Enquanto hoje começo a planejar o que levar nas malas, mergulho na memória e relembro como nasceu esta viagem. Cada jornada tem sua gênese peculiar, e entre as muitas possibilidades, esta se originou na simplicidade de um e-mail. Ele trazia consigo uma aura instigante: “Confirmação de datas, inscrições abertas: Expedição África do Sul, setembro de 2023. Uma experiência totalmente independente, 18 dias explorando esse incrível país.” Os remetentes eram Robert e Grace, da Overlander.
A atração que a mensagem exercia em seu resumo era indomável: “de safaris na reserva Sabie Sand a um dos pontos altos da Garden Route – a cidade à beira-mar de Knysna – da degustação de vinhos na pitoresca Franschhoek à beleza da Cidade do Cabo”. Pronto! Num estalar de dedos a apresentação me levou a mergulhar no programa, embora o texto guardasse surpresas e enigmas: “Entre em contato para desvendar todos os detalhes”, sussurrava o convite final. A provocação culminava na descrição de “uma jornada única, cruzando o país em veículos 4×4”. Era um chamado, especialmente para nós, apaixonados por incursões motorizadas e aventuras que desviam dos caminhos previsíveis. Tanto que meus sentidos não podiam rejeitar.
Confirmada a disponibilidadecom minha esposa, prontamente escrevi à Grace. Sua resposta veio mais subitamente ainda: “Agradecemos seu interesse na Expedição África do Sul. Anexamos informações abrangentes sobre a viagem, uma oportunidade de explorarmos as regiões e locais da África do Sul mais populares internacionalmente, mas também alguns pouco visitados, além de redescobrirmos lugares eventualmente familiares ao viajante, contudo sob nova perspectiva.”
Guiados pelo casal, viajaremos em grupo, 8 no total, com 19 brasileiros, cada um conduzindo sua própria picape 4×4, atravessando cidades animadas, paisagens diversas, biodiversidade extraordinária e com histórias cativantes. Além disso, o mês de setembro coincide com a primavera, quando o clima é agradável e mais quente que o europeu.
Das Planícies às Montanhas, do Mar à Cidade
Apenas oito horase meia de voo direto separam o Brasil da África do Sul, pela TAM, futuramente também pela South African Airways ressurgida das cinzas. Contudo, hoje, a dez dias de pôr os pés no solo sul africano, esse tempo parece uma eternidade. Uma vez lá, por quinze dias atravessaremos a África do Sul em 3.500 km de estradas pavimentadas e não.
Guiados por Grace e Robert, nos hospedaremos em hotéis e pousadas charmosas, cuidadosamente selecionados, começando pela cidade de Dullstroom, a 200 km de Johannesburgo, depois passando por lugares espetaculares, como o o Blyde River Canyon, o Parque Nacional Kruger, a reserva de Sabie Sand, as Montanhas Drakensberg, o Great Karoo, o Parque Nacional Addo, , a Rota Jardim, Plettenberg Bay, Knysna, a Região dos Vinhos,em Franschhoek, a Cidade do Cabo, o Cabo da Boa Esperança e a Table Mountain.
Cada dia de jornada será marcado pela atenção meticulosa de Grace e Robert aos detalhes, desde as oportunidades de aventuras até as refeições especiais e das hospedagens selecionadas, tornando cada experiência marcante, inesquecível e segura. Enquanto espero o momento da partida, navego entre as lembranças da jornada anterior – ao Quênia e Tanzânia, em fevereiro último – e nas expectativas para esta, que compartilharei aqui suas diferentes etapas.
Nos separamos faz tempo. Meujeito de descrever as coisas numa viagem e a falta de humor já não habitam o mesmo teto há anos. Incompatibilidade de gênios mesmo. Meu gosto de narrar apenas seus prazeres – porque, afinal, têm sido bastante mais numerosos e relevantes – já não convivia bem com o mau humor, os contratempos com qualquer coisa. E tem mais. Já venci o horror de parecer com os que apoiam tudo, gostam de tudo indiscriminadamente e nunca deitam o sarrafo quando precisam. Frustrações? Apenas se necessárias. Prefiro não as descrever ou, então, as relatar com parcimônia.
Foi assim a primeira vez que avistei a Cratera Ngorongoro. Embora de tirar o fôlego vista assim do alto, parecia o céu no chão. Sem graça para um chão, sei lá. Quem esperava encontrar a Arca de Noé, a primeira visão de um chão liso e descolorido, quase estéril, manchado por lagos com não mais que dois ou três tons de verde, de uns meros sinais de exemplares da vida animal percorrendo a imensidão, não parecia tão exuberante, desde o mirante Crater ViewPoint.
Mas eu sabia:a beleza de um lugar – para se entender – tem que se saber que não é só o que se vê, senão um pouco mais: o que os olhos não conseguem perceber…*[1]
Sei lá, não sei. A cratera era muito grande, não faltava espaço para abrigar qualquer de minhas explicações a cerca da primeira impressão. Sobretudo porque eu estava com um pé atrás por ser excessivamente turística. Mas era um Patrimônio da Humanidade, afinal, que não é coisa à toa. Formada há três milhões de anos, diz-se que a antiga caldeira abriga hoje um dos mais belos paraísos de vida selvagem do planeta.
Com mais de 20 quilômetros de largura e 600 metros de profundidade, 25 mil animais selvagens – incluindo uma pequena população de rinocerontes negros ameaçados de extinção – e a mais densa concentração de leões do mundo, só de carregar estatísticas assim não era de me admirar que eu pudesse estar equivocado. E mesmo sem me tocar, vista assim do alto, a maior atração da Tanzânia aparentava ser diferente, no ecossistema, de tudo o que já havíamos presenciado desde o Quênia e por todas as partes da Tanzânia. O que não era pouco, embora dali não me aparentasse ser tudo o que se dizia dela. Se prevaleceria lá embaixo minha impressão, só o breve tempo diria. Contudo, não antecipemos o futuro!
Kudu Lodge & Campsite
Do Ang’ata Migration Ndutu Camp ao Loduare Gate – o portão de acesso ao Ngorongoro Conservation Area – foram 16 quilômetros de estrada de terra vermelha e trechos de florestas, muito boa viagem. Depois, já dentro da área do parque da cratera, igual distância até o Kudu Lodge & Campsite, onde tivemos nossa última estada na Tanzânia.
O caminho todo foi bonito, mais verde e úmido que os que passáramos, por entre terras dos pastores maasai, grandes rebanhos de gado bovino, onde vivem em seu modo de vida tradicional e genuíno. A certa altura, paramos à beira da estrada de terra para entregarmos a dois meninos duas caixas com lunch boxes não consumidos. Retribuí o discreto sorriso de um deles e lhes acenei à saída.
O lodge foi ótimo, com piscina que muitos aproveitaram, um SPA com uma surpreendentemente boa massagem, ótimos ambientes, equipe simpática, comida gostosa e uma habitação enorme. E com mata intensa circundando a propriedade, de onde ao entardecer acontecia a maior sinfonia de passarmos que eu já ouvira na vida.
A cratera – Muito mais do que uma cratera
No amanhecer do dia seguinte entramos em nossos 4×4 e descemos as paredes do antigo vulcão a caminho do fundo da caldeira. Tudo estava bem claro e nosso grupo seguia em fila. O percurso até o chão de Ngorongoro já se configurava metade da diversão. Subimos primeiramente para transpor o paredão, depois descemos por trechos de densa floresta em sua borda, com vistas encantadoras. Inclusive do lago salino bem no centro.
Quando chegamos embaixo, o lugar já dava sinais da plenitude de seu potencial. Em vida animal e paisagens. Os pequenos pontos pretos que avistáramos de cima, transformavam-se em formidáveis manadas de búfalos, de zebras e gnus estendendo-se por todo o plano da cratera. E logo, leões!
Gazelas de Thomson, hienas-pintadas, elefantes africanos, uma grande variedade de pássaros, nada de novo, era verdade, de tudo o que já não havíamos avistado em termos de vida selvagem, mas numa paisagem inteiramente nova, que ia mudando à medida que cruzávamos o terreno, de planícies de cascalho às savanas de gramíneas, de pântanos cinzentos às florestas irregulares, de flamingos a pássaros, de poças de água a lagos com hipopótamos.
Não havia girafas, e soubemos que simplesmente porque há pouco alimento para elas – árvores – e porque a borda da cratera é muito íngreme para ser descida por aqueles belíssimos animais. E ali, a vida selvagem parece tão acostumada com os humanos e seus jipes que parecem ignorá-los por completo.
Encontramos esqueletos de búfalos e crânios de elefantes, a cratera se revelando como a parte mais fenomenal de nosso incrível safári na Tanzânia. Fazia tempo eu já reconhecera o privilégio de estar ali, inclusive pela particularidade de assistirmos a uma caçada de uma leoa a uma zebra. Sem sucesso, mas digna de um episódio da National Geographic. Faltou um por cento para o desfecho favorável à leoa.
Muito mais do que minha vista aérea havia enxergado, Ngorongoro tornava-se aos olhos não só uma cratera vulcânica extinta de renome mundial, senão o maior espetáculo de vida selvagem da África, um tapete plano de gramíneas exuberantes e piscinas eternas de água doce, um mundo perdido de ação ininterrupta, uma insuperável exibição de vida selvagem com beleza cênica a emoldurá-la.
Uma “experiência de vida na África”, usando seu clichê mais popular. E mesmo que em certos momentos estivéssemos disputando a cena com dezenas de outros jipes, batendo e pulando em busca do melhor ponto para proporcionar aos seus passageiros a melhor vista de uma caçada, certamente é mesmo a “experiência de safári de uma vida”.
À medida que progredíamos, o show na natureza se mostrava ainda melhor, maior e mais admirável. Nada pode estar mais longe da verdade quando se diz que sempre acontece algo incrível logo à frente, seja da vida animal, seja nas paisagens arrebatadoras. E havia mesmo ação por toda a parte. Em cenas dignas de documentários do Animal Planet.
Em fevereiro, estação das chuvas que ocorrem de novembro a maio, o período é mais seco, mas chove. Não como em março e abril, mas chuvas curtas, e geralmente ao fim da tarde. Como aconteceu naquele dia.
A cratera Ngorongorohavia tempo consagrara-se para mim como parte memorável de toda a nossa jornada. E nem teria sido preciso subirmos uma colina, sairmos dos jipes lá no alto, apreciarmos o fabuloso cenário e depois descermos, sermos parados pela polícia do parque e multados por termos nos afastado mais que 20 metros do veículo. Depois de paga a multa pelo infrator (não revelo seu nome nem morto!), na verdade senti foi inveja de não o ter acompanhado na transgressão.
A minha impressão final? Que se alguém que lá esteve não gostou, o problema não está com a cratera!
Nairobi, o retorno
Às 19:30h do nosso último dia de safari jantamos e preparamos nossas coisas para a longa jornada de volta a Nairobi. Na manhã seguinte nos preparamos para as estradas de asfalto com seus muitos carros, edifícios de pedra e a agitação em lugares como Karatu e Mto wa Mbu, com lojas de lembranças e presentes. Era brutal o choque entre a natureza em que vivemos nos últimos dias e o mergulho nas estradas e cidades.
Na rodovia, fizemos uma parada na região do lago Manyara, lugar chamado Treetop Walkway, onde descemos dos carros para apreciar a vista aérea do lago e de um belo babobá.
A 27 quilômetros, paramos em Esilalei para visitarmos uma aldeia Maasai (leia no post específico, anterior). A visita aos maasai – embora esteja mais para uma armadilha de turistas do que se espera de uma experiência autêntica – valeu a pena.
Noventa e cinco quilômetros depois, chegamos ao Tembo Club onde almoçamos e ouvimos música ao vivo. Seguimos em direção à fronteira com o Quênia, onde ingressamos pelo Namanga Border Crossing. Cruza-se a fronteira com rapidez maior que o tempo de colocarem toda a bagagem do grupo dentro do microônibus. E enquanto ambulantes tentavam nos vender badulaques com uma técnica de vendas quase irritante. Nos despedimos dos motoristas tanzanianos, cruzamos a fronteira e reencontramos nossos motoristas quenianos.
Chegamos em Nairobi, nos hospedamos no mesmo bom hotel, jantamos e nos preparamos emocionalmente para o dia seguinte: uma visita ao Elephant Nursery e ao Giraffe Centre, duas atrações muito mais atraentes para crianças do que para adultos, mas que estes devem comparecer, porque é fundamental sua ajuda para a manutenção deles.
Naquela noite encerraríamosnossa memorável jornada de experiências soberbas, de momentos felizes, de memórias marcantes, de convivências fabulosas e conhecimentos enriquecedores. Era o dia de arrumarmos mais cuidadosamente nossa bagagem e comemorarmos numa churrascaria brasileira, para mais tarde embarcarmos para Addis Abeba a caminho do Brasil. Fora uma jornada inesquecível de safári africano, e de voltávamos para casa felizes e recompensados plenamente em nossas expectativas. Eu estava feliz com o retorno, porque por mais espetacular que seja uma viagem, o melhor é voltar para casa! Sobretudo para planejar a próxima. Até lá!
OBRIGADO!
[1]Da letra de Paulinho da Viola para a canção Sei Lá Mangueira.
Dormi sob um céu de meia lua e acordei com o sol rendendo o satélite. Em sua troca diária de turno, lutava para aquecer o inverno naquela parte da África. Era ainda um anúncio a luz da manhã, não a tangerina que logo encheria o céu. O frio era suportável, mas de sentir. Abri o zíper da cabana, fechei o do casaco, coloquei a cabeça para fora e encontrei “nosso” Maasai enrolado em seu olkarasha – o tecido xadrez que eles usam como capa e para afastar o frio. Cobria-lhe também a cabeça. Era azul, em vez do tradicional vermelho.
Parado a dez metros de nossa “porta”, parecia ter permanecido ali por toda a noite. Era discreto, mas magnético. Cumprimentei-o e obtive sua resposta, embora o desejo fosse de conversarmos, ainda que impedidos pelo muro das línguas. Estiquei-me um pouco mais e quase ao peito a barraca, olhei para os lados e avistei a fileira de outras. Contei doze, como quem não tivesse o que fazer. Ouvi vozes despertando. E à frente, o ruído de mato, que dançava ao sabor da brisa. A paisagem que a vegetação proibia, eu sabia ir até o horizonte. Pena não poder avistá-la, enxergar a espetacular, inigualável savana do Serengeti. O acampamento não tinha cercas, nem mesmo um fio de arame. Era o que o integrava à natureza de um modo pouco invasivo e ao mesmo tempo encantador. Dava para notar, dava para sentir: ali por trás todo o poder da savana, talvez animais, quem sabe, afastados pela ação do “nosso” maassai.
Próximo ao Lago Ndutu, o Ang’ata Ndutu Camp ficava bem perto da planície de grama curta do Serengeti. “Ficava”, porque meses adiante seria removido, desmontado e guardado para a nova temporada. Por aquela imensidão, os gnus se reúnem aos milhões em fevereiro e março. E estávamos em fevereiro!
O “maior espetáculo da Terra” – a migração, quando cruzam a fronteira aquática com o Quênia – só ocorre em julho, mas os animais que a protagonizam preparam-se para ela. Embora o Serengeti abrigue bem mais animais do que os gnus e os Cinco Grandes, inclusive a destacar os grous coroados, são aqueles os protagonistas.
Avistáramos muitos deles no dia anterior, num dia de pleno e fabuloso safari, experiências e encontros. Tudo tão perto da ação que parecia estarmos na primeira fila de um cinema. Um Land Cruiser como aqueles, com seu teto ajustável, permite vistas panorâmicas em 360°. Enfim, tivemos ali todas as demonstrações possíveis da singularidade do Serengeti. Contudo, agora, não resistia à vontade de conhecer a joia do dia: a crateraNgorongoro, embora não fosse razoável esperar por nada mais de espetacular que tivéramos até então. Genuinamente, eu sentia que depois do Serengeti seria demais esperar que a cratera superasse nossa experiência.
Mas, primeiro o café
O homem segurava um cajado, andava curvado enquanto nos guiava pelo caminho reto até a tenda central. Protegia-nos da natureza selvagem e de sua agressividade. O cajado parecia lhe ser útil, indo à nossa frente, a distância confortável para ouvir nossos passos. O desjejum com o grupo foi com café preto tanzaniano. Bom, mas somos brasileiros, e gostamos de café. Minha fome e a dimensão da savana que dali avistávamos parecia alargar tudo em todas as direções. Espaço, tempo e estômago.
Milhões de gnus, gazelas e zebras provavelmente começavam seu desjejum também, em marcha lenta em sua busca cíclica por pastos verdes. Dali a poucos meses, estariam do outro lado do Rio Mara. Por enquanto, seu território tinha mais de 15 mil quilômetros quadrados que sustentam e abrigam leões, leopardos, chitas e hienas, além de uma série de espécies menores, de abutres a besouros de esterco. Como acontece há milênios, todos dependem do retorno dos gnus, ano após ano. Inclusive os besouros.
É aí que entra o Ang’ata Migration Ndutu Camp, acampamento montado e desmontado todos os anos pouco antes do período da migração. Quando escurece, a sensação é de segurança relativa, um clima de estar à mercê da natureza sob um indiscutível céu romântico estrelado sobre uma natureza crua, selvagem áspera e encantadora. A emoção de um safári hospedando-se num acampamento como aquele se multiplica.
Na cama, o corpo vibrava antes de adormecer. Eram doze tendas de estrutura simples, temporária, com chuveiros que pingam água quente de balde posta à noite, depois de madrugada perto do alvorecer, quando os maasai derramam baldes de água no reservatório de lata de cada barraca, nosso despertador de cada dia. As camas são boas, largas e confortáveis, com bons lençóis e travesseiros.
De resto, afora os móveis e duas lâmpadas de uma gambiarra dependurada no quarto e no banheiro, tudo é de lona ou de plástico. Até o piso. Do chuveiro e do vaso, inclusive. O banheiro privativo tem o chuveiro de plástico a dois dedos das cabeças preso por um arame. Fica inclinado, pendente.
A banca de pia de madeira tem cuba de cerâmica, mas é instável sobre o piso de terra. O vaso sanitário tem descarga que funciona. Às vezes. O lounge é o lugar para carregar celulares, baterias e tudo mais, disputadíssimo único ponto com eletricidade disponível.
Ideal para conhecer outros viajantes e compartilhar histórias do dia, tem sofás, duas mesas baixas defronte a eles e uma estante de livros e guias. Os cafés da manhã e jantares são servidos na tenda de refeições, logo ao lado. Grande e medianamente iluminada, com uma grande bancada para o autosserviço dos hóspedes. Por trás, a cozinha. Que não visitei porque cedo aprendi que nunca se visita uma cozinha de restaurante.
Uma fogueira é acesa todas as noites, a uns 20 metros adiante da cabana principal, com cadeiras ao redor, não muito concorrida devido ao frio à noite.
Comi o desjejum pensando na jornada dos gnus. Eu sempre os achei entre os mais estranhos, embora o mais emblemático das savanas africanas. Morfologicamente falando, quero dizer. São esquisitos, mal-acabados, parecendo feitos às pressas e sem capricho no desenho. Pertencem à família dos antílopes, mas quando os olhamos fica difícil imaginá-los primos dos elegantes impalas e gazelas. A cabeça lembra a de um javali, o pescoço, de um búfalo, as listras, de uma zebra, as corcovas atrás dos ombros, sei lá que bicho, mas a traseira, de uma hiena, a cauda de uma girafa e o passo – desajeitado que só – de nenhum outro, apenas seu. Com chifres diminutos, olhos minúsculos, rostos alongados e barbas longas, diz um conto popular local que seu crânio carrega o cérebro de uma pulga. Talvez seja um exagero. Só talvez.
Caminhando centenas de quilômetros, os desajeitados animais serão pisoteados por eles mesmos enquanto descem caoticamente as barrancas escarpadas para mergulharem no rio em sua saga anual. Muitos se afogam, quebram as pernas, são abocanhados por crocodilos, carregados pelas correntezas e comidos mais tarde por abutres. Os que chegam à margem oposta são esperados por leões e hienas. A jornada destas criaturas – apesar de seu sentido absolutamente lógico, a busca pela sobrevivência nos pastos verdes – não deixa de ser enigmática e surpreendente e convida-me a aprofundar-me. Sabe-se que o motor desta eterna movimentação é simples: as fêmeas reproduzem durante todo o ano, estão amamentando ou grávidas de outro. E de junho a setembro, elas fazem ambas as coisas enquanto migram, o que exige muita energia e alimento, o que buscam consumindo o máximo de gramíneas possível. Então, se faltar…
Um dia luminoso e de ação
Eu estava no Serengeti, nada menos. Era o que bastava. Que embora de uma paisagem simples e de poucos tons, é aberta, vasta, de engolir os espectadores. Tirando os kopjes – as formações rochosas que surgem como ilhas em meio ao oceano de grama verde, nas quais figueiras-da-rocha ficam suas raízes entre fendas e onde leões em família costumam abrigar-se – tudo mais lembrava as savanas do Quênia.
Senti muitas vezes no peito o privilégio sublime de estar ali. E embora não como parte do lugar, mas como ardoroso espectador, sentia todos os seus pormenores, vibrações, vindas de um dos ambientes mais selvagens do planeta, de uma natureza cuja força é formidável. E eu, com regras ultrapassadas, imaginava: “Não é justo querer nada mais”. Mas havia Ngorongoro pela frente, que é coisa de não se perder um instante sequer.
O dia estava luminoso como sempre, ao ponto de lembrar-me da canção de Haroldo Barbosa e Luiz Reis – “Luminosa manhã, pra que tanta luz…” – o sol tocava os olhos de quem se atrevesse a explorar o céu, até as profundezas da retina. Duas nuvens decoravam o azul e eu sem saber que estava escrito: mais tarde choveriam.
Foi quando um balão mágico sobrevoando bem próximo à minha cabeça seguia seu caminho improvisado. Acabara de decolar. Era belíssimo o voo, que eu apreciei tanto quanto seus entusiasmados tripulantes. Não houve luta contra a vontade de tirar fotos dele e de parar. Fiz tantas quanto pude enquanto o balão esteve à vista. Comigo ficará guardado aquele momento. Por fim, entrei no jipe e partimos para o próximo destino, no dia 20 de fevereiro, às sete e meia da manhã. Meia hora depois estávamos à margem do encantador lago Ndutu, admirando os flamingos que os habitam e embelezam, rodeado de acácias.
A todos!
Materializadas aqui minhas histórias desta jornada. Dedico este texto à minha companheira e aos colegas de viagem, aqueles que hoje estamos longe, mas todos – em conjunto ou isoladamente – sempre me destinaram carinho, amizade, sorrisos marcantes e momentos de boas conversas. Lotaram minha memória de lembranças e o coração de emoções. E fazem parte de minha história.
Era o dia da visita aos maasai. Eu gostava daquilo, embora o turismo étnico já tenha me agradado mais, antes dos efeitos negativos do turismo. Lembro-me bem de contatos inesquecíveis com tribos de diferentes etnias nas montanhas de Kyaing Tong (Chiaing Tong), em Myanmar, e com outras no Vale do Rio Omo, na Etiópia. Naqueles tempos eram experiências autênticas, mas nós, turistas, transformamos tudo num teatro, onde num palco feito para emprestar autenticidade, povos indígenas fazem suas performances.
Eu não tinha certeza se seria algo descaradamente turístico ou tradicional, isto é, uma visita a uma aldeia-cenário ou aos masaai vivendo seu dia normal. Talvez até um meio-termo. Embora não tenha ficado dúvida de que eles e nós estivéssemos desempenhando nossos papéis, e com a mesma dignidade: demonstrando seus costumes, cultura e modos de vida, e nós promovendo seu desenvolvimento social, muitas vezes até sua sobrevivência. Não só eles, mas o mundo inteiro sofreu com o desaparecimento de turistas, sem precedentes, com a pandemia.
Especialmente nessas comunidades mais pobres, somos importante fonte de rendimento, o que basta para tornar qualquer visita defensável. Não há mal nenhum, e eu não deixaria de recomendá-la, mas sim que estejam preparados para atividades teatrais, que não ocorrem só ali, como também nas tribos das mulheres-girafa, na Tailândia – refugiadas de Myanmar – e com os himba, da Namíbia.
A visita turística à “aldeia maasai” foi uma encenação de aula escolar, da experiência com líderes pedindo doações. E a avidez com que nos mostravam seu artesanato à venda, dispostos num corredor – o maasaimall – por preços nada originais, embora coisas que nós visitantes sempre compramos. Fomos conhecer uma “residência” e outras ocas com diferentes funções, vimos uma demonstração de como acendem fogueiras, os bomas – cercadinho onde abrigam seu gado – e nosso grupo, fantasiado à moda maasai, dançou como eles, estimulados ou carregados.
Nada pareceu autêntico para mim, embora muito bem montado para tornar-se como tal. Quase convincente, algo atraente, embora não tenha me marcado como uma experiência da vida maasai sendo levada em seu quotidiano. Antes de viajar eu lera acerca de comunidades onde visitas de pequenos grupos turísticos são possíveis, mas raras, em geral àquelas suportadas por um ou mais lodges, cujo conceito fundamental é o da “preservação com coexistência”.
Em verdade, alguns trabalham juntos com os maasai para melhorar suas perspectivas de vida, sobretudo atentas a não mudarem o ambiente que habitam, suas tradições, interferindo minimamente em suas aldeias. Seu maior obstáculo é mantê-los nas proximidades, portanto, evitar seu nomadismo, em busca de água e pastagens. Ela é parcialmente superada por meio de métodos de coleta de chuva e de poços artesianos, entre outros. Tive o conhecimento de que impressionantes 54.000 litros de água foram colhidos da chuva e distribuídos num período de quatro meses e, que em março de 2018, certas aldeias tiveram a ajuda desses lodges no aumento dos tanques de retenção para 20.000 litros, incentivadas por meio de doações dos clientes hóspedes.
Soube que algumas comunidades participam de um rodízio de reabastecimento a cada sete dias. E não só isso, que exercem trabalhos de educação ambiental, de maneiras de se tornarem mais sustentáveis em suas próprias comunidades e tentarem entrar em sintonia com o meio ambiente, aproveitando ao máximo as estações do ano. Estes mesmos lodges utilizam sistemas de reutilização de águas residuais de cozinhas e chuveiros na manutenção de jardins de arbustos.
Se eu recomendaria? Sim, se não houvesse alternativa.
Obrigado pela leitura. Ao infinito e além, todos nós!
Fui acordado pela luz e o brilho da cidade. Olhei pela janela e vi a África pelo vidro. Esfreguei os olhos com a preguiça de uma noite pouco dormida, como se estranhasse estar diante de prédios de vidro em Nairobi em vez de numa savana com bestas selvagens. Eram o fuso horário e o jet lag tornando minha visão do Quênia um clichê. Ou os sonhos em swahili, talvez. Quem sabe, as lembranças de uma infância fascinada por livros, por filmes e documentários do coração da África.
Um brevíssimo tempo se passou até que eu enxergasse além do mundo de ilusões e avistasse o que devia, não o que imaginava. Fora ali – na primeira manhã africana – que eu percebera começar uma viagem diferente, daquelas que ficam para sempre em mim, como às vezes acontece, tornando-se marcantes logo de cara, embora noutras, quando terminam.
Saímos às ruasde movimento imparável, mesmo para um grupo de estrangeiros a pé tentando atravessá-las. Prendiam meus olhos já despertos, empolgados, as mulheres vendendo frutas, os viadutos altos e compridos, os centros comerciais e as lojas incomuns, os matatus – ônibus velhos multicoloridos – as tranças nos cabelos, os homens aparentemente desocupados, as roupas coloridas, carros e trânsito, tudo o que observamos naquela caminhada ligeiramente tensa até um centro comercial.
Nada de novo acontecia, senão a vida seguindo como em toda grande cidade. Mas eu não viajara à África para apreciar aquilo, senão as savanas e os safaris. Era a capital, o ponto de partida para uma longa viagem rodoviária pelo Quênia e Tanzânia com visitas sucessivas aos mais espetaculares lugares do planeta para os safaris.
No tempo que o tempo passa, mas às vezes, como ele voa!
Nessa altura da vida sempre acho que o tempo passa depressa demais. É natural à gente da minha idade. Assim, num dia eu estava em Nairobi e duas semanas depois, quando fevereiro já ia para o fim, junto com a viagem, em nosso segundo dia no Serengueti. A caminho de Ngorongoro, a jornada praticamente terminava, e eu sentia, como nunca, que o tempo passara tão depressa. Sabia sim estar vivendo apenas o fenômeno natural da “expansão subjetiva do tempo”, quando em alguns momentos achamos que ele passa voando, noutras que se arrasta:
“Puxa, já se foram quinze dias, mas me pareceram quinze horas”, pensei. “Como passou rápido!”. Velozmente, com a mesma força de uma gazela fugindo de um guepardo, como o instinto selvagem em sua luta pela sobrevivência tentando manter o bicho livre e selvagemente vivo.
“Tudo a seu tempo”, costumava dizer minha avó, quando eu era moleque e mostrava ansiedade, achando que demorava demais a meia noite chegar, hora de então abrir os presentes de Natal. A gente sabe que a monotonia colapsa o tempo e que a novidade o desdobra, mas…
Quinze dias depois, noSerengueti, como num piscar de olhos, a viagem ia ao fim e seus encontros e experiências indescritíveis, tantas e com tal expressão quanto eu não acredito ter sido capaz de descrevê-los aqui. Nas Reservas de Samburu e Buffalo Springs, no Lake Naivasha e Lake Nakuru, no Maasai Mara, no Serengueti e na Cratera de Ngorongoro, e de visitas aos povos Samburu e Maasai. A lugares tão bonitos que a National Geographic não consegue fazer justiça a eles. Enquanto corria “tudo a seu tempo” e em ritmo particulares – seguindo as cadências entre a vida e morte dos animais, da caça e do caçador, da alimentação, do descanso e da vigilância – nós turistas nos deleitávamos dentro de jipes e dormíamos em lodges bacanas no centro do meio da África.
Todos entusiasmados com os encontros de cada dia, cujas impressões eram partilhadas em conversas animadas ao jantar. Cada um de nós aparentando na face a fenomenal oportunidade que vivêramos em cada dia, o privilégio de termos voado naquela viagem que chegava ao fim e se consagrava em cada um de nós.
Por sorte, ainda me restam dois, talvez três capítulos, para descrever nosso dia no Serengueti e Ngorongoro, nossa visita à “aldeia” dos maasai, a volta para Nairobi e o último dia na cidade e o retorno para casa.
E ali estava eu, nas planícies infinitas, no isolamento da vastidão verde, onde a terra se encontra com o céu no horizonte, dentro de um Toyota Land Cruiser de cor creme com tração nas quatro rodas, em algum lugar dos trinta mil quilômetros quadrados mais belos e selvagens em que eu já estivera. No Serengueti, enfim.
Estava para encontraranimais que mesmo já há dias terem se tornado familiares – de gnus e búfalos a zebras e girafas – conseguiam ser diferentes, atrair, como se aqueles fossem seres de outra espécie, nacionalidade.
Eu me encontrava numa área tão plana e extensa quanto à primeira vista não conseguiria calcular. Talvez nem mesmo quando apenas sonhava com ela, antes de estar ali.
Euaté poderia sentir-me numa paisagem vulgar, sem grandes novidades, mesmo sabendo tratar-se de um parque que engloba a enorme cratera de Ngorongoro, o Lago Manyara, o Tarangire e o Arusha.
Era tão repleto de gnus, de zebras e gazelas quanto eu imaginava não ser possível contar. E de leões também. E rinocerontes, leopardos, búfalos, chitas e elefantes. Ainda que tendo avistado deles antes em bom número, das girafas arrancando folhas com maestria das árvores aos dik-diks tímidos, das hienas mergulhadas em poças de lama, haveria de encontrá-los de novo adorando revê-los, como se deles já me sentisse saudoso.
Poderia ser “mais uma” planície de savanas abertas, de campos intermináveis, uma vasta área de pastagens, de bosques e pântanos. Eu não incorreria em erro – se assim superficialmente o resumisse – pois o que eu avistava, afinal não se diferenciava tanto dos demais parques do Quênia e da Tanzânia onde antes estivera.
Mas havia oskopjes (koppies)
Os grandes afloramentos rochosos que se erguem abruptamente nas planícies, a característica mais marcante de todo o Serengueti. Como ilhas num mar de grama, ou colinas arredondadas surgindo da terra, aqueles micro ecossistemas – exemplos de geologia tão próprios ao Serengueti – tão carismáticos que um deles serviu de inspiração para cenas do filme “O Rei Leão”: o Simba Kopje.
Ainda que eu soubesse estar num lugar único, que abriga mais de 70 grandes mamíferos, de 500 espécies de avifauna, e nada menos que a maior migração de mamíferos terrestres do mundo – a qual estimam-se 1,5 milhão de gnus, 200.000 zebras das planícies e 400.000 gazelas de Thomson – foram eles, os kopjes, que tornaram o Serengueti tão característico para mim, tão lindo e tão único no planeta África em que eu já andara. Tão selvagem e tão bonito quanto eu jamais pudera idealizar.
NaÁfrica, dificilmente outro lugar de savana tem cenário mais fantástico, possibilite encontros tão fabulosos com animais selvagens e cause tantas emoções. Sabe, aquela? De pulsar no peito? Que ao anoitecer torna o coração mais romântico, de apegar-se como a um filme épico, ao documentário mais cativante?
Não. Não se pode resistir à atração da África. Tampouco discordar do autor destas palavras, o escritor e jornalista britânico Rudyard Kipling. Então, sem perceber que o fazia, intimamente senti-me grato à vida por ter-me dado tanto: a oportunidade de estar ali, de ter dois olhos que enxergam, ouvidos que escutam grilos, hienas e leões, um coração que se emociona e a mente aberta a tudo o que vê.
Uma linha bastavapara descrever a perfeição dos dias no Maasai Mara e do lodge, de sua equipe muito distinta, da comida, das vistas privilegiadas desde o topo daquela escarpa altiva, de nosso chalé-cabana, dos leões e hienas próximos ao acampamento e dos espetaculares safaris.
Se numa viagemhá naturais expectativas e deslumbramentos, também podem ocorrer os desapontamentos. Contudo, os meus, aqui, foram irrelevantes e perfeitamente contornáveis. Se por um lado eu reconhecia aqueles como os dois melhores dias da viagem até então – embora merecimento houvesse de elogios a todos os anteriores – me prendia o reconhecimento, apesar de sentir a vibrante expectativa pelos próximos destinos.
Há lugares assim, que nossa mente idealiza e por eles passa a esperar, então não haveria de ser diferente com os mais desejados – Serengueti e Ngorongoro – embora o Masai Mara terminasse consagrando-se um dos troféus de toda jornada, o que não é pouco, verdadeiro espólio de tudo o que há de África subsaariana, dos safaris aos animais selvagens, dos big five às belezas das savanas.
Sem a petulância de desdenhar de um ou de outro (todos me agradaram), eram aqueles que estavam por vir – embora com eles também o lugar que deixávamos agora – os que me fariam perceber que a África estava ficando em nós.
A viagem progredia sucessivamente tornando-se melhor e mais encantadora dia após outro. E se de toda viagem sabemos que um dia chegará seu fim, eu tratava de registrar aquela com cuidado, num lugar macio da memória, fosse em imagens oculares, fosse nas fotografias e filmes, o meu jeito de perpetuar essas experiências.
Já havia raios plenos no céu do Mara Triangle, que saturado de tanta luz fazia tudo parecer aceso, mas embora assim, e em África, a temperatura às oito da manhã se sentia com serenidade. Em fevereiro, no Quênia, o clima intervala entre perfeito e bom, e era precisamente como o sentíamos todas as manhãs ao nos prepararmos para a saída. Naquela, em direção a Isebânia, no Quênia, na fronteira com a Tanzânia.
Entre ambas – Isebânia e Sirari, Tanzânia – ficam as respectivas Border Crossing Stations. Na primeira obtivemos os carimbos de saída, nos despedimos de nossos motoristas e jipes e entregamos-lhes um envelope com a gratificação em dinheiro de todo o grupo. Depois, a pé – carregando nossas malas – atravessamos a fronteira. Pense numa caminhada longa e exaustiva. Não foi assim. Cinco minutos bastaram, talvez menos, para sairmos do prédio da imigração queniano e adentrarmos o da Tanzânia. Escaneadas as malas, apresentamos os certificados internacionais de vacinação e fomos aos guichês solicitar os vistos de turistas do próximo país, pelos quais pagamos cinquenta dólares americanos.
Com os vistos estampados nos passaportes, em poucos minutos eu já me sentia noutro país, embora sempre em África pura, contudo, com novos jipes, motoristas, gente e seus jeitos e posturas, e paisagens.
A estrada ia entre cidades e campos, entre gente e animais e com as paisagens ficando para trás dos vidros dos jipes, como se devoradas lentamente por sua velocidade.
Cento e poucos quilômetros e três horas depois paramos em Tarime, cidadezinha onde comemos o que havia em nossos lunch boxes, acompanhados de cerveja Kilimanjaro ou de Coca-Cola. Encerramos o breve stop com chave de ouro: comprando vinhos franceses e tanzanianos numa venda local, que seriam apreciados à mesa à noite, no jantar, em nossas habitações e até dentro dos jipes com “taças” improvisadíssimas, mas com muito gosto pelo restante dos dias de nossa viagem.
Seguimos a estrada ao destino, e a 48 quilômetros de Tarime paramos numa ponte sobre o rio Mara, num vilarejo entre Matanka e Nyansurura. Avistamos uma linda tartaruga-leopardo (Stigmochelys pardalis) no meio da estrada e crianças ainda mais encantadoras caminhando. Pararam e fomos até elas para fotos e abraços.
A viagem de carro pela estrada em direção ao Serengeti revelava-se uma experiência de descobertas e de novas experiências, de paisagens verdes, de vilarejos vibrantes e coloridos, de pessoas acenando e transmitindo a hospitalidade tanzaniana, de planícies com manadas de animais domésticos, de serenidade na vida que seguia.
Nos aproximarmos dos portões do parque nacional do Serengeti e sentimos a mudança na atmosfera, com a luz mágica do fim da tarde aquecendo a temperatura de cor, depois de um dia inteiro com luz se estendendo por todo o caminho.
Paramos e apreciamos o momento enquanto os motoristas-guias resolviam as questões burocráticas para nosso ingresso no parque. Talvez tenha sido o lugar onde mais tiramos fotos de nós mesmos, isoladamente ou em grupo, talvez sem sabermos o quanto seriam apreciadas depois em nossas casas.
Recostei a cabeça no apoio do banco, fechei os olhos e pus-me a imaginar o lugar onde estávamos prestes a chegar: o Ikoma Tented Camp, acampamento localizado na região de Ikoma, norte da Tanzânia, na fronteira ocidental do Parque Nacional Serengeti e próximo ao Ikoma Gate. O sol descia no horizonte, belo e atraente como sempre.
A África estava em nós
Tendas muitorústicas, mas espaçosas, com bom conforto, água quente nos chuveiros, cama com lençóis e travesseiros limpos e mosquiteiro ao redor, móveis rústicos e simples nos abrigariam por uma noite. Havia um filtro de linha com tomadas, luz elétrica, toalhas limpas, chuveiro e banheiro bons para o padrão “cabana”, e wi-fi no restaurante.
À noite, guardas ficavam perto das barracas para cuidar que animais selvagens perigosos não se aproximassem e também nos acompanharem de volta do restaurante, jé em plena noite, o que nos dava uma sensação plena de que estávamos dormindo numa barraca no meio da savana sem nada impedindo animais de se aproximarem.
Defronte tínhamos vistapara a planície aberta, que se não era arrebatadora como a do lodge anterior no Masai Mara, estava ao nível do chão e sem nada limitando a vida selvagem chegar até nossos pés. A noite foi bem dormida, com ruídos bem sutis de animais, sendo, aparentemente, os grilos os mais audíveis. Estávamos no coração da vida selvagem africana, algo único e encantador de ser sentido, especialmente por ser no Serengeti, cenário de maravilhas naturais.
As estrelas brilhavam intensamente, um espetáculo magnífico sob a agradável brisa que ondulava o mato à frente e trazia os cheiros da savana. A sensação de paz e de serenidade era notável e o ambiente, perfeito de calma, o que me sugeria uma noite de saudável, de profundo sono. Sentado por uns minutos antes do sol se por, na cadeira rústica da varanda da cabana, olhando o céu e a savana, eu me sentia como Langsdorff enquanto explorando o mundo nos séculos XVIII e XIX.
Creio que pessoa nenhuma ali entre nós tivesse deixado de sentir o mesmo, e de que a África estava, definitivamente, em nós. A noite foi encantadora, contudo sem as fibras do meu coração tremerem ao som de leões e hienas junto à cabana.
Um dia de safari no Serengeti
O safari não era novidade, nem assim os animais, senão a paisagem. Esta sim, diferente. O dia começou como todos, cedo, e com o nascer do sol, um bom café em grupo, cumprimentos calorosos e o céu enchendo o horizonte de tons avermelhados e alaranjados, momentos que embora corriqueiros, sempre se renovavam encantadores. A expectativa era entre as melhores, pois estávamos prestes a embarcar na jornada pela icônica reserva de vida selvagem da Tanzânia, talvez a mais reconhecida do planeta África.
O jipe com oteto aberto nos permitia uma visão limpa e livre, panorâmica, de todo o ambiente. No Serengueti, para além da já familiar vastidão de planícies, nos presenteava com formações rochosas imponentes, inaugurando uma nova geografia. Assim que saímos do acampamento avistamos os primeiros animais selvagens, manadas de gnus e zebras se movendo em harmonia, pastando nas gramíneas altas, e também grupos de girafas com seus sempre elegantes porte e caminhar, pescoços alcançando as folhas mais verdes das árvores ou atentas ao horizonte.
E de elefantes majestosos, como sempre, atravessando o terreno defronte aos nossos jipes, cujos motoristas comunicavam-se com outros por rádio, compartilhando informações sobre os avistamentos mais recentes, sobretudo leões, leopardos e chitas.
A visita aoThe Tanzanite Experience foi uma bela oportunidade de aprendermos muito acerca daquelas preciosas, valiosas, belas pedras. Saindo dali, começamos a avistar famílias de leões descansando sobre elevações rochosas ou tomando sol à beira de um lago. Por vezes solitários, descansavam à sombra de uma acácia. E de hipopótamos, que refrescando-se em lagos de pouca profundidade, tinham seus dorsos para fora, parecendo ilhas de pedras. Uma encantadora, esguia, elegante chita sobre uma formação rochosa tinha o olhar atento ao horizonte, uma visão fascinante entusiasticamente registrada em dezenas de cliques.
Não era tudo, senão bemmais o que eu poderia esperar encontrar no Serengueti assim tão cedo, desde a vida selvagem à fabulosa geografia e cenário cinematográfico. Ao meio-dia fizemos uma pausa para almoço ao ar livre, com olhos atentos à paisagem e compartilhando nossas aventuras entre o grupo.
À tarde retornamos ao acampamento, que no dia seguinte seria num outro lodge para uma exploração de nova região do imenso Serengeti – no Nduto Camp – base para conhecermos uma outra belíssima área do extenso parque nacional, de onde novamente nos mudaríamos um dia depois para visitarmos a magnífica cratera de Ngorongoro, quando então seria hora de pensarmos em nosso retorno a Nairobi, para a última noite da viagem.
Sentei-me novamente na cadeira rústica da varanda da tenda, pouco antes do sol se pôr. Contemplei o céu e a paisagem daquela porção do Serengeti com calma, especialmente encantado com o dia em que avistamos tantos animais no safari.
Esperei o anoitecer e percebi que aquela, apesar de singela, havia se consagrado numa experiência poderosa, cuja emoção do momento combinou o entusiasmo do dia com serenidade do anoitecer, a conexão com a natureza mais a sensação de pequenez diante de sua imensidão.
À medida que o sol se punha, a paisagem ia se transformando até uma atmosfera fascinante me envolver e dominar. Difícil descrevê-la, mas emocionante lembrar-me dela.
Quando o sol desapareceu completamente, lembrei-me de que era hora de seguirmos para o jantar, embora eu estivesse tomado pela admiração e beleza do lugar, desejando permanecer. As primeiras estrelas começaram a se deixar notar, mas também as vozes vindas da cabana principal do restaurante, sugerindo que deveríamos nos juntar ao grupo.
Levantei-me com uma última olhada para o céu e a savana do Serengueti, sentindo-me novamente como um membro da expedição Langsdorff, ou provavelmente o próprio, com um misto invulgar de fascínio, de entusiasmo, de curiosidade e senso de aventura, embora longe dos desafios por eles enfrentados.
Fui dormir com a África em mim, sonhando com coisas do imaginário e da realidade.
O som do despertador foi uma intrusão dura na quietude de meu cérebro e de toda a cabana. Depois de uma noite de estrelas cintilantes com vistas para o Grande Vale do Rift – uma paisagem cinematográfica escandalosamente defronte à minha varanda – o sol acordou sem preguiça, embora eu ainda sentisse o peso da noite agitada pelos urros de hienas e rugidos de leões alarmantemente próximos de minha cama.
Nem preciso dizer que aquilo teria sido o bastante a qualquer um deixar de dormir, contudo era só o Masai Mara se apresentando selvagemente, como afinal eu queria e ele sempre o faz. Mas certos acontecimentos são o que fazemos deles, então, não foi exatamente uma batalha entre a minha vontade de viver o momento e a consciência de que eu precisava dormir, senão alguma indecisão entre convencer-me da necessidade de repousar ou deixar que a aventura me deixasse desperto.
Pela manhã as coisas se acalmaram, ao ponto de que eu nem me lembrava de outra em que eu acordara tão feliz por estar na África. Não, aquilo não fora um sonho, senão algo tão real quanto a serenidade daquela manhã, tão perceptível quanto a temperatura fresca sentida sob o lençol e tão notável quanto a minha fome e a vontade de comer o desjejum.
Levantei-me com os sentidos inteiros e levei a cara amassada até o espelho, sem saudades de casa. Pelo menos, ainda não. Comecei assim o preparo para a exploração do poderoso Masai Mara – o Santo Graal dos safáris no Quênia – nada menos que 1510 quilômetros quadrados de savanas habitadas por uma infinidade de tipos de animais. A visita a uma tribo Masai, na periferia da reserva, consagraria o sítio como um dos melhores para o visitante perceber os dramas das sobrevivências selvagens e humanas, onde a vida segue progredindo incessantemente, por vezes uma escolha entre matar ou ser morto.
Precisava de um café, o combustível que abastece meu vício, o que por ali, além de prazeroso, era tomado à mesa do desjejum com o grupo, uma alegria adicional renovada a cada manhã, coroando o fim do despertar, anunciando o começo das atividades do dia. No caminho da tenda ao salão de refeições, uma lojinha de artigos masai – com tecidos a bijuterias – me fez recordar que se eu não aproveitasse a hora, à noite estaria fechada. E, provavelmente, sem a zebra à sua porta.
Pronto! Café tomado e lembranças adquiridas, o que queríamos estava lá fora: o safari, ou game drive como costumam tecnicamente denominá-lo. Para ver os cinco grandes: elefante, búfalo, leão, leopardo e rinoceronte, os quais sempre haveria antes a sorte, porque de nós não dependiam os encontros.
Fosse lá com que nome ou para que animais admirar, os games eram sempre experiências fabulosas, presenciar a dura brutalidade da vida selvagem, de animais em bom número nos ignorando e seguindo sua sina diária entre comer e não ser comido.
Logo estaríamos em nossos jipes com os tetos levantados para vivermos aquilo que minha capacidade de descrever é mínima, mas de sentir, uma entre as maiores da vida. Apesar de que não estávamos na época da Grande Migração, eu já havia compreendido que ela não era tudo, que qualquer altura do ano proporciona encontros excepcionais. E não me refiro apenas aos óbvios mais de um milhão de gnus e zebras em busca de mato verde do outro lado do rio.
Deixamos o lodge no Mara Triangle em direção ao Masai Mara National Game Reserve com o sol ainda nascendo. Eram 6:45 e ele subia no horizonte em menor velocidade do que o avistava passando à janela do jipe. Em pouco mais de 20 minutos chegamos ao Portão Musiara, com alguém tentando vender um colar ou pulseira, que sempre comprávamos.
Dentro da reserva seguimos duas linhas negras riscadas no verde gramado, a que poderíamos chamar de trilha, por onde as rodas de todos os jipes tentavam se manter a fim de provocarem o menor impacto possível no solo. De tal maneira que às vezes até atolavam-se nelas, devido aos profundos sulcos que cavavam seus pneus no solo negro.
As linhas encontravam-se graciosamente no fim do horizonte, quando convergiam tornando-se uma só. Havia apenas pasto, e nem mesmo um só monte de térmitas – ou cupinzeiro. O cenário era o que nenhuma fotografia conseguira até então tornar mais fabuloso do que vivenciar. Olhei para a direita e depois para a esquerda, e até o fim da vastidão do parque, nenhuma outra igual avistei.
Em dez minutos encontramos os primeiros leões. Belíssimos animais adultos e saudáveis caminhando com seus pelos dourados reluzindo ao sol. Tão diferentes dos que nos acostumamos a ver em zoológicos, embora aparentemente um pouco magros. Ativos e tão próximos que pudemos ver suas presas afiadas e línguas pendentes, ouvir suas respirações. Sequer olharam para nós, nem mesmo com desdenho.
A curta distância, gnus inconscientes do perigo pastavam, enquanto uns espreitavam com olhos largos a superfície da vastidão. A natureza seguia seu curso e cada novo encontro se convertia no novo mais belo momento do dia: hipopótamos cochilando em piscinas não muito profundas, macacos bagunceiros nas árvores e no chão, elefantes, zebras, gnus, búfalos, hienas, chetas, topis, gazelas de Grant e de Thomson, além de uma riqueza inesperada de pássaros.
Com nossos olhos selvagens, atentos es exploradores, com a mentes inquietas, embora os corpos serenos, seguimos placidamente deslizando pela savana ouvindo o som dos pneus dos Land Cruiser no cascalho da estrada. Sentíamos uma brisa suave entrando pelo teto aberto enquanto observávamos o belo, límpido azul azulino. Mais adiante paramos diante de um lago onde hipopótamos com apenas os dorsos aflorados na água pareciam ilhas de pedra escura. Olhei para o espelho de água e ambas as imagens – a presencial e a imaginária – pareciam reais.
Continuamos na direção do campo de pouso Musiara por um ecossistema em que até um besouro parece essencial. Chegamos a uma pequena aglomeração de jipes e avistamos búfalos e leoas espreitando-os escondidas em moitas. A cena parecia promissora, desenhava-se o ritmo do que todos ali desejavam, sobretudo pela equipe de filmagem de algum Nat Geo num jipe e enorme equipamento filmagem sobre a caçamba de uma picape, esperando a sorte de registrar um ataque dos felinos.
Mas naquela manhã os búfalos estavam espertos, de modo que depois de muito tempo ali sem que nada mais acontecesse, decidimos seguir em frente por um lugar que se apresentava como microcosmo das reservas do Quênia. Para além dos numerosos gnus, zebras, antílopes e seus predadores, elefantes, girafas, hipopótamos e uma dezena de outros animais.
A velha ordem selvagem se renovava a cada dia ao alcance da vista, à meia-distância, no horizonte mais distante ou entre as árvores, num pasto alto, num arbusto à beira da estrada ou no chão próximo ao carro, numa chita solitária empoleirada, num leopardo sobre uma árvore, numa família de javalis atravessando freneticamente a savana aberta.
Cruzamos um pequeno rio e encontramos uma grande manada de topis. Depois, outra de búfalos e, mais adiante, uma família de hienas em volta e dentro de uma poça de lama. Seguimos os avisos do rádio e nos dirigimos até uma árvore solitária em cuja sombra descansava um leão igualmente só.
Afastava-se, sob o sol, em direção a um arbusto onde guardava uma presa que aquelas hienas tentavam roubar. Seguimos e avistamos elefantes, mais adiante um belíssimo leopardo em movimento e pulando sobre um pequeno lago. Nos aproximamos e o vimos bem de perto, ao ponto de notarmos uma pelagem intacta de um animal jovem e saudável.
Estávamos próximosà divisa do Quênia com a Tanzânia, onde o Masai Mara passa a chamar-se Serengueti. Estacionamos os jipes na margem queniana do Rio Mara, num dos pontos onde ocorre a frenética travessia dos gnus na Grande Migração, defronte ao Hippo Pool Viewpoint, onde avistamos a maior concentração daqueles animais. Descemos dos carros, passamos pela ponte Purungat até o Sekenani Gate e fizemos uma caminhada pela margem do rio, acompanhados de guardas armados, num lugar chamado Condado deNarok, a poucos passos do território tanzaniano.
Fizemos fotos no marco da fronteira entre Tanzânia e Quênia e seguimos até o portão Oloololo para sairmos definitivamente do fabuloso Masai Mara. Retornamos ao nosso ótimo lodge, de onde na manhã seguinte continuaríamos nossa jornada, desta vez em direção à Tanzânia. Um pôr do sol fenomenal, uma noite agradável, um jantar delicioso e muitas conversas sobre nosso intenso dia de safari encerraram nossa estada no Masai Mara. Saudades? Ora…
_________________________________________________
A seguir – Dia de Estrada para a Tanzânia, rumo ao Serengueti
Fosse outro, talvez eu nem falasse, mas se tem uma coisa que eu não aconselho é ignorar um pôr do sol. Seja qual for. Um daqueles, então, de uma surrealidade real, seria um desperdício dos melhores. Como se não bastasse, depois abriu-se um céu de estrelas cintilantes. Do lado de fora, estava eu confortavelmente instalado na cadeira da varanda com os pés ‘pra cima, um olho no céu e outro ao redor. Leio uma placa: “Atenção: Zona de vida selvagem. Caminhe ou corra por sua própria conta e risco”. A mente me dizia “seja forte, fique”, mas não, não fui. Cedi ao medo. Resolvi entrar e me preparar para dormir. E foi até coisa bem expressa, de adormecer logo.
De madrugada acordei com rugidos de leões, com uivos de hienas, sons de cascos de zebras e o estímulo de pensamentos lógicos: “atrás de uma zebra vem sempre um leão; e deste, uma hiena”. Ouvi meu coração acelerando, parte excitação, parte preocupação. Resolvi parar o mundo com uma borracha de ouvido. E deu certo: acordei com a luz do astro rei invadindo a tenda. Levantei-me sem abrir a porta da cabana e avistei uma paisagem com as cores de uma paleta perfeita. O cheiro também, era de manhã. Quero dizer, ali é de perceber que difere da tarde e da noite.
OMasai Maralá embaixo estava estonteante, mas convidava ao banho, ao desjejum e ao safari, em vez da contemplação desde cima, senão para ser vivido e experimentado. A natureza daquele ângulo parecia mais fluida, não forjada pela intervenção humana e com toda a sua impiedosa realidade tocando mesmo os mais duros corações de pedra. Não dava para deixar de pensar no besta privilégio que era estar ali àquela hora.
Olhei para cima também. Avistei um céu de brigadeiro, copas de árvores ao redor, passarinhos fazendo delas seu play ground e cada qual dizendo suas coisas. Que eu não compreendia, claro, porque não falo passarinhês, mas que era bonito, era. A vista era dramática e o ambiente que entrava pelos olhos também ia à mente, invadia o quarto, o mundo, a galáxia.
Até ali, aquele lodge fora o lugar onde dormimos mais impregnados de natureza, mais proximamente rodeados por ela, fazendo sentir sem parar a experiência de mato, numa das menores densidades turísticas e de veículos, devido ao volume gerenciado e aos rígidos planos de uso do solo.
Tudo parecia normal. E estava. Correndo a seu ritmo, diferenciado, segundo cada animal, pássaro, inseto ou réptil que o habita. Todos em suas rotinas diárias, fazendo seu duro trabalho, porque a vida de nenhum não é nada fácil na savana. De escaravelhos de esterco rolando bolas de cocô de elefante – coisa que até então eu só vira no Animal Planet – a antílopes graciosamente abanando seus rabinhos de olhos e ouvidos bem abertos, porque desde que nascem sabem: são os nuggets da selva. E de topis – o antílope pra lá de estranho, cabeça alongada, dorso caído feito de hiena, chifres anelados e em forma de “L”. E gazelas de Thompson, outro aperitivo de leão. E javalis, e impalas, famílias numerosas de elefantes guiados por suas matriarcas, de gnus, zebras, girafas e búfalos a leões, guepardos, leopardos, hienas, chacais e kudus. Certamente esqueci de algum.
Chuveiro rápido e me preparo para o dia. E enquanto aguardo a esposa terminar o seu, caído de amores pelo lodge, por ela, pela vida e pelo safari, sento-me na varanda sentindo a brisa acariciar a pele com olhar perdido no hipnótico horizonte. Saboreio o momento exemplar da natureza e da minha vida de viajante, mas sinto mais é a avidez por sair logo para a aventura do dia. Talvez eu até passasse um dia inteiro ali vivendo daquela natureza, especialmente elegante. Mas a viagem não era de esperas que pareciam alongar a brevidade.
Posso parecer romântico, mas só quem sentiu aquilo sabe o que foi. Depois, enquanto tomávamos nosso café da manhã, perguntei aos outros se ouviram leões e hienas. De quase todos, sim. Depois do café, logo às caras da porta do lodge, o safari no Masai Mara, mais que a busca de animais, uma verdadeira fantasia africana das savanas, onde não há caminhos a evitar, coordenada de GPS a não seguir ou trilhas a fugir em busca nada mais nada menos, que dos “Cinco Grandes da África”: o rinoceronte negro, o búfalo, o elefante, o leopardo e, finalmente, o leão. Mas foram mais, bem mais. Te conto e mostro daqui a pouco, no próximo capítulo.
Ela grudou feito chiclete em sola de sapato. Eu quase sabia de cor e salteado a letra da bendita música: Jambo, Jambo bwana, Habari gani, nzuri sana, Wageni, Mwakaribishwa, Kenya jetu hakuna matata… a canção queniana, lançada em 1982 pela banda Them Mushrooms que tem no título uma saudação, que em swahili traduzido fica “Olá, senhor”. A danada tornou-se “minhoca de ouvido” e vivia saltitando na mente. À tarde no jipe, de noite na cama, durante o café da manhã e até no chuveiro. Às vezes era divertido, outras, bem…
Jambo, Jambo bwana, Habari gani, nzuri sana…
Aprendi outras palavrinhas na língua deles: tembo – pra elefante, simba – pra leão, twiga – pra girafa e tumbili, o macaco. Mas, voltando à música-chiclete, a razão de seu grude era óbvia: minha exposição a ela, de tanto que a cantavam e, pelo que sei, porque era agradável ao cérebro. Não fosse ela – senão outra coisa e outro dia – talvez eu não me lembrasse tão bem daquela primorosa manhã de nosso primeiro safari no Masai Mara. Com a música agarrada “resolvi” me desligar e fui espiar a savana, concentrar-me em sua beleza. Sei lá se foi assim, mas a verdade é que ela resolveu sair de mim e colar noutro.
A árvore solitária
Chegando à savana, pensei em tantos lugares que já passei na vida e eles ficaram em mim. Como cicatrizes. Dos desertos às montanhas, das florestas às cidades, dos templos aos animais. Pessoas também, principalmente. A intensidade das cores daquele lugar tão especial parecia torná-lo mais um desses que viveriam para sempre nas minhas entranhas. Renovavam-se as expectativas de belos encontros no Triângulo de Mara e na Reserva Nacional Masai Mara. De animais, não preciso dizer. Mas foi uma árvore. O que mais gravei daquele dia – afora a bendita música – foi uma árvore.
Tem explicação. Sempre gostei delas, desde quando eu era moleque. Ainda as admiro e quero bem, devo dizer. Eu não podia ver uma que me dava ganas de subir. Peguei o jeito nas amendoeiras defronte à minha casa, na cidade do Rio de Janeiro, onde aquela urbana criatura verde era tão comum que parecia originária. Quem não é da minha cidade talvez não saiba que das 20 espécies mais frequentes na cidade, a Amendoeira (Terminalia catappa) é a primeira da lista, com o maior número indivíduos em toda a urbe. Depois virei craque e escalei de mangueiras a abacateiros. Da fazenda da Tia Manú, em Minas Gerais, ao sítio da Tia Cecília, no Estado do Rio de Janeiro.
A acácia solitária levava sua existência naquele vazio encantador. Uma águia pousada em sua tímida copa parecia ser sua única companheira. Não tinha vizinhas, não tinha filhas. Era de uma solidão de dar dó. Parecia conformada com seu estado e realidade, ainda que sem aparentar indiferença ao mar de savana, à imensidão de verde em três tons que a rodeava por, sei lá, quilômetros. Estava acostumada, embora não deva ser fácil viver assim – nem mesmo para uma acácia – contemplando o nada, uma realidade vestida de pureza, embora um despudor a sua pobreza.
Nem de alimento servia a pobre estrutura: era pau puro, sem folhas, apenas espinhos, da qual sequer as girafas se aproximavam. Tinha sua beleza, ainda que seu raquitismo anunciasse um fim próximo. Não parecia mesmo ter serventia. E não tinha escolha, era seu destino, já que era uma árvore, não podia percorrer a savana, afastar-se como os gnus em migração. Nem majestosa era. Não tinha ninhos e sequer sombra produzia. Mas contribuía generosamente para embelezar magnificamente a paisagem. E assim, como a música, feito chiclete em sola de sapato, aquela árvore grudou em mim.