NAMÍBIA – Capítulo 7 – Walvis Bay. Onde o deserto encontra o Atlântico.

Pelicanos, flamingos, focas e chacais

                 Não era um céu ameaçador, mas nublado. No mais claro tom de cinza, cor que pintava a cidade, a baía e também meu olhar. Cheguei assim ao lado Atlântico da Namíbia, marcado pela frieza da paisagem e certa melancolia rondando meu estado-de-espírito. Em maior conta, culpa minha; em menor, pelo ensolarado e multicolorido deserto, que me viciara o olhar.

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                  Sossusvlei, havia pouco, ficara para trás, com seus intensos, variados, quentes tons cor de tangerina ainda marcando a viagem e meu olhar, acentuavam minhas expectativas do encontraria em Walvis Bay. Então, natural que o sinistro contraste entre ar marinho e do deserto, para o qual eu não estava preparado, resultasse falta de empatia e, provavelmente, desapontamento. Assim estreei meu encontro com a cidade. Dali em diante, supondo que não passaria de mera pousada, insossa estada, obrigatória entre o último e o próximo destinos. Seria, então esperar, resignado, pela manhã seguinte e nada mais? Pensar apenas na jornada ao Parque Nacional Etosha?

               Guardo a dúvida e não penso mais no assunto, uma atitude de auto-indulgência, a minha própria disposição de perdoar minha culpa pelo eventual erro da avaliação de uma Walvis que eu mal conhecera. Reflito resgatando meu bom-senso, reconhecendo, todavia, que pré-julgamentos e expectativas exageradas nunca terminam bem. E que na Namíbia não há lugares chatos, viajantes, sim.

            Desço do carro e vou a uma banca de artesanato próxima. Banca, não, lona. Estendida no chão, sobre ela estavam animaizinhos artesanais africanos, esculpidos em madeira, meio toscos, em três tamanhos cada, à espera de adoção por turistas, mediante, claro, pequena quantia. Me interesso por dois: um pequeno o órix e uma girafinha. Pego-os e com a proximidade dos olhos percebo que são ainda mais rústicos que de longe. Mal ficavam em pé, mas os imaginem encostadas nos guias de viagem de uma estante que mantenho num quarto em minha casa. Junto a mapas, fotos, livros, Atlas e pequenas lembranças como aquelas, são meu mundo de recordações viagens, meus “imãs de geladeira”. Ficariam bem na seção africana, defronte aos guias Bradt e Lonely Planet da Namíbia. Olho de novo para a lona e me interesso por um pequeno elefante. Pergunto se acompanham as presas, já que os expostos tinham apenas seus orifícios ao lado das trombas. Ante a afirmativa do vendedor, pago o total acertado para as três peças, sem regatear. Ele se vira, quebra dois palitos de fósforos, retira-lhes a cabeça incendiária e os enfia no lugar dos marfins. O paquiderme sai de graça. Olho embaixo do elefante procurando “não acompanham presas”. Nada encontro e rio da tentativa esperta, mas ingênua, de me ludibriar. Ameaço devolver os três animais e desistir da compra.  Pago o valor de dois e o elefante sai de graça. Com os fósforos!

                Corro em direção ao grupo, que ia adiante e entrava no The Raft Restaurant, onde se entra por uma ponte de madeira. Um lugar pitoresco, sobre palafitas, no píer da lagoa de Walvis. Almoçamos frutos do mar, carne e legumes, com vistas para a baía, pelicanos e flamingos. Frequentado por famílias, havia muitas crianças encantadoras. Sendo crianças, fazendo algazarras controladas. Eram todas branca, com carinhas de holandesas. Não havia um só negro. Estranho aquilo, me recordo vagamente de ter lido acerca do apartheid na Namíbia, resolvo não me alongar no pensamento para não acentuar meu desencanto com Walvis. Começo a comer e a fome a ser saciada pela boa refeição. O cardápio tinha aparência de fast food, mas havia opções de carne de caça, entre elas a de avestruz, cabra-de-leque e órix, além de as aves, crocodilo e frutos do mar como “kabeljou”, cavaquinhas e ostras.

             Meu estado-de-espírito melhora com o sol começando a aparecer entre as nuvens. Ainda era nublado, mas claro.

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                     Na mesa ao lado, um sargento fuzileiro naval da Marinha do Brasil, nos ouvindo falar português, aproximou-se e “matou as saudades” do nosso país conversando acerca da missão de cooperação no desenvolvimento da Marinha da Namíbia, iniciada na década de 90 pela brasileira. Disse que desde então houve uma série de intercâmbios e cursos ministrados em território brasileiro. Falou de seu orgulho e honra por integrá-la e que o Brasil vendera à Namíbia dois navios. Soubemos que a Marinha mantém, desde 2009, um grupo de assessoramento técnico no país. Mais tarde, já no Brasil, soube que o comandante da missão, Sérgio Lomba, é cunhado de uma amiga. Mundo pequeno!

                   Terminamos o almoço e caminhamos pelo vizinho Walvis Bay Waterfront, onde vimos flamingos levando boa vida às margens da lagoa, agradados pelo sol que começava a se mostrar, animando a cidade portuária, moderna, britânica, próspera, com casas ótimas e mansões de frente para a baía. Penso que deva ser cidade boa de morar.

              Estrategicamente importante, Walvis tem indústria de pesca liderando a economia. A cidade foi descoberta pelo ocidente em 1487, quando o navegador português Bartolomeu Dias ancorou ali sua caravela em busca de uma nova rota marítima para o Oriente. Em 1793, os holandeses fincaram ali uma bandeira, tendo logo os britânicos tomado o controle, assegurando a passagem dos navios de sua majestade, permanecendo ali até 1878. Em 1910, assim como todo ao país, Walvis – como é chamada carinhosamente pelos locais – foi incorporada à África do Sul.

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                   Como atração turística urbana, a cidade perde para Swakopmund, bem mais bonita e atraente., contudo sem ser tão conveniente para quem vem do deserto – o parque Namib Naukluft – e que se dirige ao Parque Nacional Etosha. Em termos de animais e natureza, também. Tem centenas de milhares de flamingos e pelicanos, o surpreendentemente Pelican Point, parque de proteção ambiental onde se podem ver focas. Algumas sendo comidas por chacais.

                 Pegamos a estrada de asfalto que beira o mar, também desolada e que passa por uma refinaria de sal, tudo muito portuário e frio. Nossa chegada à cênica Pelican Point Peninsula – com as praias do Oceano Atlântico de um lado e a lagoa de Walvis Bay do outro – foi um alento. Uma estreita faixa de areia que separa a calma lagoa do poderoso Atlântico, com boas oportunidades de atolar, mesmo um 4×4, e fotográficas de focas – as estrelas – e chacais, seus predadores, além de corvos-marinhos, gaivotas, pelicanos, andorinhas e, com sorte e um bom binóculo, golfinhos. Mais sorte ainda, baleias, comuns naquele mar, contudo não tão próximas da costa.

Pronto, Walvis estava “salva”, embora por uma atração 32 quilômetros distante.

Pelican Point ________________________________________

                    Talvez, digamos num sentido mais poético, ver bicho comendo bicho vivo não seja um programa muito doce. Especialmente aquelas fofuras, os filhotinhos de focas, ainda que seu cheiro desagradável fosse mero detalhe, preço pequeno a pagar por uma visita tão incrível. Não é fácil a vida daquelas criaturas. Um em cada quatro filhotes nascidos ali morre no primeiro ano de vida. De fome e vítimas de chacais. Em plena luz do dia, eles nem precisam esperar a noite para caçá-las.

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              Nunca imaginei encontrar um grupo tão grande desses carnívoros com nadadeiras e cara de cachorro. Os filhotes ficam por ali, em grupo, tipo num parque infantil, enquanto suas mães vão para o mar se alimentar e seus pais ficam em terra se matando por espaço territorial de reprodução. Precisam dele para seu harém com até 30 fêmeas. Os infantos, ingênuos que só, ainda não saem da areia firme para a água e suas mães não têm lá muito tempo e paciência para ensiná-los a cuidarem de si mesmos.

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              Os chacais sabem disso. Os que vivem ali são os de dorso negro, ou Canis mesomelae, canídeo de corpo longo e estreito, pernas finas e orelhas grandes e triangulares. Espertos, esperam os bebês foca solitariamente se aventurarem areia adentro. Embora pareçam inofensíveis vira-latas, são selvagens e agressivos, especialmente quando em busca de alimento. As Focas do Cabo, ou Cape Fur Seals (Arctocephalus pusillus pusillus), uma das nove espécies do planeta, são endêmicas da África Austral, e têm colônias na costa da Namíbia e da África do Sul. Têm orelhas externas, que outras parentes não. E não migram, ficam por ali a vida toda.

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                No farol que orienta navios na aproximação noturna porto de Walvis desde 1915, hoje há um lodge num prédio anexo, com vistas panorâmicas para o mar (quando o nevoeiro permite) e para o banquete dos chacais.

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Pelicanos e Flamingos ___________________________________

                 Pelicanos são grandes aquáticas aves da família Pelecanidae, caracterizados por seu longo bico e a grande bolsa na garganta, usada para capturar presas e drenar a água do conteúdo recolhido antes de engoli-la, têm plumagem clara, com algumas penas negras, cinzentas, castanhas ou róseas. O bico, a bolsa e a pele facial adquirem cores vivas na época reprodutiva.

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                Walvis Bay Lagoon, é sinônimo de flamingos e um lugar encantador, especialmente à tarde até o pôr-do-sol. Uma das maiores belezas desta parte do país, a mais antiga lagoa na costa da Namíbia, refúgio seguro para mais de 150.000 aves, estação de alimentação temporária para mais de 200.000 aves marinhas e andorinhas que migram para ali de dois em dois anos desde o Ártico. Até 90% de todos os flamingos sul-africanos passam o inverno no lugar e dependem da lagoa para sua sobrevivência. Apesar disso, fatores naturais, como o assoreamento da lagoa, pela areia soprada do deserto, e externos, como a construção de habitações e de salinas, contribuem para seu futuro incerto, o que significa a possibilidade de seu desaparecimento.

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                     Ali terminamos o dia ao pôr-do-sol. Eu gostaria de apenas com a escrita poder transportar o leitor para fazê-lo sentir a beleza daquele poente tão ousado, que tingia tudo à vista nos tons da paleta de cores entre o vermelho e o amarelo. Não me lembro de outro tão belo, nem mesmo no país, onde, parece, a bola incandescente reserva um jeito arrasador de se despedir ao deixarem espaço para estrelas e a lua. Coisa de porta-retrato, com sorte, também com direito à silhuetas de pássaros cruzando o astro rei se refletindo esticado na água. A escuridão tomava o céu e encerrava magnificamente o dia.

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Orix blog

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Continuamos juntos? Próximo capítulo:

Okaukuejo – O Parque Nacional Etosha

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O órix e o elefante sem presas

7 comentários em “NAMÍBIA – Capítulo 7 – Walvis Bay. Onde o deserto encontra o Atlântico.”

  1. Mais um dia incrível dessa viagem muito bem retratada nesse post. Fiquei imaginando como esse lugar encantador repleto de flamingos , pelícanos e focas perde um pouco do seu encanto com cenas de bicho comendo bicho vivo, apesar de saber que isso faz parte da natureza, não gostaria de ver. Como em quase todas suas postagens você nos presenteia com lindas fotos e em especial nessa com esse lindo pôr do sol. Parabéns!

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  2. Uau!! Que combinação de fotos e relatos!!! Regozijo ao grau máximo é proporcionado ao leitor que sente-se como se tivesse vivenciado os momentos e situações narrados nesses sete capítulos. Sigo aguardando veementemente o próximo capítulo que se dará no noroeste da Namíbia e que, se sortudos formos, nos presenteará com fotos do ameaçado rinoceronte-negro…

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    1. Obrigado, Reinaldo, pela visita e comentário. Sobre os rinocerontes negros, os vi à noite no lago bebedouro junto à pousada. Não consegui tirar fotos, mas verei se algum companheiro de viagem, ou o Haroldo, me emprestariam uma. Abraço!

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  3. Uma dúvida,e quanto ao conteúdo do blog antigo?
    Confesso que vez ou outra revisitava seus relatos, inclusive me ajudaram nas viagens que minha esposa e eu fizemos.

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    1. O conteúdo do blog antigo será importado e editado, de tal maneira a serem resumidos aqui neste, se for possível e quando for. Obrigado pela visita. Mas se precisar tirar dúvidas, e eu estiver apto a fazê-lo, por favor, pergunte aqui.

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  4. A Namibia é muito surpreendente. A Walvis Bay é um cidade é bem tranquila para se morar. Existem muitas paisagens bonitas por aqui. Sempre que podemos Sergio e Eu fazemos passeios. De carro 4×4, de bicicleta, fat bike e algumas vezes a pé mesmo. No verão temos muito pores-do-Sol esplêndidos.
    Você deveria ter feito o passeio a Sandwich Habour. Lá há o encontro das dunas do deserto com o mar. É uma beleza de se suspirar.
    Se está a caminho do Etosha, tente ir ao Erindi. Lá tem um hotel confortável e um water hole em frente ao restaurante, onde vemos muitos animais. É o lodge que eu mais gostei daqui. Eles tem game drive, que são bem legais.
    Prepare-se para o frio pela manhã e a noite no Etosha. Se for fazer game de carro aberto prepare-se mais ainda.
    Espero que aproveite ao máximo sua viagem.
    Abraços
    Giannina

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