NAMÍBIA – Capítulo 12 – Adeus, Etosha

              DEPOIS de uma aurora de tirar o fôlego, um desjejum de matar a fome e de posse de meu lugar no jipe, saímos de Namutoni em direção à reserva privada de Okonjima, onde habitam leopardos e guepardos. Já distantes do lodge, pela estrada de cascalho, François comenta que a hora é propícia para o encontro de gnus, avestruzes, girafas e zebras. “Cedo assim, talvez também elefantes e rinocerontes”, acrescenta.

            Não mencionou hienas, e nós ainda não as havíamos encontrado. Todavia, penso que não deva esperar por elas, embora gostasse de vê-las, pois até então a viagem não tivesse um só momento frustrante, então não seria justo que minha vontade de ver aqueles carniceiros astutos se tornasse um desapontamento.

Capítulo 12 01

              Animais de péssima reputação, mas grande inteligência a serviço da caça, as hienas estão entre os mais fascinantes para se ver num safari, especialmente quando em atividade.  Tenho ainda boas lembranças de quando pela primeira vez as encontrei. Foi em Sabi Sands, África do Sul, anos antes. E de tê-las alimentado, face-to-face, em Harar, na Etiópia, quando à noite, cinco ou seis que vivem na periferia da cidade seguem um homem até o portão mais remoto da antiga muralha da velha cidade islâmica, a fim de alimentá-las com restos de carne de camelo vendida nos açougues do lugar e faturar algum depois do showzinho para meia dúzia de turistas incrédulos.

                 Sei que há três espécies, a hiena-malhada, a hiena-marrom e a hiena-listrada, e que todas têm a mesma energia e vigor. Dizem vir de seus corações, maiores proporcionalmente que os de outros mamíferos do mesmo porte. E que costumam guardar seu próprio alimento para se resguardarem da falta dele. Eu estava entretido com a bela paisagem. Iluminada ainda discretamente com o

sol baixo, os tons ainda eram sem contrastes. Consultando o mapa, visualizo nosso roteiro e ligo o GPS do celular para verificar o ponto exato em que estávamos. Estava quase fechando os olhos para um cochilo, embalado pela velocidade constante do carro, quando François reduz fortemente a velocidade e exclama:

Hienas!, Hienas!.

               “Não acredito. Será Ganesha?”, me pergunto às sete da manhã assim que ouço o alerta. Era um casal em movimento e alerta, distantes entre si, uma bem próxima de nosso jipe, outra dentro da imensa relva, apenas com acabeça à mostra. Começavam seu dia num ritmo e vigor invejáveis para a hora. François explica o porquê: um chacal rondava o território tentando roubar-lhes ossos grandes, talvez fêmures de gnus, escondidos na relva. Cada qual corria em direção oposta para buscar o seu e trazê-los para perto de si. Um chacalzinho solitário não ousaria se aproximar para disputar no tapa ossos daquele tamanho pendendo das bocas de cada hiena.

Capítulo 12 02

              Da tentativa ao insucesso foram alguns minutos. Os mais estimulantes daquele dia na Namíbia. Seguimos nosso caminho já com o fascínio da aventura contagiando o começo da fresca manhã, e até o próximo destino, Okonjima, 361 qilômetros depois, no qual vimos adoráveis girafas, avestruzes, zebras, gnus e pássaros coloridos, como havia previsto François.

                Terminamos o dia com uma garrafa surpreendentemente boa de um tinto sul africano. Brindamos à memória de mais um dia fenomenal. E eu, a mim mesmo, pelo encontro com as hienas.

Capítulo 12 05

Continuamos juntos? Próximo capítulo:

NAMÍBIA – Capítulo 13 – Onkojima – Leopardos e guepardos

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