Numa aldeia maasai – O tema é vermelho e a “aldeia” um palco

Era o dia da visita aos maasai. Eu gostava daquilo, embora o turismo étnico já tenha me agradado mais, antes dos efeitos negativos do turismo. Lembro-me bem de contatos inesquecíveis com tribos de diferentes etnias nas montanhas de Kyaing Tong (Chiaing Tong), em Myanmar, e com outras no Vale do Rio Omo, na Etiópia. Naqueles tempos eram experiências autênticas, mas nós, turistas, transformamos tudo num teatro, onde num palco feito para emprestar autenticidade, povos indígenas fazem suas performances.

Eu não tinha certeza se seria algo descaradamente turístico ou tradicional, isto é, uma visita a uma aldeia-cenário ou aos masaai vivendo seu dia normal. Talvez até um meio-termo. Embora não tenha ficado dúvida de que eles e nós estivéssemos desempenhando nossos papéis, e com a mesma dignidade: demonstrando seus costumes, cultura e modos de vida, e nós promovendo seu desenvolvimento social, muitas vezes até sua sobrevivência. Não só eles, mas o mundo inteiro sofreu com o desaparecimento de turistas, sem precedentes, com a pandemia.

Especialmente nessas comunidades mais pobres, somos importante fonte de rendimento, o que basta para tornar qualquer visita defensável. Não há mal nenhum, e eu não deixaria de recomendá-la, mas sim que estejam preparados para atividades teatrais, que não ocorrem só ali, como também nas tribos das mulheres-girafa, na Tailândia – refugiadas de Myanmar – e com os himba, da Namíbia.

A visita turística à “aldeia maasai” foi uma encenação de aula escolar, da experiência com líderes pedindo doações. E a avidez com que nos mostravam seu artesanato à venda, dispostos num corredor – o maasai mall – por preços nada originais, embora coisas que nós visitantes sempre compramos. Fomos conhecer uma “residência” e outras ocas com diferentes funções, vimos uma demonstração de como acendem fogueiras, os bomas – cercadinho onde abrigam seu gado – e nosso grupo, fantasiado à moda maasai, dançou como eles, estimulados ou carregados.

Nada pareceu autêntico para mim, embora muito bem montado para tornar-se como tal. Quase convincente, algo atraente, embora não tenha me marcado como uma experiência da vida maasai sendo levada em seu quotidiano. Antes de viajar eu lera acerca de comunidades onde visitas de pequenos grupos turísticos são possíveis, mas raras, em geral àquelas suportadas por um ou mais lodges, cujo conceito fundamental é o da “preservação com coexistência”.

Em verdade, alguns trabalham juntos com os maasai para melhorar suas perspectivas de vida, sobretudo atentas a não mudarem o ambiente que habitam, suas tradições, interferindo minimamente em suas aldeias. Seu maior obstáculo é mantê-los nas proximidades, portanto, evitar seu nomadismo, em busca de água e pastagens.  Ela é parcialmente superada por meio de métodos de coleta de chuva e de poços artesianos, entre outros. Tive o conhecimento de que impressionantes 54.000 litros de água foram colhidos da chuva e distribuídos num período de quatro meses e, que em março de 2018, certas aldeias tiveram a ajuda desses lodges no aumento dos tanques de retenção para 20.000 litros, incentivadas por meio de doações dos clientes hóspedes.

Soube que algumas comunidades participam de um rodízio de reabastecimento a cada sete dias. E não só isso, que exercem trabalhos de educação ambiental, de maneiras de se tornarem mais sustentáveis em suas próprias comunidades e tentarem entrar em sintonia com o meio ambiente, aproveitando ao máximo as estações do ano. Estes mesmos lodges utilizam sistemas de reutilização de águas residuais de cozinhas e chuveiros na manutenção de jardins de arbustos.

Se eu recomendaria? Sim, se não houvesse alternativa.

Obrigado pela leitura. Ao infinito e além, todos nós!

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