
Uma reflexão pairava em minha mente. Era uma daquelas miudezas que carrego e, precisando ou não, volta e meia me ocorrem. Sentia um frio interior, ou talvez borboletas no estômago. Medo e ansiedade. Mesmo estando psicologicamente preparado, senti o temor e entrei em estado de alerta ante a iminência de uma ameaça. Ao pisar o solo africano, sabia que em breve estaríamos próximos a animais selvagens. Contudo, a apreensão não era por eles, pois não sou um turista inexperiente nessas situações.
Encontrar os Big Five – leão, leopardo, elefante, rinoceronte e búfalo – costuma ser emocionante e seguro, especialmente em safaris guiados por profissionais. Encará-los de um jipe sem capota não seria novidade, e eu sabia que os animais veem o veículo como um ser de grande porte, não um mero humano. Primeiro, os veículos e pessoas dentro deles não são vistos como alimento e, em todos os casos, também não como predadores. E têm um cheiro pra lá de esquisito: combustível, fumaça, lata e borracha. Às vezes os animais se aproximam tanto – e sem medo ou agressividade – que nos provocam o que sequer imaginam provocarem. Dizem que são os animais que sentem medo de nós, mas… ouso desconfiar dessa tese.
Não sou uma pessoa medrosa; tenho mesmo até um lado destemido. Conhecia a ciência por trás daquela coisa de observar animais em safaris, mas também a facilidade com que uma leoa faminta, um destemido guepardo ou um atlético leopardo poderiam pular dentro do jipe sobre nós. Ninguém quer que um leopardo saia de seu estado relaxado para tornar-se uma fera com temperamento selvagem. Contudo, estava certo de que um ataque nessas condições seria improvável, desde que nos mantivéssemos dentro dos jipes, que evitássemos movimentos bruscos e respeitássemos as características de cada animal. Então, assim, caro leitor, não era o que eu temia.
O pensamento avançou quando me deparei com a ameaça: a “besta” de lata, uma picape 4×4 Toyota com o volante do lado direito! Volante, dois pedais, freios de mão, comandos e tudo mais para conduzi-lo do lado esquerdo. Ah, esses esquerdistas ingleses! Assim, desse jeito estranho, certo ou errado, conduziríamos por 3.600 quilômetros durante nossa jornada sul-africana nos próximos 15 dias.
Ainda que não no intenso – embora civilizado – tráfego londrino, senão na ensolarada África do Sul, e num comboio, foi sob essa atmosfera mista de excitação e medo, de compreensão e adaptação, que recebemos nosso carro. Por enquanto, a inteligência não parecia reagir como deveria, senão tornando-se passiva, presa ao fato. Resignada. E enquanto eu arrumava o carro com coisas pessoais, ouvíamos instruções do trio Grace, Robert e Renato. Coloquei flanelinhas, álcool em gel, creme de mãos, lenços de papel para idas às moitas e coisas afins, além de um GPS, cabos e carregadores para celulares, nada menos do que temos em nossos carros em casa. E enquanto eu arrumava, o cérebro ia se acostumando, ambientando-se, e o temor se reduzindo. Desliguei o automático e entrei no carro a primeira vez. Pelo lado errado!
Ajudou-me imaginar que a polidez tradicional britânica poderia ter sido transmitida aos sul-africanos na condução. Mas isso só saberíamos dirigindo. O fato de o carro ser automático também contribuía, era um problema a menos para exigir de meu cérebro. Mas nem todos eram. Automáticos, quero dizer. Fui o segundo a me inscrever na Overlander, e quase como condição de viagem pedi à Grace que reservasse um que não fosse com câmbio manual. Ela assegurou a possibilidade, embora os manuais dominassem. Aos demais companheiros que tiveram que enfrentar câmbios manuais, minha homenagem e reconhecimento à sua superioridade!
“É só seguir”, pensei. E feliz porque percebia que o medo, naturalmente, logo seria passado. E que o futuro está no futuro, então, melhor era viver o presente da maneira mais intensa e dedicada possível.
“É só seguir”, pensei, depois de organizadas as peças dentro da minha cabeça.
A primeira vez a gente nunca esquece
O brilho da manhã era cintilante e depois do medo, eu sentia a efervescência natural que a curiosidade pelo que viria à frente provocava em meu cérebro. Eram algumas primeiras vezes juntas num só momento: a primeira que dirigi ao modo inglês, que viajei em comboio, que visitei a África do Sul mais extensamente, para além de Joburgo, Cape Town e Sabi Sand. Uma viagem que parecia ali já tornar-se marcante, apesar de tão cedo. “Não, é muito cedo para tornar-se inesquecível”, pensei.
Mas foi assim. Mais do que ansiedade, esse prelúdio comum ao início de uma grandiosa jornada, de algo tão esperado, a sensação fora tão fugaz que logo me tornava familiar com tudo. E então tudo se configura como um convite. Não havia por que ter tempo a perder, mas um roteiro justinho a seguir, mínima, cuidadosa e caprichosamente planejado por Grace e Robert.
Dullstroom – aninhada entre majestosas montanhas com um riacho a lhe banhar – nos acolhera com simpatia e marcava o início da segunda etapa dos 3.600 quilômetros de nossa jornada pela África do Sul, embora a primeira nem contasse, pois fora o deslocamento de Joburg até ali.

Adentramos no veículo, nosso fiel comparsa nos próximos milhares de quilômetros, para uma volta pela cidade, um breve período de ambientação e uma ida ao supermercado para compras de conveniência. De água mineral a guloseimas. Durante o percurso, recebemos instruções de condução, de leis de trânsito e de costumes e minha mente processava a experiência. E tudo fluiu com uma naturalidade e familiaridade espantosas. A não ser pela insistência em acionar o farol alto quando queria o limpador de para-brisas. Mas isso nem conto, porque foi até o fim da viagem. Nem fico vermelho em dizer que até no Brasil andei fazendo o mesmo!
A seguir:
Terceira etapa:
De Dullstroom ao Kruger Park – Uma viagem e muitas descobertas
