Era o dia da visita aos maasai. Eu gostava daquilo, embora o turismo étnico já tenha me agradado mais, antes dos efeitos negativos do turismo. Lembro-me bem de contatos inesquecíveis com tribos de diferentes etnias nas montanhas de Kyaing Tong (Chiaing Tong), em Myanmar, e com outras no Vale do Rio Omo, na Etiópia. Naqueles tempos eram experiências autênticas, mas nós, turistas, transformamos tudo num teatro, onde num palco feito para emprestar autenticidade, povos indígenas fazem suas performances.
Eu não tinha certeza se seria algo descaradamente turístico ou tradicional, isto é, uma visita a uma aldeia-cenário ou aos masaai vivendo seu dia normal. Talvez até um meio-termo. Embora não tenha ficado dúvida de que eles e nós estivéssemos desempenhando nossos papéis, e com a mesma dignidade: demonstrando seus costumes, cultura e modos de vida, e nós promovendo seu desenvolvimento social, muitas vezes até sua sobrevivência. Não só eles, mas o mundo inteiro sofreu com o desaparecimento de turistas, sem precedentes, com a pandemia.
Especialmente nessas comunidades mais pobres, somos importante fonte de rendimento, o que basta para tornar qualquer visita defensável. Não há mal nenhum, e eu não deixaria de recomendá-la, mas sim que estejam preparados para atividades teatrais, que não ocorrem só ali, como também nas tribos das mulheres-girafa, na Tailândia – refugiadas de Myanmar – e com os himba, da Namíbia.
A visita turística à “aldeia maasai” foi uma encenação de aula escolar, da experiência com líderes pedindo doações. E a avidez com que nos mostravam seu artesanato à venda, dispostos num corredor – o maasaimall – por preços nada originais, embora coisas que nós visitantes sempre compramos. Fomos conhecer uma “residência” e outras ocas com diferentes funções, vimos uma demonstração de como acendem fogueiras, os bomas – cercadinho onde abrigam seu gado – e nosso grupo, fantasiado à moda maasai, dançou como eles, estimulados ou carregados.
Nada pareceu autêntico para mim, embora muito bem montado para tornar-se como tal. Quase convincente, algo atraente, embora não tenha me marcado como uma experiência da vida maasai sendo levada em seu quotidiano. Antes de viajar eu lera acerca de comunidades onde visitas de pequenos grupos turísticos são possíveis, mas raras, em geral àquelas suportadas por um ou mais lodges, cujo conceito fundamental é o da “preservação com coexistência”.
Em verdade, alguns trabalham juntos com os maasai para melhorar suas perspectivas de vida, sobretudo atentas a não mudarem o ambiente que habitam, suas tradições, interferindo minimamente em suas aldeias. Seu maior obstáculo é mantê-los nas proximidades, portanto, evitar seu nomadismo, em busca de água e pastagens. Ela é parcialmente superada por meio de métodos de coleta de chuva e de poços artesianos, entre outros. Tive o conhecimento de que impressionantes 54.000 litros de água foram colhidos da chuva e distribuídos num período de quatro meses e, que em março de 2018, certas aldeias tiveram a ajuda desses lodges no aumento dos tanques de retenção para 20.000 litros, incentivadas por meio de doações dos clientes hóspedes.
Soube que algumas comunidades participam de um rodízio de reabastecimento a cada sete dias. E não só isso, que exercem trabalhos de educação ambiental, de maneiras de se tornarem mais sustentáveis em suas próprias comunidades e tentarem entrar em sintonia com o meio ambiente, aproveitando ao máximo as estações do ano. Estes mesmos lodges utilizam sistemas de reutilização de águas residuais de cozinhas e chuveiros na manutenção de jardins de arbustos.
Se eu recomendaria? Sim, se não houvesse alternativa.
Obrigado pela leitura. Ao infinito e além, todos nós!
Uma linha bastavapara descrever a perfeição dos dias no Maasai Mara e do lodge, de sua equipe muito distinta, da comida, das vistas privilegiadas desde o topo daquela escarpa altiva, de nosso chalé-cabana, dos leões e hienas próximos ao acampamento e dos espetaculares safaris.
Se numa viagemhá naturais expectativas e deslumbramentos, também podem ocorrer os desapontamentos. Contudo, os meus, aqui, foram irrelevantes e perfeitamente contornáveis. Se por um lado eu reconhecia aqueles como os dois melhores dias da viagem até então – embora merecimento houvesse de elogios a todos os anteriores – me prendia o reconhecimento, apesar de sentir a vibrante expectativa pelos próximos destinos.
Há lugares assim, que nossa mente idealiza e por eles passa a esperar, então não haveria de ser diferente com os mais desejados – Serengueti e Ngorongoro – embora o Masai Mara terminasse consagrando-se um dos troféus de toda jornada, o que não é pouco, verdadeiro espólio de tudo o que há de África subsaariana, dos safaris aos animais selvagens, dos big five às belezas das savanas.
Sem a petulância de desdenhar de um ou de outro (todos me agradaram), eram aqueles que estavam por vir – embora com eles também o lugar que deixávamos agora – os que me fariam perceber que a África estava ficando em nós.
A viagem progredia sucessivamente tornando-se melhor e mais encantadora dia após outro. E se de toda viagem sabemos que um dia chegará seu fim, eu tratava de registrar aquela com cuidado, num lugar macio da memória, fosse em imagens oculares, fosse nas fotografias e filmes, o meu jeito de perpetuar essas experiências.
Já havia raios plenos no céu do Mara Triangle, que saturado de tanta luz fazia tudo parecer aceso, mas embora assim, e em África, a temperatura às oito da manhã se sentia com serenidade. Em fevereiro, no Quênia, o clima intervala entre perfeito e bom, e era precisamente como o sentíamos todas as manhãs ao nos prepararmos para a saída. Naquela, em direção a Isebânia, no Quênia, na fronteira com a Tanzânia.
Entre ambas – Isebânia e Sirari, Tanzânia – ficam as respectivas Border Crossing Stations. Na primeira obtivemos os carimbos de saída, nos despedimos de nossos motoristas e jipes e entregamos-lhes um envelope com a gratificação em dinheiro de todo o grupo. Depois, a pé – carregando nossas malas – atravessamos a fronteira. Pense numa caminhada longa e exaustiva. Não foi assim. Cinco minutos bastaram, talvez menos, para sairmos do prédio da imigração queniano e adentrarmos o da Tanzânia. Escaneadas as malas, apresentamos os certificados internacionais de vacinação e fomos aos guichês solicitar os vistos de turistas do próximo país, pelos quais pagamos cinquenta dólares americanos.
Com os vistos estampados nos passaportes, em poucos minutos eu já me sentia noutro país, embora sempre em África pura, contudo, com novos jipes, motoristas, gente e seus jeitos e posturas, e paisagens.
A estrada ia entre cidades e campos, entre gente e animais e com as paisagens ficando para trás dos vidros dos jipes, como se devoradas lentamente por sua velocidade.
Cento e poucos quilômetros e três horas depois paramos em Tarime, cidadezinha onde comemos o que havia em nossos lunch boxes, acompanhados de cerveja Kilimanjaro ou de Coca-Cola. Encerramos o breve stop com chave de ouro: comprando vinhos franceses e tanzanianos numa venda local, que seriam apreciados à mesa à noite, no jantar, em nossas habitações e até dentro dos jipes com “taças” improvisadíssimas, mas com muito gosto pelo restante dos dias de nossa viagem.
Seguimos a estrada ao destino, e a 48 quilômetros de Tarime paramos numa ponte sobre o rio Mara, num vilarejo entre Matanka e Nyansurura. Avistamos uma linda tartaruga-leopardo (Stigmochelys pardalis) no meio da estrada e crianças ainda mais encantadoras caminhando. Pararam e fomos até elas para fotos e abraços.
A viagem de carro pela estrada em direção ao Serengeti revelava-se uma experiência de descobertas e de novas experiências, de paisagens verdes, de vilarejos vibrantes e coloridos, de pessoas acenando e transmitindo a hospitalidade tanzaniana, de planícies com manadas de animais domésticos, de serenidade na vida que seguia.
Nos aproximarmos dos portões do parque nacional do Serengeti e sentimos a mudança na atmosfera, com a luz mágica do fim da tarde aquecendo a temperatura de cor, depois de um dia inteiro com luz se estendendo por todo o caminho.
Paramos e apreciamos o momento enquanto os motoristas-guias resolviam as questões burocráticas para nosso ingresso no parque. Talvez tenha sido o lugar onde mais tiramos fotos de nós mesmos, isoladamente ou em grupo, talvez sem sabermos o quanto seriam apreciadas depois em nossas casas.
Recostei a cabeça no apoio do banco, fechei os olhos e pus-me a imaginar o lugar onde estávamos prestes a chegar: o Ikoma Tented Camp, acampamento localizado na região de Ikoma, norte da Tanzânia, na fronteira ocidental do Parque Nacional Serengeti e próximo ao Ikoma Gate. O sol descia no horizonte, belo e atraente como sempre.
A África estava em nós
Tendas muitorústicas, mas espaçosas, com bom conforto, água quente nos chuveiros, cama com lençóis e travesseiros limpos e mosquiteiro ao redor, móveis rústicos e simples nos abrigariam por uma noite. Havia um filtro de linha com tomadas, luz elétrica, toalhas limpas, chuveiro e banheiro bons para o padrão “cabana”, e wi-fi no restaurante.
À noite, guardas ficavam perto das barracas para cuidar que animais selvagens perigosos não se aproximassem e também nos acompanharem de volta do restaurante, jé em plena noite, o que nos dava uma sensação plena de que estávamos dormindo numa barraca no meio da savana sem nada impedindo animais de se aproximarem.
Defronte tínhamos vistapara a planície aberta, que se não era arrebatadora como a do lodge anterior no Masai Mara, estava ao nível do chão e sem nada limitando a vida selvagem chegar até nossos pés. A noite foi bem dormida, com ruídos bem sutis de animais, sendo, aparentemente, os grilos os mais audíveis. Estávamos no coração da vida selvagem africana, algo único e encantador de ser sentido, especialmente por ser no Serengeti, cenário de maravilhas naturais.
As estrelas brilhavam intensamente, um espetáculo magnífico sob a agradável brisa que ondulava o mato à frente e trazia os cheiros da savana. A sensação de paz e de serenidade era notável e o ambiente, perfeito de calma, o que me sugeria uma noite de saudável, de profundo sono. Sentado por uns minutos antes do sol se por, na cadeira rústica da varanda da cabana, olhando o céu e a savana, eu me sentia como Langsdorff enquanto explorando o mundo nos séculos XVIII e XIX.
Creio que pessoa nenhuma ali entre nós tivesse deixado de sentir o mesmo, e de que a África estava, definitivamente, em nós. A noite foi encantadora, contudo sem as fibras do meu coração tremerem ao som de leões e hienas junto à cabana.
Um dia de safari no Serengeti
O safari não era novidade, nem assim os animais, senão a paisagem. Esta sim, diferente. O dia começou como todos, cedo, e com o nascer do sol, um bom café em grupo, cumprimentos calorosos e o céu enchendo o horizonte de tons avermelhados e alaranjados, momentos que embora corriqueiros, sempre se renovavam encantadores. A expectativa era entre as melhores, pois estávamos prestes a embarcar na jornada pela icônica reserva de vida selvagem da Tanzânia, talvez a mais reconhecida do planeta África.
O jipe com oteto aberto nos permitia uma visão limpa e livre, panorâmica, de todo o ambiente. No Serengueti, para além da já familiar vastidão de planícies, nos presenteava com formações rochosas imponentes, inaugurando uma nova geografia. Assim que saímos do acampamento avistamos os primeiros animais selvagens, manadas de gnus e zebras se movendo em harmonia, pastando nas gramíneas altas, e também grupos de girafas com seus sempre elegantes porte e caminhar, pescoços alcançando as folhas mais verdes das árvores ou atentas ao horizonte.
E de elefantes majestosos, como sempre, atravessando o terreno defronte aos nossos jipes, cujos motoristas comunicavam-se com outros por rádio, compartilhando informações sobre os avistamentos mais recentes, sobretudo leões, leopardos e chitas.
A visita aoThe Tanzanite Experience foi uma bela oportunidade de aprendermos muito acerca daquelas preciosas, valiosas, belas pedras. Saindo dali, começamos a avistar famílias de leões descansando sobre elevações rochosas ou tomando sol à beira de um lago. Por vezes solitários, descansavam à sombra de uma acácia. E de hipopótamos, que refrescando-se em lagos de pouca profundidade, tinham seus dorsos para fora, parecendo ilhas de pedras. Uma encantadora, esguia, elegante chita sobre uma formação rochosa tinha o olhar atento ao horizonte, uma visão fascinante entusiasticamente registrada em dezenas de cliques.
Não era tudo, senão bemmais o que eu poderia esperar encontrar no Serengueti assim tão cedo, desde a vida selvagem à fabulosa geografia e cenário cinematográfico. Ao meio-dia fizemos uma pausa para almoço ao ar livre, com olhos atentos à paisagem e compartilhando nossas aventuras entre o grupo.
À tarde retornamos ao acampamento, que no dia seguinte seria num outro lodge para uma exploração de nova região do imenso Serengeti – no Nduto Camp – base para conhecermos uma outra belíssima área do extenso parque nacional, de onde novamente nos mudaríamos um dia depois para visitarmos a magnífica cratera de Ngorongoro, quando então seria hora de pensarmos em nosso retorno a Nairobi, para a última noite da viagem.
Sentei-me novamente na cadeira rústica da varanda da tenda, pouco antes do sol se pôr. Contemplei o céu e a paisagem daquela porção do Serengeti com calma, especialmente encantado com o dia em que avistamos tantos animais no safari.
Esperei o anoitecer e percebi que aquela, apesar de singela, havia se consagrado numa experiência poderosa, cuja emoção do momento combinou o entusiasmo do dia com serenidade do anoitecer, a conexão com a natureza mais a sensação de pequenez diante de sua imensidão.
À medida que o sol se punha, a paisagem ia se transformando até uma atmosfera fascinante me envolver e dominar. Difícil descrevê-la, mas emocionante lembrar-me dela.
Quando o sol desapareceu completamente, lembrei-me de que era hora de seguirmos para o jantar, embora eu estivesse tomado pela admiração e beleza do lugar, desejando permanecer. As primeiras estrelas começaram a se deixar notar, mas também as vozes vindas da cabana principal do restaurante, sugerindo que deveríamos nos juntar ao grupo.
Levantei-me com uma última olhada para o céu e a savana do Serengueti, sentindo-me novamente como um membro da expedição Langsdorff, ou provavelmente o próprio, com um misto invulgar de fascínio, de entusiasmo, de curiosidade e senso de aventura, embora longe dos desafios por eles enfrentados.
Fui dormir com a África em mim, sonhando com coisas do imaginário e da realidade.
O cheiro inesquecível da savana me desperta. Adormeci bem, sem tormento ou contratempo, sem sonhos a me perturbarem. Noite passada lenta e sem ruídos e, ao despertar, um novo homem se levanta crendo não haver forma melhor de amanhecer numa viagem tão intensa.
Então, Bom dia! Ensolarado e com novos destinos e expectativas. O Sol mal despontara e nós já estávamos a caminho do desjejum.
Adeus Samburu, e obrigado por nos proporcionar uma introdução impecável às savanas do Quênia, uma natureza onde o homem é secundário, senão os animais protagonistas, apesar de alguns não terem feito questão de aparecer. E a paisagem era de dominar os olhos e ouvidos.
Para alguns, também, alojou-se nos corações e mentes aquele lugar dos mais isolados, onde turistas há, mas não muitos, tanto que bastam uns quilômetros adentro das reservas para pensarmos que ela nos é exclusiva.
A “família” pouco a pouco vai se juntando com sorrisos e cumprimentos. Viagens têm seus efeitos, sobretudo quando para lugares onde se encontram costumes, regras, culturas e sociedades tão diferentes das nossas. Entre as mais notáveis, conhecer pessoas, que embora permaneçam por lá onde as encontramos, quando retornamos, por vezes nos acompanham para o resto da vida.
Eu refletia que nunca havia experimentado encontrar gente tão bacana de meu próprio país numa viagem em grupo. Sorte a minha. Todos chegam às 7:30, hora marcada, com o dia já a pleno Sol. Os dias em safaris começam cedo, com despertar às seis da manhã e saída uma hora e pouco mais depois.
– Jambo, diz Oburu em swahili, com seu vozeirão de radialista, tamanho de Schwarzenegger, sorriso extenso como o Quênia. Fica ali de pé, com as mãos sobre os quadris, dentes à mostra e faz sinal de “V” enquanto me aproximo. Depois, me estende a mão. O olhar não é novo, de todos os dias, embora naquela manhã tenha me parecido ainda mais acolhedor.
– Jambo, retribuo. Estamos prontos, dear friend!
Jipes estacionados defronte ao lodge, logo carregaram-se com nossa bagagem, água e petiscos. Nos metemos neles, também. E seguimos. Comigo, nenhum receio do que encontrar nos Lagos Nakuru e Naivasha, pois a viagem vinha crescendo em realidade e superando expectativas.
Depois de dois dias fabulosos em Samburu e Buffalo Springs, com avistamento de zebras, elefantes, girafas, leoas, javalis africanos, impalas, pássaros, partimos para novos destinos, que antes foram-nos apresentados por Márcio no briefing da noite anterior:
– O Lago Nakuru abriga enorme população de flamingos, mas também das girafas Rothschild, de rinocerontes pretos e brancos, bem como de búfalos e diversos outros animais. No caminho, faremos uma parada para conhecer a cachoeira de Nyahururu e, no final da tarde, já no destino, faremos um safari em Nakuru até o pôr do Sol, que lá promete! Em seguida, faremos nosso check-in no Lake Nakuru Lodge. Ah, o almoço será um “Lunch Box”.
“Puxa! Rinocerontes brancos e negros!”, penso eu no privilégio de avistar aqueles raros animais. Não era pouco o que nos esperava. O Parque Nacional Nakuru, mais famoso pelas colônias de flamingos habitando as margens do lago, é um dos três mais visitados do Quênia, reconhecido como excepcional centro de observação de aves – mais de 400 espécies -, entre elas a águia africana, para além de habitat de leões, impalas e muitos outros animais. 400 espécies!
Dali ao destino, 310 km de frutas e legumes à beira da estrada, de plantios organizados, de savanas, lugarejos, vilas e cidades. Saímos pelo Arche’s Gate, aquele da Elsa, e logo tomamos a rodovia A2, a Nyeri – Nanyuki Road.
Para além das enormes possibilidades de um safari _____________
O itinerário não era apenas o deslocamento, uma viagem longa de carro, senão também observar e me tocar com pequenas cabanas sem eletricidade, água corrente e saneamento, crianças descalças carregando reservatórios de água, a difícil vida diária das pessoas no Quênia. Sobretudo porque aparentemente encontraram seu modo de felicidade com tão pouco, apesar da luta pela sobrevivência ser, às vezes, comparável às dos animais da savana. Provavelmente, para mim, seria este – ao fim da jornada de 2.000 quilômetros pelos dois países – o maior legado que me deixariam, um benefício adicional da viagem, além dos prazeres dos safaris.
Seu impacto se estendia muito além das belíssimas paisagens, dos encontros com os animais. E as reflexões pessoais, que mexiam comigo durante nossa estada, pareciam favorecer o crescimento pessoal, a sedimentação de valores e a avaliação do quanto certas viagens podem fazer por nós. A reflexão levou-me às palavras de John Steinbeck, o escritor americano: “As pessoas não fazem as viagens, as viagens é que fazem as pessoas.”
O lago Nakuru ______________________________________
A próxima morada, por duas noites, será no Lake Nakuru Lodge. Paramos na altura de Nanyuk para uma vista do Monte Quênia, bem distante e parcialmente encoberto por nuvens. Depois, na cachoeira Nyahururu e, no fim da tarde, um safari de fim de tarde já no caminho do lodge, ao redor do lago com milhares de flamingos e pelicanos, além de uma surpreendente fauna dos animais típicos das savanas do Quênia. Trata-se de uma das melhores reservas para observarmos os rinocerontes negros e brancos, além de manadas de búfalos, felinos, grande variedade de aves e muito mais.
Fizemos umstop noMountain View Curio Shop, em Nanyuk, a 112 quilômetros, para café e banheiros. Algumas fotos e vida que segue. No quilômetro 138 entramos na Rodovia 85, em Naromoru, e paramos na Equator Curio Shop, a 220 quilômetros, para café, banheiros e comprinhas. Até a Thompson Falls, em Nyahururu, aos 235 quilômetros, estacionamos no Thomsons Falls Lodge, para comer nossos lunch boxes sentados numa mesa no jardim.
Em seguida fomos conhecer a cachoeira. Não eram as “sete quedas” , mas o lugar, interessante e um bom relaxamento antes de prosseguirmos a viagem. Eu e a maioria avistamos do mirante e três ou quatro desceram com uma guia até a base da queda d’água, que tem cerca de 72 m, com água do rio Ewaso Narok, que vem do extremo norte da cordilheira de Aberdare. Da borda do desfiladeiro havia algumas áreas de observação, onde paramos. Também havia dois ou três habitantes locais vestidos com roupas de tribos que insistentemente nos abordavam para uma fotografia deles, por um valor caro que negociado caia à metade. Eles não nos deixavam em paz e perseguiam.
Almoçamos e seguimos para o Lake Nakuru National Park. Restavam, então, apenas 76,1 km, via C83, até o Lake Nakuru Lodge, dentro do pequeno parque. O safari seria no caminho do acesso ao parque até a hospedagem. A tarde ia em meio quando chegamos ao Lanet Gate.
Dali ao lodge seriam mais 15 quilômetros de safari, quase sempre às margens do lago. Entramos e os primeiros animais avistados foram as zebras. Depois babuínos, búfalos e cervos, além dos macacos vervet azuis e antílopes Waterbuck, animais grandes e robustos com orelhas arredondadas, manchas brancas acima dos olhos, nariz, boca e garganta. Os machos têm chifres anelados que podem medir até 100 centímetros de comprimento. Um belo e não muito comum animal.
Um safari moderno começa entrando num jipe, de manhã bem cedo e ao fim da tarde, fotografando e observando os animais, voltando ao lodge para o desjejum às nove, descansando o resto da manhã e parte da tarde para aproveitar a piscina, massagem, uma boa refeição. Às 16 h, o safari noturno começa e vai até o começo da noite. Depois de três dias nisso, voa-se para casa. Nada contra. Fiz dois e gostei muito. Mas o nosso foram dez dias “fora do caminho batido”, das oito da manhã às cinco da tarde e por tudo o que há de melhor no Quênia e Tanzânia.
Lake Nakuru Lodge – Um pôr do Sol para não esquecer ______________
A luz que brilha ali parece mais clara, maior. E o céu, de ver estrelas, constelações inteiras. O Animal Planet desfilava à minha frente, na linha do horizonte de nossa varanda. Numa trilha, em fila indiana, uma manada de búfalos seguia, com adultos e jovens, consagrando-se numa das típicas e mais belas paisagens que a África me proporcionou nesta viagem.
Trouxe muitas destas comigo de volta à casa – na memória e na câmera -, mas nenhuma de superar a majestosa beleza do pôr do sol no Lago Nakuru.
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A seguir
As águias pescadoras do Lago Naivasha e um Safari a pé na Crescent Island.
A visita à aldeia Samburu e a exploração da reserva Buffalo Springs
Elas estavam ali, logo atrás da cortina que escondia a grande varanda. Faziam uma algazarra dos deuses, típica das andorinhas. Um estardalhaço. A sinfonia dos animados passarinhos acordou-me pouco antes do despertador. E lembro-me bem da escuridão no quarto, do momento em que o Sol ainda não despontou, mas já se anuncia. Minha visão levou segundos para adaptar-se à ínfima luz que passava por uma fresta. Eu percebia a tênue e morna claridade tentando entrar no quarto. E eu ainda não avistava, mas podia sentir a natureza selvagem da reserva Buffalo Springs. Pujante, absoluta, potente, nua e crua. Não sei dizer se eram meus olhos, se outros o sentiam, mas as cores da savana pareciam mais exuberantes, o céu mais azul, embora nem tanto o verde, que por aqui andava seco de dar dó.
Levantei-me. Não com a presteza que me caracteriza, mas com cautela. E como uma hiena solitária, decidida, mas sorrateira, com cuidado para não tropeçar no ambiente desconhecido, cheguei à presa, a porta da varanda. Pole pole!, como dizem em swahili – devagar, devagar! Assim entrou a paisagem no quarto e em mim, mas junto com ela um frio de bater no peito, como todas as manhãs experimentei naquele lado do mundo.
Embrulhei-me com a cortina e observei a paisagem apenas o rosto em exposição. A savana estava ali, embora não tão bela quanto ao calor do dia raiado, embora tudo o que eu visse fosse bonito. O alvorecer se anunciava com toda a sua beleza e magnitude, pureza e encantamento, proporcionava sensações, mexia com sentimentos. Mas eu não poderia apreciá-lo: não havia tempo a perder com contemplações. Nossos horários eram rígidos e meu senso de pontualidade logo levou-me ao banheiro.
Era nosso segundo dia de safari, embora nossa estreia não tenha sido assim um “dia de safari”, senão o da chegada à ReservaSamburu vindos de Nairobi, seguindo o caminho em seuterritório em direção ao nosso lodge, na vizinha Buffalo Springs, quase à margem do rio Ewaso Ngiro. Que lugar e que chegada!
O turismo, a grande oportunidade
Nossa manhã começou cedo, bem cedo, como de costume. Às sete e meia já estávamos dentro de nossos jipes levantando poeira a caminho de uma aldeia do povo Samburu, visita que daria um significado todo especial, humano, àquela viagem quase toda dedicada ao encontro com os animais selvagens e a natureza das savanas, das magníficas reservas do Quênia e da Tanzânia.
– Lembrem-se de usarem máscaras, nos relembrou Márcio. São para preservar os samburu, não a nós. Daquele modo estaríamos ajudando a manter vivos os séculos de cultura de um povo guerreiro por história e pecuarista por tradição. Seminômades, alimentam-se de leite e de sangue das vacas no dia a dia, mais carne, embora ocasionalmente, e de legumes e tubérculos. São “primos” dos Maasai, pois têm a mesma origem, mais ao Norte do continente, para os lados do Egito e Sudão e às margens do Nilo. Embora carreguem traços comuns, inclusive o idioma, têm lá suas diferenças.
Entramos num mundo quase de fantasia, que muitos surpreendem-se ainda existir de gente que custamos a crer conseguirem sobreviver em condições tão adversas e com tão pouco. Vivem em pequenas aldeias de chão de terra, em simplíssimas casas de tijolos e ainda mais primitivas de barro. O chefe da tribo, fluente em inglês, nos recebe e coordena a visita à tribo e nos explica que ao final poderemos comprar o artesanato feito exclusivamente pelas mulheres. Nos mostraram como fazem fogo, alguns costumes, suas moradias e um grupo de crianças da escolinha local.
Doa-se dinheiro emespécie para a tribo e não há mesmo outro jeito de sobreviverem, sobretudo na época da seca, do que sem a ajuda do turismo. Sinto uma sensação de conforto em poder contribuir com a aldeia e reforço meu sentimento de um pouco de humanidade à nossa visita, algo que eu não imaginava experimentar antes da viagem, porque eu fora ali com uma ideia de que veríamos algo que o turismo subtraiu em originalidade.
O turismo é uma via de mão dupla, pode arrasar a personalidade e originalidade de lugares e culturas – com o de massa e o predatório – mas também favorecer a manutenção de povos e de animais, neste caso, com o turismo responsável e sustentável. seja pelas ações de doações de visitantes.
Seguimos nossa tarde de visita à reserva de Buffalo Springs, até chegarmos ao Uaso Bridge Gate, ou Portão da Ponte Uaso, ornado com uma bela pintura de pele de girafa e relativamente próximo ao Samburu Simba Lodge, onde nos hospedamos. Aproveitamos a não desperdiçável oportunidade de uso dos banheiros, ainda que tão precários. Revejo a placa homenageando a leoa Elsa, vista antes no outro acesso, o Arche’s Gate, observei os curiosos e interessantes ninhos presos ao teto do portão, de passarinhos que pareciam graciosas, animadas e barulhentas andorinhas.
Àquela altura eu ainda não sabia, mas aquele lugar seria marcante, dominaria meu pensamento toda vez que eu me lembrasse do Quênia. A partir dali, precisamente, estaria comigo para sempre, não só por todo aquele dia, por toda a vida. No meu imaginário não poderia supor que aquela experiência que ali começava, com nossa tão aguardada aventura de observação da vida selvagem, seria também uma jornada emocional. Claro que sobretudo pelo destino, pelas experiências, pelo aprendizado, mas muito também pelo grupo de pessoas que se integraram, se divertiram e tornaram tudo mais brilhante. Alternávamos os jipes todos os dias e os passageiros, o que possibilitou o aperfeiçoamento da integração, já que não se daria apenas nas refeições.
Passadas poucas horas depois da visita à aldeia samburu eu não imaginara presenciar tantos animais. As reservas são relativamente pequenas e pouco conhecidas, embora com abundância de vida selvagem e mas a pouca frequência humana possibilitam experiências muito mais exclusivas do que aquelas experimentadas nos grandes parques como Masai Mara e Serengueti ou Ngorongoro, o que torna ambas as reservas reconhecidas como entre os melhores safáris no norte do Quênia.
Avistamos zebras de grevy, girafas reticuladas, gazelas, antílopes, avestruzes somali, elefantes, entre outros animais.
The Bat, de Pat Metheny Group. Álbum Offramp – Grammy de 1982
A História de Elsa
Uma placa entalhada em madeira, um nome feminino em destaque. Pregada a uma parede do Archer’s post gate – um dos portais da reserva, ornado à pele de zebra – chamou-me a atenção. Dizia: “Em memória de Elsa, que ajudou a salvaguardar esta reserva de caça”.
Mais do que atrair, a placa levou-me anos atrás no tempo, com a surpresa do inesperado. Embora nenhuma outra referência houvesse, imaginei tratar-se da jovem leoa, cria órfã adotada como animal de estimação pelo guarda florestal George Adamson e sua esposa Joy, ativistas africanos da vida selvagem e conservacionistas nos anos 50. Não podia haver outra Elsa. Tem que ser esta!, pensei entre surpreso e encantado com o “encontro”.
Eu estava na casa de Elsa, da leoa que fez grande história no Quênia, na África e no mundo. Contada num livro que vendeu 5 milhões de exemplares, e mais tarde no filme Born Free – ou A História de Elsa – conta a vida da leoa criada como membro da família, que se recusou a mandá-la a um zoológico, destino de suas duas irmãs, ao resgatá-la de uma leoa recém abatida. Ainda que um animal de estimação, criaram-na para sobreviver na natureza.
“Nascida livre, tão livre como o vento sopra, tão livre como a grama cresce, livre para seguir seu coração” dizia a letra da bonita canção tema de Elsa no filme, cuja trilha sonora foi composta por John Barry. Vencedor de um Óscar, em 1966, época de minha adolescência, o filme ajudou a consolidar de vez meu desejo de conhecer esta parte da África. Era admirável que Elsa ainda estivesse tão fresca em minha memória, que tão inesperada quanto surpreendentemente tivéssemos nos “encontrado” ali…
Quando Elsa tornou-se adulta, os Adamson perceberam que chegara a hora devolvê-la à liberdade, esperando que pudesse sobreviver por sua conta. Tempos depois, a encontram e foram surpreendidos com um acolhimento muito especial. Meu Deus, quantas lembranças me voltaram da mente e, discretamente, me emocionaram.
Uma outra placa, ao lado da de Elsa, homenageia a leoa Kamunyak, que adotou um bezerro de oryx. Pronto! A apresentação da reserva Samburu estava feita, e de modo inesperado e romântico.
A história inspirou milhares de pessoas a se engajarem na causa da preservação da vida selvagem e pensar que eu estava no território de Elsa foi uma auspiciosa introdução ao Samburu National Park. Hoje, anos depois de Elsa, a presença de leões continua a ser notável na reserva e eu estava certo de que o adoraria.
Para mim, fora uma estupenda graça. E livre, tão livre como o vento sopra, retornei ao tempo presente, com o Quênia vivo nos olhos e os ouvidos despertos por alguém me dizendo discretamente ao pé do ouvido:
– Não há água nos banheiros!
A seguir:De Nairobi ao Samburu – Longe, tão longe e distante
O que têm a ver Henry Mancini, John Wayne, Bert Kaempfert e um hi-fi a válvula com um safári na África? Bem, pelo menos para mim, tudo! Corria o ano de 1962 quando eu era um moleque e nada marcou tanto minha vida àquela altura quanto o filme Hatari! – uma comédia dramática rodada na África pelo diretor Howard Hawks, um notável filme de ação entre as savanas recheadas de animais, ao som de uma espetacular trilha sonora de Henry Mancini. Quem não se lembra do tema O Passo do Elefantinho (Baby Elephant Walk)?
“Hatari”, em swahili, significa “perigo”. E perigoso era o trabalho do personagem de John Wayne em busca da captura de animais para mandá-los a zoológicos de todo o mundo. Nada mais politicamente incorreto hoje mas, tinha a Elsa Martinelli…
Então, eis que surgem Bert Kaempfert e Henry Mancini na minha vida. Meu pai era um aficionado por música e, no começo dos anos 60, possuia o que era a última palavra tecnológica em termos de equipamento de som: um amplificador monaural – a válvulas! – e um toca-disco inglês que tinha uma inacreditável agulha de diamante. Tudo montado em um armário tipo cômoda, bem típico daquela época, que ocupava um belo lugar de destaque na sala de visitas. Pois bem. Aos 10 anos de idade eu ficava ali, sentado no chão e com o ouvido bem perto de uma enorme caixa de som que tinha a minha altura, ouvindo jazz e clássicos. Foi quando fui arrebatado, pela segunda vez depois de Hatari!, pelo LP Afrikaan Beat, de Bert Kaempfert. Eu me lembrava de cada cena do filme, numa atmosfera auto-hipnotizante, enquanto a música rodava no prato do toca-discos Garrard. Assim fui apresentado à África e desde então jamais deixei de desejá-la.
Foi apenas em Março de 2007 que consegui realizar o desejo de ir à África para um safari fotográfico. Mas essa e outra história. A que quero contar agora é de meu retorno à savana africana para avistarmos os big five.
DE VOLTA À ÁFRICA
Todos sabem a importância que dou quando regresso à casa. Mas, depois de uma viagem, ando uns dias sem viajar e pronto, parece que a vida fica insossa. E quase sempre é do mesmo jeito: os dias que antecedem uma nova jornada têm uma certa aura de festa. Ou, como num sonho frequente, quase diário, voltam a inspirar-me os destinos da nova partida.
Mal acabáramos de chegar da Jordânia e Istambul – minha preferida, um dos lugares mágicos que estou sempre a repetir, e se todos temos nossos lugares, Istambul é o meu. Em minha cabeça estava fresca a cidade. Fazia um mês em que estivéramos lá, mas também era o tempo que nos separava da próxima viagem: um Overland pelo Quênia e Tanzânia.
Sei lá o que me alimenta essa fome, mas me apraz senti-la e mais saciá-la. Contudo, não vou me alongar – seja no sentido literal ou poético – a explicar a voracidade. É só mesmo uma ligeireza da minha parte contigo, caro leitor, leitora, ao mencionar que uma viagem é sempre um prazer, embora também tudo o que cabe entre elas o seja. Acho que é o que chamam de ‘pragmatismo poético’ essa minha espécie de jeito de ser. Ou, como a própria vida, as coisas vão se tornando tão mais valiosas e intensas quanto menos tempo nos sobra.
Recordo-me de quando eu era jovem e achava que o tempo era infinito, não fosse ele, de fato, tão efêmero quanto agora o percebo. Tudo isso torna tão ambicioso qualquer planinho meu que converte-se numa empolgação contá-lo, provavelmente porque estou a descontar os instantes perdidos na pandemia, com a imposição do isolamento, da solidão, da falta de abraços e de encontros, de viagens e liberdade. Era tão bom ir vivendo as obrigações da vida e estar vivo que nem nos dávamos conta dessa beleza. Mas foram os limões que a vida nos dá. Alguns fizemos limonada com eles.
VAMOS DE JIPE!
Três jipes, doze brasileiros, dezessete dias, 2000 quilômetros, uma expedição de observação ao sabor da natureza selvagem, de filmagem e fotografia a bordo de Toyotas Land Cruiser. Os objetivos, a Grande Migração de animais no Serengeti, as Reservas Maasai Mara, a Cratera de Ngorongoro, as reservas de Samburu e Buffalo, o Lake Naivasha e o Lake Nakuru, além dos povos Maasai e Samburu, acompanhados pelo guia e fotógrafo Marcio Lisa – e com nada de melhor poderíamos contar! – durante toda a viagem que começará e terminará em Nairobi, Capital do Quênia. E como a perfeição é a meta, além disso estarei com minha querida, animada, perfeita companheira de aventuras e de vida.
Embora hoje os safaris sejam coisa sem vestígios do charme de Hatari ou de Robert Redford com Meryl Streep, em Out of África, ainda são muito, muito atraentes, surpreendentes, cativantes e encantadores. Paga-se uma boa grana, é verdade, para participar de uma odisseia turística-comercial com um grupo de gente bacana, um pessoal que gosta de bichos e se reúne por horas num jipe, seus cárceres privados por quinze dias. E nem sempre para ver todos os animais que esperava. E, certamente, em alguns locais, mais jipes do que leões, leopardos e chitas. Além do fato de que em algumas dormem-se umas noites em barracas de lona montadas no meio da savana, às vezes com banho externo em chuveiro-balde, cuja água fumegante fora aquecida numa fogueira, contudo em banheiros adequados às mínimas necessidades e tudo muitas vezes iluminados por luzes de parafina, porque não pense que eletricidade há por ali em todo canto. Ao menos não as que chegam por fios.
Eu aceito o que cada viagem me dá, porque são planejadas e conferidas. Aceitar é o que nos torna bons viajantes, afinal. Alguém já disse que apreciar é viver. Mas comparado à “simplicidade” mencionada acima, essa, ao contrário, terá fartura de conforto, de segurança, prazeres, boas surpresas e descobertas. Resumindo, ainda que planejada, terá tudo para ser uma “caixinha de surpresas”.
Não teremos com o que nos preocupar. Os animais não nos caçam, por exemplo. Se a gente não se aventurar para fora do jipe, está bem claro. Para eles somos uma pacata, inofensiva intrusão em bestas de lata verdes ou beges. Contudo, são selvagens. E quase sempre famintos. E nós, vulneráveis, provavelmente saborosos. Então, não esperam que demos sopa na aspereza das savanas. Por ali caçam-nos os homens. Se bem me entendem, os Masai. Vendem pelo triplo do preço seus badulaques. Dizem que mesmo assim valem a pena.
Na cabeçaa expectativa que uma viagem não faz caber. Na mala, toda a roupa de safari que ela consegue. Em caquis, cinzas, beijes, brancos e neutros. Mesmo que não haja um código de vestimenta, é sábio misturar-se com o ambiente. Então, cores bege, marrom e verde-oliva são práticas. E as roupas “respiráveis”, confortáveis, fortes e laváveis. Cores brilhantes devem ser evitadas, pois tornam o observador um destaque na vida selvagem. As escuras, como azul e preto, tendem a atrair insetos, sobretudo moscas tsé-tsé. Levo também uma respeitável farmacinha para eventualidades nada eventuais. E meus troços de filmar e fotografar. E já que viemos, vamos com tudo: binóculos, lanternas, baterias extras, cabos, adaptadores, cartões de memória…
Todo o roteiro será por destinos inéditos para mim, e embora fundamentalmente para avistar bichos, também para conhecer uma quantidade embaraçosa de outras riquezas na forma de paisagens surpreendentemente variadas, para encontrar gente encantadora e interagir (dentro do possível) com suas culturas, entre elas as de duas diferentes etnias, os Samburu – no Quênia – e os Maasai, na Tanzânia.