Quênia e Tanzânia – Masai Mara e O Triângulo Masai

Mambo jambo (as coisas importam)

A viagem ia em meio com os dias parecendo mais doces a cada nova manhã. Aquela, particularmente, começou com todos os passarinhos do continente cantando juntos, num céu transparente que nem vidro, coisa de já dar saudades da África, mesmo acordando nela. Gosto assim, quando um pensamento, de tão intenso e precioso, se faz sentir no peito. Talvez fosse o meu estado de espírito, é verdade, mas também era o dia da partida em direção ao Eden da vida selvagem no Quênia – o Masai Mara-Serengueti – região mais emblemática do país para os safaris.

Partimos, aparentemente mais devagar do que o de costume, às vezes a 60 quilômetros por hora. E isso fez toda a diferença. “Só faltam cinco horas”, eu pensava à altura, lembrando-me da expressão mais ouvida em quinze dias de viagem: mambo jambo!, “as coisas importam!”

Àquela medida eu já havia reparado que ir devagar transformava os deslocamentos, com as coisas sendo o que importava, não o destino. Era o que nos deixava mais propensos a absorvermos a paisagem, e se estas não eram de fato um espetáculo de surpresas, senão previsíveis, positivamente resumiam-se em singelos encantos. Reveladas daquele jeito, sem cortes, edições, inteiras, passando como os rios secos e preguiçosos à seca, de nossos olhares não escapavam os pormenores. Mambo jambo. As coisas importam.

Era grande o prazer da viagem, do exílio passageiro, de ter deixado por um tempo a rotina e o conforto de casa e partir para as descobertas, viver experiências entusiasmantes, embora às vezes desconfortáveis. Perceber os menores detalhes era um privilégio, para além de curioso e estranho o sentimento de tempo adulterado. Como um Déjà vu, me entende? E se por um lado ir devagar tornava mais longas as viagens, por outro me ensinava coisas importantes. As coisas importam. Mambo jambo.

Das árvores, por exemplo, eu conseguia perceber detalhes que a velocidade até então disfarçara: os fabulosos ninhos dos pássaros sociable weaver (Philetairus socius), literalmente “tecelão sociável”, espécie de ave endêmica desta região africana. Suas construções são verdadeiros condomínios.

E das cidades? Quase sempre eram poucas e pequenas, mas por estarem justo à beira das rodovias, a mais de 80 por hora costumavam passar depressa demais, sem que percebêssemos suas formas, os materiais, acabamentos e decorações às vezes de gosto duvidoso. Víamos, correndo, apenas suas silhuetas multicoloridas. E depressa ou devagar, à caminho das savanas, em busca de nossa aventura animal, muitas vezes eu não notava a tocante singeleza humana e natural do caminho.

Também as torres de energia deixavam-se perceber. E os postes? Tinham os fios tomados por vegetações. Escondiam-se até por ninhos quando as árvores vizinhas ficavam lotadas. Eu lia também os letreiros das lojas, dos comércios mais variados. E via as casas, às vezes cabanas, feitas de tijolos com reboco de argila sem tinta, noutras pintadas de verde limão, as janelas com cortinas improvisadas em panos, telhados de chapas em decomposição e quase nunca gente ao redor. Davam-me a impressão de que nelas a vida estava nos quintais, no milho, na mandioca ou nas bananas. Coisas aparentemente insignificantes, muito embora me parecessem um ótimo jeito de me fazer assimilar o país, de tornar aquele deslocamento menos enfadonho.

E assim, no conforto do meu silêncio e introspecção, enquanto das ideias desabavam substantivos e adjetivos, abriu-se a savana. Como num passe de abracadabra sumiram as cidades, afastaram-se os humanos, perceberam-se os animais e seus deslocamentos em bandos ou pastagens solitárias. Então, já próximos ao destino, compreendi que a janela do jipe havia se convertido numa arquibancada, num local privilegiado de onde eu assisti o espetáculo desenrolar-se. O tempo passou, e embora lentamente, aparentemente não, se é que me entende o leitor.

Assim, de pronto, demos de cara com esta parte do Masai Mara – o Triângulo Mara – situado entre o rio Mara e a Escarpa Oloololo, que alcançamos pelo portão Oloololo, um dos dois meios por onde se pode adentrá-lo, sendo o outro pela Ponte Nova Mara.

Ao entrarmos na planície sem fim, a savana converteu-se na imagem mais precisa que eu fazia dela, no seu clichê mais básico. Da cor de madeira fresca, de capim dourado, de mato verde, da matriz original das fotos cartão-postal que eu sempre vira. Tudo tinha um clímax cromático e uma profundidade que me fazia parecer fácil a qualquer um de nós produzir cartões postais dali.

Pouco antes do crepúsculo começar, do sol subir e da noite cair, uma família de elefantes cruzou solenemente em diagonal a estrada, uma das imagens mais grandiosas que até então eu havia visto. Seguimos para o lodge, uma coisa para contar à parte, de onde da varanda com uma vista do tamanho da galáxia assistimos a um por do Sol com efeito especial, cinematográfico, national geografiquiano. Mas isso eu conto amanhã! Obrigado, Quênia!

A seguir

Masai Mara e o Triângulo, o Eden da natureza selvagem

7 comentários em “Quênia e Tanzânia – Masai Mara e O Triângulo Masai

  1. Obrigado Arnaldo !
    …mais uma vez.

    Pensando aqui, enquanto arrumo minha casa, …
    …que ultimamente fica mais tempo sem mim do que ocupada…

    Vou usar o teu termo “exílio passageiro” … e voluntário…, para definir esses tempos de viagens e ausências, que são tempos de desfrutar de amigos, lugares e amores.

    Voltando…
    … Pensando aqui na sorte, fortuna ou destino, valioso e oportuno, que todos nós tivemos em ter você no grupo.

    Você faz a minha, nossas, memórias terem uma segunda e terceiras chances, a cada leitura 📚…

    Na minha memória de Dorie essas porteiras de entrada dos parques já se fundem e confundem…
    Juro que nunca li esse nome Olooooloooolo !!!!

    Fica aqui, meu amigo, meu novo e grato Obrigado !

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  2. Que belo texto. É realmente um privilégio assistir ao espetáculo da natureza de arquibancada. Jamais esqueceremos. Parabéns pela sensibilidade com que vem relatando essa incrível viagem à África.

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  3. Maravilhoso texto! A riqueza dos grandes e pequenos detalhes desse trajeto são fortemente sentidos no meu peito! Agradecida por tantos sabores!!

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