ÍNDIA, AGRA- NA OUTRA MARGEM DO RIO

Cinema Paradiso [Love Theme] by Pat Metheny and Charlie HadenBeyond the Missouri Sky (Short Stories) 1996

Ainda era manhã cedo no Mehtab Bagh. Não mais madrugada, quando estivéramos no Taj Mahal, contudo logo depois disso. Ali, do outro lado do Rio Yamuna tem-se uma vista incomum e a possibilidade de um Taj só para si. E assim foi. Quero dizer, praticamente, pois se bem me recordo, além de nós havia dois felinos pingados, vacas pastando, um bando de pardais e um casal de jovens a quem atrapalhamos o namoro. Sem intenção, mas quebramos – e, pior – talvez irremediavelmente, o encanto daqueles olhares apaixonados, da troca de sorrisos cúmplices e até dos suspiros que atravessavam a cidade. Ignoravam o mausoléu dando-lhe as costas, seu único pecado, é bem verdade. E com justa razão não devem ter feito de nós um bom julgamento, embora apenas eles, os astros e Shiva saberiam dizer o que pensaram de nossa interferência naquele jardim perfeito, em seu momento no único pedaço sossegado, vazio e desocupado de gente e de turistas nas proximidades de Agra. Ainda por cima com vistas para o Taj Mahal, o monumento ao amor eterno.

Os namorados, de costas para o Taj Mahal…

Mas já era tarde, estávamos ali onde nem as buzinas da cidade chegam, embora sim os murmúrios dos turistas lá no belíssimo, icônico mausoléu do amor eterno de Sha Jaham por Mumtaz Mahal. O lugar é simples, embora surpreendente, tanto que dele trouxemos a segunda mais bela recordação de nossa visita do Taj Mahal. Só para nós e o casalzinho.

Do outro lado do rio, como vimos o Taj Mahal…

Seguimos em frente com celeridade em direção ao rio e ao que nos interessava, caminhando por uma aleia rodeada de árvores verdes e bem cuidadas, pequenas e de copas bem aparadas. Chegamos às proximidades da margem do rio e pudemos avistar os contornos, não todos os detalhes, com a nitidez que o céu indiano permite, e o pedestal elevado do mausoléu.

Ainda sob a intensa névoa que marcara aquela manhã, misturada então à poluição atmosférica indiana, o monumento permanecia fabuloso, quase igual ao que eu conhecera antes daquele mesmo ângulo em fotos magníficas vistas na Internet, provavelmente porque eu o avistava não como enxergam os olhos, mas um sentimento..

Do outro lado do rio, como na Internet vimos o Taj Mahal…

O lugar pouco conhecido pertence ao lado B turístico de Agra, é raramente visitado e para ali vão apenas os que procuram além do óbvio e do conforto. Muitos não imaginam a esplêndida vista e as experiências marcantes que se podem viver ali, embora nem seja de fato preciso, pois o Taj Mahal é lindo observado de qualquer ângulo.

Concebido para ser apreciado à luz da lua, o antigo jardim público em estilo indo-persa foi desenhado com base nos quatro jardins do Paraíso do Alcorão. O rio Yamuna, importante afluente do rio Ganges, no Inverno não parece um rio, senão um arroio, e sabendo tratar-se de um caudaloso curso d’água na época das monções, é chocante vê-lo como a cloaca da cidade. Pilhas de lixo às suas margens assoreadas, vez por outra desgarram-se para preguiçosamente seguirem seu curso até a morte num ralo final. Ali já não não se encontra mais a fileira de templos, cujo único restante hoje está à beira a ruína.

À beira do Yamuna, o que restou dos pequenos templos do no o Mehtab Bagh

Enquanto eu observava, tentava conceber o lugar e o rio em seus tempos originais – do imperador e de sua amada – magicamente como os supunha, sob uma atmosfera esplêndida de contos islâmicos, um lugar romântico, encantador, bonito, sereno e apropriado às fantasias.

Curtimos bastante o breve momento que passamos no jardim, mas naquela altura eu só desejava o café da manhã. Retornamos ao hotel para o merecido desjejum de um dia em que despertamos às 5 da manhã para a visita ao Taj Mahal ao nascer do Sol. E ainda havia muito o que visitar em Agra.

Voltamos pelo mesmo caminho e passamos pelo mesmo casal. Observei-os de viés e provavelmente eles a nós. Meu pensamento era um só: de desculpas. “Nos desculpem por termos feito aquele pouquinho de sua vida parar de ter graça, porque só quem não sabe o gosto de namorar, não conhece o prazer de namorar escondido.”

Namastê!

4 comentários em “ÍNDIA, AGRA- NA OUTRA MARGEM DO RIO

  1. Como sempre, encantando os seus leitores e amantes da excelente fotografia. E, claro, os amantes de viagens e de toda a história de cada lugar por onde você passa, Arnaldo. Estou quase arriscando dizer que os lugares que conhecemos de livros, de internet ou de programas de tv não são os mesmos depois que você passa por eles. Seu olhar cuidadoso e a forma como nos presenteia com os detalhes tão bem descritos nos torna seus companheiros de viagem. Muito obrigada!

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  2. O que dizer senão concordar com os comentários acima. Seus textos para mim nunca foram meros posts sobre viagens e lugares, mas sempre algo mais íntimo e intenso, que só alguém com um olhar sensível e atento poderia descrever.
    E claro, sempre acompanhado de belíssimas fotos e linda música que nos fazem viajar durante a leitura.

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  3. De todos os passeios de Agra, esse foi o mais diferente. Nada se compara ao complexo do Taj, claro, mas vê-lo de um ângulo diferente dá uma sensação de intimidade com essa maravilha do mundo. Obrigado por este relato sensível e pela oportunidade de ser o nosso guia na mais inesquecível das viagens.

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