NAMÍBIA – Capítulo 11 – Bom dia, Namutoni.

O Céu dentro de mim

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                Subo obstinada e decididamente uma centena de degraus até chegar ao topo. O coração retumba no peito quando saio da claustrofóbica escada. Enclausurada, ela circunda – estreita, e colada entre paredes – o interior da torre da caixa d’água do lodge. Lá em cima, um mirante. Nele, abre-se uma vista vertiginosa. Acompanho 360 graus de paisagem girando no eixo sobre os calcanhares. A paisagem era de filme, infinita, da vasta planície. Infiltrava-se pelos olhos e engolia tudo: eu, o velho forte alemão militar da virada do século XX, animais, terra e plantas. O núcleo de cada átomo, todo o planeta.

                  Naquela manhã o sol nasceu entre nuvens e com raios criativos, desenhando sombras na terra, colorindo o céu e o que podia quando chegava ao chão. Contrastes surpreendentes davam uma aparência bizarra e surreal à planície, me inspirando à observação como se eu já fizesse parte dela. Muito embora os raios de sol já aquecessem o ar, eu ainda sentia nos braços o frescor da madrugada.

                Desperto minhas melhores emoções observando aquela pintura. Olho com o coração e meus sentidos se excitam. “Isso é África”, exclamo baixinho. Era difícil sair dali, parar de viver o momento, deixar de ampliar os horizontes pessoais. Eu ainda tinha muito a refletir enquanto estivesse sozinho e completamente absorvido pelas terras do Etosha – e não por seu motivo mais digno – ser o símbolo máximo do conservacionismo namíbio, um tesouro para encontros e observação da vida selvagem – senão por sua imensa beleza. Tanto que quase me esqueci das aventuras do dia. E que me esperava o grupo, provavelmente dentro do jipe. Não sou retardatário. E se fosse, me envergonharia.

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               Faço alguns disparos com a câmera, mais rápidos e menos cuidadosos do que a paisagem merecia; corro contra o tempo. Viajar tem me proporcionado momentos marcantes, mas nem tantos como aquele, mesmo tão efêmero. Começo a caminhar para a descida e dou a última olhada para trás. Entro de novo no “túnel” com a consciência expandida, mas não sem um adeus sequer. Começo a descer com o céu dentro de mim. Um entusiasmo jovial me impulsiona e desço correndo. Roço a mão na parede e foco o olhar nos degraus. Ria de mim, pensava que se eu nunca relacionara a Namíbia em meus sonhos africanos, estava ali pagando pelo desleixo. E nem ela precisava me entregar tanto para me cativar o coração. Finda a escada, chego ao térreo e penso que precisava aprender a olhar melhor para países que nunca me atraíram. E que se há lugares imprescindíveis na Namíbia, aquele era um.

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                        O sol eu já sentia na pele ao entrar no carro. “Atrasado?”, pergunto. “Não”, respondem, o que me alivia. “François está acabando de engatar o reboque”, explicam. Assim como tem grandes virtudes o sol, a pontualidade é também admirável. Mas era o sol que me “chamava” naquela horas, já provido de satisfação por não ter feito me esperarem. Então, em vista disso, naquele momento, me aquecer era o mais agradável. Sentado em meu lugar no jipe, ainda estacionados, ouço ruídos e sinto o balanço do engate do reboque no engate do carro. Entre os muros do lodge instalado dentro de um antigo forte militar alemão, penso no que esperar daquele dia. Atravessaríamos boa porção do Etosha, de uma ponta a outra, e o mais óbvio seria pensar nas zebras, elefantes, rinocerontes, leões, leopardos, girafas, hienas, javalis, gazelas e tanto mais. Mas o melhor estava por vir. Afinal, nada é tão bom que não possa melhorar.

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                 Deixamos os limites do alojamento e sua atmosfera inigualável, suas boas, amplas e confortáveis instalações, acomodações agradáveis, restaurantes, uma loja de artesanato, piscina e o primoroso deck de observação de animais com vista para o poço do rei Nehale, e seguimos em direção à Panela de Sal.     

Panela de Sal do Etosha

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              Destaque no parque, o gigantesco Salt Pan é visível do espaço. Nunca estive a essa altura para confirmar, mas ali, no chão, diante dele, o horizonte me pareceu sem fim. E a panela de sal, um mar. Deve ser o tipo do lugar ideal para se caminhar até o meio e ver miragens nos confundido a visão.

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

NAMÍBIA – Capítulo 12 – Adeus, Etosha.

Hienas, gnus, avestruzes, girafas, mangustos, girafas e zebras: um dia entre as bestas da savana

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