Quênia e Tanzânia – Uma viagem no tempo

A primeira luz da manhã

Fui acordado pela luz e o brilho da cidade. Olhei pela janela e vi a África pelo vidro. Esfreguei os olhos com a preguiça de uma noite pouco dormida, como se estranhasse estar diante de prédios de vidro em Nairobi em vez de numa savana com bestas selvagens. Eram o fuso horário e o jet lag tornando minha visão do Quênia um clichê. Ou os sonhos em swahili, talvez. Quem sabe, as lembranças de uma infância fascinada por livros, por filmes e documentários do coração da África.

Um brevíssimo tempo se passou até que eu enxergasse além do mundo de ilusões e avistasse o que devia, não o que imaginava. Fora ali – na primeira manhã africana – que eu percebera começar uma viagem diferente, daquelas que ficam para sempre em mim, como às vezes acontece, tornando-se marcantes logo de cara, embora noutras, quando terminam.

Saímos às ruas de movimento imparável, mesmo para um grupo de estrangeiros a pé tentando atravessá-las. Prendiam meus olhos já despertos, empolgados, as mulheres vendendo frutas, os viadutos altos e compridos, os centros comerciais e as lojas incomuns, os matatus – ônibus velhos multicoloridos – as tranças nos cabelos, os homens aparentemente desocupados, as roupas coloridas, carros e trânsito, tudo o que observamos naquela caminhada ligeiramente tensa até um centro comercial.

Nada de novo acontecia, senão a vida seguindo como em toda grande cidade. Mas eu não viajara à África para apreciar aquilo, senão as savanas e os safaris. Era a capital, o ponto de partida para uma longa viagem rodoviária pelo Quênia e Tanzânia com visitas sucessivas aos mais espetaculares lugares do planeta para os safaris.

No tempo que o tempo passa, mas às vezes, como ele voa!

Nessa altura da vida sempre acho que o tempo passa depressa demais. É natural à gente da minha idade. Assim, num dia eu estava em Nairobi e duas semanas depois, quando fevereiro já ia para o fim, junto com a viagem, em nosso segundo dia no Serengueti. A caminho de Ngorongoro, a jornada praticamente terminava, e eu sentia, como nunca, que o tempo passara tão depressa. Sabia sim estar vivendo apenas o fenômeno natural da “expansão subjetiva do tempo”, quando em alguns momentos achamos que ele passa voando, noutras que se arrasta:

“Puxa, já se foram quinze dias, mas me pareceram quinze horas”, pensei. “Como passou rápido!”. Velozmente, com a mesma força de uma gazela fugindo de um guepardo, como o instinto selvagem em sua luta pela sobrevivência tentando manter o bicho livre e selvagemente vivo.

“Tudo a seu tempo”, costumava dizer minha avó, quando eu era moleque e mostrava ansiedade, achando que demorava demais a meia noite chegar, hora de então abrir os presentes de Natal. A gente sabe que a monotonia colapsa o tempo e que a novidade o desdobra, mas…

Quinze dias depois, no Serengueti, como num piscar de olhos, a viagem ia ao fim e seus encontros e experiências indescritíveis, tantas e com tal expressão quanto eu não acredito ter sido capaz de descrevê-los aqui. Nas Reservas de Samburu e Buffalo Springs, no Lake Naivasha e Lake Nakuru, no Maasai Mara, no Serengueti e na Cratera de Ngorongoro, e de visitas aos povos Samburu e Maasai. A lugares tão bonitos que a National Geographic não consegue fazer justiça a eles. Enquanto corria “tudo a seu tempo” e em ritmo particulares – seguindo as cadências entre a vida e morte dos animais, da caça e do caçador, da alimentação, do descanso e da vigilância – nós turistas nos deleitávamos dentro de jipes e dormíamos em lodges bacanas no centro do meio da África.

Todos entusiasmados com os encontros de cada dia, cujas impressões eram partilhadas em conversas animadas ao jantar. Cada um de nós aparentando na face a fenomenal oportunidade que vivêramos em cada dia, o privilégio de termos voado naquela viagem que chegava ao fim e se consagrava em cada um de nós.

Por sorte, ainda me restam dois, talvez três capítulos, para descrever nosso dia no Serengueti e Ngorongoro, nossa visita à “aldeia” dos maasai, a volta para Nairobi e o último dia na cidade e o retorno para casa.

Espero vocês no próximo capítulo:

Numa aldeia maasai, o tema é vermelho

4 comentários em “Quênia e Tanzânia – Uma viagem no tempo

  1. Nãaaaaaaaooooo… !!!!

    Arnaldo, não termine essa descrição incrível da viagem à África !
    Kenia e Tanzanía merecem mais !!!

    Pelo menos pense, como nas séries de TV, em uma “nova temporada” mostrando seja por espécie animal ou por localização geográfica ou por economia regional, mais um pouco desse continente e desse roteiro, nas tuas bem eleitas palavras e nessa mesma visão.

    Abraço bwana !
    J.L.

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  2. Arnaldo e seu desafio !
    Kkkkkkkk
    Aqui vai, meu amigo !

    Arnaldo,
    Em homenagem às letras, à gramática e à semântica, por favor continue com teus textos. Faça sem pressa ou pressão… deixe brotarem.
    Não pare de publicar.

    Saiba que esses textos, assim como as “pílulas de Frei Galvão” feitas em papel e escrita, nos fazem bem e não tem contraindicações, nem na dose nem na frequência.

    Tuas postagens agem com plenitude de efeitos medicinais sobre a memória e sobre os sentimentos. Fazem da tua imaginação descritiva um espelho para as nossas próprias experiências e impressões.

    Tuas fotos são irmãs das nossas fotos e essas memórias escritas são uma inspiração a mais, que eleva a qualidade da exclusividade dos nossos dias por lá.

    Foi um prazer e uma sorte que o destino tenha colocado em um grupo de viagem essas pessoas, juntas e ainda não sabedoras de tanta sinergia, nesses momentos singulares da vida de cada um.

    Deixe a pena livre e compartilhe…
    Forte abraço,
    Domingues

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  3. Incrível e emocionante !
    Sensacional poder acompanhar seus textos, tão leves e intensos ao mesmo tempo ! Sua forma de escrever é inspiradora… Que viagem fantástica !!

    Parabéns !

    *A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos!

    Marcel Proust

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  4. Ansiosos pelos últimos posts, querido. Como não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe, esta belíssima viagem está chegando ao fim.

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