador lago Ndutu, admirando os flamingos que os habitam e embelezam, rodeado de acácias.
A todos!
Materializadas aqui minhas histórias desta jornada. Dedico este texto à minha companheira e aos colegas de viagem, aqueles que hoje estamos longe, mas todos – em conjunto ou isoladamente – sempre me destinaram carinho, amizade, sorrisos marcantes e momentos de boas conversas. Lotaram minha memória de lembranças e o coração de emoções. E fazem parte de minha história.


















































































































A seguir – Ngorongoro e Nairobi, a despedida
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Arnaldo, meu caro amigo !
Li este texto com muito interesse. Sabia que, lamentavelmente, este seria o texto de preparação para o término das gratas descrições da nossa jornada.
Achei este um dos teus textos mais importantes e trabalhados. Lavrado a cinzel, com a força colocada na medida, o ângulo estudado e, enfim, o golpe certeiro.
PARLA !!!!
Diria o escultor !
Estão aqui todas as emoções, todas as imagens gravadas nas nossas mentes, filtradas com maestria e cuidado.
As definições biológicas e conceitos técnicos que se referem ao comportamento dos rebanhos e sua busca por alimentos também estão aqui. Todas claras, visíveis e deliciosamente simples como o ar das manhãs do Serengeti e a luz dos dias no Massai Mara.
A tua dedicatória nos honra muito e nos faz refletir…
Nunca mais teremos aqueles momentos com esse grupo, tão encantador e tão forte no pertencimento e respeito. Foi tudo acontecendo a seu tempo, no nosso tempo, passo a passo, amadurecendo os contatos pessoais com o compartilhamento das imagens, experiências e emoções.
Não me recordo te ter ouvido perguntas como:
“- Você viu isso ?”.
Nada disso. Bastava ver o olhar de surpresa, observar o sorriso de admiração e sentir a respiração suspensa, pois essas emoções já diziam tudo.
A nossa comunicação foi ficando assim, sensorial. A admiração mútua foi ficando assim, natural.
A crescente amizade foi ficando assim, fluida.
QUE SAUDADE DE VOCÊS !!!
Arnaldo, o nosso cronista inspirado, vem a cada texto nos emocionando e turvando as águas das nossas boas memórias, pra que se agitem e turvem também os nossos olhos, de lágrimas e revivam as inesquecíveis imagens guardadas na alma.
Obrigado meu caro !
Vou pedir novamente. Não pare. Escreva mais.
É uma delícia ter esses momentos revividos.
Forte abraço.
Domingues.
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Depois de cinco meses de nossas aventuras no Quênia e Tanzânia temos o post das reservas do Serengueti e do acampamento em Ndutu caprichosamente escrito pelo amigo Arnaldo. Melhor assim, em etapas, para fixar bem na memória essa espetacular viagem que compartilhamos com pessoas tão especiais.
Fui lendo e sentindo parte das emoções envolvidas quando lá estava, pois com esse escritor as coisas vêm assim “à flor da pele” com sua narrativa. A descrição dos gnus foi um caso a parte, sensacional!!! Detalhes que só alguém como o Arnaldo é capaz de ver e escrever. Foi um tanto hilário ir construindo a imagem desse bicho que à primeira vista não passa de uma vaca estranha.
No final do post, as fotos!! Belas fotos. Momentos incríveis!!
Obrigado Arnaldo!!
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