NAMÍBIA – Capítulo 10 – Okaukuejo a Namutomi

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As pessoas sonham muito mais do que pensam. E se lembram muito menos do que sonham. Eu sou um dos que entendem pouco sobre os meus. E naquela noite, por exemplo, como de costume, não fiz a menor ideia se me ocorreram essas ficções da mente. Talvez porque antes eu não tenha experimentado sentimentos incômodos, por me encontrar livre de preocupações, sem angústias no coração e estivesse vazio de ansiedades. As experiências do dia deixaram de me dominar, porque o cansaço era imenso. Nem mesmo o eletrizante encontro noturno com os rinocerontes, na poça d’água de Okaukuejo, saiu da fase estática da memória para a dinâmica da mente. Eu estava amortecido pela exaustão e o ambiente contribuía para o repouso e desligamento. Não havia sons nem conversas audíveis. E não pus música para dormir. Nenhuma qualidade para mim é mais valiosa que o silêncio para dormir. Se me tivessem ocorrido os sonhos – essas utopias da imaginação – as histórias que eu haveria de contar aqui seriam outras.

 

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Acordo bem e o que não pensei de noite (e não sonhei de madrugada), jorrou da mente logo que abri os olhos, em verdadeiras tormentas cerebrais. Nenhuma virtude foi melhor que o silêncio daquela noite para meu dormir. Me levanto e tudo vai comigo ao banheiro e ali permanecem, em polvorosa, até depois do chuveiro. É hora boa, dizem os que cantam, para soltar a voz. Pra mim, que não tenho esse dom, é ideal para aplacar as efervescências mentais, deixando que a água escorra na cabeça como se “lavasse” também a mente. Contudo, o líquido ali é raro, demoro menos do que o costume num banho. Água não merece desperdício em nenhum lugar do planeta, mas na secura daquela savana, é coisa de incomodar mesmo um gasto mínimo de um simples banho. Um adesivo colado no espelho lembra aos hóspedes a raridade do líquido e pede sua economia. Nem precisava, mas acelero. Enxugo o corpo e a cabeça parecendo que a toalha secou também a tempestade.

 

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        Agora era o lugar isolado no planeta que me inspirava. Começo a pensar nas atividades do dia e consulto o travel journal: “Dia dedicado à exploração das áreas centrais do Parque Nacional Etosha – entre Okaukuejo e Namutomi“, é o que resume o informativo. Percorreríamos distância bem menor que a das longas travessias dos dias anteriores, algo como 133 quilômetros de estrada, fora os desvios. O maior deles para alcançar o Halali Camp, onde fica o Mohinga Waterhole Viewpoint, um interessante e atmosférico observatório em forma de anfiteatro, coberto com ripas de bambu, bancos para sentar, com vista aérea para um poço onde costumam ir rinocerontes, elefantes, impalas e leopardos.

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             Para nós viajantes, a configuração do programa era atraente, e segundo o jornal, tinha atrativos inegáveis, porventura ainda mais diversos em relevo e paisagens, sobretudo em diversidade animal, do que tivemos no dia anterior. Ora, era tudo o que eu não precisava para me encher de ansiedade. Limpo a câmera, arrumo a mala e sigo para o restaurante a fim de matar quem estava me matando. Depois no jipe, nosso pequeno grupo de entusiastas da fotografia e da vida selvagem presta atenção a François, que nos pede ajuda para subir o teto panorâmico, um sinal de que as chances de vermos animais estavam logo após a saída do lodge em Okaukuejo.

O diferencial, e principal característica do parque, é sua salina gigantesca, com 5.000 quilômetros quadrados, uma vasta área árida e branca com água às suas margens, que avistaríamos desde um de seus ‘mirantes”. Há muitas fontes naturais na “panela”, que atraem os animais da região, desde o minúsculo e endêmico dik-dik de Damara até o magnífico elefante.  Já os grandes felinos – leões, guepardos e leopardos – estão presentes em quase todas as áreas do parque, mas nas mais verdes, onde há boas possibilidades de encontrá-los e, com sorte, vê-los em atividade de caça. Quanto mais arborizada,  maiores as chances de observarmos aves, pois tem mais de 340 espécies, muitas das quais, migratórias.

 

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Dois leões e uma girafa _____________________________________

           Parece cruel, e chega mesmo a ser, mas também um raro privilégio presenciar. As emoções são mistas. Assistir um animal exercendo sua veia predatória enquanto sua caça visceralmente luta pela vida e contra a brutalidade da morte iminente, ainda que um evento corriqueiro na natureza das savanas africanas, é emocionalmente chocante, tanto quanto visualmente atraente ver caça e caçador em atividade. Logo depois de avistarmos um grupo de girafas, a cerca de 500 metros mais adiante e bem junto à estrada, dois leões, um macho e uma fêmea, estavam juntos ao corpo de uma girafa que acabaram de abater. Não chegamos a presenciar a batalha dos felinos para derrotarem mortalmente sua caça, mas a tempo de ver seu ventre acabado de ser rasgado, aberto e seus órgãos expostos.

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Ficamos uma hora no lugar e saímos. Quinze minutos depois encontramos um grande elefante. E no Etosha, onde são os maiores da África, vê-los é sempre um impacto.

 

Ao ritmo de Hatari! ____________________________ 

 

Absolutamente contagiante. Eu me sentia como em Hatari!, filme de 1962, estrelado por John Wayne, com locações na Tanzânia, que marcou minha infância, assim como sua trilha sonora, liderada pela memorável canção de Henry Mancini, Baby Elephant Walk (“O Passo do Elefantinho”). Um grupo internacional de caçadores se encontrava na África para a captura de animais selvagens encomendados por zoológicos do mundo.(*)

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(not so baby) elephant walk!

                   A estrada segue os contornos da enorme panela de sal, que no cumprimento se estende de Okaukulejo a Namutomi, até um pouco depois, ao von Lindequist Gate, nome que homenageia o governador alemão do Sudoeste Africano que em 1907 proclamou o parque uma reserva de caça, época em que caçar animais era considerado por muitos uma atividade politicamente correta.

                  O sol se punha em Namutomi. E não era comum, porque não foram todos. Que crepúsculo era aquele. No instante em que o sol se escondia atrás do horizonte, tornando tudo de sua cor, um gnu aparece próximo à linha do horizonte. Pasta placidamente, compõe um quadro mais que perfeito para meu olhar, depois para o registro com a câmera. Talvez não haja mais o que dizer daquele pôr do sol. Ou, então, coisas deixaram de ser ditas e a imagem não mostra. Se for, provavelmente era o que me dizia o coração diante de algo tão magnífico. Obrigado, Namíbia.

(*) Henry Mancini ‎– Hatari!

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2 comentários em “NAMÍBIA – Capítulo 10 – Okaukuejo a Namutomi

  1. Que interessante!! Quase nos encontramos no Etosha. Estivemos por lá nos dias 14 a 16. Também vimos uma girafa abatida por leões, mas foi perto de um water hole. Essa foi a segunda vez que estivemos lá. Foi muito interessante, vimos muitos animas: elefantes, leões, girafas, zebras, springbock, oryx e tantos outros. Gostamos muito de mais essa experiência. Estamos com um casal de amigos da Alemanha, que ficaram impressionados com a Namíbia. Giannina (irmã da Lilah)

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