NAMÍBIA – Capítulo 3 – Piquenique no deserto sob acácias espinhosas

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                 A beleza é, por natureza, subjetiva. Gosto é indiscutível, alguns dizem; “A graça está nos olhos de quem vê”, já outros. Eu só sabia de mim, impregnado até as entranhas pela beleza singular de um charco morto havia 600 anos. Tínhamos visto tudo em Deadvlei e a viagem ao passado terminava na volta ao jipe, deixando para trás centenas de anos e um lugar sem vida. Não subitamente, mas quando já havíamos visto o bastante. E  o que sobrava à vista para nosso deleite, faltava às palavras para definir. Deadvlei, quando cheguei, era um lugar com o qual nunca sonhara. Na despedida, aquele que sempre me lembrarei.

                Outros turistas chegam e cruzam comigo no caminho por onde viemos. Eram poucos, afinal, o turismo engatinha na Namíbia. Eu cumprimentava a cada um, desejando boa experiência, como se os agradecesse pela paciência da espera.

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                Piquenique no deserto  


                O sol já ia bem quando chegamos ao estacionamento dos jipes. Havia muitos ao lado do nosso, primeiro a chegar naquela manhã. Passava das dez de um dia que para nós começara às cinco. Entramos e tomamos nossos lugares e François acelerou, conduzindo bravamente o 4×4, navegando pela areia até o ponto de estacionar sob frondosas acácias. Não chegou a ser uma aventura épica, apenas um caminho cascudo para um lugar bonito.

                 Sombreado e diferente do charco seco e morto que havia pouco acabáramos de deixar, o lugar onde faríamos nosso piquenique não era sem vida, havia folhas e pássaros nas árvores, mas rodeado da mesma sucessão de dunas pequenas e enormes, de leitos de rios secos e lagos idem, troncos de árvores caídas e restos de galhos ressequidos, da mesma beleza inconfundível daquele museu natural vivo ao ar livre.

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                Sem reagirmos às nossas veias exploratórias, nos entregamos novamente ao desconhecido, guiados por Haroldo, o que é fácil  quando um grupo de gente gosta das mesmas coisas e sabe que está ali pra aquilo.

Em vinte minutos podem voltar, diz François. É o tempo que preciso para o preparo de nossa refeição no deserto e afino meu violão. Enquanto estiverem comendo tocarei e cantarei uma canção em damara, a língua dos cliques.

          Haroldo nos leva para a caminhada e explica aspectos da língua damara:

A Namíbia, apesar da baixa taxa populacional, tem diversificada etnia. Cerca de 70% da população pertence aos povos banto – como os ovambo e herero – mas há os khoisan e outras minorias como os damara, os nama, os san, os caucasianos africânderes, alemães e indivíduos de sangue misto, conhecidos como “de cor”. Os nama e os san falam línguas semelhantes, parte do grupo caracterizado por três diferentes formas de “cliques” consonantais e vogais. Os sons são produzidos por estalos da língua, nos dentes de cima, nos de baixo e nos do lado. Os “cliques” são usados em outros idiomas tribais, sendo mais conhecido o dos bosquímanos(*), de Botswana, aquele povo do filme “Os deuses devem estar loucos”(**).

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              Incrível caminhar naquele lugar amplo, com horizonte imenso, lotado apenas por nós. Nada ou ninguém para esbarrar. O ar estava mais seco, me incomodava o nariz ressecado, mas me sentia bem ali, onde não se precisa esperar a chuva passar, porque simplesmente não chove, uma das razões porque goste tanto de desertos.

              A região, geograficamente, era um estímulo para minha memória, trazia de lá as lembranças do que me prendia nas aulas de geografia em tempos de ginásio. Estávamos no Kalahari, deserto da África Austral que abrange partes de Angola, do Botswana, da Namíbia e da África do Sul. Ali, na área do Namib Desert – quase idílico, com dunas de areia iguais aos do Sahara e vastidão a perder de vista e da imaginação. Na língua khoisan, seu nome significa “lugar vasto e desolado”. Vasto é, perfeitamente. Desolado nem tanto, porque embora dominem a areia e as dunas – espetaculares na forma e no tamanho – há  encostas e planícies, lagos intermitentes, rios e vales em constante transformação pela ação do vento. E plantas e animais, vários deles. Dizen ter mais de 55 milhões de anos, o que faz dele o deserto mais antigo do mundo. Era neste lugar que eu pisava e assim me sentia, desprezível em minha insignificância, enorme no encantamento. O estado se justificava: eu estava absorvido pelo deserto mais encantador que já conhecera.

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                     Eu me sentia tão membro do deserto e identificado com a Namíbia quanto não seria natural esperar numa viagem que estava longe da metade. Aquele era um sinal venturoso, pois não ter saudade da minha cama ou pensar em casa e na vida me fazia bem. De certa forma, um conflito que viajantes experimentam, quase inerente às viagens. Eu mesmo, inúmeras vezes, sinto que “metade de mim é partida, a outra metade saudade”. (Oswaldo Montenegro).

Lekker dag!, Bom dia, diz François em africâner ao nos receber de volta ao nosso lugar à sombra. O dia recomeça agora, com esta refeição que preparei para vocês enquanto desbravam nosso país, Land of the Brave!(***), concluiu ele.

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            Sobre uma grande mesa de camping para seis pessoas, arrumados caprichosamente, havia pratos, talheres, copos e comida. No fogão de uma boca, montado sobre uma bancada de armar, uma panela com ovos cozidos e outra com bacon frito. Pão de forma, yogurte, queijo, presunto, chá, café e salada de frutas. Até geléia. Uma lixeira, uma pia com água e cadeiras de lona completavam o ambiente montado por François. Faltava pouco para eu morrer de fome e nessas horas ela nunca me deixa com cerimônias. Então, na boa, fui o primeiro a me entregar sem dó ao que havia e o último a largar os talheres.

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Vou cantar para vocês uma das minhas canções favoritas na língua damara, disse François com seu reluzente violão negro piano e marrom.

            Terminada a refeição, bêbado de café, encantado com o violão e a voz afinadíssimos, pela canção que eu não entendia a letra, mas sabia ser romântica e me fez lembrar histórias de amor, de desamores e decepções. Mas passarinhos, dezenas deles, tentando entrar na “pia” para banharem-se, me trazem de volta ao que é bom. Que criaturinhas espetaculares aquelas! Eu olhava pra eles com certa inveja de uma vida tão simples, pensando na proporção descomunal e tão descompassada entre nossos mundos. Foi um momento precioso e delicado, desses que só a magia das viagens e caras cinco estrelas como François podem nos proporcionar.

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                  Desmontada a mesa, guardada a bagagem no jipe, já era de tarde quando tomamos o rumo do Cânion Sesriem, criado pela erosão do rio Tsauchab. E, depois, para um lugar em que o rio Tsauchaub atravessa a estrada de asfalto – na altura no km 22 – onde a grande Duna 1 nos esperava para uma rápida exploração e uma deliciosa seção de fotos do belíssimo crepúsculo. Ao sabor de vinho rosé.

Orix blog


(*) Os Bosquímanos, palavra que deriva do inglês bushman, ou “homem do mato”, é um povo ameaçado de extinção. Ao menos cultural. Para os primeiros antropólogos que os estudaram, foram considerados fósseis vivos, elo perdido na evolução da humanidade entre hominídeos e humanos, parecidos fisicamente com pigmeus, tanto na estatura quanto na cor da pele.

(**) Os deuses devem estar loucos Uma garrafa de Coca-Cola jogada de um avião faz os nativos acreditarem que é um presente dos deuses, o que ocasiona uma série de confusões e brigas. Então eles decidem devolvê-la aos deuses, escolhendo um dos nativos para a tarefa.

(***) Land of the Brave! “Namibia, Land of the Brave” é o hino nacional do país, adotado oficialmente em 1991, um ano após sua independência.


Continuamos juntos? Próximo capítulo:

O Cânion Sesriem e o Crepúsculo na Duna 1

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2 comentários em “NAMÍBIA – Capítulo 3 – Piquenique no deserto sob acácias espinhosas”

  1. Arnaldo, lendo esse capítulo percebo mais uma vez sua paixão em escrever. Você demonstra muito bem como essa viagem ficou marcada em sua vida e que a Namíbia é um país que merece ser visitado.
    Obrigada por compartilhar François cantando sua linda e doce canção, esse momento singular realmente deve ser visto por todos. Eu não poderia deixar de elogiar a qualidade das suas fotos, são lindas. bjos

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