Veneza e bolonha

Somos todos culpados

Tema d’Amore – Love Theme, para Cinema Paradiso, de Ennio Morricone, by Pat Metheny

Grande canal com Basílica de Santa Maria della Salute ao fundo © Dalbera (CC BY 2.0)

Enquanto caminho (ou flutuo) sobre Veneza, reflito acerca da harmonia mais única, preciosa e cativante desta cidade: da terra com a água. E envolvido por sua atmosfera fascinante, esqueço-me de que apesar de aqui o mar ser quase sempre sereno – enquanto aprisionado em cento e cinquenta canais, e tão poético quando embala gondolas dançando amarradas a troncos – vez por outra infiltra-se sorrateiramente pelas paredes das casas e as apodrece lentamente. E pode ir além, muito além, quando invade suas ruas e labirintos e espraia-se da laguna por suas praças durante a Acqua Alta. Pobre Veneza.

E ela, vista por mim, seja de que ângulo for, por dentro ou com os pés à borda, me faz pensar que além de Veneza, eu também não mudei desde que a vi pela primeira vez. Foi no século XX. Faz tempo, quase outra vida, mas de um passado que me faz feliz por ainda poder lembrar-me dele. Então, considero que vivo neste momento dois privilégios: estar em Veneza e ter boa memória. E mesmo no meio de uma cidade abarrotada de turistas, por onde caminhar às vezes é um exercício de paciência, penso que, apesar do clichê, talvez eu seja mesmo um privilegiado.

Em seu começo, a invasão de forasteiros – poucos ainda, apesar de muitos – deu-se logo depois da Segunda Guerra Mundial, mas nada que se aproximasse dos 83 mil por dia nos dias de hoje. E ainda não havia lojas de souvenirs baratos. Oitenta e três mil.  Por dia! Numa cidade onde moram 55 mil. Somos, então, todos culpados pelo que fazemos com Veneza. E se formos daqueles que gostam de ouvir os saltos de quem caminha, mas não se vê, só indo muito além de onde vão os turistas.

Apesar de minha idade, em que nesta altura seria natural acomodar-me, não. Eu ainda trabalho, caminho e permaneço motivado pelas viagens. Contudo, me permito já não me agradarem certas obrigações sociais, tampouco estar sempre disponível para outras dispensáveis. Ainda assim, Veneza permanece me chamando, apesar de todas as suas mazelas turísticas, com minha visão de sua quase decadência, assediada pelo turismo excessivo e humanamente insustentável, abafada pelas multidões que devastam sua essência. E eu a atendo. As melhores viagens de minha vida não são apenas as que eu ainda estou por fazer, senão também as que refaço.

Embora amenize que durante as caminhadas contemplativas eu “ouça” a belíssima canção tema de Cinema Paradiso, de Ennio Morricone, continua Veneza não sendo fácil. Verdadeira armadilha turística em cada fragmento da cidade, por vezes grotesca e triste. E eu, não tanto assim, observo-a admirado com seu didatismo histórico, cultural, artístico e arquitetônico, sem esperar que desta vez me habitue ao ponto de já não me afetarem seus excessos.

De suas margens ou na água – dentro dum vaporetto, traghetto ou gôndola, e especialmente porque estou sempre ao lado exclusivo de minha melhor metade, ou, ainda, do alto do terraço de nosso hotel, contemplo o espetáculo e percebo ter trazido meu preconceito com essas cidades excessivamente turísticas. Curiosamente, contudo, elas me provocam. Todas tão belas, que mesmo abarrotadas, exploradoras de seus visitantes e desconfortáveis, não me abalaram (ao menos não para sempre), que este turista raiz, mestre em revisitar cidades invadidas por nós, não se farta de sê-lo e fazê-lo. Até alimento um pouco mais meu descaso com aqueles que se autodenominam “viajantes”, não turistas.

E então, aqui estou, de novo, em Veneza, na tão batida quanto espetacular cidade.  E não venho sem pretensões, apesar do preconceito. Inclusive a de saber que esbarrarei nos 83 mil turistas que a visitam diariamente. Somos 30 milhões por ano. E todos culpados, como se não já não bastassem suas outras desgraças. São boas as chances de ser estimulante e inesquecível. Especialmente porque não encontrarei mais os “Cadeados do amor”que embora símbolos de amor eterno – enfeiavam as pontes dell’Accademia, Scalzi e de Rialto. Foram retirados pela prefeitura, proibidos. Tintoretto agradece. Além disso, a Prefeitura desestimulou as lojas de souvenires baratos.

Embora assim, Veneza está longe de ser comum, permanece obrigatória, embora não ideal. Ainda desperta emoções inigualáveis, muitas vezes, contraditórias. Contudo, ninguém consegue estar aqui com indiferença e de sentir-se “tocado” por ela. E talvez seja esse o motor que me impulsiona e aos outros milhões que a visitam.

Mais difícil, contudo, é descrevê-la. Tanto que nem meu entusiasmo por escrever sobre viagens ameniza o receio da imprudência. Ignoro mesmo o que eu poderia acrescentar depois de tanto que já se escreveu – de bom e não – desta Veneza que é um dos locais mais expostos aos lugares-comuns. Talvez, senão, relatar meus momentos contemplando tanta graça e beleza em pedra, tijolo e tinta, ainda que a Acqua Alta – a natureza reclamando seu lugar – pareça que irá acabar destruindo. Seja lá como for, Veneza marca. E espero, sob meu ponto de vista, conseguir descrevê-la ainda mais.

Já Bolonha, não, para mim é toda nova, um espaço vazio na minha mente que espero ocupar com toda a distinção. A cidade das torres, da cor ocre, dos tijolos alinhados em todas as fachadas, dos intermináveis pórticos e de seu maior lugar-comum: o macarrão à bolonhesa. Acerca desta cidade, que sobrevive melhor aos caprichos turísticos, ainda não tenho nada a dizer.

Até lá. E vida longa a Veneza!

Expedição Namíbia, Botsuana e Zimbábue – Capítulo UM

Uma viagem de sonho ou um sonho de viagem?

Aqui, depois aquiUma noite aqui, duas… Eu contava os lugares até parar no primeiro: o Deserto do Namibe, imensidão desmedida até mesmo para um planisfério. Chamam-no de “lugar vasto e desolado”,  fica dentro do Parque Nacional Namib-Naukluft. Paro e me fixo por um tempo no Desert Hills Lodge, em Sesriem, primeiro de nosso extenso roteiro. Contemplo a Namíbia para além de sua Capital, mas sequer penso em seguir o itinerário até as opulentas Cataratas Vitória, quase final do roteiro. Fico por li mesmo, percebendo os tons do deserto pouco antes do anoitecer, 350 km depois de nossa chegada.

Já à noite a pureza do céu – todo tão limpo e claro – faz parecer que o Universo está mais perto de nós e que engole nossa pequenez. É diferente ali: as estrelas vêm até você. E seja quando e como for, sempre será uma bela noite, como em nenhum outro lugar na Namíbia, uma vastidão de céu invadindo olhares, corações e mentes. O silêncio também, é notável e pode ser uma das sensações mais deliciosas de sentir o contemplador. Sinto as minhas vivas, como referências que guardo de quando ali estive. Tudo é irresistível – mas o céu…ah o céu! “Ora (direis) ouvir estrelas!”. Eu creio que posso ouví-las, e sem ter perdido o senso.

Ainda não é o lugar da bicharada, mas das areias avermelhadas e das estrelas, que a vontade impetuosa de começar a viagem me faz pensar assim agora, dias antes de voar, percorrendo o mapa com os olhos, como se já estivesse conduzindo nosso 4X4, entre os outros veículos à nossa espera no hotel, no dia da chegada. É de sonhar com a viagem de sonho que nos sentimos agora, a seis dias de embarcarmos. Nos espera o anoitecer no deserto, e minha mente prega suas peças, me faz sonhar com uma viagem de sonho, a nossa grande expedição overlander a percorrer o Deserto do Namibe com o grupo (que grupo!) de brasileiros, pessoas tão interessantes quanto os destinos e suas paisagens.

            Ai, custa esperar.

Ao som da Sonata para Piano, No. 16, “Facile”, K 545, Segundo movimento, Andante

Namíbia, Botsuana e Zimbábue

A Map of The World – by Pat Metheny

Órix vagando pelas dunas alaranjadas

O mapa, um jogo

Não me levem a mal os terraplanistas, mas o mundo é redondo, não tenho dúvida. E mesmo que me esforce para pensar o contrário, é inútil, embora eu me entretenha imaginá-lo daquele jeito. Contudo – nesses tempos em que o mundo está de fato “achatado” pela globalização, os avanços da tecnologia e da comunicação, que estejamos conectados como nunca e que as noções de distância estejam extremamente reduzidas – ele ainda é fisicamente redondinho.

Quando o encaro assim, penso em África, naquele continente vasto, diverso e cheio de riquezas culturais, geográficas e humanas que me sugerem uma deliciosa coleção de aventuras. “Viajo” por uma abundância de lugares com experiências notáveis, encontro naquele “planeta”, amplas, novas e boas ideias de viagens que me atraem como abelhas o mel.

As árvores mortas de Deadvlei

Como nasce uma viagem?

De infinitas e particulares maneiras, mas, neste caso, uma rara, incrível e limitadíssima oportunidade de embarcar numa expedição com um grupo de brasileiros – cada qual dirigindo seu 4 x 4 pela Namíbia, Botsuana e Zimbábue – surgida durante nossa expedição pela África do Sul com a Overlander.

Grace, Robert e Renato estavam no comando do grupo quando corria o mês de setembro de 2023. Na noite de encerramento, confraternização e despedidas, Robert informou:

– Caros amigos, é com grande entusiasmo que compartilhamos uma nova jornada que já começamos a desenhar. Será uma expedição fascinante por terras de imensurável beleza, cruzando os mistérios da Namíbia, o coração selvagem de Botsuana e – como toque final – um pulo ao Zimbábue para visitarmos as Cataratas Vitória. A aventura, que promete ser tão memorável quanto a que agora concluímos, está programada para o próximo ano.

No mês de março, eu e Grace partiremos para desvendar, pessoalmente, cada detalhe deste roteiro. Percorreremos as trilhas, visitaremos os lodges, refinaremos o itinerário e cuidaremos dos preparativos com a mesma dedicação e carinho que sempre colocamos em nossas expedições. Queremos garantir que cada curva do caminho e cada pausa ao pôr do sol estejam à altura do que sonhamos para vocês.

Quando retornarmos ao Brasil, enviaremos um comunicado formal a todos que queiram se juntar a nós. Cabe lembrar que já temos parte dos carros confirmados desde nossa aventura de maio, restando poucas vagas para completar o grupo. Contamos com aqueles de vocês que, hoje, encerram esta jornada conosco, para mais uma vez compartilharmos os encantos do continente africano. Aguardamos ansiosos para vivermos juntos mais essa experiência única.

Overlander – Grace, Robert e Renato conduzindo um grupo na África do Sul

Captamos prontamente os objetivos de Robert, atraídos pela ideia de uma nova expedição. Sem muitas palavras, tomamos a decisão ali mesmo. Até acertarmos nossa participação, passaram-se 3 ou 4 meses.

Como será a expedição

Cerca de 3.500 quilômetros de self-drive. Pela vastidão das planícies da Namíbia, país a que regresso com prazer. Seremos 18 brasileiros de diferentes partes do país, além dos 3 que nos guiarão, num total de 10 veículos iguais e equipados, apropriados para viagens do tipo overland e off-road. Nos encontraremos no Aeroporto Internacional de Windhoek, pegaremos um transfer até nosso primeiro hotel, onde receberemos nossos carros, kits e instruções, além de irmos ao mercado local para compras do que julgarmos úteis para a longa viagem.

O roteiro

Na manhã seguinte, cruzaremos a imensidão de areia avermelhada – o Namib Desert – mais antigo do nosso planeta, onde dunas esculpidas pelo vento se estendem até o horizonte e sob um céu de um azul permanente, que à noite converte-se num espetáculo de estrelas cintilantes. Nossos dias serão assim, cruzando o Spreetshoogte Pass, no meio do inóspito, belo deserto, conhecendo Sossusvlei e o famoso Deadvlei, no Parque Nacional Namib-Naukluft, seguindo até Swakopmund, na Costa dos Esqueletos, litoral do país, onde visitaremos Walvis Bay, passando pela icônica Solitaire, lugarejo no meio do deserto, extremamente acolhedor e curioso.

Mulheres do grupo Mbunza, no Museu Vivo da cultura Mbunza

Através das Montanhas Erongo, uma das zonas mais impressionantes do país, de origem vulcânica e com mais de 2.000 metros de altura, passaremos por cidades típicas do interior, chegaremos ao Parque Nacional Etosha e à Reserva Onguma, onde faremos alguns game drives de manhã cedo e à noite. A região é de grandes possibilidades de avistarmos leões, leopardos, guepardos, elefantes, gnus, rinocerontes negros e os raríssimos brancos, girafas, zebras, kudus, órixes, hienas, spingboks e steenboks, além de outras de dezenas de espécies de aves e animais.

Na Namíbia, boa parte das estradas é de terra ou rípio

Nosso roteiro continuará rumo a Rundu, onde pernoitaremos num river lodge, para na manhã seguinte seguirmos pela Faixa de Caprivi até Botsuana. Visitaremos o Salar de Makgadikgadi[1], o Deserto de Kalahari e Maun, a capital deste país. Teremos uma experiência cultural no Museu Vivo da cultura Mbunza e pernoitaremos às margens do Rio Kavango, onde na chegada faremos um passeio de barco pelo rio até Popa Falls.

Grace,da Overlander, conferindo e atestando a qualidade dos serviços in loco

No Parque Nacional Chobe deixaremos nossos carros e sairemos em jipes abertos para novos e diferentes safáris, região com enorme população elefantes e búfalos, além de incrível avifauna. Faremos um morning game drive no Chobe National Park e seguiremos para Kasane, atravessando uma estrada parque com chance de avistarmos animais selvagens até chegarmos ao próximo lodge, onde teremos tempo de fazer um safári de barco pelo rio Chobe até o pôr do sol.

Um novo dia estará nascendo quando formos em direção ao Zimbábue, onde visitaremos as Cataratas de Vitória, uma das atrações mais icônicas desta região do continente. Deixaremos nossos carros e seguiremos todos juntos de ônibus. Na fronteira realizaremos os trâmites de entrada no país e seguiremos para as cataratas situadas no rio Zambeze, na fronteira com a Zâmbia.

Robert, da Overlander, conferindo as emoções de um passeio de mokoro, destaque da expedição

Almoçaremos num lugar com vista incrível para as Victoria Falls, visitaremos um centro cultural com artesanato local muito peculiares da região e ao final do dia retornaremos para Botsuana. Após o café da manhã do dia seguinte, partiremos em comboio com destino a Maun, onde pelo caminho veremos grandes baobás, apelidados de “Árvores da Vida”, símbolo icónico do continente africano. No dia seguinte iremos em direção ao Delta do Okavango e à tarde partiremos para um game drive na região. Após o café da manhã de mais um dia iremos até as margens do Rio Khwai, onde teremos uma experiência inesquecível: um passeio de barco mokoro, que tradicionalmente eram feitos escavando um grande tronco de uma árvore, mas atualmente de fibra, sendo ainda um meio de transporte popular. À noite, depois de nosso último game drive, teremos nosso Jantar de Encerramento.

Robert, da Overlander, recebendo os respingos da Victoria Falls

Após o café da manhã do último dia, partiremos em direção ao Aeroporto de Maun, onde faremos o primeiro voo de retorno ao Brasil, para Johanesburgo e depois cada um para suas cidades.

Toda viagem requer preparação. Cerca uma viagem todo tipo de contratempos, sobretudo uma digna do nome overland. Mas não essa. A experiência anterior nos proporcionou a tranquilidade e a segurança de não termos que nos preocupar com nada, além de arrumarmos as malas com as coisas certas. Iremos novamente com a Overlander – da Grace e do Robert – para a África subsaariana, embora não à África do Sul, mas também numa expedição que transcenderá as fronteiras geográficas, mergulhará na história e na vida selvagem e natural.  Precisarei apenas da leitura, dos vídeos – mais por curiosidade – pois tudo certamente se repetirá na milimetricamente perfeita e caprichada organização costumeira. 

Sossusvlei e a Duna 45 – by Robert Ager

Que chegue logo a hora do sonho, das emoções confusas, das percepções desordenadas e dos fragmentos de coisas reais converterem-se finalmente em momentos reais, do encontro com o grupo no aeroporto de Windhoeck e de vivermos aqui nosso sonho a dois, eu com minha metade, além de todo o grupo. Afinal, viver é melhor que sonhar, já dizia Belchior! Aqui, ali e em todo lugar, para viver essa vida, vida que vale a pena, como um navegador que navega por esta esfera, Terra, da cor azul e branca.

Até lá. E boa viagem.


[1] Pronuncia-se mâhâdihâdi em tsuana (“mahadigadi”) língua nacional do Botsuana

Istambul, para sempre

Agosto vai em meio e divide o verão. A noite finda lentamente, mas o dia nasce de repente, com o vigor de um rebento. São 6 da manhã em Istambul aos 27 graus, temperatura que chegará aos 33, segundo as previsões. Vivo por uns momentos um prelúdio para o dia que nos espera. Desperto com chamado para a Fajr – a primeira oração do dia – 15 minutos antes do sol nascer, dois espetáculos com hora certa para acontecerem. Respiro fundo e ouço o azan melodioso – extremamente importante para os muçulmanos – feito em coro pelos muezim num mar de minaretes, e ecoa pela cidade, por seu mundo de vidas e histórias, para muito além do bairro onde estou. Embora tenham padrão rígido, da grande sabedoria em seus versos, percebem-se diferentes estilos, que variam segundo seu recitador. Para turistas ocidentais de passagem, ainda que sob olhares estrangeiros, é emocionante, espiritualiza a paisagem, mesmo que depois de uns dias possa embaralhar a mente dos que precisam dormir, embora muito maior seja a sensação de impacto no viajante. Quem em Istambul ignoraria uma janela com vista para aquele mundo?

Quando estou distante, sinto sua presença, ouço seus barulhos e me lembro de sua vista aérea mais encantadora, desde a Mesquita Suleymanie. E pensar nela suaviza a saudade. Não vejo a paixão como um desvio, mas um amor que a separação faz sentir saudades e pensar. Só consigo sair dela porque sei que vou voltar. O destino quis assim. Desde a primeira vez que fui a Istambul, ela não saiu de mim. Depois, com muitas visitas, ficou tão grande que não me cabe mais, vaza de mim. Nem eu quero que dela algo me escape, pois não me atrapalha, ao contrário, alimento-me bem dela.

Com uma ponta de ousadia, chamo-a “minha cidade”. É possível que ela admita o atrevimento, pois enquanto a avisto, uma chama sem pavio me aquece. Do outro lado do vidro, enquanto o dia raia, ela ainda corre devagar, mas logo crescerá, chegará às mãos e andará à solta dentro de nós. Olhando-a assim, através da janela, e sem pressa, meu pensamento divaga, me perco na cidade e ainda sobra tanto dela. Mas sou todo reverência. Olho cada coisa como se a visse pela primeira vez, embora conte as que estive em Istambul: sete, com esta. Quase me surpreendo como permanece absorvente. Desde a primeira, há dezessete anos, de onde trago marcadas as imagens e sons de sua magnificência. Celebro em mim a gratidão, a cada vez, por tornar-se ainda mais nossa, familiar e incrivelmente prazerosa. Certas cidades são assim, sentem-se mais no coração do que nos olhos ou na mente, e muitas vezes mais do que na razão. Talvez – como nas paixões – perco-me por Istambul. Não me admira ser a cidade mais visitada no mundo.[1]

Nada de novo à frente, embaixo ou acima de mim. Não preciso mais saber olhar para ela, aprender nada, desembaçar a vista. Seu exotismo e grandiosidade já há tempo a converteram de “destino desejado” em “nossa cidade”. Agora, familiar e deliciosamente habitual, conhecida até pelos cheiros, continua a nos aguçar os sentidos, recriar a felicidade inicial, a nos abrir sorrisos próprios dos prazeres da familiaridade. Para vê-la, agora, já preferimos as passeadas lentas. Para senti-la como tantas outras coisas ir se tornando ainda mais parte de nossa vida emocional. O prazer é quase mágico e renovado a cada visita. Por mim, só paro de vir quando me fizer sentir tédio, embora seja coisa que não costume dar em mim. Sequer dentro de casa. Ao contrário, em Istambul, escolho as sensações.

Posso ir para todo lado, qualquer que me apeteça. E vou. Para muitas pessoas, deve ser um desafio à lógica essa repetição de destinos. Não para mim, que sou feito de muitos lugares, alguns imensamente repetidos, na mesma proporção do prazer generoso e do entusiasmo que me provocam. Assim como para a Índia, onde sempre encontro mais do que o esperado.

Mais um anel?

Mais um anel para os dedos da amada, uma pulseira para seus pulsos? Uma tulipa furtada de um jardim da cidade? Não espero delas, é verão. Quem sabe, dizer-lhe um sonoro “te amo” inesperado? Talvez não, nem palavras, porque só expressões bastam, assim como Istambul, que é lugar perfeito para comemorarmos nosso aniversário de união.

Entre tantas, é uma boa razão para estarmos aqui, coisa que por sorte compartilhamos com a mesma paixão. Me conforta perceber também o prazer da amada e seu entusiasmo com a cidade. Não resistimos ao desejo de repetir nossas certezas de que ali, tudo o que vivermos e avistarmos, embora familiar, terá sempre a mesma intensidade. E apesar de difícil para mim a arte de viajar sem planos, objetivos e expectativas, não nos sentimos gastando tempo sem estes em Istambul.

Meu coração agora está em Istambul e para além de mim, da cidade, até de Bizâncio e Constantinopla. Ainda não nos encontramos no distrito de Fatih. Por enquanto a aprecio seu lado europeu pela janela. Não é sua parte mais paralisada no tempo, onde nos agrada muito observar a competição fenomenal entre abóbadas e minaretes que excedem minha capacidade de admiração. Sequer o desjejum ainda comemos, mas para ele logo iremos. Para este lado – Beyoğlu – bom tempo dispensaremos. Ali também compreenderemos por que seus habitantes expressam em sorrisos a sorte de morarem num lugar tão inspirador.

Viva Istambul, onde estaremos em breve e para onde embarcaremos outras vezes mais, embora desta vez não sei se contarei as histórias que já contei antes.

Se gostar, comente. Eu gostarei!


[1] Em 2023, a cidade mais visitada do mundo foi Istambul, seguida de Londres (Reino Unido), Dubai (Emirados Árabes Unidos), Antalya (Turquia), Paris (França), Hong Kong (China), Bangkok (Tailândia), Nova Iorque (USA), Cancun (México) e Meca (Arábia Saudita).

ÍNDIA – O reverso do mundo, um poderoso fascínio

Incredible India
https://www.incredibleindia.org/content/incredible-india-v2/en/destinations/amritsar.html

Eu quero a sorte de uma vida longa. E se mesmo sete delas eu tivesse, todas gastaria viajando, a coisa mais certa entre todas as coisas certas que faço na vida. E se já conheço o suficiente do mundo para não me impressionar com qualquer coisa, destino ou país, não com a Índia. É por ela que agora escrevo, esse inferno e céu, o reverso do resto do mundo para alguns, um realismo mágico em forma de nação para mim.

Hawa Mahal – Jaipur (VIVEK KUMAR)

E se num dia qualquer penso nela, aborda-me o desejo de revê-la. Tal como o canto da sereia – que seduz (mas a mim não ilude) – ela me chama. Ou, quem sabe (já que tudo é misterioso), em decorrência do primeiro tilak[1] – o sinal de benção que me colocaram na testa. Posso também pensar ter sido pelo pôr do sol que dourava a muralha da fortaleza de Jaisalmer. Ou por tantas outras coisas, porque a Índia é uma “força estranha”, incomum e misteriosa que sente-se em toda ela e por tudo ali.

Incredible India – Lucknow

E nessa batida, na única vida que tenho, iremos de novo. A ver lugares que não conheci e a repetir uns que já visitamos. Por que? Porque não há duas viagens iguais à Índia, senão pormenores em cada, instantes pequenos e grandes que vão tornando a jornada um novo encanto, quase como se fosse inédita. Se neste vasto e atrativo planeta não são escassos os lugares que merecem ser vistos e revistos, poucos me estimulam e surpreendem tanto quanto a Índia.

Wagaa Border https://www.sapiens.org/culture/india-pakistan-partition-border-ceremony/

E se há viagens e destinos que parecem não ter fim dentro de mim, a Índia lidera a lista. Com o prazer e impacto da primeira visita permanecendo notáveis, tem sido assim ao retornar. Nesta minha alta altura da vida, nada me parece fazer tanto sentido quanto deixar-me levar pelo que me revolve o cérebro. Sinto-me afortunado. Duas vezes. Por poder voltar o quanto desejo e por ter alguém ao meu lado que compartilha desse sentimento.

Lucknow – Incredible India

            Iremos a Delhi para apenas uma noite e lá visitaremos o templo Akshardham, maior templo hindu do mundo. Seguiremos a Amritsar para conhecer de dia e à noite o Tempo Dourado, e perto de lá, em Wagah Border, assistiremos a cerimônia da troca da guarda na fronteira Índia-Paquistão. Partiremos para Lucknow – capital de Uttar Pradesh – e depois para Jaipur e Udaipur, no Rajastão, de onde voltaremos ao Brasil, via Roma, onde ficaremos dois dias.

Até a volta!


[1] Marca na testa, seja um traço comprido ou um ponto os olhos que sugerem tranquilidade, poder,vigor, riqueza, prosperidade, entre outros, dependendo da cor.

Akshardham Temple, Delhi

Swaminarayan Sanstha – http://www.akshardham.com/photogallery/mandir/index.htm

Já se vai um ano. Bem-vindo, 2024!

Viver é tão bom

Acordei cedo, pouco antes das galinhas e com um triste sol pálido. Era véspera do Natal e quase de nossa partida para a Tunísia. Eu pensava naquilo como nunca, no atípico dia frio e um bom lugar pra ler um livro. Mas não. A força do pensamento me fez passar um filme que me dei ao gosto de deixá-lo rolar. Não era a coisa mesma, de sempre, aquela lengalenga de todo fim de ano, de pretextos para reflexões filosóficas, de gratidões e promessas que – se não tomo cuidado – convertem-se em não cumpríveis.

Não. Nem eram as da minha imaginação, sempre ampla, livre e prodigiosa nesta época do ano. Se desembrulhava na memória um aglomerado contínuo de imagens. E das boas, mesmo que não em technicolor e já um pouco desgastadas. Estavam no tempo e carregavam o tempo com elas. O filme ganhava sentido com as recordações de quando “passei” (nem posso dizer que “estive”) por Túnis numa viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo no século passado. Apesar do desgaste, senti-me privilegiado em tê-las ainda na memória nessa altura da vida, o que comemoro, tal como o Ano Novo.

Foi coisa breve, como não será o prazer de aterrar num destino desejado, de retornar ao estimulante continente africano, desta vez não ao Sul – para ver animais – senão ao teto da África. E de novo à Tunísia, para sete dias de visitas. Na escolha, não hesitamos no destino. E do começo ao fim, acreditamos que será uma viagem com tudo para dar certo e que também haverá de ficar impressa.

Dezembro acaba e com ele o Natal e também meu pouco entusiasmo com a data, que nem por isso deixa de ser gloriosa, pois imenso será o prazer de reunir familiares em minha casa na noite do dia 24. Tão francamente quanto posso ser, não sou religioso, o que para mim não tira do evento o prazer. De me esmerar em proporcionar uma bela noite de encontro, de troca de presentes e confraternização, numa mesa e numa sala cuidadosamente preparadas para a honra que se repete todos os anos.

Variantes depois de variantes, dois anos sem vergonha passados e tumultuosos, cinco doses depois, quase morta a pandemia, aproxima-se um janeiro estalando de novo. Não foi tão duro o ano velho, ao menos não como os dois que o antecederam. Difícil para alguns e maravilhoso para outros, de todo modo fica para trás. Não eu, que por caminhos mais retos que tortuosos, aos 72 anos chego ao novo imaginando-o com esperanças. E como bem disse Rubem Alves, em “O tempo e as jabuticabas”, sentindo-me como o jovem que diante de uma bacia de jabuticabas, chupa as primeiras displicentemente, mas ao perceber que terminam, passa a roê-las até o caroço.

Procuro não esperar ocasiões especiais fantasiosas que nunca chegarão, porque afinal, somos nós mesmos – aqui e agora – os responsáveis pela criação de nossos momentos. Carpe diem, quam minimum credula postero (aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no de amanhã) pode ser meu novo lema de vida nesta altura dela. E vou entrar com o pé direito, que dizem trazer sorte. Embora nestas coisas não haja nada certo nem seguro, nós merecemos pensar num ano mais virtuoso.

Coisas também deixei pelo caminho. Outras haverão de chegar. O ano foi bom, de retomadas e reconquistas no trabalho, na vida, nas viagens e relações humanas. Diferentemente daqueles sem fundamento, dos que passaram destrambelhados, loucos de imprevistas e incertezas. Considerando além dos extremismos que parecem ainda resistir, todos perdemos. Agora nós, a humanidade, temos de novo um lugar ao Sol e torna-se justo ansiarmos por uma tempestade de bonanças.

Viajar me parece uma boa ideia para celebrar o novo ano. E esperar que os caminhos e atos tortuosos se endireitem, pelos recomeços e restauração de vidas. Chego aos 72 anos de idade com muito a festejar. Devo à vida essa riqueza e o faço com prazer. Soa como uma declaração de amor? Pois é! Afinal, a felicidade está na compreensão de que a vida precisa ser comemorada, não apenas vivida. A primeira é uma condição da segunda. E não dá para adiar mais a felicidade, embora, por certo, eu deva postergar a vontade de aprender piano, mas não as viagens planejadas e os lugares ‘estranhos’. Espero-as, nos próximos 365 dias. Que venha bem o ano novo! Preciso, enxuto, direto e certeiro. Ensolarado, nada dos sombrios cinzentos de chuva miudinha.

Bom Natal e maravilhoso Ano Novo a todos! E até lá, Túnis.

Tunísia, Roma e Florença

A vida, uma viagem

Desperto no silêncio da noite. O relógio anuncia as cinco da manhã. Em meio às luzes pelas frestas, à penumbra que antecede o alvorecer, penso: “não era para essa luz entrar agora!” Mas aquele raio, que atravessou meio planeta para me despertar, nesta altura alta da vida veio lembrar-me que isso tem deixado de ser peculiar. Percebo a melodia suave da chuva a cair lá fora e lembro-me de que o tempo – este senhor implacável – prossegue em seu curso inexorável. E o sinto como se batesse à minha porta, através daquele raio, e à consciência quisesse me fazer recordar de algo vital. Atendo e ele diz: “O novo ano se anuncia”. Surpreendido, indago mentalmente: “Outro ano novo, já? Mas ontem mesmo vi o passado chegar!” O tempo, atencioso, mas sem dele mesmo a perder, com sua soberba, repara, me escuta e responde: “Sim. E não há que caminhar vagamente pela estrada da vida”. Então ele, majestoso, tão dono de si, vira-se e mostra que não liga para mim, que continuará a passar de seu jeito intolerável.

Eu nem queria lembrar-me, mas experimento mais uma vez o peso de minha própria jornada. Vivo o desconforto da idade, mas também celebro o privilégio de ainda estar por aqui, pois não sou de remoer o passado, mas de fitá-lo com gratidão, pois cada instante dele moldou quem eu sou. E para minha sorte, impôs-se bem mais ao meu corpo que à minha mente. Eu gosto de mim! E, afinal, ele passa assim desde que o tempo é tempo.

Não há tempo a perder no Outono da minha vida

Meu aniversário coincide com os primeiros raios do ano. Dia dois. Uma desvantagem, pois adentro o novo ciclo já tocado pelo envelhecimento. Contudo, a consciência sussurra que nesta etapa da vida – onde o passado supera em muito o futuro – não há a perder, embora eu viva um eterno desencontro entre a velocidade com que ele passa – a mesma com que noto meus filhos crescerem – e aquela que eu desejava que passasse. Não há mais tempo a ficar parado. Nem mesmo para ouvir toda a minha própria história.

É apenas mais um ano“, costumam dizer. Contenho a vontade de replicar, optando pela reflexão e num instante fugaz, minha mente conclui: sete décadas! E um pouco mais próximo do ocaso. O Outono da minha vida. É sempre assim, desde que o tempo é tempo. Não há razão para correr em busca da salvação, pois o risco de tropeçar é iminente. Contudo, faço o que está ao meu alcance: cuido da saúde, estimulo os neurônios, fortaleço os ossos e músculos, embora adie a cirurgia de catarata como se adiasse o tempo, essa inevitabilidade. Deixo meus pensamentos e planejo a próxima viagem.

Viajar é bom. Para ir ali e voltar, sofrer e chorar, rir e comemorar, como olhar de quem sabe ou a surpresa do desconhecido, numa tocada leve ou levada atrevida, a passo de caracol ou corrida de lebre, para lembrar-se de um simples momento ou marcar-se por toda a vida, para que a viagem nunca se acabe dentro de si, ou para que se a esqueça logo após, viver instantes pequenos e momentos grandes, segundos ou dias, entre sisudos e cordiais, experimentar a hospitalidade de uma nação inteira ou o mau humor de outra, como náufragos numa ilha ou num ônibus de excursão. Do Senegal a Zanzibar, da Lapônia ao Butão, da Mauritânia à Amazônia. E ver-se mergulhado nos preparos ou ir sem um qualquer.

 Para tentar sem conseguir ou para vencer. Tal qual um globetrotter ou um estreante, no Inverno ou no Verão, nas proximidades ou numa volta ao mundo, ver as coisas feitas para o gosto do turista ou aquelas que eles nunca visitarão, entrar num pagode ou numa catedral, castelo ou casebre de palha, andar ao acaso ou com sentido, não ter o que fazer ou por uma agenda impossível, com poderes mágicos ou com humanos limites, para passar e cumprimentar alguém, mas não responderem, ou para não crer num convite a entrar. Por lugares remotos ou entre os mais lotados, sentir-se um descobridor ou turista acidental, por um deserto ou numa estrada lisa, à beira da via ou dentro dela, para que a estrada seja a viagem ou que tudo esteja apenas ao fim dela. Por trilhos ou rios, sobre um camelo ou num caminhão overland, de bicicleta ou de moto, de jipe, sob um crepúsculo arrasador ou um belo amanhecer. De dia ou à noite, acampando sob um céu estrelado ou dormindo num hotel espetacular, deambulando por entre uma floresta de edifícios numa megalópole ou numa cerrada floresta tropical, vendo gente ou só animais. Por um ano, por muitos anos ou alguns dias. A um ícone urbano ou a um vilarejo escondido. Para cercar-se do mundo ou dele afastar-se, para fotografar, filmar, escrever umas linhas ou um livro, e assim fazer a viagem viver para além de sua memória, na de muita gente. Para buscar nela o consolo ou comemorar a felicidade. Para ser a primeira ou a última.

Viajar é bom, enfim, e um bom meio de viver essa riqueza que é a vida. E será assim mais uma vez, quando o Natal mal terminar, eu com minha metade passarmos da festa para a próxima viagem: um encontro turístico no Norte da África, com a Tunísia – um lugar que embora tenha tudo para ser, ainda não foi descoberto pelo de massa – numa jornada desejada e planejada que mais uma vez marcará para o bem o resto de nossas vidas. Por lá ficaremos, e na volta, pequenos dois dias em Roma e outro par em Florença. Que coisa, não?

Viva a vida, o novo ano, e fé no que virá!

O medo do lado direito!

Uma reflexão pairava em minha mente. Era uma daquelas miudezas que carrego e, precisando ou não, volta e meia me ocorrem. Sentia um frio interior, ou talvez borboletas no estômago. Medo e ansiedade. Mesmo estando psicologicamente preparado, senti o temor e entrei em estado de alerta ante a iminência de uma ameaça. Ao pisar o solo africano, sabia que em breve estaríamos próximos a animais selvagens. Contudo, a apreensão não era por eles, pois não sou um turista inexperiente nessas situações.

Encontrar os Big Five – leão, leopardo, elefante, rinoceronte e búfalo – costuma ser emocionante e seguro, especialmente em safaris guiados por profissionais. Encará-los de um jipe sem capota não seria novidade, e eu sabia que os animais veem o veículo como um ser de grande porte, não um mero humano. Primeiro, os veículos e pessoas dentro deles não são vistos como alimento e, em todos os casos, também não como predadores. E têm um cheiro pra lá de esquisito: combustível, fumaça, lata e borracha. Às vezes os animais se aproximam tanto – e sem medo ou agressividade – que nos provocam o que sequer imaginam provocarem. Dizem que são os animais que sentem medo de nós, mas… ouso desconfiar dessa tese.

Não sou uma pessoa medrosa; tenho mesmo até um lado destemido. Conhecia a ciência por trás daquela coisa de observar animais em safaris, mas também a facilidade com que uma leoa faminta, um destemido guepardo ou um atlético leopardo poderiam pular dentro do jipe sobre nós. Ninguém quer que um leopardo saia de seu estado relaxado para tornar-se uma fera com temperamento selvagem. Contudo, estava certo de que um ataque nessas condições seria improvável, desde que nos mantivéssemos dentro dos jipes, que evitássemos movimentos bruscos e respeitássemos as características de cada animal. Então, assim, caro leitor, não era o que eu temia.

O pensamento avançou quando me deparei com a ameaça: a “besta” de lata, uma picape 4×4 Toyota com o volante do lado direito! Volante, dois pedais, freios de mão, comandos e tudo mais para conduzi-lo do lado esquerdo. Ah, esses esquerdistas ingleses! Assim, desse jeito estranho, certo ou errado, conduziríamos por 3.600 quilômetros durante nossa jornada sul-africana nos próximos 15 dias.

Ainda que não no intenso – embora civilizado – tráfego londrino, senão na ensolarada África do Sul, e num comboio, foi sob essa atmosfera mista de excitação e medo, de compreensão e adaptação, que recebemos nosso carro. Por enquanto, a inteligência não parecia reagir como deveria, senão tornando-se passiva, presa ao fato. Resignada. E enquanto eu arrumava o carro com coisas pessoais, ouvíamos instruções do trio Grace, Robert e Renato. Coloquei flanelinhas, álcool em gel, creme de mãos, lenços de papel para idas às moitas e coisas afins, além de um GPS, cabos e carregadores para celulares, nada menos do que temos em nossos carros em casa. E enquanto eu arrumava, o cérebro ia se acostumando, ambientando-se, e o temor se reduzindo. Desliguei o automático e entrei no carro a primeira vez. Pelo lado errado!

Ajudou-me imaginar que a polidez tradicional britânica poderia ter sido transmitida aos sul-africanos na condução. Mas isso só saberíamos dirigindo. O fato de o carro ser automático também contribuía, era um problema a menos para exigir de meu cérebro. Mas nem todos eram. Automáticos, quero dizer. Fui o segundo a me inscrever na Overlander, e quase como condição de viagem pedi à Grace que reservasse um que não fosse com câmbio manual. Ela assegurou a possibilidade, embora os manuais dominassem. Aos demais companheiros que tiveram que enfrentar câmbios manuais, minha homenagem e reconhecimento à sua superioridade!

“É só seguir”, pensei. E feliz porque percebia que o medo, naturalmente, logo seria passado. E que o futuro está no futuro, então, melhor era viver o presente da maneira mais intensa e dedicada possível.

“É só seguir”, pensei, depois de organizadas as peças dentro da minha cabeça. 

            A primeira vez a gente nunca esquece

O brilho da manhã era cintilante e depois do medo, eu sentia a efervescência natural que a curiosidade pelo que viria à frente provocava em meu cérebro. Eram algumas primeiras vezes juntas num só momento: a primeira que dirigi ao modo inglês, que viajei em comboio, que visitei a África do Sul mais extensamente, para além de Joburgo, Cape Town e Sabi Sand. Uma viagem que parecia ali já tornar-se marcante, apesar de tão cedo. “Não, é muito cedo para tornar-se inesquecível”, pensei.

Mas foi assim. Mais do que ansiedade, esse prelúdio comum ao início de uma grandiosa jornada, de algo tão esperado, a sensação fora tão fugaz que logo me tornava familiar com tudo. E então tudo se configura como um convite. Não havia por que ter tempo a perder, mas um roteiro justinho a seguir, mínima, cuidadosa e caprichosamente planejado por Grace e Robert.

Dullstroom – aninhada entre majestosas montanhas com um riacho a lhe banhar – nos acolhera com simpatia e marcava o início da segunda etapa dos 3.600 quilômetros de nossa jornada pela África do Sul, embora a primeira nem contasse, pois fora o deslocamento de Joburg até ali.

Adentramos no veículo, nosso fiel comparsa nos próximos milhares de quilômetros, para uma volta pela cidade, um breve período de ambientação e uma ida ao supermercado para compras de conveniência. De água mineral a guloseimas. Durante o percurso, recebemos instruções de condução, de leis de trânsito e de costumes e minha mente processava a experiência. E tudo fluiu com uma naturalidade e familiaridade espantosas. A não ser pela insistência em acionar o farol alto quando queria o limpador de para-brisas. Mas isso nem conto, porque foi até o fim da viagem. Nem fico vermelho em dizer que até no Brasil andei fazendo o mesmo!

A seguir:

Terceira etapa:

De Dullstroom ao Kruger ParkUma viagem e muitas descobertas

OVERLAND África do Sul – Capítulo 1: A chegada à Porta de África

De Johanesburgo até Dullstroom

Os primeiros raios de sol apareceram timidamente nas janelas do avião enquanto tomávamos o café da manhã. A chegada iminente a Johanesburgo, nas primeiras oito horas do dia, animou meu coração aventureiro, que batia no ritmo dos tambores e marimbas da música africana. À medida que nos aproximávamos da “Porta de África” – como chamam carinhosamente a capital – também ficávamos mais próximos da promessa de experiências encantadoras em que o programa da viagem se desdobrava. “Um mundo num país”, como os organizadores descreviam. Múltiplo e plural. E eu, sem resistir a nada desse mundo, entregava-me já a tudo o que encontrava.

Então, como em todas as viagens – da preparação à conclusão – o momento era mais do que o de uma simples chegada, senão o auge do começo de uma exploração, de aventuras com tudo para nos deixar marcas como tatuagens. O que, afinal, é de esperar qualquer viajante no início de sua jornada. Mais do que uma esperança, eu sentia convicção. De de que a viagem seria encantadora, diversa, marcante. E que iria além, teria outros resultados, o de uma interação admirável com o destino. Da megalópole civilizada às cidades europeizadas, do sertão selvagem às reservas descomunais ocupadas por uma centena de espécies animais, das montanhas ao litoral, dos oceanos Índico e Atlântico, das focas, baleias, pinguins aos animais das savanas.

O aeroporto nos recebeu calorosamente, ou pelo menos assim eu senti. Entre muitos viajantes de várias nacionalidades recuperando bagagens e passando pela imigração temporária, observei rostos desconhecidos que pareciam refletir os mesmos anseios. Cada um vivendo suas expectativas ou nostalgias, alimentando os sonhos de antes do pouso, com igual espírito da exploração. Vivemos o breve momento em que o importante não era apenas chegar, mas estar lá, viver e sentir o destino. E seria difícil apontar outra sensação tão relevante, embora comum, mas forte, vasta e substanciosa. O prazer da chegada, se me entende. Ali nascia a abertura da narrativa da viagem, e eu não deixaria escapar nenhum detalhe desse momento.

Logo nos encontrávamos no ponto para reunião do grupo – no Aeroporto Oliver Tambo, de Johanesburgo – definido por Robert e Grace, da Overlander.

Os demais participantes, todos com o mesmo entusiasmo, iam chegando e se juntando, se apresentando, até serem quase familiares. Conduzidos ao transporte que nos levaria para bem distante da agitação urbana, nos esperava a cidade de Dullstroom, primeiro refúgio e lugar onde receberíamos nossos carros. O caminho foi por bom asfalto e entre conversas, paisagens e cenários que aos poucos iam revelando o interior do país, colinas verdes ondulando em harmonia com um céu expansivo e azul, tudo sob um clima que não parecia haver melhor.

No caminho para Dullstroom, paramos em Alzu, a 175 quilômetros de Joburgo, num ótimo posto com restaurantes e conveniências.

Em Dullstroom, pequenina cidade aninhada entre as montanhas, fomos recebidos com a hospitalidade tradicional sul-africana pela equipe do The Highlander Hotel, cujas suítes aconchegantes e espaçosas prometiam uma noite de descanso necessário. No quarto, sobre uma mesa, encontramos os kits pessoais e mimos que demonstravam o impecável capricho de Robert e Grace.

A noite caiu trazendo consigo um caloroso senso de comunhão. Foi no jantar, reunidos numa elegante mesa do restaurante do hotel, onde compartilhamos um jantar de boas-vindas oferecido por Grace e Robert, acompanhado de um delicioso vinho sul africano. O riso e a simpatia fluíram como um rio tranquilo, enquanto histórias pessoais se entrelaçavam para formar uma tapeçaria de memórias e a personalidade do grupo naquela aventura.

O aroma dos pratos permeava as narinas. E os risos e conversas se misturavam com as notas suaves das garfadas, dos goles do poderoso pinotage e da trilha encantadora que revelava o bom gosto do casal proprietário do hotel.

Dormimos cedo e confortavelmente, enfrentando mais frio do que o esperado. Com o nascer do novo dia, a expectativa se concentrava no recebimento dos carros e instruções. A energia era palpável. Estávamos prontos e unidos para seguir nosso roteiro.

Robert, Grace e Renato da Overlander, a quem mais tarde chamaríamos de “trio”, demonstraram, desde a recepção no aeroporto à preparação dos veículos, que seríamos conduzidos com dedicação e atenção muito além do que poderíamos supor. Era a deliciosa sensação de um começo de viagem que nos deixaria lembranças eternas.

A seguir:

Segunda etapa:

De Dullstroom ao Kruger Park

Outono em Praga

Praga à noite | ©Hannes Flo – Istagram

Como se a luz do dia fosse insuficiente, a noite se insinua e tudo se transforma. O crepúsculo comove, acaricia, instila em nós um encantamento que arranca suspiros, como quase tudo nesta cidade. Se o dia não foi pleno o bastante, a noite, sem dúvida, transformará seu observador no mais recente apaixonado. Aquele que, mesmo sem proferir palavras, sem publicar em revistas ou blogs, sem partilhar com os seus ao chegar em casa, de alguma maneira, sem difundir seu encanto, o traz expresso no rosto, gravado na mente e guardado no coração. Posso duvidar de quase tudo, exceto do modo como Praga encanta desde o primeiro momento..

É outono em Praga. O sol agora não se despede por trás de Malá Strana nem lança seus últimos raios de luz tênue e enfraquecida, mas que se projeta com a mesma magnitude sobre a profusão de torres pontiagudas, de cúpulas e fachadas da gloriosa Cidade Velha. Desta vez não. A luz, que costuma realizar prodígios na linha do horizonte e transforma o instante efêmero num dos mais comoventes, mágicos e românticos que se podem experimentar na capital boêmia, converte-a numa rapsódia. Rapsódia, seja arcaica ou moderna, de Antonin Dvorak ou de Freddie Mercury, mas igualmente tocante. Ou ainda, numa serenata de Mozart e com a mesma intensidade e suavidade dos crepúsculos de verão em Praga.

Para o observador, a sensação pode ser real ou de fantasia, contudo um fenômeno de beleza incontornável, que visto assim, desde a Ponte Carlos, converte espectadores – hordas de turistas encantados – em seres mais felizes, de corações mais aquecidos e dias melhores.

Praga é poética, uma “praga” que inspira centenas de centenários dedos e mentes de escritores e poetas vivos ou mortos que já a descreveram, cada qual com sua força e interpretação, sem que precisassem de poentes tão vigorosos, das primaveras e outonos refletidos nas águas planas do Rio Moldava. Ajudaram, talvez sem querer, a tornar as outras cidades da Europa um pouco menos belas. E nos fizeram reconhecer que para além da beleza escancarada da cidade, vive-se ali uma atmosfera romântica e mágica que engole quem já não antes houver sido tragado por sua arquitetura.

Creio que até os corações de bronze dos santos da Ponte Carlos aquecem-se n esta hora. Trinta deles, transformados em metal pelas mãos talentosas de escultores nos anos 1600 e 1800, os quais parecem reverenciar o astro rei do mesmo jeito que nós, turistas mortais, são tomados pela plenitude da beleza, estátuas que trazem boa sorte, que realizam sonhos secretos para os que sabem deles, que no bronze escuro esfregam as mãos com pedidos, na esperança de realizarem-se.

Nossos corações aqui se entregam e custam a se recuperar do momento. São marcados pelas “garras que possui a cidade”, nas palavras manjadas de Kafka. Apreciá-la da Ponte Carlos nos rouba a razão por instantes, de tal modo que chega-se a pensar em alguma magia exclusiva ocorrendo por ali.

Praga merece olhares elegantes e palavras alinhadas, embora às vezes seja difícil ignorar as ordinárias e os clichês. Sobretudo quando descrevo seus lugares mais expostos ao turismo, como a Ponte Carlos. Tanto quanto possível, merece de mim o melhor. E não só por sua beleza, mas por seu conteúdo: de Mozart a Kafka, do barroco ao renascentista, das ruas estreitas e sinuosas às largas avenidas, das tantas e belas igrejas aos ricos e curiosos museus que às vezes convertem a cidade numa sala de aula.

Com o mesmo aprumo de meu olhar, tento descrevê-la exercendo minha liberdade de trafegar pelo poético e pelo romântico sem disfarçar minha parcial e apaixonada admiração.

Estou aqui novamente, tão plenamente presente quanto possível, agora tentando descrever minhas impressões com equilibrismo mental, do mesmo jeito que os malabaristas que se apresentam da ponte. E como os turistas que balbuciam seus desejos enquanto esfregam o bronze das estátuas dos santos, rogo que me emprestem um pouco de bom senso, a fim de que eu deixe as palavras em excesso correrem junto com as águas por baixo da ponte. Do mesmo jeito que por vezes, em costumeiras inundações, tentam levar junto a cidade rio abaixo.

Rodo lentamente o olhar por Josefov, Staré Mésto, Nové Mésto, Malá Strana, Prazský Hrad e Hradcany – os seis bairros próximos e pequenos – antes que o céu torne-se negro, embora a escuridão também traga lá grande beleza à cidade. Esqueço o redor e paro a vista sobre a poderosa colina Hradcany, sobretudo em seu magnífico castelo, e o brilhantismo que agora se impõe, do meu olhar saca suspiros. A catedral perfura o céu e a mim, pináculos agudos tal qual há pouco fizeram os da Igreja Týn.

O céu vai se tornando escuro, as luzes vão-se acendendo e as estrelas aparecendo. Em algum lugar, por trás do horizonte onde concentro o olhar, o Sol irá se pôr aqui para nascer no Japão.

É um momento em que o tempo voa, que o notamos mais breve que por todo o dia, quando ambas se unem num só feixe de luzes e sombras iluminando, ora em corretíssima luz dourada, ora em novas, intrigantes, sombrias e mágicas perspectivas obscuras. E como se o dia não bastasse à à cidade das mil torres, é hora boa para deixarmos a beleza da ponte e espreitarmos os becos de Staré Mésto.

É quando por ali se escondem alguns surpreendentes segredos da cidade, entre edifícios de delicadíssimo art nouveau (felizmente longe do brutalismo arquitetônico funcional socialista de outrora) e guardam-se boa parte de seus feitiços. Por onde é imperioso caminhar entre seus becos e ruas tortuosas para descobri-los, tentando abstrair-se da multidão de turistas.

Como se uma não bastasse, voltei a Praga pela terceira vez para contemplar o por do sol sobre a ponte Carlos.