NAMÍBIA – Capítulo 6 – Do deserto à costa, pelo deserto

                     Eram sete e meia da manhã quando deixamos o lodge e o grande mar de areia, o Deserto Namib. O sol já começava quando uma pequena manada de gnus que vive nas proximidades atravessou a estradinha de cascalho da propriedade. Iam ao poço para beber água. François respeita o momento: pára o jipe, desliga o motor. Fica uns segundos em silêncio, vira-se para nós e nos saúda entusiasmado.

– Hakuna Matata. Bom dia, vocês são bem-vindos!

Sentado no banco dianteiro esquerdo, percebendo que todos pegam suas câmeras, Haroldo nos orienta:

                     – A luz é pouca. Ponham mais ISO e velocidade.

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                     O Blue wildebeest parece um grande antílope com chifres de gado. Ou com um bisão de ombros desproporcionais. É um belo animal de cara preta, chifres curvos e pontudos, um perigo para predadores. E a barba, pendendo do queixo, torna aquele animal, além de personalíssimo, o ícone das grandes migrações africanas. Fotografo como se fossem os últimos. Afinal, na natureza, todo momento é fugaz, por mais que se repita amanhã, todavia jamais será igual.

– Hoje iremos para a costa pelo deserto, passando por Solitaire, um vilarejo com a “melhor torta de maçã da Namíbia”. Mais adiante, cruzaremos o Trópico de Capricórnio e, uns quilômetros depois, veremos as raras árvores kokerboom – ou Aloe vera. Em Walvis Bay chegaremos no começo da tarde e comeremos num restaurante sobre um píer na baía.

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Solitaire ____________________________

            Uma hora depois, já na C14, estrada de asfalto, um belíssimo órix parece posar para nós. Disparamos fotos, com o carro parado, para registrar aquele encontro venturoso, uma despedida especial. Vinte minutos mais e chegamos a Solitaire, um oásis no deserto, única paragem de combustível entre Sesriem e Swakopmund.

Este é o lugar onde se compra a “melhor torta de maçã da Namíbia”, na Solitaire bakery, diz Haroldo assim que descemos do carro.

Teremos tempo para comer?

Não. Vou comprar para comermos mais adiante.

                A explicação ficara por ali, anulando minha vaga vontade de comer escondido a torta de maçã, que por certo seria acompanhada de um espresso(*).

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                Uma curiosa, esquecida, desértica e pitoresca vila na junção das estradas C14 e C19. Sob o mesmo céu sem nuvens e na terra ressequida. Mas um lugar surpreendente, de parada obrigatória para abastecimento de combustível, até mesmo para nosso jipe com dois tanques. Postos de gasolina são extremamente raros. O mais próximo dali fica em Maltahöhe, a166 km de distância, ou em Walvis Bay, a 232 ou, em sentido contrário, de onde viemos, em Sesriem, 83 km. Geograficamente, a leste ficam as montanhas, a oeste as dunas litorâneas, ao redor, deserto. Um posto de combustível, banheiros, uma lanchonete com café espresso, um lodge, carros antigos enferrujados e decrépitos, dos anos 50 e 60, largados propositalmente na entrada da vila, formam um cenário fotogênico. O lugar tem banheiros limpos – pelos quais se paga um dólar namibiano para o uso – a McGregor’s Bakery, em honra do falecido fundador, Percy McGregor, com variedade de bolos, tortas e café, além da strudel de maçã, dita a melhor da Namíbia e, finalmente, um armazém geral onde se pode abastecer o estoque de água, refrigerantes e cerveja e outros itens como recordações de viagens, de ímãs de geladeira a camisetas.

           O clima é extremo. Um pequeno quadro negro registra o que marcou o pluviômetro local. Em fevereiro, 0,5 mm! Em 2017 inteiro, 116 mm, 50 a menos do que chove só mm mês e dezembro no Rio de Janeiro. Os dias de verão são secos e áridos, com temperaturas para além dos 40C e noites de inverno que podem registrar 0C.

O Trópico de Capricórnio _________________________

            É uma linha imaginária, todos sabem. E assim, de mentirinha, atravessa continentes, países e oceanos. Na Namíbia, uma placa indica o lugar por onde passa. O Trópico de Capricórnio, assim chamado porque a constelação de Capricórnio ergue-se acima dele no solstício de verão, é um dos cinco principais círculos de latitude. Marcado por uma placa desgastada, na estrada C14, entre Solitaire e Walvis Bay, todos os turistas que por ali passam, fotografam-se sob ela. Como bons turistas, fizemos o mesmo, nos registramos na foto mais manjada de toda a Namíbia.

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A melhor torta de maçã da Namíbia _____________________

             Virou atração turística e você não sairá desapontado ao prová-la. Pode não ser a melhor do mundo, mas da Namíbia, merece a colocação. Comemos a nossa num Picnic Spot and Viewpoint(**) da estrada C14, no ponto em que ela começa a descer para a costa. Paramos ali para esticar as pernas e ver as curiosas quiver trees, ou kokerboom (Aloe dichotoma), árvore nativa do sudoeste da África, vulnerável à extinção, motivo porque são protegidas essas parentes da nossa conhecida babosa. Atingem até 9 metros de altura e podem viver cerca de 400 anos. As folhas são suculentas e têm a mesma gosma da babosa, ou aloe vera, ingrediente usado no Brasil na preparação de cosméticos.

As solitárias kokerboom __________________________________

           A característica mais evidente das quiver trees são o tronco grosso, sua casca fissurada por rachaduras, que se afila até o ponto onde ramifica e se espalha em galhos para formar uma coroa arredondada de ramos de folhas. Suculentas e pontudas, daí seu nome quiver (lança ou flecha). Encimados por uma flor amarelada, seca àquela época, ainda proporcionando um contraste vívido contra céu azul claro, no verão fornecem néctar aos insetos, pássaros e babuínos. Ela prefere ambiente quentes e pedregosos, como o daquele terreno em que estávamos. São árvores que ocorrem isoladamente, embora haja uma pequena floresta delas, em Keetmanshoop, parque nomeado monumento nacional namibiano, além de atração turística.

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              Tiramos fotos das árvores solitárias e do belo panorama, o espetacular vale no ventre do deserto. Uma estrada de terra, linha reta que morre no horizonte, por onde carros passavam levantando poeira de partículas tão secas e leves que turvavam o céu. Comemos a deliciosa torta de maçã antes de partirmos para o destino final, Walvis Bay, a uma hora e vinte dali.

Notas do autor

(*) Espresso vem do italiano, tem relação com o verbo latino expressus, particípio passado de exprĭmĕre, que significa entre outras coisas “apertar com força, comprimir, espremer, tirar de, arrancar”. Em português, esse verbo latino originou exprimir, espremer e, por extensão de sua forma nominal, expressar. Não há registro de espresso nos dicionários de língua portuguesa. Já expresso significa rápido, mas um café “espresso” significa o café “espremido”, feito sob pressão. Consequentemente, espresso deve ser aceito, segundo especialistas, porque nosso vocabulário aceita palavras estrangeiras. Por outro lado, não errado dizer expresso, porque de fato o café espresso (ou espremido) na máquina fica pronto em poucos segundos, rápido, portanto, para ser expresso.

 (**) geo coordenadas -23.310530, 15.511018

Orix blog

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Continuamos juntos? Próximo capítulo: 

Walvis Bay – Pelicanos, flamingos, focas e chacais

_NIK3979 blog

 

 

Um comentário sobre “NAMÍBIA – Capítulo 6 – Do deserto à costa, pelo deserto”

  1. Arnaldo, vejo que foi mais um dia de viagem emocionante , pois ter a oportunidade de tirar foto perto da placa que indica que ali passa o Trópico de Capricórnio, mesmo sendo uma linha imaginária deve ter sido uma experiência incrível! Também fiquei curiosa para experimentar essa famosa torta de maçã. Aguardando o próximo capítulo.

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