Quênia e Tanzânia – O Lago Naivasha e o Safari a pé na Crescent Island

A Map ot the World – Pat Metheny

Todo dia era tudo sempre igual. Nada de novo capaz de alterar minha alegria, senão o calendário. O amanhã a gente vê, quem sabe? As noites, quase virando terapia. Os dias, cotidianos, frequentes, normais. Sempre. Como se vivêssemos um looping temporal, um feitiço do tempo, em que os dias se repetem e repetem, indefinidamente. Mesmo aquele, que embora me parecesse o mais claro e límpido, era igual, porque todos eram assim, afinal, O alarme nos sacodindo antes das seis o começava com o sol ainda dormindo, mas não nós.

É cedo, mas os sentidos vão se aquecendo. Poderia ser quase um desacato às nossas mentes acordar tão cedo todos os 15 dias. Mas não. Com a vulgaridade de sempre, nos inquietamos e, mais tarde, desvairados com o safari do dia, fervilha nosso cérebro. Todo santo dia. Não se ouve nada assim tão cedo, e o ar ainda muito é fresco, mas o calor, sabe-se, chegará, junto com a sinfonia dos pássaros, como todo dia eles fazem, tudo sempre igual.

A savana alaranjada vejo pela fresta da cortina à janela. De manhã, seu aroma invade o ar do quarto. É num misto de doce com terra. Todo dia. Sempre igual. Acorda-se com a banalidade de sempre, pensando-se no café e no banho. Depois de saciados pela água, o café e o pão que o padeiro amassou, só se pensa no mundo dos safaris, dos jipes e do próximo lodge.

As noites também, eram sempre vulgares. Depois do pôr-do-sol, daqueles enormes de sempre, jantávamos. E nos divertiamos, conversámos, para depois dormirmos cansados. Trivial. E assim, dormida evitando-se que a excitação pelo dia seguinte as tornasse mais lentas, arrastadas e de sonos inseguros. Sonhava-se com o costumeiro, e no dia de amanhã, acordava-se sem se esperar que por um lindo dia, porque todos eram. Da mais louca alegria que se possa imaginar. E como sempre, o astro rei vinha para brilhar. E uma nova estrada surgir para trilhar.

Mas não se iludam, monotonia não há! Apesar de monotemática, uma viagem pelo Quênia e Tanzânia é uma sucessão de diferenças. De todas as que se podem não prever. Dia após dia, tudo era sempre igual. Corriqueiramente vivendo-se a mesmice: cada dia, uma experiência entre as mais marcantes e sensacionais da vida. Ordinariamente.

Num dia, estamos engolindo poeira dentro de um jipe, noutro, sentindo a água doce de um lago respingar nos braços. Ouvindo hienas bem próximas da tenda de madrugada, o rugido de um leão – ou simba, em swahili. Cascos de zebras também, no chão de terra. Ficam ali até ouvirem o zíper da barraca olhando para nós desconfiadas.

Ou assistindo leoas caçando zebras, uma chita a um gnu, uma hiena a uma carcaça vigiada por um zeloso rei da selva. Ou águias pescando em pleno voo. Com ou sem sucesso, a mim não importava. Ainda que delas um pasmo espectador, observam-se as caçadoras. E eu, mais apreciando a beleza de seu esforço do que interessado no sucesso de sua refeição. São todas assim, vivem da vida dos outros. Eu não era torcedor, fosse pelo sucesso da presa, fosse pelo do predador; apenas de todas mais um ardoroso espectador,  assistindo a um espetáculo verdadeiramente encantador.

O Lago Naivasha e o Safari a pé na Crescent Island

Pegamos o barco em direção à Crescent Island, parada frequente para quem sai do Lago Nakuru em direção ao Masai Mara. Cenário do filme Out Of Africa (Entre Dois Amores) com Meryl Streep e Robert Redford, caminha-se próximo a girafas, gnus, waterbucks e zebras. Já nos barcos, antes, o espetáculo das águias pescadoras africanas.

No céu seu domínio e território – as águias do Lago Naivasha – olhos espertos e asas preparadas – administram com habilidade e interesse o jogo turístico. Ali está sua refeição. Fácil. Não tanto, quero dizer. Barqueiros lançam peixes na flor da água enquanto as belas aves aguardam o comando para atacarem.

Sim, o sinal é um silvo assoviado, monocórdico e agudo, para deixarem o topo da árvore seca onde fazem seus ninhos, e mergulharem as garras em sua tilápia em rasantes preciosos e precisos. Na água, além de habitat de peixes, também há hipopótamos. E barcos. Com motores de popa fazendo evoluções turísticas com quatro passageiros cada.

A paisagem do lago é bonita e tranquila. Ali, assim como nós, uma infinidade de pássaros de outras espécies observam a performance das águias como se estivessem a aprender.  O motivo para visitar o lago é sair nesses pequenos barcos à procura de hipopótamos e para assistir à pesca das águias, embora o principal seja levar os turistas à Crescent Island, que não chega a ser a Arca de Noé, mas tem lá meia dúzia de animais que podemos seguir os passos, a pé.

Seis da tarde, como era de se esperar, o pôr do Sol nos pega. É o fim do safari, como em todo dia, afinal. Naquela noite, eu o filmo e o fotografo, dispensando-lhe meu último olhar encantado do dia, fixando em digitais e na memória as imagens que redemoinham nos meandros de meu cérebro até hoje.

Um dia, dois, dezenas, talvez até um pouco mais. Todo dia é quase tudo sempre igual. E como assim o que vimos, são imagens que ficarão para sempre num lugar macio da memória para no cotidiano voltarem.

Amanhã, será um novo dia. E será pleno.

A seguir: Quênia e Tanzânia – A Reserva Masai Mara

4 comentários em “Quênia e Tanzânia – O Lago Naivasha e o Safari a pé na Crescent Island

  1. Arnaldo, bacana essa lembrança do “todo dia igual”. Não havia se quer percebido, pois apesar das mesmas atividades sempre ficava ansioso diante das novas expectativas do que iríamos encontrar rondando naqueles jipes. E essa rotina perdurou sem nenhum desânimo. Acho que para todos, pois um ponto bem marcante era a pontualidade e animação geral, todos os dias “tudo igual”.

    Abraços

    Rogério Braga

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  2. Fortuitamente, ou não, esse post parece um capítulo daqueles que dão continuidade à trama. Não é o capítulo de abertura, não é o capítulo final, não tem um desenrolar dramático… É apenas mais um capítulo de uma novela adorável que estamos acompanhando. E que nos dá a sensação de intimidade com a viagem, mesmo não tendo feito parte dela. A direção geral está de parabéns, os diálogos são bem construídos e a direção de arte merece um elogio à parte. Aguardamos, ansiosamente, o capítulo seguinte.

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  3. A leveza e ao mesmo tempo a riqueza do seu relato é viciante…Poderia passar o dia inteiro acompanhando…Cada novo capítulo é Sensacional !!!
    Super gostoso de ler!!
    Parabéns !!
    …Saber aproveitar os detalhes de uma viagem é o que a torna inesquecível !

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